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Desafios da Psicologia Emergência Climática

COP26

 

“Conclui que a única razão para estar viva é para contar o que aconteceu, para que compreendam”, diz K. Imori, a única sobrevivente de uma Escola de Hiroshima à “Little boy”, nome (paradoxalmente) dado à bomba atómica que destruiu a sua comunidade. Depoimento parte do doc. “White light black rain” de 2007, ano da COP13 e da atribuição ao IPCC (a par de Al Gore) do prémio nobel da paz também pelado seu 4º relatório sobre alterações climáticas (para muitas e muitos o documento que 1º traduz o “consenso científico” sobre o papel do ser humano na crise climática).

Viver para contar, conforme Gabriel García Márquez titulou o seu livro de memórias. Contar para compreender e promover a compreensão, garantindo agenciamento, capacidade de acção e, no possível, controlo. Contar para incentivar, partilhar, contagiar. Contar para unir.

Na COP26 ouvi contar… Histórias de quem já hoje, por ex. nas Fiji, sofre significativamente com as alterações climáticas; Ciência por cientistas que, inequivocamente, demonstram os problemas e causas e apresentam soluções possíveis; Iniciativas de jovens e menos jovens, envolvidas/os em ONG em diferentes áreas e/ou activistas pela acção climática; Desafios que decisoras e decisores vivenciam na procura das melhores respostas para um problema complexo e com tantas nuances. Ouvi contar dentro e fora do Centro de Eventos, de “pessoas comuns” a prémios Nobel, em tantas línguas. Ouvi contar, a cada história, a dimensão humana, o comportamento e a tomada de decisão. Ouvi contar como, nesta crise, a psicologia é essencial, em múltiplos e diversos aspectos e momentos da sua resposta.

Ouvi e senti que – conforme a consciência do e envolvimento no problema é fundamental à mudança (do nosso) comportamento – a consciência deste papel da ciência e da prática psicológica traz-nos a imensa responsabilidade de desenvolvermos mais a ciência psicológica e garantirmos práticas de excelência neste âmbito, prevenindo sofrimento e contribuindo para a possibilidade de florescimento das pessoas e sociedades.

A OPP procurou fazê-lo ao organizar com a APA em Portugal (2019) a Summit da qual resultou a Global Psychology Alliance que representei com a Sofia Ramalho e colegas de outros países na COP26. Mobilizar a psicologia para apoiar a mobilização eficaz da resposta para a crise climática, para uma mudança com (e não contra) as pessoas e pelo bem-estar.

No doc., S. Sasamori (outra sobrevivente), diz perguntar-se como teria sido a sua vida “sem a bomba” sabendo “que seria muito diferente”. Com as devidas diferenças, penso como seria a nossa e das futuras gerações sem a crise climática. Diferente mas, talvez, menos boa. Porque vejo sinais de que pode a mudança inevitável que aí vem pode contribuir para um Mundo com mais oportunidades de bem-estar, equidade, coesão social para todas/os. Assim o senti em Glasgow. Que a “onda (gigante) de preocupação” resultará, passo a passo com o objectivo comum, numa “espuma de mudança”. Oxalá assim o sintam, comigo.

“Conclui que a única razão para estar viva é para contar o que aconteceu, para que compreendam”, diz K. Imori, a única sobrevivente de uma Escola de Hiroshima à “Little boy”, nome (paradoxalmente) dado à bomba atómica que destruiu a sua comunidade. Depoimento parte do doc. “White light black rain” de 2007, ano da COP13 e da atribuição ao IPCC (a par de Al Gore) do prémio nobel da paz também pelado seu 4º relatório sobre alterações climáticas (para muitas e muitos o documento que 1º traduz o “consenso científico” sobre o papel do ser humano na crise climática).

Viver para contar, conforme Gabriel García Márquez titulou o seu livro de memórias. Contar para compreender e promover a compreensão, garantindo agenciamento, capacidade de acção e, no possível, controlo. Contar para incentivar, partilhar, contagiar. Contar para unir.

Na COP26 ouvi contar… Histórias de quem já hoje, por ex. nas Fiji, sofre significativamente com as alterações climáticas; Ciência por cientistas que, inequivocamente, demonstram os problemas e causas e apresentam soluções possíveis; Iniciativas de jovens e menos jovens, envolvidas/os em ONG em diferentes áreas e/ou activistas pela acção climática; Desafios que decisoras e decisores vivenciam na procura das melhores respostas para um problema complexo e com tantas nuances. Ouvi contar dentro e fora do Centro de Eventos, de “pessoas comuns” a prémios Nobel, em tantas línguas. Ouvi contar, a cada história, a dimensão humana, o comportamento e a tomada de decisão. Ouvi contar como, nesta crise, a psicologia é essencial, em múltiplos e diversos aspectos e momentos da sua resposta.

Ouvi e senti que – conforme a consciência do e envolvimento no problema é fundamental à mudança (do nosso) comportamento – a consciência deste papel da ciência e da prática psicológica traz-nos a imensa responsabilidade de desenvolvermos mais a ciência psicológica e garantirmos práticas de excelência neste âmbito, prevenindo sofrimento e contribuindo para a possibilidade de florescimento das pessoas e sociedades.

A OPP procurou fazê-lo ao organizar com a APA em Portugal (2019) a Summit da qual resultou a Global Psychology Alliance que representei com a Sofia Ramalho e colegas de outros países na COP26. Mobilizar a psicologia para apoiar a mobilização eficaz da resposta para a crise climática, para uma mudança com (e não contra) as pessoas e pelo bem-estar.

No doc., S. Sasamori (outra sobrevivente), diz perguntar-se como teria sido a sua vida “sem a bomba” sabendo “que seria muito diferente”. Com as devidas diferenças, penso como seria a nossa e das futuras gerações sem a crise climática. Diferente mas, talvez, menos boa. Porque vejo sinais de que pode a mudança inevitável que aí vem pode contribuir para um Mundo com mais oportunidades de bem-estar, equidade, coesão social para todas/os. Assim o senti em Glasgow. Que a “onda (gigante) de preocupação” resultará, passo a passo com o objectivo comum, numa “espuma de mudança”. Oxalá assim o sintam, comigo.

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Reversibilidade – Psicologia e Crise Climática

“Aquela música faz-me sentir…”

Estou certo que por vezes associa uma música (banda; tipo de música) a um estado emocional. Ouvimo-la e… Ou sentimos e ouvimo-la? Com alguma simplicidade, podemos enquadrar nesta questão a reversibilidade enquanto possibilidade de olhar dois polos opostos: ouvimos aquela música e ela faz-nos sentir tranquilas e tranquilos ou estamos tranquilas e tranquilos e procuramos aquela música? A reversibilidade, num Mundo de questões complexas, é, enquanto competência e no seu simbólico, algo fundamental que deve ser preservado e estimulado numa perspectiva de procura de (mais) caminhos, contributos e soluções ao invés de afunilarmos em visões únicas e sem alternativa.

Por estes dias, e pelo que tem também sido a minha reflexão sobre a questão da crise climática, tenho pensado bastante na reversibilidade. E, de certa forma, por ela comecei (e continuei) uma participação que partilho no programa Esta Manhã da TVI onde conversei com Iva Domingues sobre psicologia e crise climática. 

É que – sendo a psicologia a ciência que estuda o comportamento (causas,  consequências, mudança) e tomada de decisão e a profissão que, ao longo de todo o ciclo e nos diversos contextos de vida, procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e coesão social – quando me perguntam como está ligada à crise climática o meu pensamento vai no sentido de responder como poderia a psicologia não estar ligada a uma crise como a climática se: 1) para a compreendermos e explicarmos precisamos de compreender como as pessoas se comportam e tomam decisões? 2) para a prevenirmos e mitigarmos te(re)mos que mudar a forma como viajamos, comemos, produzimos, consumimos, partilhamos, trabalhamos ou utilizamos os recursos à nossa volta? 3) para nos adaptarmos ao futuro e às mudanças precisa(re)mos de desenvolver resiliência nas pessoas e comunidades, responder à incerteza, à ansiedade, às iniquidades e outros desafios (como as migrações) que trará? 4) precisa(re)mos da intervenção das psicólogas e dos psicólogos no apoio psicológico e suporte emocional às pessoas vítimas de catástrofes mais frequentes e intensas nas próximas décadas? 5) o seu conhecimento é fundamental ao desenho de políticas públicas neste âmbito, à acção na percepção de risco e à comunicação com pessoas e comunidades?

Mais, reversibilidade para não cairmos em inevitabilidades que redundam em inacção e para, apelando à urgência da mudança, não esquecermos os (ainda que ténues) sinais positivos à nossa volta (como dela se falar às 07.50h na TVI). Para não fazer a mudança contra as pessoas, mas com as pessoas. Para lembrarmos que na mudança não há apenas perda de qualidade de vida e que ela pode (co)existir com bem-estar.

A crise climática é um problema social complexo que precisa de uma resposta social, motivada pelas pessoas e comunidades. Uma resposta que não pode deixar ninguém para trás para ser bem-sucedida. Que só pode ser bem-sucedida.

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Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta? (Podcast; Ouvi Dizer; ANEP)

“(R)Estabelecer confiança”. R é o símbolo matemático relativo aos números reais. António Guterres sabe-o, conforme sabe quão real é a urgência da crise climática que vivemos e quão fulcral é o (r)estabelecimento da confiança a que apelou no G20 que antecedeu a COP26. Restabelecimento que assume depender “de enfrentarmos as principais causas da desconfiança – injustiças, iniquidades e divisão geopolítica”.

A COP é a Conferência das Partes da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança Climática resultante da ECO-92. A COP1 aconteceu em Berlim (1995) e, depois do Protocolo de Quioto (COP3) e do Acordo de Paris (COP21), a 26ª, adiada de 2020 para 2021, decorre em Glasgow. É momento de discussão dos ténues sinais positivos pós-1992 mas, principalmente, de como poderemos globalmente caminhar o longo e difícil caminho de preservação do planeta, com mudanças que possam em simultâneo promover o bem-estar e o combate às injustiças, iniquidades e divisões geopolíticas, amplificadas com a crise climática. Momento de construir uma resposta enérgica, global, positiva e confiável que não deixe ninguém para trás.

Creio feliz o termo partes. Países parte de um todo, o Mundo. Contributos de cada área científica e sociedade civil parte de um todo, a necessidade de decisões informadas pela ciência e encorajadas por uma ideia comum de futuro do Mundo. Partes das quais faz parte a ciência e a prática psicológica. Ciência que estuda a tomada de decisão, o comportamento e as suas causas e consequências. Profissão que – ao longo de todo o ciclo de vida e nos diversos contextos de vida – procura promover a autodeterminação de todas e todos e garantir mais oportunidade de bem-estar, equidade e de coesão social. Ciência e profissão que deve assumir papel central de contributo nesta crise.

Sobre este (nosso) papel e sobre esta (nossa) responsabilidade, conversei com a Adriana Soeiro Rosa e a Beatriz Sanguedo para o Podcast da ANEP “Ouvi Dizer” partindo do mote “Será o ser humano o principal inimigo do nosso planeta?” Conversa que partilho e onde discuti a forma como a psicologia contribui para a explicação e compreensão do fenómeno, para a sua prevenção e mitigação e para o apoio à preparação e adaptação das pessoas. Discuti, ainda, a relação entre a crise climática e a saúde psicológica (das questões associadas à incerteza e à ansiedade a este propósito até à importância das intervenções pós-catástrofes) e o nosso funcionamento, nomeadamente o papel dos enviesamentos na tomada de decisão. Também, o papel da percepção de risco, da comunicação e dos contributos da ciência psicológica no desenho de políticas públicas e implementação de projectos neste âmbito.

Se os seres humanos podem ser o principal inimigo podem, também, ser os principais protectores do nosso planeta. Unindo-se e actuando em Glasgow, em Sharm El Sheikh em 2022, a cada dia e em cada lugar hoje e no futuro. Unindo-se e actuando, não deixando ninguém para trás e promovendo bem-estar de todas e todos.

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Da não-complacência com o bullying…

…porque

“possível não significa provável”.

J. Steinberger foi uma das autoras do 6º relatório do IPCC. Tem-se destacado por um activismo muito próprio em torno da crise climática, porque, diz, o “nosso vocabulário revela-se insuficiente para descrever a perigosidade e urgência do nosso presente” e a mudança, sendo “possível não significa [que seja] provável”.

O seu exemplo e a importância que atribui às palavras, estimula a minha reflexão sobre áreas em que penso a distância de uma atitude “não-x” a uma atitude “anti-x” (aqui o escrevi sobre o racismo). Também nas práticas agressivas ou, mais especificamente, no bullying em crianças e jovens o podemos reflectir. Também aqui, o vocabulário que usamos não descreve normalmente a sua perigosidade e as mudanças que devem ainda acontecer, pese embora melhorias até 2019, não tornam esse possível em provável. Pelo contrário, os recentes encerramentos das Escolas e o seu impacto no desenvolvimento de competências sócio-emocionais, os perigos e desafios associados ao cyberbullying, os maiores problemas e dificuldades de saúde psicológica nas crianças/jovens e a hoje maior desigualdades e exclusão devem mobilizar-nos para uma atenção preventiva ao fenómeno e para a sua priorização ao nível da sociedade civil. Impelir-nos a atitudes “activas” face ao fenómeno e não “indiferentes”.

Isso procurei frisar no meu contributo que partilho no Bom Dia Portugal da RTP do passado dia 20.10, Dia de Combate ao Bullying. Sublinhando a importância das respostas concertadas ao nível de toda a Escola (não exclusivas das vítimas, agressoras/es e observadoras/es) e a criação de uma cultura de não-complacência (não aceitação) das práticas de bullying, que enquadrei nos seus 3 componentes-chave: repetição; desequilíbrio de forças e de poder; e intencionalidade clara de provocar sofrimento na(s) outra(s) ou outro(s). Procurei, também, assinalando sinais a que devemos estar atentas/os e frisando a importância da comunicação, aprofundar o papel das observadoras e observadores na atitude de não-complacência (actuando para não validar junto de quem agride a agressão e de quem é vítima a inexistência de apoio), das mães, pais e cuidadoras/es no geral (considerando sempre estes fenómenos e não atribuindo bondade aos mesmos – “fazem parte do desenvolvimento”).

Procurei, neste sentido, contribuir para uma reflexão de não minimização destas situações no presente e futuro das crianças e jovens, desincentivando posturas de inacção e estimulando atitudes preventivas e de construção de espaços de compreensão (embora sem aceitação) das práticas agressivas (para se actuar sobre causas), de empatia e de resolução de conflitos não violenta. Isso terá impacto hoje e amanhã em futuros papéis de vida destas crianças e jovens, nas suas relações de cuidado, de amizade, amorosas ou de trabalho.

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Air Summit 2021

“Cada vez que um avião [qualquer avião] passava sobre as suas cabeças, o general e os seus companheiros olhavam-no. Não podiam ajudar-se. Obsessivos. O meu tipo de pessoas.”

O último livro de Malcolm Gladwell (The Bomber Mafia) começa com uma nota do autor que termina com esta passagem. Relata um pós-jantar com David Galdfein (Ex-“Chief of Staff” da Força Aérea dos EUA) em que este convidou colegas para se juntaram a Malcolm na “Air House”, espaço próximo do Aeroporto que serve a região de Washington DC. Relata o fascínio, mas também a constante activação destas pessoas, quando “próximas” de aviões, quaisquer que fossem, e “ainda que de passageiros sem nada de potencialmente distinto.” Relata a tal obsessão, a meu ver melhor descrita se com aspas porque, neste caso, mais ligada à dimensão exclusiva desse comportamento (dessa activação) do que propriamente a um diagnóstico mais técnico (e logo mais complexo).

Na passada sexta-feira, estive em Ponte de Sor, na Air Summit 2021, encontro que reúne um conjunto de pessoas que pela sua profissão, área de negócio, hobby ou apenas fascínio, como Galdfein e as e os seus colegas, tende a olhar o céu quando escuta nele um som de um objecto que, antes ali não estaria, mas que as pessoas, desenvolvendo a ciência e ousando corajosamente muitas vezes experimentar, tornaram cada vez mais comum para cada vez mais fins. Que as pessoas tornaram “norma”, sendo por essa “norma” hoje definidas.

Com um “Flying for a new start” como tema, a Air Summit 2021 trouxe a “novidade” de ter um dia de conferências dedicado à saúde psicológica e uma mesa onde participei a convite da Elisabete Santos sobre “O impacto da pandemia na saúde psicológica: ultrapassar os desafios pessoais, profissionais e sociais” e onde estiveram, além da própria Elisabete, o Florentino Serranheira, o Osvaldo Santos e o Paulo Martins, mesa moderada pela jornalista Cristina Esteves.

No meu contributo procurei reflectir exactamente sobre como a forma como definimos a norma acaba por resultar na forma como a norma nos define e como, assim sendo, podemos tornar norma a importância da saúde psicológica e ela nos definir, mais do que hoje nos define a norma de olharmos (apenas) a doença mental ou quanto muito a sua ausência. Isso convida-nos, activa-nos, a olhar o quotidiano dessa forma e a construir uma sociedade e organizações que o considerem, permitindo mais oportunidades para todas e todos de promoção de saúde mental e com elas menos oportunidades de sofrimento para as pessoas (e seu entorno) e perdas para as organizações e sociedades, sob diversas formas. De como se tornar norma este tema, também numa Summit como esta, nos define hoje e definirá amanhã.
Como também disse, quem ainda voou quando se fumava nos aviões comerciais, dificilmente imaginaria que anos depois tal não fosse possível na exacta forma como hoje dificilmente imaginamos que se regresse a esse tempo. Assim poderá e deverá ser com a importância da saúde psicológica, também nesta área.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 dias… Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, um ciclo com simbolismo próprio, este ano reforçado pelo tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem na pobreza”. Poderia, também, o Dia Mundial da Erradicação da Pobreza ter sido dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas mais ricas têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

“Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância”, 18º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa a associação forte e cíclica entre a pobreza a exclusão e dificuldades e problemas de saúde psicológica. Ciclo do qual resultam 3 inevitabilidades: não poder existir um avanço significativo ao nível da saúde mental se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante; não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro; que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.”

Importa trabalharmos na prevenção e promoção da saúde mental; respeitar a dignidade humana e construir respostas integradas, humanistas e qualificadas que visem a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância; atender ao indicador do bem-estar percebido enquanto objecto de políticas públicas; responsabilizarmos a pessoa por problemas sistémicos e complexos, prevenindo a “dupla culpabilização”.

Termino como terminei ontem uma intervenção a convite da Ana Rodrigues num webinar da EAPN: “Cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá – também inspirada na figura e exemplo de Aristides Sousa Mendes [ontem celebrado], intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental – contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. O Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel, da Micaela. O deles, o das suas filhas/os, amigos/as, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

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“Não é um problema só para os outros.”

Araquibutirofobia, triscaidecafobia ou pogonofobia. Quaisquer fobias têm como base medos irracionais com impacto significativo no quotidiano e qualidade de vida das pessoas. Em todo o caso, existem fobias que provocam sofrimento a muitas pessoas e nos parecem, por menos comuns, ainda mais irracionais. Aos medos de que algo pastoso se cole ao céu da boca, do número correspondente ao dia de hoje (13) e de barbas (acima respectivamente nomeados), junto a optofobia, o medo irracional de abrir os olhos.

Quem sofre de optofobia, ou de qualquer outra fobia ou problemas de saúde mental, merece toda a atenção e cuidado da parte de cada pessoa e da sociedade. Merece que “abramos” os olhos a esta realidade e que reconheçamos o quão fundamental é hoje investirmos na promoção da saúde mental e apoiar as pessoas que hoje sofrem de problemas de saúde psicológica para recuperarmos o país e uma ideia de futuro das pessoas, famílias e comunidades baseadas numa real aspiração de bem-estar e cumprimento. O quão fundamental é, para que tal suceda, conseguirmos, enquanto sociedade, dar significado ao que as pessoas sentem, sublinhando que existem saídas possíveis e tratamento disponível para os seus problemas, bem como é possível prevenir este tipo de dificuldades.

Assim comecei um diálogo (que aqui partilho) no Dia Mundial da Saúde Mental na TVI24 que partiu da importante premissa que serão hoje, considerando a prevalência pré-pandemia e o agravamento potencial da mesma nos últimos dois anos, entre 2 a 3 milhões as pessoas em Portugal que necessitam de apoio psicológico urgente. Perguntou-me (Interpelou-me), bem, o José Gabriel Quaresma “como pode uma sociedade desenvolver-se de forma saudável quando não olha para estes problemas da sua população?” Perguntou-me (Interpelou-me), também bem, se, “dado que há décadas falamos destes temas”, eu acreditava mesmo “que estes problemas se podem resolver”.

Falamos de causas, de consequências da insuficiência das respostas, dos impactos da pandemia. Falamos de respostas possíveis. Falamos finalmente, optimista que sou, de que só se podem resolver, porque não há bem maior em que se possa investir (com retornos múltiplos) que não as pessoas, principal recurso do país; porque temos recursos disponíveis, preparados e motivados para tal; porque, como a Maria João Marques hoje afirma num importante e corajoso artigo no Público, este “não é um problema só para os outros”.

Não abramos os olhos só para a doença mental. Não tenhamos receio de o fazer com a saúde mental. Uma política humana e sustentável nesta área depende de não investirmos apenas na recuperação, aguardando mais e mais pessoas a necessitarem de ser recuperadas. Depende da conciliação da recuperação com a promoção da resiliência, prevenindo sofrimento e necessidade de recuperação no futuro, criando condições de bem-estar e, através dele, de equidade e coesão social.

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10.10.2021

Este Dia Mundial da Saúde Mental de 2021 tem uma dimensão pessoal muito significativa para mim. Como tantas e tantos, resultado não apenas da pandemia, tenho pessoas que me são muito importantes a sofrerem e a viverem “aprisionadas” a um presente que não lhes permite vislumbrar caminhos para um futuro de bem-estar. Em simultâneo partilho os meus dias com os meus filhos, um dos quais cuja idade ainda contamos em semanas, que nos “puxam” para nos projectarmos no futuro.

A saúde mental é um tema complexo e urgente. Tema maior pelo seu impacto em todas as dimensões, papéis e tempos de vida das pessoas. Quando confrontados com temas complexos tendemos para respostas rápidas e securizantes, normalmente encaixadas em pólos. Polarizamos. Face a este tema tende-se, porém, a “errar” num pólo: se de um lado temos a doença mental do outro não temos a ausência de doença mental, antes a saúde mental.

Disse-o ontem num debate com os Bastonários Rui Leão Martinho e Luis Menezes Leitão e com a minha colega Ana Rita Goes a convite da Secção Regional do Sul e Regiões Autónomas da Ordem dos Farmacêuticos. Entre a saúde mental – capacidade das pessoas se cumprirem, aspirarem a bem-estar e terem as competências e as condições e recursos internos e externos para lidarem e se adaptarem às situações e acontecimentos de vida – e a doença mental há todo um espaço onde muitas pessoas “deambulam” consoante o momento.

Além do reforço, qualificação e humanização das respostas para quem sofre com a doença mental – finalmente previsto no Plano de Recuperação e Resiliência(PRR) – há espaço de intervenção e mudança que possibilitaria que não tivéssemos chegado ao contexto da pandemia com tantas pessoas com vulnerabilidades. Espaço de prevenção e promoção da saúde psicológica e de resiliência social que toca 5 dos aspectos que justificam porque ainda estamos na cauda da OCDE em termos de indicadores de doença mental: a promoção alargada de competências sócio-emocionais, também nas pessoas adultas e nas e nos adultos mais velhos com níveis de escolaridade mais baixos; a promoção de literacia em saúde (psicológica) visando mais agenciamento sobre si e a procura de suporte e apoio quando necessário; o combate a todas as formas de exclusão e de pobreza com forte e cíclica associação aos problemas de saúde psicológica; a mitigação das situações de isolamento e solidão e a qualificação e integração das respostas de promoção do envelhecimento com bem-estar; o acesso e a equidade no acesso, em todas as fases e contextos de vida, próximo e contingente aos problemas, dos cuidados de saúde (primários), às escolas, universidades, locais de trabalho e instituições diversas da sociedade.

Infelizmente, o PRR nesta área é apenas plano de recuperação porque, grosso modo, ignora esta resiliência. Ignora o que nos prepararia para futuras crises, nos “puxaria” para nos projectarmos no futuro e aspirarmos ao bem-estar. Ignora que o pólo oposta da doença mental não é a sua ausência mas a saúde mental.

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Hiperespecialização: Sim ou Não?

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada” (Gonçalo M. Tavares).  Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”. Tempos que me fazem questionar se hoje, Adam Smith, “pai da economia moderna”, continuaria a defender os benefícios na capacidade produtiva e progresso da ciência da divisão do trabalho, nomeadamente a sua segmentação e a especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes como o fez há 245 anos num Mundo tão diferente do actual.

“Hiperespecialização: Sim ou Não?”, 17º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa os impactos do caminho da especialização até aos actuais processos próximos da hiperespecialização. Fá-lo descrevendo, exemplificando e distinguindo “ambientes acolhedores de aprendizagem”, onde a hiperespecialização parece produzir resultados, de “ambientes inóspitos de aprendizagem” onde tal não sucede. Ambientes inóspitos, comuns ao contexto de volatilidade e incerteza da sociedade presente e futura.

“A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida, como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem.” Isto afirmo, destacando: a forma como o ensino superior não prioriza o conhecimento conceptual e transferível e a capacidade crítica; a pouca importância dada ao grupo nas organizações (com as condições certas, mais capaz e racional que as pessoas mais capazes e racionais que o constituem); a necessidade de “psicólogas e psicólogos cidadãos, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos, mais equidade e coesão social” e de uma prática assente numa “identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia”.

“A complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao de grupos (…) Sendo bom para algumas pessoas, poucas, raramente o é para todas e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.”

 

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Mafalda, hoje.

Uma menina, cara redonda e cabelo escuro com um laço, pergunta ao pai se é um bom pai, se é o melhor pai do Mundo. Há 57 anos, um jornal Argentino publicava as primeiras tiras (esta e outra em que parte um bico de um lápis enquanto desenha uma casa e desabafa que “estas coisas acontecem apenas neste país [Argentina]) de uma inquieta e inconformada Mafalda. Sabemos a história que se lhe seguiu, sendo hoje uma das figuras mais reconhecidas globalmente da Banda Desenhada e deixando-nos (Quino) muitas tiras que ainda nos “inquietam e “jogam” com o nosso inconformismo. Partilho uma que o faz comigo.

A reflexão sobre as “raízes” do que somos, quem somos e dos nossos problemas é algo muito importante e que creio que todas e todos fazemos quando à nossa volta temos alguém que nos é querido em sofrimento, particularmente quando este sofrimento é emocional, psicológico. Por múltiplas razões que vão da ainda baixa literacia em saúde psicológica (que leva ao não reconhecimento ou aceitação do problema e, depois, à assunção da impossibilidade de recuperação – “eu sou assim, sempre fui assim, sempre serei assim”) a determinantes sociais (isolamento, solidão, precariedade, exclusão, …), o importante não se torna urgente. E esta realidade, quando aliada, à ainda gritante falta de acessibilidade e equidade na acessibilidade a ajuda profissional continuada e de qualidade neste âmbito, contribui para a existência à nossa volta tantas pessoas (e famílias e amigas e amigos que as rodeiam) que, com a ajuda certa, no momento certo, não sofreriam o muito que hoje sofrem.

Esta realidade acaba por criar uma nova urgência nesta área, tamanha que é a prevalência hoje de situações de pessoas a necessitarem de apoio especializado que faz com que a discussão do importante – o que podemos e devemos fazer e investir a montante – se faça mas acabe por pouco produzir e por resultar em insuficientes respostas. Ocupamo-nos e ocupamos os nossos parcos recursos a reparar as fugas de gás, algumas fugas de gás. Procuramos pouco as suas raízes.

É neste contexto que o debate em torno da utilização de tecnologia e big data na área da saúde mental se vem fazendo numa parte pequena do Mundo e chegando a Portugal (parte pequena porque uma grande parte não pode ou ousa sequer discutir a saúde e a possibilidade de bem-estar das suas populações – não o esqueçamos nunca!), desde a Apple que com a Biogen e a UCLA está a procurar desenvolver um algoritmo que permita que os aparelhos que transportamos nos “diagnostiquem” aos biliões de dólares que Escolas, particularmente Americanas, investem hoje em softwares (Gaggle, …) que monitorizam as actividades online de jovens estudantes em busca de indicadores que possam aparentar sofrimento ou perigo (de fazerem mal a si próprios, por exemplo).

Oxalá a Mafalda venha a estar errada no seu perentório “como sempre: o urgente não deixa tempo para o importante”. Por estes dias, por aqui e nestes problemas em particular creio que (ainda) não está.