Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Tomada de Decisão

Planeta Azul…

A 7 de Dezembro de 1972 o Apollo 17 saiu da órbita terrestre a caminho da Lua. Nesse dia, de costas para o Sol, a sua tripulação teve a iluminação perfeita para fazer a primeira fotografia (a cores) integral do Planeta Terra, fotografia icónica que estimulou a ideia do “Planeta Azul”. Passavam exactamente 960 dias do primeiro “dia da Terra”, quando a 22.04.1970 mais de 20 milhões de pessoas haviam respondido ao apelo do senador (e activista ambiental) Gaylord Nelson, juntando-se nas ruas para um enorme fórum nacional que Gaylord ambicionava “educativo e generalizado” aos EUA. Para alguns meios é, ainda hoje, considerada a maior manifestação de um único dia de sempre. Sendo-o ou não, originou o importante “Dia da Terra” (do Planeta Azul) que a 22 de Abril último cumpriu 50 anos.

A inscrição “colectiva” destes momentos é importante à reflexão do passado, presente e à projecção do futuro, particularmente em áreas e desafios societais em que a dimensão intergeracional de acção é fundamental – como acontece com a crise climática. Destes momentos, como parte da “construção colectiva” dos desafios e da resposta aos mesmos.

No último magazine da EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), reflicto sobre esta ideia a partir de contributos da psicologia e de duas participações minhas: a) na COP26 de Glasgow onde integrei a comitiva que representou a Global Psychology Alliance, abordando o tema dos contributos de cada país (incluindo Portugal), ciência (incluindo a psicológica) e pessoa (da e do decisor ao e à cidadã comum) a partir da ideia das partes (COP = Conferência das Partes) para a crise climática (https://efpa.magzmaker.com/march_2022/climate_change); b) na 5ª Conferência da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) “Breaking walls, Building bridges” (“Quebrando muros, Construindo pontes”) abordando a forma como a ciência psicológica – a par de outras áreas profissionais/científicas – podem ser parte e contribuir para as políticas sociais, a intervenção comunitária e como a compreensão do comportamento humano e da tomada de decisão é, hoje, essencial ao desenho de políticas públicas dirigidas aos principais desafios societais (https://efpa.magzmaker.com/march_2022/efpa_s_corner).

Da “impaciência” de Saramago à “insurreição” de Frei Bento Domingues contra “tudo o que está mal”, importa mobilizar todas as “partes” e usar do sentido de urgência do momento. A psicologia é parte, parte importante. A consciência (colectiva) e a inspiração também. Porque problemas complexos e sem fronteiras precisam de respostas congregadoras, transnacionais e inspiradoras… Conforme é o Dia da Terra, a foto do Planeta Azul e a missão Apollo-Soyuz que, comemorando o fim das missões Apollo (com a 17ª), teve como objectivo afirmar a relação pacífica entre EUA e URSS, com tripulações de duas naves dos “blocos” a visitaram a “outra” nave/bloco, trocando presentes, galhardetes e sementes de cada país. Congregando-se. Inspirando-se.

Categories
Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Palíndromos…

Da junção das palavras gregas “pálin” (novamente) e “dromos” (caminho/estrada) resulta a expressão palíndromo que descreve elementos com simetria linear, logo com o mesmo significado quando lidos da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Existem números palíndromos (também apelidados de capicua) e existem palavras e datas palíndromos – a última desta década o dia 22.02.2022.

Nesta simbólica data a Líder – Ideias que fazem futuro publicou uma entrevista que a Rita Saldanha me fez a propósito do aproximar, naquele momento, da passagem de dois anos sobre a criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses que coordeno.

“O caminho para uma melhor saúde mental em Portugal”, assim titulada a entrevista que agora partilho, trata este balanço de dois anos de actividade e contributo, a (des)informação, a importância da capacitação e desenvolvimento de pessoas e comunidades, a literacia em saúde e em saúde psicológica, a saúde mental (e a saúde mental nas organizações), o papel das lideranças e as possíveis prioridades para o Mundo depois desta gravíssima crise pandémica que ainda vivemos.

Uma entrevista onde afirmo que a “boa informação previne a má informação”, que o “controlo e a previsibilidade” são “variáveis fundamentais para a saúde e bem-estar”, que é fundamental que “a sociedade seja amiga [das pessoas em sofrimento psicológico], sem culpabilização ou estigmatização, para que a pessoa possa encontrar uma ajuda e com isso florescer novamente”. Onde afirmo, também, que as organizações devem desenvolver capacidades e ter recursos que lhes permitam a “adaptação e superação”, que precisam de “confiança e coesão”, “de tempo” e que “ficaria muito surpreendido se nos próximos anos não tivéssemos um movimento de reconhecimento de organizações que promovam a saúde e bem-estar, até pelas/os consumidoras/es”.

Menos de 48 horas depois da publicação da entrevista começava a invasão da Ucrânia pelas tropas russas e o escalar do conflito para uma perturbadora Guerra, na Europa e no século XXI, com todas as consequências que observamos ao longo dos já mais de dois meses corridos e que sabemos virem a existir no futuro. Também, durante a pandemia, estreou o “Tenet”, filme de C. Nolan inspirado no “Quadrado Mágico”, conjunto de 5 palavras latinas encontrado nas ruínas de Pompeia e que incluem a palavra/título palíndromo do filme. O filme trata, exactamente, o tempo e a possibilidade de se caminhar do presente para o futuro mas também do presente para o passado e como, naquela história, esta possibilidade resulta no evitar de uma possível 3ª Guerra Mundial “desejada” por um oligarca russo.

Como refere M. Atwood ao Expresso de hoje, é mesmo “um acto de esperança assumir que haverá futuro”. Esperança que apenas poderá resultar da inscrição do passado e da reflexão sobre ele no sentido de pensarmos o presente e perspectivarmos o futuro. Um futuro de Paz e de bem-estar para todas e todos com um “novo caminho” para a saúde mental.

Categories
Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

3 dias para o 25.4.2022

Auto-determinação, direitos humanos, não discriminação, equidade, coesão social, saúde (e saúde mental), educação, capacitação, trabalho, ciência (e evidência), dignidade, confiança, inclusão, participação, abertura à/ao outra/o, diversidade, cooperação, ética, cidadania, responsabilidade, solidariedade e bem-estar.

A 22.04.1974 muitas pessoas, país e Mundo fora, em diferentes contextos e com diferentes proveniências, partilhavam da aspiração e do desejo de verem possibilitados e cumpridos em Portugal estes 22 valores. Faltavam, como hoje, 3 dias para o dia 25 de Abril. Dia em que em 1974 se lhe acrescentou a liberdade, a democracia e a Paz. Dia em que de 1975 a 2022, o celebramos e, ao celebrá-lo, nos recordamos que estes 25 valores se constroem todos os dias, por e com todas as pessoas, por e em todos os contextos.

Eu pude estudar esta ciência que é a psicologia numa Universidade também e muito pelo 25 de Abril. Não apenas porque a abertura que trouxe, permitiu, finalmente, um outro olhar para esta ciência e possibilitou a sua emergência, contributo e desenvolvimento na sociedade portuguesa. Também porque pertenço a uma geração (e a um contexto) que é, porventura, das que mais se pode transformar face às possibilidades que teria pelos valores acima… Num conceito da psicologia, uma geração cuja zona de desenvolvimento potencial foi bastante expandida por um país a acreditar nas suas pessoas e a dar-lhes condições, com dificuldades é certo, para se desenvolverem, florescerem e se cumprirem.

Hoje continuo a estudar e no meu pequeno (mas devido) contributo a fazer e a praticar esta ciência (psicologia) com a certeza (e responsabilidade) de que partilha grande parte dos 25 valores acima. De que partilha e de que para eles procura contribuir, estando próxima das pessoas e das comunidades, ao longo de todo o ciclo de vida, em cada um dos contextos, nos acontecimentos de vida mais significativos, sejam eles “positivos” ou geradores de sofrimento psicológico.

Uma ciência (e uma prática) que também se procura afirmar pela presença na sociedade, não apenas mas também pela opinião, pela informação, pelo comentário e pela literacia que procura promover. Por isso, e pelo seu simbólico num país também antes encerrado a este nível, partilho hoje este “Afirmar os psicólogos nos media 2021”, onde se reúnem contributos meus e de colegas dos órgãos da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Ana Meira, Carla Fernandes, Carla Rocha, Filipe Fernandes, Francisco Barrocas, Francisco Miranda Rodrigues, Gaspar Ferreira, Jaime Ferreira da Silva, Joana Amen, Marco Santos, Marisa Alexandre, Miguel Ricou, Paula Domingues, Paulo Cunha, Raquel Raimundo, Renata Benavente, Renato Gomes Carvalho e Sofia Ramalho.

Um nosso contributo para a memória e inscrição destes valores. Para a sua co-construção, todos os dias em todos os contextos, também com o contributo das psicólogas e psicólogos.

 

Categories
Desafios da Psicologia Educação Psicologia

Da gratidão… FLAD/OPP Saúde Mental no Ensino Superior

Ao contrário de quando nos confrontamos com sofrimento psicológico – onde o presente parece aprisionar-nos entre um passado de “mágoa e/ou culpa“ e um futuro “impossível” – ontem senti-me grato. Grato por um presente que sucede a um passado de desenvolvimento e concretização de uma ideia. Grato num presente a olhar para um futuro que contará com o estímulo do programa que resultou dessa ideia. Grato por participar neste processo da primeira às futuras horas e em fazer este caminho com a Liliana Valpaços, com o apoio de toda a equipa e administração da  (liderada pela Dr.ª Rita Faden) e com o Francisco Miranda Rodrigues, a Ana Isabel Lage Ferreira (júri) e tantas outras pessoas da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Grato e orgulhoso por me ter cabido a sua apresentação.

Nela, mais que pormenorizar o edital (abaixo), procurei, a partir da “genealogia viva” do Gil (meu 2º filho), revisitar 9 décadas de gerações, da sua bisavó (Silent Generation) à sua geração ainda sem nome. 9 décadas de mudanças em Portugal e no Mundo que comparam com os seus 9 meses de vida num tempo de COVID-19, de lançamento da Space-X (viagens comerciais ao espaço), do relatório da ONU que regista a 1ª morte humana em contexto guerra decidida exclusivamente pela IA e da Guerra na Ucrânia. 9 meses que nos confrontam com o acelerar do tempo e com a complexidade, ambiguidade, volatilidade, incerteza e imprevisibilidade do que nos espera, um tempo de forte ameaça à saúde mental num momento em que dela muito necessitaríamos para nos adaptarmos com bem-estar às adversidades e aos acontecimentos de vida. Reflecti, ainda, sobre a visão e coragem da FLAD, ao, com o nosso apoio, financiar projectos de serviços de saúde/psicologia de instituições do ensino superior públicas (até 3 com pelo menos 1 de regiões interiores | 100.000€) a partir de 4 pressupostos: base na melhor evidência disponível e por isso centrados na prevenção, promoção de literacia, saúde (mental) e de competências sócioemocionais; focados na promoção resiliência (não apenas na recuperação); considerando a saúde mental e sua promoção e não apenas a doença mental ou a sua ausência; com propósito de servir de estímulo ao futuro e a novas e boas práticas neste domínio.

Na sessão interveio ainda a Diana Aguiar Vieira, PhD, houve um debate moderado pela Sara Antunes de Oliveira entre a Cheila Tomás Marques (estudante) e a Mariana do Canto e Castro (Diretora de RH), encerrando com a Sr.ª Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Elvira Fortunato a reforçar a importância de se aprofundarem as respostas, também de prevenção, na área da saúde mental no ensino superior (sessão completa em: https://lnkd.in/dfnv2nQ8).

Ps. Informações (e formulário de candidatura – até 19.06.22) sobre o Programa FLAD/OPP Saúde Mental no Ensino Superior em: https://lnkd.in/dsQix_et

Categories
Democracia Desafios da Psicologia Política

Putin: 5 centímetros de altura fictícios, 30 anos de medo real (CNN Portugal; 08.03.2022)

“O medo é um catalisador de bom senso.” São estas as palavras que H. Malmgren, ex-conselheiro de vários presidentes dos EUA, guarda de uma conversa com Putin em 1992 em que este lhe explicou como, na ausência de uma lei sobre direitos de propriedade, os litígios eram rapidamente resolvidos na Rússia com um jantar entre representantes armados de cada uma das partes litigantes, dispensando anos de desnecessárias disputas jurídicas. Mais tarde, Putin utilizaria argumentação semelhante relativamente a conflitos entre países para os quais a solução, a seu ver, resultaria do medo gerado pela possibilidade de respostas desproporcionais ao conflito por uma ou pelas partes. Num pequeno texto, Malmgren conta-nos como Putin usa esta emoção natural (medo) como veículo de pressão em conflitos e disputas e como racionaliza a sua utilização, apresentando-a como estímulo ao bom senso.

Quando extremo, o medo paralisa como porventura saberemos por já o havermos experienciado e sentido. Interfere negativamente na vida de pessoas, grupos e comunidades e faz-nos sentir presos, encurralados e indisponíveis para prosseguirmos actividades e projectos de vida, para nos cumprirmos e realizarmos. O medo extremo comporta sofrimento psicológico e partilha com o sofrimento psicológico o agrilhoar da pessoa a um presente que é marcado pelo passado e nos impossibilita, pela ansiedade, de nos libertarmos para um futuro diferente. O medo usa do passado para impactar o presente e o futuro, podendo determiná-lo.

Apesar do seu papel primordial de protecção, o medo não sendo normalmente racional, é, não raras vezes, utilizado e instrumentalizado junto de pessoas ou grupos por pessoas ou grupos que se percepcionam em “vantagem” (superioridade) mas também por pessoas ou grupos que se percepcionam em “desvantagem” (inferioridade). A utilização do medo como estratégia ou “arma” possibilita, pelas suas consequências e impactos opressores, o enfraquecimento do(s) outro(s). Pode ainda, paralelamente, garantir atenção e espaço mediático pela forma como influencia várias dimensões da vida das pessoas e altera a vida nas sociedades. Assim é quando um atentado provoca terror junto da população. Assim é quando um grupo como o Estado Islâmico mostra imagens que horrorizam e atemorizam a população. Assim é quando Putin ameaça, agride (física e psicologicamente) ou invade.

Putin apresenta-se ao Mundo como medindo 170 centímetros mais, pelo menos, 5 cm do que efectivamente medirá. Simbolicamente tem como grande referência Pedro, o Grande, imperador russo, fundador da sua São Petersburgo natal e responsável pela modernização e reforma do país na transição do século XVII para o século XVIII. Usa (e abusa) da história (da sua visão e interpretação da história) para, no que se intitula de uma “guerra híbrida” – usando das novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo os media e a diferenciação e personalização de mensagens e ataques – impactar a vida de um número cada vez mais significativo de pessoas e grupos. Usa das vulnerabilidades de líderes políticas e políticos que o seguem (ainda hoje), pelo que representa no questionar de um certo progressismo social, de uma ordem democrática liberal ou em virtude as condições e apoios que lhes concede. Usa das vulnerabilidades de pessoas que sofrem com a pobreza, a precariedade, a migração forçada, a exclusão e/ou outras condições que as tornam mais suscetíveis e vulneráveis à sua propaganda da ideia de um Mundo que necessita de uma grande, influente e extensa Rússia. Usa, finalmente, da incompreensão generalizada que, do outro lado da guerra, não se encontra a ausência de guerra, mas a Paz – Paz essa impossível quando existe qualquer tipo de violência, agressão, opressão e/ou deslegitimação.

Sabe-se hoje que, forçadamente ou por seu desejo, Putin viveu particularmente isolado durante os últimos dois anos de pandemia. Menos exposto à diferença, à diversidade, ao contraditório, terá aprofundando e sido reforçado na narrativa histórica que construiu. Durante esse período, também certamente percepcionando “janelas de oportunidades” no momento que vivemos, intensificou a propaganda e a utilização da desinformação e da destabilização de países e governos, bem como publicou um marcante ensaio sobre uma pretensa “unidade histórica de russos e ucranianos” que na sua visão se consubstancia num “único povo” hoje não cumprido pela criação artificial de um território que tende, se não a não legitimar, a não totalmente reconhecer – a Ucrânia. Retorna, portanto, ao ideal e ao movimento identitário de não reconhecimento do outro e da diversidade, hoje politicamente em voga num Mundo e numa Europa demasiado necessitados de respostas simples, fortes e, por vezes, salvíficas para os muitos e muito complexos desafios societais contemporâneos.

Conforme a ciência psicológica pode contribuir para a compreensão de fenómenos como o medo, a solidão/isolamento, o encerramento e o efeito de “bolha” de grupos fechados ou a percepção das forças/fraquezas/vulnerabilidades, também, pode (e deve) contribuir para a sua prevenção e para a construção da Paz. Mais do que a partir de um modelo tendencialmente biomédico, de procura das doenças (incluindo mentais) do líder, que possam neste caso justificar as acções e intenções do regime russo, precisamos de pensar a grave crise e a guerra que vivemos considerando dimensões psicológicas e sociais. Considerando que, factualmente, a guerra não é uma inevitabilidade, embora também não seja uma impossibilidade. Considerando que é hoje claro que é cientificamente incorrecto que os seres humanos tenham uma predisposição inerente para o comportamento agressivo, para a resolução violenta de conflitos ou para a guerra. Enfatizar essa incorrecção deve ser o pilar base para a promoção da convivência, dos relacionamentos entre pessoas e grupos e da Paz. Considerando, ainda, que é incorrecta qualquer percepção de que o tempo e a sua passagem, por si só, resolverão traumas passados, sejam eles pessoais ou colectivos, sendo, portanto fundamental desenvolver acções de reparação histórica, de pacificação do presente e de construção de um futuro sem violência.

Termino como comecei: voltando a Malmgren. No mesmo texto diz também que a Rússia, quando Putin chegou ao poder, “precisava desesperadamente de um líder forte”. A Rússia acreditou que precisava dele. Putin acreditou na sua visão da e para a Rússia. O Mundo mudou. Putin vê o Mundo não como o Mundo é, mas como ele é, a partir da sua própria propaganda, reforçada pelo seu círculo próximo e pela sua interpretação das vitórias e objectivos que até hoje cumpriu. Isso não muda(rá). Conseguirá a Rússia, além de reconhecer que não precisa(va) dele, sair da sua propaganda e desvincular-se de Putin? Aqui está parte significativa, que merece a meu ver ser investida, de um caminho para a Paz. Oxalá consiga porque, assim, mais facilmente poderemos aspirar a um Mundo sem medo que possa olhar e reparar o passado para se projectar no e para o futuro. Um Mundo sem medo de ser o que é, do tamanho que é. Sem medo da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos e de se cumprir. Um Mundo de Paz.

 

Tiago Pereira

in CNN Portugal; 08.03.2022

https://cnnportugal.iol.pt/guerra-ucrania/tiago-pereira-psicologia-em-tempo-de-guerra-putin-5-centimetros-de-altura-ficticios-30-anos-de-medo-real/20220307/62261e9a0cf2cc58e7e73b12

Categories
Desafios da Psicologia Política

Fadiga(s)

Fadiga, palavra fortemente associada ao cansaço, provém de fatigari cuja tradução inclui a ideia de “fazer desabar”. De ruir. Se pensarmos em diversas fadigas – muscular, pandemia, compaixão – percebemos que nos mostram (por vezes com sofrimento) que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade física, de permanecer hipervigilantes e responder a medidas restritivas e de relação, cuidado e empatia, são grandes, mas, também não são ilimitadas e, em muito, dependentes da nossa própria condição. Serão, assim, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra na Ucrânia?

“Fadiga da solidariedade?”, 30º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) responde com um “sim, creio que a resposta é sim”. Também, porque, conforme já sentimos com a menor abundância de notícias e de sensibilidade e “urgência” associada ao tema, há hoje mais efeito de “naturalização” e a correspondente diminuição da pressão social para a resposta e para a necessidade de agenciamento e proatividade, fortes incentivos à activação solidária. Ainda porque determinadas/os líderes, representantes e decisoras/es usam hoje do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida/recursos disponíveis” associados a esta situação para benefício próprio, de afirmação pessoal e política.

Por tudo isto importa reforçar e advogar que estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites. Que promovam a humanização e a responsabilidade social prevenindo a progressiva despersonalização e o progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. Ainda, respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários, que este esforço e compromisso seja sempre enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo.

Recordemos que uma das prioridades da política externa da UE é garantir a segurança dos Estados-Membros e que esta depende da confiança, coesão (harmoniosa), solidariedade, apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã. Pelo nosso planeta, nossa saúde, lema deste dia Mundial da Saúde.

Categories
Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Ainda a Guerra…

“A incerteza cai com a tarde no limite da praia.” Começa assim o poema de Nuno Júdice (A incerteza) que termina como termina este texto: “cai-me da página(…)para dentro da própria alma”. A incerteza, que “cai com a tarde”, é hoje e para o futuro, tão presente na nossa vida como cada umas das tardes e inscrita “dentro” da na nossa “própria alma”. Basta pensarmos quando, ao incerto, acrescentamos espanto, olhando 3 acontecimentos de 3 dias 29 de Março de 3 dos últimos anos: 2004 – 7 países, incluindo 3 com fronteira com a Rússia (Estónia, Letónia e Lituânia) aderem à NATO; 2017 – Reino Unido invoca o artigo 50 do Tratado da União Europeia (UE) e inicia, formalmente, o processo de saída da UE; 2022 – 36ª dia de uma Guerra que resulta da ilegítima invasão da Ucrânia pela Rússia. 3 acontecimentos que, se recuássemos 3 anos a cada um deles, dificilmente poderíamos prever. Um pouco como hoje não podemos, com segurança, prever o que sucederá no Mundo nos próximos 3 anos ou não podemos, com segurança, prever o que sucederá na Guerra na Ucrânia nos próximos 3 meses ou, até, 3 dias.

Quando assim é, creio relevante reflectirmos sobre o presente, pensando e inscrevendo o passado, para nos projectarmos com a maior segurança e controlo possível no futuro. Também por isso, partilho, uma participação no programa Corpo Clínico (10.03.22) do Canal S+ conduzido pelo Vasco Domingos e que, tratando a Guerra, juntou-me a Anna Sukhoviy, Joao Antunes, ao Gustavo Tato Borges, ao Gonçalo Gonçalves Órfão, ao Hugo de Sousa e à Catarina Martins Bettencourt.

Nele reflitco sobre como a complexa crise que vivemos acrescenta imprevisibilidade e incerteza à imprevisibilidade e incerteza que já resultava de outras crises (não apenas da pandemia) e como a guerra nos afecta a todas e todos. Reflicto sobre o encorajamento e a esperança que decorre da mobilização das pessoas, incluindo as psicólogas e psicólogos, que continuam na Ucrânia a apoiar outras pessoas num momento particularmente exigente das suas vidas e que em tantos países procuraram organizar respostas de acolhimento, integração e recuperação de pessoas forçadas a emigrar. Procurei realçar a importância da comunicação com crianças e jovens. Também do propósito, do significado e do agenciamento no lidar com as emoções que naturalmente sentimos e da importância dos primeiros dias e dos primeiros momentos de acolhimento, incluindo os primeiros socorros psicológicos, para processos de integração bem-sucedidos, independentemente das pessoas virem a escolher (ou ter que) estar em Portugal poucos meses, poucos anos ou mais tempo. Falei de medo e da forma como o medo foi, é e será utilizado para explorar vulnerabilidades e construir narrativas que promovem e suportam tomadas de decisão e comportamentos. Falei, finalmente, de trauma, de trauma colectivo, da possibilidade de reparação e de construção de paz.

E…“Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

E você, quem mataria?

5 pessoas que caminham numa estrada ou a/o passageira/o de um carro? Imagine que programa softwares de carros autónomos e que apenas pode decidir entre manter a sua rota provocando a morte de 5 pessoas ou desviá-lo para um obstáculo provocando a de quem o conduz? Quem mataria? Quem e com que pressupostos escolheria para programar estas decisões?

“E você, quem mataria?”, 29º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão/confronto para reflectir sobre como a tecnologia tem rapidamente evoluído e como a guerra que nos horroriza tem para tal contribuído e se tem transformando, com sistemas de armas autónomos letais hoje presentes na maioria dos exércitos e já responsáveis, segundo a ONU, pela morte de seres humanos na Líbia em 2020 sem intervenção de decisão humana.

A (forma de utilização e despersonalização) da inteligência artificial (IA), a par de pandemias, crise climática, genocídios ou ameaças biológicas, químicas e nucleares, fazem do tempo que vivemos, um tempo de significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial impacto. Riscos agravados pela inversão do caminho de maior democratização no Mundo e (re)emergência do autoritarismo e, portanto, de não total correspondência entre mais riscos e uma ordem mundial assente em compromissos de direito internacional e na generalização dos direitos humanos, preventiva da perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças. Ordem, suportada na tomada de decisão individual a partir de um modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo o experimentalismo e o subjugar de direitos e do colectivo face a interesses e decisões individuais e salvíficas.

Sabemos que a humanização, compaixão, empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar, são o melhor garante da utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da IA. Sabemos que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade e que isso depende da despolarização da sociedade, da possibilidade de resolução não violenta de conflitos e do reforço dos sentimentos de pertença, abertura à e ao outro e à diversidade.

“Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do “Munique, à beira da guerra”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

Categories
Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

A primavera há-de chegar…

“A primavera há-de chegar”, título de um “grande” livro de Fante. Evoco-o, sugerido por uma música de um filme que trata a complexidade da guerra: “E todos os anos; pássaros livres voam (…) a floresta suspira; esperando pela primavera; para os trazer de volta.” Ontem, a primavera chegou. Ontem, como há muitos anos não sucedia, chegou com a complexidade de uma (trágica e obscena) guerra na Europa. Um trabalho da Sílvia Maia (LUSA) para o qual contribui, resultou em três notícias que, creio, demonstram esta complexidade e os seus múltiplos impactos:

  1. “Escolas apoiam alunos afetados pelas imagens da guerra na Ucrânia”, tratando os impactos (naturais) da guerra no comportamento das crianças, “sensíveis à situação que estão a viver, dispostas a lutar por um mundo melhor e que estão disponíveis para os outros”. Na peça assinalo que “as escolas estão hoje muito mais bem preparadas do que estavam há 10 anos, mas tendo em conta estes dois acontecimentos – a pandemia e agora a guerra – todos os recursos são poucos”.
  2. “Psicólogos defendem urgência na integração de crianças refugiadas nas escolas”, onde sublinho a importância da rápida integração nas Escolas de crianças/jovens, potenciando a criação de rotinas (fundamentais à previsibilidade e controlo) e de suporte social (fundamental à resiliência e ao bem-estar). Reforço a importância de, numa primeira fase, se privilegiar as relações e os espaços de espontaneidade e de brincar face ao currículo, bem como da criação de espaços seguros, investindo-se numa rede de mediadoras/es ucranianas/os. Abordo, ainda, o papel reparador que a Escola pode assumir, bem como a universalidade das emoções, das referências (a Frozen, o Harry Potter ou o Tik Tok) e a capacidade de adaptação das crianças como “antídotos” à adversidade/dificuldades (ex. língua).
  3. “Psicólogos portugueses dão formação a colegas ucranianos”, onde abordo a resposta da OPP à solicitação da Associação Nacional de Psicólogos Ucraniana e apoio à formação de 32 psicólogas/os (que em cascata formarão outras/os) em intervenção psicológica em situações de crise e catástrofe, considerando que “a intervenção psicológica precoce (nomeadamente os Primeiros Socorros Psicológicos) é de extrema importância na estabilização inicial e na prevenção do desenvolvimento de psicopatologia”.

Da inspiração de quem, mesmo em condições extremas, procura apoiar outras/os ao apoio à minimização dos impactos da guerra e recuperação de quem escolhe ou chega a Portugal proveniente dela… Contributos das/os psicólogas/os que se complementam com o seu apoio à construção e manutenção da Paz.

Porque, “a floresta suspira; esperando pela primavera; para os trazer de volta”.

Porque, a “primavera há-de chegar”.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia

Telefone Laranja para os Direitos Humanos (Ao redor…; Sábado; 03.10.2022)

São muitas as pessoas que, quase 50 anos depois, se sentem inspiradas pelo discurso de Martin Luther King em Washington a 28 de Agosto de 1963. I have a dream [Eu tenho um sonho], confessou, perante cerca de 250.000 pessoas que em marcha exigiram consigo o fim da segregação racial, justiça social e liberdade. São muito menos as que, também quase 50 anos depois, se sentem inspiradas pela abertura da ligação directa entre os EUA e a URSS 48 horas depois. Esta linha directa, apelidada de “telefone vermelho”, fora decidida no acordo de Genebra a 20 de Junho desse mesmo ano e terá sido fundamental na redução dos riscos de uma guerra (nuclear), prevenindo acidentes, confrontos, erros de cálculo e falhas de comunicação. Dois dias e dois acontecimentos muito distintos que mudaram o Mundo. Que o mudaram no sentido de mais Direitos Humanos. De maior possibilidade de autodeterminação, de equidade, de bem-estar.

 

Em parte significativa dos quase 50 anos que distam desses momentos, o Mundo fez progressos notáveis. Na pobreza extrema, por exemplo, que no início da década de 80 ainda afectava 44% da população mundial (cerca de 2 mil milhões de pessoas), descendo para 35% em 1990 e entre esse ano e 2015 cerca um ponto percentual ao ano. Caminhávamos, embora não ao ritmo desejado, para um valor apresentado como possível pelo Banco Mundial de 3% em 2030 quando vimos a descida progressiva interrompida por um aumento em 2020 e 2021, estando os valores hoje em cerca de 9,5% ao invés dos esperados 7,5% (mais cerca de 150 milhões de pessoas). Ou no modelo de governação, onde em 1980 existiam apenas 22% de países no Mundo com democracias, crescendo este número para 35% em 1990 e subindo consecutivamente até 2017 (54%), ano a partir do qual passou, também, a existir um decréscimo anual até aos 49% de 2021. A COVID-19 e o recrudescimento do autoritarismo e dos sistemas autocráticos demonstraram-nos, nos últimos anos, que não existe irreversibilidade no progresso e que dimensões sociais que podemos dar como adquiridas ou garantidas podem ser questionadas. Como nos mostraram, com incredulidade e brutalidade, explosões e sirenes, primeiro em Kyiv na madrugada de 24 de Fevereiro de 2022, e nos últimos dias em diversas cidades e regiões da Ucrânia.

 

“Conforme sucede com a saúde mental [face à doença mental], também a Paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à Paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a Paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos.” Isto escrevi, nesta mesma rúbrica a 30 de Dezembro de 2021[i], num desejo para um 2022 consubstanciado num investir contínuo na construção de Paz, não a dando por adquirida, antes sempre em co-construção, em qualquer lugar do Mundo.

 

Sabemos que a imprevisibilidade e a incerteza são aspectos sempre presentes na nossa vida. Sabemos, por experiência própria e cidadã, que em Portugal esta máxima é especialmente verdadeira. Sou psicólogo há cerca de 15 anos e vivi, como cidadão e como profissional, nos últimos dez anos, a complexa crise socioeconómica que vivenciamos, os graves incêndios de Junho e Outubro de 2017, a disruptiva pandemia de COVID-19 e, agora, a tragédia da invasão ilegítima de um país Europeu e da Guerra na Ucrânia. Todos factos que acrescentam e somam imprevisibilidade, incerteza e insegurança sobre imprevisibilidade, incerteza e insegurança. Todos factos que comportam perdas, sofrimento psicológico e colocam em risco a saúde psicológica e o bem-estar de todas e todos. Todos factos que são marcados pelo passado (por traumas não reparados, por vulnerabilidades não respondidas, por problemas não atendidos), que condicionam o presente e que impactam para o futuro. Tudo factos que se cruzam, criando o que penso podermos nomear enquanto uma sindemia, conforme originalmente Merril Singer definiu, ou seja a conjugação de problemas de saúde, neste caso saúde psicológica, e o seu cruzamento com problemas sociais e económicos de pessoas e famílias, aprofundando-os, perpetuando-os e criando vulnerabilidades e adversidades nas pessoas ao redor, incluindo crianças e jovens.

 

Se assim é em Portugal, imaginemos, por um momento, o que acontece hoje na Ucrânia e com o povo ucraniano. Confrontados com uma guerra e com um cenário de total disrupção. Vidas interrompidas, relações coartadas, migração forçada. Trauma. Realidades e fenómenos complexos, pessoais e colectivos, que o tempo, apenas o tempo, não resolverão. Se em Portugal é fundamental recuperar as pessoas para recuperar o país e o projectar para o futuro depois de crises sucessivas, mais assim é com as Ucranianas e Ucranianos. Recuperação, reparação, reconciliação. Isso se espera dos países que, como o nosso, acolherão, acompanharão e integrarão as refugiadas e os refugiados desta guerra, pessoas como cada uma e cada um de nós, mas especialmente vulneráveis neste momento e, também por isso, a necessitarem de intervenções e de respostas verdadeiramente especializadas, qualificadas, integradas e continuadas. Temos, felizmente, entidades e organizações muito competentes e experientes para tal. Temos, felizmente, uma população que se mobiliza e se constituiu como uma rede de coesão e suporte social, em momentos desta natureza. Temos um dever de humanidade e humanismo e uma tarefa pela frente: garantir que quem, escolhendo ou não o nosso país como destino a ele acorra, seja recebida/o com empatia, compaixão e com apoio, também técnico, capaz de responder às suas necessidades e promover o seu agenciamento sobre os problemas. Garantir uma linha directa, um telefone laranja, para com os Direitos Humanos. Garantir que essa linha previne acidentes, confrontos, erros de cálculo e falhas de comunicação, como a linha vermelha, que advirão, também, das consequências socioeconómicas da crise que vivemos e da grande incerteza associada às próximas semanas (meses?; anos?) da Europa e do Mundo e da forma como as sociedades e as pessoas a elas reagirão.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, vivemos dias de pesadelo que necessitam de um sonho que se concretize numa realidade inspiradora. De um sonho que se concretize na criação de espaço de pacificação e, mais do que apenas a ausência de guerra, promova a Paz. De um sonho que se concretize na retoma de um caminho de progresso em indicadores fundamentais à autodeterminação das pessoas, à equidade, à coesão social e à possibilidade de bem-estar de todas e todos. De um sonho que se concretize na garantia de mais saúde psicológica e, também por ela, mais resiliência individual e colectiva para enfrentar a complexidade e a adversidade que nos espera num Mundo de rápidas e profundas transformações e de muitas dúvidas e ambiguidades. De um sonho que se concretize na inviabilização de espaço de complacência com tudo quanto interfira com direitos fundamentais e de neutralidade em disputas ou matérias de violação de direitos humanos. De um sonho que se concretize na projecção de um futuro de Direitos Humanos globais. Que Portugal possa para tal contribuir e nisso ser exemplo. É este o (seu) momento.

Ps. Hoje, dia do Pai, pensemos nos Pais, nas filhas e nos filhos, nas companheiras e companheiro e amigas e amigos dos Pais. Pensemos nos nossos e nos de outras e outros. Pensemos. Façamos.

[i] Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz | https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 10.03.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/telefone-laranja-para-os-direitos-humanos