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Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Tomada de Decisão

Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis

“Não há combate à pobreza sem promoção da saúde mental dos mais vulneráveis”.

Ontem, dia da 1ª iniciativa de recolha de contributos de psicólogas/os no âmbito da campanha “.Final à Pobreza” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (integrada nos Trilhos da Psicologia; Ilha do Pico), foi publicada uma entrevista minha no Expresso, conduzida e assim titulada pelo Bernardo Mendonça.

Nela reflectimos os contributos da psicologia para o combate à pobreza em Portugal. Desde evidência, parte dela da ciência psicológica, que apoia compressão das causas e consequências das situações de pobreza: da que confirma “a associação forte e cíclica entre problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse e a precariedade, a exclusão e a pobreza”; ao impacto potencial de um “maior conhecimento e literacia de como se processam estes fenómenos” na forma como poderemos minimizar a estigmatização e culpabilização das pessoas associada a situações de pobreza”.

Abordamos, ainda, a situação da psicologia, as iniquidades e dificuldades de acesso da população (mais vulnerável) e a necessidade de que as “palavras (de decisoras/es) passem à concretização”. Discutimos (boas) práticas nesta área e o que pode ser a concretização da ideia de “não deixar ninguém para trás”. Tratamos, ainda, o papel potencial da intervenção psicológica, não apenas nos contextos de saúde, mas também em maior proximidade, das pessoas, nas comunidades, e de quem decide, na informação e apoio às políticas públicas.

Finalmente, distinguimos pobreza extrema de relativa e abordamos exemplos de como a última impõe pressão, potencial sofrimento e stresse a quem a vive – como num/a estudante do ensino superior que tem durante um período de tempo de não acompanhar a atividade letiva, por exemplo, por um problema de saúde, podem ser distintos os níveis em estudantes dependentes de bolsas de estudo, sucessivamente dependentes de resultados escolares, face a estudantes não dependentes de bolsas de estudo e como poderíamos encontrar centenas de situações ao longo da nossa vida em que um erro, uma falha, um azar, têm um impacto completamente distinto entre quem vive numa situação de pobreza, ainda que relativa, face a quem não vive nessa situação. No fundo, como a pobreza é “geradora de desigualdade e de iniquidades, pode condicionar a participação e acesso, o suporte social e a saúde e bem-estar da pessoa.”

Partilho a entrevista… Partilho o pedido de contributo no portal da campanha. Partilho, finalmente, a crença de que Portugal (e o Mundo) podem efectivamente terminar com a pobreza (particularmente a pobreza extrema), que isso depende de todas e de todos e que as psicólogas e os psicólogos podem dar um contributo decisivo.

Por “um país com mais oportunidades de autodeterminação, de florescimento e de bem-estar, logo com mais saúde mental… Por um país, portanto, com potencial de maior de equidade e coesão social e, também por isso, menos desigual.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Tomada de Decisão

Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo

“Nós, os povos das Nações Unidas”. Assim se inicia o preâmbulo e, com ele, a Carta das Nações Unidas aprovada em São Francisco fez ontem 77 anos. Dia sempre (e bem) recordado, pela sua importância, a par do 24 de Outubro, quando, também em 1945, muitos países ratificaram a Carta. Há, no entanto, uma data menos conhecida no processo cujo simbolismo me interpela: as negociações que conduziram aos 26.06 e 24.10, começaram a 25 de Abril de 1945 e, quer a Carta das Nações Unidas, quer a revolução que mudou (o regime em) Portugal, procuraram dar centralidade à equidade, à liberdade, à utilização do conhecimento (científico), à participação e ao envolvimento das pessoas.

“Mudar (n)as cidades para mudar (n)o Mundo”, 35º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre como “precisamos e podemos ter cidades mais “inteligentes”, mais funcionais, responsivas às necessidades e expectativas das pessoas, mais flexíveis e inclusivas e, com elas, um Mundo melhor”. Como tal também depende de “mais pessoas e entidades da cidade se fazerem ouvir, se envolverem e se mobilizarem na discussão e construção da mudança”, do “planeamento e decisão política integrarem a ciência, o conhecimento e a melhor evidência científica disponível, incluindo a proveniente da ciência psicológica, para melhor compreensão do comportamento e dos processos de tomada de decisão das pessoas e grupos” e de “estimularmos e facilitarmos as mudanças necessárias, não as obstaculizando”, testando e pilotando soluções para os desafios. Também, “quanto mais confiarmos na mudança, na possibilidade da mudança e nos activemos para a operar”.

Mas, não podemos esquecer que mudar é difícil, sublinho no artigo. Cá, é certo, mas também noutro lugares do Mundo, onde poderíamos pensar mais simples – em Oslo, por exemplo, onde uma Associação de Comerciantes apelidou de “Muro de Berlim” um conjunto de pilaretes que tornaram maioritariamente pedonal ou de mobilidade ligeira parte significativa do centro da cidade. “Mudar é muito difícil. Vencer a resistência à mudança inerente à condição humana e a inércia (social) associada a estas alterações conceptuais na forma de organização das cidades, é sempre difícil, em qualquer lugar do Mundo, quaisquer que sejam as suas circunstâncias.”

Sublinho, ainda, que “quem habita a cidade, ao contrário de penalizar medidas “apelidadas” de ecológicas, verdes ou de transição, valoriza-as, tendo crescido o apoio a partidos, movimentos e pessoas que mais as advogam e promovem e existindo hoje mais propostas deste tipo nos programas dos diversos partidos e movimentos. Lá (na Noruega), como cá, é possível e as pessoas valorizam a mudança. Lá, como cá, país de recursos fantásticos, as boas e eficazes ideias e soluções são contagiosas. Acreditemos, confiemos e envolvamo-nos na mudança. Das nossas cidades. Do nosso Mundo”, para, conforme continua o preâmbulo da Carta das Nações Unidas, “promovermos o progresso social e a qualidade de vida com mais liberdade”.

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Cara/o colega, qual é o seu contributo enquanto psicóloga/o para um “. Final à Pobreza”? [Mailing OPP; 24.06.2022]

Um oceano, uma falésia ou uma montanha. Olhamos, contemplamos e sentimo-nos pequenas e pequenos. A guerra, a crise climática ou a pobreza. Pensamos, vivemo-las, por vezes, e sentimo-nos pequenas e pequenos. Não raras vezes, perante desafios societais complexos, quais oceanos, falésias ou montanhas de problemas, sentimo-nos desincentivadas e desincentivados por não acreditarmos terem resolução possível ou por não nos percebermos capazes de contribuir para a sua resolução. Porém, assim não creio ter de ser. Não apenas acredito que têm resolução possível, como acredito no papel imprescindível da ciência psicológica e no contributo fundamental de cada psicóloga e psicólogo, com a sua prática profissional e de cidadania.

Penso-o assim no que se refere à erradicação da pobreza e, particularmente, da pobreza extrema. Pobreza que tudo impacta. A possibilidade de bem-estar, desde logo. A dignidade, quando limita ou impossibilita o acesso a condições e necessidades (básicas) de vida. Os direitos humanos, quando restringe ou impossibilita a pessoa, entre outros, de se cumprir. É, por isso, um importantíssimo determinante da saúde e, como cada vez mais investigação comprova, pode ser causa, mas também consequência, de problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse, que se associam em ciclo com as situações de pobreza. Acresce que a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afectivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização, num e noutro caso também das próprias pessoas sobre si próprias. Aliás, diria, que se há algo que toda e qualquer pessoa, qualquer que seja o seu papel, formação ou circunstância, pode rapidamente fazer para apoiar a solução deste problema é deixar de culpar, e contribuir para que outras e outros deixem de culpar as pessoas pela sua situação de pobreza.

Porque hoje sabemos muito mais sobre as múltiplas causas destas situações e sobre os seus múltiplos impactos. Porque hoje a ciência psicológica aporta contributos a esta compreensão e, particularmente, à forma como poderemos mitigar e prevenir estes problemas. Porque a erradicação da pobreza é, não por acaso, o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável e que, por via da pandemia por COVID-19 e da Guerra que hoje se vive na Ucrânia, sofreu recentemente um retrocesso significativo no caminho percorrido nas últimas décadas. E, porque a sociedade espera de nós, enquanto profissão, um contributo decisivo na estratégia nacional de combate à pobreza em curso – a nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses lançará publicamente amanhã a campanha “. Final à Pobreza”.

Uma campanha que pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos, disponibilizados neste portal, promover um debate amplo e participado com as psicólogas e os psicólogos no sentido da recolha de contributos (também através deste formulário que convido a preencher) para o desenvolvimento de um plano estratégico de acção nesta matéria assente em quatro dimensões:

a)     Sociedade civil: promovendo literacia sobre a pobreza nas suas causas, consequências e possibilidades de erradicação, bem como sobre o potencial contributo da psicologia;

b)    Decisoras e decisores: contribuindo com conhecimento e evidência da ciência psicológica para o desenho e para a efectividade de políticas e intervenções nesta área;

c)     Profissão: estimulando e apoiando com recursos e ferramentas a prática profissional, a formação inicial e contínua e a investigação científica neste âmbito;

d)    Cooperação nacional e internacional: afirmando e promovendo redes colaborativas de reforço do contributo da psicologia para a erradicação da pobreza em Portugal e no Mundo.

Investigando, advogando e praticando a psicologia, nós, psicólogas e psicólogos, fazemos do princípio A do nosso Código Deontológico (“Respeito pela dignidade e direitos da pessoa”) razão e motivo maior da ciência e profissão que nos une. Pela dignidade, pelos direitos (humanos) e pela possibilidade de autodeterminação das pessoas, só possíveis numa sociedade de equidade, bem-estar e coesão social. Contem comigo e connosco, conforme conto e contamos convosco para, juntas e juntos e com um chão e um tecto comum, caminharmos nesse sentido, também pelo nosso contributo para um “. Final à Pobreza”.

 

Mailing Ordem dos Psicólogos Portugueses [23.06.2022]

Tiago Pereira

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Educação Psicologia

Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal (Ao redor…; Sábado; 08.06.2022)

Uma menina de cara redonda vira a esquina, aproxima-se de dois homens que olham para um buraco que abrem no passeio e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não menina, de uma fuga de gás”, responde um dos homens. “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, vemos na imagem seguinte a Mafalda pensar. Décadas passaram sobre a publicação desta sempre actual tira que suscita em cada um e uma de nós, ou em nós em diferentes momentos, um ímpeto para substituir “raízes nacionais” por um qualquer problema, desafio ou prática e “fuga de gás” por outro qualquer problema, desafio ou prática. Hoje, “raízes nacionais”, evoca em mim a promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos. Já “fuga de gás” situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde. Em bom rigor, hoje a tira de há algumas décadas que questiona a Argentina da Mafalda faz-me pensar a prática da psicologia em contexto escolar em Portugal, hoje.

É verdadeiramente significativa a mudança que ocorreu desde que iniciei (ainda enquanto estagiário, em 2005) ou mesmo desde que interrompi (em 2013) funções como psicólogo com intervenção escolar. É verdadeiramente significativa, particularmente, no potencial impacto destes profissionais junto da comunidade educativa. Esta mudança decorreu, essencialmente, a partir de três grandes e relativamente rápidas transformações: o capital que a psicologia tem hoje na sociedade, o que representa e o seu (re)conhecimento e valorização; o crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos com intervenção em contexto escolar; a transformação conceptual dos referenciais e do seu papel, de intervenções tipicamente remediativas, apenas directas e junto de crianças e jovens com algum problema para intervenções de índole preventiva e promotora, também de consultadoria e junto de todas as crianças e jovens, professoras e professores, direcções, outros profissionais e assistentes e toda a comunidade educativa.

Impacto potencial que advém deste caminho de transição de uma intervenção quase exclusiva com as dificuldades de aprendizagem, a que se somava a orientação e desenvolvimento vocacional, para a intervenção em todo o contexto, apoiando e estimulando a criação de ambientes promotores de aprendizagem e desenvolvimento. Do caminho de intervenções quase exclusivas nos problemas de saúde mental para uma acção promotora da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar. Impacto, apenas potencial por não totalmente cumprido. Porque, se antes não existia este referencial de actuação. Porque, se antes também, já existindo referencial, não existiam profissionais em número mínimo. Porque hoje, mesmo existindo referencial e profissionais num número mais significativo, a ausência de resposta aos problemas das crianças e jovens nos serviços de saúde explica o fosso entre o potencial instalado e a forma como, concretamente, as práticas ocorrem.

É que se já pré-pandemia – também em resultado da crise social e económica do início da década anterior e da não mobilização de respostas contingentes na área da saúde mental – existia uma prevalência de dificuldades e problemas de saúde psicológica nas Escolas portuguesas, a pandemia veio agravar este cenário e acrescentou sofrimento psicológico significativo a muitas crianças e jovens, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Esta realidade foi recentemente reforçada com um importante estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos que, além do sofrimento nas crianças e dos jovens (1 em cada 3), evidencia-o também nas professoras e professores (1 em cada 2). A propósito destes indicadores, e validando as propostas de acções sugeridas no estudo, o Ministro da Educação voltou a assumir o facto das psicólogas e psicólogos serem “necessidades permanentes” das Escolas, a comprometer-se com a continuidade dos profissionais contratados nos últimos anos e a reforçar o “compromisso para com a saúde mental”, assumindo que ainda “não se investiu tanto quanto se devia”. Fê-lo tal qual António Costa havia feito, há semanas e numa conferências sobre o futuro da Europa, quando assumiu a necessidade de ser concretizado um “grande investimento” e a “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para poderem responder” aos problemas de saúde mental e disse ser necessário cumprir um programa “que está a ser desenvolvido, com muito lentidão neste caso, de introdução de psicólogos na Escola de forma a poder haver um melhor acompanhamento, uma melhor protecção e melhor resposta aos problemas de saúde mental entre os jovens”.

Ora, não poderia estar mais de acordo. Ao cumprimento do programa de reforço da psicologia em contexto escolar e transformação progressiva das suas práticas, alinhando-as com a melhor evidência científica disponível, deve corresponder a capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para responder às situações hoje já problema. Isso é essencial para assegurar que existem recursos dirigidos às “fugas de gás”, podendo estas ser intervencionadas onde devem sê-lo (em contexto e com setting clínico, particularmente nos cuidados de saúde primários) pós-sinalização, entre outros, do próprio sistema educativo. Isso é essencial para se libertar recursos para que as “raízes nacionais” sejam “procuradas” e neste caso existam recursos disponíveis para intervir preventivamente onde isso mais deve e pode acontecer – nas Escolas e acompanhando todo o percurso educativo das crianças e jovens. Esta complementaridade porque permitiria também a articulação interinstitucional entre serviços, melhoraria a resposta e torná-la-ia mais eficiente. Permitiria que a “urgência” de responder na Escola a problemas não intervencionados fora dela, por escassez ou ausência de recursos, não invalidasse a oportunidade de se intervir no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde.

Mais isto é fundamental num país ainda de forte exposição da sua população mais jovem aos principais determinantes socioeconómicos dos problemas de saúde mental (pobreza, exclusão e instabilidade nos contextos familiares). Mais isto é fundamental quando sucessivos estudos confirmam a importância do envolvimento das e dos alunos com a Escola e do seu gosto pela Escolar. Vejamos, por exemplo, resultados recentes de um novo estudo com o grupo de pais, mães e crianças que é longitudinalmente seguido desde 1991 (Avon Longitudinal Study) que demonstra que o “gosto pela Escola” de um ou uma estudante aos 6 anos é sensivelmente tão preditor do sucesso escolar aos 16 anos (10 anos depois) quanto o seu nível socioeconómico. Esta conclusão é uma importante pista para a intervenção visto ser, teoricamente, muito mais simples promover o gosto pela Escola quando comparado com a promoção de mudanças estruturais nos níveis socioeconómicos das famílias (ainda que pudessem ser desejáveis). Pista esta que se associa a outra conclusão do estudo (esta menos surpreendente), a forte relação entre o gosto pela Escola das e dos estudantes e a opinião que têm dos seus e das suas professoras, algo que sublinha a amplitude de benefícios de se avaliarem e prevenirem os riscos psicossociais dos profissionais na área de Educação e de se desenharem planos de desenvolvimento das pessoas nesta área.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, comemora-se, por estes dias e desde 1950, o Dia Mundial da Criança. Dia que pretende assinalar a importância da defesa dos direitos das crianças num Mundo onde tantos milhões de crianças e jovens são ainda deles privadas. Dia que hoje evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços” para que “tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e liberdades aqui enunciados”. A humanidade deve-o às crianças e, devendo-o, não pode apenas responder ao urgente, mas, no seu melhor interesse, também ao importante. Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/importante-vs-urgente—-o-sofrimento-psicologico-nas-criancas-e-jovens-em-portugal

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Democracia Desafios da Psicologia Educação Pobreza e Desigualdade

Felicidade e Bem-estar…

Para que serve o relatório anual da felicidade no Mundo? Um ranking de países, promovido desde 2011 pelas United Nations a propósito da resolução – Felicidade: Rumo a uma abordagem holística para o seu desenvolvimento. Ranking que, mencionando a felicidade (emoção associada ao cumprimento de um objectivo ou a um acontecimento percepcionado como positivo, logo temporalmente definida), procura classificar o bem-estar subjectivo de cada país, enquanto medida mais estável, mas nem por isso menos complexa de mensurar.

Serve, a meu ver, 3 propósitos. Reflectir sobre que dimensões, considerando a melhor evidência científica disponível, surgem mais correlacionadas com o bem-estar subjectivo – aqui são usados o PIB, suporte social, esperança média de vida, possibilidade de escolhas livres, generosidade e a confiança nas instituições/percepção de corrupção. Para, mais do que nos (país) compararmos com outros, perceber onde estamos ou não a evoluir e como o podemos fazer. Serve o propósito de falarmos sobre o tema e… Falar é importante.

Foi o que a Judite de Sousa e eu fizemos no Jornal da CNN Portugal, conversa que partilho. Sobre o relatório de 2022. Sobre a Finlândia ser, pelo 5º ano consecutivo, o país 1º classificado apesar de estar fora do top10 no PIB e na esperança média de vida (onde está abaixo de Portugal), mas se destacar no suporte social, possibilidade de escolhas livres e confiança nas instituições/não percepção de corrupção. Sobre a 56ª posição de Portugal, penalizado pela baixa confiança nas instituições/elevada percepção de corrupção e por uma, a meu ver, frágil avaliação do indicador generosidade (valor doado a uma instituição no mês anterior), onde estamos em 124º. Isto, apesar de resultados relevantes nas restantes 4 dimensões e do país ter crescido no indicador total todos os anos desde 2011 e recuperado significativamente posições no ranking nos últimos anos.

Falamos, ainda, das expectativas das pessoas quando procuram (e conseguem, considerano os obstáculos e iniquidades persistentes no acesso) psicólogas/os e do que considero serem 5 pontos essenciais à nossa evolução: combate feroz à pobreza e exclusão, prevenindo impactos da escassez na (im)possibilidade de bem-estar; aprofundar a aposta na educação e promoção de competências sócio-emocionais; maior apoio quando uma pessoa falha, erra ou tem um acontecimento negativo imprevisto, permitindo rede e que ninguém fique para trás; promover a confiança nas pessoas e instituições; caminharmos de maior competitividade para maior cooperação e suporte social, considerando menos os rankings (Finlândia estaria nos últimos lugares num potencial ranking de rankings).

Uma conversa que tocou a importância e centralidade do bem-estar e o papel que pode desempenhar no presente e futuro do país, como aqui defendi.

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Que Portugal?

Que Portugal? Quem me ouve e/ou lê sabe que me (pre)ocupa uma inquietante ligação entre a desconfiança, o autoritarismo e a aculturação.

Como hoje, no Mundo mas também cada vez mais em Portugal, sem pudor, se exploram casos e pessoas, instigando o medo e/ou o ódio, polarizando para, de forma mais eficaz, gerar e propagar desconfiança, fragilizando outras pessoas e instituições com fins políticos.

Fins que começam e acabam no desrespeito e na ameaça aos valores da liberdade, da equidade, da democracia e do bem-comum e que conduzem, hoje, também a um interromper num caminho de maior democratização dos sistemas de governo no Mundo com o regresso ao autoritarismo tácito, que acresce ao conjunto de manifestações da progressão do autoritarismo implícito.

Mas não termina aqui. Este “tudo posso” e esta ausência de “limites” e de “respeito e consideração pelas e pelos outros”, sejam pessoas ou países, traz a necessidade de mais e mais, de crescer, expandir, aumentar e de aculturar tudo e todos e todas. Traz o desejo da “América novamente grande”, da “Rússia se reerguer” ou da “China Global 2049”. Traz as significativas implicações destas ambições para a Paz, para a possibilidade de bem-estar no Mundo e para uma ideia de cooperação e partilha entre países pelo planeta e pelos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Mas, que Portugal neste Mundo? Um Portugal de, inexistentes mas persistentes, “raças”, na crença e no sentir de algumas pessoas? Um Portugal que nada deve e tudo lhe é devido? Um Portugal que “culpa” as pessoas pelas suas circunstâncias, por exemplo de pobreza? Um Portugal em que cada pessoa julga e desconfia de outra pessoa e com “medo de existir”?

Não. Não. Não. Espero e luto para que não. Antes, por um Portugal que, sensível às vulnerabilidades e crente no potencial das suas pessoas, não tenha o “medo de existir” que o seu José Gil tão bem define. Um Portugal a inscrever todo o seu passado, na celebração e na reparação, para compreender e actuar no presente e se projectar no futuro. Um Portugal na antítese de uma ideia de grandeza que, em bom rigor, vive da desconfiança, do autoritarismo e da tentativa de aculturação de tudo e de todas e todos.

Um Portugal de equidade, inclusivo, aberto a si e ao Mundo… Um Portugal, qual, “grito que vem de longe e ainda não se calou” que Saramago descreveu na sua “Viagem a Portugal”.

Um Portugal com passado, de presente e para o futuro. Um Portugal, também, farol do Mundo.

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. final à pobreza

Imagine que esta manhã não tinha qualquer roupa lavada para vestir. Como seria? Que impacto teria no seu dia? Quão menos segura/o ou confiante se sentiria? Ou imagine que não tinha como se deslocar onde precisasse ou quisesse ir, que não podia aceder a um serviço de saúde de que necessita ou ter condições de minimamente aquecer-se em dias frios… Ou, até, que estava a dias do aniversário do seu filho e não tinha como assinalar a data, fazendo uma pequena festa de aniversário ou sequer comprando um pequeno presente.

Estas são situações do quotidiano de muitas e muitas pessoas Mundo fora e também em Portugal. Situações muito mais próximas de todas e todos nós do que por vezes parece ou, simplesmente, do que gostaríamos e que nos lembram que a pobreza não se restringe à gravíssima pobreza extrema. Nos EUA, com indicadores não particularmente distantes dos de Portugal, 6 em cada 10 pessoas viverão pelo menos 1 ano da sua vida em situação de pobreza relativa. Mais de metade das pessoas, realidade certamente próxima da portuguesa e autoexplicativa do porquê da erradicação da pobreza ser o 1º dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Este foi o mote para uma conversa com a Carla Rocha, para a rúbrica Quarto do Fundo, parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que partilho. Conversa que versa o “. final à pobreza”, projecto da OPP que será muito brevemente lançado e que visa a definição de uma estratégia e a implementação de um plano de acção para um mais efectivo contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos para um ponto final à pobreza. Para um ponto final a um dos principais determinantes da (ausência de) saúde e, conforme hoje abundante e robusta evidência científica demonstra, para o mitigar da circularidade existente entre problemas de saúde psicológica (particularmente stresse, ansiedade e depressão) e situações de precariedade, exclusão e pobreza.

Falamos do porquê neste momento, ainda numa pandemia e quando se desenvolve uma absurda guerra, situações que invertem hoje um caminho de décadas de melhorias dos indicadores neste âmbito. Falamos do porquê do contributo da psicologia, pela dignidade, direitos humanos, equidade e coesão social e de como a compreensão do impacto das situações de pobreza no planeamento e tomada de decisão e da (auto)estigmatização e culpa associadas, são fundamentais às intervenções neste âmbito.

Falamos, ainda, das quatro dimensão e âmbitos da estratégia e do futuro plano de acção, com medidas e acções dirigidas à profissão; sociedade civil; decisoras e decisores; e cooperação nacional e internacional. Falamos, finalmente, no quanto creio possível um país e um Mundo sem pobreza e no papel que a mobilização da profissão e das psicólogas e dos psicólogos pode assumir enquanto contributo fundamental para um ponto final à pobreza.

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Enough is enough.

“March for our lives”. Na sequência do massacre numa Escola de Parkland (Flórida), a 24 de Março de 2018, participei numa das maiores marchas de sempre advogando por alterações legislativas no acesso a armas de fogo nos EUA. Com cerca de 1 milhão de pessoas – e integrando uma iniciativa da American Psychological Association | “Gun Violence is a Public Health Crisis” – percorri a Pennsylvania Avenue (Washington) com um propósito e uma esperança forte de que nada poderia ficar igual depois de Parkland. “Never again”, gritava-se, sentia-se, mas…

Podia. Ontem, 24 de Maio de 2022 (4 anos e 2 meses depois), morreram pelo menos 19 crianças e 2 professoras num novo massacre numa Escola do Texas, que se sucede a outros, em diferentes contextos e com diferentes motivações. Massacre que nos confronta com as palavras de Rick Santorum, outrora Senador e concorrente à nomeação a candidato presidencial Republicano, quando, no dia da “March for our lives”, disse que as/os estudantes deveriam “aprender como lidar com um atirador em vez de pedir aos legisladores para resolver os seus problemas”. Nos confronta com as/os representantes da NRA que, também nesse dia, nos apelidaram de “manipuladoras/es” e que nos e me chamaram “radical” por participar na marcha. Radical…

A violência resultante do uso de armas (de fogo) é uma crise de saúde pública. Provoca perda, dor, sofrimento, luto. Impacta o sistema de relações da comunidade, é potencialmente traumática, a curto, mas também a médio e longo prazo, tem determinantes e existem acções que, também potencialmente, a podem prevenir ou mitigar. É hoje impossível, até pela coincidência de datas (exactamente 3 meses após o início da nova e brutal invasão pela Rússia da Ucrânia), não associarmos à perda, dor, sofrimento e luto resultantes da Guerra e aos eventos potencialmente traumáticos que dela resultam para diferentes pessoas que de diferentes formas a vivenciam.

Sobre isso e sobre “quem largou tudo para ajudar refugiados” (https://onovo.pt/internacional/o-impacto-em-quem-largou-tudo-para-ajudar-os-refugiados-IB10557834), conversei com a jornalista Sílvia Abreu do NOVO Semanário discutindo os impactos sociais e emocionais, potenciais consequências destes processos e qual o contributo possível da psicologia. Como fiz em entrevista ao Porto Canal (https://youtu.be/Onwh3MPmrDY) a propósito do acolhimento de pessoas em condição de refugiadas, da importância de atendermos às nossas próprias condições e à necessidade de nos adaptarmos aos ritmos/vivências e guardarmos espaço e tempo de cuidado, atenção e validação das pessoas numa situação de especial vulnerabilidade.

“Já chega!”, disse Kamala Harris, acrescentando: “Como nação temos de ter a coragem para agirmos e percebermos o nexo daquilo que é uma política pública razoável e sensata, para garantirmos que algo assim nunca mais volta a acontecer.” Que estas perdas, que este sofrimento, resultado da Guerra ou de um Massacre, não se repita.

Ideia “radical” dizem…

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IDAHOT 2022

Ontem, dia especial para a minha família, comemorou-se o IDAHOT – Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Data que alerta para a necessidade de combate feroz a todas as formas de exclusão e violência sobre pessoas LGBTI+.

Dia que, simbolicamente, correspondeu à aprovação em Espanha de um anteprojecto de Lei do Aborto que, além de reformar a actual Lei, procura reforçar e regular direitos e obrigações na área da saúde sexual e reprodutiva, reforçando o papel das Escolas na Educação sexual. Por cá, o Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações assinalaram o caminho percorrido pelo país, hasteando a bandeira arco-íris lado a lado com a de Portugal na Presidência do Conselho de Ministros.

A mim fez-me recuar cerca de 30 anos, 15 anos, 8 anos e duas semanas, a quatro momentos que vivi e que, também simbolicamente, representam uma viragem muito significativa, embora ainda insuficiente, na forma como a Educação e a Escola em Portugal se relacionam com a equidade e inclusão, como integram no seu seio e na sua prática a questão dos direitos humanos e a resposta aos principais desafios societais e como a ciência psicológica e as psicólogas e psicólogos nisso contribuem.

Fez-me recuar a 1989, quando ingressei numa Escola tão distinta da de hoje, dois meses antes da Queda do Muro de Berlim. Faz-me recuar a 2005, ano dos atentados de Londres, quando, primeiro em estágio académico e depois como psicólogo e coordenador de projecto, iniciei um percurso profissional numa Escola também de 1º ciclo e acompanhei um conjunto de transformações. Fez-me recuar a 2014, ano da anexação da Crimeia pela Rússia, e recordar a assinatura do protocolo de colaboração entre a Direcção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que desde esse momento tem enquadrado colaborações importantes que incluem a organização conjunta de um Seminário anual de Psicologia e Educação.

Fez-me, finalmente, recuar à sua 9ª edição (Figueira da Foz, 05.05.2022) onde, num momento em que vivemos um Guerra na Europa, resultante da recente escalada da invasão ilegítima da Ucrânia pela Rússia, participei numa conversa em torno da “Promoção de Resiliência, Prevenção da Violência e Construção da Paz” com a Anabela Caetano Santos (que apresentou o interessante projecto RESCUR, de promoção da resiliência) e a Sofia Neves, colega que, não apenas mas muito a partir da Associação Plano i, tem contribuído para a prevenção de múltiplas formas de violência, incluindo as referentes às dimensões do género e da orientação sexual.

Da conversa sobra a reflexão desta mudança profunda e importante (embora, reforço, ainda insuficiente) em curso na Educação e na Escola. Da conversa sobra o “combate” ao que, também ontem e em declarações ao Público, o colega Jorge Gato referia como “a experiência de invisibilidade”, com tudo o que isso implica para a/o própria/o, para quem a/o rodeia e para a sociedade.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Educação

9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos (Ao redor…; Sábado; 19.04.2022)

Um pouco mais de 9 décadas separam o ano de nascimento do Gil da sua bisavó, a pessoa mais velha da sua genealogia. Olhando através das gerações, conforme convencionadas, a sua bisavó pertence à geração S (Silent) e atravessou as gerações Baby Boomers (das suas avós e dos avôs), X (do seu tio), Y (da sua mãe e pai), Z (das suas primas e primos mais velhos), a (do seu irmão) e a geração ainda sem nome que previsivelmente caracterizará as pessoas que como ele nasceram em 2021. Em 9 décadas, a sua bisavó viveu a II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, a Guerra Fria e o Terrorismo. Viveu a Grande Depressão, a crise do subprime e períodos de forte expansão económica, também em Portugal. Viveu a emergência e queda do Estado Novo, o 25 de Abril de 1974 e a integração de Portugal na União Europeia. Viveu a transformação dos direitos humanos, a democratização das sociedades, a globalização e um recente questionar dos direitos e (re)emergência do autoritarismo. Viveu as transformações nos transportes, incluindo as idas à Lua e ao Espaço, e de comunicação/conectividade, do telefone à televisão, da internet às redes sociais e realidade virtual. A minha avó Felismina viveu tudo isto e muito mais, em mais de 9 décadas. O Gil, meu filho mais novo, viveu, consigo e comigo, nos seus nove meses de vida, a pandemia COVID-19, as primeiras viagens comerciais ao espaço, o relatório da ONU que confirma as primeiras mortes em contexto de guerra com decisão exclusiva da inteligência artificial (sem intervenção humana) e a Guerra na Ucrânia. 9 meses que comparam com 9 décadas confirmando a aceleração do momento que vivemos. Um tempo de enorme complexidade, volatilidade, ambiguidade, incerteza e, claro, imprevisibilidade. Um tempo em que a saúde mental das pessoas está naturalmente ameaçada e impactada no exacto momento em que, mercê todas as previsíveis transformações e toda a necessidade de adaptação, reacção à adversidade e aos acontecimentos de vida, muito dela necessitamos.

Não me canso de sublinhar que, conforme sucede com a paz (muito mais que a ausência de guerra), quando falamos de saúde mental não falamos de doença mental ou mesmo da sua ausência. Falamos, de acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde, de “um estado de bem-estar em que os indivíduos podem cumprir as suas capacidades, lidar com as adversidades da sua vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade”. No fundo, falamos de um estado de bem-estar que permite o florescimento e a adaptação e que resulta de um conjunto de determinantes (biológicos, psicológicos, sociais), do desenvolvimento de competências e da disponibilidade de recursos para viver o dia-a-dia. De recursos internos e de autocuidado, de recursos externos, de heterocuidado e suporte social e de ajuda especializada, quando tal se justifica. Não me canso de sublinhar porque, infelizmente, creio ainda não inscrito junto da sociedade, das instituições às pessoas, passando pelas decisoras e pelos decisores, onde, creio, por vezes persistir um viés que opõe, em polos, a doença mental à ausência de doença mental e não à saúde mental.

É, também, por ausência desta inscrição que considero particularmente relevante e até corajoso que instituições da sociedade civil invistam na saúde mental e contribuam para a afirmação conceptual da saúde mental e do quão fundamental é a sua promoção, no presente e para o futuro das pessoas, das comunidades e do país. Assim o fez a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) que, com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), apresentou no passado dia 11 de Abril (candidaturas até 19 de Junho) um programa dirigido a serviços de saúde/psicologia de instituições de ensino superior públicas,que se baseia no conceito de saúde mental e investe (até 100.000 euros) em projectos que apostem na sua promoção, a par da promoção da literacia, do desenvolvimento de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência) no contexto do ensino superior.

Um programa profundamente responsivo à hoje significativa e abundante evidência científica que confirma a premência e pertinência deste investimento, com o propósito de servir de estímulo ao futuro e a novas e boas práticas nestes domínios, baseadas na articulação interinstitucional e entre serviços, no envolvimento das e dos participantes no desenho e avaliação dos projectos e na sua transferibilidade e sustentabilidade.

Um programa profundamente responsivo, também, porque a população jovem foi desproporcionalmente afectada pela pandemia (como aliás havia sido na crise socioeconómica do início da década anterior), quer a nível económico e social, quer psicológico. Se antes da pandemia 15 a 25% dos e das estudantes universitárias sofria com problemas na área da saúde mental (com um aumento da prevalência e da gravidade nos anos que a antecederam) e 44% apresentava um “nível inadequado ou problemática de literacia em saúde (e saúde mental)”, a pandemia agravou significativamente este cenário com 55% das e dos estudantes a relatarem que a “sua saúde mental piorou” nestes últimos dois anos, 38% dos e das quais referindo que isso condicionou o seu desempenho académico (com impacto nos muitos preocupantes níveis de insucesso e abandono no Ensino Superior em Portugal) e 28% que, em consequência, fez medicação relativa a estes problemas, quase metade sem qualquer consulta ou prescrição nesse sentido (por dificuldade de acesso a cuidados nesta área).

Um programa profundamente responsivo, finalmente, à necessidade de diminuirmos a rigidez na análise de quais as competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e de bem-estar. À sobrevalorização de competências técnicas, o ensino superior deverá responder com a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (como a autoestima, a autorregulação emocional, a capacidade de adaptação e resolução de problemas, a empatia e altruísmo, a cooperação ou a capacidade de trabalho em equipa), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas, e com a promoção da saúde mental, atributos que preparam as pessoas e sociedades para o futuro.

Um pouco por tudo isto creio fundamental que a geração do Gil, desafiada que será pela imprevisibilidade e incerteza do futuro próximo e menos próximo, necessitará de uma comunidade, um país e um Mundo que invistam na promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições), da coesão social, da universalização e generalização dos direitos (humanos) e do bem-estar. Invistam na literacia, na resiliência e na saúde mental, de cada individuo e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental é hoje uma matéria-prima fundamental que importa, não apenas preservar, mas estimular, enquanto recurso fundamental ao presente e futuro. Enquanto ferramenta essencial aos complexos e tremendos desafios societais que enfrentaremos. O programa “Saúde Mental no Ensino Superior” é um contributo da FLAD e da OPP que nos deve mobilizar para este desígnio colectivo: acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos, desígnio para o qual a população jovem é essencial.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 19.04.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/9-decadas-vs-9-meses—a-saude-mental-como-materia-prima-do-tempo-que-viveremos