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Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial

“Passam cerca de 30 anos desse momento. E tanto mudou. Temos hoje outra sensibilidade na sociedade para o impacto destas situações na saúde, incluindo naturalmente na saúde mental, e bem-estar. Impactos para quem vive (directa ou indirectamente) ou observa situações de crise, catástrofe e/ou situações trágicas. Temos hoje profissionais de diversas áreas, em diversos contextos, mais preparadas/os e capacitadas/os para responder e apoiar nestes desafios. Temos hoje, psicólogas e psicólogos nas Escolas, ao contrário do que acontecia naquela e em muitas naquele momento. Temos hoje psicólogas/os nas estruturas de emergência, incluindo pré-hospitalar, e nos agentes de protecção civil. Muito mudou, mas muito caminho há por percorrer.”

Este é um dos parágrafos do prefácio que escrevi para o livro “Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial” cujas primeiras páginas aqui partilho.

Parte de uma experiência que vivi para me permitir referir quanto “este livro nos ajuda a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer.” Porquê? “Porque reúne um conjunto significativo de pessoas que fazem parte desta história, desta mudança, que dia-a-dia, muitas vezes em condições particularmente exigentes e complexas, construíram a resposta pré-hospitalar de apoio às populações, também a partir do contributo específico, integrado multidisciplinarmente, da ciência e prática psicológica.” Pessoas, várias, que muito admiro reunidas por uma outra pessoa e profissional de excelência que coordenou a obra.

É que “a Ana Oliveira, além de personagem participante activa desta história, fez este muito desafiante percurso, desde o seu interesse, atitude e disponibilidade para nesta área contribuir com o seu tempo e intervenção como cidadã primeiro e depois como psicóloga, à feliz ideia de reunir esta diversidade de pessoas e contributos, organizando-os e concretizando-os nesta obra. Devemos-lhe, por isso e pela dificuldade disso, um agradecimento especial. Devo-lhe eu, um duplo, por ter tido ainda a gentileza de confiar em mim e me permitir estar associado a este seu esforço, a este grupo de pessoas e a este trabalho.”

Termino este texto-convite a conhecerem a obra como termino o prefácio, escrevendo: “Ora, as páginas que se seguem, creio, contribuem para tudo isto. Orgulho-me de fazer parte delas e também o devo a uma pessoa que muito contribuiu para a sensibilidade que tenho face a estes temas e que me e nos falta todos os dias.”

Hoje seria um dia especial para este amigo que me e nos falta todos os dias. Quanto queria dar-te um abraço, agora.

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MUS-E Portugal: 25 Anos

O www que quotidianamente utilizamos para acedermos a sítios na internet, representa o termo “world wide web”, um sistema de documentos interligados entre si e executados a partir da internet. Nos últimos anos, embora com algum questionamento e debate científico, vem-se falando de outro www, o “wood wide web”. Assim chamada, ou usando-se do termo mais técnico (“rede micorrízica comum”), refere-se a uma rede subterrânea de fungos (e bactérias) que, aparentemente, conectam várias árvores e plantas, permitindo via raízes a troca de nutrientes e informação química.

Pensei neste termo, neste fascinante mecanismo, na cooperação, na interligação, relação e conexão e nas “raízes”, ao ver o documentário “MUS-E: 25 anos em Portugal”. Gravado há já algum tempo, é certo, passou na @RTP 2 na passada sexta-feira, curiosamente no dia seguinte das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974.

Documentário que trata um programa e um conjunto de projectos que em tudo se relaciona com a Liberdade, a equidade e o acesso. Fundado pelo compositor, violinista e humanista Yehudi Menuhin, a rede MUS-E interconecta Escolas de diferentes países na Europa comprometidas com um projecto de inclusão escolar e social de crianças e jovens em contextos de especial vulnerabilidade, a partir das expressões artísticas e do seu potencial de transformação e aproximação de comunidades, culturas e pessoas.

Promovido em Portugal pela Associação Yehudi Menuhin Portugal, associação a quem muito devo. Foi pela confiança que em mim depositou que pude trabalhar – o meu primeiro trabalho, a par das minhas funções há época enquanto Assistente Convidado da @Universidade de Évora – enquanto psicólogo e coordenador de um projecto financiado pelo Programa Escolhas numa Escola e comunidade em Évora. Associação a quem procuro retribuir, através do meu compromisso com os valores, o legado do projecto e o, hoje, singelo papel que tenho na sua direcção.

Mas voltemos ao documentário que “dá” imagem e som, também, a essas minhas raízes, mas, principalmente, a esta interligação e relação, trazendo as caras das pessoas que o inspiraram, fizeram e fazem, na Europa e em Portugal. Aqui, no meu contributo por via da minha participação do documentário procuro focar, essencialmente: o privilégio de poder ter acompanhado e sentido, em primeira mão, os processos de transformação que gera, nas e nos alunos e na Escola; e o sentir da diversidade, enquanto desafio, mas enquanto riqueza maior da vivência em sociedade e no Mundo.

Deixo em seguida um www para o documentário. Um www para acesso às crianças, às e aos professores, artistas, coordenadoras/es e dirigentes que fazem este bonito projecto e procuram cumprir, dia-a-dia, o bonito sonho do Menuhin.

Link para Documentário

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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

“É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.”

“Propósito e os 50 anos do 25 de Abril”, 81º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa os 50 anos do 25 de Abril e “a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito”.

Parte das minhas raízes e do meu fascínio e admiração pela dádiva e luta de tantas e tantos ao longo de tanto tempo para o tornar possível, “abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais.”

Discute, depois, o quanto evoluímos/mudamos mas situa estes 50 anos num tempo marcado por 2 fenómenos: a) uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com o crescimento do individualismo, solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais / grupos; b) um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas e por mudanças no seu entorno que geram, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.”

Refiro-me ao risco deste “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer sejam religiosas, políticas ou resultem da conjugação de ambas, numa procura conexão das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, devolvendo sensação de pertença a algo maior, poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, ressentimento e da despersonalização “cola” e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento.

A isso, não me resigno. Construamos “um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril. “Criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós.”

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A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza

No seu discurso de tomada de posse como Primeiro-Ministro, Luís Montenegro citou Saramago. Não citou, no entanto, um excerto do “Viagem a Portugal” onde Saramago refere que “é preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

Não em viagem (pelo menos como aqui referida) voltei há dias aos “passos que foram dados”. A uma cidade onde vivi parte significativa da minha vida (Évora), à Universidade onde estudei e a uma iniciativa (Semana da Psicologia, organizada pelo NEPUÉ, em que participei nas condições possíveis – participante, organizador e “palestrante”). Esta última, pela segunda vez e, desta vez, para uma conversa sobre “A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza”.

Fi-lo na quinta-feira, dois dias antes da apresentação do contingente de vagas para o Ensino Superior para o próximo concurso e de, mais uma vez, serem expostos e discutidos os dados que indicam que as/os estudantes de escalão A de acção social têm muito mais dificuldade (apenas metade da probabilidade) que estudantes sem acção social têm de aceder aos cursos com notas de entrada mais altas e essas e esses “sobreviventes”, conforme alguns estudos as/os apelidam, acabarem por reprovar mais e abandonar mais e mais precocemente o sistema.

Estes indicadores contribuem decisivamente para a cristalização das situações de maior desigualdade e pobreza. Problemas e desafios que, conforme aqui tenho discutido, impactam significativamente a dignidade, a saúde, o bem-estar e a possibilidade de autodeterminação das pessoas e limitam o desenvolvimento, prosperidade e coesão do país. Problemas e desafios fundamentais à psicologia, também pelo seu contributo, e à psicologia num Mundo transdisciplinar, mote desta Semana da Psicologia de 2024.

Neste sentido foi um gosto este regresso, pelo simpático (duplo) convite, pelo que de simbólico ele comporta e, espero, pela oportunidade que quem assistiu teve de reflectir estes temas nas diversas etapas de desenvolvimento profissional em que se encontram. Finalmente, como discutíamos no final, pelo que representa na e para a identidade da psicologia, considerando o combate à pobreza como elemento-chave do nosso contributo e um tema/objectivo que, ao percorrer diferentes papéis das e dos profissionais e diversas áreas de actividade, ser fonte, também, de reforço da identidade e de trabalho conjunto e colaborativo.

A propósito, a citação de Montenegro foi “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Sim, não percamos tempo. Erradicar a pobreza é possível, mas depende de ser desígnio de todas e todos e do importante contributo de um conjunto de ciências e de profissionais, incluindo a psicológica e as psicólogas e psicólogos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”? (Ao redor…; 26.03.2024)

Ou será apenas ao meu redor que tal parece acontecer? Ou melhor, serei apenas eu a senti-lo? Por assim pensar e reflectir, questionei algumas pessoas que, primeiro estranharam, mas, depois e porque mais atentas, sorriram quando acontecia e, de certa forma e à sua maneira, confirmaram. Estarão, então, mais pessoas a dizer a palavra “exacto” e essas mais pessoas mais vezes? Exacto. E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.

Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online) ou de acontecimentos (troika ou quarentena) mas, também, outras palavras e expressões não relacionadas com uma transformação ou acontecimento em específico. “Bué”, “fixe”, “tipo” e, agora, mais recentemente, “exacto”, para dar apenas alguns exemplos.

Não pretendo discutir propriamente porquê “exacto” e porquê neste momento. Antes, assinalá-lo e, ao assinalá-lo, procurar que pensemos a forma como se processa e o impacto que tem um fenómeno apelidado de contágio social. Fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais que incluem, entre outros, a imitação (directa) ou a conformidade e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção, seja ela um comportamento, uma expressão emocional ou mesmo uma palavra ou expressão. O contágio social por via das múltiplas interacções sociais é, nesse sentido, um processo fundamental na forma como nas línguas se criam e universalizam gírias ou modismos, como as diferentes línguas interagem umas com as outras e como se têm transformado e adaptado ao longo do tempo.

Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas. Senão vejamos, a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas, permitindo sucessivamente que essas pessoas cheguem a outras pessoas. Fá-lo ao mesmo tempo que potencia a possibilidade de encontro entre grupos e comunidades, explorando factores de liderança, reverência e relevância e aumentando, também por essa via, não apenas a velocidade, mas também a intensidade do fenómeno de contágio. Intensidade que, por sua vez, é influenciada pelas emoções associadas às acções, algo também potenciado pelas novas tecnologias e, particularmente, quando nos referimos a emoções normalmente classificadas como menos positivas como sejam o ódio, a raiva ou o ressentimento que se propagam a velocidades maiores no contexto das redes sociais. Finalmente, há também o papel importante da conformidade e da pressão (percebida) dos pares nos processos de contágio, algo que, necessariamente, é também aumentado pela presença online e pela forma como decorrem os processos de reconhecimento em ambiente digital.

Aqui chegados creio que restará claro que, conforme o atrás pode permitir compreender o porquê de uma maior utilização em Portugal da expressão “exacto”, apoia também a compreensão de como estes mecanismos são, cada vez com maior eficácia, utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, como podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo como podem, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, também e por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.

O contágio social é assim um veículo importante para processos de deslegitimação de comportamentos ou crenças outrora legitimados socialmente e vice-versa. Também porque uma maior e mais permanente presença de um determinado fenómeno no espaço social e, hoje, mediático tende para a sua normalização e naturalização e, por essa via, para uma progressiva alteração das normas sociais vigentes, proporcionando maior aceitação de comportamentos ou acções antes não aceites ou a rejeição de comportamentos ou acções antes aceites, mudanças que, por vezes, podem gerar desconforto, conflito ou até sobressalto social. Neste sentido, particularmente em questões mais ideológica ou socialmente fracturantes, o contágio social tem o paradoxo de tender para a generalização de uma crença ou comportamento no seio de um grupo ou comunidade mas, ao mesmo tempo, potencial de fragmentação, de polarização e de diminuição do espaço de compromisso e construção conjunta, porquanto esse grupo e comunidade tenderá a afastar-se progressivamente mais e mais significativamente de outros grupos e comunidades com crenças e comportamentos distintos. Por vezes opostos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o contágio social tem um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas, suportando importantes mudanças sociais com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. Tê-lo presente é ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.

 

 

Tiago Pereira

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

in Sábado (Ao redor…); 26.03.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tem-reparado-que-agora-mais-pessoas-dizem-mais-vezes-exacto

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Uma (só) Saúde

Ao contrário do que aconteceu com a Educação, “na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo (…) Há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as suas próprias competências se vão alterando e indiciando a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?”

“Uma (só) Saúde”?, 80º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre como, “com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas”, caminhamos do modelo biomédico para o modelo biopsicossocial (explicitando-os) e o aprofundamos, acrescentando progressivamente às dimensões sociais e psicológicas, a saúde dos restantes animais e o cuidado e integridade com o meio ambiente e ecossistemas, numa abordagem integrativa conhecida por “uma (só) saúde” [“One health”].

“Neste caminho assistimos a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação e desenvolvimento e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.”

“Esta transformação progressiva foi assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”] (…) Dia em que, a partir da abordagem “One health”, o conjunto das nove Ordens da Saúde apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal, sublinhando a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do SNS, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; (…) reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental (…) e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.”

“Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.”

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Comportamento Democracia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Como hoje é dia 4 do mês 4 de 2024 partilho 4 parágrafos de reflexão com quem tiver 4 minutos de paciência. Versam sobre logotipo(s), logoterapia e (erradicação da) pobreza.

Nas últimas horas falamos do novo Governo muito em torno da mudança de logotipo por este promovida. Muito haverá a reflectir sobre a mudança, o timing e sobre o quão mobilizador, polarizador (conforme muito do que é mobilizador hoje) e emocional (idem) este tema é. Falamos menos de outro “logo” (por ex. utilizado por V. Frankl na descrição da logoterapia, modelo psicoterapêutico que parte da procura de um sentido de vida como motor de desenvolvimento e adaptação da pessoa), ou seja do sentido, propósito(s) e princípios orientadores do Governo na compreensão e interpretação da realidade actual e projecção do futuro.

Aqui permitam-me uma sugestão: discutamos a pobreza e reforcemos o desígnio de a erradicar. A pobreza que, talvez mais que qualquer outro fenómeno, fragiliza a coesão social e interfere com a saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação das pessoas e com a prosperidade do país. A pobreza e a desigualdade a que está fortemente associada, cujo combate, como Gordon Brown refere no artigo que partilho, “pode ser uma razão de optimismo” [quando ele não abunda], de “parceria que junte organizações sociais, empresariais, comunitárias e o Governo (…) num projecto de unidade e esperança” [quando projectos de unidade e esperança não abundam] e “um sinal que todo o país necessita: o princípio do fim” [da pobreza]. Sinal que dependeria de mais do que duas breves menções à pobreza no discurso de tomada de posse quando comparadas, por ex., com 4 relativas à corrupção e outras 4 à burocracia. Sinal que poderia partir do reforço do compromisso com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza e da priorização do combate à pobreza e à desigualdade como força motriz de construção conjunta na Assembleia da República.

Este não é um momento qualquer para o fazer. Daqui a 3 semanas cumprimos 5 décadas de Democracia (aconselho o “Viva a Democracia – 50 anos e o Futuro”) e podemos orgulhar-nos, creio, de sermos o país da Europa em que mais pessoas (72%) associam o “assegurar que não existe pobreza” a um “princípio fundamental da Democracia”. Reforçar a Democracia, combater populismos e pessoas providenciais, decorre de respondermos à pobreza e desigualdade que permanecem como uma das principais preocupações da população (também com a Democracia).

Que lhe sejamos responsivos e que nos mobilizemos. Que o façamos cuidando do que a Irene Flunser Pimentel tão sabiamente refere no 1º episódio do documentário: que “a grande desigualdade decorre na vida privada, não nas Leis”, acrescento eu, decorre na desigualdade e na(s) violência(s) explicitas e implícitas na vida de pessoas ao nosso redor, não raras vezes escondidas entre paredes, parte das quais legitimadas pela história, por narrativas ou mesmo por discursos proferidos ou intuídos.

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Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

Exacto. Exactamente. Exacto… Também sentem, ao vosso redor, que agora mais pessoas mais vezes dizem “exacto”? “E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.“

“Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?, 79º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão para reflectir sobre o papel e impacto do contágio social.

“Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online), de acontecimentos (troikaou quarentena) mas, também, palavras e expressões como “bué”, “fixe” ou “tipo”.

Não pretendo, portanto, discutir porquê “exacto” e porquê agora. Antes assinalá-lo e pensar o contágio social, “fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais (…) e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção.”

“Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas”. Por exemplo [outros são detalhados no artigo], “a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas.”

Os processos de contágio social são, por isso e cada vez com maior eficácia, “utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.”

“O contágio social tem, assim, um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. É ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.”

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O valor económico das competências sócio-emocionais na infância (Sábado, 13.03.2024)

Não é muito frequente serem disponibilizados estudos que, porque seguem um número significativo de pessoas durante diferentes décadas, permitem relacionar indicadores de comportamento (por exemplo) na infância e indicadores de “sucesso” na vida profissional (por exemplo) na idade adulta. Também por isso, quando tal acontece, à tendência natural que temos em conferir-lhes uma especial atenção devemos juntar alguma prudência na análise dos dados e resultados. Assim deve ser com o interessante estudo recentemente publicado por três investigadoras/es da Universidade de Essex | “The economic value of childhood socio-emotional skills” [O valor económico das competências sócio-emocionais na infância] https://www.iser.essex.ac.uk/wp-content/uploads/files/working-papers/iser/2024-01.pdf

O estudo parte de uma Coorte no Reino Unido com dados sobre quase 17.000 pessoas nascidas na segunda semana de Abril de 1970 e discute a relação entre capacidades sociais e emocionais dessas pessoas avaliadas aos 10 anos e dados relativos aos seus vencimentos (salários) em 2016. Permite concluir que as pessoas que aos 10 anos manifestavam mais problemas de atenção, menor capacidade de relação com os pares e cooperação e maior instabilidade e dificuldade de regulação emocional, 36 anos depois recebiam, em média, salários mais baixos face a pessoas que em criança apresentavam melhores resultados nestes três indicadores, algo que tende a suportar a importância de se investir no desenvolvimento precoce das competências sócio-emocionais, de relação e cooperação e de atenção. “Se isto era verdade há 50 anos é muito mais verdade hoje”, destaco no trabalho da Leonor Riso da Revista SÁBADO a este propósito, referindo ser fundamental “apostar no desenvolvimento do foco, da empatia, da adaptação e do trabalho em equipa numa sociedade [hoje] muito mais rápida”, mais incerta e mais complexa.

Noutro prisma, o estudo apresenta também dados que indicam que crianças que manifestavam problemas de comportamento e maior agressividade recebiam, em média, salários mais elevados face a crianças que manifestavam menos problemas de comportamento e menor agressividade. Na peço, quer eu, quer a Maria José Chambel, procuramos esclarecer sobre o conjunto de factores mediadores que podem apoiar a compreensão desta associação, distinguindo-a de efeitos de causalidade (causa-efeito). Reflectimos sobre a forma como estes comportamentos na infância podem ter tendido para comportamentos mais assertivos na idade adulta (até pelo cruzamento com os dados acima relativos à regulação emocional e relação com os pares), como podiam resultar de ambientes mais competitivo e que favorecia este tipo de comportamentos em ambiente educativo em 1980 (importa pensar como hoje, particularmente em alguns níveis de ensino, isto ainda acontece) ou como estas dinâmicas influenciam círculos de relação, interesse e as escolhas vocacionais e de carreia que necessariamente impactam as condições salariais futuras.

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Do amor ninguém foge…

Por estes dias o meu pensamento (e o meu coração) ligam-me ao Brasil. Talvez também por isso, vi o “Do amor ninguém foge”. Documentário cujo título é a “expressão maior” dos centros APAC, Estabelecimentos Prisionais (EP) geridos, grosso modo, por pessoas voluntárias, sem polícias ou guardas e onde as pessoas detidas são co-responsáveis pela gestão, incluindo a segurança, e pelas actividades e operação do próprio centro.

Cor num quadro negro que são os EP tradicionais no Brasil, como vários relatórios internacionais têm destacado e tragédias como a do EP de Manaus (2017) demonstram. São hoje mais de 50 os centros APAC no Brasil, inspirados de experiências noutros países, porque, mais que uma “utopia”, apresentam resultados. Levantando, naturalmente, questões relativas aos seus princípios, é fundamental atendermos a um projecto com décadas e com resultados na melhoria da percepção da satisfação das pessoas detidas com o seu processo de recuperação; na menor incidência de violência e inexistência de motins; na melhoria da reintegração (taxas de reincidência significativamente inferiores à dos EP tradicionais); e, até, no próprio custo directo para o sistema, considerando que o custo médio por pessoa num centro APAC é cerca de um terço do custo médio nos restantes EP.

Num momento em que a defesa dos Direitos Humanos e as Democracias persistem em declínio Mundo fora (veja-se o recente relatório do “V-Dem Institute”), é fundamental melhorarmos os serviços nos diferentes países, tornando-os mais eficientes, mais geradores de oportunidades, de equidade e promotores de bem-estar. É necessário mudar, estudando os problemas e o que os mantém, pensando, planeando e ousando fazer diferente. Falhar, talvez. Mas fazer diferente, para conseguirmos fazer melhor.

Vi o documentário (que recomendo) no dia em que terminei de ler o livro “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de outro”. Livro em torno da odisseia de Maria Lamas retratando e escrevendo as “Mulheres do meu país”, escrito por Susana Moreira Marques que, numa passagem, pensando num diálogo com a sua filha, reflecte sobre como “é fácil mostrar como era [a vida das Mulheres naquela década de 1940] mas é difícil explicar porquê”. Penso nos EP em 2023, não apenas, mas em Portugal, e em como é fácil mostrar como são, explicar porque são como são, mas, ao mesmo tempo, aceitar que ainda são como são.

“Tem gente presa no passado, tem gente presa no futuro… tem gente presa na cadeia e gente presa pelas ruas (…) Tem gente se sentindo presa por ser pobre e gente se sentindo presa por ter muita riqueza (…) O que prende a gente não parece ser o frio ou o calor, nem filho nem solidão, nem ter nascido na Bolívia ou no Japão, nem a idade, nem o ferro de uma grade. O que é que prende a gente? O que é que liberta a gente?”, diz uma personagem no final do documentário.

“O que é que prende a gente” de mudar? “O que é que liberta a gente” para ousar mudar, para fazer melhor?