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Eleições Conselho de Supervisão OPP (04.06.2024)

Nada sobre nós sem nós! Este título de um livro que trata o empoderamento e participação das pessoas com deficiência, é hoje mensagem forte nos movimentos em torno da defesa dos direitos humanos. É, também, a mensagem que vos trago a propósito das Eleições para o Conselho de Supervisão da Ordem dos Psicólogos Portugueses da próxima 3ª feira, 4 de Junho. Trago-a em 2 dimensões:

 

1. Para partilhar convosco 4 ideias a propósito da lista que apoio e que julgo melhor poder cumprir, com conhecimento, isenção e responsabilidade, as competências deste novo órgão – Lista B | Mobilizar os Psicólogos:

 

a) Dois regulamentos estruturantes da OPP, aprovados em Assembleia de Representantes, aguardam a tomada de posse do órgão para serem por ele analisados – Especialidades e Estágios. Houve cuidado e intencionalidade de constituir a lista com 4 psicólogas/os que incluem colegas especialistas, mas, também (e creio relevante), colegas que realizaram o ano profissional júnior (estágio profissional), conhecendo e vivenciando esta etapa, factor importante ao contributo que poderão aportar;

 

b) Isto determina que, além de pessoas com mais experiência profissional, a lista contenha jovens profissionais, algo fundamental numa profissão jovem e com legado e num órgão que tem também como missão acompanhar o processo de integração na profissão, a formação e o estágio profissional. Mais, construiu-se uma lista com paridade de género, diversidade de contextos de actividade profissional, não com tendência exclusivamente académica e com pessoas de diferentes regiões do país, incluindo regiões autónomas;

 

c) No que se refere às/aos candidatas/os não membros da OPP, por princípio, não se incluíram profissionais que pela formação/actividade poderiam (se o desejassem) ser membros da OPP. Mais, procuraram-se profissionais com diversas formações mas, necessariamente, confortáveis com as principiais posições estratégicas que têm sido defendidas pela OPP, do referencial para a intervenção em contexto escolar, à prática da psicoterapia passando pela defesa da figura da/o psicóloga/o do trabalho nas organizações.

 

d) Constituir uma lista com uma visão coesa sobre o órgão e missão a que se propõe. Podem vê-lo no vídeo de apresentação das/os candidatas/os – https://www.youtube.com/live/ewsoCeaEkUg?si=UzA3eLJajClBNh1N.

 

Obrigado pela disponibilidade e coragem Teresa Jesus, Nuno Antunes, Ana Nascimento Sabino, António Fragoso, David Guedes, Carolina Garraio, Teresa Maneca Lima e Eduardo Fermé. Obrigado Miguel Ricou, seu (meu também e nosso em 2016) Mandatário, por continuares este caminho e propósito.

 

2. Não deixe que estas Eleições aconteçam sem a sua participação. Sem a sua voz. Vote e motive e mobilize colegas a votarem.

 

Eu, dia 4, voto alegre e convictamente Lista B | Mobilizar os Psicólogos. Pelos princípios e valores que defendo, que defendo para a Ordem. Para a afirmação e desenvolvimento da profissão e do seu, cada vez mais necessário e relevante, contributo para a sociedade.

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One Health to Planetary Health

O Dia da Criança é comemorado em diferentes datas de país para país. Em Portugal, celebramos esse (poder) ser criança a 1 de Junho, continuando a cumprir, por essa via, o apelo que resultou da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças, que decorreu em Genebra num 1º dia de Junho: reconhecer, globalmente, a importância dos Direitos das crianças e do seu bem-estar.

Estávamos em 1925 e seria tão ousado pensar os Direitos e o bem-estar das crianças conforme eu e, provavelmente, quem me lê os pensamos, conforme talvez será hoje pensar a saúde, a partir dos sistemas de saúde dos países, a partir dos modelos “One Health” [Uma (só) Saúde] e “Planetary Health” [Saúde Planetária].

Neste 1 de Junho de 2024, a partir dos relevantes contributos da literacia em saúde, eu, a Ana Cadete, a Maria João Baptista, o Pedro Teixeira, a Susana Fonseca e o Xavier Teles Canavilhas, com coordenação da Cristina Vaz de Almeida, propomo-nos ousar pensar em como podemos caminhar para a “inscrição” destes conceitos nos sistemas de Saúde, no nosso sistema Saúde.

Fazêmo-lo num tempo em que (ainda) sentimos desafios imensos ao aprofundamento do investimento em prevenção da doença e promoção da saúde em Portugal e à assunção, clara e clarividente, do impacto da degradação dos ecossistemas, da crise climática ou da pobreza e das iniquidades económicas e sociais na saúde e no bem-estar.

Discuti-lo-emos num painel integrado no Cascais International Health Forum, organizado pelo FÓRUM SAÚDE XXI através de uma equipa liderada pelo Adalberto Campos Fernandes.

Que, exactamente 99 anos depois da Conferência Mundial do Bem-Estar das Crianças de 1925, esta nossa conversa possa inspirar-nos e, eventualmente, inspirar alguém mais, para contribuir(mos) para um planeta sustentável e para um Mundo de Direitos, de saúde e de bem-estar. Para as crianças, todas as crianças. Para todas e todos.

Venha daí e participe, também, nesta conversa e neste contributo.

Mais informações e inscrições (gratuitas, mas obrigatórias) aqui.

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Behavioural Insights Comportamento Congresso Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses | XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Faltam agora 4 meses para muitas e muitos de nós, espero, nos reunirmos e encontrarmos no VI Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses que, em virtude da presidência da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) pelo Bastonário da OPP (Francisco Miranda Rodrigues) decorrerá em simultâneo com o XIII Congresso Ibero-Americano de Psicologia.

Conforme há 10 anos, quando em 2014 se organizou o II Congresso da OPP em simultâneo com o IX Congresso Ibero-Americano, regressamos a Lisboa e ao Centro Cultural de Belém, depois de Congressos da OPP no Porto (2016), Braga (2018) e Aveiro (2022).

Foi exactamente no CCB e, mais especificamente, no caminho José Saramago – personalidade que procurou, também, pensar e discutir uma “sociedade ibero-americana” – que gravei o “vídeo convite” para o Congresso, cujo link abaixo partilho.

Um Congresso que, na linha dos anteriores, se propõe a uma discussão e debate interdisciplinar dos contributos e da colaboração potencial da ciência e da prática psicológica na resposta às necessidades e anseios das pessoas (nos seus mais diversos contextos, circunstâncias e acontecimentos de vida) e comunidades e aos principais desafios societais.

Um congresso que contou com cerca de 700 submissões já analisadas num enorme e extraordinário trabalho de uma comissão científica superiormente presidida pela Isabel Soares e que tem uma call específica associada ainda aberta (ver link abaixo) para submissões para a revista científica da OPP. Um congresso que conta com um espaço específico de apresentação para as e os mais jovens – Espaço Jovem. Um congresso que procura uma nova e reforçada experiência de relação com o espaço, com outras/os congressistas nacionais e internacionais, com expositores e com patrocinadores. Um congresso, finalmente, que potencia a colaboração com um conjunto de entidades, incluindo a American Psychological Association, num evento colaborativo dentro do próprio congresso sobre novas tecnologias, inteligência artificial, contributos da psicologia e potenciais desafios e impactos na sociedade.

Com cerca de dois terços dos bilhetes presenciais já vendidos, nos próximos dias começaremos a conhecer o programa que, creio, estimulante e um contributo importante para pensar a psicologia em Portugal e no espaço Ibero-Americano.

Quando a 26.09.2010 caminho José Saramago foi inaugurado pela sua filha, ela disse sentir pena por “ele não estar aqui [lá] para ver”. No 2º dia do Congresso passarão 14 anos dessa dia e espero que esteja lá para ver. Para ver e contribuir para se construir um grande Congresso e, com ele, um importante contributo para a sociedade.

Link Congresso

Link Call Revista

Link Vídeo

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

“Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções.”

“Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar”, 83º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa o quão diferente é ser-se um/a adolescente de 14 anos hoje face a 1998 (ou há alguns, não tantos, anos) e o quanto, os hoje mais velhos, “sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades”.

“Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. (…) Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, vive numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.”

“Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista”, refiro no artigo, dizendo que, “apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.”

Explico depois porquê e termino sublinhando que se “investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo.”

“No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A vergonha e a “expressão saudável das emoções” (Ao redor…; 08.05.2024)

A espaços estou a rever a série “Daniel Tigre” que há alguns anos descobri com o meu filho mais velho. Hoje vejo-a com o meu filho mais novo, interessado que está nestes desenhos animados e nas suas músicas que pede que coloquemos, particularmente aquando das nossas deslocações de carro. O argumento da série faz uma síntese honesta entre uma apenas aparente simplicidade e uma total intencionalidade no que pretende fazer sentir, reflectir, transmitir. Faz jus à pessoa e ao programa base da sua génese.

O filme “Um amigo Extraordinário” é uma interessante forma de conhecer essa pessoa e esse programa. Realizado por Marielle Heller, narra a criação e desenvolvimento de uma amizade improvável de um jornalista (Lloyd Vogel), convidado pela Esquire para realizar uma peça perfil sobre Fred Rogers e o seu “Mister Rogers Neighborhood”, programa infantil da televisão americana, extremamente popular na década de 1960. O filme retrata esta improvável amizade entre ambos, que surge a partir dos contactos e entrevistas iniciais de Lloyd a Fred Rogers e mostra-nos, logo no início, uma passagem onde Fred Rogers refere que o seu trabalho e o seu programa pretendem “propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. Este programa inspira o mais recente “Daniel Tigre” que procura ajudar crianças, como os meus filhos, mas não apenas crianças, a entenderem e expressarem as suas emoções de forma mais saudável.

No meu último artigo nesta rubrica – Propósito e os 50 anos do 25 de Abril – referi-me a um certo e inquietante “vazio”, também de comunidade e propósito, que tende a “ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo.” Grupos e ideais que proclamam estes vazios, vivendo deles, e que, não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.

Por estes dias temos vivido, a maioria de nós creio com significativa apreensão, os inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, onde um conjunto de pessoas se reuniram para, violentamente, agredirem um conjunto de outras pessoas que em comum, aparentemente, tinham apenas a condição de habitarem na mesma casa e serem imigrantes a residir em Portugal. Inenarráveis acontecimentos que apenas merecem repúdio veemente, mas que não anularam espaço para, como atrás referia, alguns grupos, com diferentes fins, os relativizarem ou, no mínimo, procurarem enquadrar comportamentos não enquadráveis em qualquer contexto de Direitos Humanos.

Estas atitudes, primeiro presumidas pelos grupos que perpetuam este tipo de actos e violência, depois concretizadas, a par de outras atitudes e comportamentos em áreas chave e modelo da sociedade, particularmente para a população mais jovem – da política ao futebol, passando pela cultura e pelo ambiente online – criam condições óptimas para que um conjunto de atitudes negativas e de emoções fortes face aos outros (sejam esses outros, outros porque adversários políticos ou desportivos, porque provenientes de um outro país ou porque de uma outra religião ou orientação sexual) terminem em comportamentos de conflito destrutivo, agressivos, violentos, discriminatórios ou mesmo xenófobos ou racistas.

Esta “passagem ao acto”, normalmente em grupo, decorre, desde logo, da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades. Decorre, também, da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos, que potenciam a disrupção que, podendo ter tanto de positivo – pela possibilidade de afirmação, mudança e minimização das consequências potencialmente negativas, incluindo nas dimensões da saúde mental,  – como de negativo, quando permite ultrapassar a sensação de “inadequação pessoal” que dela resulta, possibilitando romper com as convenções sociais e comporta processos de justificação ou legitimação de comportamentos atentatórios, por exemplo, de bens ou pessoas em sociedade. Decorre, finalmente, de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas, valendo isso pouco face aos potenciais ganhos de causa para determinados grupos e objectivos no curto prazo.

É também por isso que o sentido de comunidade e propósito, como aqui referi no último artigo, têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos em sociedade. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.

 

Tiago Pereira

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-vergonha-e-a-expressao-saudavel-das-emocoes

 

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Hawkins, IA e o que estamos a fazer e podemos fazer

Por estes dias, olhamos ao nosso redor e não é difícil que, face a certos acontecimentos e fenómenos sociais, sintamos uma certa “repetição da história” e um regresso a situações que, porventura, julgávamos “impossíveis de repetir”. Da Guerra na Europa, a um certo discurso de ódio, passando por um certo recrudescimento da violência e desigualdade de género, para dar apenas alguns exemplos. Tudo a lembrar-nos que não há futuro sem passado, passado este que importa ter sempre presente e “inscrito” para um melhor futuro.

Penso-o, hoje, a propósito do vertiginoso avanço da inteligência artificial e da recente disponibilização do ChatGPT 4o, face mais visível e reconhecida de uma série de ferramentas que, a cada dia, passamos a dispor e/ou impactam a nossa vida. Em rigor, que algumas pessoas, e apenas algumas pessoas – por razões diversas, desde o conhecimento e literacia, aos receios, medos e resistência e, naturalmente, às desigualdades sociais e económicas – têm ao seu dispor, mas que impactam, significativamente, a vida de todas as pessoas.

E penso-o evocando Stephen Hawkins a partir do artigo que partilho, que publicou no “The Independent” com colegas há 10 anos (4 anos antes do seu desaparecimento). Parte da pergunta base se “estamos mesmo a levar a sério as implicações da inteligência artificial?”, alertando que é um erro (talvez “o maior erro da história humana”) pensarmos que máquinas superinteligentes sejam “mera ficção científica” quando os avanços na inteligência artificial são (eram já) tão velozes.

Hawkins escrevia-o quando surgiam as primeiras experiências de condução autónoma ou de assistentes como a Siri, portanto distante ainda do potencial que hoje reconhecemos noutras ferramentas, mas suportado nos “investimentos sem precedentes nesse desenvolvimento” e nas fundações “conceptuais e teóricas sólidas” que o faziam crer (como hoje testemunhamos) que o desenvolvimento seria tremendamente impactante e rápido.

Hawkins afirma que a IA podia ser o mais transformador acontecimento na história humana e ter, porventura, “potencial de erradicar a guerra, a pobreza ou a(s) doença(s)” mas, ao mesmo tempo, dois enormes riscos: a) de atingirmos a superinteligência e tecnologias que possam “desconstuir mercados financeiros, manipular líderes humanos ou desenvolver armas que não podemos sequer compreender”; b) de fazermos pouco para, pela investigação, preparação e regulação, influenciar positivamente estas mudanças (sobre isto, partilho este meu pequeno contributo).

Estávamos a “levar a sério” há 10 anos? E estamos hoje? Penso que não totalmente e que podemos, pensando e inscrevendo o passado, fazer mais no presente (com o contributo e reivindicação de cada um/a de nós) para um futuro. Melhor.

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Os acasos felizes acontecem quando saímos de casa e estamos abertos aos outros

“Os acasos felizes acontecem quando saímos de casa e estamos abertos aos outros”, disse…

…Em resposta à pergunta “O que pode contribuir para minimizar o azar? Ou encontrar acasos felizes?”, feita pela @Clara Soares, no âmbito de uma entrevista/contributo que partilho para um trabalho maior intitulado “A ciência da Sorte”, parte da penúltima edição da Revista @Visão.

Nela procuro contribuir para a reflexão sobre este tema a partir dos contributos da ciência psicológica. Abordo, desde logo, a serendipidade – processo de desenvolver ou encontrar coisas felizes, úteis ou interessantes por acaso – para muitas pessoas uma forma especial de criatividade, e o quanto depende da perseverança, da inteligência (particularmente a “fluída”) e do sentido de observação e empatia com o que e quem nos rodeia.

Falamos de incerteza, de imprevisibilidade, e do quanto ontem, como hoje, as lendas, o pensamento mágico, as mezinhas também resultam de uma tentativa de maior controlo por parte das pessoas e funcionam como estratégias para lidar com essa incerteza, da própria pessoa ou das outras pessoas. Reflectimos sobre profecias que se auto-realizam, nomeadamente sublinhando como a expectativa (negativa ou positiva) influencia o nosso comportamento e as emoções associadas a determinados fenómenos e quanto isso implica (negativa ou positivamente) o nosso foco e comprometimento, impactando o resultado final e contribuindo para essa percepção da auto-realização das expectativas.

Discutimos ainda o papel do “viés do mundo justo” e de uma tendência nossa (humana) para uma atribuição causal de tudo quanto nos sucede e de como isso – por exemplo nas situações de pobreza ou violência – pode resultar numa (auto)atribuição de culpa/responsabilidade a quem vive determinada situação. Noutro sentido, falamos também do “viés da sobrevivência” e de como tendemos a olhar para casos absolutamente excepcionais como se fossem “comuns”, esquecendo que o mais natural é o que sucede com o(s) que não é(são) excepcional(ais).

Termino com a necessidade de abertura ao que nos rodeia e às outras pessoas, também com empatia, como veículo para os tais acasos felizes e o quão importante ao bem-estar é a capacidade de adaptação, de transformação do que nos acontece e de alguma “higiene de informação”, prevenindo uma visão do Mundo como um lugar “perigoso e azarento”. Com elas e com o quanto, as oportunidades de sentirmos propósito, contribuem para o meu e nosso bem-estar…

…Para que sinta o quanto a vida me ter dado oportunidades para me sentir realizado.

Link para a Entrevista

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A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

“Propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. É assim que Fred Rogers, criador e apresentador do “Mister Rogers Neighborhood” (programa infantil da década de 1960 que inspira a série “Daniel Tigre”), descreve o intuito do seu trabalho e contributo.

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”, 82º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura sublinhar como “grupos e ideais” usam de vazios e “não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.”

Os “inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, resultam de uma “passagem ao acto”, normalmente em grupo, que tende, também, a decorrer:

a) da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades;

b) da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos;

c) de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas.

“É também por isso que o sentido de comunidade e propósito (…) têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.”

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Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

Link para o programa:

Parte I

Parte 2

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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril (Ao redor…; 24.04.2024)

Por estes dias muito se falará e discutirá em torno do 25 de Abril, dos 50 anos que se comemoraram e de tudo quanto o país evoluiu e mudou. Debater-se-ão os mais diversos pontos de vista e eu, grato que sou ao 25 de Abril e a quem tanto lutou e deu para o tornar possível e para se cumprir, associo-me ao debate trazendo, eventualmente, um outro ângulo: a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito.

Cresci numa aldeia que, embora pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema. Cresci numa família que, embora também pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema e um dia muito relevante e feliz. Certamente, muito por isso, pelas histórias e pelas experiências ao meu redor, sempre me fascinou e sempre admirei as tantas pessoas que durante tantos anos e com desafios e dificuldades que não posso sequer imaginar, “deram” a sua vida a um ideal, a uma causa, a um propósito: o de contribuir para uma sociedade em que pudessem pensar e agir de forma livre e autodeterminada, uma sociedade onde pudéssemos, quem se lhes segue, pensar e agir de forma livre e autodeterminada.

Fascina-me e admiro essa abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais. É que, não, pessoas que se privavam de ver a sua família e amigos, de acompanhar o nascimento ou crescimento de filhas e filhos não o faziam porque gostavam menos da família, amigos ou das filhas ou filhos que pessoas que não o faziam. Não, estas pessoas não o faziam sem sofrimento, sem sacrífico, antes procuravam um bem maior também para a família, amigos, filhas e filhos, considerando que o seu contributo para tal decorria desse esforço, desse compromisso, dessa outra vida. Por vezes, de, literalmente, se dar a vida, como infelizmente tantas e tantos deram.

O dia 25 de Abril de 1974 deu significado a todo esse esforço de décadas. O dia 25 de Abril de 2024 continua a dar significado a todo esse esforço, celebrando-o e, também pelo momento histórico que vivemos, em Portugal, na Europa e no Mundo, constituindo-se como uma oportunidade, é certo, para celebrarmos esse propósito que uniu tantas e tantos que desejaram e fizeram Abril mas, também, como uma oportunidade para um novo contrato de propósito comum, com o continuar a cumprir os valores de Abril, os valores da equidade, bem-estar, da possibilidade de autodeterminação. Da liberdade.

Apesar de todos os problemas sociais, alguns muito complexos, temos hoje acesso, em Portugal, também pelo que Abril cumpriu, e em parte significativa do Mundo, a mais oportunidades, serviços e, no geral, a mais qualidade de vida face à grande maioria das pessoas que viveram, em Portugal e no Mundo, nos últimos milénios, séculos, décadas. No entanto, temos também níveis inquietantes de problemas na área da saúde mental, particularmente de ansiedade e depressão, e temos assistido nos últimos anos a retrocessos, em alguns casos significativos, nas Democracias, nos Direitos Humanos e, até, no que significa ser-se livre e na vivência plena da Liberdade.

É atribuída a Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no século XIX, uma frase que associa a ansiedade a algo próximo de uma tontura ou vertigem [“dizziness”] resultante da liberdade e do livre-arbítrio. Apesar de “figurada” a imagem, importa reflectir sobre dois fenómenos. Um primeiro é uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo advento e crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com algum crescimento do individualismo, da solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais expressos, por exemplo, na participação em grupos (incluindo religiosos ou políticos) não fundamentalistas ou populistas. E um segundo associado a um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas mais significativas e por mudanças no seu entorno que geram, particularmente em algumas pessoas, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.

É este o contexto e o risco que dele decorre, particularmente o relativo a este “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação esta utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, do ressentimento e da despersonalização “cola” de um conjunto de pessoas e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento acelerado por via de apropriações religiosas e políticas de uma ideia do Estado Novo tão acarinhada por António de Oliveira Salazar: “Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento”. Sendo-o, no entanto, sempre e quando as pessoas “providenciais” e as escolhidas pelas “providenciais” assim o desejam e queiram, para garantir, contra quem pense ou aja de forma diferente, desse Estado do Estado.

Eu não me resigno à possibilidade deste caminho e ao que ele implica já no presente, mas pode implicar no futuro próximo e não tão próximo. É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como Irene Vallejo bem assinala, “o que somos e seremos deve-se em grande parte a pessoas que viveram vidas escondidas e que descansam em túmulos que nenhum turista vai visitar”. Façamo-lo, assim, por essas pessoas. A partir do que significam, criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós, pelos que nenhum turista vai visitar e pelos que nos seguirão.

 

Tiago Pereira

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

in Sábado (Ao redor…); 24.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/proposito-e-os-50-anos-do-25-de-abril