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COVID-19 Desafios da Psicologia

1 milhão

Ao contrário das adeptas e dos adeptos do FCPorto e de futebol no geral, muitas pessoas recordam João Pinto, ex-jogador de futebol, quase exclusivamente por uma resposta a uma pergunta em que lhe era pedia a antevisão de um jogo: “Prognósticos? Só no fim do jogo.” Uma “adaptação” ao fenómeno desportivo da “dificuldade de fazer previsões, particularmente sobre o futuro” algo particularmente verdadeiro quando essas previsões dependem da conjugação de múltiplas, algumas delas incertas, variáveis, e cuja pandemia COVID-19 é um exemplo. Neste grande desafio societal global foi a ciência (que muito rapidamente lhe respondeu) que, também ao permitir a decisão informada das autoridades, introduziu a previsibilidade possível e necessária às populações num momento de incerteza.

O trabalho do @André Manuel Correia do Expresso recorda a capa do jornal no dia 29.02.2020 onde a Directora Geral de Saúde admitia que num dos cenários com que se estava a trabalhar se estimava a infecção de 10% da população, cerca de 1 milhão de pessoas. Esta manchete, num momento em que não existiam ainda casos de COVID-19 confirmados em Portugal, foi muito discutida e demonstrava que além de ser difícil fazer previsões, é difícil comunicar previsões (e não apenas) e explicá-las. Hoje já ultrapassamos esse cenário que, conforme a evolução da pandemia e do conhecimento foi ajustado e já aponta para outro valor, e é muito mais perceptível para toda a população.

No meu contributo para esta peça foco-me na dimensão das dificuldades e problemas de saúde psicológica que sugiram ou se aprofundaram com a pandemia e com o que dela resultou e resultará. Usando da analogia anterior, creio hoje mais evidente para todas e todos, a importância da saúde psicológica no bem-estar (e também na coesão social) e a prevalência de problemas a este nível (porque assim estamos ou temos pessoas próximas nesta situação e porque há hoje mais consciência e literacia na sociedade que permite o seu reconhecimento e que sobre isso se fale e discuta). Reforço também o papel que a ajuda (nomeadamente o apoio psicológico) contigente pode desempenhar em momento de maior vulnerabilidade das pessoas – “Quando enfrentamos uma dificuldade, uma crise, um desemprego, um divórcio ou um luto, é muito importante ter um apoio, até pode ser pequeno desde que seja próximo” – o que convoca o país e toda a sociedade para se organizar no sentido de procurar garantir este apoio e o suporte emocional de que necessitamos.

Se assim for, a previsão, ainda que com as incertezas, será sempre melhor para cada um e uma de nós, país e Mundo fora.

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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

20 anos de CRESCER

Iniciei a minha formação em Psicologia no primeiro ano do novo milénio. Nesse 2001 um conjunto de profissionais da área da intervenção comunitária (parte hoje colegas), criava a “Crescer na Maior”, hoje @CRESCER. Associação que, ao longo destes 20 anos, cresceu da intervenção com crianças/jovens numa área geográfica reduzida para um conjunto amplo de geografias e de situações de vulnerabilidade: prevenção, redução de riscos e minimização de danos em consumidoras e consumidores de substâncias psicoactivas; prevenção do abandono escolar precoce, suporte a percursos de re(inserção) do mercado de trabalho e promoção da empregabilidade; apoio à inclusão de pessoas em condição crónica ou em situação de sem abrigo; apoio à inclusão social e comunitária de refugiadas e de refugiados; e apoio a pessoas em situação de maior vulnerabilidade (que acumulam várias das condições anteriores).

20 anos a crescer e a ousar cruzar conhecimentos e experiência que dia-a-dia a equipa adquiriu no trabalho e na relação com as pessoas que beneficiavam da sua intervenção, com a melhor evidência científica, também da ciência psicológica, suportando projectos inovadores: das equipas de rua (“É uma rua”), à metodologia housing first (“É uma casa”), aos Marhaba, “É um restaurante” e “É uma mesa”.

20 anos de resiliência numa área (intervenção comunitária) onde todas e todos sabemos (eu de experiência própria) cujos resultados não estão à distância de um estalar de dedos. Numa área onde persiste uma visão, muitas vezes das autoridades e de decisoras/es, tendente a que as pessoas que nela trabalham não necessitam de “muitas condições” porque ainda muito associada às importantes (mas insuficientes, não continuadas e muitas vezes pouco conectadas com a evidência científica) intervenções voluntárias. Numa área em que precisávamos de um Deus Grego que não o Chronos ou o Kairós para descrever o “tempo da intervenção comunitária” e os hiatos entre a necessidade do apoio, a sua disponibilidade e a sua efectivação, com tudo o que isso impacta em perda no resultado potencial da intervenção e, principalmente, em sofrimento e exclusão das pessoas.

20 anos de empenho e compromisso e de, no quadro de “frustrações” e de desafios muito complexos, existir sempre um sorriso e confiança na outra ou o outro, seja ela ou ele quem for. Um sorriso, um confiar e um braço que procura ligar, quem assim o deseja e no respeito mais integro dos seus direitos humanos (e da sua história e experiência), a uma relação, grupo e comunidade. Um braço que lá está também por cada um ou uma de nós e para cada uma ou um de nós e que representa fielmente a promoção da coesão social e da autodeterminação e do bem-estar de todas e todos – afinal, o que me fez e faz ser psicólogo.

20 anos onde a sua zona de conforto, conforme a campanha que lançaram, sempre foi “abaixo do radar (mediático)” mas em que o desconfortável foi (é e será) “não poder ajudar”. Conheçam. Envolvam-se. Muito obrigado, Crescer.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Balda da Escassez (Ao redor…; Sábado; 27.07.2021)

Em 20 anos desembarcaram cerca de 400.000 migrantes em Lampedusa, ilha Italiana com 20 km quadrados e menos de 7000 habitantes. Assim começa o documentário “Fogo no Mar” de Gianfranco Rosi (2016), assinalando as muitas pessoas que em condições de enorme vulnerabilidade, chegam à ilha depois da travessia do Mediterrâneo (estreito da Sicília). A essas somam-se as cerca de 15.000 que se estima terem nele perdido a vida, mais de 2 pessoas em média a cada dia daqueles 20 anos.

O documentário, vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2016, continua com uma imagem de uma cozinha e de uma mulher que poderia ser cada uma de nós ou nossa familiar. Prepara um refogado com os tomates de que conhecemos a cor, o sabor e o cheiro. Ouve uma rádio local de que conhecemos os programas e os sons. A diferença nem está na segunda notícia do noticiário daquele Domingo (o anúncio de cortes na eletricidade na ilha), apenas na língua e na notícia que o abre: mais um barco naufragado com 250 pessoas, mais 204 pessoas “salvas” mas mais 34 corpos recuperados, entre os quais mulheres e crianças, e 12 ainda por recuperar. “Pobres almas”, diz para si a mulher, sozinha na cozinha.

Em Agosto de 2019 todas e todos olhamos as águas de Lampedusa quando nesse Agosto acompanhamos as sucessivas recusas de Matteo Salvini, então Ministro do Interior Italiano, aos pedidos de acostagem do navio “Open Arms” com 147 migrantes resgatadas e resgatados do mar a bordo. Pensamos certamente nas pessoas a bordo e na complexidade da situação. Ouvimos Salvini defender a sua posição voltando à “alma” (“Não me pagam para ser uma boa alma…”) e focando sempre a associação a questões securitárias (“…mas para defender a segurança (…) confirmo, tenho a obsessão pela segurança dos cidadãos”).

Ao contrário da relação que Salvini pretende estabelecer, se há algo que une as diferentes pessoas que arriscam a travessia do Mediterrâneo procurando chegar à Europa, não é certamente o potencial para o crime e para colocar em causa a segurança do continente, antes a escassez. A escassez económica, é certo. Mas, muito e muitas vezes, associada à escassez de liberdade de opinião/religião/orientação sexual. À escassez de paz, inclusão ou de qualquer outro direito universal. À escassez de poder ser-se pessoa, de ter as necessidades mais básicas preenchidas, de se viver com espaço e potencial para se cumprir e aspirar a qualidade e bem-estar.

É a escassez que as une, como é a escassez que une as pessoas que vivem em situação de pobreza e não qualquer marcador genético ou traço de personalidade consoante há décadas era comummente considerado. Numa célebre entrevista no final de 1978, Margaret Thatcher defendeu a “inexistência de pobreza primária no Reino Unido (e nos países ocidentais)” assegurando que os problemas que restavam a este nível resultavam da incapacidade de “gastar o dinheiro”, “gerir orçamentos” e, principalmente, dos “realmente complexos defeitos de personalidade” das pessoas nesta situação. Esta posição reflecte a “individualização” de um problema social sistémico e complexo, além de acentuar que a pobreza resulta de falhas de competências das pessoas, nomeadamente da falta de auto-controlo e de capacidade de planeamento e tomada de decisão. Mais de 40 anos passaram e, embora com matizes, esta é uma posição ainda frequente no debate político e público sobre as questões da pobreza o que redunda numa dupla penalização das pessoas que vivem esta situação – às suas impactantes consequências acresce que se estão em situação de pobreza será por sua responsabilidade, por sua culpa.

Uma posição cientificamente muito pouco sustentada. Particularmente nas últimas duas décadas a evidência científica disponível, muita proveniente da ciência psicológica, demonstra de forma cada vez mais sólida o contrário. Ou seja, ao invés da pobreza resultar de faltas de capacidade de uma determinada pessoa é a falta de capacidade que resulta da situação de pobreza. É a escassez associada à situação de pobreza que impele a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida. É a escassez associada à situação de pobreza que, ocupando a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa (tal como quando demasiadas pessoas acedem à mesma banda larga de internet e a sua capacidade, fiabilidade e velocidade diminui), condiciona significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento. Além destas constatações, a ciência tem ainda demonstrado a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.

Exclusão também retratada no “Balada de um Batráquio” filme também vencedor do Urso de Ouro (mas das curtas-metragens) desse Festival de Berlim de 2016, realizado pela portuguesa Leonor Teles. Curta que começa com uma lenda sobre um “sapo que não foi convidado para a festa porque era feio” e que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, sobre a comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo. Onde na pobreza surgia a justificação do “traço de personalidade”, nesta exclusão é o “traço físico” e uma pertença comunitária que a define, desaproximando e, conforme a evidência científica tem demonstrado, reforçando o ciclo atrás exposto e polarizando grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a escassez persiste e é, não raras vezes, complementada e exponenciada por fenómenos de exclusão sobre quem com ela sofre. No momento de imprevisibilidade global que ainda vivemos pela pandemia, com o aprofundamento das desigualdades dele resultante e com o crescimento do risco potencial global de pobreza, é fundamental responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se nas instituições e sociedade civil a confiança nas pessoas e promovendo a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica. Hoje, fixos no presente que estamos também pela incerteza, é tempo de se preparar o futuro. Um futuro com mais ciência, com maior compreensão, com mais empatia e convivência. Um futuro com mais oportunidade de bem-estar e de qualidade de vida para todas e todos. Um futuro com mais coesão social e equidade. Um futuro com menos pobreza, exclusão e escassez.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 27.07.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/balada-da-escassez

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Dialécticas…

Chegamos ao Verão de 2021 ainda desafiados pela incerteza e por alguma complexidade no que nos rodeia. O meu aniversário cumpriu-se neste tempo e esse dia teve para mim, simbolicamente, alguma da dialéctica do momento: um dia tranquilo, pacífico, de conforto, junto do que faz de mim parte de um “nós” bonito e, por tudo isso, feliz; um dia em que, ainda assim, “faltaram(-me)” algumas pessoas e em que o Mundo perdeu uma referência da minha formação enquanto pessoa e profissional – Albert Bandura.

Esse meu dia abriu uma semana que terminou com uma participação minha na TVI24 sobre o momento actual da pandemia e os seus impactos nas crianças. Nela, de certa forma, toco também estes três aspectos:

1) a forma como urge mais e melhor equilibrar o que são ainda medidas de protecção sanitária necessárias com medidas de promoção da saúde psicológica, particularmente considerando os grupos de crianças e jovens (e mães, pais e cuidadoras/es) com maiores vulnerabilidades, quer sejam decorrentes de serem previamente vítimas de situações de violência várias, de ansiedade social ou outras. Também e porque, além de resilientes, as crianças, se envolvidas e se confiarem, compreendem bem as normas e regras (e as suas alterações) e conseguem normalmente adaptar-se às mesmas (bastará pensarmos na forma como se “movimentam” bem nas diferenças de regras, por exemplo, no triângulo Casa-Escola-Casa dos Avós);

2) a importância das crianças “faltarem” às outras crianças e da relação e do brincar no seu desenvolvimento, bem-estar e na capacidade de empatizar com a outra e o outro e, portanto, de com pequenos mas intencionais e incrementais passos podermos ir-nos aproximando de uma realidade com mais interacção social e menor isolamento;

3) Bandura e a (“sua”) aprendizagem social, na necessidade de nos experimentarmos com e através das outros e dos outros, aprendendo com os seus comportamentos e com (a expressão) as suas emoções.

Falar ajuda, digo-o também. Por vezes não é suficiente mas ajuda. Como pensar nos ajuda a reflectir sobre o presente, um presente que nos desafia como indico e que tem crianças a sofrer os impactos em áreas diversas de “tantos meses com restrições, máscaras e com a sua espontaneidade diminuída” e do agravamento da desigualdade e do potencial de pobreza. A reflectir e a actuar, espero, para projectarmos um futuro conforme também indico com cidades a pensarem mais o bem-estar e a coesão social (e teremos eleições autárquicas em breve), com trabalhadoras e trabalhadores mais apoiadas e apoiados no equilíbrio entre vida pessoal e profissional (e debatemos por estes dias o livro verde do futuro do trabalho) e com pessoas mais atentas a si – com maior literacia em saúde e saúde psicológica – e à necessidade de cuidar de si e das outras e outros.

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Dia da sobrecarga – 2021

A semana termina com a humanidade a já ter consumido a totalidade de recursos disponíveis no planeta para todo o ano. “Se tivéssemos necessidade de ser alertados da emergência climática e ecológica com que estamos confrontados, o dia da sobrecarga da terra encarrega-se disso” disse Susan Aitken, presidente da Câmara Municipal de Glasgow que regerá a COP26. Dia que, após chegar 3 semanas mais tarde em 2020, volta à sua preocupante e perigosa trajectória (29.12 1970; 04.11 1980; 11.10 1990; 23.9 2000; 7.8 2010; 29.07 2021). Em 2021 precisávamos de 1,7 planetas Terra para satisfazer as necessidades da população mundial, afirmou a ONG responsável pelo indicador que resulta do (des)equilíbrio entre a pegada ecológica da actividade humana e a “biocapacidade” do planeta.

Uma semana antes a TSF promoveu um Fórum (“O que devemos fazer perante as alteações climáticas? Agir é preciso.”) que, sucedâneo às graves inundações no Centro da Europa, nos confronta com o nosso papel na emergência climática. Já por aqui escrevi sobre isso no momento da organização com a APA de uma Summit que, sobre este tema, reuniu em Portugal organizações representativas de mais de 1 milhão de psicólogas e psicólogos de todo o Mundo.

Na minha participação no Fórum sublinhei a importância da literacia e saliência deste tema e da reflexão sobre os “incentivos” e “obstáculos” que se colocam à mudança, para que sobre uns e outros possamos agir, reduzindo os atritos para promover e facilitar as difíceis e exigentes mudanças – “tem que ser fácil reciclar, comprar produtos locais, movimentarmo-nos de bicicleta, utilizar menos plástico” e para isso devemos utilizar “incentivos, mobilizadores e normas sociais e até o papel que as crianças e jovens podem ter na mudança de comportamentos”.

Abordei também a forma como a saúde psicológica e identidade (social) condicionam a mudança e o impacto da crise climática na própria saúde psicológica, quer no que se refere às pessoas e comunidades que se confrontam com perdas, lutos e trauma resultantes de situações de catástrofe, quer da própria “eco-ansiedade”. Refiro, ainda, a necessidade e urgência de se trabalhar com as comunidades mais expostas a estes fenómenos, formas de organização e resposta a situações de crise e catástrofe, promovendo a resiliência individual e social.

Sabendo-se que “a informação pessoal, mais imediata, concreta e local é mais eficaz que as estatísticas globais (as cheias da Alemanha também são as do nosso Tejo; os incêndios dos EUA os nossos incêndios rurais)” devemos utilizá-la, promovendo um consumo mais consciente de recursos e o reforço da empatia com as comunidades que mais sofrem com esta grave crise, sempre tendo presente que devemos procurar mudanças com as pessoas e não contra as pessoas, pelo bem-estar e não contra o bem-estar. Mudanças para que precisemos apenas de 1 planeta, de 1 planeta com futuro.

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Balada da Escassez

O termo “balada” remete no binómio música-literatura para uma música ou canção com forte carga sentimental e para uma forma narrativa poética de lendas. A “Balada do lado sem luz”, composta por Gilberto Gil e interpretada por Maria Bethânia (que vos convido a ouvir) é um excelente exemplo de uma balada de nome balada que o sintetiza na metáfora (“lado sem luz” vs “lado com luz”) e na mensagem de que devem as pessoas do lado sem luz, “subterrâneos gelados do eterno esperar (…) navegar, descobrir outro dia, outro sol”.

“Balada da Escassez”, 12º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) parte da ideia de balada “à boleia” dos filmes Urso de Ouro (longa e curta-metragem) no Festival de Berlim de 2016 – Fogo no Mar, Gianfranco Rosi (Itália), sobre as interfaces e a vivência das e dos habitantes da ilha de Lampedusa e das e dos migrantes que chegam à ilha, em condições de enorme vulnerabilidade, através de travessias do Mediterrâneo; Balada de um Batráquio; Leonor Teles (Portugal), sobre um fenómeno que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, acerca da comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo.

O artigo (que vos convido a ler) reflecte sobre o que une as e os migrantes que “arriscam” a travessia do mediterrâneo – a escassez – para procurar pensar as suas implicações: impelir a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida; ocupar a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa condicionando significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento.

Aborda também a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.

Procura, ainda, pensar a exclusão e sobre como também a ciência, também a psicológica, tem afirmado o seu papel no ciclo de “desaproximação” e de polarização de grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.

Termina reflectindo sobre o momento que vivemos – e como também ele nos fixa ao presente e exponencia desigualdades e o potencial global de pobreza – e sobre como é fulcral responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se a confiança nas pessoas e potenciando a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica.

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Estado da Nação, 2021

Estado da Nação 2021. Neste final de tarde passam 500 dias sobre o momento em que a Presidência da República informou que o Presidente da República permaneceria duas semanas em isolamento profilático depois de uma turma de uma Escola de Felgueiras ter participado na iniciativa “Artistas no Palácio de Belém”. Estávamos num Domingo (8 de Março de 2020) e tínhamos apenas ainda cerca de 30 casos positivos de COVID-19 confirmados em Portugal (incluindo na referida turma) e, este acontecimento, vinha reforçar a narrativa do “vírus democrático”, que a todas e todos podia infectar. Assim era e é, embora exista cada vez mais diferença no nível de protecção entre diferentes pessoas. Assim não era, não é e não será para os impactos da crise pandémica que vivemos, nas suas múltiplas consequências, onde pela desigualdade e vulnerabilidade, pessoas e grupos populacionais são muito mais e muito mais duradouramente impactados.

500 dias. Cerca de 6 vezes menos dias face aos que passam (3063) desde 2 Março de 2013. Aí vivíamos, também um fim de semana (mas um Sábado), onde um pouco por todo o país muitos milhares de pessoas (mais de um milhão, segundo quem organizou) saíram às ruas do país para demonstrarem o seu descontentamento com a grave crise socioeconómica que vivíamos e os impactos, também eles desiguais, no presente e para o futuro que comportavam. Foi um momento, por simbólico, marcante do desafio que o país vivia.

Duas impactantes crises e dois grandes desafios em duas décadas essenciais ao Estado (actual) da Nação. Também dois, mas (importantes) estudos – “Portugal, Balanço Social” de uma equipa da Nova que sublinha que “os grandes agregados macroeconómicos refletem o impacto sem precedentes da pandemia na economia Portuguesa”; e “Governar em Estado de Emergência” de uma equipa do ISCTE que assinala o acentuar das desigualdades e de “discursos pouco democráticos” mas também a “capacidade de adaptação dos serviços (públicos)” – foram recentemente apresentados e auxiliam o momento de reflexão (Debate do Estado da Nação 2021) que está a terminar na Assembleia da República.

Momento a que me associo para, também pela experiência da primeira crise que vivi enquanto ainda jovem adulto, desejar que: 1) ao contrário dessa crise, nesta não se descure o papel da saúde psicológica e da recuperação das pessoas no país (alguém se lembra dessa dimensão ser debatida e investida aquando dessa crise?); 2) reforçar o combate aos factores promotores e reforçadores das iniquidades e desigualdades enquanto garante de coesão social e resiliência pessoal e social; 3) reforçar e promover a confiança nas pessoas, nas instituições e na sociedade; 4) termos sempre presente que 3) não é possível sem 2) e 2) não é possível sem 1).

Sem as pessoas, as instituições e sem coesão social não se ultrapassam crises e desafios societais. Sem confiança das pessoas nas pessoas, das instituições nas pessoas e das pessoas nas instituições não se ultrapassam crises e desafios societais.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Psicologia

O desafio da natalidade e o cogumelo português.

O “Super Mário Bros” chegou às consolas da Nintendo e ao imaginário da minha geração e das seguintes em 1985, 120 anos após a data da 1ª publicação de Alice no País das Maravilhas. O jogo partilharia com a história uma particularidade: num e noutro a protagonista e o protagonista crescem com cogumelos, quando chocam com eles (jogo) ou comem um dos seus lados (livro). Portugal também tem um cogumelo nas vividas palavras de Ana Fernandes, presidente da Ass. Portuguesa de Demografia, quando descreve as mudanças que espera na estrutura populacional com os dados do Censo 2021: “uma aproximação da pirâmide etária àquilo a que chamo a imagem do cogumelo da bomba atómica (…) em que a parte central e a base da pirâmide se encolhem acentuadamente e o topo aumenta”. Um cogumelo que, contrariamente aos do jogo e do livro, não nos faz crescer. Pelo contrário.

“O desafio da natalidade e o cogumelo português”, 11º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) reflecte sobre as causas para a rápida transformação da pirâmide etária da população residente em Portugal, das francamente positivas (por ex., aumento da esperança média de vida) às negativas (efeito da crise socioeconómica da última década) passando por uma particularmente desafiante: a natalidade.

“No próximo ano passarão 40 anos consecutivos em que a fecundidade não permite a substituição de gerações em Portugal e 13 com saldo natural negativo”. O momento que vivemos, além de resultar em nova crise socioeconómica, pela sua imprevisibilidade, incerteza e insegurança associada, é propício a uma maior fixação no tempo presente e a um adiamento de decisões, impactando a natalidade.

“A Estratégia Portugal 2030, resultante do PRR, destaca a sustentabilidade demográfica, propondo-se “mitigar a perda populacional actual projectada para 2030, perseguindo a recuperação dos indicadores de natalidade e reforçando os saldos migratórios”. No artigo descrevo como fundamental que os fundos permitam não apenas “medidas públicas” (assim apelido) mas também medidas que apelido de “saúde psicológica e bem-estar”. Creches mas também literacia e competências parentais. Cidades “amigas das famílias” mas também apoio à fecundidade, procriação medicamente assistida e prevenção/intervenção na depressão pós-parto. Equilíbrio entre vida pessoal e profissional mas também promoção da igualdade de género e da integração e inclusão da população migrante.

Apoios cíclicos porque, em simultâneo, impactam na demografia na (in)sustentabilidade dos sistemas de saúde ou segurança social mas também na saúde psicológica e bem-estar das pessoas que aspiram a ser pai ou mãe não tendo oportunidade de se cumprirem e de encontrarem nesse papel um propósito e significado de vida, algo que por si pesa na (in)sustentabilidade dos sistemas.

Investir neste desafio, também pela ciência psicológica, é “libertar” o país via sua sustentabilidade, conforme objectivo do Super Mário. É viabilizar o cumprimento dos sonhos, conforme Alice procura.

 

 

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A impaciência do coração…

Na sua autobiografia (“O mundo de ontem”), Stefan Zweig escreve, com uma simplicidade desconcertante face à complexidade da sua reflexão (e percurso), que os dias mais importantes da vida têm um brilho maior que os dias comuns. Assim sabemos ser. A 16 de Junho vivi um desses dias, daqueles que sabemos que, aconteça o que acontecer, será sempre dos mais importantes da minha vida e que nele conteve os dois polos: provavelmente o melhor e mais intenso que a vida nos pode trazer; mas também uma perda com significado e tudo quanto ela implica.

Os 2 acontecimentos que assim fazem o meu 16.06.2021, numa feliz coincidência, coexistiram e coexistirão na minha memória com a estreia do programa da RTP2 Impaciência do coração”, que contou com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Programa que começou a ser imaginado e construído há alguns anos (algo que reforça a feliz coincidência) e que tive oportunidade de acompanhar desde a ideia até vê-lo na televisão. Um programa onde uma sempre excelente Gabriela Moita conversa com psicólogas e psicólogos sobre comportamentos “sociais, afectivos e quotidianos” e que “pretende refletir e partilhar o saber disponível sobre diversas dimensões do comportamento e a sua relação com áreas de intervenção, como a saúde, a educação, o trabalho, entre outras”, conforme a sua apresentação. Um programa semanal que tratou em conversas com o David Dias Neto, Miguel Ricou e o Luís Fernandes a mudança, a relação corpo-mente e a justiça e o “desvio” nos primeiros episódios e que hoje trará a conversa com Constanca Paúl sobre envelhecimento (https://www.rtp.pt/play/p8960/impaciencia-do-coracao). Um programa que continuará com outros temas e que terá um episódio-conversa onde participei sobre informação e desinformação e seus impactos nas pessoas e na sociedade.

Beware of pity (“Cuidado com a pena que sentes”), publicado em Portugal como “Coração impaciente”, é um livro escrito por Zweig num ano que não esqueceria – 1939. Ano em que vivenciou os tais dois polos: casou com a sua esposa Charlotte com quem viveu e, literalmente, morreu anos mais tarde; ano em que viu eclodir a II Guerra Mundial, acontecimento importante no seu crescente desânimo e sofrimento pelo crescimento e expansão da intolerância e autoritarismo no Mundo, conforme escreveu já próximo do final da sua vida. Um ano com impacto numa vida que impactou a sociedade e a confrontou na sua reflexão. Estimo e espero que o “A impaciência do coração” seja um outro contributo, necessariamente distinto, para nos pensarmos, pensarmos o comportamento humano e reflectirmos sobre a nossa sociedade e os desafios que se lhe e nos colocam.

Ps. Um abraço ao Duarte Zoio, pessoa particularmente envolvida neste projecto e que acabou por ver a sua estreia já num novo projecto profissional. Que o programa também sirva o propósito de o fazer sentir o quanto contribuiu ao longo de anos para um melhor conhecimento e reconhecimento da Psicologia e das psicólogas e dos psicólogos na sociedade.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Educação

Crescer-19 (Ao redor…; Sábado; 01.06.2021)

“É como se tivesse aqui [apontando para o peito] um balão que se vai enchendo, enchendo, enchendo.” Recordo esta frase de uma menina que, com os seus 9 anos, procurava, através de uma imagem, descrever aquilo que sentia e que as palavras que possuía não podiam descrever. Trabalhava então numa Escola – pequena de tamanho, mas grande em diversidade, complexidade e riqueza humana – e ainda no início do meu percurso profissional experienciava a importância da literacia em saúde psicológica e o quão fundamental é darmos um nome ao que sentimos (reconhecendo, do ponto de vista psicológico e até físico, as nossas emoções) para o organizar, compreender e para melhor lhe respondermos.

Recordo-as (a menina, a conversa, a Escola e a comunidade) a propósito de um testemunho de Abier Almasri da Human Rights Watch que afirma “precisarmos de um novo dicionário para descrever o que sentimos e o impacto psicológico” a propósito da situação que se vive(u) na Faixa de Gaza onde, às perdas diversas das pessoas e famílias, se associam “feridas emocionais” de quem sobrevive(u). Human Rights Watch que, poucos dias antes em relatório, apresentou dados que indicam que 9 em cada 10 crianças e jovens em idade escolar em todo o Mundo viram prejudicada a sua educação devido à pandemia que vivemos.

Não pretendo comparar os impactos de um conflito com décadas com a pandemia. Mas quero sublinhar que, se nas adultas e nos adultos a crise sócioeconómica concomitante exponencia os impactos da pandemia na saúde psicológica; as crianças e jovens sentem, não apenas as consequências daquele que é o impacto nas cuidadoras e nos cuidadores, mas também as que resultam de dois anos lectivos atípicos que acrescentam dificuldade e desafio à situação e intensificam os problemas de saúde psicológica com impacto na aprendizagem, motivação e comportamento, particularmente naquelas e naqueles com maiores vulnerabilidades. Consequências que abrem espaço a “feridas emocionais” se não organizadas e compreendidas. Se, enquanto sociedade, não lhes respondermos.

“Tens de escrever sobre a urgência nas Escolas (…) vi uma crise de ansiedade como nunca havia visto”, dizia-me uma psicóloga amiga com muitos anos de Escola(s). E depois outra e outro confirmando “a urgência nas Escolas” e as Escolas como lugar micro de uma realidade macro da sociedade. São-no sempre. Senti-o particularmente nos anos da crise sócioeconómica da última década, aquando do episódio que antes descrevi, e como dia-a-dia, entrava na (minha) Escola e impactava as crianças e jovens com quem trabalhava. Senti-o como hoje sentem as minhas e os meus colegas os impactos da pandemia COVID-19 e das suas múltiplas e diversas consequências.

É certo que a década que passou trouxe alterações, algumas positivas. Desde logo há hoje maior sensibilidade na Educação para a importância de desenvolvimento de competências sócioemocionais e para a promoção da capacidade de adaptação e resiliência de crianças e jovens. Há mais reconhecimento da importância da promoção da literacia em saúde e em saúde psicológica, nomeadamente no que se refere à compreensão/reconhecimento das emoções. Há, também, mais psicólogas e psicólogos, de forma mais contínua e regular nos contextos escolares. Psicólogas e psicólogos com papel mais amplo e cientificamente sustentado que, ao invés de apenas centrado em estratégias remediativas, se foca em políticas de prevenção e promoção que abrangem toda a comunidade educativa. Há ainda mais experiência e partilha de trabalho conjunto entre diversos agentes educativos, de uma concepção da educação inclusiva e do objetivo, ainda que não totalmente cumprindo, de “não deixar ninguém para trás”. Há, finalmente, resultados desta acção patentes por exemplo no nível de abandono escolar precoce em queda impressionante (6,5% no 1º trimestre), particularmente porque conjugada com o aumento da escolaridade obrigatória até ao 12º ano, e que faz jus ao trabalho dos diversos actores e da comunidade educativa.

Apesar disto, estudos no Reino Unido com resultados que em Portugal não surpreenderiam, indicam que quase 8 crianças e jovens em cada 10 revelam sentir impactos da pressão da Escola na “qualidade” da sua saúde psicológica e cerca de 93% dos professores e das professoras consideram que o sistema educativo coloca mais foco (e recursos) na performance académica das e dos estudantes que na sua possibilidade de bem-estar. Outro, em Portugal, que apenas 1 em cada 4 crianças brinca pelo menos 3 horas por dias conforme recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Três indicadores (podiam ser outros) que podem servir-nos de base para entendermos o ciclo vicioso de não envolvimento com a Escola das crianças e jovens, particularmente aqueles e aquelas com maiores vulnerabilidades, que cedo podem sentir e sofrer desfasamentos diversos. São também ponto de partida – no momento que vivemos e no qual à ansiedade se junta o stresse, a agitação e preocupação, ou o medo e a apatia, resultante de períodos de isolamento físico (por vezes, realmente social) com exposição ainda mais significativa a iniquidades contextuais que vão desde as condições físicas das habitações, às oportunidades de relação e estimulação com outras crianças, jovens e adultas e adultos – para a necessidade de estratégias concertadas de recuperação, promoção, desenvolvimento e bem-estar junto de crianças e jovens.

Voltando ao Reino Unido, nos últimos dias de Theresa May enquanto Primeira-Ministra Britânica, foi anunciado um amplo programa de formação para todas as professoras e professores estarem mais sensíveis e capacitados para, precocemente, identificarem dificuldades e problemas de saúde psicológica nas e nos estudantes. Este programa resulta, também, de um debate público que se havia iniciado para um livro verde da prevenção que visa a prevenção “proactiva, preditiva e personalizada” para a saúde no Reino Unido na década de 2020 com enfoque no “desenvolvimento, aconselhamento, apoio e cuidados personalizados às crianças e jovens” e numa “maior protecção contra ameaças futuras”.

Já em Portugal, neste período (pós-)COVID-19 foi criado um grupo de trabalho multidisciplinar para produção de recomendações no âmbito de um plano de recuperação e consolidação de aprendizagens e, em linha com o pacto europeu para a saúde mental e bem-estar e com um estudo recente que afirma que 37% das e dos jovens entre os 18 e 24 anos solicitam mais acompanhamento na área da saúde mental, o Conselho Nacional de Saúde, a Federação Nacional de Associações Juvenis e a Direcção-Geral da Educação apresentaram recentemente a Agenda da Juventude para a Saúde 2030, que visa um forte impulso às dimensões da saúde psicológica, à prevenção e à promoção de competências. Resta, no entanto, concretizar um “Crescer-19”, uma mudança verdadeira e impactante através de uma agenda de prevenção e do desenvolvimento que, neste 01 de Junho de 2021, nos poderia guiar, impulsionando a “urgência na educação”, a inversão do actual ciclo pela possibilidade de activação e de garantia de propósitos e significados para o que vivemos e que, conforme o projecto do Reino Unido, se assumisse como uma agenda interministerial transversal, relacionando várias áreas e contextos, nomeadamente articulando mais eficaz e eficientemente a acção e os recursos da educação com a saúde, trabalho e segurança social ou desporto e juventude, prolongando e projectando o conjunto de acções além dos tradicionais anos e ciclos lectivos e para os múltiplos contextos de vida das crianças e jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, ao contrário do Dia da Criança que se comemora em dias distintos de país para país, em qualquer lugar do Mundo onde exista uma criança colocam-se desafios ao seu desenvolvimento e bem-estar hoje, devido à pandemia, mais complexos. Desafios que merecem um “Crescer-19”, uma agenda de prevenção e promoção, investimento fundamental para um futuro com crianças, jovens e adultas e adultos com mais possibilidade de se cumprirem, de floresceram e expressarem o seu potencial, com mais saúde psicológica, com maior capacidade de adaptação e resiliência e com maior potencial de bem-estar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 01.06.2021

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/crescer-19