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Curtoprazismo e Individualismo

Este Sábado tive uma (boa) conversa com o Miguel Ricou e com um conjunto de pessoas, incluindo amigas/os, que dedicaram um final de tarde de fim de semana para estar connosco e connosco discutir. Falamos sobre democracia, confiança e futuro. Falamos sobre a psicologia em tudo isto e sobre potenciais contributos dos e das psicólogas, enquanto profissionais e enquanto cidadã(o)s, nestes fenómenos. Falamos porque democracias enfraquecidas correspondem a riscos, por vezes significativos, para os direitos humanos, para a equidade e para a possibilidade de bem-estar para todas as pessoas. No presente e para o futuro.

 

Falamos, além de consequências, de causas e do papel das políticas públicas e de cada pessoa na prevenção da preocupante (caracterização minha) tendência que hoje se pode observar. A este propósito, queria partilhar convosco algumas considerações e um interessante exemplo.

 

As considerações versam o papel da conjugação da vertigem para o “curtoprazismo” com um certo individualismo contemporâneo para este processo de enfraquecimento. Tendencialmente explicáveis por uma certa ideia de sucesso e mérito inscrita na sociedade (retorno e afirmação individual), por uma cultura assente no imediatismo (também à boleia das redes sociais e no crescimento voraz), na perda de laços e vínculos comunitários de base mais fundacional. Isto, além da crescente desconfiança e na dificuldade de se assumirem compromissos e planos de médio e longo prazo num contexto de incerteza e imprevisibilidade.

 

São políticas públicas que ousam inovar/experimentar, co-construidas, bem-sucedidas e centradas nas pessoas, no seu bem-estar e no bem-comum, que melhor podem contrabalançar estas forças. Um extraordinário exemplo foi-nos mostrado pelo Público e versa o projecto de Bjørvika, uma intervenção no espaço urbano de Oslo. Um trabalho dos estudantes Gabriel Miraldo e Maria Maia (as maiores felicidades) que convido a conhecerem. A certa altura… “Hoje, Sofie reconhece Bjørvika como um bairro que “funciona para as pessoas”, incluindo estruturas que garantem uma comunidade local activa.” E… “Muitas vezes nós pensamos que os políticos vêm sempre atrás, mas eu acho que aqui há mesmo esta vontade da parte política.”

 

Vontade que deve complementar a agência de cada pessoa. Na tertúlia de Sábado procurei estimular que reflictamos sobre o que estamos dispostos a abdicar… Decidir de forma diferente da que decidiríamos sem pensarmos no futuro. Decidir para não ganhar (tanto) hoje, contribuindo para uma melhor sociedade a médio/ longo prazo para todas as pessoas.

 

Façamos este exercício. Ajuda-nos, creio, a perceber, até pela dificuldade do mesmo, porque aqui chegamos. Ajuda-nos, pela consciência, a termos mais agência e a podermos fazer algo, mais. E, quem sabe, se essas eventuais mudanças e diferentes decisões, menos “curtoprazistas” e individuais não resultarão melhor(es), não apenas para o que nos rodeia e para todas e todos, mas, também e principalmente, para nós próprios.

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Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Tertúlias de Psicologia

Hoje é dia 24 de Fevereiro de 2025. Proponho que recuemos 18 anos, uma “maioridade”. Se a 24 de Fevereiro de 2007, quando faltavam 4 meses para a apresentação do primeiro Iphone, por aí escrevesse que 18 anos depois assinalaríamos o 3º aniversário da invasão em grande escala da Federação Russa aos territórios da Ucrânia, com um Trump num segundo mandato presidencial nos EUA, e que, no dia anterior, tinham acontecido eleições legislativas na Alemanha e que um partido de extrema direita com um discurso sinistro e assustador tinha duplicado votos, atingindo mais de 20%, sendo a segunda força política e tendo dividido o mapa da Alemanha (vejam a imagem e toda a “ressonância” e simbolismo que comporta), talvez não fosse levado muito a sério. Mas, mais importante, se o fizesse há 8 anos também não. Ou, talvez, há cinco, quatro, …

 

Daqui resultam duas reflexões. Uma, que cada vez menos temos (teremos?) possibilidade de prever com segurança o futuro a médio e longo prazo e que, talvez, também por isso e pelos exemplos recentes, valha a pena não desconsiderar (como tanto fazemos) cenários e possibilidades que nos inquietam relativas a regimes políticos, conflitos armados e retrocessos nos direitos civis e humanos, também na Europa. Outra, que é tempo de tornar prioridade a definição do que enquanto cidadãos e comunidade podemos contribuir para que tal não aconteça (e o compromisso com isso), com a certeza de que o momento que vivemos não permite limbos, porque a cada validação de um determinado discurso (uns “vez…”, “mas…”, “são todos iguais”) e/ou de uma determinada política, caminharemos um caminho de possibilidades inquietantes.

 

Trago-vos isto, também, no dia em que passam 4 anos de ter escrito o 1º de 98 artigos de uma rúbrica que chamei “Ao redor” (Revista SÁBADO). No último escrevi:

 

“

Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e publiquei-o em Fevereiro de 2021. Evoco-o hoje, simbolicamente. Determinemos este nosso “ao redor” para por ele sermos impactados. Determinemo-lo a partir dos princípios e valores dos Direitos Humanos para por esses princípios e valores sermos impactados. Não por outros. Para, com eles e através deles, sermos mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.

”

 

É também por isto, por tudo isto, que Sábado me junto a uma pessoa que muito admiro e de quem tenho a sorte e o enorme privilégio de ser grande amigo (o Miguel Ricou) e a quem a nós se queira juntar para, como ele diz “conversarmos sobre algo que nos preocupa, de alguma forma, a todos: a desinformação, a polarização, a confiança e a democracia!”

 

Juntam-se a nós? Na conversa e no compromisso? Se não na conversa, no compromisso?

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“Não negue à partida uma ciência que não conhece.”

“Não negue à partida uma ciência que não conhece.” Imagino que parte das pessoas que me lê tenha presente no seu imaginário esta expressão. Usada por Alcina Lameiras, no momento áureo do esoterismo via linhas de valor acrescentado e/ou televendas, peca(va) pela referência à ciência face a práticas não científicas mas tem uma base que creio devermos considerar – não negarmos algo (apenas) porque não conhecemos.

Interessarmo-nos, conhecermos, compreendermos os fenómenos e dinâmicas que decorrem ao nosso redor e que têm impacto nas nossa vidas, nas vidas de outras e outros (pais, mães, irmã(o)s, pares, filhas/os) e na comunidade de que fazemos parte. Um exemplo: a nossa relação com a tecnologia e como isso influencia a relação das nossas filhas e filhos com smartphones e outros dispositivos com impacto no estabelecimento e dinâmica das relações (sociais), na comunicação e no acesso e partilha de informação.

Em concordância com a ideia de ser necessário que conheçamos e compreendamos, a direcção do Agrupamento de Escolas Fernado Casimiro Pereira da Silva (Rio Maior), a par da sua equipa de psicólogas (obrigado Tania Santos pela confiança) organizou o debate “Ligações Reais”, para o qual teve a amabilidade e gentileza de me convidar a partilhar reflexões. Do seu conjunto, partilho convosco quatro:

1) Persiste o desafio – comum a outras situações – de estabelecer ligações causais entre a utilização excessiva de dispositivos electrónicos e condições na área da saúde mental/outras dificuldades (resultados académicos, …). Há, no entanto, dados abundantes que associam o menor e o maior tempo de utilização a condições de saúde mental e outros indicadores negativos e recomendações internacionais insuficientemente cumpridas (desde logo, a não exposição de bebés a ecrãs de proximidade);

2) A forma como as importantes aplicações de controlo de utilização por parte das/os cuidadores têm algum “ricochete” na menor capacidade de auto-regulação das crianças/jovens;

3) A necessidade diminuir a exposição a ecrãs / redes sociais nos períodos nocturnos, considerando a importância do “descanso” e processamento emocional e o impacto nas alterações no sono, problema que parece agudizar-se nas crianças e jovens com múltiplas e significativas consequências negativas;

4) Finalmente, outro “ricochete”. Devemos, enquanto sociedade, reflectir sobre os limites da privacidade e a forma como, o facto de muitas vezes as/os cuidadoras/es advogarem-se do direito de tudo ver nos dispositivos das crianças/jovens para as/os proteger, poder passar uma mensagem incorrecta sobre a não-necessidade e direito à privacidade, com reflexos nas relações e, particularmente, em dimensões de violência nas relações e no namoro.

Esta última, um pouco em contraciclo com o que naturalmente poderíamos esperar em gerações onde os direitos humanos e a igualdade de género poderiam estar mais “inscritas”.

Urge discutir estes temas e os seus impactos. Os que já sentimos. Os que viremos a sentir.

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Desafios da Psicologia FMG Fundação Mendes Gonçalves Política Psicologia

ESG

Creio provável que não tenham existido muitos momentos históricos em que fosse tão presente uma verdade inquestionável: que a ideia de futuro, ou de futuros possíveis, comporta sempre consigo uma carga imensa de imprevisibilidade.

 

Parte desta consciência (colectiva) assenta, naturalmente, na forma como estamos hoje mais conectados e a informação circula. Mas essa consciência provém, também, da profunda complexidade e incerteza que resulta da interacção de diversos factores – económicos, ambientais, geopolíticos, societais ou tecnológicos – e de como isso desafia a possibilidade de se “prever” com segurança o futuro.

 

Por isso falamos cada vez mais de antecipação (estratégica) e dela não procurar “prever”, antes explorar futuros possíveis e plausíveis, informados por trajectórias e mudanças emergentes.

 

Esta mudança é relevante quando se conjuga com tendências da sociedade. Vejamos a evolução anual do quadro da percepção dos riscos globais do World Economic Forum. O relatório de 2024, no top-10, identifica para os próximos 2 anos 2 riscos tecnológicos (a má-informação / desinformação é mesmo o n.º 1), 2 ambientais, 1 geopolítico e 2 económicos. Mas, talvez mais determinante seja pensar que o mesmo relatório, para os próximos 10 anos, não apresenta nos 10 primeiros quaisquer riscos económicos ou geopolíticos, tendo 5 ambientais (4 dos quais nos 4 primeiros lugares), 3 tecnológicos e 2 societais.

 

Isto sublinha a premência de se abordarem as dimensões de ESG (ambientais, sociais e de governança) das organizações e empresas. Sublinha que o devemos fazer de forma mais activa, intencional e particularmente tendo presente que será sempre limitado o espaço de florescimento e prosperidade de uma organização a médio/longo prazo quando o seu entorno (e a sociedade como um todo) não tenha, também, esse espaço de florescimento e prosperidade.

 

É desta visão e compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do Carlos Goncalves que, também, surge a Fundação Mendes Gonçalves. É do seu espírito de contributo e estímulo que surge a parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira e a Opera Education para a co-organização do Seminário Transformação ESG. Nele participarei, no seu 2º dia, com o Carlos Goncalves, a Giovana Bratti, o Charles Tokarski, o Cesar Blanco, o João Ferreira e o Mauro Peres intervindo sobre “Liderança e Impacto Social”.

 

Espero ter oportunidade de discutir a importância e o papel das organizações e lideranças no bem-estar (individual e colectivo), no reforçar das dimensões da equidade, diversidade e inclusão (neste momento em particular) e, ainda, o quão determinante pode ser para os futuros possíveis o contributo das organizações, também filantrópico, para transformações sistémicas a partir das comunidades de que são parte.

 

Venham daí.

 

Informações: https://ccilb.pt/eventos/transformacao-esg-a-revolucao-necessaria-para-o-futuro-empresarial-sustentavel-e-lucrativo/

 

Inscrições (gratuitas): https://marketing.egoi.page/5eAe6gpf/inscricao

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Desafios da Psicologia Filantropia FMG Fundação Mendes Gonçalves

Ambição Moral

Fórum Philea, Gent, Maio de 2024. Rutger Bregman, que acabara de publicar o seu novo livro intitulado “Ambição Moral – Como parar de desperdiçar o talento e começar a fazer a diferença”, sobe ao palco e afirma que a própria filantropia vem-se “confrontando com uma ambição moral que resulta da mistura de algum activismo com espírito empreendedor, dirigidos ao desmantelar de barreiras sistémicas” que persistem na sociedade. Mais, diz que para ser bem-sucedida nessa missão a filantropia deve reimaginar-se a partir de uma mudança fundamental: que as pessoas em situação de maior vulnerabilidade deixem de ser receptoras de caridade e surjam como parceiros [acrescento promotores] da mudança.

É. Num momento em que, apesar da abundância de conhecimento e da utilização de recursos, a desigualdade cresce em parte significativa do Mundo… Em que se assiste a alguma quebra das pequenas doações e de alguma “filantropia” comum/quotidiana e de maior proximidade Mundo fora, importa que a (excelente) notícia da presente expansão da filantropia em Portugal possa co-existir com a mudança que Darren Walker propõe: que a filantropia avance do foco exclusivo no que (what) se passa, concentrando-se, também, no como (how) e no porque é que (why) assim se passa. Isto, em cada desafio societal complexo. Isto no Mundo, em Portugal e em cada uma das suas regiões, concelhos, lugares.

Penso que este movimento é fundamental para garantir maior confiança nas organizações sociais e filantrópicas e chave para uma mobilização comunitária que resulte na inscrição de que o nosso bem-estar individual está intimamente relacionado com a possibilidade de bem-estar colectivo e que, como Bregman propõe neste seu novo livro, caminhemos de uma definição de sucesso baseada maioritariamente em ganhos pessoais/individuais para uma que inclua o benefício da comunidade/sociedade.

Curiosamente – e curiosamente começa por “c” – a confiança, a par da competência, conexão, caracter e compaixão é parte de um modelo proposto por R. Lerner relativo ao desenvolvimento positivo (saudável) da população mais jovem. O modelo, originalmente apelidado de 5 “C” e recentemente utilizado pela Teresa Raquel Pereira no seu excelente trabalho de doutoramento, recebeu mais tarde um novo “c” relativo ao contributo (para a sociedade). Eu ouso acrescentar dois outros “c”: criatividade e comunidade.

Ficamos com 8 “C” que nos ajudam a posicionar aquilo que, a partir da visão, sonho e generosidade do Carlos Goncalves, temos agora enquanto oportunidade e missão da Fundação Mendes Gonçalves. A busca deste benefício da comunidade e, a partir dela, da sociedade. De uma filantropia de proximidade, que estimule e inspire outras e outros e focada no como e no porquê dos desafios, para neles intervir. Contribuir. Com a ambição moral de ter as pessoas como agentes promotores da mudança. Necessária. Fundamental.

Um 8 que + ou – 90 graus vira infinito… Porque infinito é o caminho da Golegã para o Mundo. O caminho a percorrer.

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FMG

Quantos sou?

“Quantos sou?”, interpela-nos aquele cantinho, daquela casa – hoje Museu – outrora habitada e vivida por Fernando Pessoa, escritor e poeta português que mais sentido deu a esta pergunta. Ali resta certamente um poema de Álvaro de Campos, um dos seus eus, que assim começa: “Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo”.

Por estes dias foi comunicado que sou, desde o início do ano, CEO da (nova) Fundação Mendes Gonçalves. Uma honra e um privilégio tremendos. Uma responsabilidade imensa. Mas… “Tal qual resultei de tudo”.

Um tudo que começa na pessoa ímpar do Carlos Goncalves. Desenvolveu com tantas e tantos, como sempre diz, e a partir de uma ideia e vontade sua e do seu Pai, aquilo que é hoje a Casa Mendes Gonçalves, dos seus princípios e valores aos produtos que produz e à forma como os produz, sempre com as pessoas, a comunidade e ao redor como foco.

Tudo o que (se) construiu foi, também, porque, ousou pensar o presente a partir do futuro ao contrário de muitas e muitos que pensam o futuro a partir do presente. Isto não compreendi logo, naquele dia em que o conheci, talvez nem nas vezes seguintes, mas compreendo-o agora. Não é só por isso, mas é, creio, também muito por isso que, com uma generosidade incrível, criou e é o fundador da Fundação Mendes Gonçalvesque nasce com o propósito maior de assegurar o legado permanente da Casa Mendes Gonçalves ligado ao impacto positivo na sua comunidade e da sua comunidade para o Mundo, pela doação da sua parte à Fundação. Algo incomum e de uma generosidade incrível, dizia. Acrescida da de, com a Conceição Zagalo, me confiarem este papel e esta enorme responsabilidade.

A Conceição Zagalo é outra das pessoas incríveis que este nosso país e Mundo têm. Uma humanidade sem limites, uma forma de ser próxima, relacional, de nos e tudo suportar. Uma energia e inquietude boas a que junta um traço incomum por estes dias: um optimismo e uma vontade de viver a vida contagiantes. Uma Mulher incrível, dizia, que se juntou ao Carlos na ideia e no cerzir de todos os pensamentos para a consolidação da obra maior de uma Fundação e para ser a Presidente do seu Conselho Executivo. A Conceição que em mim confiou e que lá estava quando conheci o Carlos Goncalves. Juntos.

Mas há mais. Foste tu Liliana Valpaços, que sentiste, certamente primeiro, que a Conceição Zagalo e eu nos gostaríamos de conhecer (estavas certíssima) e que, eventualmente, haveria mais em comum que apenas aquela proximidade boa entre os seus Riachos e as minhas Lapas. Foste tu, e por isso muito te agradeço (bem sabes), que estimulaste a tal serendipidade e que lá estavas quando conheci a Conceição Zagalo e que lá estavas quando conhecemos o Carlos Goncalves. Juntos.

E agora? Juntos, só porque juntos, e juntos com quem mais se juntou, vamos fazer o que ainda não foi feito, da Golegã para o Mundo.

Obrigado. Como vos agradeço.

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Emergência Climática Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Pobreza Energética

Hoje, como ontem, diversas regiões de Portugal enfrentam um conjunto de fenómenos meteorológicos que trazem riscos à população. Resultam da depressão Hermínia (nome significativo para mim) que, conforme outros fenómenos climatéricos, atinge de forma desproporcional pessoas e famílias com habitações mais vulneráveis, parte significativa vivendo em situação de “pobreza energética”.

Este conceito corresponde à falta de acesso a serviços energéticos essenciais a níveis básicos de qualidade de vida e saúde (dito de outro modo, a (in)capacidade de manter imune a humidades significativas, aquecida durante o inverno e/ou arrefecida durante o verão) e, em Portugal, segundo um relatório recente da Comissão Europeia, são 20,8% os agregados a viver em pobreza energética e somos, com Espanha, os países pior cotados numa UÉ onde, em 2020, existiam 50 milhões de pessoas com esta condição.

Foi sobre a pobreza energética o 2º episódio da nova temporada do podcast “Toda a Energia” da ADENE – Agência para a Energia, produzido e divulgado pela Antena 1. Uma interessante conversa em que participei, com o Rui Alves de Sousa e a Susana Peralta que aqui partilho: https://www.rtp.pt/play/p14446/e822414/toda-a-energia

Saudando a escolha do tema abordamos na conversa temas como a relação da pobreza económica/monetária com a pobreza energética/privação, as suas causas e consequências, a literacia da população ou as políticas públicas e a sua eficácia neste âmbito.

Entre outros, a Susana Peralta, sublinhou que o tema não trata, apenas, a manutenção da casa adequadamente aquecida, mas toca importantes dimensões da intimidade das pessoas como a capacidade das pessoas/famílias terem as suas refeições quentes ou cuidarem da sua higiene, com os profundos e devidos impactos nas suas relações laborais e/ou sociais.

Eu destaco os anos de vida com qualidade perdidos por via da pobreza energética e, como sermos um dos piores países da UE nesta matéria, é um exemplo concreto de como as políticas públicas (e até a filantropia, com honrosas excepções) ainda não são responsivas à evidência científica que demonstra o seu forte impacto na saúde, incluindo na saúde mental, no bem-estar e nos ciclos de pobreza e exclusão.

Como digo, é um debate importante (…) para que se desfaça a ideia de que a pobreza energética impacta apenas a doença física, por via das doenças respiratórias por exemplo, mas se pense a sua associação com questões como a ansiedade, depressão, stresse ou problemas com o sono e de como, desproporcionadamente, afecta as pessoas que paradoxalmente mais precisariam de encontrar nas suas habitações espaço de conforto, segurança e previsibilidade.

Falemos mais sobre pobreza energética. Façamos mais. E melhoremos mais – mais rápido – promovendo a qualidade de vida das pessoas, prevenindo consumos energéticos desnecessários e prevenindo gastos em saúde pública e sociais.

Ps. Passam hoje 80 anos do dia de libertação de Auschwitz. Nunca o esqueçamos… Nunca o esqueçamos.

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Trends 2025 – Psicologia

Um destes dias virei aqui escrever(-vos) a propósito da forma como penso o legado enquanto determinante fundamental do futuro (e das suas múltiplas possibilidades). Isso, e sobre como me parece fundamental resistirmos à humana tendência para nos focarmos (apenas) no presente e nos seus problemas/desafios, particularmente num momento em que a velocidade e permanência do acesso à informação, e a sua amplificação e repetição, nos convocam para um hiper-realismo e imediatismo que deixa pouco espaço para pensamento, perspectiva e acção a médio e longo prazo.

Talvez por isso – a juntar à ideia que tenho do forte contributo presente e futuro da psicologia nos principais desafios individuais e societais – que, desde há alguns anos e a cada início de ano, leio com atenção as “trends” para a psicologia que a American Psychological Association publica.

Talvez por isso as partilho, também e porque me parece essencial que, apesar dos desafios do dia-a-dia que muitas e muitos colegas psicólogas/os vivenciam, importa que as tenhamos presentes e que contribuamos para a construção do futuro, intencionalizando as nossas acções e tendo uma clara percepção do impacto que as nossas acções no presente têm nele, particularmente quando ganhos “agora e/ou individuais” podem não contribuir para ganhos “futuros e/ou colectivos”.

Sobre as 10 trends para 2025, enquadradas num “momento-chave nacional [EUA] e global marcado por mudanças políticas significativas e nas prioridades societais”, destaco:

a) a inteligência artificial e a forma como, a par de outras inovações tecnológicas, está a contribuir para o alargamento e redefinição da intervenção psicológica e para mudanças na sociedade que beneficiam do contributo da psicologia, nomeadamente a sua adopção em contextos educativos;

b) a importância da progressiva modernização e atratividade da profissão, do seu quadro de competências e formação (inicial e contínua) e a necessidade de desenvolver uma visão (e identidade, acrescento) global da psicologia num Mundo cada vez mais intercultural e partilhado;

c) a crescente importância do papel da psicologia na complexidade dos contextos de trabalho e no reforço das dimensões da equidade, diversidade e inclusão;

d) a nova “vida” da investigação (promissora) sobre a utilização de psicadélicos na intervenção psicológica e psicoterapêutica;

e) finalmente, e muito relevante, o reforço do papel de advocacia da profissão e das e dos profissionais pelo acesso a serviços de qualidade por todas (reforço, todas) as pessoas que deles necessitem e/ou possam beneficiar.

Identifico-me, totalmente. E procurarei, a partir do meu papel cidadão e profissional deixar, também, o meu singelo contributo neste caminho conjunto… Também porque não esqueço que as trends para 2018 tinham a que guardo sempre presente e viva em mim: que a psicologia caminhará para um “maior foco nos factores sociais que determinam a saúde”, a que acrescento e o bem-estar, individual e colectivo, e a coesão social.

 

10 Key Trends Psychology 2025 (APA)

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Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

2025

Quem anteontem, após as 12h, ou ontem ao longo do dia, ligou a televisão ou acedeu a alguma rede social, viu certamente imagens de lugares onde dezenas ou centenas de milhares de pessoas se reuniram para estarem juntas no momento da passagem de ano e chegada a 2025. Às dos locais públicos juntaram-me mais uns muitos milhões de pessoas que, Mundo fora, como eu e nós fizemos, se reuniram em espaços privados com família e/ou amigas/os ou colegas de trabalho em contextos profissionais onde, juntas, passaram de ano. Juntas, em comunidade.

São, apesar de tudo, inspiradoras essas imagens. É realmente um paradoxo da actualidade a forma como pensamos e perspectivarmos a dimensão mais colectiva e comunitária. Tenho reflectido (e lido quem pensa e trabalha estes assuntos) bastante sobre como as formas que nos últimos anos mais utilizamos para aceder e partilhar informação e para comunicarmos, com especial destaque para as redes sociais, potenciam a criação e sedimentação de “grupos”, mas, simultaneamente, aparentam diminuir a “comunidade”.

Parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) individual do bem-estar quando há relevante percepção (e evidência) que mostra o quão interdependente é o bem-estar individual do bem-estar colectivo da comunidade onde a pessoa se insere. Ainda, parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) colectiva do erro e da culpa. Não o erro ou culpa de uma pessoa, antes a sua identificação colectiva. De políticas/os a povos. De religiões a grupos de pertença comunitária, tudo com impacto em fenómenos como a desconfiança, a polarização, o estigma ou mesmo a xenofobia e racismo. Tudo a influenciar violências diversas, o crescimento do autoritarismo e enfraquecimento das instituições democráticas e multilaterais. Tudo, finalmente, a desafiar o objectivo maior que parte do Mundo assinala a 1 de Janeiro – o Dia Mundial da Paz, em 2025 dedicado a como “podemos construir hoje uma paz duradoura”.

Certamente com mais comunidade. Com menos atribuição de culpas colectivas, mesmo em situações complexas e em que qualquer resposta simples será necessariamente simplista. Certamente, também, com mais acções bondosas e abnegadas como a do Raul Manarte que partilho – https://www.publico.pt/2024/12/28/mundo/entrevista/raul-manarte-ha-pausa-som-drones-helicopteros-bombardeamentos-ouvese-mar-gaza-2114841

Diz o Raul que “quando há uma pausa no som dos drones, dos helicópteros e dos bombardeamentos, ouve-se o mar em Gaza.” O mar de Gaza é o Mediterrâneo que une inúmeros e diversos países e povos, de Sagres a Gaza. Não esqueçamos o que nos une, o que cria comunidade e a forma como o nosso bem-estar individual também resulta (da possibilidade) do bem-estar colectivo. Disso, de construirmos Paz e de que todas e todos temos papel nesse processo, desde logo não contribuindo para a colectivização do erro ou culpa.

Que tenham um bom 2025. Que contribuamos, juntos, para um bom 2025 para todas as pessoas.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Política

Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos (Ao redor…; Sábado)

Construirmos mais Paz. Promovermos mais bem-estar para todas e todos. Um país mobilizado contra a violência doméstica. Foram estes os desejos que, aqui, partilhei e sobre os quais reflecti com quem me lê (leu) para 2022, 2023 e 2024, respectivamente. Para 2025? Para 2025 desejo que possamos mobilizar-nos para protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos.

No dia 10 de Dezembro passaram 76 anos sobre a Assembleia Geral das Nações Unidas que ratificou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Declaração que estabelecia e continua a estabelecer, com as alterações entretanto introduzidas, princípios universais de garantia da dignidade, segurança, liberdade e igualdade para todas as pessoas e que surgia como uma resposta, mesmo que não vinculativa, ao que representou de terrível a Segunda Guerra Mundial e como um manifesto com vista à tentativa de prevenção de que algo semelhante ou próximo pudesse acontecer.

A declaração, particularmente na sua transposição para princípios e valores de um conjunto de Estados, acabou por reconhecer a importância dos Direitos Humanos enquanto base para a prevenção da guerra, para a justiça social e equidade e para a liberdade. Base, portanto, para construirmos mais Paz, promovermos mais bem-estar para todas e todos e prevenirmos todas as formas de violência, incluindo a violência doméstica. Base, ainda, para mais coesão social e para maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas.

Mas a declaração era, é e será, nas formas que venha a assumir, como que um “diamante em bruto”. Sobretudo aspiracional e, necessariamente, à espera de, dia-a-dia e comunidade a comunidade, ser cumprida. E se durante algumas décadas o caminho foi sendo, embora paulatino e lento, nesse sentido, particularmente em alguns países e regiões, existem hoje um conjunto de indicadores que apontam para uma regressão, já de alguns anos e que parece tender a intensificar-se e aprofundar-se, da defesa cabal e intransigente da universalidade dos Direitos Humanos. A esta mudança e a este movimento não é alheio o aumento do autoritarismo no Mundo (e respectivo retrocesso nas Democracias plenas), o individualismo e a polarização, a quebra do multilateralismo, de coesão social e um conjunto de determinantes sociais e alterações sócio-económicas e de organização da sociedade, incluindo tudo o que se relaciona com o acesso e partilha de (des)informação e as novas tecnologias.

Mais, não é alheio o não cumprimento de alguns anseios e expectativas da população, nomeadamente de bem-estar e perspectivas de futuro de alguns grupos populacionais, o agravamento da desigualdade e das iniquidades e uma quebra generalizada, em países onde se inclui Portugal, da confiança nas instituições, governos e, possivelmente, até nas outras pessoas que muito fragiliza a sociedade e a coesão social. Para tudo isto muito contribui um tempo propicio à emergência de pessoas providenciais, normalmente bastante autocentradas, que aparentam pouca capacidade de empatia e compaixão e que prometem resolver os desafios mais complexos com soluções imediatas e simplistas, apelativas a muitas pessoas mas que invariavelmente têm uma constante: são contrárias à ideia de direitos humanos, seja porque retrocedem na igualdade de género e nos direitos das meninas, raparigas e mulheres, seja porque fragilizam a situação de populações deslocadas, refugiadas ou migrantes, seja porque interferem com direitos de pessoas com diferentes orientações sexuais, religiões ou pertenças comunitárias.

Acontece que parte da complexidade do nosso Mundo vive das situações paradoxais da nossa existência. A nossa pulsão, por via da forma como processamos informação, tomamos decisões e dos nossos vieses, para o mais imediato, negativo e individual conflitua com o que sabemos sobre o quão a possibilidade de bem-estar individual depende da possibilidade de bem-estar colectivo. E, sendo isso verdade para o bem-estar, é-o também para a educação, para a saúde (pense-se a saúde pública) e para um sem número de áreas, tornando-nos pessoas e sociedades interdependentes em que a parte influencia o todo e é por ele influenciada e em que mais pessoas terem maior qualidade de vida resultará, sempre, em termos todos mais qualidade de vida potencial.

É neste sentido que venho apelar a que possamos, em 2025 e sempre, fazer a nossa parte para protegermos a universalidade dos Direitos Humanos. E fazer a nossa parte depende de os cumprirmos, através das nossas acções, contributo para acções de quem nos rodeia e para instituições que assentem nesses valores e que tenham a confiança da população para os prosseguirem, mesmo nos períodos em que isso possa ser mais difícil e desafiante. Depende da nossa responsabilidade em não contribuir para a degradação e enfraquecimento das instituições e para a criação de contextos de (percepção de) insegurança ou de (percepção de) desorganização, bastante propícios ao surgimento de figuras – quase sempre as maiores contribuidoras para a criação desses contextos e que só neles ou deles podem emergir – que se propõem salvar a instituição que ajudaram a degradar, quando não o país ou o Mundo. Não precisamos de pessoas salvíficas, precisamos de juntos cumprir e contribuir para o cumprimento da universidade dos Direitos Humanos e de confiar, mais. Precisamos de um compromisso e de uma responsabilidade individual e colectiva, moral e ética, particularmente quando, repito, cumprir os Direitos Humanos é mais difícil e desafiante. Porque o quisemos e queremos para nós. Porque o quereremos para as nossas e nossos filhos e netos.

Terminei o primeiro destes meus 98 artigos da rúbrica “Ao redor” escrevendo: “Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e publiquei-o em Fevereiro de 2021. Evoco-o hoje, simbolicamente. Determinemos este nosso “ao redor” para por ele sermos impactados. Determinemo-lo a partir dos princípios e valores dos Direitos Humanos para por esses princípios e valores sermos impactados. Não por outros. Para, com eles e através deles, sermos mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.

Eu por aqui o procurei e procuro fazer. Eu por aí o procuro e procurarei fazer.

 

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos

in Sábado (Ao redor…); 17.12.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2025-protegermos-e-cumprirmos-a-universalidade-dos-direitos-humanos