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Direito a Confiar

Invistamos… “Como um mineral precioso do tempo que vivemos, que (ainda) temos em Portugal e que escasseia e está em risco Mundo fora. Como um recurso que, porque base para parte significativa das concretizações que podem contribuir para mitigar e resolver problemas das pessoas, das organizações e das sociedades, pode ser diferenciador das nossas organizações e do nosso país, valorizando-as e valorizando-o hoje e para o futuro.”

Invistamos… “A partir das organizações enquanto estímulo e exemplo para o país e a partir de Portugal enquanto estímulo e exemplo para o Mundo. Para o Mundo e por um Mundo que continue a evoluir e a garantir maior possibilidade de bem-estar, de equidade e de paz para todas e todos.”

Invistamos… Na confiança. No direito a confiar. Preservemo-los, como recurso do país.

A convite da Rita Saldanha, a quem volto a agradecer a confiança, propus-me pensar, a partir da “Palavra do Ano de 2021 – Vacina”, sobre a confiança em artigo de opinião para a Líder – Ideias que fazem futuro. Artigo que intitulei de “Direito a Confiar” por oposição a uma ideia do “confiar” como dever, em si.

No artigo que agora partilho, parto do papel que a “capacidade de relação, de abstracção e de envolvimento em torno de ideias não claramente tangíveis como a amizade, o amor, o passado e o futuro ou a ideia de comunidade nos permitiram num caminho de evolução”, desde à centenas de milénios com as primeiras e primeiros homo sapiens à sociedade como hoje a conhecemos, com o que de bom e de menos bom tem. Como, tudo, “ciência, cultura, direitos humanos, futuro assenta nessa nossa capacidade de nos relacionarmos (e na capacidade sucessiva que temos de empatizar com outras e outros) e de abstração (e na capacidade sucessiva que temos de confiar)” e como são a empatia e a confiança “fundamentais à adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais (…) garantes em período de crise e pilares da coesão social” e base, por exemplo, de processos complexos que respondem às necessidades das pessoas e das sociedades, como é exemplo o processo de vacinação contra a COVID-19 em Portugal.

Um recurso precioso… que “implica que métricas que procurem aferir valor e produtividade de organizações incluam a necessidade de avaliar e validar a “abstracção” confiança como garante de capacidade de resposta a problemas e desafios e como factor diferenciador e protector no presente e de futuro”.

Um recurso precioso… que implica, também, que “a cultura organizacional verdadeiramente assuma a confiança como valor maior a defender, estimular e disseminar, não apenas, mas também, a partir das suas lideranças”.

Um recurso precioso… que entenda “a confiança como um direito (de todas e todos) e não como dever (de alguns e algumas)”.

Um recurso precioso… essencial ao desenvolvimento de outros [além do dinheiro] poderosos “sistemas pluralistas de confiança mútua” como a ciência, a democracia, os direitos humanos e até a paz.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder) (Ao redor…; Sábado; 11.01.2022)

Debater, destruir (adversárias/os), ganhar. A narrativa dominante à preparação e à análise ao debate é hoje – porque condicionada e como resposta às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais – particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (a raiva, o ódio, por vezes o medo) e assente na forma como se pode e se se conseguiu destruir as ideias, propostas e, por vezes, a pessoa ou pessoas com quem se debate. É, portanto, particularmente baseada em quatro características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

Próximo da década de 60 do século passado, Lawrence Kohlberg desenvolveu uma das mais relevantes, discutida e, portanto, criticada teoria do desenvolvimento moral com um forte contributo de um conjunto significativo de análises de respostas ao dilema de Heinz. Dilema que explora a forma como pessoas, como cada um/a de nós, justificam e racionalizam as suas acções com base na moralidade a partir da situação que aqui resumo: “Deveria ou não ter Heinz assaltado um laboratório farmacêutico, como fez, para roubar o único medicamento que poderia salvar a sua esposa da morte, por não ter reunido dinheiro suficiente para o comprar por fortemente inflacionado o seu preço?”  A resposta a este dilema e a um conjunto de perguntas a ele associadas (por exemplo, “E se não amasse a sua esposa?” ou “E se fora para uma pessoa sua desconhecida?”) e, particularmente a justificação dada para a acção, permite sustentar os três níveis base de moral da teoria – pré-convencional, orientado para a punição, obediência ou interesse próprio; convencional, orientado para acordos interpessoais, para a conformidade e para a manutenção da ordem social; pós-convencional, orientado para o contrato social e para os princípios éticos e de direitos universais.

No momento particular que vivemos, creio interessante pensarmos numa questão também dilemática relacionada com eleições e candidatas/os (chamemos-lhe o dilema da Democracia): “Imagine que ganhava umas eleições democráticas e justas, mas que sabia que governando, nas condições que teria, enfraqueceria a democracia e esta poderia ser a curto/médio prazo colocada em risco. Governaria ou abdicaria?”. Pensemos esta questão e – porque evidentemente a resposta ao dilema não é simples nem generalizável a diferentes tempos, enquadramentos ou contextos – mais do que as potenciais respostas de quem lhe responderia, as justificações e racionalizações que poderiam ser dadas por quem lhe respondesse. Pensemos nela, se quisermos, não no contexto português, onde os riscos para a democracia estão por enquanto mais mitigados, mas no contexto da França, dos Estados Unidos da América ou da Hungria.

Defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer. Implica, por exemplo, utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir. Sucessivamente implica que se possa ganhar, construindo e não apenas destruindo o que, por sua vez, implica que mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais e comunitários) não nos deem, também nas questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.

Debater, construindo, implica que questões complexas como são as dilemáticas atrás colocadas, mas, particularmente, desafios societais como a pobreza, a desigualdade, as migrações, a crise climática ou a(s) justiça(s) não vivam de inadequadas simplificações, excessivas generalizações e de “medos” e certezas absolutas, promotoras de demagogia e de populismos destrutivos.

Debater, construindo, implica prevenir que recuemos 2500 anos à “guerra entre os opostos” que, segundo Heraclito, filósofo considerado o “pai da dialética”, dava sentido à realidade. Implica que a afirmação de ideias e de propostas não viva exclusivamente da oposição a outras ideias e da criação de antagonismos face a outras pessoas, partindo de verdades absolutas que polarizam e que, como Lerner afirma, são imediatamente contrariadas por outras verdades absolutas, igualmente polarizadoras.

Debater, construindo, implica, por outro lado, recuar 115 anos e ter presente a frase que Evelyn Beatrice Hall (como S. G. Tallentyre) escreveu na biografia que publicou de Voltaire: “Desaprovo o que dizeis, mas defenderei até a morte o seu direito a dizê-lo.” Que existam adversárias e adversários e não inimigas ou inimigos, não tribalizando, preservando o espaço comum de entendimento que representa a democracia.

Debater, construindo, implica, finalmente, prevenir o encerramento e a “autopolinização” exclusiva em prol da “polinização cruzada”. Implica promover espaços de diálogo, compromisso, partilha e crescimento, conjunto.

Para tal, é fundamental considerar a importância do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes). Da capacidade de se avançar de um “ou” para um “e” e de um “deveria” para um “poderá”, também transformando narrativas individuais e societais sobre decisores e decisoras. De se ser proactivo, de se procurar baixar as tensões, encontrar espaços de entendimento, estabelecer objectivos realistas e concretizáveis e de se melhorar a comunicação, escuta activa e o feedback de todos e todas as intervenientes. Tudo isto não se prepara, apenas, no momento imediatamente anterior ao debate. Desenvolve-se ao longo de toda a vida. Desde logo garantindo a mães, pais, cuidadoras e cuidadores oportunidades (competências, quando necessitário) de relação, cuidado e de acompanhamento de menores, desde a primeira hora. Depois nos contextos de educação, formal e não formal, e no processo contínuo de desenvolvimento de competências sócio-emocionais e relacionais e de construção de valores de cidadania das crianças e jovens. Finalmente, promovendo nas e nos jovens e adultos a abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro.

Debater, assim, é ganhar. O debate, a democracia. Confiança e futuro. Quem debate, assim, garante-nos a empatia necessária à compreensão e inclusão das e dos outros, a humildade necessária para reflectir e construir com outras ou outros, a capacidade de reconhecimento de quem não dispõe de todas as respostas para todos os problemas e que procurará, de acordo com a informação, evidência e recursos disponíveis, as melhores e mais personalizadas soluções para cada um dos problemas. Garante-nos integridade, ética, consistência, motivação para a cooperação e uma certa abnegação tendente à consideração do futuro e não apenas do tempo imediato e à defesa dos direitos universais e do contrato social se sobrepor à sua dimensão individual e/ou pertença partidária ou comunitária. Garante-nos bons e boas fazedoras de políticas públicas e nossas e nossos representantes numa democracia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade. A democracia vive da diversidade e da pluralidade e a consideração de adversárias como inimigas ou a destruição de adversários conduz ao empobrecimento e destruição da democracia e do espaço comum de construção destas soluções. Por isso, particularmente no momento que vivemos, é fundamental promover a crítica construtiva e a possibilidade de debater, construindo (ao invés de destruindo) e, ainda assim, ganhando (ao invés de perder). Tal depende, é certo, de quem prepara os debates, debate e comenta. Tal depende porém, também, de todas e todos e da valorização que fazemos deste importante instrumento democrático e do investimento que fazemos no desenvolvimento das pessoas para que possamos ter um futuro com mais construção, mais soluções, mais confiança e mais democracia.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/debater-construir-nao-destruir-ganhar-nao-perder

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COVID-19 Desafios da Psicologia

17.000km

Tonga é um dos países do planeta mais distantes de Portugal. Partilha com Samoa e com as ilhas Phoenix (Kiribati) o fuso horário GMT+13 que fez deles dos primeiros países do Mundo a chegar a 2022 (às nossas 11h da manhã de 31.12). Apesar disso, a erupção do vulcão Hunga no arquipélago e o tsunami que se lhe seguiu, além de significativos danos nas suas diversas ilhas, foi sentido a mais de 17.000 km de distância e 18h depois, na costa portuguesa. Tsunami que impactou mais o país, sentindo-se no Mundo. Um vírus que impactou mais o Mundo, sentindo-se no país (Tonga teve desde o início da pandemia apenas 1 caso confirmado de COVID-19 na sua população o que, ainda assim, levou a um “confinamento” da sua maior ilha). Fenómenos que nas suas causas, na sua imprevisibilidade e nas suas consequências nos lembram como o Mundo se faz de dependências. DE dependências muito sensíveis. Senão vejamos…

Recuemos dois anos. A 18.01.2020 o epidemiologista Neil Fergunson dizia que a sua preocupação relativa ao “novo vírus” estava a crescer e que era bastante improvável que os apenas 60 casos confirmados na China à data pudessem gerar 3 casos que se haviam confirmado fora da China. Já J. Farrar assumia que existindo ainda incerteza sobre o vírus e lacunas na informação, era já certa a existência de algum nível de “transmissão de pessoa para pessoa”.

Recuemos um ano. A 18.01.2021, António Costa, no final de um conselho de ministros extraordinário que aprovou novas medidas restritivas (apenas 5 dias após outras medidas), assumiu que estávamos “a viver o momento mais grave da pandemia” (167 mortes; 6702 novas infecções; 5165 pessoas internadas, 664 em unidades de cuidados intensivos por COVID-19 nesse dia). Hoje sabemos que estes números haveriam ainda de crescer para depois descer e para, com a actual variante, apenas as novas infecções ultrapassarem estes números.

Dois anos muito desafiantes, muito duros. Mas serão apenas dois os anos? Umas das diferenças da pandemia COVID-19 face a (outras) catástrofes prende-se com a incerteza da sua evolução e indefinição temporal. Outra com a generalização e globalização das suas consequências, nomeadamente pela alteração de comportamentos e rotinas (sociais) e dificuldades ou problemas de saúde mental no curto, médio e de longo prazo.

Tal qual nos lembram as (já pequenas) ondas que chegaram à nossa costa, é fundamental, para melhor enfrentarmos as (ainda) incertezas e indefinições, reflectirmos e investirmos na promoção na capacidade de controlo e de agenciamento das pessoas, particularmente as mais vulneráveis, apoiando a sua auto-regulação comportamental e emocional. Como é na reparação e reforço do contrato social, fulcral em momentos prolongados de crise(s), direcionando-o à possibilidade de florescimento e bem-estar de todas e todos, conforme preconiza a carta de Geneva do Bem-estar.

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Resoluções…

Fascina-me pensar o comportamento humano, a sua diversidade (mas também as suas tendências) e os factores que o determinam. Ainda que com reflexão crítica, interessa-me o estudo de (grandes) dados que o permitem e que permitem formular pistas para a sua compreensão, particularmente numa base temporal ou pré/pós-acontecimentos. Uma ferramenta que o possibilita, não sem limitações, é o “Google Trends” utilizado nos estudos de Seth Stephens-Davidowitz (que já aqui abordei) ou do “Behavior Change for Good Initiative”. Três das suas investigadoras, partiram de pesquisas dos termos “dieta”, “visitas ao ginásio” ou “como cumprir objectivos”, observando-os como mais frequentes no início da semana/mês, depois de férias/aniversários e, principalmente, no início de um novo ano, descrevendo o “fresh start effect” e como marcos temporais podem motivar mudanças de comportamento. Sendo assim (assim sentimos), sabemos que parte destas mudanças se perdem (umas nunca concretizadas; outras que, concretizando-se, não conseguimos manter). Ora, de várias estratégias que podemos mobilizar para melhor concretizarmos as mudanças a que aspiramos destaco 2: sermos realistas e “mudarmos” com outras pessoas e não “sós”.

Conforme a psicologia contribui com este conhecimento, é importante que o utilizemos na própria psicologia. Assim, e porque creio realista mas só possível se numa mudança “não só”, aqui partilho a base da minha intervenção na abertura da Psicarreiras On.Summit (OPP; 02.12.2022) focada em como o presente desafia “passados” da psicologia (a dúvida na escolha das áreas das e dos psicólogos na Academia; os limites da intervenção à distância; o foco na intervenção mais micro, individualizada e remediativa face a intervenções mais macro, comunitárias e promotoras/preventivas; o fechamento face à interdisciplinaridade) e numa proposta de mudança de paradigma. Uma mudança de uma psicologia que, enquanto ciência e prática, se afirma numa determinada área para uma psicologia que, como ciência e prática, se concretiza, no contributo das suas áreas e em relação com outras disciplinas, numa dificuldade/problema de uma pessoa ou num desafio societal. Da psicologia clínica à crise associada aos níveis de depressão da população mundial. Da psicologia da educação à necessidade de promoção do bem-estar de estudantes. Da psicologia comunitária aos complexos desafios da erradicação da pobreza ou da inclusão. Da psicologia do trabalho e das organizações ao desafio da conciliação da vida pessoal -profissional. Uma psicologia sempre próxima das pessoas. Uma psicologia proactiva e interventiva, contribuidora para os complexos desafios societais.

Mudança realista mas, só possível, se conjunta. Mudança que beneficia de outra estratégia de promoção da efectividade das resoluções: a partilha das mesmas, algo que aqui faço convosco que, muitas vezes sem o sentirem, tanto me ajudam a reflectir e a procurar, com humildade, contribuir para pequenas mudanças que julgo socialmente relevantes.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Política

Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz (Ao redor…; Sábado; 30.12.2021)

Há palavras e expressões cuja definição mais comummente utilizada é a ausência do seu contrário. É assim com a saúde mental. Muitas pessoas definem e entendem saúde mental como um estado em que não se tem uma doença mental. Nunca como no ano que agora termina – em contexto pessoal e profissional, em privado ou nas oportunidades que tive de o fazer em contexto público – tantas vezes procurei afirmar que a saúde mental vai muito além da ausência de doença mental, correspondendo aos recursos (internos e externos) que cada pessoa tem para lidar e se adaptar aos seus acontecimentos de vida e à sua possibilidade de florescimento e de bem-estar global. 2021 foi (mais) um ano muito desafiante relativamente à saúde mental da população portuguesa e mundial, mas terá permitido que mais pessoas tenham reflectido sobre a sua importância e impacto em tantas dimensões da sua e nossa vida e sociedade, conforme o próprio Presidente da República afirmou nos últimos dias.

Conforme sucede com a saúde mental, também a paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos. Para a promovermos em Portugal, na Suíça ou nos Estados Unidos da América, não apenas na Síria, em Myanmar ou na fronteira da Ucrânia com a Rússia.

O próprio Instituto para a Economia e a Paz publica dois “rankings” que organizam anualmente 163 países: Paz Global [Global Peace Index], classificando a apelidada “paz negativa” (ausência de violência, conflito destrutivo e guerra) e que em 2020 colocou Portugal na 3ª posição (4º em 2021); e Paz Positiva [Positive Peace Index], partindo do reconhecimento de que a paz é mais que a ausência dos indicadores anteriores, ao analisar a civilidade, a cooperação e o cuidado (com outras e outros) e que em 2020 colocou Portugal na 13ª posição, atrás da Noruega (1º), Suíça (4º) ou Alemanha (11º) mas à frente da França (15º), Reino Unido (22º) ou Estados Unidos da América (31º).

Apesar das críticas (parte delas, a meu ver, justas) à forma de recolha e representatividade de indicadores de medida, há algo que creio reflexivamente relevante – a ligação do índice de paz positiva a aspectos (positivos) que são condição fundamental para uma sociedade florescer. Quando se analisa o bom funcionamento do governo, a equidade na distribuição de recursos, o acesso livre e a disponibilidade da informação, as boas relações de vizinhança, os elevados níveis de capital humano, a aceitação e reconhecimento dos direitos de outras/os, os baixos níveis de corrupção e um ambiente de negócio e investimento sólido e estável de países, fazêmo-lo. Como se faz, no Projecto de Sustentabilidade da Paz [Sustaining Peace Project], ao considerarem-se dimensões como a identidade social abrangente entre grupos e comunidades, as suas interconexões e interdependências, a forma como as normas e os valores suportam a paz ou o papel das instituições e das lideranças na promoção do relacionamento entre comunidades. Num e noutro caso, com as limitações inerentes a estes processos de grande complexidade, ponderara-se a possibilidade de bem-estar da população, a promoção da paz e a prevenção da guerra.

Ora, nestes indicadores e dimensões creio que reside um desafio muito relevante para Portugal em 2022. Não que espere que no próximo ano possamos “cair” em guerra. Antes porque creio que, se nada fizermos – considerando o contexto do país, o agravamento das desigualdades, da desesperança, da dificuldade das respostas dos serviços públicos e da quebra de confiança nas e nos decisores e nas instituições – podemos “cair” em paz. Porque, creio, sem investirmos na promoção da paz, podemos involuir em dimensões que sustentam a harmonia e serenidade da sociedade e nos protegem dos conflitos violentos, aprofundando o fosso que já existe entre a nossa posição nos índices de “paz negativa” (4º) e “paz positiva” (13º). Porque me parece fundamental que compreendamos e assumamos que a construção da paz é um processo sempre em curso, tão inacabado quanto urgente, e que depende do nosso contributo individual (enquanto pessoa) e colectivo (enquanto comunidade e sociedade).

Depende de assumirmos, por vezes contraintuitivamente, que todas e todos sem excepção, temos um papel no que recentemente se debateu a propósito das acções de um conjunto de agentes da Guarda Nacional Republicana relativamente a pessoas migrantes a residir em Portugal. Sendo óbvio que são situações decorrentes do comportamento de algumas pessoas, a complacência da sociedade com elas não começa e termina no “julgamento” dessas acções e pessoas concretas e das suas consequências. Antes, na forma como cada um e uma de nós comunica sobre a população migrante, cria e reproduz narrativas e crenças e como isso pode estimular (por vezes até legitimar) algumas emoções, atitudes e comportamentos que, em situações mais extremas, derivam em actos potencialmente criminosos. Ou, como comunicamos sobre as decisoras e os decisores e a forma como a confiança nessas pessoas e nas instituições está em queda acentuada, como recentemente uma equipa de investigação que faço parte observou. Uma sociedade que não compactua com a discriminação e com julgamentos de e por generalização. Que se assume anti-racismo e anti-violência(s), de reconhecimento das e dos outros, particularmente dos e das mais vulneráveis, de boa vizinhança, de confiança, de diálogo, entreajuda e compromisso, de pertença, de penumbras (de encontros entre comunidades e culturas) e de coesão social, constrói-se dia após dia, com contributos múltiplos e desde a mesa do jantar da casa de cada pessoa, até às mesas dos cafés e colectividades, passando pelos locais de trabalho, serviços públicos e pelas autoridades de qualquer tipo.

Podem estar a pensar, sim… Mas o que tem isto que ver com guerra? Saberá ele o que significa a guerra? O que é a guerra? Pois, não sei. Directamente. Não sei porque, enquanto experiência complexa, muito provavelmente só quem a vive pode saber. Mas sinto que, ao contrário do que poderia esperar recuando uma década que fosse, caminhamos no seu sentido. Sinto, sei, que a perda de confiança nas instituições não é um fenómeno português e que por exemplo nos Estados Unidos da América a confiança nunca foi tão baixa (apenas 1 em cada 4 cidadãs e cidadãos confiam nas instituições quando há cerca de 50 anos eram 3 em cada 4). Sinto, sei, que esse é mais um passo para a degradação dos mediadores sociais (a par do jornalismo, cuja investigação que acima referi também sinaliza quebras de confiança) o que conjugado com a forte polarização nos empurra para um ambiente de “tensão civil” – segundo o barómetro da confiança Edelman (2021), 57% das e dos americanos considera que o país está em “guerra civil latente” e que uma guerra civil é possível no seu tempo de vida.

Por tudo isto desejo para 2022 que construamos mais paz.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, construir futuro e construir futuro com possibilidade de bem-estar depende de construirmos harmonia, civilidade e de cooperarmos. Dependente de desenvolvermos a partilha, a pertença e a gratidão. De pensarmos que não há individual sem colectivo e colectivo sem individual. De integrarmos que não confiar nas e nos outros e nas instituições em democracia é, antes de mais, não confiarmos em nós, nas pessoas que fazem as instituições e os governos. Depende, pois, de investirmos na paz e na sua promoção e de fazermos do cuidado com as outras e os outros o principal cuidado connosco. 2022 é tempo para nos juntarmos, relacionarmos e para construirmos mais paz.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 30.12.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Incerteza(s)

Voltaremos hoje a vacinar (contra a COVID-19) crianças em Portugal, conforme acontece por estes dias em diversos países. Isto acontece inúmeros passos depois de um momento simbólico – a 1ª aprovação pela FDA (USA) da vacina da Pfizer para jovens adolescentes (12-15 anos) a 10.05.2021. Nesse mesmo dia, o Mundo perdia J. Kagan, um dos principais precursores da Psicologia do Desenvolvimento e do estudo da forma como as experiências, as relações e os processos desenvolvimentais no geral na infância e adolescência contribuem para o que somos (o que sentimos, pensamos e como nos comportamos) e quem somos (identidade) ao longo de toda a vida, sublinhando, sempre, o papel do contexto ao longo de todo o ciclo de vida. A este propósito, disse em 1972 que somos “bombardeados com incerteza no nosso dia-a-dia” e que uma das “motivações primárias das pessoas é resolver [anular, ultrapassar, diminuir] essa incerteza”.

As vacinas foram (são) um importantíssimo recurso das sociedades (infelizmente não de todas, da mesma forma) face à grave crise de saúde pública que enfrentamos há muito tempo. Em todo o caso, e talvez ao contrário da expectativa de parte significativa da população e das e dos decisores, não “anularam” (por vezes, nem diminuíram) aquele que é um dos principais desafios à saúde psicológica e bem-estar das pessoas – a incerteza, particularmente quando prolongada; a incerteza, que acresce imprevisibilidade à imprevisibilidade expectável da nossa vida.

“Mais um ano de pandemia e de tanta incerteza? Não sei se aguento”, 2º episódio do Podcast “Comum dos Mortais” do PQ produzido pela @Madremedia. Episódio assente em 2 diálogos da @Margarida Alpuim com a @Ana Rita Caldeira e comigo sobre o porquê da incerteza associada a esta pandemia ser distinta de outra(s) incerteza(s). Falamos de vidas “ioiô”; de restrições, oscilações e instabilidade; de uma “incerteza colectiva”, que a globaliza, intensifica e prolonga no tempo; de hipervigilância e ausência de espontaneidade; de cansaço; de um dia-a-dia também feito de experiências que nos reactivam momentos e experiências menos positivas e de como, ainda que neste contexto, podemos garantir algum controlo, segurança e previsibilidade, essenciais ao bem-estar. De como estes são fulcrais na nossa capacidade de auto-regulação e resiliência, essenciais à nossa saúde e saúde psicológica.

Mas falamos, também, do papel da aceitação da incerteza e imprevisibilidade como parte da vida. Construímos um diálogo que espero estímulo para reflectirmos sobre a incerteza que sentimos e como nos sentimos com e na incerteza. Para activarmos níveis de auto-compaixão que nos permitam vivenciá-la pessoalmente e de hetero-compaixão, empatia e de coesão social que nos permitam vivenciá-la colectivamente.

Estímulo para que resistamos, para que procuremos (e encontremos) propósito(s) e significado(s), para que estejamos “juntas e juntos”.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Nada fazer… Que valor?

O que pretende não fazer?; Quanto tempo pretende não o fazer?; Porque é particularmente importante para si não o fazer?; Porque é que é a pessoa certa para não o fazer? Estas questões foram mote para os projectos cujo júri da Universidade de Belas Artes (Hamburgo) apreciou para atribuição das originais bolsas “Doing nothing” [Fazer nada] que desafiam a visão tradicional (em alguns contextos, pecaminosa) da ociosidade e, dessa forma, questionam a percepção social do sucesso. Ao contrário da obsolescência programada, propõem algo como uma “ociosidade programada” que, estimulada e activada, potencia a transformação, a mudança de comportamentos e o questionamento do “prestígio social” no sentido de permitir que este se compatibilize com “tempo para sonhar”, “tempo para nada fazer”.

“O valor de nada fazer”, 22º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) trata o que nos confronta a atribuição de uma bolsa a uma pessoa e projecto para “nada fazer”. Trata esta não-conformidade e o que ela, simbolicamente, elucida sobre um possível binómio entre conformismo (fazer, continuando a fazer) e originalidade (não fazer, não o continuando a fazer). Estimular a reflexão sobre “aceitar que não fazer algo poder ser um primeiro passo e uma oportunidade de espaço e tempo para uma mudança, para (fazer) algo diferente, potencialmente gerador de outras respostas a um mesmo problema ou desafio ou de maior potencial de bem-estar.” Finalmente, fá-lo, num momento especialmente importante, onde o brincar na sua expressão livre, espontânea e não dirigida das crianças se encontra há muito obstaculizado e há um “encerramento” das pessoas no sentido da menor abrangência e diversidade e especiais desafios à conciliação de papéis.

Mas, esta necessidade de parar depende de pessoa para pessoa e necessita de condições, que mais do que nunca devem ser investidas, que organizo (e detalho) em quatro dimensões: 1) estarem cumpridas necessidades básicas de segurança e conforto; 2) existência de contextos encorajadores da criação e reflexão; 3) desenvolvimento de valores associados à reflexão e de competências de criação; 4) importância da saúde psicológica e da existência de recursos internos e externos de adaptação e resiliência.

Como N. Ginzburg descreve (“quando somos felizes, a nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é a nossa memória que age mais vivamente”) ao contrário de uma visão mistificada – e apesar dos pontos de contacto entre (alguma) disrupção e criatividade e (alguma) doença mental – a capacidade de criação depende do não confronto permanente com o sofrimento e do não esgotamento de recursos. Aproveitemos o momento e a época do ano que vivemos para reflectirmos sobre a possibilidade de parar, de pausar, de nada fazer sem nos culpabilizarmos, intencionalizando uma ociosidade positiva essencial ao nosso florescimento, à diversidade e, através dela, à riqueza. Aproveitemos o momento para desafiar e questionar o prestígio e sucesso conforme o conhecemos e conforme nele nos reconhecemos.”

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54 anos das cheias de 1967 e impacto da pandemia nas/os bombeiras/os e outros agentes de protecção civil

“Foi a maior catástrofe do país depois do terramoto de 1755.” Esta noite (e madrugada) passam 54 anos das cheias de 1967. Nessa noite, em alguns concelhos da “Grande Lisboa”, a chuva atingiu 170L/m2/hora (entre as 19h e as 00h a precipitação correspondeu a 1/5 do que choveu em todo o ano de 1967) dizimando aldeias nas zonas mais pobres e “abandonadas” (20.000 casas totalmente destruídas), provocando centenas de mortes (462 “oficiais” embora se estimem 700) e muito sofrimento nas famílias e comunidades. Apesar da onda de apoio (particularmente do movimento estudantil face a um regime “inoperante” que, essencialmente, procurou “esconder” a dimensão da tragédia e as suas causas – a pobreza (extrema) e as condições de vida das populações), o sofrimento estendeu-se a quem naquele e nos dias seguintes procuraram ajudar as “suas pessoas”, aldeias e comunidades com recursos limitados, nomeadamente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil. “Quando vim para baixo a ponte já tinha sido levada pela água e o quartel estava cheio de mortos. Foram 63 só no 1º dia. Passaram-me todos pelas mãos antes de serem levados para o Inst. Medicina Legal”, contava em 2017 à Renascença o à época bombeiro de Odivelas Abílio Silva. Descrição que nos convida a pensar nestas pessoas e profissionais, no seu papel e condições, na incerteza perante e nos impactos do seu trabalho no seu bem-estar.

Coincidentemente, hoje passam 50 dias de uma conversa que aqui partilho no Porto Canal (06.10) a propósito do documento produzido conjuntamente entre a ANEPC (um cumprimento especial ao Bruno Vaz por todo o empenho) e a Ordem dos Psicólogos Portugueses – “Os bombeiros e a saúde psicológica em tempos de pandemia”. Nela reflecti sobre o impacto da pandemia (e o prolongamento desse impacto), mas não apenas, nas e nos profissionais de primeira linha, particularmente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil, em muito devido ao contacto permanente com situações de perda, luto e sofrimento, stresse, a necessidade de mudança de rotinas, protocolos e equipamentos e com a incerteza. Também sobre a importância da literacia, auto-cuidado e conciliação das dimensões pessoais e profissionais com propósito nestas e nestes profissionais ou a necessidade de reforço das redes de apoio entre pares e da ajuda profissional, quando necessária, contingente aos problemas e dificuldades.

As cheias de 1967 impactaram, além das comunidades afectadas, a consciência colectiva, estimulando tensão de mudança na sociedade. De certa forma, espero que as catástrofes/crises dos últimos anos nos impelem a uma reflexão tendente à valorização e apoio às pessoas que, com dificuldade, se dedicam a ajudar outras nestes momentos. Isso e a reflectirmos sobre o que, enquanto pessoas, comunidades e sociedade, podemos fazer para as prevenir, mitigar e vivermos com maior (potencial de) bem-estar para todas e todos.

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Cidades Verdes…

A partir de hoje contaremos 6 semanas até mudarmos de ano e chegarmos a 2022. Terminarmos (mais) um ano de muitas semanas com fortes restrições e limitações à nossa espontaneidade, à nossa forma de interagir e nos relacionarmos com o espaço e com as outras e os outros e de um significativo sofrimento para um grande número de pessoas. Mas terminaremos um ano em que, mais uma vez, resistimos e demos prova de confiança nas instituições e de coesão que, entre outros, nos permite ser líderes mundiais no importantíssimo processo de vacinação relativo à COVID-19. Terminaremos um ano em que, mais uma vez, se aprofunda e generaliza o reconhecimento da importância de promover a literacia em saúde (psicológica), a prevenção e a saúde psicológica como forma de enquanto indivíduos e sociedade estarmos mais preparados para nos adaptarmos às mudanças necessárias e respondermos à incerteza. Um ano de reconhecimento e sensibilização para a necessidade de melhorarmos a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.

Comportando ainda incerteza, 2022 trará, apesar de tudo, um novo momento societal que coabitará na Europa com o “Ano Europeu das Cidades Verdes” que prevê a mobilização da Europa para a criação de espaços urbanos mais verdes visando benefícios “não apenas ambientais, mas relativos à saúde, cultura e educação” e, logo, com forte impacto no bem-estar.

No final da semana passada, a convite da APPP-FN, participei na conferência “Cidades Verdes – Mais saudáveis, mais sustentáveis” do projecto “Green Cities Europe” e discuti os importantes contributos da psicologia (ciência e prática) para cidades de bem-estar, sustentabilidade e coesão social. Procurei reflectir a partir da definição de Calvino (“as cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos”) o binómio entre querer mudar mas receá-lo e a cidade como micro (o local, a pessoa) do macro (o global, a sociedade), onde os desafios societais complexos da exclusão, pobreza ou população em situação sem abrigo são os problemas da Rita, da Joana ou do António.

Onde a poluição do ar, o ruído, a temperatura e o os estilos de vida de quem as habita impactam em indicadores de saúde, retiram anos de vida saudável e provocam mortes prematuras.

Onde, contributos da psicologia, sob a forma de 1) evidências científicas e promoção da literacia; 2) informação de políticas públicas de saúde e de sustentabilidade; 3) promoção da mudança e da adaptação com bem-estar; e 4) unidades de ciências comportamentais que apoiem intervenções efectivas e com resultados, podem concorrer para a mitigação e prevenção destes problemas.

Onde, finalmente, a construção de cidades verdes, com contributo da psicologia, pode ser essencial à prevenção, promoção de saúde (psicológica) e bem-estar, biodiversidade e de importantes determinantes sociais e comportamentais da sustentabilidade e da coesão social, como são a resiliência, a conciliação da vida pessoal/profissional e autocuidado, a intergeracionalidade e a inclusão.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

Personalização e compromisso – Dos partidos às políticas (Ao redor…; Sábado; 02.11.2021)

Allerweltspartei. Original alemão do vulgarizado e famoso conceito em inglês catch-all party, significa partido (político) “onde todas e todos cabem”. Tradução minha – insuficiente, mas possível – do conceito explanado em 1966 por Otto Kircheimer para descrever partidos maioritariamente surgidos pós fim da II Guerra Mundial que, pelo seu largo espectro e por serem menos ideológicos, procuravam atrair o maior número de pessoas e de eleitoras e eleitores possível assumindo-se como partidos de massas. Apesar do conceito per si ter sempre sido bastante discutido e problematizado, creio ser perceptível que um pouco por toda a Europa, e embora a ritmos diferentes, estes partidos estão actualmente em perda face ao surgimento ou crescimento de partidos políticos mais centrados em causas e mais dirigidos a grupos específicos de pessoas e de eleitoras e eleitores. Também em Portugal temos, e, previsivelmente, continuaremos a ter 9 (senão mais – no início da presente legislatura eram 10) partidos representados no Parlamento pós, as cada vez mais previsíveis, Legislativas de 2022 – algo demonstrativo da fragmentação política recente e de um caminho de progressiva transferência de votos de partidos generalistas e mais abrangentes para (mais) partidos mais assentes em singularidades, menos abrangentes e mais individualizados. Sinto relevante que no presente e para o futuro, pensemos no porquê desta fragmentação e no porquê dos “grandes” partidos políticos ficarem hoje longe das grandes maiorias do passado.

Considero que um dos fenómenos que contribui para esta situação refere-se à forma como hoje se produz, dissemina e se contacta com informação e, também nesse sentido, com a desinformação. O acesso é mais rápido e mais amplo, desafiando os limites da privacidade e, pelas suas características, tende a “enclausurar” as pessoas junto de outras pessoas que percepcionam o Mundo e os seus desafios da mesma forma. Isso é reforçador da pertença identitária a grupos, da polarização e da fragmentação. Outro fenómeno trata da enorme disponibilidade de dados e de algoritmos e ferramentas de tratamento de dados, incluindo as de aprendizagem automática que, cada vez com mais eficácia e menor custo, permitem a adequação das mensagens a dimensões cognitivas (crenças) e emocionais de cada pessoa, funcionado como “alfaiates” da informação, preparando-a e personalizando-a à medida para cada pessoa e grupo, nas suas causas (por vezes também inseguranças). Paralelamente, estes dois fenómenos promovem a mutação, mobilidade e mudança que redunda em maior volatilidade nos votos face a alguma continuidade que antes existia (até entre gerações de famílias). Resultam, também, numa quebra de confiança nas e nos políticos e nas instituições e num ambiente de “passa culpas” e julgamentos que legitimam o mal-estar próprio, impactando mais os partidos de massas. Resultam, ainda e porque reflectem normalmente questões de elevada complexidade e urgência, na procura de respostas simplistas e securizantes que estimulam a emergência de lideranças pautadas por uma ideia de providencialismo, salvíficas e populistas (bem presentes aquando de contextos de crise), ameaçando as dimensões democráticas, obstaculizando a participação de correntes divergentes dentro dos partidos e favorecendo partidos que partem da individualização, da unicidade em causas e de lideranças com perfil mais autoritário.

Os dois fenómenos que atrás descrevi e que contribuem para os desafios que se colocam aos partidos e à governação, são os mesmos que, utilizados com outro fim (o do bem-comum) poderiam, noutras áreas, produzir efeitos também significativos e impactantes na melhoria da qualidade de vida das pessoas, na sua possibilidade de bem-estar e na coesão social. Um exemplo importante seria o seu uso mais intencional e consciente para uma maior personalização das políticas públicas, contribuindo para a sua eficácia e eficiência. Aumentar a possibilidade de agenciamento das pessoas sobre os acontecimentos de vida com que se deparam e as dificuldades, desafios e vulnerabilidades momentâneas, depende de políticas públicas não abrangentes e de massas, mas personalizadas, contingentes, baseadas nas singularidades e que possam garantir mais eficácia e eficiência. Tal pode acontecer em políticas referentes a apoios sociais, à saúde, à educação. Tal pode também acontecer nas políticas de promoção de empregabilidade junto de pessoas em situação de desemprego, políticas há décadas estagnadas em modelos onde a experimentação não abunda e onde é baixa a permeabilidade ao conhecimento e à evidência científica (por exemplo não considerando as dimensões da saúde psicológica das pessoas em situação de desemprego, a motivação das trabalhadoras e trabalhadores das estruturas que prestam estes apoios / serviços ou a testagem de impactos a médio e longo prazo para melhorar definição dos apoios e incentivos à contratação disponibilizados a entidades empregadoras). Fazê-lo, pelo impacto na confiança nas instituições, seria um contributo para a mitigação de duas das consequências mais importantes acima discutida – a quebra de confiança e a emergência do providencialismo e de lideranças mais autoritárias.

Também para esse objectivo contribuiria mais participação, abertura, capacidade de integração e uma maior atitude de entendimento e compromisso entre partidos, prevenindo que a fragmentação na representação resulte na esperada instabilidade e incerteza política. Para tal é necessário, como defendem Levitsky e Ziblatt no livro “Como morrem as democracias”, prevenirmos a polarização partidária pelo respeito dos princípios democráticos e pela visão e entendimento dos e das adversárias como adversárias e não como inimigas ou inimigos, a par da não utilização dos instrumentos democráticos para fragilizar a própria democracia, fenómeno a que temos assistido em diversos países e de diversas formas. É também necessário investir na construção de espaços de entendimento e compromisso centrados na abertura, na resposta aos anseios e objectivos das pessoas. É, ainda, necessário melhorar, pelo desenvolvimento de competências que permitam entregar e receber melhor críticas construtivas e permitir que esse feedback influencie o comportamento e a tomada de decisão, os processos de negociação e discussão. Finalmente, é necessário gerar, reforçar e utilizar empatia com as e os adversários, partidos e pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, aproveitemos um certo colocar em causa dos Allerweltspartei para colocar em causa as Allerweltspolitik, políticas catch all. Se o pluralismo e a diversidade das pessoas e das sociedades ameaçam os partidos de massas, o pluralismo e diversidade das pessoas invalidam políticas de massas, incentivando-nos à sua transformação e adequação, também pelos contributos do conhecimento e da evidência científica, no sentido do reforço da sua personalização, singularização e da identificação com as pessoas suas destinatárias e das pessoas com as políticas. Personalização com criatividade, persistência e compromisso. Compromisso entre políticas públicas e pessoas. Entre partidos políticos e pessoas. Entre políticas públicas. Entre partidos. Pela confiança e pelo bem comum, defesas últimas das consequências da fragmentação e polarização das pessoas e sociedades.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 02.11.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/personalizacao-e-compromisso–dos-partidos-as-politicas