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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia

Pai motorista

Há dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação do ano lectivo do meu filho mais velho. Socorro-me do mote da Bienal de Arquitectura de Veneza de 2021 (“Como viveremos juntos?”) e da frase do seu curador Hashim Sarkis (“um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”) para significar o que senti – como as regras dos e nos espaços podem condicionar o contrato social existente. Como me socorro do belíssimo livro “pê de pai” para, acrescentando o pê de pai motorista, aos pê de “pai avião, pai travão, pai sofá, pai boia, pai carrossel e pai túnel” do livro, nomear o que senti. O “confronto” com a arte, em duas formas distintas mas simbólicas, a permitir-me nomear e (re)significar o que senti.

“Pai motorista”, 16º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) procura reflectir sobre o nosso dever de, enquanto sociedade, “garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”)”. Procura fazê-lo, não esquecendo o momento ainda muito desafiante que vivemos e que, pese embora todos os avanços, “ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção”, ressalvando, todavia, que esta questão se coloca para períodos pós e de pandemia, conforme já se colocava pré-pandemia – não esqueço, nem esquecerei, não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.

Sinto, portanto, e isso procuro discutir, que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras, sendo especialmente necessário hoje um “empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro, nas Escolas, Unidades de Saúde, Casas de Acolhimento de crianças e jovens, Centros de Dia ou nas ERPI. “Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado.”

“E se for mais difícil? E se falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 (Ao redor…; Sábado; 07.09.2021)

São raras as situações na nossa vida onde algo que funciona num determinado momento, contexto e com determinada pessoa ou grupo funciona igualmente noutro momento, contexto ou com outra pessoa ou grupo de pessoas. O passar dos dias mostra-nos, muitas vezes com perda e sofrimento associados, que assim é. Também é isso que nos revela estudar e compreender a ciência psicológica – não há uma “receita para todas e todos”, instrumentos de avaliação e modelos de intervenção psicológica são tão mais eficazes quanto adaptados ao momento, contexto, pessoa ou grupo de pessoas.

Devemos, pois, cuidar e atender a transferências, deduções e generalizações que podem ser abusivas e resultar inapropriadas. Devemos também e em todo o caso, procurar reflectir sobre possibilidades de transferência, dedução e generalização de situações. Um exemplo possível é pensarmos em como os modelos de intervenção psicológica em contexto de crise e na comunidade nos podem ajudar a pensar o momento social que vivemos.

Daniel Caplan foi um dos precursores daquilo a que hoje podemos chamar saúde mental comunitária, enquanto possibilidade de bem-estar e florescimento das pessoas de uma e numa determinada comunidade. Dedicou parte da sua vida à inovadora teorização de modelos preventivos associados à saúde pública e revisitou a intervenção da saúde mental comunitária, contribuindo decisivamente para que passasse a considerar o contexto imediato e se centrasse nas pessoas e na relação estabelecida com elas, promovendo não apenas a sua humanidade, mas também a sua eficácia e eficiência. Caplan é também responsável por um modelo, ainda hoje amplamente referenciado, que descreve em quatro fases o processo pessoal de reacção à crise, onde o suporte emocional surge como ferramenta fundamental de adaptação. Modelo base para outros que se lhe seguiram e que viriam a sublinhar a importância do rápido acesso das pessoas à ajuda e da intervenção ser contingente ao problema, a maior abertura à mudança da pessoa em crise ou a necessidade de exploração das possibilidades alternativas e compromisso face a elas, central a modelos actuais como o preconizado pela Organização Mundial da Saúde.

As crises individuais não são equivalentes às crises societais mas os modelos referidos dão-nos pistas que, com as devidas adaptações, podem informar a situação que vivemos hoje com a pandemia COVID-19 e as suas consequências. Sublinham a importância da prevenção, proximidade, conhecimento, relação, suporte, contingência, abertura à mudança, exploração de possibilidades e compromisso, elementos que considero fulcrais no processo de resposta à actual crise.

Elementos a que devemos acrescentar a conjugação. A ideia de que por vezes, pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes. São inúmeros os exemplos que o ilustram, desde o debate sobre o difícil desafio de saúde pública que representa o suicídio e a forma como alterações ao contexto podem apoiar a sua prevenção (veja-se os impactos resultantes da mudança do gás natural distribuído em Londres que quando passou a ser mais limpo de monóxido de carbono permitiu a redução em 1/3 dos suicídios em Inglaterra, a redução significativa dos números no Sri Lanka com a aplicação de leis restritivas ao acesso a pesticidas tóxicos ou a redução resultante da proibição dos militares jovens Israelitas “levarem” consigo armas de fogo em períodos não laborais como fins de semana ou férias)[i] ao debate sobre os fundamentos da recente proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares, podemos aferir a importância que a conjugação tem no potencial de cumprimento de uma acção.

A aldeia, a vila e a cidade são o resultado da expressão da existência e da relação humana. São também o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes. Onde os desafios complexos do presente e do futuro, a cujos objectivos do desenvolvimento sustentável pretendem responder, viajam do papel e do abstracto para se revelarem nos territórios e no concreto das pessoas, dos grupos, dos lugares. São, neste sentido, contextos que necessitam de políticas e políticos que utilizem o conhecimento da ciência psicológica e a prática das psicólogas e dos psicólogos além dos papéis mais tradicionais da sua intervenção. As autarquias são assim espaços que beneficiam não apenas do reforço em número destes profissionais, como de uma maior amplitude do seu papel.

Ora, a conjugação da “crise COVID-19” nas suas múltiplas e amplas consequências com as eleições autárquicas deste mês permite uma importante oportunidade para, como noutro texto desta rubrica defendi (“Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC”; 05.05.2021), aspirarmos a projectos das Autarquias que se centrem no bem-estar e na coesão social. São as Autarquias que melhor podem, enquanto contexto próximo das cidadãs e dos cidadãos e pelo conhecimento e relação que têm com as populações, permitir uma resposta de suporte contingente aos problemas, mais eficaz porque adaptada e mais geradora de confiança nas instituições. São elas que melhor podem, antecipando desafios e crises futuras e sendo responsivas às necessidades das pessoas, adoptar estratégias de prevenção, de desenvolvimento de competências e de resiliência individual e colectiva. São elas que melhor podem, através da exploração (e experimentação) de possibilidades, corresponder à hoje maior abertura a uma mudança que, no que se refere a estilos de vida e consumo de recursos, a crise climática que vivemos torna indispensável. São elas, finalmente, que melhor podem contribuir para um mais efectivo envolvimento e compromisso de todas e todos nos processos de definição e implementação de políticas públicas.

Defendo que este aprofundamento e que a maior amplitude da utilização do conhecimento resultem, entre outros, na possibilidade da criação de equipas / unidades de ciências comportamentais que apoiem o desenho, a testagem, a implementação e a avaliação de políticas públicas tendo em consideração a forma como as pessoas se comportam e os princípios que assistem à sua tomada de decisão, nomeadamente em políticas cujos objectivos remetam ou requeiram adesão, promoção, manutenção ou alteração de determinadas práticas ou comportamentos, do consumo de água ao absentismo ou abandono escolar precoce. Também pelo investimento na promoção da saúde psicológica enquanto factor essencial nas áreas da saúde, educação, emprego, social, trabalho, justiça, ambiente ou desporto. Ou pelo papel que a ciência psicológica pode desempenhar na promoção da literacia, seja a literacia em saúde e saúde psicológica, a digital, a financeira ou a relacionada com a (des)informação e cidadania, conhecimentos cruciais ao autocuidado, à autodeterminação e à prevenção. Ainda o papel da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos nos processos de mudança e adaptação, fundamentais num futuro que os exigirá mais e mais permanentemente e que, se trabalhados e pensados com as pessoas e não contra as pessoas, podem ser concomitantes com a promoção do bem-estar. Finalmente, nos processos de envolvimento das pessoas nos processos de tomada de decisão e planeamento, reforçando a confiança e a relação entre cidadãos, decisoras e decisores e instituições e preservando a paz, enquanto princípio basilar da possibilidade de bem-estar e florescimento individual e colectivo.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos. Mundo que em muito beneficiaria de políticas e de decisoras e decisores que façam uso da ciência psicológica e das psicólogas e dos psicólogos e que priorizem a saúde psicológica, o bem-estar e a coesão social. No passado Sábado (04.09) comemorou-se o Dia Nacional do Psicólogo em Portugal, dia que celebra cerca de 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia se mobilizam para um importante (por vezes decisivo) papel junto das pessoas e das organizações e dia que afirma a sua prática como fundamental aos desafios que se colocam ao país, hoje e no futuro. Que a feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19 resulte em projectos políticos que considerem o seu contributo e o incentivem, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações. Estou e estamos aqui, disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas. Podemos e queremos contribuir no presente para o futuro do país.

 

[i] No próximo dia 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa pode ser um agente na prevenção deste grave problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 07.09.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-feliz-conjugacao-das-autarquicas-2021-com-a-infeliz-crise-covid-19

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Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses

Meu filho…

Quando hoje te deixei na Escola para o teu 1º dia do 1º ano de escolaridade pensei nos 32 anos que separam este momento de quando eu o fiz. Desse Setembro de 1989 ao de 2021, há um conjunto imenso de transformações na nossa sociedade e na nossa Escola.

Com todos os desafios que se lhe colocam e com todo o caminho que há por percorrer, o sistema educativo português é espaço de políticas (públicas) de qualidade e com resultados. Sou-lhes grato e, de certa forma, devedor. Por isso, mas também porque creio que a confiança (em nós, nas outras e nos outros e nas instituições) será decisiva para maior coesão social na resposta aos desafios societais complexos que enfrentaremos, reflticto sobre este simbólico momento.

Avançamos significativamente na escolaridade da população recuperando de um atraso significativo que penalizou gerações e gerações. Implementamos políticas de alargamento progressivo da escolaridade obrigatória, prevenção do insucesso e redução do abandono escolar precoce. Procuramos construir escolas inclusivas, promover competências sócio-emocionais e desenvolver cidadãs e cidadãos mais preparados e responsivos às e aos outros e aos desafios que o futuro nos reserva. Nem tudo se fez bem. Mas muito, por vezes com poucos recursos mas com dedicação e abnegação de muitas pessoas, se conseguiu.

A meio caminho (2005) entre os Setembros de 1989 e 2021, entrei na Escola de 1º ciclo onde fiz o meu estágio curricular e onde trabalhei nos anos subsequentes como psicólogo. Tenho perspectiva sobre o papel da ciência psicológica e da presença de psicólogas e psicólogos nos contextos escolares e da forma como sustentaram a implementação e sucesso destas políticas. Hoje somos imprescindíveis nas Escolas e somos muitas e muitos mais que em 2005. Amanhã teremos que ser ainda mais e, essencialmente, ter recursos para garantir maior eficácia na nossa intervenção, pela maior autonomia, continuidade e compreensão do papel e com melhor articulação de intervenções na Escola, na comunidade e na saúde, com enfoque no SNS e nos cuidados de saúde primários como defendemos no seu 42º aniversário que hoje se cumpre.

Conciliar, com mais exigência, medidas sanitárias com a promoção do bem-estar e da saúde psicológica, deve ser hoje objectivo central. Em 2021 lutamos por uma Escola que responda às iniquidades, promova o bem-estar e acompanhe as expectativas de estudantes e das suas e seus cuidadores. Como lutamos por políticas públicas promotoras de equidade, bem-estar e respondam às expectativas da população, utilizando eficazmente os limitados recursos disponíveis.

Que sintas, na Escola e não apenas, espaço para cresceres, floresceres, desfrutares da relação com as outras e os outros e com o que te rodeia e te sentires bem no que és e desejas ser, meu filho. Hoje. Sempre.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política Psicologia

Conjugação…

Qual a relação entre o facto do gás natural distribuído em Londres a partir de meio do século XX ter passado a ser mais limpo de monóxido de carbono; a aprovação de Leis restritivas do acesso a pesticidas tóxicos no Sri Lanka; e ter deixado de ser possível às e aos jovens militares Israelitas terem consigo armas de fogo fora do período laboral? A diminuição da taxa de suicídio no momento subsequente às mudanças naqueles três contextos. A conjugação, nos exemplos associada ao muito complexo desafio de saúde pública que é o suicídio (ver nota de fim), mas que se verifica noutros exemplos, das lojas em que somos “forçadas e forçados” a “visitar” na totalidade ainda que queiramos um único artigo e o possamos encontrar logo entrada (não raras vezes compramos algo mais) ao debate em torno da proibição de venda no interior das Escolas públicas de alguns produtos alimentares.

“A feliz conjugação das Autárquicas 2021 com a infeliz crise COVID-19”, 15º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) trata a conjugação, ou seja, a forma como “pequenas alterações no contexto podem provocar mudanças significativas nos comportamentos e na concretização de necessidades por nós sentidas, sejam elas mais ou menos conscientes” e a oportunidade que resulta do facto do momento actual conjugar a crise COVID-19 com as Autárquicas 2021, que já havia abordado nesta rubrica a 05.05.21.

É que, sendo “a aldeia, a vila e a cidade o resultado da expressão da existência e da relação humana e o micro do macro dos desafios societais, onde a pobreza ganha nome, onde as pessoas em situação sem abrigo não são apenas um número, onde a crise demográfica se expressa e se sente no dia-a-dia e onde a crise climática se concretiza em fenómenos adversos pontuais e permanentes”, o artigo discute a importância das autarquias verem os seus projectos mais informados pela ciência psicológica, as suas equipas reforçadas com psicólogas e psicólogos e a amplitude do seu papel aumentar em seis áreas nele discutidas, para em proximidade, relação e procurando a personalização das respostas, promoverem o bem-estar e a coesão social das populações.

Também porque “à crise COVID-19 suceder-se-ão novas crises resultantes de um Mundo de incerteza e volatilidade crescentes e de desafios societais complexos” e por Portugal ter já cerca de 25000 psicólogas e psicólogos “disponíveis, comprometidas e comprometidos, motivados e motivadas” que podem e querem “contribuir no presente para o futuro do país.”

 

Nota: A 10.09 assinala-se o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, desafio que a todas e todos convoca porque cada pessoa é agente na prevenção deste gravíssimo problema de saúde pública com forte impacto nas pessoas, famílias e comunidades. A este propósito, numa situação de crise, ligue 808242424 (Serviço de Aconselhamento Psicológico da Linha SNS24). Numa situação de emergência ligue 112 (INEM).

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Celebrar

Nigel Nicolson é um dos muitos escritores e escritoras que publicaram biografias ou outros textos em torno de uma das mais marcantes e mais complexas figuras da literatura mundial – Virginia Woolf. Filho de Vita Sackville-West, também ela escritora, contactou com Woolf a propósito da sua relação muito próxima com a sua mãe, de quem foi, além de amiga, amante. A certo momento Woolf disse a Nicolson que “nada acontece verdadeiramente até estar escrito”, momento que diz marcante na sua vida.

Penso esta frase numa perspectiva de “inscrição” muito explorada no trabalho e na reflexão de José Gil e no papel que a escrita (no sentido também da reflexão e da partilha) tem nos nossos acontecimentos e nas nossas práticas em vida. Penso-o também 48 horas depois do Dia Nacional do Psicólogo (04.09), ao reflectir sobre a importância da sua “inscrição” pela Assembleia da República em 2018 para celebrar o papel das já quase 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia, com a sua ciência e a sua prática, contribuem para o bem-estar de pessoas e organizações e para a coesão social no nosso país. Penso-o final e curiosamente a propósito da fase de candidaturas para o Prémio Ano Profissional Júnior 2020 que a Ordem dos Psicólogos Portugueses atribui e cujas normas e formulário de candidatura se encontram disponíveis aqui.

Porque aos desafios que hoje vivemos se sucederão outros, alguns deles particularmente complexos; porque, mais do que nunca, necessitamos de todas e todos a construírem a ciência e a profissão e a trazerem inovação e proximidade às pessoas, à sua linguagem e aos seus acontecimentos de vida mais significativos; porque, precisamos de inscrever práticas para as reflectir e para que partilhadas possam informar, melhorando, outras e possam chegar a mais pessoas; e porque precisamos de celebrar o tanto de bom que dia-a-dia, psicólogas e psicólogos, fazem por vezes em condições particularmente difíceis e exigentes – estimulo todas e todos os colegas que preencham as condições de candidatura a fazerem-no e a todas e todos os outros a acompanharem os projectos candidatos e o projecto vencedor, numa celebração da nossa ciência, da nossa profissão e do contributo que cada uma e um de nós também deu ao que informou aqueles projectos e ao que permitiu o resultado dos mesmos, no benefício de pessoas, organizações e da nossa sociedade.

Construamos e celebremos, sempre, a psicologia. A bem de estar cada vez mais próxima, mais acessível e mais capaz de apoiar as pessoas, os grupos e a sociedade nos desafios societais complexos que enfrentaremos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Menos (Ao redor…; Sábado; 24.08.2021)

Passei centenas de vezes naquele portão preto. Uma parte sempre fechada e outra sempre aberta que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua, rua da aldeia onde cresci e vivi a primeira metade da minha vida. Brinquei e brincámos naquele recinto, em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite. Brinquei e brincámos até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.

“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”, afirmou recentemente David Adjaye, arquitecto responsável pelo projecto do Museu Nacional da História e da Cultura Afro-Americana (Washington, EUA). Diz imaginar “um futuro em que templo e universidade sejam um só”, defendendo múltiplas utilizações do espaço a que acrescento, pelo maior número de pessoas (diversas), de actividades e de tempo possível. Um “templo-universidade”, uma praia para o ano inteiro ou uma escola, pavilhão ou outra infraestrutura a todo o momento disponível e acessível à comunidade. Multiutilizações de espaços e estruturas que, se projectadas de acordo com o resultado do envolvimento activo das cidadãs e dos cidadãos e conscientemente com esse fim, podem fazer jus ao bem-comum criando mais oportunidades e outras dinâmicas com menos.

A crise climática que vivemos desafia-nos e confronta-nos com a urgência de pensarmos o presente e o futuro, considerando o nosso comportamento e estilo de vida e o comportamento e estilo de vida das pessoas que connosco habitam o nosso planeta. Se em parte já significativa do Mundo se tornou prática a reciclagem, temos rapidamente assistido a um impulso para a reutilização de materiais utilizados. Em todo o caso, é também hoje claro – até pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – que um terceiro “R” será fundamental para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – Reduzir.

Se até as energias renováveis, solução mais evidente para os problemas da utilização de combustíveis fósseis, têm “custos ambientais”; se a população e a pressão sobre os recursos do planeta continua a aumentar; se as florestas e os oceanos estão cada vez mais fragilizados; se continuamos a desperdiçar mais de mil milhões de toneladas de alimentos (cerca de um terço do total produzido) a cada ano; mas também se um determinado comportamento ou prática nos “aprisiona” e nos rouba espaço e oportunidade; e se a repetição e a hiperespecialização, particularmente quando precoce, não nos prepara para um Mundo de complexidade e ambiguidade, a solução tem e terá que ser reduzir. Desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir a caminho de um menos que, conforme Adjaye preconiza, pode ser mais. De um menos que pode não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador. De um menos que previne a desigualdade e iniquidade e que promove a partilha e a coesão social.

No entanto, o caminho para este menos não é nem linear, nem simples, nem imune a perdas, podendo beneficiar de uma progressiva generalização da percepção de que o ser humano e o seu comportamento são influenciados quer pela inércia (conforme definida pela Física), quer por um conjunto de viés que concorrem para um certo “egoísmo”, muitas vezes não consciente, que nos centra em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos pequenas decisões associadas, por exemplo, a consumir algo, a deslocarmo-nos e à forma escolhida para essa deslocação ou a comprar ou não algo. Pode ainda beneficiar de uma mais ampla percepção de que mudar é, pelo questionamento inerente, pela energia que implica e pelo que impacta em nós e no nosso grupo mais próximo, muito difícil e muito desafiante. Difícil e desafiante, mas possível, particularmente quando a mudança resulta de um ou mais objectivos com significado que estabelecemos, incentivados e valorizados por outras, outros e pela sociedade, com propósito individual e social.

Essa mudança beneficiará, também, de uma atitude coerente e congruente com o conhecimento existente, que determina que algumas pessoas podem necessitar de incentivos para a compreensão e aceitação da necessidade de mudar e/ou apoio ao desenvolvimento de competências e oportunidades que permitam a mudança. Daqui resulta que devemos, enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo.

Esta mudança, atendendo às dimensões de bem-estar envolvidas, não poderá acontecer “contra as pessoas” e, por isso, não poderá assentar apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior consciencialização das pessoas, pela informação e literacia, das consequências (individuais e sociais) das suas decisões e comportamentos, nomeadamente nos que remetem para um consumo (mais consciente) e dessa forma para a possibilidade de uma mudança incremental e da avaliação progressiva e contingente de sucessos (individuais e sociais, também).

Esta mudança tem, finalmente, que envolver um grande número de pessoas – das crianças mais pequenas às adultas e aos adultos mais velhos e da “cidadã comum” ao empresário ou à decisora – e ser alimentada e reforçada pelas diversas oportunidades de criação de valor e utilização sustentável dos recursos e de gerações com experiências muito diversas que conseguem projectar memória da vivência em sociedade há quatro, cinco, seis décadas e projectar-se na sociedade nas próximas quatro, cinco, seis décadas, permitindo um olhar sobre o presente informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há espaço, particularmente em algumas sociedades e contextos, para conciliar a necessidade de desacelerarmos, nos desapegarmos, de diminuir, diversificar e, particularmente, de reduzirmos com a possibilidade de bem-estar. Há espaço para, neste processo, ganharmos proximidade, tempo, foco e energia, logo maior qualidade de vida. Há espaço para mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e com o que nos rodeia, promovendo a resiliência e a coesão social. Há espaço para um consumo mais consciente individual e colectivo, para maior partilha e para a tomada de decisão e gestão conjunta dos bens-comuns por todas e todos e para todas e todos, as e os de hoje e as e os de amanhã, garantindo maior justiça social intergeracional. Há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais. Que menos, será mais.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 24.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/menos

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Democracia Desafios da Psicologia Política

Teorias da conspiração – uma perspectiva da psicologia (Público; 19.08.2021)

As teorias da conspiração não são uma novidade no nosso Mundo. Aliás, parecem sempre ter existido.  Remetem para tentativas de explicação das causas últimas de eventos políticos ou sociais relevantes já acontecidos ou por acontecer, baseadas na acusação de alguém ou de algum grupo visto como um inimigo poderoso e malévolo. São, normalmente, explicações curtas e simples para grandes e complexos problemas; são, regra geral, apelativas ao apresentarem soluções também elas simples e, sobretudo, definitivas para problemas das pessoas e da sociedade; são, finalmente, propagáveis porque usam e abusam da dimensão emocional e muitas vezes de mentiras e manipulações pelo que, com ou sem intenção, são facilmente disseminadas pelas pessoas junto de outras pessoas.

Então porquê esta preocupação agora? Porque é hoje tão importante compreender as bases deste problema? Diríamos por três motivos fundamentais: (1) porque, com o desenvolvimento das redes sociais digitais e da sua arquitetura, o impacto é hoje muito maior. Posições minoritárias têm agora um eco muito maior, pela lógica de “bolhas” e de facilidade de disseminação da informação e, particularmente, da desinformação (até 6 vezes mais rápida segundo alguns estudos). Isto pode potenciar a utilização das teorias da conspiração para fins menos claros de manipulação das pessoas, seja para se obterem ganhos económicos diretos, através das partilhas das publicações, seja como forma de fragilizar o poder e as instituições em sociedades democráticas; (2) porque vivemos um período sério de crise (veja-se a pandemia COVID-19), onde as teorias da conspiração tendem a ser mais eficazes. Preenchem “vazios” e oferecem “controlo”, compensando uma menor confiança nas autoridades, instituições e comunicação social e beneficiando da crescente diluição de mediadores; (3) porque, enfim, podemos. Temos hoje uma vasta evidência científica, particularmente uma ciência psicológica mais desenvolvida, que nos pode ajudar a compreender, prevenir e mitigar o fenómeno e as suas amplas consequências.

Apesar de todas e todos sermos suscetíveis a acreditar e/ou disseminar desinformação, é cientificamente relevante a maior propensão de algumas pessoas para acreditarem em teorias da conspiração. A ciência parece mostrar que as pessoas que acreditam numa determinada teoria da conspiração têm tendência para acreditar noutras, que muitas vezes são até contraditórias entre si. Este facto sublinha a existência de traços (ou pelo menos características) partilhados por estas pessoas, pelo que é fundamental observar as dimensões psicológicas associadas às pessoas mais vulneráveis a estes fenómenos.

Logo à partida parece clara a utilização das teorias da conspiração numa procura por sensações de controlo e de segurança. Segurança de que a pessoa sabe o que se passa, de que detém um conhecimento superior face aos outros e às narrativas oficiais. Consegue, deste modo, responder à incerteza, à imprevisibilidade e ao contraditório, um pouco à semelhança do que acontece quando se usam crenças paranormais ou superstições. Neste sentido, estarão mais vulneráveis pessoas mais alienadas ou revoltadas face à organização social vigente. Igualmente, pessoas com menor capacidade de regulação emocional e que, por isso, utilizam mais automatismos e estão mais expostas a viés deles decorrentes nos seus processos de tomada de decisão.

Além do controlo e segurança, vários estudos têm também demonstrado que as teorias da conspiração são particularmente apelativas junto de pessoas com outras necessidades psicológicas por satisfazer como a auto-estima. Ao explicarem o desconhecido, as teorias da conspiração permitem às pessoas uma sensação de satisfação por conseguirem explicá-lo, fazendo-as sentirem-se especiais e resultando em acréscimos de auto-estima. Não será por isso estranho que o narcisismo, pautado por maior individualismo, centração em si e por uma extrema necessidade da pessoa afirmar a sua superioridade e de se considerar melhor do que a maioria das pessoas, se constitua como uma predisposição para adotar teorias conspirativas que colocam a culpa noutras pessoas ou grupos. Associando este fator aos comuns traços de impulsividade nestas pessoas e à sensação de angústia, desespero e mau estar psicológico, viver num Mundo com “pessoas malévolas” pode ser de algum modo “reconfortante”, pois fornece uma explicação para as suas emoções mais “negativas” como o medo, a raiva ou o ódio. Poderá ainda ser mais reconfortante pela associação a um grupo especial, que consegue perceber coisas que os outros não são capazes de compreender, o que será ainda mais reforçado com a diabolização de outros grupos. Este fenómeno gera maior polarização e tribalismo e ajuda a explicar também porque pessoas socialmente mais vulneráveis poderão ter uma maior tendência de identificação com estes grupos.

Resta assim claro que as teorias da conspiração promovem prejuízos sérios, uma vez que contribuem para a diminuição da confiança e para a dicotomização e polarização das opiniões e consequente incapacidade para encontrar soluções equilibradas (veja-se, por exemplo, o impacto na saúde pública dos movimentos anti-vacinas alimentados por teorias da conspiração).

Mas nem tudo é negativo. Este fenómeno pode concorrer para acelerarmos e intensificarmos seis mudanças urgentes na sociedade: (1) investir em maior transparência nas ações políticas, questionando as inconsistências de algumas decisões e abrindo a discussão de temas que de outro modo poderiam não ser discutidos; (2) promover a educação, a diversidade e acesso ao contraditório e a literacia das pessoas e da sociedade como antidoto e fator de inoculação face às teorias da conspiração. Em paralelo, influenciar mudanças nos algoritmos utilizados nos motores de busca e redes sociais nesse sentido, permitindo que uma busca de um qualquer tema ou o simples navegar em redes sociais permita acesso ao contraditório e diverso e não apenas a posições reforçadoras das ideias ou crenças de quem procurou; (3) desencadear mecanismos de reforço da confiança, de reforço da coesão e da conexão entre pessoas e grupos (incluindo políticos) por oposição ao extremar ideológico dos mesmos; (4) apostar na promoção da saúde psicológica da população, prevenindo as situações que expõem as pessoas a estes fenómenos, através da promoção da capacidade de adaptação, de resiliência (individual e social) e da crença na possibilidade de bem-estar e num Mundo tendencialmente justo e seguro; (5) investir na literacia digital e na capacitação das pessoas para uma utilização consciente das tecnologias de informação e comunicação e das redes sociais, assente no desenvolvimento de pensamento crítico sobre a informação disponibilizada e da capacidade de distinção entre factos / evidências e opinião; (6) investir no combate às iniquidades, desigualdades e a todas as formas de exclusão.

Bem sabemos quão longo, complexo e desafiante é este caminho. As desigualdades, as dificuldades económicas e sociais, a vulnerabilidade a abusos e as sensações de injustiça são um combustível ótimo para as pessoas embarcarem neste conforto de se sentirem parte de algo importante e poderoso. Parecem poder acabar com o mal do Mundo, punir os culpados e, enfim, sentirem-se compensados de todos os males sofridos. As psicólogas e os psicólogos podem ter um papel importante no trabalho com estas pessoas pelo seu papel na facilitação do desenvolvimento de mecanismos mais funcionais que as possam ajudar a lidar com as suas dificuldades. A ciência psicológica pode contribuir com evidência para a compreensão do fenómeno e para ajudar quem decide a desenvolver políticas que o possam prevenir e mitigar. Enquanto sociedade, temos a responsabilidade de valorizar a diversidade e de sermos mais inclusivas e inclusivos e promotores de pontes entre as pessoas, diminuindo a sua marginalização e vulnerabilidade às teorias da conspiração e a outros fenómenos que impactam significativamente a sua possibilidade de bem-estar.

 

Miguel Ricou e Tiago Pereira

Jornal Público; 19.08.2021

https://www.publico.pt/2021/08/19/sociedade/opiniao/teorias-conspiracao-perspetiva-psicologia-1974559

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia

Impaciência do Coração

Já havia escrito a propósito da (feliz) coincidência da estreia do programa “Impaciência do coração” ter acontecido num dia para mim impossível de esquecer, porque nele “tive” o que de mais significativo posso esperar na minha vida.

Volto ao programa hoje para convidar, a quem possa interessar, a ver (ou rever) o episódio ontem transmitido na RTP2 no qual converso com a Gabriela Moita sobre questões em torno da informação e da desinformação.

Uma conversa, superiormente conduzida pela Gabriela Moita e para mim muito estimulando, onde procuro com a minha reflexão dar um pequeno contributo para, na linha do slogan de um projecto jornalístico que acompanhei (até deixar de ter a sua versão internacional), percebermos um pouco melhor porque o que está a acontecer está a acontecer e não apenas sabermos ou percebermos que está a acontecer.

Uma conversa sobre os pressupostos da desinformação, os seus impactos e consequências, o que sabemos e não sabemos e o que podemos fazer. Uma conversa também em torno das questões da confiança e da polarização e dos contributos (e desafios também eles complexos nesta matéria) da ciência psicológica e do conhecimento de como as pessoas se comportam e tomam decisões para compreender, prevenir e mitigar estes fenómenos.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática

Menos

“Passei centenas de vezes naquele portão preto (…) que “separava” o interior do recinto daquela escola primária da minha rua. Nele brinquei e brincámos em dias de semana e ao fim de semana, durante o dia e a noite (…) até que um dia o lado sempre aberto do portão encontrou o lado sempre fechado e assim permaneceu, criando uma barreira e fazendo daquele recinto escolar uma ilha apenas utilizável num pequeno período de tempo, por um pequeno grupo de pessoas. Espaço anulado enquanto espaço de todas e todos, enquanto bem-comum.”

“Menos”, 14º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) começa com esta minha recordação de infância e procura abordar a necessidade de juntarmos um terceiro “R” ao “Reciclar” e “Reutilizar”, o “Reduzir”. Não apenas reforça a sua evidente necessidade para mitigar a emergência climática resultante da acção humana – aliás sublinhada pelos recentes e muito mediatizados dados disponibilizados pelo Painel Intergovernamental das Alterações Climáticas (IPCC) – como, a propósito de uma recente afirmação de David Adjaye (“Gosto de estruturas híbridas. Não quero uma igreja que sirva apenas uma vez por semana. Para mim, um edifício bem-sucedido é um edifício de utilização permanente”), procura afirmar que “há espaço para que, dia-a-dia, integremos que menos pode ser mais; que menos, será mais”.

Pelo meio, o artigo também aborda a possibilidade de “desacelerar, desapegar, diversificar, diminuir e reduzir” poder “não apenas ser conciliável com o bem-estar, mas até seu gerador” e desse menos ser um contributo na promoção da partilha e da coesão social e na prevenção da desigualdade e iniquidade. Para tal, precisaremos de “enquanto sociedade, organizar-nos e prepararmo-nos, para mudar, apoiando as e os de nós que possam ter mais dificuldades neste processo”, nomeadamente sublinhando a inércia e alguns viés que conduzem a um “certo egoísmo” do ser humano, muitas vezes não consciente, que nos leva a manter determinados comportamentos e a centrarmo-nos mais em nós (e menos nas e nos outros), no nosso contexto (e menos nos contextos ao nosso redor) e no presente ou futuro de curto prazo (e não no de médio ou longo prazo) quando tomamos decisões.

Discute ainda a importância da mudança ser feita a partir de objectivos com significado e propósito individual e social e com as pessoas e não contra as pessoas, pelo que não apoiada apenas em restrições e proibições, mas numa progressiva maior informação e literacia (consciencialização), que estimule um consumo mais consciente e a possibilidade da mudança incremental e sua avaliação progressiva. Finalmente, reflecte sobre a necessidade do envolvimento de todas e todos, do cidadão comum à decisora, do adulto mais velho às crianças nesta mudança, permitindo um olhar mais amplo sobre as possibilidade de criação de valor e de utilização sustentável dos recursos e sobre o presente, informado pelo passado e pela expectativa de futuro.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política

Eu julgo, tu julgas, ela/s e ele/s julga/m, nós julgamos (Ao redor…; Sábado; 10.08.2021)

“Não há vestígios de mim no quarto onde a Meredith foi assinada (…) mas tentam encontrar a resposta nos meus olhos, quando a resposta está mesmo ali. Estão a olhar para mim. Porquê? Estes são os meus olhos. Eles não são provas objectivas.” Amanda Knox, jovem Americana duas vezes condenada e outras duas vezes ilibada, a última das quais definitivamente, da participação no violento homicídio da sua companheira de casa em Perugia (Itália) em 2007. Além dos quatro anos que esteve detida e dos oito anos de processo, ainda hoje muitas e muitos a julgam culpada (no mínimo corresponsável) deste crime, não porque existam provas ou sequer indícios nesse sentido, antes pela “inadaptação” do seu comportamento (assim sucessivamente descrito e caracterizado) na fase de investigação que se sucedeu ao crime e pela forma como reagiu a toda a pressão (psicológica) associada à situação e a que foi submetida.

Todas e todos julgamos. Todas e todos tendemos a crer, a supor, a formar juízo, normalmente valorativo, e até a sentenciar outras e outros, conheçamo-los ou não. Fazemo-lo para minimizar a incerteza que nos causa desconforto, particularmente quando estamos ou nos sentimos em situação de maior vulnerabilidade. Fazemo-lo porque assumimos conhecer o ou a outra e a situação, sendo-nos, portanto, possível compreender e expiar, distribuindo culpa e a afirmando a superioridade moral e de comportamento face às ou aos culpados (por vezes grupos). “São as pessoas a projectarem os seus medos. Querem a garantia de que sabem quem são as pessoas más e não são elas”, diz Amanda Knox. Algo tão comum que, em alguns círculos, é não apenas a norma mas identitário, funcionando o julgamento de outros e outras como parte de um todo em que quem o constitui, mais do que se identificar entre si, identifica-se nesse julgar, nesse combater, do e dos inimigos. Do ou dos inimigos, reais ou não, porque muitas vezes estes fenómenos resultam da utilização de desinformação ou mesmo da construção e proliferação de teorias da conspiração.

Isto, apesar da sociedade ter instrumentos democráticos que asseguram direitos às pessoas visadas ou mesmo investigadas, quando se trata de processos formais. Apesar de existirem normativos autorregulatórios sociais, das forças policiais ou de um conjunto de associações profissionais como a minha, cujo código deontológico, por exemplo, convoca os psicólogos e as psicólogas para uma atitude de “não julgamento” face a “outros colegas ou outros profissionais”. Isto, apesar de todos e todas já termos experienciado dúvida – se não mesmo arrependimento – após um julgamento de uma situação, pessoa ou grupo que mais tarde consideramos desadequado ou injusto. Isto, apesar de já todos e todas termos experienciado que detectar uma mentira, conforme inúmeros estudos têm demonstrado (ver, por exemplo, Paul Ekman ou Timothy Levine) nos é difícil (muito mais do que achamos). E isto, finalmente, quando, também ao contrário do que pode parecer, julgar é muito desafiante e difícil.

A conectividade, a velocidade e a globalidade que caracterizam o Mundo, hoje, fazem com que vivamos certamente as décadas em que mais pessoas contactam, por múltiplas razões, com pessoas de si diversas e para si desconhecidas. Viagens, de lazer ou de trabalho, organizações ou eventos multinacionais, redes sociais e outras tecnologias de contacto e conexão fizeram dos últimos 20 anos os 20 anos da história da humanidade em que mais nos relacionamos directamente com outras e outros nossos desconhecidos. Este facto explicará parte da colaboração nos fantásticos desenvolvimentos nos últimos anos nas áreas científica, desportiva ou artística para dar apenas três exemplos, que vivem da riqueza da diversidade e da complementaridade, mas também os mal-entendidos potenciais (não necessariamente problemáticos) quando contactamos com desconhecidos que, ao contrário do que intuitivamente poderíamos esperar (e do que achamos), até podem aumentar com mais contacto. Devíamos, assim, ser humildes e abertos quando contactamos com desconhecidos e desconhecidas. Ao invés, muitas vezes somos certos da “verdade” sobre eles e elas e disponíveis para investir, apenas, na confirmação dessa “verdade”. Certos e preparados para conscientemente não interromper o impulso e… julgar.

“Todas as pessoas julgam e por isso não estamos aqui para mudar a mente das pessoas e dizer que não julguem (…) antes para tornar a informação disponível em ambiente seguro para que possam tomar decisões, esperamos, mais informadas”. Palavras de Ronnin Abergel, fundador e Director da Humam Library (Biblioteca Humana) criada em 2000 com o lema “Unjudge someone” (Não-julgues alguém) e cujo objectivo último visa a criação de espaços permanentes de conversação sobre a diversidade, baseados não em julgamentos impulsivos (automáticos) mas racionais (ponderados) após contacto com alguém que sabe, conhece ou vive a situação em apreço, permitindo a discussão de assuntos desafiantes e o colocar “à prova” os nossos estereótipos. Um projecto cujo fim último é relevantíssimo para a coesão social, qualidade de vida e vida em sociedade de todas e todos e que usa da transposição da biblioteca (de livros para humana), do ditado popular “não julgues um livro pela capa” (de um livro para uma pessoa) e da arte enquanto veículo primordial para a compreensão, aceitação e para a ideia de não julgamento – “Don´t let me be misunderstood” (Não me deixes ser mal-entendida), cantava Nina Simone.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos promover estes contactos e diálogo na diversidade com relação, segurança e com confiança nas e nos outros, como forma de construirmos uma sociedade não baseada numa atitude permanente de julgamento, de trincheira e de estereótipos e preconceitos. Aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, também pela promoção da saúde psicológica, da empatia, da abertura, da aceitação, da resolução não violenta de conflitos, da mediação e da negociação, afirmar a honestidade e a confiança por defeito como princípios humanos e valores humanistas, enfrentando os reveses de quando se comprova que assim não é, mas prevenindo os que resultam de uma atitude em que, por princípio, assim nunca é. Aqui e ali, no Mundo ao redor, ganhemos, desta forma, mais tempo e energia para nos (re)centrarmos no que controlamos, investindo em nós, no nosso autocuidado e na promoção de competências que nos permitam crescer e contribuir para um Mundo tendencialmente justo e seguro e enquanto espaço possível de bem-estar para todas e todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, reflictamos na situação vivida por Amanda Knox e nas suas palavras – “Há quem acredite na minha inocência. E há quem acredite na minha culpa. Não há meio termo. E, se sou culpada, isso significa que sou derradeira figura a temer. Porque não sou a óbvia. Mas, por outro lado, se sou inocente, isso significa que todos somos vulneráveis e esse é o pesadelo de todos” – buscando o efeito tranquilizador de sabermos que o erro de não condenar (nas múltiplas aceções da palavra) quem o mereceria tem um valor (democrático e de direitos humanos) claramente distinto do de condenar quem não o mereceria.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 10.08.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eu-julgo-tu-julgas-elas-e-eles-julgam-nos-julgamos