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Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar (Ao redor…; Sábado)

Quem, com mais alguns anos que eu ou mais ou menos da minha idade, assistiu à emergência do fenómeno das televendas, não esquece os inúmeros e pomposos anúncios a produtos que prometiam mudanças profundas da nossa vida. Não sabendo porquê, recordo especialmente os extraordinários sprays que se propunham compensar a calvície. Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar.

Hoje, outro passo tem sido dado. A reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, estamos hoje perante um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento, com dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos Estados Unidos, principal mercado na criação (e de clientes) do Mundo (o segundo, a oncologia representava em 2022 cerca de 40% menos investimento face à saúde mental). Esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono das aplicações muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm quaisquer estudos sobre os seus reais impactos), tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter em dimensões de promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e da equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.

Mas, mais, esta forte expansão, quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados, determina que milhões de pessoas, algumas delas em situações especialmente vulneráveis (por exemplo com problemas diversos de saúde mental), com maior ou menor consciência, partilhem pensamentos, emoções e dados biométricos com aplicações, muitas vezes sem a devida salvaguarda de segurança e confidencialidade. Há diversos exemplos destas práticas, um deles particularmente mediatizado. Trata-se da BetterHelp’s, uma plataforma que “liga” clientes a prestadores de serviços na área da saúde mental e que recentemente acordou um pagamento de 7,8 milhões de dólares a 800.000 clientes por ter reconhecido que, sem autorização expressa, cedeu a plataformas como o Facebook ou Pinterest os seus dados de informação, de rotinas, de questionários e de contacto, permitindo que estas plataformas identificassem “potenciais clientes” por similitudes de práticas e comportamentos nestas redes, podendo dessa forma criar, dirigir e personalizar os anúncios e rentabilizando / monetizando significativamente essas informações .

Ainda, esta expansão, a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups que desenvolvem tendem a dois tipos de movimentos: a) de simplificação (pela criação de algoritmos que, muitas vezes de forma abusiva e descontextualizada, transformam fenómenos muito complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) de generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, algo que resulta, muitas vezes, numa menor identificação, utilização e eficácia em comunidades de pessoas com menor educação e/ou literacia ou mesmo em países com organizações sociais e práticas sociais e culturais distintas das dos países onde são desenvolvidas ou das pessoas que as desenvolvem, sendo importante que recordemos que, apesar da investigação e criação de resposta em saúde mental estar maioritariamente cingido aos países tradicionalmente apelidados de “ocidentais”, 80% da população global habita em países “não ricos”, estimando-se que nesses países esteja também 80% da população do Mundo que vive com doença mental, países onde habitualmente até 3 em cada 4 pessoas não têm acesso a qualquer tipo de serviço/tratamento nesta área.

A carência de mais e melhor ciência no desenho das aplicações e na avaliação do seu impacto; a forma como, infelizmente, se tende para universalização ao invés da personalização das e dos seus utilizadores; e o não respeito e priorização das questões associadas aos direitos, segurança e privacidade de quem utiliza estão a contribuir decisivamente para que os elementos centrais na maior saliência das questões da saúde mental hoje – o direito de acesso a serviços nesta área e a necessidade de caminharmos para uma verdadeira equidade nesse acesso – não estejam a ser respeitados e promovidos e a tecnologia e o seu potencial mobilizado para apoiarem mais significativamente na resposta a este desafio.

Neste sentido, e para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações digitais podem ter além das sessões e consultas online, práticas, apesar de tudo, mais utilizadas, desenvolvidas e estudadas nos últimos anos. Importa que, enquanto cidadãos utilizadores, profissionais, investigadoras/es ou decisoras/es participemos no debate sobre as aplicações digitais e o seu enquadramento, nomeadamente em como será fundamental, a partir da tecnologia, potenciar a saúde e as suas intervenções, a recolha de dados fundamentais e a disponibilidade contínua e mais próxima. Nisto e, também, na importância do desenvolvimento de alguma regulamentação que permita e estimule a continua inovação, mas, em simultâneo, contribua segurança, privacidade e saúde pública.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde e saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e da melhoria da eficácia das suas intervenções. Tal não é apenas possível, pode, verdadeiramente, mudar para melhor a vida de muitas pessoas. Contribuir para mudar para melhor o Mundo.

 

 

Tiago Pereira

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

in Sábado (Ao redor…); 22.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/das-televendas-as-aplicacoes-digitais-o-negocio-a-volta-da-vulnerabilidade-e-do-bem-estar

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Envelhecimento activo e vida saudável

Ontem, no “Factos que Contam” da SIC Notícias, o Gonçalo Saraiva Matias trouxe-nos uma reflexão informada sobre uma realidade por todas e todos percepcionada e, creio, aceite – as profundas transformações demográficas em Portugal das últimas décadas e o significativo envelhecimento da população. Trouxe, ainda, uma outra talvez não aceite por todas as pessoas – o importantíssimo contributo da população imigrante para a mitigação desta realidade, para a prosperidade e desenvolvimento do país e sustentabilidade dos seus serviços.

Fê-lo suportado num conjunto amplo de dados dos quais destaco dois: em 2050 prevê-se que 27% do PIB em Portugal seja dedicado ao que apelidou de “custos do envelhecimento” e que inclui valores associados a pensões, saúde ou aos cuidados continuados; que hoje 1 milhão de pessoas vive só, metade delas com mais de 65 anos contribuindo este dado para relevantes problemas de solidão e isolamento, não sendo expectável que esta situação se possa rapidamente interverter nos próximos anos.

Cenários que configuram um desafio tremendo para o país e que implicam políticas públicas multissectoriais e integradas que, com eficácia, respondam a diversas dimensões que para ela contribuem (políticas de juventude, de emprego, …) e, simultaneamente, para mitigar as suas consequências (políticas de promoção do envelhecimento activo e saudável; de combate ao isolamento, …).

Também, e mais conceptualmente, que na sociedade como um todo se reforce a literacia sobre os processos de envelhecimento e a necessidade de pensarmos que, independentemente da nossa idade e papel, todas e todos devemos participar e envolver-nos na discussão e advocacia sobre este tema e pensar o envelhecimento como uma processo ao longo de toda a vida… E como isso poderá significar maior possibilidade de se viver mais anos com maior qualidade de vida e mitigar alguns dos desafios acima identificados.

A convite da Médis participei recentemente numa conversa com a Margarida Dias da Graça Santos (uma extraordinária comunicadora) exactamente sobre estes temas. Faço-o a propósito da relação com o que atrás sublinho mas, também, porque foi – para mim – um momento muito interessante. O mote foi o “envelhecimento activo e vida saudável” e caminhamos, juntos, pela forma como (e quando) decorre o tal processo de envelhecer (já envelheceu ao ler este texto, até esta frase), o que pode significar o tal “envelhecimento activo” e como podemos promovê-lo, o papel das relações e da comunidade nestes processos e como os nossos diferentes papéis os podem influenciar.

Sempre, sempre, numa conversa fluída e leve e com um toque permanente para as questões da desigualdade / equidade, para a necessidade de políticas públicas mais efectivas e para os impactos destes processos na saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e coesão social.

Convido-vos a ver, aqui: https://www.youtube.com/watch?v=EM-X9mEhuPY&embeds_referring_euri=https%3A%2F%2Fwww.medis.pt%2F

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Futuro da Psicologia Psicologia Tecnologia

Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

Lembram-se dos sprays extraordinários que prometiam resolver a calvície com a produção de “cabelo instantâneo” das televendas?

“Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar (…) Hoje, a reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, há um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento: as dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos EUA.”

“Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar”, 93º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) trata “esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência, quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm estudos de impacto).”

Esta realidade “tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter na promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.” Mas, mais, “quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados e confidencialidade” pode determinar a utilização abusiva de pensamentos, emoções e dados biométricos de pessoas, algumas em situação especialmente vulnerável (no texto descrevo o caso da BetterHelp’s).

Ainda, esta expansão, “a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups potencia: a) a simplificação, pela criação de algoritmos que tendem a transformar fenómenos complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) a generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, gerando menor identificação, utilização e eficácia em pessoas com menor educação, práticas culturais diversas, etc.

Neste sentido, “para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações podem ter, além da utilização do online para sessões/consultas (…) Podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e melhoria da eficácia das intervenções.

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Revolta-Apaziguamento

“Existem momentos na vida em que não gostamos do que sentimos… Nem sempre é fácil gerir essas emoções e encontrar um caminho no qual nos sentimos melhor”. Foi assim que a @Irina Gomes iniciou o “Descubra as Diferenças”, programa do Canal @Saude + em que conversou comigo sobre o binómio que apelidou de “revolta-apaziguamento”.

Também a propósito de uma boa conversa que ontem tive e porque ainda não o tinha aqui e convosco feito, partilho essa recente conversa onde, resumidamente, procuro:

. Sublinhar que é natural que em determinados momentos da nossa vida possamos sentir alguma revolta (ou mesmo sentir-nos revoltados), fazendo isso parte da nossa existência;

. Referir que, todavia, não podemos “atingir” uma existência plena e completa se nos sentirmos permanentemente em revolta;

. Discutir a subjectividade inerente ao sentimento (quando mais permanente) de revolta e à emoção (por vezes mais próxima da raiva) e como, apesar das suas expressões físicas e emocionais, cada pessoa os descreve à sua maneira;

. Como a revolta se liga com sentimentos de injustiça e, não raras vezes, com a ausência de sensação de controlo e de agência sobre o que nos provoca este sentir;

. A importância de reconhecermos o que estamos a vivenciar, incluindo os “gatilhos” (triggers), sendo a literacia emocional muito importante para tal. Bem como, a relevância dos mecanismos de autocontrolo (emocional e comportamental) e da forma como crenças (por vezes irracionais) podem surgir associadas a este sentir;

. Como a agência – e procuro discutir exemplos concretos – sobre potenciais contributos para a alteração dos fenómenos que nos provocam, por vezes, emoções ou sentimentos desta natureza, pode ajudar-nos num caminho de maior sensação de equilíbrio, paz e bem-estar;

. Como a revolta está presente na adolescência e os seus impactos nas e nos mais jovens e nas pessoas ao redor e como a revolta também vive do e com o Mundo hoje, nomeadamente no que se refere às redes sociais, ao acesso e difusão de informação e a diferentes desafios societais contemporâneos;

. Sobre o apaziguamento, procuro enquadrar e distinguir do termo e significado quando utilizado em contextos mais bélicos (de cedência) para o situar na aproximação a um caminho para um maior equilíbrio e paz, desatacando o papel das relações, do significado e das actividade do dia-a-dia;

. Finalmente, um conselho para quando nos sentirmos revoltados? Tentarmos definir exactamente o que nos está a fazer sentir o que estamos a sentir (não deixar que fique difuso) e perceber o que podemos fazer para o alterar, mesmo que decidamos nada fazer. Se assim fizermos estaremos a garantir agência e controlo sobre a situação. Esgtamos a criar perspectivas e diversificar o que pode ser a nossa actuação e como podemos lidar com a situação, ajudando-nos isso a lidar melhor com a situação, a sentimo-nos mais equilibrados e potencialmente a sentirmo-nos melhor.

Mais em paz.

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação (Ao redor…; Sábado)

Comecemos hoje com um pequeno quiz:

O que é que os seguintes nomes: António Brochado Correia, Bernardo Trindade, Carlos Abade, Carlos Moura, Fernando Nunes da Silva, Filipe Anacoreta Correia, Francisco Calheiros, Gonçalo Oliveira, Hugo Moreira Luís, José Luís Arnaut, Luís Amado, Luís Marques Mendes, Luís Montenegro, Luís Rodrigues, Mário Centeno, Miguel Maya, Paulo Portas, Pedro Machado, Pedro Reis, Roberto Antunes e Fernando Nunes da Silva…

Têm que ver com estes nomes: Alexandre Lote, André Pinotes Batista, Armando Mourisco, Benjamim Rodrigues, Brian Silva, Francisco César, Gonçalo Lopes, Hugo Costa, Hugo Oliveira, João Portugal, Luís Dias, Luís Graça, Luís Moreira Testa, Nelson Brito, Nuno Araújo, Paulo Cafôfo, Ricardo Leão, Rui Santos, Victor Hugo Salgado, Vítor Paulo Pereira e Vítor Pereira?

Ambos os grupos terem 21 nomes? Terem esses 21 nomes organizados por ordem alfabética? Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens.

São, também, e respectivamente, os nomes de todos os 21 oradores da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal e apresentada como “um evento que reúne importantes líderes e personalidades políticas e empresariais” que pretende “apelar à reflexão e ao debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal”. Um debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais.

Debate que, coincidentemente, aconteceu a 27 de Setembro, dia em que o Partido Socialista (PS) elegeu os novos 19 líderes das federações distritais que se juntam aos 2 líderes anteriormente eleitos das regiões autónomas, corporizando os seus agora 21 líderes federativos e regionais atrás listados. Todos homens. Um processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais.

Mas, se parece existir alguma coerência relativamente ao evento e ao facto de todo o Conselho Directivo da Confederação do Turismo de Portugal que o organiza ser, hoje, constituído por homens (10) que, por sua vez, lideram Associações ou Grupos Empresariais ligados ao Turismo, já parece mais incoerente que a liderança de todas as estruturas federativas e regionais, de um partido em que o seu Secretário-Geral foi eleito com uma moção apelidada de “Portugal Inteiro”, caiba apenas a homens. Moção essa que afirma como 1ª missão que o PS se deve assumir como “um partido reformista e progressista para uma social-democracia moderna”, detalhando dever ser “um partido transformador e progressista”, promover “reformas para melhorar a vida das pessoas” e ser “portador de sentido de justiça, esperança e de ambição para chegar mais longe”.

Talvez este sentido de justiça, esperança e de ambição obrigasse a uma reflexão profunda sobre como podem estar representadas as mulheres (segundo os últimos dados públicos, cerca de 37% do total de militantes do PS) nas lideranças locais e de proximidade e quais as razões que levam à absoluta desproporção nas candidaturas (nas 19 eleições houve apenas duas candidatas, ambas derrotadas, face a 21 candidatos Homens) e como pode essa desproporção, a bem de todas e todos, ser mitigada. Talvez esta reflexão trouxesse uma outra coerência. Talvez pudesse pensar-se que, tal qual um conselho diretivo só de homens mais facilmente organiza um evento em que só homens são oradores, em eleições internas dos partidos políticos, onde as estruturas são maioritariamente lideradas por homens, estes tendem a mobilizar-se e movimentar-se mais, perpetuando-se e determinando, ou pelo menos influenciando com o mesmo viés, as escolhas futuras.

É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.

Isto, naturalmente, se não quisermos que o “debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal” e as bases do partido português que se assume progressista, reformista e “portador de sentido de justiça, de esperança e de ambição para chegar mais longe” sejam consequentes com a reflexão do Ministério Público para o seu relatório de actividades de 2023, partilhada pela Sr.ª Procuradora Geral da República, referindo que uma proporção significativa de mulheres jovens (“especialmente abaixo dos 30 anos”) na instituição resulta num “agravamento de constrangimentos” nos seus trabalhos em virtude de “situações de gravidez, de gravidez de risco, de baixa para assistência a filhos menores, gozo de licença parental e ausência para efeitos de amamentação”. Um péssimo contributo para a informação e debate público proveniente de uma instituição com especiais responsabilidades com a agravante das mulheres com menos de 30 anos representarem apenas 1,6% do seu universo de trabalhadores.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências. Penso-o relativamente a partidos, eventos, estruturas e organizações da administração pública, privada ou do sector social. Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. Certamente se o fizermos caminharemos no sentido da promoção de maior segurança psicológica, de maior coesão social e da prevenção de retrocessos que hoje nos parecem tão absurdos quanto pensávamos absurdo, há anos, que um ex-presidente e novamente candidato a presidente dos EUA afirme que se ganhar a eleição poderá ser a última vez que as/os eleitoras/es votam. Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.

 

Tiago Pereira

Um tema em que as bases do Partido Socialista e o Turismo de Portugal parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

in Sábado (Ao redor…); 09.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/as-mulheres-e-a-sua-participacao

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Saúde Mental no Trabalho

“Não pode haver assédio no local de trabalho e ioga à hora de almoço… E quem lidera não pode entender que, por haver ioga, os problemas estão todos resolvidos.”

Foi esta a frase que a CNN Portugal destacou da conversa que tive com a Diana Bouça-Nova no Domingo que aqui partilho.

Conversa a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, da Saúde Mental no trabalho (tema em 2024) e que tocou:

a) A preocupação crescente de empresas e organizações com este tema, mas a necessidade de se continuar e aprofundar este caminho;

b) O papel da World Health Organization na promoção de literacia da população e no reforço da importância, também, dos factores psicológicos e sociais na saúde mental;

c) O destacar que o tema do dia em 2024 assinale a importância dos locais de trabalho, quer no quanto podem ser um factor protector, como um factor de risco da saúde mental das/os trabalhadoras/es;

d) Os custos, também económicos, que acarretam às empresas e organizações o absentismo e presentismo relacionado com situações de stresse e problemas de saúde mental (https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_relatorio_prosperidadeesustentabilidadedasorganizacoes2023.pdf);

e) Como até 30% destes custos podem ser preveníveis com intervenções de avaliação e prevenção de riscos psicossociais e o quanto poderia ser importante a concretização das recomendações da Direção-Geral da Saúde e de grupos de peritos ao Governo visando alterações legislativas para a criação da figura da/o “Psicóloga/o do Trabalho” e sua inclusão nas equipas de saúde ocupacional;

f) O quão relevante poderá ser generalizar, por via dessa alteração, padrões e actividades mínimas que permitam avaliar e gerir riscos psicossociais com equidade (para todas e todos os trabalhadores e não apenas em empresas / organizações mais sensíveis a estes temas) e, dessa forma, estabelecerem-se planos de acções visando os factores que concorrem para a emergência dos problemas (exigências cognitivas e/ou emocionais; problemas de conciliação; problemas de confiança, relação e comunicação; horários de trabalho; …) e não apenas actuar sobre as consequências dos mesmos;

g) Como, além do rendimento disponível, naturalmente muito importante, um foco na promoção da saúde e bem-estar no trabalho em Portugal pode ser, também, factor de atração e vínculo ao país, particularmente da população mais jovem;

h) Com a intervenção que destaco no início, salientar a necessidade das respostas de promoção da saúde mental e bem-estar no trabalho serem integradas, alinhadas, priorizadas e generalizadas em toda a organização e que “nem tudo serve”, reforçando que existe ciência e evidência científica e que existem profissionais preparados para com eficácia apoiar organizações e empresas neste objectivo.

Grosso modo, assim foi a conversa mas convido-vos a ver…A ver e a comentar, se desejarem. Até porque, como a Diana Bouça-Nova diz no final, também eu gostava que continuássemos esta conversa. Esta importante conversa.

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

“Comecemos hoje com um pequeno quiz”. Assim começa o artigo perguntando o que um conjunto de 21 nomes tem que ver com um outro conjunto de 21 nomes. “…Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens”, escrevo.

“Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação”, 92º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da coincidência temporal entre a realização da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela CTP e que teve 21 oradores (todos homens) e as 19 eleições federativas do PS cujos eleitos se juntam aos 2 regionais perfazendo 21 líderes (todos homens). Esse dia 27.09.24 foi dia de um “debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais”, conforme foi apresentado o evento da CTP. Foi dia de um “processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais” do PS.

“É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.”

“…necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências (…) Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. (…) Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Educação Política Psicologia

Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar (Sábado; Ao redor…; 24.09.2024)

Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.

Há hoje razões significativas para o termos presente. Razões que vão além de casos naturalmente muito relevantes pelo seu impacto e pela dimensão de sobressalto e de alarme social que comportam, ainda que excepcionais, como foi o recente caso na Escola Básica da Azambuja. Razões que incluem, desde logo, o que António Guterres sublinhou no passado Sábado, quando assinalava o Dia Internacional da Paz, num ano e momento com a maior incidência de conflitos armados activos no Mundo desde a II Guerra Mundial. Disse Guterres que precisamos de uma acção conjunta de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.

Razões que incluem, também, os fortes desafios que crianças e, particularmente, jovens enfrentam hoje e que condicionam significativamente a sua saúde, particularmente a saúde mental, e bem-estar. Sobre isso aqui escrevi, por exemplo, em Novembro de 2023 num artigo intitulado “Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, destacando a importância da resposta precoce a dificuldades e necessidades, nomeadamente com uma “estratégia ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé”, “a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde”, a generalização da “possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos” com a “garantia da qualidade dos ambientes educativos” e o investimento “em programas de formação e desenvolvimento e das condições de exercício profissional de pessoal docente, não docente e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades, com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade e com a avaliação de impacto”. Sobre isso também aqui havia escrito em Setembro de 2022 num artigo intitulado “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem”, onde procurei reflectir sobre o impacto das “notas” e da centralização nos resultados no processo de desenvolvimento do conjunto mais amplo de competências, incluindo sócio-emocionais e relacionais, e de promoção do bem-estar e da saúde mental. Isto a par da pressão, que resulta em parte das redes sociais, para a necessidade de “reconhecimento no espaço virtual”, de alguma ausência de suporte que advém da inacessibilidade de recursos de apoio ou da sua inconstância porque muitas vezes resultam de projectos ou contratações não permanentes que implicam alterações / interrupções frequentes e do crescimento da instabilidade e imprevisibilidade face ao futuro que, afectando todas as pessoas, impacta desproporcionalmente a população mais jovem. Precisamos, portanto, de uma acção conjunta de promoção da saúde mental e do bem-estar e de uma atitude de prevenção e resposta aos problemas contingente e precoce, empoderada e eficaz.

Razões, finalmente, que decorrem do ambiente social e político que vivemos hoje. Um espaço público onde em cerca de 20 anos aumentaram em 100% as notícias dos órgãos de comunicação social cuja mensagem base é o “ódio” e em 150% as em que é o “medo”. Em que pessoas e grupos constroem, por vezes artificialmente, conflito não construtivo porque prosperam, proliferam e lideram nesse âmbito, autopromovendo-se ou promovendo as e os do seu grupo, sem qualquer consideração dos impactos a médio e longo prazo dessa atitude nos indivíduos e na sociedade. Geram e gerem desconfiança que gera mais desconfiança, conflito não construtivo que gera mais conflito não construtivo validando, explicita ou implicitamente, os receios das outras pessoas, diversas de nós, o ódio, o ressentimento e, por vezes, até comportamentos agressivos, criando na sociedade espaço para atitudes de complacência com diferentes práticas agressivas e violentas. Precisamos de uma acção conjunta de promoção da resolução construtiva de conflitos e de prevenir a complacência com atitudes e comportamentos de discriminação, ódio e de não cumprimento dos Direitos Humanos.

Ora, diz-se, sabe-se, que a Escola não é uma ilha e, logo, não é imune a este conjunto de fenómenos. Debate-se, necessariamente, com desafios ao nível dos seus recursos humanos, mas também com outros que resultam dos importantes objectivos da inclusão de todas as crianças e jovens, do aumento da escolaridade obrigatória, da escola de qualidade a “tempo inteiro” ou de fenómenos como as migrações, a desigualdade social ou a transição digital e a utilização de novas tecnologias. É com todo este enquadramento que devemos pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura) e olhando a que:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental promovermos uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva mais ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.

 

Tiago Pereira

Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

in Sábado (Ao redor…); 24.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-ditado-popular-a-proposito-das-praticas-agressivas-e-violencia–em-contexto-escolar

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Deve a psicologia influenciar as pessoas a partir de valores pró-sociais? Reflexões a propósito da Ética Aplicada à Psicologia

Estamos no início da semana onde, 5ª feira (10.10), se comemora o Dia Mundial da Saúde Mental. Felizmente, nos últimos anos e num processo crescente desde antes da pandemia (acelerado nesse período), escrevemos, conversamos, partilhamos e educamos muito mais sobre saúde mental todos os dias do ano. Como em tudo, esse facto, não tendo apenas aspectos positivos, é algo muito importante e relevante e tem um forte contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos que para ele contribuem com o seu trabalho e com a sua participação.

Outra, creio, vem mais paulatinamente a caminho. Também muito importante e relevante e com um forte contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, refere-se à forma como se escreve(rá), conversa(rá), partilha(rá) e educa(rá) sobre os processos de tomada de decisão e o conjunto de factores pessoais, interpessoais, sociais e contextuais que apoiam a sua compreensão. E como, paralelamente, podemos crescer em quantidade, qualidade e impacto os contributos das ciências comportamentais – particularmente da psicologia – para o desenho, implementação e avaliação de políticas públicas.

Ambas as alterações carecem de uma ciência psicológica sólida e confiável e de uma profissão de psicóloga/o com um exercício claramente assente em padrões éticos e deontológicos co-construidos, partilhados e consequentes.

Também por isso, em boa hora, a Ordem dos Psicólogos Portugueses viu finalmente consagrada a sua representação no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida onde é superiormente representada pelo Miguel Ricou. Ele e a presidente do CNECV (Maria do Céu Patrão Neves ) editaram o “Ética Aplicada – Psicologia” e, simpaticamente, convidaram-me a escrever um capítulo: “A psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” (sobre isso aqui escrevi).

Ora, amanhã (na FPCE da Universidade do Porto), estarei numa conversa/apresentação do livro com o Miguel Ricou e o Luís Fernandes com o mote: “Deve a psicologia influenciar as pessoas a partir de valores pró-sociais? Reflexões a propósito da Ética Aplicada à Psicologia”. Tenho viés porque admiro-os muito mas tenho cá para mim que vai ser estimulante. Junta(m)-se a nós?

Ps. Hoje passa um ano sobre os hediondos acontecimentos resultantes da invasão por combatentes do Hamas de Israel. Faltam-me palavras para os descrever. Como me faltam para descrever tudo quanto nestes 365 dias, incluindo os graves crimes cometidos pelo exército de uma Democracia/Estado de Direito, aconteceu em sua consequência e/ou por eles justificado. Proponho, hoje, um pequeno texto que escrevi sob forma de pequena e singela de reflexão e proposta acção. Chamei-lhe “Reconhecer”.

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Ainda o 6º Congresso OPP/XIII FIAP

O 6º Congresso da OPP/XIII da FIAP terminou há uma semana mas continua aqui. Associo-me a esse belo movimento com uma mensagem última em forma de agradecimento(s):

. Ao Francisco Miranda Rodrigues por ter confiado e me ter convidado a presidir à sua Comissão Organizadora e, nele, a todas as largas dezenas de psicólogas/os com diferentes papéis na Ordem dos Psicólogos Portugueses pelos seus múltiplos contributos para o sucesso do congresso;

. À Clara Silva e nela a toda equipa de trabalhadoras/es da OPP que formam, particularmente quando perante exigências complexas, uma força coesa, empenhada, criativa e segura. São inexcedíveis e são ainda capazes de agregar outras pessoas, no caso do Congresso o grupo de voluntárias/os (a quem também agradeço) que são a base (e que importante é a base) para que tudo funcione;

. À comissão científica excepcionalmente liderada pela Isabel Soares que teve um papel determinante da preparação da recepção das mais de 7 centenas de submissões à organização e moderação das sessões de comunicações, pósteres digitais e espaço jovem (especial agradecimento à Carolina Oliveira, força motriz desta iniciativa). Incrível trabalho.

. Ao João Reis, com quem tive uma impactante (pelo menos para mim) conversa sobre “um só planeta”; à Raquel Corval , Leonor Carvalho, Sandra Araújo e Isabel Soares com quem conversei sobre os primeiros mil dias (e que orgulho serem tema no congresso da OPP); à Ana Rita Gomes, Inês Pimenta de Castro, Andresa Oliveira, João Salgado, Maria João Mosca e Daniel Maia com quem conversei sobre a intervenção psicológica à distância e seus desafios e oportunidades. Neles agradeço às quase 5 centenas de oradoras/es e às/aos restantes quase 2500 participantes;

. Aos patrocinadores e stands que confiaram no congresso para associarem as suas marcas e produtos e que co-construiram a sua experiência, também fora das salas de sessões;

. Às organizações internacionais participantes, nomeadamente do espaço ibero-americano, países língua oficial portuguesa e à EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), American Psychological Association e COP.

A todas e todos agradeço o sentido de comunidade, o espaço de celebração.

“…e este percurso”, disse o Sr. Presidente da República na sessão Solene falando do processo de afirmação da psicologia e da valorização do contributo das psicólogas e psicólogos na sociedade portuguesa, “foi um percurso que explica estes congressos. Quem chega aqui aos congressos a sensação que tem é que este duplo congresso [OPP/FIAP] é uma festa. Não é o cumprimento de um dever, de uma obrigação, é uma festa. Se quiserem, uma festa de autodeterminação”.

A celebração da autodeterminação e da procura incansável da promoção da sua possibilidade para todas as pessoas por parte de 28.000 psicólogas/os, dia após dia, nos mais variados contextos. 28.000 psicólogas/os, cidadã(o)s.

Foi uma honra ter tido esta oportunidade e ter podido dar este meu contributo para este nosso Congresso.