“A vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada.”
Recentemente li num artigo esta impactante frase de Gonçalo M. Tavares. Pensei, porque pensava vagamente nas questões associadas à emergência climática: A vida, exigente, implica uma resposta (certa, convicta) para a pergunta difícil (que temos de formular) – O que fazer face à emergência climática? O que fazer?
“Somos encorajados por uma recente onda de preocupação…”
Esta frase surge na conclusão uma recente publicação (BioScience Journal) assinada por uma aliança de mais de 11.000 cientistas de 153 países a propósito da comemoração dos 40 anos da primeira Conferência Mundial do Clima (Geneve, 1979). Este documento, além de expor dados concretos (muito além do inquietante facto dos últimos 5 anos terem sido os anos mais quentes de sempre no planeta desde que existem estas medições) que complementam os do IPCC (https://www.ipcc.ch), foca as declarações de emergência climática por todo o Mundo (o parlamento Português aprovou por unanimidade uma declaração nesse sentido em Julho) e um compromisso de apoio aos decisores para uma transição justa para um futuro mais sustentável e equitativo a partir de seis passos para travar a emergência climática que vivemos (aqui nas palavras de Thomas Newsome, um dos promotores: https://www.youtube.com/watch?v=ikmI4wx9MRE&feature=emb_logo).
Creio como decisivo este compromisso de apoio aos decisores. A crise climática é hoje uma preocupação central no Mundo. Segundo o Eurobarómetro de Setembro, 23% dos Europeus consideram-na como o problema “mais sério que o mundo vive” e 9 em cada 10 Portuguesas/es considera-o como um problema muito sério (8 em 10 na Europa) e apenas 1 em cada 100 diz não considerar que seja um problema (6 em cada 100 na Europa).
Eu sou um daqueles 9 Portugueses. E um Português, psicólogo.
Não raras vezes quando falo dos contributos da Psicologia nesta matéria, algumas pessoas reagem com alguma perplexidade e dúvida. É compreensível, pela dificuldade de percepcionar como ´tangíveis´ esses contributos. Tal já não sucede quando acrescento que se a Psicologia estuda o comportamento e as razões (causas, factores) que levam as pessoas a comportarem-se como se comportam (e a decidirem como decidem), então a Psicologia e as/os psicólogas/os são um recurso importante na promoção de mudanças comportamentais (e na tomada de decisão), fundamentais na mitigação deste problema. E julgo possível conceptualizar o seu papel a quatro níveis:
Na mitigação da emergência climática: Por exemplo, através de contributos para a promoção de mensagens e comportamentos pró-ambientais, visando alterações no comportamento dos indivíduos, grupos e comunidades, através da utilização do conhecimento relativo à identidade de espaço, coesão social ou normas sociais / “green nudges” (um exemplo concreto: a maioria das famílias diminui o consumo de água de uma factura para a factura seguinte apenas por lhe ser dado conhecimento na factura de que consomem mais X% de água face a uma família semelhante no seu bairro ou freguesia). Ou, demonstrando como a ciência psicológica tem feito e o psicólogo David Uzzell tem advogado, que a informação mais “pessoal, imediata, concreta e local” é mais eficaz do que factos e estatísticas mais globais. Ou ainda, procurando envolver os cidadãos numa dimensão de justiça para com as comunidades mais sensíveis, vulneráveis e muitas vezes minoritárias (nos seus países, mas também em todo o mundo) algo que a psicóloga Janet Swim muito tem defendido pelo impacto que produz nas alterações comportamentais (a maioria das pessoas é sensível a estas questões e o sentimento de (in)justiça conduz a processos de engagement para a mudança).
Na prevenção dos problemas associados à emergência climática: Além da má nutrição, doenças infecciosas e poluição, fenómenos climatéricos extremos, como fogos rurais, cheias, furacões ou secas prolongadas serão mais frequentes e impactarão no bem-estar e na saúde psicológica dos cidadãos. A Psicologia e as/os psicólogas/os devem, portanto, envolver-se no planeamento e na concretização de acções preventivas neste âmbito, desenvolvendo iniciativas em comunidades de maior risco a partir da evidência científica existente que, entre outras, podem passar por programas de promoção do coping e da resiliência das populações, pela participação na preparação das comunidades para a resposta e adaptação a estes fenómenos ou pela participação na definição de planos de intervenção ou de gestão e redução do stress.
Na resposta aos problemas associados à emergência climática: Nomeadamente, com intervenção psicológica baseada na vasta evidência científica, em situações como as migrações, os problemas de saúde mental associados a este tipo de fenómenos, desde os mais comuns – stress, a ansiedade e depressão – aos mais complexos – por exemplo, a perturbação de stress pós-traumático. Em todos eles um denominador comum, intervenções mais próximas e imediatas ao problema (por exemplo os primeiros socorros psicológicos), também por mais curtas mas eficazes, demonstram-se claramente custo-efectivas, poupando recursos e sofrimento, pois previnem o desenvolvimento de perturbações nos meses e anos subsequentes aos acontecimentos.
Na participação e no contributo para o desenho de políticas: Quer elas sejas centradas nas alterações comportamentais ou nas recompensas (ou penalizações) a atribuir aos cidadãos e organizações face a alguns comportamentos (por exemplo, produção de resíduos comuns Vs recicláveis), utilizando os inputs do conhecimento e da ciência psicológica sobre o comportamento, pensamento (e consequentes enviesamentos) e sentimentos associados a este tema dos cidadãos, dos cidadãos líderes de organizações e dos cidadãos decisores.

É, no entanto, ainda comum as campanhas que vemos a este respeito parecerem privilegiar o ambiente face às pessoas, que parecem surgir em segundo lugar e o seu bem-estar e felicidade ter necessariamente de ser sacrificado em prol do ambiente. Ora, é hoje claro que as narrativas mais eficazes são em torno dos ganhos e não das perdas, pelo que são tão relevantes projectos como o da Ayr, uma ferramenta de mobilidade sustentável desenvolvida por uma empresa Portuguesa sedeada em Matosinhos (CEiiA) e agora disponibilizada na cidade de Nova Iorque. Esta tecnologia permite, com facilidade para a/o utilizador/a, “medir” (a não produção / emissão de CO2) e “recompensar” (atribuir um valor, por exemplo para utilizar noutras viagens ou serviços) a opção por deslocações “menos poluentes” na cidade, salientando os aspectos positivos desta opção e incentivando-a. Reforçando-a.
“The global is also local, the global is here.”
Afirmou David Uzzell no Dia da Psicologia nas Instituições Europeias, uma iniciativa realizada em Janeiro de 2019 e promovida pela Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) com o apoio da ex-Eurodeputada Sofia Ribeiro, para discutir o papel da Psicologia e das/os psicólogas/os face aos grandes desafios societais – migrações, crise climática, emprego e bem-estar e saúde mental.
“O global é também local”. Porque as cheias de Veneza, são e serão também as cheias do Rio Tejo. Porque os incêndios da Austrália, são e serão também, os nossos incêndios rurais. Porque um furação como o Dorian, poderá passar no futuro em Portugal, conforme o Lorenzo passou recentemente na região autónoma dos Açores. Por isto e porque…
“O global é aqui”. Em Lisboa, a partir de hoje e até Sábado, na International Summit on Psychology and Global Health – A leader in Climate Action. Esta cimeira resulta – literalmente – de anos de maturação de uma ideia conjunta da OPP com a American Psychological Association (em particular nas pessoas da Amanda Clinton e Arthur Evans) em torno de ´como criar condições para discutir o papel da Psicologia e das/os psicólogas/os nos principais desafios societais num contexto transnacional (para problemas complexos e globais, uma visão global da Psicologia)´, tendo resultado nesta organização conjunta da OPP com a APA que permite a reunião de representantes de 43 associações nacionais, transnacionais e federações que representam – literalmente – milhões de psicólogas/os dos cinco continentes para discutir contributos globais da Psicologia e das/os psicólogas/os para esta área.
Porque consideramos essencial um (re)posicionar à escola global da Psicologia enquanto ciência que informa e é determinante na decisão política e no desenho de políticas que localmente tenham em consideração as pessoas, grupos e comunidades e as envolvam, trabalhar-se-á num modelo para a integração dos contributos de todas as entidades presentes, em forma de três produtos: uma proclamação (já fechada); uma resolução final (já em draft) e um white paper final que reunirá os contributos de todas as organizações a entregar às Nações Unidas. Nesta edição em torno da crise climática. Noutras, se existirem outras, relativamente a “outras crises”, que aí estão e, certamente, aí virão.
São pequenos estes meus e nossos passos, é certo. Mas são passos. E contributos. Juntemo-los aos demais.
Sejamos “encorajados” por uma “onda de preocupação”.
Sejamos “encorajados” por uma outra “onda” mas de optimismo.
Meu. Nosso.