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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril (Ao redor…; 24.04.2024)

Por estes dias muito se falará e discutirá em torno do 25 de Abril, dos 50 anos que se comemoraram e de tudo quanto o país evoluiu e mudou. Debater-se-ão os mais diversos pontos de vista e eu, grato que sou ao 25 de Abril e a quem tanto lutou e deu para o tornar possível e para se cumprir, associo-me ao debate trazendo, eventualmente, um outro ângulo: a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito.

Cresci numa aldeia que, embora pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema. Cresci numa família que, embora também pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema e um dia muito relevante e feliz. Certamente, muito por isso, pelas histórias e pelas experiências ao meu redor, sempre me fascinou e sempre admirei as tantas pessoas que durante tantos anos e com desafios e dificuldades que não posso sequer imaginar, “deram” a sua vida a um ideal, a uma causa, a um propósito: o de contribuir para uma sociedade em que pudessem pensar e agir de forma livre e autodeterminada, uma sociedade onde pudéssemos, quem se lhes segue, pensar e agir de forma livre e autodeterminada.

Fascina-me e admiro essa abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais. É que, não, pessoas que se privavam de ver a sua família e amigos, de acompanhar o nascimento ou crescimento de filhas e filhos não o faziam porque gostavam menos da família, amigos ou das filhas ou filhos que pessoas que não o faziam. Não, estas pessoas não o faziam sem sofrimento, sem sacrífico, antes procuravam um bem maior também para a família, amigos, filhas e filhos, considerando que o seu contributo para tal decorria desse esforço, desse compromisso, dessa outra vida. Por vezes, de, literalmente, se dar a vida, como infelizmente tantas e tantos deram.

O dia 25 de Abril de 1974 deu significado a todo esse esforço de décadas. O dia 25 de Abril de 2024 continua a dar significado a todo esse esforço, celebrando-o e, também pelo momento histórico que vivemos, em Portugal, na Europa e no Mundo, constituindo-se como uma oportunidade, é certo, para celebrarmos esse propósito que uniu tantas e tantos que desejaram e fizeram Abril mas, também, como uma oportunidade para um novo contrato de propósito comum, com o continuar a cumprir os valores de Abril, os valores da equidade, bem-estar, da possibilidade de autodeterminação. Da liberdade.

Apesar de todos os problemas sociais, alguns muito complexos, temos hoje acesso, em Portugal, também pelo que Abril cumpriu, e em parte significativa do Mundo, a mais oportunidades, serviços e, no geral, a mais qualidade de vida face à grande maioria das pessoas que viveram, em Portugal e no Mundo, nos últimos milénios, séculos, décadas. No entanto, temos também níveis inquietantes de problemas na área da saúde mental, particularmente de ansiedade e depressão, e temos assistido nos últimos anos a retrocessos, em alguns casos significativos, nas Democracias, nos Direitos Humanos e, até, no que significa ser-se livre e na vivência plena da Liberdade.

É atribuída a Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no século XIX, uma frase que associa a ansiedade a algo próximo de uma tontura ou vertigem [“dizziness”] resultante da liberdade e do livre-arbítrio. Apesar de “figurada” a imagem, importa reflectir sobre dois fenómenos. Um primeiro é uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo advento e crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com algum crescimento do individualismo, da solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais expressos, por exemplo, na participação em grupos (incluindo religiosos ou políticos) não fundamentalistas ou populistas. E um segundo associado a um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas mais significativas e por mudanças no seu entorno que geram, particularmente em algumas pessoas, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.

É este o contexto e o risco que dele decorre, particularmente o relativo a este “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação esta utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, do ressentimento e da despersonalização “cola” de um conjunto de pessoas e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento acelerado por via de apropriações religiosas e políticas de uma ideia do Estado Novo tão acarinhada por António de Oliveira Salazar: “Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento”. Sendo-o, no entanto, sempre e quando as pessoas “providenciais” e as escolhidas pelas “providenciais” assim o desejam e queiram, para garantir, contra quem pense ou aja de forma diferente, desse Estado do Estado.

Eu não me resigno à possibilidade deste caminho e ao que ele implica já no presente, mas pode implicar no futuro próximo e não tão próximo. É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como Irene Vallejo bem assinala, “o que somos e seremos deve-se em grande parte a pessoas que viveram vidas escondidas e que descansam em túmulos que nenhum turista vai visitar”. Façamo-lo, assim, por essas pessoas. A partir do que significam, criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós, pelos que nenhum turista vai visitar e pelos que nos seguirão.

 

Tiago Pereira

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

in Sábado (Ao redor…); 24.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/proposito-e-os-50-anos-do-25-de-abril

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