
São muitas as pessoas que, quase 50 anos depois, se sentem inspiradas pelo discurso de Martin Luther King em Washington a 28 de Agosto de 1963. I have a dream [Eu tenho um sonho], confessou, perante cerca de 250.000 pessoas que em marcha exigiram consigo o fim da segregação racial, justiça social e liberdade. São muito menos as que, também quase 50 anos depois, se sentem inspiradas pela abertura da ligação directa entre os EUA e a URSS 48 horas depois. Esta linha directa, apelidada de “telefone vermelho”, fora decidida no acordo de Genebra a 20 de Junho desse mesmo ano e terá sido fundamental na redução dos riscos de uma guerra (nuclear), prevenindo acidentes, confrontos, erros de cálculo e falhas de comunicação. Dois dias e dois acontecimentos muito distintos que mudaram o Mundo. Que o mudaram no sentido de mais Direitos Humanos. De maior possibilidade de autodeterminação, de equidade, de bem-estar.
Em parte significativa dos quase 50 anos que distam desses momentos, o Mundo fez progressos notáveis. Na pobreza extrema, por exemplo, que no início da década de 80 ainda afectava 44% da população mundial (cerca de 2 mil milhões de pessoas), descendo para 35% em 1990 e entre esse ano e 2015 cerca um ponto percentual ao ano. Caminhávamos, embora não ao ritmo desejado, para um valor apresentado como possível pelo Banco Mundial de 3% em 2030 quando vimos a descida progressiva interrompida por um aumento em 2020 e 2021, estando os valores hoje em cerca de 9,5% ao invés dos esperados 7,5% (mais cerca de 150 milhões de pessoas). Ou no modelo de governação, onde em 1980 existiam apenas 22% de países no Mundo com democracias, crescendo este número para 35% em 1990 e subindo consecutivamente até 2017 (54%), ano a partir do qual passou, também, a existir um decréscimo anual até aos 49% de 2021. A COVID-19 e o recrudescimento do autoritarismo e dos sistemas autocráticos demonstraram-nos, nos últimos anos, que não existe irreversibilidade no progresso e que dimensões sociais que podemos dar como adquiridas ou garantidas podem ser questionadas. Como nos mostraram, com incredulidade e brutalidade, explosões e sirenes, primeiro em Kyiv na madrugada de 24 de Fevereiro de 2022, e nos últimos dias em diversas cidades e regiões da Ucrânia.
“Conforme sucede com a saúde mental [face à doença mental], também a Paz é comummente definida como a ausência de guerra. Creio que 2022 será um ano particularmente desafiante no que à Paz diz respeito e que, também por isso, será importante que pessoal ou profissionalmente, em contexto privado ou público, conversemos sobre ela e disseminemos que, indo muito além da ausência de guerra, a Paz representa a harmonia, a civilidade entre pessoas e comunidades e a serenidade, e que compreendê-lo será fundamental para a promovermos.” Isto escrevi, nesta mesma rúbrica a 30 de Dezembro de 2021[i], num desejo para um 2022 consubstanciado num investir contínuo na construção de Paz, não a dando por adquirida, antes sempre em co-construção, em qualquer lugar do Mundo.
Sabemos que a imprevisibilidade e a incerteza são aspectos sempre presentes na nossa vida. Sabemos, por experiência própria e cidadã, que em Portugal esta máxima é especialmente verdadeira. Sou psicólogo há cerca de 15 anos e vivi, como cidadão e como profissional, nos últimos dez anos, a complexa crise socioeconómica que vivenciamos, os graves incêndios de Junho e Outubro de 2017, a disruptiva pandemia de COVID-19 e, agora, a tragédia da invasão ilegítima de um país Europeu e da Guerra na Ucrânia. Todos factos que acrescentam e somam imprevisibilidade, incerteza e insegurança sobre imprevisibilidade, incerteza e insegurança. Todos factos que comportam perdas, sofrimento psicológico e colocam em risco a saúde psicológica e o bem-estar de todas e todos. Todos factos que são marcados pelo passado (por traumas não reparados, por vulnerabilidades não respondidas, por problemas não atendidos), que condicionam o presente e que impactam para o futuro. Tudo factos que se cruzam, criando o que penso podermos nomear enquanto uma sindemia, conforme originalmente Merril Singer definiu, ou seja a conjugação de problemas de saúde, neste caso saúde psicológica, e o seu cruzamento com problemas sociais e económicos de pessoas e famílias, aprofundando-os, perpetuando-os e criando vulnerabilidades e adversidades nas pessoas ao redor, incluindo crianças e jovens.
Se assim é em Portugal, imaginemos, por um momento, o que acontece hoje na Ucrânia e com o povo ucraniano. Confrontados com uma guerra e com um cenário de total disrupção. Vidas interrompidas, relações coartadas, migração forçada. Trauma. Realidades e fenómenos complexos, pessoais e colectivos, que o tempo, apenas o tempo, não resolverão. Se em Portugal é fundamental recuperar as pessoas para recuperar o país e o projectar para o futuro depois de crises sucessivas, mais assim é com as Ucranianas e Ucranianos. Recuperação, reparação, reconciliação. Isso se espera dos países que, como o nosso, acolherão, acompanharão e integrarão as refugiadas e os refugiados desta guerra, pessoas como cada uma e cada um de nós, mas especialmente vulneráveis neste momento e, também por isso, a necessitarem de intervenções e de respostas verdadeiramente especializadas, qualificadas, integradas e continuadas. Temos, felizmente, entidades e organizações muito competentes e experientes para tal. Temos, felizmente, uma população que se mobiliza e se constituiu como uma rede de coesão e suporte social, em momentos desta natureza. Temos um dever de humanidade e humanismo e uma tarefa pela frente: garantir que quem, escolhendo ou não o nosso país como destino a ele acorra, seja recebida/o com empatia, compaixão e com apoio, também técnico, capaz de responder às suas necessidades e promover o seu agenciamento sobre os problemas. Garantir uma linha directa, um telefone laranja, para com os Direitos Humanos. Garantir que essa linha previne acidentes, confrontos, erros de cálculo e falhas de comunicação, como a linha vermelha, que advirão, também, das consequências socioeconómicas da crise que vivemos e da grande incerteza associada às próximas semanas (meses?; anos?) da Europa e do Mundo e da forma como as sociedades e as pessoas a elas reagirão.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, vivemos dias de pesadelo que necessitam de um sonho que se concretize numa realidade inspiradora. De um sonho que se concretize na criação de espaço de pacificação e, mais do que apenas a ausência de guerra, promova a Paz. De um sonho que se concretize na retoma de um caminho de progresso em indicadores fundamentais à autodeterminação das pessoas, à equidade, à coesão social e à possibilidade de bem-estar de todas e todos. De um sonho que se concretize na garantia de mais saúde psicológica e, também por ela, mais resiliência individual e colectiva para enfrentar a complexidade e a adversidade que nos espera num Mundo de rápidas e profundas transformações e de muitas dúvidas e ambiguidades. De um sonho que se concretize na inviabilização de espaço de complacência com tudo quanto interfira com direitos fundamentais e de neutralidade em disputas ou matérias de violação de direitos humanos. De um sonho que se concretize na projecção de um futuro de Direitos Humanos globais. Que Portugal possa para tal contribuir e nisso ser exemplo. É este o (seu) momento.
Ps. Hoje, dia do Pai, pensemos nos Pais, nas filhas e nos filhos, nas companheiras e companheiro e amigas e amigos dos Pais. Pensemos nos nossos e nos de outras e outros. Pensemos. Façamos.
[i] Um desejo para 2022? Construirmos mais Paz | https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2022-construirmos-mais-paz
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 10.03.2022
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/telefone-laranja-para-os-direitos-humanos