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Ética Aplicada – Psicologia

Estávamos em 1938 quando uma das primeiras e, certamente há época a mais relevante Associação de Psicologia do Mundo, criou uma Comissão Temporária de Ética Científica e Profissional. Falo da American Psychological Association que 14 anos mais tarde, em 4 de Setembro de 1952, aprovaria no seu Conselho de Representantes os “Princípios Éticos dos Psicólogos”, ainda hoje um importantíssimo documento histórico e de referência. Curiosamente, esta aprovação aconteceu num 4 de Setembro, dia da criação em 2008 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (116 anos depois da APA), hoje Dia Nacional do Psicólogo em Portugal.

Apesar destes anos de diferença e do desenvolvimento tardio da psicologia em Portugal, particularmente quando comparado com outros países, as questões éticas e deontológicas foram sempre, são e, creio, serão centrais na afirmação e desenvolvimento da psicologia em Portugal e na relevância do contributo que pode conferir às pessoas e à sociedade. Também por isso, e pela visão e compromisso de muitas e muitos colegas, desde muito cedo que cartas de princípios e documentos diversos em torno da ética e da deontologia foram desenvolvidos em Portugal e estruturam o ensino e formação neste âmbito, até à publicação, já em 2011, da primeira versão do Código Deontológico pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, “um poderoso instrumento para o exercício da Psicologia”, conforme Telmo Mourinho Baptista, então Bastonário, escreveu nas suas primeiras linhas.

Daí para cá creio que todas e todos reconhecemos o caminho percorrido e o cada vez mais significativo e comprometido contributo da psicologia, enquanto ciência, e das psicólogas e psicólogos no nosso país. Esse contributo, decorre, também, da forte estruturação da profissão, do investimento em padrões éticos e deontológicos sólidos e em processos de desenvolvimento profissional contínuo, capazes de possibilitar respostas baseadas em valores e na melhor evidência científica disponível, para os diferentes desafios, dos mais simples aos mais complexos, dos antigos aos novos que com cada vez mais rapidez surgem.

Hoje trago mais um contributo neste percurso e, com ele, faço-vos um convite. Trago a obra “Ética Aplicada – Psicologia”, coordenada pela Maria do Céu Patrão Neves e pelo Miguel Ricou e editada pela Edições 70, que reúne um conjunto reflexões-capítulos, sobretudo de psicólogas/os, sobre os cruzamentos e alinhamentos entre a Ética e a Psicologia, um deles por mim escrito (“A psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções”).

O convite é que se juntem à sessão de apresentação que acontecerá amanhã na Livraria Almedina (Rato, Lisboa) e assistam à sessão em torno da “Psicologia e dos Direitos Humanos” com a participação da Ana Ribas, da Margarida Gaspar de Matos e moderação do Miguel Ricou. Apesar de ser a não perder, com muita pena minha, mas por um bom motivo, eu não me poderei juntar. Juntar-me-ei, porém, a uma próxima que brevemente será anunciada e que acontecerá no Porto.

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Relaciono-me, logo existo

Ontem comemorei o aniversário de um “primeiro dia do resto da tua vida” e, conforme a letra da música do Sérgio Godinho com este título, veio-me “à memória uma frase batida”: as relações são, mesmo, o mais importante da nossa vida. Deixo, a este propósito, duas sugestões de início de semana:

a) Um artigo, curiosa e simbolicamente (para mim) ontem publicado no The New York Times, da colega Darby Saxbe em torno da forma como a paternidade transforma o cérebro e o corpo dos homens, dotando-os de ferramentas neurobiológicas para a parentalidade (ferramentas, geralmente, “atribuídas” às mães) que impactam a relação pais-filhas/os e comportam desafios, nomeadamente nas dimensões da saúde, sobretudo mental, e bem-estar: “Dad Brain Is Real, and It’s a Good Thing” | https://www.nytimes.com/2024/06/16/opinion/dad-brain-fatherhood-parenting.html

b) Uma conversa que tive com o Rui Marques, referência maior na área da relação entre pessoas e povos, para um podcast de um projecto que coordena – Relational Lab. O podcast chama-se “Relaciono-me, logo existo” e no episódio falamos, naturalmente, sobre relações em diversos contextos, sobre e relação em diversos momentos da minha actividade profissional e em processos de tomada de decisão.

Falamos sobre como as redes sociais impactam as relações, mas imaginando como o controlo do “fogo”, há muitos milhares de anos, também impactou. De velocidade da mudança, hoje, da incerteza, do paradoxo da escolha, da individualidade e da perda de alguns referenciais comunitários e valores partilhados, nas últimas décadas. Falamos de aceitação, de partilha, mas, também, de desinformação, da propagação de mensagens de ódio e de polarização e tribalização.

Falamos de tempo. De como caminhar “de uma cultura da felicidade para uma cultura de bem-estar”, título do episódio, e de como isso pode contribuir para a qualidade relacional. Falamos da pandemia por COVID-19, das manifestações incríveis de cooperação e colaboração, particularmente na sua primeira fase e “pré-fadigas diversas”, e do ajustamento, necessidade de recuperação das perdas e reparação. Falamos de educação e do quão cada vez mais central será a relação nela e do caminho que Portugal tem percorrido. Falamos de capital relacional, da resiliência individual e comunitária, da necessidade de combater a pobreza e a crise climática e promover equidade e agência, tendo em vista mais e melhor participação. Falamos de psicologia, da sua história em Portugal e do seu potencial contributo, particularmente se em conjunto com outras áreas do saber e profissionais. Do meu “optimismo” e de como o situo na história e no que nos rodeia.

No fundo pensamos “o que temos, ao mesmo tempo, de mais bonito, mas também de mais complexo nas nossas vidas: as relações”, conforme comecei.

“E é então que amigos nos oferecem leito; entra-se cansado e sai-se refeito”, diz também a letra da canção. Assim foi. Obrigado Rui. Pelo convite e confiança. Pelo projecto.

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Dia Mundial do Ambiente

9 em cada 10 Portuguesas/es entende a crise climática que vivemos como um problema muito sério para o Mundo. Foi este o enquadramento da produção do “Bom dia Portugal” (RTP) para a conversa que partilho, no Dia Mundial do Ambiente (5.6).

Mais, 1 em cada 5 entende mesmo que as alterações climáticas são o mais grave problema societal que enfrentamos, dados de um trabalho da Comissão Europeia que posicionam Portugal como um dos países da UE onde a preocupação é mais significativa.

Na entrevista começo por referir que os dados não serão alheios ao facto de uma grande percentagem de população viver na faixa litoral e ao impacto das alterações climáticas (aumento da temperatura, seca, etc.) têm em actividades económicas importantes para o país como a agricultura, as pescas ou o turismo. Não são também alheios às situações de catástrofe como inundações e, particularmente, aos incêndios rurais que, em conjunto, são factores de preocupação das pessoas com impacto na sua saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Continuo referindo que, além das perdas e da necessidade de adaptação, há também sentimentos de desesperança relativamente ao futuro – estamos a ficar sem algo e sentimo-nos impotentes para travar essa perda – que, por vezes, se manifestam em problemas comportamentais e de saúde mental, nomeadamente ansiedade (especialmente na população mais jovem), depressão e stresse, incluindo pós-traumático.

Procuro, também e sugerindo a leitura do documento “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (link abaixo), reforçar que a psicologia, enquanto ciência que estuda o comportamento e os processos de tomada de decisão, pode assumir um importante contributo:

  1. a) na compreensão do comportamento humano e no desenho de intervenções comportamentais e políticas públicas eficazes na mudança de comportamento e combate às alterações climáticas;
  2. b) na adaptação da população, nomeadamente na forma como se pode capacitar e promover competências e resiliência individual e comunitária face às alterações climáticas;
  3. c) na mitigação dos problemas com intervenção psicológica junto da população com problemas de saúde mental.

Termino reforçando o papel da agência nos desafios que atrás refiro. Sentirmos que estamos a fazer algo, a dar o nosso contributo, é, além de promotor da mudança individual e colectiva, um elemento protector da nossa saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Juntas e juntos, enquanto seres humanos e na relação com o ecossistema, enfrentamos já desafios muito significativos. Não deixemos de falar sobre a crise climática, no Dia Mundial do Ambiente e em todos os restantes dias do ano. Em casa. Na nossa comunidade. Façamos algo, por nós, pelas e pelos nossos, por quem se nos seguirá. Para que ultrapassemos mais este desafio.

Documento OPP – “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos”

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Eleições 04.06

A semana que agora começa tem duas eleições para quem é psicóloga e psicólogo em Portugal e não votou antecipadamente ontem: as eleições Europeias no Domingo; as eleições para o Conselho de Supervisão da Ordem dos Psicólogos Portugueses já amanhã, dia 4.6.

Numa e noutra o nosso voto, a nossa voz, a nossa participação é, além de um direito, que importa também respeitar pelo seu exercido, uma responsabilidade, porquanto são eleições fundamentais no presente e para o futuro da Europa (e do Mundo), do país e para a psicologia enquanto profissão e seu contributo.

As de amanhã, com especificidades. Desde logo a facilidade de participação, considerando a possibilidade de votação num horário longo (até às 20h), através de qualquer dispositivo móvel (telemóvel, tablet ou pc), a partir de qualquer lugar e das informações que as/os eleitoras/es recebemos.

As de amanhã, elegendo 4 pessoas para um mandato curto (cerca de 6 meses, até pouco depois das eleições gerais do final do ano) mas determinante desse novo órgão da Ordem. Dois membros da OPP e dois não membros da OPP (em pares), através do método de Hondt, algo que, com apenas duas listas candidatas, faz do seu voto, de cada voto, ainda mais significativo e decisivo.

As de amanhã, onde se confrontam duas visões para o Conselho de Supervisão, para a sua constituição, para o cumprimento das suas atribuições e para a coesão dos diversos órgãos da OPP e da sua missão, conforme aqui procurei reflectir.

As de amanhã onde, infelizmente, não tivemos (pelo menos ainda, até à hora em que escrevo) oportunidade de aceder às motivações, compromisso e projecto das/os candidatas/os de uma das listas na primeira pessoa, algo importante num órgão de “eleição pessoal”. Aqui partilho o vídeo de apresentação das/os candidatas/os da Lista B – Mobilizar os Psicólogos e aqui o documento de apresentação da sua candidatura.

Não deixe de participar nestas eleições. Não deixe de contribuir, de forma informada, para este importante processo da sua Ordem. Use do seu voto. Defenda e promova a profissão em benefício de mais e melhores serviços de psicologia nas mais diversas áreas de actividade e de mais e melhor acesso aos mesmos pelas pessoas. Defenda e promova a profissão em benefício de um maior contributo da ciência e prática psicológica para a sociedade.

Amanhã com alegria e determinação voto Lista B – Mobilizar os Psicólogos. Pela clareza da visão da equipa candidata e do seu compromisso com a Ordem. Gostava de o fazer consigo e com outras e outros colegas comprometidos com esta ideia e projecto. Amanhã vote e mobilize colegas para votar. Por si. Por todas e todos.

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Eleições Conselho de Supervisão OPP (04.06.2024)

Nada sobre nós sem nós! Este título de um livro que trata o empoderamento e participação das pessoas com deficiência, é hoje mensagem forte nos movimentos em torno da defesa dos direitos humanos. É, também, a mensagem que vos trago a propósito das Eleições para o Conselho de Supervisão da Ordem dos Psicólogos Portugueses da próxima 3ª feira, 4 de Junho. Trago-a em 2 dimensões:

 

1. Para partilhar convosco 4 ideias a propósito da lista que apoio e que julgo melhor poder cumprir, com conhecimento, isenção e responsabilidade, as competências deste novo órgão – Lista B | Mobilizar os Psicólogos:

 

a) Dois regulamentos estruturantes da OPP, aprovados em Assembleia de Representantes, aguardam a tomada de posse do órgão para serem por ele analisados – Especialidades e Estágios. Houve cuidado e intencionalidade de constituir a lista com 4 psicólogas/os que incluem colegas especialistas, mas, também (e creio relevante), colegas que realizaram o ano profissional júnior (estágio profissional), conhecendo e vivenciando esta etapa, factor importante ao contributo que poderão aportar;

 

b) Isto determina que, além de pessoas com mais experiência profissional, a lista contenha jovens profissionais, algo fundamental numa profissão jovem e com legado e num órgão que tem também como missão acompanhar o processo de integração na profissão, a formação e o estágio profissional. Mais, construiu-se uma lista com paridade de género, diversidade de contextos de actividade profissional, não com tendência exclusivamente académica e com pessoas de diferentes regiões do país, incluindo regiões autónomas;

 

c) No que se refere às/aos candidatas/os não membros da OPP, por princípio, não se incluíram profissionais que pela formação/actividade poderiam (se o desejassem) ser membros da OPP. Mais, procuraram-se profissionais com diversas formações mas, necessariamente, confortáveis com as principiais posições estratégicas que têm sido defendidas pela OPP, do referencial para a intervenção em contexto escolar, à prática da psicoterapia passando pela defesa da figura da/o psicóloga/o do trabalho nas organizações.

 

d) Constituir uma lista com uma visão coesa sobre o órgão e missão a que se propõe. Podem vê-lo no vídeo de apresentação das/os candidatas/os – https://www.youtube.com/live/ewsoCeaEkUg?si=UzA3eLJajClBNh1N.

 

Obrigado pela disponibilidade e coragem Teresa Jesus, Nuno Antunes, Ana Nascimento Sabino, António Fragoso, David Guedes, Carolina Garraio, Teresa Maneca Lima e Eduardo Fermé. Obrigado Miguel Ricou, seu (meu também e nosso em 2016) Mandatário, por continuares este caminho e propósito.

 

2. Não deixe que estas Eleições aconteçam sem a sua participação. Sem a sua voz. Vote e motive e mobilize colegas a votarem.

 

Eu, dia 4, voto alegre e convictamente Lista B | Mobilizar os Psicólogos. Pelos princípios e valores que defendo, que defendo para a Ordem. Para a afirmação e desenvolvimento da profissão e do seu, cada vez mais necessário e relevante, contributo para a sociedade.

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VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses | XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Faltam agora 4 meses para muitas e muitos de nós, espero, nos reunirmos e encontrarmos no VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses que, em virtude da presidência da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) pelo Bastonário da OPP (Francisco Miranda Rodrigues) decorrerá em simultâneo com o XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Conforme há 10 anos, quando em 2014 se organizou o II Congresso da OPP em simultâneo com o IX Congresso Ibero-Americano, regressamos a Lisboa e ao Centro Cultural de Belém, depois de Congressos da OPP no Porto (2016), Braga (2018) e Aveiro (2022).

Foi exactamente no CCB e, mais especificamente, no caminho José Saramago – personalidade que procurou, também, pensar e discutir uma “sociedade ibero-americana” – que gravei o “vídeo convite” para o Congresso, cujo link abaixo partilho.

Um Congresso que, na linha dos anteriores, se propõe a uma discussão e debate interdisciplinar dos contributos e da colaboração potencial da ciência e da prática psicológica na resposta às necessidades e anseios das pessoas (nos seus mais diversos contextos, circunstâncias e acontecimentos de vida) e comunidades e aos principais desafios societais.

Um congresso que contou com cerca de 700 submissões já analisadas num enorme e extraordinário trabalho de uma comissão científica superiormente presidida pela Isabel Soares e que tem uma call específica associada ainda aberta (ver link abaixo) para submissões para a revista científica da OPP. Um congresso que conta com um espaço específico de apresentação para as e os mais jovens – Espaço Jovem. Um congresso que procura uma nova e reforçada experiência de relação com o espaço, com outras/os congressistas nacionais e internacionais, com expositores e com patrocinadores. Um congresso, finalmente, que potencia a colaboração com um conjunto de entidades, incluindo a American Psychological Association, num evento colaborativo dentro do próprio congresso sobre novas tecnologias, inteligência artificial, contributos da psicologia e potenciais desafios e impactos na sociedade.

Com cerca de dois terços dos bilhetes presenciais já vendidos, nos próximos dias começaremos a conhecer o programa que, creio, estimulante e um contributo importante para pensar a psicologia em Portugal e no espaço Ibero-Americano.

Quando a 26.09.2010 caminho José Saramago foi inaugurado pela sua filha, ela disse sentir pena por “ele não estar aqui [lá] para ver”. No 2º dia do Congresso passarão 14 anos dessa dia e espero que esteja lá para ver. Para ver e contribuir para se construir um grande Congresso e, com ele, um importante contributo para a sociedade.

Link Congresso

Link Call Revista

Link Vídeo

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Violência nas Escolas

Por estes dias, embora não pelos melhores motivos e até sem o melhor e, porventura, mais factual, enquadramento, discutiu-se a temática das práticas agressivas e da violência na Escola. Algo que, por si, tem já um enorme valor pela importância que tem para a prevenção e mitigação destes fenómenos a afirmação cabal da não complacência das Escolas e da sociedade com estas situações e o sublinhar da não inevitabilidade das mesmas.

Na passada quinta-feira, a @Antena 1 dedicou mesmo o seu programa Antena Aberta a este tema e, tendo tido oportunidade de nele participar (contributo que abaixo partilho), procurei:

 

a) Sublinhar o que atrás refiro notando, também, que a violência em contexto escolar, aliás como a doméstica, não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas, dando-lhes uma atenção mais signficativa face a aspectos mais positivos e/ou antigos), procurando rebater uma ideia que havia sido levantada numa intervenção anterior que procurava defender que há 4 ou 5 décadas não existia violência no namoro e na Escola como hoje, infelizmente, existe;

b ) A necessidade de progressivamente se caminhar para uma alteração na forma como a sociedade olha, pena e classifica a Escola e a sua actuação. “Além do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), a escola tem de preparar as crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a abertura ao outro e para a empatia”, e isso é um trabalho das Escolas que tem que ser reconhecido, contribuindo esse reconhecimento para maior envolvimento das Escolas na resposta, na ctuação e na prevenção dos fenómenos de violência;

c) Também o quão fundamental é, para a prevenção destas situações, a forma como a Escola pode (deve) contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;

d) Ainda, que a Escola é hoje, felizmente e ao contrário de outros momentos históricos, para todas e todos, algo que necessariamente comporta desafios pela menor motivação de envolvimento de alguns/algumas estudantes ou pela necessidade de espaços e práticas mais inclusivas, dando apenas dois exemplos.

Finalmente, algo que acabei por não poder referir, mas cuja importância creio relevante. A par de docentes e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, devemos intencionalizar a participação e o papel do pessoal não docente nestas matérias. Mas, para isso, temos também e enquanto sociedade, de valorizar mais e mais esta função e papel – a todos os níveis – e, particularmente, empoderar estas pessoas para um complemento a cada dia mais essencial numa Escola em profunda transformação.

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Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

Link para o programa:

Parte I

Parte 2

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Uma (só) Saúde (Ao redor…; 09.04.2024)

Na passada semana tomou posse o XXIV Governo Constitucional em Portugal. Como porventura aconteceria em qualquer outro lugar do Mundo onde exista e funcione uma Democracia, este acontecimento suscitou um conjunto de debates e discussões em torno da composição e da organização do Governo. Um deles, o facto dos anteriores Ministério da Educação e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do XVIII Governo Constitucional resultarem num único Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do que isso pode ou não representar e significar para a visão política sobre a Educação, mesmo num país onde as Creches e, portanto, a Educação dos 0-3 anos permanecem, ainda, com um “pé fora” do sistema educativo e fora da área da Educação na organização governativa. Uma Educação?

Já na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates e discussões, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo. Ao contrário de outros países na Europa onde o Ministério não é, exclusivamente, da Saúde e se associa a outras áreas, particularmente a solidariedade, a segurança e os assuntos sociais ou os cuidados (informais), há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as próprias competências do Ministério historicamente se alterem e indiciem a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?

Em rigor, talvez com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas, a verdade é que temos um caminho percorrido desde um modelo normalmente definido como “biomédico”, essencialmente centrado nas dimensões biológicas dos Seres Humanos e nas suas patologias e que tendia a desconsiderar ou relativizar os factores sociais, ambientais e psicológicos que influenciam decisivamente a saúde. Este modelo, embora com a discrepância que atrás assinalo, foi sendo substituído nas últimas décadas por um modelo habitualmente referenciado como “biopsicossocial” que, ao adoptar uma visão mais ampla da saúde, reconhece a relação complexa e a influência mútua de factores biológicos, sociais e psicológicos na saúde considerando, nesse sentido, questões como as dimensões comportamentais, emocionais ou, noutro prisma, as práticas culturais e condições sócio-económicas das pessoas e comunidades. Já nos últimos anos temos assistido a um aprofundamento desta visão, tendente à inclusão da saúde dos restantes animais e ao cuidado e integridade com o meio ambiente e os ecossistemas como outros aspectos fundamentais à saúde, uma abordagem mais integrativa e conhecida por “uma (só) saúde” [“one health”] que reforça, entre outros aspectos, a consideração da qualidade da água, dos alimentos ou a proteção e resposta das comunidades e sistemas face, por exemplos, a catástrofes “naturais” ou a doenças infecciosas.

Caminhamos, dizia, de modelos em que a saúde era entendida quase apenas como a ausência de doença para abordagens mais complexas da saúde e do bem-estar, focadas numa compreensão mais integrativa e sustentável da pessoa, das comunidades e do ambiente. Neste caminho assistimos também a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e a desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade dos ecossistemas, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação, o desenvolvimento de novas abordagens e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.

Esta transformação progressiva foi também assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano, comemorado no último Domingo, cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”], advogando pelo direito de todas as pessoas, em qualquer lugar do Mundo e circunstância, a acederem a “serviços de saúde de qualidade, a educação e informação, bem como a água potável e segura, a ar limpo, a uma boa nutrição, a habitação de qualidade, a boas condições de trabalho e ambientais e a liberdade e não-discriminação”. Direito(s) em Portugal protegido(s) pela Constituição e Direito a uma saúde de qualidade que depende do envolvimento de todas e todos, individual e colectivamente, cívica e politicamente, para o seu cumprimento.

Foi, também, com esse espírito de missão e de compromisso que, a partir da abordagem “One Health”, neste exacto Dia Mundial da Saúde de 2024, o conjunto das nove Ordens da Saúde (Biólogos, Enfermeiros, Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Médicos, Médicos Dentistas, Médicos Veterinários, Nutricionistas e Psicólogos) apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal.

Contributo que assente num processo de colaboração e construção conjunta pretende dar um sinal da disponibilidade das Ordens Profissionais da Saúde e da importância da colaboração de todas as entidades neste grande objectivo de melhorar o acesso, a qualidade no acesso aos serviços de saúde e a saúde da população, aspectos fundamentais à qualidade de vida e bem-estar e à sustentabilidade, desenvolvimento e prosperidade do país. O documento sublinha a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; promover a literacia em saúde, incluindo saúde animal; reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental e desenvolver a área da saúde animal; investir em inovação, investigação, desenvolvimento e tecnologia; e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à complexidade dos desafios que vivemos só poderão corresponder abordagens também elas complexas, determinadas, comprometidas e com suporte interdisciplinar e multiprofissionais. Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.

 

Tiago Pereira

Uma (só) Saúde

in Sábado (Ao redor…); 09.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uma-so-saude

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Uma (só) Saúde

Ao contrário do que aconteceu com a Educação, “na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo (…) Há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as suas próprias competências se vão alterando e indiciando a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?”

“Uma (só) Saúde”?, 80º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre como, “com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas”, caminhamos do modelo biomédico para o modelo biopsicossocial (explicitando-os) e o aprofundamos, acrescentando progressivamente às dimensões sociais e psicológicas, a saúde dos restantes animais e o cuidado e integridade com o meio ambiente e ecossistemas, numa abordagem integrativa conhecida por “uma (só) saúde” [“One health”].

“Neste caminho assistimos a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação e desenvolvimento e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.”

“Esta transformação progressiva foi assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”] (…) Dia em que, a partir da abordagem “One health”, o conjunto das nove Ordens da Saúde apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal, sublinhando a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do SNS, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; (…) reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental (…) e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.”

“Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.”