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0-3, regeneração

Um conjunto de regiões do país estão a ser sofrer/sofreram com o impacto da depressão Martinho que, desde ontem e até aos próximos dias, junta chuva e ventos impressionantes. Condições adversas que desafiam pessoas e (infra)estruturas. Condições adversas que (creio que para todos será perceptível), a serem quotidianas / permanentes, alterariam/transformariam a nossa forma de viver e os nossos próprios processos de interacção, aprendizagem e desenvolvimento.

Vem isto a propósito de nem sempre esta simples reflexão ser feita (ou pelo menos sermos consequentes com ela) relativamente a bebés e crianças que vivem, permanentemente, em situação de adversidade… De tempestade. E a propósito de, não raras vezes, não re reconhecer o impactos dessas situações e, ainda que existam, se “culpar” excessivamente a/o aluna/o por não atingir determinados resultados (desde logo de desempenho escolar) ou mesmo, em sentido mais amplo, tendermos maioritariamente a culpabilizar pessoas que vivem em situação de pobreza por viverem em situação de pobreza.

Ora, a este propósito, duas notas (também em jeito de convite) a partir de contributos que procurarei dar amanhã:

a) É crucial que, enquanto país e rapidamente, passemos a complementar o debate público sobre o acesso à educação (em particular nos 0-3 anos) com a qualidade que resulta desse acesso e internacionalizar-se, na sociedade civil e nos meandros da decisão (política), a importância de uma educação de qualidade no período 0-3 enquanto garante fundamental de uma base minimamente equitativa de oportunidades de desenvolvimento entre bebés e crianças em Portugal. No fundo, um contributo para mitigar (ou pelo menos prevenir que se aprofundem) desvantagens que, por vezes, existem desde literalmente o dia 0 de vida e cujo impacto de uma educação de qualidade pode ser decisivo. Sobre isso conversarei, na próxima 6ªF, a convite da Câmara Municipal de Mafra (que agradeço, informações abaixo) na sessão “A importância dos primeiros mil dias e a injustiça das injustiças” (e sabem qual é a injustiça das injustiças?);

b) É crucial tornar o verbo regenerar e os seus múltiplos significados mais saliente… Também amanhã, numa colaboração da Nova School of Business and Economics (Centro de Conhecimento “Leadership for Impact”) e a Casa Mendes Gonçalves, participarei na 1ª fase de uma iniciativa que convido a conhecerem e que pretende contribuir para a “aceleração” e desenvolvimento de projectos de impacto na área ambiental e, mais particularmente, da regeneração (https://lnkd.in/diyYnqCF), tema para uma conversa que terei com o Carlos Goncalves, também a propósito deste conceito no quadro dos programas, actividades e da visão e missão da Fundação Mendes Gonçalves.

Temas relevantes também ao momento que vivemos. Temas que não tocam apenas algumas e alguns, antes todos, hoje e para o futuro. Temas que devemos discutir, discutir e discutir, tornando-os salientes e quotidianos na agenda das/os decisoras/es.

Lá vos espero…

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Heckman

Este é apenas um exemplo… Alicia, filha de Alfredo Quintana, guarda-redes de Andebol do FCPorto e da selecção nacional falecido há 4 anos, brinca com Gustavo Capdeville, guarda-redes do SLBenfica e da selecção nacional depois de um FCP-SLB. Vem ela propósito de ontem ter visto uma imagem de um jogador da selecção de rugby do País de Gales com um/a bebé ao colo, logo após um jogo intenso, e dois jogadores adversários de Inglaterra a brincar/interagir com a/o bebé. Mas podia vir a propósito, também e num sentido menos positivo, de Alan Kurdi, o menino sírio da camisola vermelha que morreu há quase 13 anos e cuja imagem, caído numa praia da Turquia, quem viu não mais esquecerá.

Nem rivalidades desportivas, nem frases/pensamentos tipo “vai para a tua terra” sobrevivem, geralmente (sublinho, geralmente), a bebés/crianças, tal é o nosso instinto protector e de carinho e cuidado. Do mais bonito que o Mundo nos dá.

Mas, se assim é face a situações particulares, temo que um conjunto de forças e dinâmicas actuais (políticas e sociais) possam obstaculizar a uma visão da importância de investirmos, hoje, nos bebés/crianças para, hoje e amanhã, todos beneficiarmos enquanto comunidade e sociedade desse investimento.

Podia enumerar diversas e variadas forças/dinâmicas. Destaco quatro:

a) O crescimento do populismo e, com ele, de um estímulo a políticas tendentes a ganhos mais imediatos e tangíveis, retirando foco/prioridade ao investimento significativo nos primeiros anos de vida, com resultados a médio/longo prazo;

b) A crescente desconsideração da ciência face a percepções e visões mais “puramente” ideológicas e/ou assentes numa suposta meritocracia, algo que periga a utilização dos recursos onde e quando se mostram mais eficientes e eficazes;

c) O enfraquecimento do conceito de direitos humanos universais e uma menor atenção à procura da promoção da equidade e da possibilidade de autodeterminação, com intervenções robustas junto das/os bebés/crianças em situação de maior vulnerabilidade;

d) A quebra da confiança, a maior dificuldade de diálogo e colaboração entre decisoras/es políticos e de continuidade de políticas fragilizam investimentos a médio/longo prazo;

Razões que, creio, nos devem preocupar e fazer regressar a Heckman, prémio Nobel de Economia e que na sua célebre equação refere: “A maior taxa de retorno do desenvolvimento na primeira infância ocorre quando se investe o mais cedo possível, desde o nascimento até os cinco anos de idade, em famílias vulneráveis. Começar na idade de três ou quatro anos é um pouco tarde demais, pois significa não reconhecer que habilidades geram habilidades de uma forma complementar e dinâmica. Os esforços devem concentrar-se nos primeiros anos em busca de maior eficiência e eficácia.”

Regressemos a Heckman e – apesar do tempo, do dia-a-dia muito complexo e das forças que nos arrastam para o que de mais imediato existe – não esqueçamos de a cada dia prepararmos, enquanto comunidade e sociedade, o futuro.

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Dois e quinhentos…

Lembram-se da moeda de dois e quinhentos? Pela dimensão e pelo valor (baixo) era a que mais usávamos para fazer os fios que trazíamos ao pescoço. Íamos, normalmente de bicicleta, até às proximidades das estações dos Riachos ou Entroncamento (preferencialmente) e avaliávamos pela localização (antes ou depois da paragem) o melhor local para as colocar na linha para que, depois, o comboio passasse sobre elas, não as projetando para onde não as encontrássemos. Desse encontro (moeda na linha-comboio) resultava a moeda espalmada que, um furinho depois, virava esse fio com história própria, pelo tipo de comboio, velocidade, lugar. Não havia duas moedas espalmadas iguais. Dois fios iguais.

Tínhamos uma relação especial com o comboio. Levava-nos a Lisboa. A Coimbra. Ao Porto. Não mais saiu do meu imaginário. Em Portugal. Fora de Portugal. Também por isso, quando penso numa associação entre transportes e Casa Branca, penso na estação-interface que conecta as linhas ferroviárias de Évora e Beja. Nos últimos dias, porém, vi Casa Branca associada ao transporte rodoviário e enquanto stand de veículos de uma marca específica e um Presidente da República dos EUA vendedor (e comprador) de carros.

Não vivi – aqui em Portugal, no meu tempo de vida – um processo de passagem de uma democracia (mesmo com desafios) a uma autocracia, como outras pessoas com outra idade viram em Portugal e outras pessoas da minha idade vive(ra)m noutros países. Sei, porém, e pelo que hoje vamos vendo e sabendo deste Mundo, que neste processo tendemos, enquanto seres humanos, a colocar sucessivos limites, dizendo para nós próprios que dali não passam, que aquilo é o limite inultrapassável. Parte disto é explicado por um viés cognitivo, o viés da normalidade que, grosso modo, determina que tendamos a normalizar situações, mesmo quando mais extremas. Viés que resulta da dificuldade do nosso cérebro em processar mudanças abruptas e imprevisíveis, o que conduz à sua negação e/ou desconsideração de riscos/sinais.

Muitas e muitos pensam-no hoje sobre Trump ou os avanços de algumas forças políticas na Europa que, dizendo-se salvíficas, não mais pretendem que alterar os pressupostos da sociedade para que possam beneficiar do caos e prosperar no imediato, mesmo que isso signifique destruir um caminho de procura de maior equidade e dignidade de todas as pessoas e a coesão social a médio/longo prazo.

A este viés associa-se muitas vezes o do optimismo… A crença, não raras vezes irracional, de que o de menos bom é mais provável noutras pessoas/contextos do que connosco/no nosso país.

Estamos num tempo em que inacreditáveis acontecem todos os dias. Ontem, hoje, amanhã, certamente. Reconheçamos os nossos vieses e não naturalizemos os inacreditáveis. Reconheçamos os nossos vieses e não consideramos que a nós/cá não chegará. Reconheçamos os nossos vieses e mobilizemo-nos para, juntos, resistirmos e defendermos a democracia e uma sociedade coesa e de direitos. Hoje, amanhã, pelo futuro de todos.

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Indiferença-Empatia

Voltei recentemente ao canal Canal S+ para, com a Irina Gomes, gravar um novo episódio do “Descubra as Diferenças”, agora para a sua 2ª temporada.

Há alguns meses havia gravado um outro, relativo ao binómio “revolta-apaziguamento”, que por aqui partilhei numa publicação que assim terminava: “Finalmente, um conselho para quando nos sentirmos revoltados? [havia-me sido pedido] Tentarmos definir exactamente o que nos está a fazer sentir o que estamos a sentir (não deixar que fique difuso) e perceber o que podemos fazer para o alterar, mesmo que decidamos nada fazer. Se assim fizermos, estaremos a garantir agência e controlo sobre a situação. Estaremos a criar perspectivas e diversificar o que pode ser a nossa actuação e como podemos lidar com a situação, ajudando-nos isso a lidar melhor com ela, a sentirmo-nos mais equilibradas/os e, potencialmente, melhor. Mais em paz.”

Hoje volto para partilhar este novo episódio em torno do binómio “indiferença-empatia” onde começo por desafiar a ideia de que é “mais fácil a indiferença”, sublinhando que o bem-estar individual depende do bem-estar colectivo e logo da possibilidade de bem-estar das/os outras/os, mesmo quando um conjunto de alterações na sociedade, na forma como gerimos e vivemos o nosso (acelerado) tempo e as nossas interações e comunicações (em bolhas, junto de pessoas que pensam como nós e mais individualizados), possam “empurrar” nesse sentido.

Falamos depois de empatia e de como desenvolvê-la. Do seu poder, relevância, da forma como nos prepara para lidarmos com o dia-a-dia e com novas situações e influencia a nossa abertura ao que nos rodeia e às outras e outros. Mas também de alguns dos seus limites, com exemplos concretos, e de como pode estar também ligada a dificuldades de alteração de comportamentos/rotinas, a excessivo envolvimento emocional ou mesmo a situações de (justificação de) abusos, condicionando-nos o bem-estar.

Falamos, depois, de compaixão e desse “passo em frente” face à empatia, porque envolve a agência sucessiva perante a situação, para não nos limitarmos à compreensão (empatia) e fazermos algo a partir dessa compreensão, seja face a nós, seja face a outras e outros.

Falamos de reconhecimento e validação de emoções e de como isso é fundamental nas relações e na criação de canais de comunicação (seguros), por exemplo com crianças/adolescentes. De como pararmos e guardarmos espaço para conversas importantes pode ser relevante na conexão emocional.

E finalmente de como podemo-nos aproximar, passo a passo, experiência a experiência, do que nos é mais diverso, mais afastado. Expandirmo-nos. Algo fundamental, não apenas para a nossa capacidade empática, mas que nos prepara melhor para o Mundo interconectado em que vivemos e para criarmos comunidade.

E como é importante hoje criarmos comunidade.

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Curtoprazismo e Individualismo

Este Sábado tive uma (boa) conversa com o Miguel Ricou e com um conjunto de pessoas, incluindo amigas/os, que dedicaram um final de tarde de fim de semana para estar connosco e connosco discutir. Falamos sobre democracia, confiança e futuro. Falamos sobre a psicologia em tudo isto e sobre potenciais contributos dos e das psicólogas, enquanto profissionais e enquanto cidadã(o)s, nestes fenómenos. Falamos porque democracias enfraquecidas correspondem a riscos, por vezes significativos, para os direitos humanos, para a equidade e para a possibilidade de bem-estar para todas as pessoas. No presente e para o futuro.

 

Falamos, além de consequências, de causas e do papel das políticas públicas e de cada pessoa na prevenção da preocupante (caracterização minha) tendência que hoje se pode observar. A este propósito, queria partilhar convosco algumas considerações e um interessante exemplo.

 

As considerações versam o papel da conjugação da vertigem para o “curtoprazismo” com um certo individualismo contemporâneo para este processo de enfraquecimento. Tendencialmente explicáveis por uma certa ideia de sucesso e mérito inscrita na sociedade (retorno e afirmação individual), por uma cultura assente no imediatismo (também à boleia das redes sociais e no crescimento voraz), na perda de laços e vínculos comunitários de base mais fundacional. Isto, além da crescente desconfiança e na dificuldade de se assumirem compromissos e planos de médio e longo prazo num contexto de incerteza e imprevisibilidade.

 

São políticas públicas que ousam inovar/experimentar, co-construidas, bem-sucedidas e centradas nas pessoas, no seu bem-estar e no bem-comum, que melhor podem contrabalançar estas forças. Um extraordinário exemplo foi-nos mostrado pelo Público e versa o projecto de Bjørvika, uma intervenção no espaço urbano de Oslo. Um trabalho dos estudantes Gabriel Miraldo e Maria Maia (as maiores felicidades) que convido a conhecerem. A certa altura… “Hoje, Sofie reconhece Bjørvika como um bairro que “funciona para as pessoas”, incluindo estruturas que garantem uma comunidade local activa.” E… “Muitas vezes nós pensamos que os políticos vêm sempre atrás, mas eu acho que aqui há mesmo esta vontade da parte política.”

 

Vontade que deve complementar a agência de cada pessoa. Na tertúlia de Sábado procurei estimular que reflictamos sobre o que estamos dispostos a abdicar… Decidir de forma diferente da que decidiríamos sem pensarmos no futuro. Decidir para não ganhar (tanto) hoje, contribuindo para uma melhor sociedade a médio/ longo prazo para todas as pessoas.

 

Façamos este exercício. Ajuda-nos, creio, a perceber, até pela dificuldade do mesmo, porque aqui chegamos. Ajuda-nos, pela consciência, a termos mais agência e a podermos fazer algo, mais. E, quem sabe, se essas eventuais mudanças e diferentes decisões, menos “curtoprazistas” e individuais não resultarão melhor(es), não apenas para o que nos rodeia e para todas e todos, mas, também e principalmente, para nós próprios.

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Tertúlias de Psicologia

Hoje é dia 24 de Fevereiro de 2025. Proponho que recuemos 18 anos, uma “maioridade”. Se a 24 de Fevereiro de 2007, quando faltavam 4 meses para a apresentação do primeiro Iphone, por aí escrevesse que 18 anos depois assinalaríamos o 3º aniversário da invasão em grande escala da Federação Russa aos territórios da Ucrânia, com um Trump num segundo mandato presidencial nos EUA, e que, no dia anterior, tinham acontecido eleições legislativas na Alemanha e que um partido de extrema direita com um discurso sinistro e assustador tinha duplicado votos, atingindo mais de 20%, sendo a segunda força política e tendo dividido o mapa da Alemanha (vejam a imagem e toda a “ressonância” e simbolismo que comporta), talvez não fosse levado muito a sério. Mas, mais importante, se o fizesse há 8 anos também não. Ou, talvez, há cinco, quatro, …

 

Daqui resultam duas reflexões. Uma, que cada vez menos temos (teremos?) possibilidade de prever com segurança o futuro a médio e longo prazo e que, talvez, também por isso e pelos exemplos recentes, valha a pena não desconsiderar (como tanto fazemos) cenários e possibilidades que nos inquietam relativas a regimes políticos, conflitos armados e retrocessos nos direitos civis e humanos, também na Europa. Outra, que é tempo de tornar prioridade a definição do que enquanto cidadãos e comunidade podemos contribuir para que tal não aconteça (e o compromisso com isso), com a certeza de que o momento que vivemos não permite limbos, porque a cada validação de um determinado discurso (uns “vez…”, “mas…”, “são todos iguais”) e/ou de uma determinada política, caminharemos um caminho de possibilidades inquietantes.

 

Trago-vos isto, também, no dia em que passam 4 anos de ter escrito o 1º de 98 artigos de uma rúbrica que chamei “Ao redor” (Revista SÁBADO). No último escrevi:

 

“

Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. Chamei-lhe “Nós e os nossos Mundos” e publiquei-o em Fevereiro de 2021. Evoco-o hoje, simbolicamente. Determinemos este nosso “ao redor” para por ele sermos impactados. Determinemo-lo a partir dos princípios e valores dos Direitos Humanos para por esses princípios e valores sermos impactados. Não por outros. Para, com eles e através deles, sermos mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.

”

 

É também por isto, por tudo isto, que Sábado me junto a uma pessoa que muito admiro e de quem tenho a sorte e o enorme privilégio de ser grande amigo (o Miguel Ricou) e a quem a nós se queira juntar para, como ele diz “conversarmos sobre algo que nos preocupa, de alguma forma, a todos: a desinformação, a polarização, a confiança e a democracia!”

 

Juntam-se a nós? Na conversa e no compromisso? Se não na conversa, no compromisso?

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ESG

Creio provável que não tenham existido muitos momentos históricos em que fosse tão presente uma verdade inquestionável: que a ideia de futuro, ou de futuros possíveis, comporta sempre consigo uma carga imensa de imprevisibilidade.

 

Parte desta consciência (colectiva) assenta, naturalmente, na forma como estamos hoje mais conectados e a informação circula. Mas essa consciência provém, também, da profunda complexidade e incerteza que resulta da interacção de diversos factores – económicos, ambientais, geopolíticos, societais ou tecnológicos – e de como isso desafia a possibilidade de se “prever” com segurança o futuro.

 

Por isso falamos cada vez mais de antecipação (estratégica) e dela não procurar “prever”, antes explorar futuros possíveis e plausíveis, informados por trajectórias e mudanças emergentes.

 

Esta mudança é relevante quando se conjuga com tendências da sociedade. Vejamos a evolução anual do quadro da percepção dos riscos globais do World Economic Forum. O relatório de 2024, no top-10, identifica para os próximos 2 anos 2 riscos tecnológicos (a má-informação / desinformação é mesmo o n.º 1), 2 ambientais, 1 geopolítico e 2 económicos. Mas, talvez mais determinante seja pensar que o mesmo relatório, para os próximos 10 anos, não apresenta nos 10 primeiros quaisquer riscos económicos ou geopolíticos, tendo 5 ambientais (4 dos quais nos 4 primeiros lugares), 3 tecnológicos e 2 societais.

 

Isto sublinha a premência de se abordarem as dimensões de ESG (ambientais, sociais e de governança) das organizações e empresas. Sublinha que o devemos fazer de forma mais activa, intencional e particularmente tendo presente que será sempre limitado o espaço de florescimento e prosperidade de uma organização a médio/longo prazo quando o seu entorno (e a sociedade como um todo) não tenha, também, esse espaço de florescimento e prosperidade.

 

É desta visão e compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do Carlos Goncalves que, também, surge a Fundação Mendes Gonçalves. É do seu espírito de contributo e estímulo que surge a parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira e a Opera Education para a co-organização do Seminário Transformação ESG. Nele participarei, no seu 2º dia, com o Carlos Goncalves, a Giovana Bratti, o Charles Tokarski, o Cesar Blanco, o João Ferreira e o Mauro Peres intervindo sobre “Liderança e Impacto Social”.

 

Espero ter oportunidade de discutir a importância e o papel das organizações e lideranças no bem-estar (individual e colectivo), no reforçar das dimensões da equidade, diversidade e inclusão (neste momento em particular) e, ainda, o quão determinante pode ser para os futuros possíveis o contributo das organizações, também filantrópico, para transformações sistémicas a partir das comunidades de que são parte.

 

Venham daí.

 

Informações: https://ccilb.pt/eventos/transformacao-esg-a-revolucao-necessaria-para-o-futuro-empresarial-sustentavel-e-lucrativo/

 

Inscrições (gratuitas): https://marketing.egoi.page/5eAe6gpf/inscricao

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Pobreza Energética

Hoje, como ontem, diversas regiões de Portugal enfrentam um conjunto de fenómenos meteorológicos que trazem riscos à população. Resultam da depressão Hermínia (nome significativo para mim) que, conforme outros fenómenos climatéricos, atinge de forma desproporcional pessoas e famílias com habitações mais vulneráveis, parte significativa vivendo em situação de “pobreza energética”.

Este conceito corresponde à falta de acesso a serviços energéticos essenciais a níveis básicos de qualidade de vida e saúde (dito de outro modo, a (in)capacidade de manter imune a humidades significativas, aquecida durante o inverno e/ou arrefecida durante o verão) e, em Portugal, segundo um relatório recente da Comissão Europeia, são 20,8% os agregados a viver em pobreza energética e somos, com Espanha, os países pior cotados numa UÉ onde, em 2020, existiam 50 milhões de pessoas com esta condição.

Foi sobre a pobreza energética o 2º episódio da nova temporada do podcast “Toda a Energia” da ADENE – Agência para a Energia, produzido e divulgado pela Antena 1. Uma interessante conversa em que participei, com o Rui Alves de Sousa e a Susana Peralta que aqui partilho: https://www.rtp.pt/play/p14446/e822414/toda-a-energia

Saudando a escolha do tema abordamos na conversa temas como a relação da pobreza económica/monetária com a pobreza energética/privação, as suas causas e consequências, a literacia da população ou as políticas públicas e a sua eficácia neste âmbito.

Entre outros, a Susana Peralta, sublinhou que o tema não trata, apenas, a manutenção da casa adequadamente aquecida, mas toca importantes dimensões da intimidade das pessoas como a capacidade das pessoas/famílias terem as suas refeições quentes ou cuidarem da sua higiene, com os profundos e devidos impactos nas suas relações laborais e/ou sociais.

Eu destaco os anos de vida com qualidade perdidos por via da pobreza energética e, como sermos um dos piores países da UE nesta matéria, é um exemplo concreto de como as políticas públicas (e até a filantropia, com honrosas excepções) ainda não são responsivas à evidência científica que demonstra o seu forte impacto na saúde, incluindo na saúde mental, no bem-estar e nos ciclos de pobreza e exclusão.

Como digo, é um debate importante (…) para que se desfaça a ideia de que a pobreza energética impacta apenas a doença física, por via das doenças respiratórias por exemplo, mas se pense a sua associação com questões como a ansiedade, depressão, stresse ou problemas com o sono e de como, desproporcionadamente, afecta as pessoas que paradoxalmente mais precisariam de encontrar nas suas habitações espaço de conforto, segurança e previsibilidade.

Falemos mais sobre pobreza energética. Façamos mais. E melhoremos mais – mais rápido – promovendo a qualidade de vida das pessoas, prevenindo consumos energéticos desnecessários e prevenindo gastos em saúde pública e sociais.

Ps. Passam hoje 80 anos do dia de libertação de Auschwitz. Nunca o esqueçamos… Nunca o esqueçamos.

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Trends 2025 – Psicologia

Um destes dias virei aqui escrever(-vos) a propósito da forma como penso o legado enquanto determinante fundamental do futuro (e das suas múltiplas possibilidades). Isso, e sobre como me parece fundamental resistirmos à humana tendência para nos focarmos (apenas) no presente e nos seus problemas/desafios, particularmente num momento em que a velocidade e permanência do acesso à informação, e a sua amplificação e repetição, nos convocam para um hiper-realismo e imediatismo que deixa pouco espaço para pensamento, perspectiva e acção a médio e longo prazo.

Talvez por isso – a juntar à ideia que tenho do forte contributo presente e futuro da psicologia nos principais desafios individuais e societais – que, desde há alguns anos e a cada início de ano, leio com atenção as “trends” para a psicologia que a American Psychological Association publica.

Talvez por isso as partilho, também e porque me parece essencial que, apesar dos desafios do dia-a-dia que muitas e muitos colegas psicólogas/os vivenciam, importa que as tenhamos presentes e que contribuamos para a construção do futuro, intencionalizando as nossas acções e tendo uma clara percepção do impacto que as nossas acções no presente têm nele, particularmente quando ganhos “agora e/ou individuais” podem não contribuir para ganhos “futuros e/ou colectivos”.

Sobre as 10 trends para 2025, enquadradas num “momento-chave nacional [EUA] e global marcado por mudanças políticas significativas e nas prioridades societais”, destaco:

a) a inteligência artificial e a forma como, a par de outras inovações tecnológicas, está a contribuir para o alargamento e redefinição da intervenção psicológica e para mudanças na sociedade que beneficiam do contributo da psicologia, nomeadamente a sua adopção em contextos educativos;

b) a importância da progressiva modernização e atratividade da profissão, do seu quadro de competências e formação (inicial e contínua) e a necessidade de desenvolver uma visão (e identidade, acrescento) global da psicologia num Mundo cada vez mais intercultural e partilhado;

c) a crescente importância do papel da psicologia na complexidade dos contextos de trabalho e no reforço das dimensões da equidade, diversidade e inclusão;

d) a nova “vida” da investigação (promissora) sobre a utilização de psicadélicos na intervenção psicológica e psicoterapêutica;

e) finalmente, e muito relevante, o reforço do papel de advocacia da profissão e das e dos profissionais pelo acesso a serviços de qualidade por todas (reforço, todas) as pessoas que deles necessitem e/ou possam beneficiar.

Identifico-me, totalmente. E procurarei, a partir do meu papel cidadão e profissional deixar, também, o meu singelo contributo neste caminho conjunto… Também porque não esqueço que as trends para 2018 tinham a que guardo sempre presente e viva em mim: que a psicologia caminhará para um “maior foco nos factores sociais que determinam a saúde”, a que acrescento e o bem-estar, individual e colectivo, e a coesão social.

 

10 Key Trends Psychology 2025 (APA)

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2025

Quem anteontem, após as 12h, ou ontem ao longo do dia, ligou a televisão ou acedeu a alguma rede social, viu certamente imagens de lugares onde dezenas ou centenas de milhares de pessoas se reuniram para estarem juntas no momento da passagem de ano e chegada a 2025. Às dos locais públicos juntaram-me mais uns muitos milhões de pessoas que, Mundo fora, como eu e nós fizemos, se reuniram em espaços privados com família e/ou amigas/os ou colegas de trabalho em contextos profissionais onde, juntas, passaram de ano. Juntas, em comunidade.

São, apesar de tudo, inspiradoras essas imagens. É realmente um paradoxo da actualidade a forma como pensamos e perspectivarmos a dimensão mais colectiva e comunitária. Tenho reflectido (e lido quem pensa e trabalha estes assuntos) bastante sobre como as formas que nos últimos anos mais utilizamos para aceder e partilhar informação e para comunicarmos, com especial destaque para as redes sociais, potenciam a criação e sedimentação de “grupos”, mas, simultaneamente, aparentam diminuir a “comunidade”.

Parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) individual do bem-estar quando há relevante percepção (e evidência) que mostra o quão interdependente é o bem-estar individual do bem-estar colectivo da comunidade onde a pessoa se insere. Ainda, parecem influenciar e estimular uma visão mais (quando não, estritamente) colectiva do erro e da culpa. Não o erro ou culpa de uma pessoa, antes a sua identificação colectiva. De políticas/os a povos. De religiões a grupos de pertença comunitária, tudo com impacto em fenómenos como a desconfiança, a polarização, o estigma ou mesmo a xenofobia e racismo. Tudo a influenciar violências diversas, o crescimento do autoritarismo e enfraquecimento das instituições democráticas e multilaterais. Tudo, finalmente, a desafiar o objectivo maior que parte do Mundo assinala a 1 de Janeiro – o Dia Mundial da Paz, em 2025 dedicado a como “podemos construir hoje uma paz duradoura”.

Certamente com mais comunidade. Com menos atribuição de culpas colectivas, mesmo em situações complexas e em que qualquer resposta simples será necessariamente simplista. Certamente, também, com mais acções bondosas e abnegadas como a do Raul Manarte que partilho – https://www.publico.pt/2024/12/28/mundo/entrevista/raul-manarte-ha-pausa-som-drones-helicopteros-bombardeamentos-ouvese-mar-gaza-2114841

Diz o Raul que “quando há uma pausa no som dos drones, dos helicópteros e dos bombardeamentos, ouve-se o mar em Gaza.” O mar de Gaza é o Mediterrâneo que une inúmeros e diversos países e povos, de Sagres a Gaza. Não esqueçamos o que nos une, o que cria comunidade e a forma como o nosso bem-estar individual também resulta (da possibilidade) do bem-estar colectivo. Disso, de construirmos Paz e de que todas e todos temos papel nesse processo, desde logo não contribuindo para a colectivização do erro ou culpa.

Que tenham um bom 2025. Que contribuamos, juntos, para um bom 2025 para todas as pessoas.