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Direitos da Criança. “Ação local, desafio global”

A mensagem “pense global(mente), aja local(mente)” tem tanto de controverso, sobre a quem se deve atribuir, como de consensual no princípio que transmite. Sendo os principais desafios societais globais mas com impactos diversificados, as acções e intervenções que lhes respondem devem ser localmente desenhadas, de forma participada e diferenciada. É este o princípio de actuação da UNICEF que, através da sua equipa em Portugal, confere um contributo relevante a partir da realidade do país.

Também a partir deste princípio, a UNICEF Portugal promove amanhã um evento que discutirá o “valor maior”: os Direitos da Criança. “Ação local, desafio global” reunirá, no Porto, representantes da comunidade, incluindo decisoras/es (Pedro Pimpão da Câmara Municipal De Pombal, Fernando Paulo da Câmara Municipal do Porto e Beatriz Santos da CM de Vila Verde), responsáveis de institutos públicos (Catarina Marcelino do ISS), da UNICEF (Beatriz Imperatori, Andrea Rossi, Paola Bernal Fuentes e Leonor Costa), além de estudantes, professoras/es, mães/pais, um campeão do Mundo de Kickboxing e um psicólogo, eu, no meu caso para participar numas estimulantes “conversas improváveis” em torno do tema.

Tema que a todas e todos impacta e que de todas e todos depende. De quem pensa e faz a Educação, a Saúde e Bem-Estar ou o Suporte Social. De quem pensa a cidade, lugar fundamental do desenvolvimento sustentável das comunidades, onde cada número tem um nome e uma história. Onde se podem construir laços, resiliência, segurança e, em toda a sua amplitude, lugares “amigos das crianças”, com e pela participação das crianças.

Tudo a caminho de procurarmos políticas públicas mais robustas e uma sociedade mais responsiva no cumprimento dos direitos das crianças. De solidificarmos em Portugal projectos e políticas como a “Garantia para a Infância”, as “Cidades Amigas das Crianças” ou as “Escolas pelos Direitos da Criança”.

Tudo a caminho de olharmos ao nosso redor e nos inspirarmos em iniciativas como o “Act on the Integration of Services in the Interest of Children‘s Prosperity”, uma política participada, estruturada, intersectorial e de longo prazo da Islândia, que nos próximos anos revolucionará o acesso de crianças e jovens a direitos e cuidados fundamentais, apontando à sua prosperidade. Um investimento com custos, hoje, mas com impacto económico estimado até 2070 muito maior que autoestradas ou centrais eléctricas, apenas superado pelo impacto do aeroporto internacional da ilha. Coragem e visão que se saúda.

Coragem e visão que também por cá e por todo o Mundo a UNICEF tem demonstrado. Mesmo e quando a sua equipa se confronta com enormes desafios. Obrigado UNICEF. Obrigado Beatriz Imperatori, pela oportunidade, confiança e por todo o trabalho.

Espero ver-vos por lá.

Informações e inscrições aqui.

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Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

“Tivesse escutado aquilo que a Islândia queria mim, teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que Björk fez. “Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país”. Fê-lo e junto com outras pessoas, em circunstâncias próximas, ajudou a transformar a Islândia num “caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.”

“Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos“, 85º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado; link abaixo) usa este exemplo para discutir como “felizmente muitas e muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva.

Continua assinalando que existem diversas histórias de não-conformidade, “pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica (…) desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.”

“Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (…) face à generalidade das pessoas que “desaparecem” (não sobrevivem) no caminho.“

Este fenómeno tem duas consequências: a) “gera processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns”; b) contribui para se “negligenciarem os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso. Efectivamente não partimos todas e todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas”.

Importa, assim, “aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade.

Importa pensarmos “como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país.”

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Ética Aplicada – Psicologia

Estávamos em 1938 quando uma das primeiras e, certamente há época a mais relevante Associação de Psicologia do Mundo, criou uma Comissão Temporária de Ética Científica e Profissional. Falo da American Psychological Association que 14 anos mais tarde, em 4 de Setembro de 1952, aprovaria no seu Conselho de Representantes os “Princípios Éticos dos Psicólogos”, ainda hoje um importantíssimo documento histórico e de referência. Curiosamente, esta aprovação aconteceu num 4 de Setembro, dia da criação em 2008 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (116 anos depois da APA), hoje Dia Nacional do Psicólogo em Portugal.

Apesar destes anos de diferença e do desenvolvimento tardio da psicologia em Portugal, particularmente quando comparado com outros países, as questões éticas e deontológicas foram sempre, são e, creio, serão centrais na afirmação e desenvolvimento da psicologia em Portugal e na relevância do contributo que pode conferir às pessoas e à sociedade. Também por isso, e pela visão e compromisso de muitas e muitos colegas, desde muito cedo que cartas de princípios e documentos diversos em torno da ética e da deontologia foram desenvolvidos em Portugal e estruturam o ensino e formação neste âmbito, até à publicação, já em 2011, da primeira versão do Código Deontológico pela Ordem dos Psicólogos Portugueses, “um poderoso instrumento para o exercício da Psicologia”, conforme Telmo Mourinho Baptista, então Bastonário, escreveu nas suas primeiras linhas.

Daí para cá creio que todas e todos reconhecemos o caminho percorrido e o cada vez mais significativo e comprometido contributo da psicologia, enquanto ciência, e das psicólogas e psicólogos no nosso país. Esse contributo, decorre, também, da forte estruturação da profissão, do investimento em padrões éticos e deontológicos sólidos e em processos de desenvolvimento profissional contínuo, capazes de possibilitar respostas baseadas em valores e na melhor evidência científica disponível, para os diferentes desafios, dos mais simples aos mais complexos, dos antigos aos novos que com cada vez mais rapidez surgem.

Hoje trago mais um contributo neste percurso e, com ele, faço-vos um convite. Trago a obra “Ética Aplicada – Psicologia”, coordenada pela Maria do Céu Patrão Neves e pelo Miguel Ricou e editada pela Edições 70, que reúne um conjunto reflexões-capítulos, sobretudo de psicólogas/os, sobre os cruzamentos e alinhamentos entre a Ética e a Psicologia, um deles por mim escrito (“A psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções”).

O convite é que se juntem à sessão de apresentação que acontecerá amanhã na Livraria Almedina (Rato, Lisboa) e assistam à sessão em torno da “Psicologia e dos Direitos Humanos” com a participação da Ana Ribas, da Margarida Gaspar de Matos e moderação do Miguel Ricou. Apesar de ser a não perder, com muita pena minha, mas por um bom motivo, eu não me poderei juntar. Juntar-me-ei, porém, a uma próxima que brevemente será anunciada e que acontecerá no Porto.

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Relaciono-me, logo existo

Ontem comemorei o aniversário de um “primeiro dia do resto da tua vida” e, conforme a letra da música do Sérgio Godinho com este título, veio-me “à memória uma frase batida”: as relações são, mesmo, o mais importante da nossa vida. Deixo, a este propósito, duas sugestões de início de semana:

a) Um artigo, curiosa e simbolicamente (para mim) ontem publicado no The New York Times, da colega Darby Saxbe em torno da forma como a paternidade transforma o cérebro e o corpo dos homens, dotando-os de ferramentas neurobiológicas para a parentalidade (ferramentas, geralmente, “atribuídas” às mães) que impactam a relação pais-filhas/os e comportam desafios, nomeadamente nas dimensões da saúde, sobretudo mental, e bem-estar: “Dad Brain Is Real, and It’s a Good Thing” | https://www.nytimes.com/2024/06/16/opinion/dad-brain-fatherhood-parenting.html

b) Uma conversa que tive com o Rui Marques, referência maior na área da relação entre pessoas e povos, para um podcast de um projecto que coordena – Relational Lab. O podcast chama-se “Relaciono-me, logo existo” e no episódio falamos, naturalmente, sobre relações em diversos contextos, sobre e relação em diversos momentos da minha actividade profissional e em processos de tomada de decisão.

Falamos sobre como as redes sociais impactam as relações, mas imaginando como o controlo do “fogo”, há muitos milhares de anos, também impactou. De velocidade da mudança, hoje, da incerteza, do paradoxo da escolha, da individualidade e da perda de alguns referenciais comunitários e valores partilhados, nas últimas décadas. Falamos de aceitação, de partilha, mas, também, de desinformação, da propagação de mensagens de ódio e de polarização e tribalização.

Falamos de tempo. De como caminhar “de uma cultura da felicidade para uma cultura de bem-estar”, título do episódio, e de como isso pode contribuir para a qualidade relacional. Falamos da pandemia por COVID-19, das manifestações incríveis de cooperação e colaboração, particularmente na sua primeira fase e “pré-fadigas diversas”, e do ajustamento, necessidade de recuperação das perdas e reparação. Falamos de educação e do quão cada vez mais central será a relação nela e do caminho que Portugal tem percorrido. Falamos de capital relacional, da resiliência individual e comunitária, da necessidade de combater a pobreza e a crise climática e promover equidade e agência, tendo em vista mais e melhor participação. Falamos de psicologia, da sua história em Portugal e do seu potencial contributo, particularmente se em conjunto com outras áreas do saber e profissionais. Do meu “optimismo” e de como o situo na história e no que nos rodeia.

No fundo pensamos “o que temos, ao mesmo tempo, de mais bonito, mas também de mais complexo nas nossas vidas: as relações”, conforme comecei.

“E é então que amigos nos oferecem leito; entra-se cansado e sai-se refeito”, diz também a letra da canção. Assim foi. Obrigado Rui. Pelo convite e confiança. Pelo projecto.

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Reconhecer (Ao redor…; 05.06.2024)

Há, na língua portuguesa, verbos que têm múltiplos e muito diversos significados, podendo ser utilizados numa variedade muito ampla de situações. Reconhecer é um deles e, porque poderoso, é um verbo relevante em várias áreas científicas e que nos acompanha em momentos significativos da nossa vida pessoal, profissional e em sociedade. É um verbo essencial na forma como nos relacionamos connosco, com as outras pessoas e com o que nos rodeia.

Num nível individual, sabemos o quanto o reconhecimento pessoal, profissional ou social é importante. Sentirmo-nos ou não reconhecidas e reconhecidos pelo que somos, pelo nosso valor e valores e pelo que conseguimos, impacta a visão que temos sobre nós próprios e, nesse sentido, a construção da nossa identidade, auto-estima ou, até, o nosso compromisso e motivação no dia-a-dia. O quanto e o como somos ou não reconhecidas/os pode contribuir (decisivamente) para nos aceitarmos, para podermos mudar, tomar (melhores) decisões e para a nossa saúde e bem-estar.

Reconhecermo-nos implica procurarmos saber quem somos, como somos e porque o somos. Reconhecermo-nos é um ponto de partida importante para nos interessarmos e procurarmos saber quem são, como são e porque são assim outras pessoas.

Nesse sentido, num nível interpessoal, o auto e heteroreconhecimento promove uma maior compreensão, entendimento e uma atitude, tendencialmente, mais empática face às outras pessoas. É, portanto, um elemento preponderante à nossa abertura à e ao outro e ao que nos rodeia, facilitando o estabelecimento de relações, a co-construção, a inclusão, o envolvimento em projectos ou o trabalho em equipa. Apoia a nossa identificação em sociedade, a validação e o entendimento mútuo.

A validação e o entendimento mútuo são, por sua vez, pilares essenciais ao reconhecimento mútuo e este decisivo na construção de uma visão partilhada sobre direitos, deveres e desafios societais das pessoas, comunidades e dos países, num quadro internacional capaz de normas e acordos que, respeitando nuances culturais, sejam aceites e cumpridos. O reconhecimento social mútuo é, assim, veículo de coesão, de desenvolvimento e prosperidade social e factor protector face a formas de resolução de conflitos não construtivas. O reconhecimento social mútuo é fundamental para a construção e preservação da paz.

Quando, em Novembro de 1947, as Nações Unidas aprovaram uma resolução que pressupunha uma solução de dois Estados para a partilha da Palestina, tinham certamente presente que o reconhecimento, também político, desempenha esse papel crucial na resolução de conflitos e na promoção da paz. Infelizmente, com fases e momentos históricos apesar de tudo distintos, mas com momentos tenebrosos, como os ataques terroristas inqualificáveis, perpetrados pelo Hamas, em Israel, a 7 de Outubro do ano passado e os crimes e atrocidades cometidas pelo exército de Israel, em Gaza daí até hoje, nunca os dois Estados foram reconhecidos pela totalidade ou quase totalidade dos países, entre si e, também por isso, nunca a paz foi verdadeiramente cumprida.

Apesar da ampla aceitação da solução de dois Estados – seja pelo reconhecimento do Estado da Palestina concretizado por 152 (mais de 75%) dos países que integram as nações Unidas, seja pela defesa desta solução por Estados que não concretizaram o reconhecimento da Palestina – um conjunto de países, onde se inclui Portugal, vários outros países da União Europeia e os Estados Unidos da América, persistem num entendimento de que não chegou ainda o momento para se efectivar o que assumem defender. Paulo Rangel, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, disse, há dias, que “nunca houve nenhum Governo que fizesse tanto pelo reconhecimento da Palestina”. Falava do actual Governo, justificando, porém, a decisão de não acompanhar o reconhecimento efectuado recentemente por Espanha, Noruega e por uma Irlanda cuja história é bem demonstrativa da importância do reconhecimento e legitimação mútua, em virtude da sua participação no processo que culminou no Acordo da Sexta-Feira Santa em 1998 e no processo de construção da paz na Irlanda do Norte.

Pese embora os enormes desafios que se colocam e que determinam que este reconhecimento não seja consensual, é hoje claro que, conforme o não reconhecimento de pessoas e comunidades as impacta significativamente, o não reconhecimento do Estado da Palestina contribui para um quadro de incerteza e de confusão, por vezes propositada, entre organizações terroristas e o povo palestiniano. Contribui, também, para a diminuição das condições e contexto para que a Palestina possa criar e desenvolver as suas instituições, preservar a sua segurança, oferecer horizontes de esperança e futuro à sua população, no seu país e, com isso, fortalecer a prevenção do terrorismo e diminuir o poder, formal e informal, de organizações como o Hamas. Finalmente, diminui o papel de mediação das organizações internacionais, como é exemplo a ONU, na prossecução de uma paz duradoura na região e do respeito pelos Direitos Humanos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há hoje robusta evidência sobre a importância do reconhecimento e sobre o seu impacto na vida de cada um/a de nós. Reconhecermos é, portanto, uma ferramenta poderosa, ao alcance de todas e todos, local e globalmente, para construirmos mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e em comunidade. É, também, uma ferramenta para validar, para caminharmos para uma sociedade de direitos, deveres e de maior equidade. Para nos acolhermos e construirmos paz. Comecemos por reconhecer.

 

 

Tiago Pereira

Reconhecer

in Sábado (Ao redor…); 05.06.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/reconhecer

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Um Mundu Nôbu

“A tua terra é o Mundo, o teu coração bate no mesmo compasso dos outros, mas algo te diz que o caminho não é igual para todos (…) Estamos aqui para fazer esse caminho contigo. Para construir um lugar onde a diversidade é celebrada, e onde os sonhos e as conquistas não dependem da origem de cada um (…) Um Mundu Nôbu.”

Parto de parte do manifesto da Mundu Nôbu, uma nova ONG há dias apresentada, para um conjunto de reflexões, um convite e um apelo a partir mesma.

Pensar a Mundu Nôbu é para mim impossível sem o fazer a partir das duas incríveis pessoas que a idealizaram e construíram: o enorme e talentoso Dino D’Santiago e o seu forte impulso e compromisso em retribuir; a inspiradora e sagaz fazedora Liliana Valpaços e a sua capacidade de atrair e reunir pessoas em volta de uma missão.

Mas é-o também sem pensar o que foi, lá mais atrás, a minha experiência (e para a frente, o meu desejo) de participar no desenho e implementação de projectos de intervenção comunitária e transformação social. Do quão significativo foi, é e pode ser… Dos enormes desafios que normalmente se enfrentam, alguns dos quais, que me lê, sabe que tenho procurado discutir (um exemplo apenas: https://www.linkedin.com/pulse/estamos-falhar-às-pessoas-em-situação-de-maior-tiago-pereira-yab5f/).

Felizmente, parte deles, esta ONG, estas pessoas, este projecto ultrapassam… Um Mundu Nobu no social, portanto, a contribuir com oportunidades e possibilidades para um Mundu Nobu.

E, por isso, vos convido… Colegas que me lêem, outras e outros profissionais das áreas da educação, saúde e, particularmente, da área social, convido-vos a conhecerem o projecto, a envolverem-se, a promoverem-no e a serem mediadoras/es e influenciadoras/es junto da população mais jovem, com quem trabalham (14 a 18 anos), residente em bairros sociais de Lisboa, para que aqui se inscrevam (https://mundunobu.my.site.com/oteulugar/) no programa da Mundu Nôbu (uma adaptação da metodologia da The Brotherhood Sister Sol) até ao próximo dia 15 de Julho. O programa será totalmente gratuito e visará um acompanhamento próximo, entre 4 a 6 anos, de 160 jovens, promovendo “o autoconhecimento, pensamento crítico e um projeto de vida sólido e consciente, num contexto de combate à falta de representatividade.” Diferenciador, visionário, empoderador.

Finalmente, o apelo. Construir oportunidades e possibilidades. Promover a equidade, celebrar a diversidade, entender os desafios e os problemas sociais como de todas as pessoas e não apenas das e dos que mais sofrem com eles. Tudo, neste exemplo e neste tempo de enorme desafio ao ideal dos Direitos Humanos Universais, deve fazer-nos reflectir e questionar o nosso papel para co-constuirmos “…um mundo em que derrubamos barreiras e estamos juntos, no mesmo ponto de partida: um Mundu Nôbu.”

Vamos a isso?

Obrigado, Dino. Obrigado, amiga Liliana.

Mais informações: https://mundunobu.org

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(não) fica bem falar de… saúde mental na adolescência.

“As inseguranças, as comparações e a iniciação às redes sociais… A verdade é que acabamos por pensar pouco nos porquês das transformações que acontecem durante a adolescência.”

Excerto inicial da apresentação do episódio do podcast “(não) fica bem falar de…” sobre saúde mental na adolescência. Uma (para mim muito interessante – mas comentários são muito bem-vindos) conversa, que aqui partilho em vídeo, entre mim e uma perspicaz e incisiva Jessica Athayde, com quem partilho um tempo de adolescência necessariamente diferente do tempo de quem hoje vive este intenso e determinante período desenvolvimental.

Na conversa, conforme continua a apresentação do episódio, discutimos “o momento paradoxal em que vivemos, em que temos cada vez mais recursos, informação e sensibilidade para com este assunto, mas também uma pressão crescente e nunca vista no que toca aos desafios que se colocam à saúde mental dos adolescentes, especialmente no caso das [meninas e] mulheres.”

Abordamos questões tão diversas como complexas, da violência no namoro, à pressão para “estar bem”, do sono à forma como podemos e devemos manter canais de comunicação e espaço de segurança psicológica com as e os adolescentes. Falamos de cremes anti-rugas, de auto-estima, de idades que se cumprem e não se cumprem relativas às redes sociais e de como, eventualmente, mais literacia e regulação tenderão a funcionar melhor que proibição, também porque, de acordo com a investigação, nem tudo é negativo (embora por vezes muito seja) na exposição da população jovem às redes sociais.

Discutimos, como também refere a apresentação da conversa, “de que forma é que o contacto com as redes sociais afeta a auto-estima e a saúde mental a longo prazo” e como podem os e as adolescentes “lidar com a pressão de parecer sempre bem e sempre feliz”, procurando-se partilhar algumas pistas de reflexão para preocupações hoje comuns de mães, pais, cuidadoras/es, familiares, professoras/es, … relativas a este período.

Falamos, ainda, de sinais de preocupação e, eventualmente, de como procurar cuidar dos limites, por vezes muito pouco claros, entre o sofrimento e as vicissitudes naturais deste período e o sofrimento e vicissitudes que excedem o natural e nos devem mobilizar para respondermos e apoiarmos, individualmente. Conforme falamos que o número hoje muito significativo de condições na área da saúde mental da população mais jovem nos deve fazer reflectir, numa dimensão de esperança e optimismo que a conversa também comportou, como enquanto sociedade temos o dever de nos mobilizar para, progressivamente, produzirmos transformações societais que permitam mitigar o paradoxo acima referido e garantir mais possibilidade de saúde, incluindo mental, e bem-estar às e aos adolescentes e mais equidade no acesso a essas possibilidades.

Uma interessante conversa, dizia. Sobre uma muito desafiante e, também por isso, interessante idade. Obrigado à produção, pelo convite. Obrigado, Jessica.

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Dia Mundial do Ambiente

9 em cada 10 Portuguesas/es entende a crise climática que vivemos como um problema muito sério para o Mundo. Foi este o enquadramento da produção do “Bom dia Portugal” (RTP) para a conversa que partilho, no Dia Mundial do Ambiente (5.6).

Mais, 1 em cada 5 entende mesmo que as alterações climáticas são o mais grave problema societal que enfrentamos, dados de um trabalho da Comissão Europeia que posicionam Portugal como um dos países da UE onde a preocupação é mais significativa.

Na entrevista começo por referir que os dados não serão alheios ao facto de uma grande percentagem de população viver na faixa litoral e ao impacto das alterações climáticas (aumento da temperatura, seca, etc.) têm em actividades económicas importantes para o país como a agricultura, as pescas ou o turismo. Não são também alheios às situações de catástrofe como inundações e, particularmente, aos incêndios rurais que, em conjunto, são factores de preocupação das pessoas com impacto na sua saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Continuo referindo que, além das perdas e da necessidade de adaptação, há também sentimentos de desesperança relativamente ao futuro – estamos a ficar sem algo e sentimo-nos impotentes para travar essa perda – que, por vezes, se manifestam em problemas comportamentais e de saúde mental, nomeadamente ansiedade (especialmente na população mais jovem), depressão e stresse, incluindo pós-traumático.

Procuro, também e sugerindo a leitura do documento “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (link abaixo), reforçar que a psicologia, enquanto ciência que estuda o comportamento e os processos de tomada de decisão, pode assumir um importante contributo:

  1. a) na compreensão do comportamento humano e no desenho de intervenções comportamentais e políticas públicas eficazes na mudança de comportamento e combate às alterações climáticas;
  2. b) na adaptação da população, nomeadamente na forma como se pode capacitar e promover competências e resiliência individual e comunitária face às alterações climáticas;
  3. c) na mitigação dos problemas com intervenção psicológica junto da população com problemas de saúde mental.

Termino reforçando o papel da agência nos desafios que atrás refiro. Sentirmos que estamos a fazer algo, a dar o nosso contributo, é, além de promotor da mudança individual e colectiva, um elemento protector da nossa saúde, incluindo mental, e bem-estar.

Juntas e juntos, enquanto seres humanos e na relação com o ecossistema, enfrentamos já desafios muito significativos. Não deixemos de falar sobre a crise climática, no Dia Mundial do Ambiente e em todos os restantes dias do ano. Em casa. Na nossa comunidade. Façamos algo, por nós, pelas e pelos nossos, por quem se nos seguirá. Para que ultrapassemos mais este desafio.

Documento OPP – “Combate às alterações climáticas | O papel dos psicólogos”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Reconhecer

Reconhecer é um verbo poderoso. “Relevante em várias áreas científicas”, acompanha-nos “em momentos significativos da nossa vida pessoal, profissional e em sociedade”, sendo “essencial na forma como nos relacionamos connosco, com as outras pessoas e com o que nos rodeia.”

“Reconhecer”, 84º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da afirmação do quão relevante é o reconhecimento individual. “Sentirmo-nos ou não reconhecidas/os pelo que somos, pelo nosso valor e valores e pelo que conseguimos, impacta a visão que temos sobre nós próprios e, nesse sentido, a construção da nossa identidade, auto-estima (…) e a nossa saúde e bem-estar.” Sublinha, também, que “num nível interpessoal, o auto e heteroreconhecimento promove uma maior compreensão, entendimento e uma atitude, tendencialmente, mais empática face às outras pessoas (…) apoiando a nossa identificação em sociedade, a validação e o entendimento mútuo.”

Defende, depois, que “a validação e o entendimento mútuo são, por sua vez, pilares essenciais ao reconhecimento mútuo e este decisivo na construção de uma visão partilhada sobre direitos, deveres e desafios societais das pessoas, (…) bem como à coesão, desenvolvimento e prosperidade social e factor protector face a formas de resolução de conflitos não construtivas” para afirmar que é da percepção da necessidade desse reconhecimento mútuo, também político, que também resulta a proposta de dois Estados para a partilha da Palestina da ONU.

Continua afirmando que “infelizmente, com fases e momentos históricos apesar de tudo distintos, mas com momentos tenebrosos, como os ataques terroristas inqualificáveis, perpetrados pelo Hamas, em Israel, a 7 de Outubro do ano passado e os crimes e atrocidades cometidas pelo exército de Israel, em Gaza daí até hoje, nunca os dois Estados foram reconhecidos pela totalidade ou quase totalidade dos países, entre si e, também por isso, nunca a paz foi verdadeiramente cumprida.”

“Pese embora os enormes desafios que se colocam e que determinam que este reconhecimento não seja consensual, é hoje claro que, conforme o não reconhecimento de pessoas e comunidades as impacta significativamente, o não reconhecimento do Estado da Palestina contribui para um quadro de incerteza e de confusão, por vezes propositada, entre organizações terroristas e o povo palestiniano. Contribui, também, para a diminuição das condições e contexto para que a Palestina possa criar e desenvolver as suas instituições, preservar a sua segurança, oferecer horizontes de esperança e futuro à sua população, no seu país e, com isso, fortalecer a prevenção do terrorismo.”

“Reconhecermos é uma ferramenta poderosa, ao alcance de todas/os, local e globalmente, para construirmos mais relação connosco, com as outras/os e em comunidade. É, também, uma ferramenta para validar, para caminharmos para uma sociedade de direitos, deveres e de maior equidade. Para nos acolhermos e construirmos paz. Comecemos por reconhecer.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar (Ao redor…; 22.05.2024)

Lembro-me muito bem da primeira vez que saí de comboio na impressionante Estação do Oriente para, depois de uma caminhada, entrar nesse outro Mundo que foi a “Expo 98” para um rapaz de 14 anos que crescia fora de um grande centro urbano. Se pensar um pouco, a Estação, embora hoje mais envelhecida, não mudou muito. Como não mudou a linha do Norte e o comboio regional que me levou do Entroncamento ao Oriente. Já ser um/a adolescente de 14 anos em Portugal mudou significativamente.

Como todas as pessoas adultas, mais ou menos jovens, já tiveram 14 anos esta afirmação será das poucas que hoje não gera na sociedade um debate polarizado. Todas e todos os que temos bastante mais do que 14 anos sabemos que se tivéssemos vivido essa idade com o acesso às tecnologias, à internet e às redes sociais hoje existente; com as fotos e vídeos permanentemente a guardarem momentos e a serem partilhadas e comentadas; ou se tivéssemos vivido com a pressão da felicidade, do mérito, da voragem da competitividade e da necessidade permanente de adaptação a transformações muito rápidas teríamos, certamente, vivido uma adolescência muito diversa e experimentado um conjunto muito diferente de desafios, experiências e possibilidades. Também entenderíamos, talvez de forma mais sentida, o enorme paradoxo desta ser a época de maior abundância em termos de recursos, acesso, literacia, possibilidades de diversão e entretenimento e, simultaneamente, uma das épocas onde, pelo menos desde que existem registos e indicadores robustos, diferentes condições e problemas de saúde mental são mais e mais cedo prevalentes e desafiam e impactam o quotidiano e o bem-estar nestas idades.

Perceberíamos, ainda, creio, porque é que o tão relevante – e hoje crescentemente densificado em Lei – “Direito a desligar” e desconectar do trabalho, fora do horário de trabalho, tende a equivaler-se ao “Direito a desligar” e desconectar da internet e das redes sociais por adolescentes, em determinados momentos do seu dia. Como, tais direitos, dependem, tanto do dever das organizações, líderes e da sociedade de legitimarem, respeitarem e promoverem este direito junto de cada trabalhador/a, como do dever de cada organização, pessoa adulta e da sociedade perceberem a importância, promoverem e estimularem esse direito junto dos e das adolescentes.

A este propósito penso muitas vezes no quão seria diferente para mim (talvez mesmo decisivo) a possibilidade, hoje existente, de 24 sob 24 horas, via internet rápida e redes sociais, estar conectado a amigas, amigos, a pessoas conhecidas próximas e não tão próximas. No quão importante foi – perdendo naturalmente outras possibilidades de relação e mecanismos de conexão fundamentais em determinadas situações (pensemos na pandemia por COVID-19 – ter oportunidade para me aborrecer, para, à noite, no meu quarto, casa ou rua, poder estar só, a pensar no que aconteceu naquele dia, a elaborar o que fiz, aprendi ou senti. No quão importante foi não estar sempre em “directo”, numa linguagem jornalística, e no quanto isso me foi permitindo sentir, também, mais previsibilidade, estabilidade e segurança, factores fundamentais ao bem-estar.

Hoje, em particular em dias difíceis, um/a adolescente com um telemóvel no seu quarto, casa ou rua, pode, se com maior dificuldade de autoregulação ou regulação na sua utilização, viver numa espécie de montanha russa sem pausas nas sensações e emoções. Vive permanentemente activada/o, é a cada momento estimulado e invadido com novas informações, dúvidas e sensações que não guardam espaço para elaborar, para descansar, para desligar. Para sair do turbilhão da nova informação, interacção, emoção e organizar e integrar ideias, algo relevante em todos os nossos momentos de vida, mas particularmente relevante numa época como a da adolescência onde tudo é vivido com tremenda intensidade, onde os grupos e a percepção dos pares é tão decisiva na construção da identidade, na percepção das outras, dos outros e do Mundo ao redor e no desenvolvimento da autonomia.

Mais, hoje, somos desafiados por novas adições (jogo online), dependências (smartphone) e problemas (cyberbullying) que nesse 1998 não facilmente imaginaria (embora existissem e permaneçam outras adições, dependências e problemas), conforme hoje não imaginamos novas adições, dependências e problemas com os quais, possivelmente, nos confrontaremos nos próximos anos. Não pensava, também pela perspectiva de cada vez maior participação e empoderamento das meninas, raparigas e mulheres que hoje assistiríamos a um recrudescimento da violência no namoro e doméstica, da desigualdade de género nestas e noutras idades e de um discurso público que, não raras vezes, a legitima ou, no mínimo, não condena veementemente.

Com este cenário e com a perspectiva de potencial aprofundamento desta situação no futuro, desde logo pela evolução da tecnologia e seus impactos, talvez não seja fácil estar optimista. Apesar de tudo, não deixo de assim o sentir. Também.

Porquê? Porque as mesmas tecnologias que são base de alguns dos desafios e dos problemas hoje mais significativos são, também e quando ou se usadas com cuidado e com essa intencionalidade, potenciais ferramentas para outros resultados e para a promoção da equidade e do bem-estar hoje e no futuro.

Porquê? Porque há hoje, apesar de nem sempre ser de qualidade, muito mais compreensão pública do que significa ser adolescente e este período de desenvolvimento. Tal como mais informação, literacia e uma centração da população mais jovem nas questões da saúde, incluindo a saúde mental, e bem-estar que pressionam no sentido de mais respostas nesta área, mais contingentes aos problemas, mais qualificadas, de qualidade e eficientes.

Porquê? Porque, finalmente, os desafios e problemas são cada vez menos individuais mas mais geracionais, algo que sensibiliza a sociedade e impele a uma acção preventiva de procura de transformar e mudar o que na sociedade possa estar a concorrer para esta situação, aumentando o debate, entre outros, sobre os impactos e formas de utilização da tecnologia ou a necessidade de se repensar e promover a prática da actividade física, a alimentação saudável, hábitos de sono, competências sócioafectivas e emocionais ou o contacto com as outras e outros e com o meio ambiente, tudo elementos fundamentais à saúde e bem-estar das populações mais jovens.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos observar extraordinários exemplos de envolvimento e participação cívica da população mais jovem que, desejo, serem primeiros passos para o reforço da perspectiva de comunidade e para a construção de propósito. Se assim for, e se investirmos em transformações cirúrgicas e na capacitação e empoderamento de crianças e adolescentes para os desafios que o Mundo e a sociedade se lhes coloca, estarei sempre mais próximo de cumprir este meu optimismo. No que me toca, para isso procurarei contribuir e para isso procurarei que contribuam.

 

Tiago Pereira

Ser adolescente hoje e o dever de ajudar a desligar

in Sábado (Ao redor…); 22.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ser-adolescente-hoje-e-o-dever-de-ajudar-a-desligar