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Ragusa. Urban Future, 2022.

Junho. Aproxima-se o Verão e, em conversas ou pesquisas, é possível que nos cruzemos com Dubrovnik. Esta cidade croata é hoje um dos principais destinos turísticos do Adriático, conhecida pela sua costa e pelo seu centro histórico, património mundial da UNESCO. É, hoje, menos conhecida por ter sido uma vibrante cidade, particularmente a partir do século XIV, quando se tornou cidade-Estado da República da Ragusa.

Com autogoverno, era uma cidade liberal e humanista à época, fazendo da ideia da liberdade das pessoas e na economia, princípio de organização incomum naquele tempo. Foi dos primeiros Estados a abolir a escravatura, a acolher pessoas refugiadas, a não encerrar o governo da cidade a um conjunto fechado de representantes e foi mesmo a primeira a criar uma estrutura de saúde pública, incluindo nas suas medidas períodos de quarentena, algo que salvou muitas vidas e foi fundamental para prosperar mesmo no período da peste negra.

Liberdade. Liderança. Abertura, acolhimento e inclusão. Ciência. Saúde e bem-estar. Inovação. Pessoas… Mudança. Alguns dos factores-chave para uma Ragusa vibrante, líder e exemplo para tantas cidades (por ex., no seu modelo de saúde pública) são, grosso modo, os mesmos factores-chave que cerca de 700 translações depois do Planeta Terra ainda determinam a mudança.

Adiadas que foram as edições de Lisboa (2020) e Roterdão (2021), estou em Helsingborg na conferência Urban Future. (https://urban-future.org), integrada na H22 City Expo (https://www.h22cityexpo.com). Exposição que nos apresenta uma Helsingborg que procura a cada dia aprofundar o seu caminho e investimento no sentido da sustentabilidade, inclusão e inovação, como sublinha o seu presidente de câmara, Peter Danielsson. O seu caminho para uma cidade mais inteligente e amiga das pessoas. Caminho que implica mudança. Que implica as pessoas, a sua mobilização e o seu envolvimento. Que implica “City Changers by Heart”, mote da conferência.

Uma oportunidade para (me) inspirar, primeiro, para “expirar” depois. Para sentir e partilhar. Para (me) impactar. Para (me) expandir. Para enfrentar a mudança e as barreiras e obstáculos que a ela se colocam. Para reforçar que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a mudança é premiada pelos e pelas eleitoras, não penalizada, particularmente quando ligada à sustentabilidade ambiental e mobilidade. Para contactar e conectar-me com a inovação, as boas práticas e exemplos que, contagiosos que são, podem e devem ser transladados (por isso a expressão atrás), com as devidas adaptações, para Portugal e para todo o Mundo. Para acreditar (ainda mais) e advogar (ainda mais) por cidades com mais qualidade de vida e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Foi a cidade (também Ragusa), enquanto lugar das pessoas e das comunidades, que ajudou a criar e influenciar o Mundo moderno, com tudo quanto de menos bom, mas também de bom, tem.

Mobilizemo-nos e envolvamo-nos na mudança da (nossa) cidade para mudarmos o (nosso) Mundo.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Política Psicologia

O bem-estar em todas as políticas (Ao redor…; Sábado; 20.05.2022)

Foram três atletas que representaram Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, edição particularmente marcada pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a intensidade e brutalidade que hoje conhecemos apenas quatro dias após o seu final. Creio não errar se afirmar que não serão muitas as leitoras e leitores deste texto que conseguem nomear três cidades do país mais medalhado desses Jogos Olímpicos. Com pouco mais de metade dos e das habitantes de Portugal e com uma comitiva de atletas consideravelmente mais pequena face a outros países, a Noruega manteve-se como o país mais medalhado (já o fora em 2018), batendo o recorde de medalhas de ouro nuns só Jogos Olímpicos de Inverno.

Apesar da neve abundante e das condições propícias à prática de desportos de Inverno, que aliás partilha com muitos outros países, muitos deles com muito mais população e atletas, este sucesso não se esgota nestas modalidades (veja-se, entre outros exemplos, Erling Haaland no futebol). Antes resultará, em muito, de políticas diversas e da sua carta dos Direitos das Crianças no Desporto, orientação que define que as crianças devem ter experiências positivas sempre que praticam desporto, que sugere a prática e a experimentação de diferentes modalidades e que não permite, antes dos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings, procurando estimular a alegria, a relação e o bem-estar associado ao Desporto para todas e para todos ao longo de toda a vida.

A promoção e o investimento na alegria, na relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade, como pista para o sucesso desportivo. Como para o sucesso educativo, como cada vez mais evidência científica confirma, desde os ciclos de estudos iniciais ao ensino superior. Como para a (nossa) produtividade laboral, como todas e todos já sentimos. Como para o desenvolvimento das nossas sociedades e para a confiança das pessoas e das comunidades nas suas instituições e nas pessoas.

Já nos últimos dias de 2019, aquando da sua primeira candidatura a presidente do PSD, Luís Montenegro dizia “crer que a política tem de ser medida precisamente pelo bem-estar” propondo “a adesão de Portugal a um novo índice: o Índice de Felicidade Interna Bruta”. Na nova candidatura que hoje abraça, volta ao tema, discordando do facto de hoje “medirmos o bem-estar das pessoas com base apenas no Produto Interno Bruto (PIB)”, dizendo não “temer a palavra felicidade” e reafirmando a intenção de criar um “Índice de Felicidade”. Acompanho Luís Montenegro na perspectiva de que a política e as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e para todos e na consideração de que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Manifesto, porém, as minhas reservas, também conceptuais, em torno de índices referentes à felicidade e, neste âmbito, creio mais sustentada a posição do seu adversário nestas eleições (Jorge Moreira da Silva) que, além de apontar à melhoria considerável do posicionamento do nosso país no ranking do Desenvolvimento Sustentável e do Desenvolvimento Humano, ambos da ONU, aponta também como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, organização junto da qual trabalhou nos últimos anos.

Este índice resulta da combinação de 11 dimensões e, até simbolicamente, permite uma visão mais clara do quão complexo e muito impactante é o conceito de bem-estar. Das condições de habitação, ao rendimento; do trabalho e emprego de qualidade, à conciliação entre vida pessoal e profissional e ao suporte e conexão social; da educação e formação à qualidade do meio ambiente; do envolvimento cívico e participação democrática ao acesso a cuidados de saúde de qualidade; da percepção de satisfação com a vida à segurança. 11 dimensões que respondem a uma questão simples, mas chave do bem-estar: “como vai a (sua) vida?” 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito, tal como tornam claro que o bem-estar (e o impacto das políticas públicas nele) vai além do Produto Interno Bruto sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o. Que o bem-estar é mais que a felicidade da pessoa ou das pessoas num determinado momento sendo, naturalmente, por ela condicionado, mas condicionando-a.

Saudando a relevância de ambos os candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí também pode resultar para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais, creio importante sublinhar três transformações relevantes na sociedade portuguesa neste domínio. Desde logo o capital social presente e futuro relativo à aspiração das populações a maior possibilidade de bem-estar para todas e todos e a pressão que isso traz e trará à sociedade e aos decisores e decisoras para o considerarem nas suas propostas e acção. Também o caminho de mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, de rendimentos, de acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar. Medidas e políticas avaliadas pelos seus impactos no bem-estar, e não apenas por indicadores económicos ou de acesso, logo mais dirigidas às especificidades e aspirações da sua população alvo e mais desenhadas considerando o envolvimento em todas as fases das e dos seus destinatários. Finalmente, o evoluir para um modelo e para uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, qualquer que seja a área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas. Bem-estar a que acrescento a saúde mental, nele fundamental. Bem-estar num país que poderá ter factores menos facilitadores de um crescimento significativo (e continuado) do PIB nos próximos anos, mas que tem inúmeros factores facilitadores de um crescimento significativo da possibilidade de bem-estar de todas e de todos e, até, deste alavancar o seu PIB.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, pensar o desenvolvimento de um país face aos desafios do presente e do futuro, e até à necessidade de alteração de paradigmas de comportamento e consumo da sua população, tendo por referência principal o seu Produto Interno Bruto é potencialmente falacioso e promotor de “águas de bacalhau”. Ao contrário, além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, sugiro importarmos a centralidade do bem-estar das políticas (da Noruega), fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita. Desenvolvendo-o a partir de uma estratégia onde todos os sectores de governação o considerassem e priorizassem, onde se estabelecessem parcerias com entidades, organizações da sociedade civil e empresas, onde se pensasse o quão determinante é hoje o bem-estar na prevenção e na promoção nas áreas económicas, sociais ou ambientais. Onde se apostasse no seu valor na captação de pessoas e investimentos para o país, na promoção da qualidade de vida, da equidade e da coesão social e, afinal, no quão decisivo é na resposta à pergunta chave: “como vai a (sua) vida”?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 20.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-bem-estar-em-todas-as-politicas

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Enough is enough.

“March for our lives”. Na sequência do massacre numa Escola de Parkland (Flórida), a 24 de Março de 2018, participei numa das maiores marchas de sempre advogando por alterações legislativas no acesso a armas de fogo nos EUA. Com cerca de 1 milhão de pessoas – e integrando uma iniciativa da American Psychological Association | “Gun Violence is a Public Health Crisis” – percorri a Pennsylvania Avenue (Washington) com um propósito e uma esperança forte de que nada poderia ficar igual depois de Parkland. “Never again”, gritava-se, sentia-se, mas…

Podia. Ontem, 24 de Maio de 2022 (4 anos e 2 meses depois), morreram pelo menos 19 crianças e 2 professoras num novo massacre numa Escola do Texas, que se sucede a outros, em diferentes contextos e com diferentes motivações. Massacre que nos confronta com as palavras de Rick Santorum, outrora Senador e concorrente à nomeação a candidato presidencial Republicano, quando, no dia da “March for our lives”, disse que as/os estudantes deveriam “aprender como lidar com um atirador em vez de pedir aos legisladores para resolver os seus problemas”. Nos confronta com as/os representantes da NRA que, também nesse dia, nos apelidaram de “manipuladoras/es” e que nos e me chamaram “radical” por participar na marcha. Radical…

A violência resultante do uso de armas (de fogo) é uma crise de saúde pública. Provoca perda, dor, sofrimento, luto. Impacta o sistema de relações da comunidade, é potencialmente traumática, a curto, mas também a médio e longo prazo, tem determinantes e existem acções que, também potencialmente, a podem prevenir ou mitigar. É hoje impossível, até pela coincidência de datas (exactamente 3 meses após o início da nova e brutal invasão pela Rússia da Ucrânia), não associarmos à perda, dor, sofrimento e luto resultantes da Guerra e aos eventos potencialmente traumáticos que dela resultam para diferentes pessoas que de diferentes formas a vivenciam.

Sobre isso e sobre “quem largou tudo para ajudar refugiados” (https://onovo.pt/internacional/o-impacto-em-quem-largou-tudo-para-ajudar-os-refugiados-IB10557834), conversei com a jornalista Sílvia Abreu do NOVO Semanário discutindo os impactos sociais e emocionais, potenciais consequências destes processos e qual o contributo possível da psicologia. Como fiz em entrevista ao Porto Canal (https://youtu.be/Onwh3MPmrDY) a propósito do acolhimento de pessoas em condição de refugiadas, da importância de atendermos às nossas próprias condições e à necessidade de nos adaptarmos aos ritmos/vivências e guardarmos espaço e tempo de cuidado, atenção e validação das pessoas numa situação de especial vulnerabilidade.

“Já chega!”, disse Kamala Harris, acrescentando: “Como nação temos de ter a coragem para agirmos e percebermos o nexo daquilo que é uma política pública razoável e sensata, para garantirmos que algo assim nunca mais volta a acontecer.” Que estas perdas, que este sofrimento, resultado da Guerra ou de um Massacre, não se repita.

Ideia “radical” dizem…

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O bem-estar…

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 foram marcados pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a brutalidade que hoje conhecemos apenas 4 dias após o seu final. Neles, a Noruega, país com cerca de metade da população de Portugal, repetiu a vitória de 2018, tornando-se em 2022 o país com mais medalhas de ouro nuns só JO de Inverno. Noruega, país onde o Desporto é promovido para todas e todos, ao longo de toda a vida. País cuja carta dos Direitos das Crianças no Desporto estimula que as crianças tenham experiências positivas sempre que o praticam, sugerindo a prática/experimentação de diferentes modalidades e não permitindo, até aos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings. País que promove e investe na alegria, relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade no Desporto.

“O bem-estar em todas as políticas”, 33º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte estes factores chave do sucesso desportivo da Noruega. Factores também chave do sucesso educativo, da produtividade laboral e do desenvolvimento das nossas sociedades e da confiança das pessoas e das comunidades nas pessoas e nas instituições.

Partindo daqui o artigo saúda o facto dos candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí resulta para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais. Nele afirmo-me concordante com Luís Montenegro na sua afirmação de que as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e todos e que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Nele associo-me a Jorge Moreira da Silva quando aponta como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, medida que resulta de 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito de bem-estar e que este vai além do PIB sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o.

Abordo, ainda, o capital social presente e futuro relativo à maior aspiração das populações à possibilidade de bem-estar para todas e todos; a mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, rendimentos, acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar; e o evoluir para um modelo e uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, em qualquer área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas.

Termino sugerindo que além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, importemos (da Noruega) a centralidade do bem-estar nas políticas, fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita.

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IDAHOT 2022

Ontem, dia especial para a minha família, comemorou-se o IDAHOT – Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Data que alerta para a necessidade de combate feroz a todas as formas de exclusão e violência sobre pessoas LGBTI+.

Dia que, simbolicamente, correspondeu à aprovação em Espanha de um anteprojecto de Lei do Aborto que, além de reformar a actual Lei, procura reforçar e regular direitos e obrigações na área da saúde sexual e reprodutiva, reforçando o papel das Escolas na Educação sexual. Por cá, o Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações assinalaram o caminho percorrido pelo país, hasteando a bandeira arco-íris lado a lado com a de Portugal na Presidência do Conselho de Ministros.

A mim fez-me recuar cerca de 30 anos, 15 anos, 8 anos e duas semanas, a quatro momentos que vivi e que, também simbolicamente, representam uma viragem muito significativa, embora ainda insuficiente, na forma como a Educação e a Escola em Portugal se relacionam com a equidade e inclusão, como integram no seu seio e na sua prática a questão dos direitos humanos e a resposta aos principais desafios societais e como a ciência psicológica e as psicólogas e psicólogos nisso contribuem.

Fez-me recuar a 1989, quando ingressei numa Escola tão distinta da de hoje, dois meses antes da Queda do Muro de Berlim. Faz-me recuar a 2005, ano dos atentados de Londres, quando, primeiro em estágio académico e depois como psicólogo e coordenador de projecto, iniciei um percurso profissional numa Escola também de 1º ciclo e acompanhei um conjunto de transformações. Fez-me recuar a 2014, ano da anexação da Crimeia pela Rússia, e recordar a assinatura do protocolo de colaboração entre a Direcção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que desde esse momento tem enquadrado colaborações importantes que incluem a organização conjunta de um Seminário anual de Psicologia e Educação.

Fez-me, finalmente, recuar à sua 9ª edição (Figueira da Foz, 05.05.2022) onde, num momento em que vivemos um Guerra na Europa, resultante da recente escalada da invasão ilegítima da Ucrânia pela Rússia, participei numa conversa em torno da “Promoção de Resiliência, Prevenção da Violência e Construção da Paz” com a Anabela Caetano Santos (que apresentou o interessante projecto RESCUR, de promoção da resiliência) e a Sofia Neves, colega que, não apenas mas muito a partir da Associação Plano i, tem contribuído para a prevenção de múltiplas formas de violência, incluindo as referentes às dimensões do género e da orientação sexual.

Da conversa sobra a reflexão desta mudança profunda e importante (embora, reforço, ainda insuficiente) em curso na Educação e na Escola. Da conversa sobra o “combate” ao que, também ontem e em declarações ao Público, o colega Jorge Gato referia como “a experiência de invisibilidade”, com tudo o que isso implica para a/o própria/o, para quem a/o rodeia e para a sociedade.

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Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder (Ao redor…; Sábado; 08.05.2022)

Como eu, certamente já acompanhou noites eleitorais. Um rodopio de resultados regado com comentários e declarações dos e das candidatas e principais apoiantes. Tudo em busca da identificação e comunicação de quem venceu e de quem perdeu, signifique ganhar e perder ter mais ou menos votos que as e os adversários ou apenas “um bom ou mau resultado”.

Foram, grosso modo, 13 milhões e 300 mil as francesas e franceses que votaram no passado dia 24 de Abril em Marine Le Pen, 41,46% do total de votantes. Mais quase 8 milhões face aos 5 milhões e 500 mil votos (17,79%) que o pai, Jean-Marie Le Pen, havia obtido aquando da sua surpreendente passagem à segunda volta das presidenciais francesas de 2002. Daí para cá a Frente (hoje Reagrupamento) Nacional obteve 6 milhões e 400 mil votos na primeira volta das eleições de 2012 e 10 milhões e 600 mil na segunda volta em 2017, assegurando três segundas voltas em cinco eleições nos últimos 20 anos e aumentando 145% o seu resultado de 2002 a 2022. Noutra geografia, e noutro contexto, Donald Trump obteve 74 milhões e 200 mil votos nas eleições presidenciais americanas de 2020, mais de 11 milhões de votos mais do que havia obtido nas eleições de 2016 que fizeram dele Presidente, a maior votação de sempre de um/a candidata/o à presidência com excepção dos votos de Joe Biden que ganhou essa eleição (a melhor votação de Obama – presidenciais de 2004 – foi inferior a 70 milhões de votos). Dois simbólicos exemplos de derrotas, incluindo a de um incumbente, a que poderíamos juntar a outras próximas em Espanha ou Itália, que nos estimulam a reflectir sobre a complexidade do momento que vivemos e sobre a relatividade do ganhar e do perder (em) eleições, dado os enormes impactos e ganhos de quem “perdeu”.

Não sendo um fenómeno exclusivo de uma direita mais nacionalista, populista e antissistema (veja-se o efeito dos partidos “verdes” nas últimas 2/3 décadas na mudança de programas políticos dos partidos de centro direita e esquerda na Europa Central e do Norte e do Bloco de Esquerda no programa do Partido Socialista em Portugal), um dos ganhos associados às derrotas destes partidos em diferentes países mas com resultados crescentes e significativos, é a generalização da política do ódio e do e pelo medo. Dizia um conjunto de historiadoras e historiadores franceses que Zemmour mente sobre o passado para as pessoas odiarem o presente. Ódio que, a par do medo instigado face a tudo o que é novo, diferente, diverso, facilmente se propaga ao ritmo dos desafios societais e da complexidade crescente que enfrentamos, das mudanças e adaptações que o quotidiano nos exige e que se espalham e alimentam em grupos e redes sociais cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras.

A polarização extrema, daqui resultante, alimenta-se do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigos e inimigas. Rompem-se pontes, classificam-se “pessoas” e não apenas posições / ideias (“deploráveis”, nas palavras de Hillary Clinton face a “metade das e dos eleitores de Trump”) ameaçando a harmonia necessária em política, a possibilidade e a crença de mudança, perpetuando e reforçando ciclos de extremismo e a cristalização de dois polos, altamente magnéticos, não conciliáveis e que vivem, também, uma união baseada na repulsa do outro polo e não apenas na identificação com as pessoas e ideias do seu polo.

Com este “fosso” entre grupos cada vez maior, a narrativa do medo e do ódio ganha espaço mesmo quando os e as candidatas que a usam e a propagam perdem eleições. Com ela instala-se o que podemos apelidar de crise de direitos e da democracia, ou seja a interrupção e retrocesso recente a que assistimos de um caminho de maior generalização e incondicionalidade de direitos básicos humanos no Mundo e de diminuição progressiva de sistemas e regimes políticos autoritários no Mundo.

Parte da inversão deste caminho resulta de uma centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou dos privilegiados”. Serve também propósito de colectivização da culpa, recentemente abordada no parlamento português e, por vezes, de promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos. Acrescenta, então, à crise da representação, uma crise de confiança onde pessoas crescentemente desconfiam de instituições, de outras pessoas e, até, de si próprias e da possibilidade do seu futuro. Crises que funcionam como estímulo para uma maior procura e aceitação de decisões ou propostas simples, simplistas, que atendem exclusivamente ao presente e ao local, por vezes salvíficas e personificadas numa pessoa, para questões ou problemas especialmente complexos, abrindo espaço a discursos altamente apelativos que oferecendo “soluções” e “melhorias” rápidas atingem facilmente pessoas e grupos mais vulneráveis ou psicologicamente a eles mais predispostos.

Além das vitórias na narrativa o caminho de crescimento, mesmo aquando das derrotas, torna o horizonte de vitória mais possível, próximo, por vezes até provável, com três consequências significativas: a) a institucionalização progressiva e a naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional, alargando-se mais o seu espaço mediático e sua capacidade de condicionar o debate público; b) o maior crédito e a maior penetração, discussão e propagação de ideias e de posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência, com cada vez maior partilha de desinformação, de fake news e teorização conspirativa que sustenta a ideia de necessidade de “fim de regime”, “fim de ciclo” ou apenas de “autovitimização”; c) com a institucionalização e o crescente assumir de lugares de relevância, decisão e poder, mais personalidades e empresas se predispõem a associar-se a estes partidos e pessoas, profissionalizando as suas estruturas e, particularmente, a sua comunicação, usando mais e com maior eficácia estratégias de reforço, de segmentação e de mediatização das mensagens e das pessoas em questão.

Outro efeito “ganhador” destas derrotas resulta da mudança e da influência nos discursos e nas práticas de partidos vencedores ou potencialmente vencedores. A este propósito vejamos o impacto das posições mais populistas da campanha do “Leave” (pela saída) no referendo que discutiu a continuidade do Reino Unido na União Europeia nos partidos Conservador e Trabalhista, como o Partido Republicano normaliza posições, comportamentos e atitudes de Donald Trump justificando-as como “a sua compreensão da frustração das comunidades americanas brancas mais pobres” ou como Valérie Pécrese, candidata presidencial dos Republicanos em França, abordou logo no seu primeiro comício a suposta “grande substituição”, bandeira dos partidos da direita nacionalista, populista e antissistema, que entrou no discurso e programa do partido de centro direita, apesar de claramente contrária aos seus princípios básicos (de factualidade, da não discriminação e do não incitamento ao ódio e violência), também por isso ameaçando-os e a prazo colocando-os em risco.

Por cá, como por lá, tivemos um candidato presidencial em 2021 que usou da expressão “pessoas de bem”, tão utilizada por Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França (aliás presenças nas suas campanhas eleitorais), para nacionalizar a expressão no seu “portugueses de bem”. Arrogando-se de decidir quem o é ou não é, mesmo dirigindo-se apenas a parte das eleitoras e eleitores, obteve cerca de 500.000 votos de portuguesas e portugueses (11,90%) depois de uma campanha de legitimação de ódios, de utilização despudorada do medo e onde acabou pronunciado por desobediência e condenado por agredir uma família.

Como por lá, por cá, a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade. O seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social das sociedades – depende não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo. Mais, a ciência psicológica é essencial a determinantes desta crise da democracia e dos direitos. Porque informa sobre a importância e promove a relação, a curiosidade, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos, essenciais à abertura à e ao outro e à prevenção dos fenómenos de ódio e à utilização do medo. Porque é central na promoção da saúde mental, na possibilidade de florescimento e de bem-estar, factores essenciais à confiança no presente e para o futuro, à adaptação às adversidades e à gestão dos anseios e frustrações. Porque é essencial ao desenho ajustado às pessoas, ao seu comportamento e à tomada de decisão, de políticas públicas fundamentais à mitigação das vulnerabilidades, à resposta aos desafios do presente e do futuro e à crença no sistema democrático como capaz de responder às necessidades e expectativas das pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o chão comum da democracia e dos direitos humanos far-se-á com todas e com todos, com participação, envolvimento e mobilização capazes, não apenas de vencer eleições, mas de vencer ideias, narrativas, simplificações e mistificações. Capazes de vencer a utilização (e legitimação) do ódio e do medo, em benefício de projectos e ambições políticas de pessoas e de grupos. Capazes de recuperar e construir confiança e de acreditar no futuro, de cada pessoa e de todas as pessoas. Como cidadão, e como cidadão psicólogo, aqui e ali, no Mundo ao redor, preocupam-me mas mobilizam-me estes desafios e o nosso tempo. E a si?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eleicoes-la-como-ca-a-relatividade-do-ganhar-e-do-perder

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Palíndromos…

Da junção das palavras gregas “pálin” (novamente) e “dromos” (caminho/estrada) resulta a expressão palíndromo que descreve elementos com simetria linear, logo com o mesmo significado quando lidos da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Existem números palíndromos (também apelidados de capicua) e existem palavras e datas palíndromos – a última desta década o dia 22.02.2022.

Nesta simbólica data a Líder – Ideias que fazem futuro publicou uma entrevista que a Rita Saldanha me fez a propósito do aproximar, naquele momento, da passagem de dois anos sobre a criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses que coordeno.

“O caminho para uma melhor saúde mental em Portugal”, assim titulada a entrevista que agora partilho, trata este balanço de dois anos de actividade e contributo, a (des)informação, a importância da capacitação e desenvolvimento de pessoas e comunidades, a literacia em saúde e em saúde psicológica, a saúde mental (e a saúde mental nas organizações), o papel das lideranças e as possíveis prioridades para o Mundo depois desta gravíssima crise pandémica que ainda vivemos.

Uma entrevista onde afirmo que a “boa informação previne a má informação”, que o “controlo e a previsibilidade” são “variáveis fundamentais para a saúde e bem-estar”, que é fundamental que “a sociedade seja amiga [das pessoas em sofrimento psicológico], sem culpabilização ou estigmatização, para que a pessoa possa encontrar uma ajuda e com isso florescer novamente”. Onde afirmo, também, que as organizações devem desenvolver capacidades e ter recursos que lhes permitam a “adaptação e superação”, que precisam de “confiança e coesão”, “de tempo” e que “ficaria muito surpreendido se nos próximos anos não tivéssemos um movimento de reconhecimento de organizações que promovam a saúde e bem-estar, até pelas/os consumidoras/es”.

Menos de 48 horas depois da publicação da entrevista começava a invasão da Ucrânia pelas tropas russas e o escalar do conflito para uma perturbadora Guerra, na Europa e no século XXI, com todas as consequências que observamos ao longo dos já mais de dois meses corridos e que sabemos virem a existir no futuro. Também, durante a pandemia, estreou o “Tenet”, filme de C. Nolan inspirado no “Quadrado Mágico”, conjunto de 5 palavras latinas encontrado nas ruínas de Pompeia e que incluem a palavra/título palíndromo do filme. O filme trata, exactamente, o tempo e a possibilidade de se caminhar do presente para o futuro mas também do presente para o passado e como, naquela história, esta possibilidade resulta no evitar de uma possível 3ª Guerra Mundial “desejada” por um oligarca russo.

Como refere M. Atwood ao Expresso de hoje, é mesmo “um acto de esperança assumir que haverá futuro”. Esperança que apenas poderá resultar da inscrição do passado e da reflexão sobre ele no sentido de pensarmos o presente e perspectivarmos o futuro. Um futuro de Paz e de bem-estar para todas e todos com um “novo caminho” para a saúde mental.

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9 e a sociedade líquida…

“Penso que tudo quanto considerava sólido se apresenta hoje como instável, líquido.” P. Pomerantsev há muito estuda (e pensa) o fenómeno da desinformação. Tem, na sua vida, um conjunto de experiências familiares (perseguição do KGB aos seus pais) e pessoais (viveu na Rússia entre 2001-2010) que certamente acrescentam pontos de reflexão e lhe permitem afirmar, com propriedade, a volatilidade do tempo que vivemos e que “os dramas e rupturas na sua vida pessoal e familiar” o ajudam a compreender como começam e acabam os processos de (des)informação, tal qual sistemas de forças.

“9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos”, 31º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura reflectir sobre a volatilidade do tempo que vive(re)mos a partir da sua aceleração (olhando os últimos 9 meses por comparação a 9 décadas, a partir da genealogia do meu filho mais novo), transformação e do impacto dos acontecimentos de vida (dramas e rupturas, mas não apenas, na vida pessoal e familiar, mas também na social e profissional) enquanto sistemas de forças com poder de mudança do presente, de condicionar o futuro e impactar diferentes dimensões de vida, incluindo a saúde (também mental), o bem-estar ou a produtividade.

O artigo reflecte, também, a necessidade da inscrição desta realidade na perspectiva de que a saúde mental é hoje um enorme factor de protecção e da necessidade de reflectirmos sobre as “competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e bem-estar”, nomeadamente estimular o Ensino Superior (ES) a responder “à sobrevalorização de competências técnicas” com “a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (autoestima, autorregulação emocional, empatia e altruísmo, capacidade de trabalho em equipa, …), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas.

Procura, ainda, enaltecer a premência e coragem do investimento da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (com apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses) pelo programa dirigido a serviços de saúde/psicologia do ES, baseado no conceito de saúde mental, investindo (até 100.000€) em projectos que visem a sua promoção, a promoção da literacia, de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência). Um programa responsivo às necessidades da sociedade, de presente e futuro, e à evidência científica que confirma a sua premência/pertinência. Um programa que responde à forma desproporcional como a população jovem foi afectada pela pandemia, tem ainda lacunas na literacia em saúde (mental) e a uma “sociedade líquida” que nos deve mobilizar para um desígnio colectivo: “acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos no qual a população jovem é essencial”.

Um futuro com pessoas, afinal, mais do que a (tentarem) cumprir regras e procedimentos, preparadas e motivadas para (tentarem) tomar boas decisões.

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3 dias para o 25.4.2022

Auto-determinação, direitos humanos, não discriminação, equidade, coesão social, saúde (e saúde mental), educação, capacitação, trabalho, ciência (e evidência), dignidade, confiança, inclusão, participação, abertura à/ao outra/o, diversidade, cooperação, ética, cidadania, responsabilidade, solidariedade e bem-estar.

A 22.04.1974 muitas pessoas, país e Mundo fora, em diferentes contextos e com diferentes proveniências, partilhavam da aspiração e do desejo de verem possibilitados e cumpridos em Portugal estes 22 valores. Faltavam, como hoje, 3 dias para o dia 25 de Abril. Dia em que em 1974 se lhe acrescentou a liberdade, a democracia e a Paz. Dia em que de 1975 a 2022, o celebramos e, ao celebrá-lo, nos recordamos que estes 25 valores se constroem todos os dias, por e com todas as pessoas, por e em todos os contextos.

Eu pude estudar esta ciência que é a psicologia numa Universidade também e muito pelo 25 de Abril. Não apenas porque a abertura que trouxe, permitiu, finalmente, um outro olhar para esta ciência e possibilitou a sua emergência, contributo e desenvolvimento na sociedade portuguesa. Também porque pertenço a uma geração (e a um contexto) que é, porventura, das que mais se pode transformar face às possibilidades que teria pelos valores acima… Num conceito da psicologia, uma geração cuja zona de desenvolvimento potencial foi bastante expandida por um país a acreditar nas suas pessoas e a dar-lhes condições, com dificuldades é certo, para se desenvolverem, florescerem e se cumprirem.

Hoje continuo a estudar e no meu pequeno (mas devido) contributo a fazer e a praticar esta ciência (psicologia) com a certeza (e responsabilidade) de que partilha grande parte dos 25 valores acima. De que partilha e de que para eles procura contribuir, estando próxima das pessoas e das comunidades, ao longo de todo o ciclo de vida, em cada um dos contextos, nos acontecimentos de vida mais significativos, sejam eles “positivos” ou geradores de sofrimento psicológico.

Uma ciência (e uma prática) que também se procura afirmar pela presença na sociedade, não apenas mas também pela opinião, pela informação, pelo comentário e pela literacia que procura promover. Por isso, e pelo seu simbólico num país também antes encerrado a este nível, partilho hoje este “Afirmar os psicólogos nos media 2021”, onde se reúnem contributos meus e de colegas dos órgãos da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Ana Meira, Carla Fernandes, Carla Rocha, Filipe Fernandes, Francisco Barrocas, Francisco Miranda Rodrigues, Gaspar Ferreira, Jaime Ferreira da Silva, Joana Amen, Marco Santos, Marisa Alexandre, Miguel Ricou, Paula Domingues, Paulo Cunha, Raquel Raimundo, Renata Benavente, Renato Gomes Carvalho e Sofia Ramalho.

Um nosso contributo para a memória e inscrição destes valores. Para a sua co-construção, todos os dias em todos os contextos, também com o contributo das psicólogas e psicólogos.

 

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Visão é significado; Significado é história.

Como eu, certamente têm autoras/es, cantoras/es, séries, filmes ou lugares a que, ao regressarem, sentiram terem gostado menos que quando os leram, ouviram, viram ou sentiram na primeira vez. Assim senti com a série “True Detective”, cuja 1ª temporada é (a meu ver) muito mais interessante que a 2ª e que tem num episódio uma frase de imenso impacto em mim que aqui destaco: “visão é significado; significado é história”. Se assim foi com a série, assim não é com a “minha aldeia” (Lapas), onde permanece parte significativa da minha família e parte do significado (da [minha] história), conceito de uma importância e complexidade extrema, pelo que releva e revela do que nos sucede e damos valor, e porque não sendo objectivo (não existe fora de nós e não é absoluto) também não é subjectivo (não resulta da construção de uma única pessoa).

Uma parte deste significado é co-construída e partilhada também por rituais repetidos, entre comunidades e gerações. Um, a leitura, ora profunda ora de soslaio, do jornal local que a cada 6ª feira entrava nas casas de tantas pessoas da minha aldeia e, em cima daquela mesa (como de tantas outras da aldeia) passava dias até ser substituído pelo novo que chegava na semana seguinte. Falo do jornal “O Almonda”, semanário com 5394 edições, sempre presente no meu dia-a-dia e imaginário de infância/juventude e portador de notícias e informações que me eram indiferentes, claro está, mas também de algumas das melhores (dos meus próprios resultados desportivos aos filmes que chegariam à cidade na semana seguinte) e das piores notícias daqueles momentos (talvez de sempre).

E sim, são mais de 100 anos de edições semanais, iniciadas no duplamente simbólico 1918 – ano do final da I Guerra Mundial e de início da pandemia da gripe pneumónica. Curiosamente, 104 anos depois, uma entrevista (contributo) minha fez capa da edição de 01.04.22 destacando que a “Pandemia e [a] guerra na Ucrânia agravam saúde mental dos portugueses”. Outra pandemia e outra guerra, mais de 100 anos depois, a lembrarem-nos com violência e sofrimento que a história pode repetir-se e o quanto as consequências da repetição resultam da forma como (com que recursos e vulnerabilidades) enquanto pessoas, comunidade e sociedade chegamos às crises e adversidades. Na entrevista reflicto sobre estes aspectos, destacando o que podemos fazer, ao que devemos estar atentas/os, que estratégias podemos mobilizar e que apoios são essenciais disponibilizar. Discuti o acolhimento de pessoas em situação de refugiada/o, as crianças/jovens, o futuro e como é essencial promover a saúde mental.

Um pequeníssimo (mas empenhado e emocionado) contributo meu para a minha comunidade conforme os que recebi, alguns de pessoas que sei que agora me leram. Também porque creio que a visão (futuro) também é o significado que damos à nossa história (passado), reconhecendo o seu papel e retribuindo como posso para a co-construção desse significado. Partilhado, significativo.