Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Futuro da Psicologia Psicologia

Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos

1, 2, 3, 4, 5, (…) 97. Foram 97 os artigos que escrevi na rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) desde 24.02.2021 quando publiquei “Nós e os nossos Mundos”, o primeiro.

Três deles, um desejo para 2022 (Construirmos mais Paz), para 2023 (Promovermos mais bem-estar para todas e todos) e para 2024  (Um país mobilizado contra a violência doméstica). E 2025?

“Um desejo para 2025? Protegermos e cumprirmos a universalidade dos Direitos Humanos” é o 97º artigo e pensa os “Direitos Humanos enquanto base para a prevenção da guerra, justiça social e equidade e liberdade. Base, portanto, para construirmos mais Paz, promovermos mais bem-estar para todas e todos e prevenirmos todas as formas de violência, incluindo a violência doméstica. Base, ainda, para mais coesão social e maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas.”

Trata “um conjunto de indicadores que apontam para uma regressão, já de alguns anos e que parece tender a intensificar-se e aprofundar-se, da defesa cabal e intransigente da universalidade dos Direitos Humanos”, reflectindo sobre o que pode para tal contribuir, do “aumento do autoritarismo” ao “individualismo, polarização e quebra do multilateralismo e de coesão social” passando pelo “não cumprimento de alguns anseios e expectativas da população (…) o agravamento da desigualdade e iniquidades e uma quebra generalizada da confiança”.

Para depois funcionar como um apelo a que possamos “em 2025 e sempre, fazer a nossa parte para protegermos a universalidade dos Direitos Humanos. E fazer a nossa parte depende de os cumprirmos, através das nossas acções, contributo para acções de quem nos rodeia e para instituições que assentem nesses valores e que tenham a confiança da população para os prosseguirem, mesmo nos períodos mais difíceis e desafiantes.” Cumpri-los depende, ainda, de “não contribuirmos para a degradação e enfraquecimento das instituições e para a criação de contextos de (percepção de) insegurança ou de (percepção de) desorganização, propícios ao surgimento de figuras – quase sempre as maiores contribuidoras para a criação desses contextos e que só deles podem emergir – que se propõem salvar a instituição que ajudaram a degradar, quando não o país ou o Mundo.”

Precisamos, assim, “de um compromisso e de uma responsabilidade individual e colectiva, moral e ética”, afirmo no artigo que termino referindo que “eu por aqui o procurei e procuro fazer”. E que “eu por aí o procuro e procurarei fazer.”

Categories
COVID-19 Democracia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Acasos curiosos…

Como bem sabem, a nossa vida – e o que se passa na nossa vida – também resulta de um conjunto de acasos. Alguns particularmente felizes, como não há muito pude experimentar. Outros, infelizmente, menos felizes. Outros, ainda, apenas curiosos…

Há dias confrontei-me com um destes. A relação entre dois artigos de uma pequena newsletter que regularmente leio e o momento que vivemos e vivo.

Um a reafirmar algo que, conhecendo relativamente bem (no que aos estudos científicos diz respeito, mas também ao olhar empírico sobre a realidade), não deixa de ser curioso face ao momento actual… O artigo sublinhava que, geralmente, “as pessoas acreditam que a informação que possuem é suficiente para permitir que tomem boas decisões” e que outras pessoas “concordariam com elas, caso tivessem a mesma informação”, mesmo quando são confrontadas com realidades que rejeitam ambas as situações. A saber, que a informação é suficiente; ou que as pessoas decidem todas da mesma forma quando com a mesma informação.

O outro estudo versando sobre a forma como, apesar do levantamento de todas as restrições decorrentes da pandemia, continuarmos, hoje, a despender “menos tempo a realizar actividades fora de casa”, mantendo-se, em algumas áreas e comportamentos, “alterações significativas” próximas das que decorreram das medidas de proteção da população, ainda que mereça que se sublinhe que esta tendência (menos tempo/actividades fora de casa) se iniciou ainda antes da pandemia. Concluem as/os autores, “mesmo tendo sido eliminados os efeitos mais sérios, a COVID-19 continua a impactar as nossas vidas e o nosso quotidiano.”

Sem dúvida. Continua a influenciar a forma como nos relacionamos com as outras pessoas, com a informação disponível e, nesse sentido, com a forma como tomamos decisões e os resultados das mesmas. E continua a interagir com alterações sociais entretanto verificadas e com o acesso, as possibilidades e os impactos das novas tecnologias, por exemplo no acesso e disseminação de (des)informação e na tomada de decisão.

Também por isso, as/os autores do primeiro estudo concluem apelando a que usemos mais humildade, “assumindo que não sabemos tudo” e que manter a “curiosidade sobre as lacunas no nosso conhecimento pode resultar em processos de tomada de decisão mais informados e integrados para todas e todos.”

Isto é tão mais relevante quanto será importante que, juntos, trabalhemos pela consolidação, afirmação e desenvolvimento da psicologia e pela confiança na mesma enquanto ciência (pelo valor aqui demonstrado) e enquanto prática (como tantas e tantos bem sabemos).

Juntos devemos contribuir para um reconhecimento maior da psicologia na sociedade e pela importância, para cada pessoa, de evoluirmos – conforme Ian Walker defende – do actual STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática) para um PSTEM, que inclua a psicologia e que faça justiça à sua relevância em tudo quanto envolva pessoas, o seu comportamento e a tomada de decisão. O Mundo, portanto.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Psicologia

Os contactos laborais fora do horário de trabalho: Um elogio ao limbo (Ao redor…; Sábado)

Quando em 1957 Leon Festinger cunhou o termo dissonância cognitiva, nomeou um fenómeno que todos sentimos e cujo entendimento é importante para nos compreendermos e compreendermos melhor o que e quem nos rodeia. A dissonância acontece quando se verifica uma incoerência entre aquilo que acreditamos e pensamos ser o mais correcto e aquilo que realmente praticamos. Já a dissonância cognitiva corresponde ao conflito e desconforto que se gera em nós quando somos confrontados com a necessidade de tomarmos decisões em que duas crenças ou atitudes nossas são conflituantes e, logo, não coerentes entre si.

Um ano antes, Festinger, com dois outros colegas, haviam publicado um interessante livro intitulado “When prophecy fails” [Quando a profecia falha] como resultado do acompanhamento próximo do “The seekers”, um grupo que em Chicago fundou a religião “UFO” por crerem que, só assim, subsistiriam após o grande terramoto, seguido de um maremoto, que acreditavam que ocorreria no dia 21 de Dezembro de 1954 e destruiria os EUA. Essa profecia em forma de catástrofe não se cumpriu e o trabalho de seguimento pós 21.12.1954 dos membros do grupo permitiu-lhes estudar em detalhe como parte das pessoas reforçou a crença inicial na religião e a sua adesão e compromisso com o grupo, sustentando e racionalizando de formas diversas, entre as quais pelo seu próprio comportamento de adesão à religião UFO, o porquê de afinal não ter existido o grande terramoto que perspectivavam. Outros, porém, abandonaram o grupo, desconfirmando a sua crença inicial e deixando pistas para Festinger descrever diferentes formas de lidar e diminuir o que viria a apelidar de dissonância cognitiva.

Uma que sempre me fascinou, pelo seu lado simbólico, corresponde à forma como a igreja católica durante séculos resolveu a dissonância resultante da impossibilidade de acolhimento no céu de um bebé ou criança sem baptismo pela referência ao limbo, um lugar intermédio, de suspensão entre o céu e o inferno.

A comissão teológica internacional responsável pela alteração desta interpretação (apenas em 2007), subscrita pelo Papa Bento XVI, afirmou existirem “sérias razões teológicas para crer que as crianças não baptizadas que morrem se salvarão e desfrutarão da visão de Deus”. Mas, se neste exemplo o fim do limbo correspondeu a uma outra forma de resolução da dissonância, sugiro, noutra área, que seja a introdução do limbo uma outra forma de resolução da dissonância: faço-o relativamente à área laboral e, mais especificamente, aos contactos e comunicações laborais fora do horário de trabalho.

A internet, o aumento da conectividade e, em muitas profissões e profissionais, do trabalho com pessoas e em equipas em diferentes fusos horários e, principalmente, dos nossos instrumentos de comunicação se confundirem com instrumentos de trabalho e nos seguirem para o nosso tempo não laboral, aumentou a probabilidade de uma relevante dissonância em contexto laboral: a nossa intenção de “despacharmos” assuntos, ainda que não urgentes, muitas vezes problemas, de nós para outras/os face a sabermos que não o devemos fazer em períodos em que essas outras e outros não estão em horário de trabalho. A forma tradicional de se resolver esta dissonância – quando existente porque em culturas organizacionais com poucos limites nem chega a existir – é a racionalização que se a outra pessoa está fora do horário de trabalho “não irá ver” essa informação/comunicação ou, numa alternativa mais sofisticada, “se vir não era a isso obrigada e foi porque assim desejou”. Ora, convoco o limbo como uma outra forma, mais positiva creio, de resolver a presente dissonância.

A possibilidade de, de facto, “despacharmos” o trabalho, muitas vezes os problemas, de nós, porque o consideramos importante para nós, mas não os enviarmos nesse momento para outras pessoas, quando fora do seu horário de trabalho. Ferramentas simples como programar envios de emails ou de outras comunicações (face a enviar imediatamente) ou agendar reuniões onde se parte de um memorando já feito, mas que aguarda feito por esse momento para ser comunicado, ajudam nesse sentido e são um importante contributo que, se todos adoptássemos mais, apoiaria significativamente a possibilidade de conciliação de todos. Seria um movimento de responsabilidade partilhada e de respeito de quem envia a mensagem ou comunicação não expor quem a recebe, ao mesmo tempo prevenindo a possibilidade de quem a recebe voltar a enviar para outra pessoa ou mesmo para quem inicialmente enviou, entrando-se num ciclo que (inter)fere (com) a saudável divisão entre tempo e espaço pessoal e familiar e laboral e que pode determinar a cultura de uma organização, estimulando a que diferentes pessoas na organização sintam que o correcto será contribuir para esse comportamento e ciclo, reforçando-o e naturalizando-o.

Mais, fazê-lo e fazermo-lo todos, acrescentaria mais e maiores oportunidades de reflexão, reorganização e de processamento mais profundo, porque este e estes “limbos” permitem um espaço para alterar ou ajustar algumas decisões e formas de comunicação que, estando nesse “limbo”, podem ainda ser alteradas, prevenindo-se erros, respostas mais impetuosas, reactivas ou impulsivas e mais e maior oportunidade de co-construção.

Sei que o que proponho é contracíclico a uma sociedade e contemporaneidade que vive do hiperimediatismo, de desconfiança, de uma falaciosa associação entre produtividade e número e rapidez de comunicações a circular e realização de reuniões e da colocação da responsabilidade em factores e dimensões externas a nós. Tudo desactualiza demasiado rápido. Tudo tem de ser escrito, reescrito, assinalado, comentado e mostrado quem e quando errou. Tudo é responsabilidade de outras pessoas, do “sistema” ou de factores que não controlamos. Sei, porém, que estas características da nossa sociedade estão a pressionar-nos e a impactar negativamente o nosso bem-estar e a nossa coesão social.

A caminhar para o fim deixo esta simples e singela sugestão de que, na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, mesmo num tempo em que deixamos de escrever cartas que demoravam dias a chegar à/ao destinatário, podemos todos beneficiar de introduzir mais limbo e limbos nas nossas comunicações em contexto laboral. Podemos todos beneficiar do tempo e espaço que esse limbo nos dará estando mais disponíveis para nós, para nos compreendermos melhor e para compreendermos melhor o que e quem nos rodeia. Para sermos mais pessoa e, assim, mais e melhores profissionais. Para contribuirmos para um Mundo melhor para todos.

 

Tiago Pereira

Os contactos laborais fora do horário de trabalho: Um elogio ao limbo

in Sábado (Ao redor…); 04.12.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/os-contactos-laborais-fora-do-horario-de-trabalho-um-elogio-ao-limbo

Categories
Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eleições OPP 2024

 

Estou certo de que algumas pessoas que, acompanhando o que escrevo e o que outras e outros colegas psicólogas/os aqui escrevem, não sendo elas próprias psicólogas ou psicólogos, estarão admiradas/os pela quantidade de mensagens relativas às eleições da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que amanhã, dia 29.11, acontecem. 

 

Peço-lhes paciência para uma mais e peço que reflictam, comigo, sobre o quão bom é vermos esta vitalidade no debate de uma ordem profissional, particularmente quando o debate é construtivo e voltado para a principal missão e atribuição de uma ordem: “A defesa dos interesses gerais dos destinatários dos serviços”. Mais, no tempo que vivemos em que a psicologia, enquanto ciência e prática, é tão relevante aos principais desafios que se colocam à vida e ao bem-estar das pessoas, sejam de índole societal ou individual.

 

Às e aos colegas reforço o atrás, dizendo que são quase 3% do universo eleitoral (quase 10% em algumas regiões) as pessoas que se propõem dedicar do seu tempo e empenho à sua Ordem, candidatando-se. Isto num tempo em que todos os incentivos estão do lado de nada fazer, de com nada nos comprometermos, de a nada aderirmos porque, se o fizermos (e particularmente se eleitos), seremos, naturalmente, julgados, criticados, atacados, muitas vezes de forma injusta, desadequada e pouco construtiva, por quem nunca se tendo confrontando com os desafios com que as pessoas eleitas se confrontam, se precipita de forma por vezes pouco empática para verificações de incompetência, não integralidade ou não compromisso.

 

Eu, em 2020, depois de 6 anos enquanto coordenador operacional da OPP e quando vivíamos o 1º ano de pandemia por COVID-19 e coordenava o gabinete de crise, candidatei-me a vogal da direcção nacional integrado na lista que venceria as eleições, liderada pelo Francisco Miranda Rodrigues, a quem agradeço a confiança. Não fiz tudo bem, certamente, mas fiz o que fiz, contribui o que contribui, de forma dedicada e totalmente comprometida com a profissão e com o melhor interesse das pessoas que beneficiam da psicologia.

 

Hoje sou, orgulhosamente e assumindo responsabilidade, o 1º candidato pela Região Sul à Assembleia de Representantes (AR), integrado na lista B, Mais Ordem Mais Profissão, liderada pela Sofia Ramalho, a quem agradeço a confiança e a dedicação. Como agradeço às muitas centenas de psicólogas/os que fizeram, fazem e farão parte deste grupo, deste projecto, e que para ele tanto contribuíram num compromisso com uma visão que julgo merecer a oportunidade (de que creio todas e todos creio beneficiaríamos) de continuar e aprofundar o caminho que vem sendo percorrido.

 

Partilho qual sentimos ser o nosso contributo, a partir AR. Partilho o programa que participadamente construímos e que assumimos. Partilho 9 razões para 6ª Feira, dia 29.11, merecermos a vossa confiança.

 

 

Apresentação das/os candidatas/os à AR: https://www.youtube.com/watch?v=3s5VdJ3PKIw

 

Programa: https://maisordemmaisprofissao.pt/programaeleitoral/

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Política Psicologia

O Bem-estar, idiota

À boleia de Trump e do que significa na ascensão de “vozes e partidos iliberais e autoritários”, voltamos à expressão “The economy, stupid” [A economia, idiota], cunhada por Carville, quando a distribuiu pela sede de campanha de Clinton, aquando da sua candidatura às presidenciais de 1992”.

Talvez hoje “Carville lhe acrescentasse uma palavra – percepção. Mais decisivo que o estado da economia, é a percepção pelas pessoas do estado da economia. E, acrescento eu, mais decisivo que o estado da economia e do que a percepção do estado da economia, embora significativamente impactada por estas dimensões, é a avaliação que cada pessoa faz da sua vida, do seu bem-estar e, particularmente, a comparação que faz entre o que sente e o que sente que poderia sentir e entre o que sente e o que sente que outras pessoas sentem.”

“O Bem-estar, idiota”, 95º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) reflecte sobre como “não apenas quem vota/votou está à procura de ganhos de bem-estar para si, aproximando-se do que imagina como sendo o seu bem-estar potencial, como procura alterações no resultado da comparação que faz com outras pessoas, pessoas que algumas sentem não merecer o nível de bem-estar que aparentam. Daqui resulta que existirão pessoas que estarão até disponíveis para que o seu nível de bem-estar não aumente desde que a diferença face a outras e outros possa aumentar.”

Ora alguns indicadores apontam para “estagnação, por vezes quebra e, principalmente, para o enraizamento de uma percepção de que as novas gerações, particularmente em alguns países da Europa e nos EUA, enfrentarão um declínio no bem-estar. Esta percepção é, por si só, geradora de stresse e angústia, mas, também, de raiva e ressentimento, hoje emoções apontadas por estudos de opinião como profundamente preponderantes na tomada de decisão política e na escolha de pessoas/partidos”.

“É por isso que é fundamental que privilegiemos a possibilidade de bem-estar e que, enquanto sociedade, nos sobressaltemos com o facto das nossas crianças e jovens – sim, as crianças e jovens em Portugal – terem hoje indicadores de bem-estar ou de saúde mental bastante piores face aos seus pares há alguns anos, pares estes hoje jovens adultas e adultos com indicadores de bem-estar ou de saúde mental bastante piores face a quem teve estas idades há já alguns anos.”

“Com base nestes indicadores é estranho que, nas inúmeras e longas reflexões que vejo serem realizadas sobre a quebra de resultados escolares das crianças e adolescentes em indicadores internacionais ou em provas de aferição, raras vezes se discutam os níveis de bem-estar e o impacto que têm no seu envolvimento, motivação, nas aprendizagens e no seu desempenho. Nos resultados escolares como nos níveis de práticas agressivas e violência, na não-autonomia, na não-participação cívica…”

“Impõe-se, nesse sentido, que contribuamos e advoguemos por uma nova centralidade do bem-estar sob pena de entrarmos mesmo num ciclo que confirme o tal declínio.”

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

“Como psicólogas/os, somos formadas/os para disseminar ciência através de revistas com revisão por pares e congressos de base académica.”

Esta afirmação consta de um trabalho que trata a forma como é fundamental – particularmente quando vivemos um período de desafio significativo nas questões da saúde mental – que as psicólogas e os psicólogos possam estimular, com o seu conhecimento, conversas informadas sobre saúde mental “em gelatarias, cabeleireiros, barbeiros e salões de beleza, restaurantes e outros lugares do nosso dia-a-dia”.

É uma afirmação de Ariana Hoet, directora executiva da “The Kids Mental Health Foundation”, uma fundação que se propõe contribuir para um Mundo em que a “saúde mental é parte vital do crescimento”, desenvolvendo nas pessoas adultas “competências para ajudarem as crianças a lidarem com os desafios da sua vida”.

Apesar do artigo tratar uma realidade distinta, creio existirem paralelos para outros países, incluindo Portugal, nas questões sobre como a formação prepara insuficientemente as e os profissionais para comunicar com diferentes públicos, disseminar a ciência e promover literacia e o viés existente para a comunicação mais académica / entre pares, bem como nos desafios que se colocam à saúde mental, particularmente de grupos específicos da população (crianças e jovens, pessoas em situação de exclusão e pobreza, …).

Também por isso tenho procurado contribuir para que se reflicta sobre um mais vasto contributo das psicólogas e psicólogos na disponibilização (e impacto) mais amplo da ciência psicológica, aproximando-a mais dos contextos de vida das pessoas, também a partir da influência conjunta com outras ciências, do trabalho com outros profissionais e com pessoas referência às vidas de outras pessoas. E faço-o a partir de quatro elementos que penso centrais da importância desse movimento:

a) Chegar a mais pessoas e a pessoas que dificilmente de outra forma procuram / conseguem aceder a serviços de psicologia;

b) Gerar mais capacidade de detecção precoce de problemas e, logo, maior possibilidade de intervenções mais próximas, custo-eficazes e que reduzam sofrimento;

c) Contribuir para a prevenção a partir de uma maior sensibilidade aos temas da saúde mental e da transformação societal em questões que concorrem para os desafios que hoje enfrentamos;

d) Fomentar conhecimento, literacia e ferramentas que permitam maior auto e heterocuidado nas comunidades.

Faço-o por aqui. Faço-o por aí. Fi-lo, por exemplo, em participações recentes em eventos próximos de comunidades e diferentes profissionais: em Albufeira, reflectindo sobre “Equidade e justiça social na Saúde Mental” (com a Carla Fernandes com moderação da Cláudia Cristina Dias Guedelha); em Aveiro, sobre ciclos de pobreza e o papel da parentalidade e sucesso educativo (com a Maria João Marques, a Carla Sousa, a Andreia Carvalho e a Sandra Araújo com moderação da Catarina Isabel Reis Neves).

Um pequeno contributo meu, nosso. De um tanto que há a fazer…

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Política Psicologia

Empatia rima com Democracia (Ao redor…; Sábado)

Quando escrevo não conheço os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos Estados Unidos. Estas eleições são, porventura, das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas e com maiores consequências a propósito dos seus resultados e do impacto do resultado nas candidaturas e apoiantes. A este propósito, não conheço, também, se já haverá, sequer, resultados oficiais definitivos quando ele puder ser por vós lido. Não conheço, ainda, se, havendo já esses resultados oficiais definitivos, a candidatura derrotada aceitou os resultados. A democracia é complexa, bem sabemos, mas é, não sem espanto para mim e para muitas pessoas, que chegamos a este ponto da sociedade, primeiro, e da democracia nos EUA e noutros locais da Europa e do Mundo, em 2024.

Nos últimos anos li dois livros, aparentemente – mas só aparentemente – muito diversos, do filósofo francês Frédéric Gros. O primeiro chamado “Desobedecer”, trata o fenómeno da insubmissão e das forças individuais, particularmente a consciência, e colectivas que a estimulam. O segundo chamado “Caminhar”, trata a arte “de pôr um pé à frente do outro” enquanto experiência física e psicológica de encontro, compreensão e participação com o que nos rodeia. Consciência, individual e colectiva. Compreensão e encontro com o que nos rodeia. E, conforme Gros refere diversas vezes no “Caminhar” e sublinha com a certidão de óbito de Rimbaud, um caminhante permanente – “Nascido em Charleville, de passagem em Marselha. De passagem. Só ali foi para partir” – a ideia maior de que somos parte do Mundo no momento, que há passado antes da nossa passagem e futuro após ela e como isso acrescenta uma responsabilidade intergeracional e de legado, de reconhecimento do passado e de contributo para um futuro potencialmente melhor para todas as pessoas.

Ora, se pensarmos na empatia enquanto um processo que implica a compreensão de “uma outra pessoa a partir de seu quadro de referência e não do nosso próprio” e que, nesse sentido, implica a possibilidade de “experimentarmos indiretamente sentimentos, percepções e pensamentos” de outra pessoa, podemos entender o quão importante são a consciência, a percepção do que nos rodeia e, também, do nosso papel momentâneo no Mundo para a nossa empatia com as e os outros e com o que nos rodeia. Mas, mais, se observarmos a tal definição da American Psychological Association que sublinha também que, pese embora, “não implique, por si só, motivação para suportar”, a empatia pode resultar “em simpatia ou sofrimento pessoal” e, nesse sentido, influenciar “a acção”, podemos facilmente perceber o quão relevante é nos processos democráticos e nas decisões de participação e na forma de participação individual e colectiva.

Tudo isto está e é profundamente influenciado por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, das redes sociais e da inteligência artificial. Falo, principalmente da utilização e politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento. De como são utilizados com fins políticos os vieses que enquanto seres humanos temos. Por exemplo os que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos (por vezes “trágicos”), hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são. Ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico (um crime, um erro, …), por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista e em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas, de profissionais e de comunidades.

Estes mecanismos, a par de desafios sociais globais de enorme complexidade, como são a pobreza e a desigualdade, os conflitos armados e guerra ou as migrações, e de outros fenómenos sociais como a solidão, a ausência de sentimentos de pertença e de envolvimento em grupos e comunidades e a maior vulnerabilidade das instituições, criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos, ao aumento do autoritarismo no Mundo nos últimos já largos anos e a uma polarização societal e política mais acentuada, particularmente nas democracias da Europa e na dos EUA, para focar nestes países. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.

Os Estados Unidos e os seus períodos eleitorais nos últimos anos, particularmente os três que envolvem Donald Trump, são um profundo exemplo do impacto da empatia. Por um lado, pelo impacto potencial – por ser difícil estabelecer nexos causais – das expressões associadas ao conjunto de pessoas “deploráveis” que votavam Trump em 2016, da responsabilidade de Hillary Clinton, ao “lixo” num comício de Trump nos últimos dias dirigido às e aos Porto Riquenhos. Por outro, porque se tende a aprofundar um afastamento entre uns e outros que é essencialmente de percepção porque a maioria dos estudos demonstra que existem muitas dimensões em que a percepção de afastamento é significativamente maior face ao real afastamento, com tudo o que isso implica.

Empatia, portanto. E confiança. Como a polarização, a confiança em nós, nas outras e outros e nas instituições é fulcral à saúde, bem-estar e coesão social, conforme cada vez mais e mais robusta evidência demonstra a partir, por exemplo, da análise de diversos processos que vão da vacinação à forma como nos preparamos e lidamos com catástrofes e emergências. A confiança é elemento fulcral da democracia e de todos os processos democráticos, nomeadamente do mais básico – aceitar e respeitar o voto e a sua expressão.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, num momento de profundo desafio e de uma propensão para nos focarmos no que corre mal, sobrando muito pouco espaço para o que corre bem, importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros, através de múltiplos ângulos e perspectivas. Que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez” e ausência de reciprocidade. É pouco compatível com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora (ou pelo menos para as e os iguais a mim, agora), tendo-se, pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e dos outros, hoje e para o futuro. Tendo-se pouco presente que empatia rima com democracia. Voltemos à empatia. Reforcemos a democracia e a possibilidade de auto-determinação.

Tiago Pereira

Empatia rima com Democracia

in Sábado (Ao redor…); 06.11.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/empatia-rima-com-democracia

Categories
Futuro da Psicologia Política Psicologia

Saúde mental no Trabalho – Fact Check da Saúde

Tenho reflectido muito sobre o aparente paradoxo de, em parte significativa do Mundo existir, hoje, uma discussão ampla sobre a importância da saúde mental e bem-estar e, até, acções mais significativas de suporte às populações neste âmbito, mas, simultaneamente, os indicadores nesta área apresentarem números crescentemente preocupantes e a percepção da população sobre o apoio nesta área ser muito baixa.

Há um conjunto de razões que, creio, apoiam a compreensão deste aparente paradoxo que se reflecte em diversas áreas, da saúde mental da população jovem à saúde mental e bem-estar no trabalho. Um recente trabalho da Gallup assinalava que, apesar da maior “preocupação com a saúde mental” e do crescimento de “iniciativas de bem-estar e programas de assistência”, a “percentagem de trabalhadoras/es que concordam fortemente que a sua organização se preocupa com o seu bem-estar geral atingiu um recorde negativo de 21% no início de 2024”. Este foi o valor mais baixo dos últimos 15 anos.

Apesar das limitações do estudo creio interessantes as propostas que apresenta às organizações para mitigar o tal paradoxo: avaliarem o impacto das acções e recursos que disponibilizam; expandir as estratégias de bem-estar para abarcarem os diversos elementos do bem-estar e a cultura da organização; e integrar o bem-estar nas “conversas”, em particular das lideranças.

Sobre esta necessidade partilhei convosco há cerca de um mês uma conversa com a Diana Bouça-Nova, aquando do Dia Mundial da Saúde Mental, este ano dedicado à saúde mental no trabalho.

Hoje, num outro exercício com o mesmo objectivo maior – reforço da literacia, da compreensão sobre estes fenómenos e sobre o seu impacto e sobre o que, de acordo com a melhor evidência científica disponível, pode ou não pode funcionar e porquê – partilho um episódio do “Fact Check da Saúde” – Canal S+

Versou a saúde mental no trabalho e com a Filipa Palha, sob moderação do Vasco Domingos e convite do João Maria Condeixa (a quem agradeço a confiança), coube-me abordar a relação dos factores profissionais com a saúde mental, as dimensões da conciliação entre vida pessoal e familiar e profissional ou o retorno potencial de iniciativas baseadas na evidência no bem-estar, produtividade e desenvolvimento organizacional.

Convido-vos a ver. Convido-vos a participar nesta reflexão e conversas que devem, a bem de todas e todos creio, ser aprofundadas.

Categories
Democracia Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Psicologia

Wild Robot

Afinal… “A bondade é uma técnica de sobrevivência”.

Há dias partilhei por aqui um artigo que escrevi que resulta de uma reflexão que faço sobre a profunda articulação entre a empatia e a democracia, nos seus princípios e fundamentos de organização, onde o reconhecimento, a confiança, a equidade, a justiça integeracional e a coesão social são princípios e missões fundamentais.

Princípios estes profundamente ligados à possibilidade de bem-estar e autodeterminação para todas as pessoas e, logo, à psicologia enquanto objecto e enquanto profissão, como bases da sua identidade.

Este Sábado, eu e o meu filho mais velho fomos ver um filme – Wild Robot | Robot Selvagem – que parte de uma narrativa curiosa que imagina um Robot “inteligente” e o seu enquadramento e contexto (a imaginação de um futuro possível) num cenário de uma “selva” (a imaginação de um passado possível), em que animais e Robot comunicam e interagem entre si. Para quem não viu e para quem nada sabe sobre o filme, creio que as linhas anteriores são suficientes para pensarem o conjunto de poderosas metáforas e alegorias que resultam da maior – este enquadramento.

Deixo-vos, também por isso, uma espécie de convite a que, na continuidade do que havia escrito no tal artigo, possam ver o filme e sobre ele, como o tenho feito, reflectir um pouco… E deixo duas sugestões de reflexão:

a) A forma como possibilita, à sua maneira, colocar milhões de crianças e jovens (e adultas/os) Mundo fora a pensar a triangulação entre a bondade, a relação e a nossa interdependência. Como, muitas vezes “contra” os nossos instintos e vieses, é a cooperação, a relação e um pensamento mais a médio e longo prazo e não a competição, o conflito destrutivo e um certo hiperimediatismo e procura de “ganhos imediatos e individuais”, que mais contribuem para a nossa sobrevivência, para o nosso bem-estar e para um futuro de médio e longo prazo, melhor para nós e para todas e todos.

b) A forma como, à sua maneira, coloca milhões de crianças e jovens (e adultas/os) perante paradoxos: o do filme e de um “acidente” que, sendo mortal para a família de uma personagem, a “salva”; o do Mundo que, hoje com muita reflexão sobre estes temas, com um maior foco nas últimas décadas nos Direitos Humanos e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável caminha como caminha. Num e noutro caso a fazer-me (fazer-nos?) pensar o que poderá estar a falhar (para melhorarmos), mas também onde estaríamos se atravessássemos o actual contexto sem esse caminho que, apesar de tudo, fomos capazes de percorrer e que urge ser reforçado, continuado e aprofundado.

Até porque, como o filme bem mostra, parece que tudo pode mudar. E que se abrem múltiplas possibilidades quando acreditamos que é possível um Mundo melhor e que “para (sobre)viver temos que ser mais do que aquilo para o qual nos programam”.

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Política Psicologia

Empatia rima com Democracia

Dizia eu no início do artigo que, quando o escrevia, não conhecia “os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos EUA.” De umas eleições que, dizia também, são “porventura das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas.”

Agora já sei. Já sabemos. E os resultados, particularmente no contexto do qual decorrem, exigem uma profunda reflexão de quem, como eu, defende vigorosamente os valores dos direitos humanos universais, da justiça intergeracional e da procura de uma sociedade justa, equitativa e tendente à possibilidade de auto-determinação de todas as pessoas.

Uma reflexão e a mobilização de quem partilha estes valores, independentemente das potenciais discordâncias, implicando isso que pensemos como nos posicionamos em sociedade… Como contribuímos (ou não) para debates construtivos, como somos capazes de nos descentrarmos de nós e das/os nossas/os quando isso importa para a preservação da confiança nas instituições e nas/os outras/os e/ou construção de soluções… Como somos capazes de abdicar em prol do bem-comum e maior… De pensar em quem nos rodeia e se nos seguirá. Como retomarmos um caminho de maior empatia e de como a empatia rima como democracia.

“Empatia rima com Democracia”, 94º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) pensa a empatia, a sua definição e papel e como é “profundamente influenciada por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, redes sociais e da IA. Da politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento; à utilização com fins políticos dos vieses que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos, hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico, por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas.

Estes mecanismos, a par dos desafios sociais globais de enorme complexidade “criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos e ao aumento do autoritarismo. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.”

“Importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros (…) Que pensemos que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez”, ausência de reciprocidade e com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora, tendo-se pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e outros, hoje e para o futuro.