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Re…cooperar

“Afinal, como bem sabe quem vive no Alentejo, os efeitos da crise climática e da seca extrema não terminam na Extremadura Espanhola. Como bem sabe quem vive na Galiza, a pobreza não impacta a saúde e bem-estar de pessoas apenas no Alto Minho (…) Os desafios societais globais não se limitam a ou com fronteiras e não se ultrapassam sem colaboração e cooperação, nacional e internacional.”
“Re…cooperar”, 39º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) pensa como a cooperação “foi (é ainda) o que nos tem permitido, não sem obstáculos ou críticas e pela definição de princípios e objectivos em torno dos Direitos Humanos e da vida no Planeta, melhorar índices de paz, saúde e bem-estar a nível global” e possibilitar “que, hoje, milhares de milhões de pessoas no Mundo aspirem e expectem condições de vida que talvez supuséssemos globalmente inatingíveis há não muitas décadas.”

“Há 50 anos, onde no meu caso, igual ao de tantas outras famílias, seria inimaginável às minhas avós (com 53 e 40 anos em 1972) ou aos meus pais (ambos com 11 anos) imaginarem o neto/filho que nasceria 11 anos depois e, através dele, o Portugal de 2022. Ou há 99, quando se comemorou o 1º Dia Internacional das Cooperativas (…) e nasceu, a poucos km de onde cresci, José Saramago.”

“À parte da extraordinária e muito complexa história de vida, Saramago escreveu, talvez como muito poucos, aquilo que apelidou como a “involução humana”, enquanto movimento regressivo aplicado a diversos fenómenos, da língua (portuguesa) ao comportamento em sociedade. Saramago não viveu os últimos 12 anos do Mundo mas viveu 4 dos 16 anos últimos anos com consecutivo declínio da liberdade e da democracia, pelo “enfraquecimento das instituições (particularmente judiciais) e do valor da Lei; ataque à liberdade de imprensa; perversão das eleições; e discriminação de migrantes e outras comunidades”.

“Esta situação (e retrocesso) é particularmente preocupante quando a colaboração, a intervenção articulada e a cooperação são a cada dia mais essenciais, considerando a complexidade dos desafios que as organizações e sociedades enfrentam. Quando as redes sociais e a forma de organização da sociedade, globalizam velozmente movimentos, ideais e ideias (….) Justifica-se, assim, que o último dos 17 objectivos do desenvolvimento sustentável (ODS) seja centrado nas parcerias para a implementação dos ODS (…), que tenhamos presente o papel da cooperação na superação e na adaptação à mudança e à(s) crise(s) e de processos muito estudados e trabalhados pela psicologia para a promoção da cooperação, como a relação, orientação para os valores sociais, empatia e altruísmo, comunicação, compromisso, confiança, identificação e a cultura.”

“É momento de recuperarmos do conjunto de crises que vimos enfrentando também pela recuperação da cooperação. Tempo de Re…cooperarmos, pela confiança nas instituições e pessoas. De Re…cooperarmos, pela paz, pela saúde e pela possibilidade de bem-estar, de todas e todos.”

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Férias. França. Falta de memória e de factualidade

“O trabalho liberta”. L. Blum, ao contrário de outras e outros judeus (e não apenas), não terá lido esta frase quando, em 1943, entrou no campo de concentração de Buchenwald. Este campo, ao contrário de Auschwitz ou Sachsenhausen, não a tinha no portão, antes a não menos inquietante e perturbadora: “a cada um o que lhe é devido”. Seria mais um anacronismo a acrescer ao inominável da situação, quando, 7 anos antes, Blum havia liderado o primeiro governo a instituir legalmente e universalizar o direito a férias pagas.

“Férias. França. Falta de memória e de factualidade”, 38º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância inegável das férias (pagas), hoje assumidas por vários, persistindo importantes excepções mesmo quando defendidas pela OIT desde 1936 e na Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948). Fá-lo, também, reflectindo sobre o seu papel na saúde e bem-estar, na produtividade e na gestão das organizações, na oportunidade que comportam à prevenção da exposição a situações adversas e riscos psicossociais, de criação de novos hábitos, rotinas e centração noutras dimensões da vida.

Mas se França, porque pioneira, me e nos deu (infelizmente ainda não a todas/os) isso, também me (e nos, a tantas e tantos portugueses) deu outras possibilidades de qualidade de vida, por ter sido local de trabalho de familiares no passado. “Esta é [portanto] ainda, hoje, a época do ano onde famílias se reencontram, onde a “terra” ganha vida, sotaque, economia, histórias do e dos passados, sonhos de regresso e de futuro. Onde, quando paro eu de férias, penso no que foi no passado e é para muitas e muitos ainda hoje, a abnegação e o sofrimento de partir não raras vezes não apenas por si, mas pelas e pelos seus”.

“Não deixa, portanto, de ser anacrónico que seja esta, também, a altura do ano em que algumas pessoas questionam as migrações. Das pessoas, de quem escolhe (ou não) Portugal enquanto país para viver ou de quem, particularmente nesta altura do ano, regressa ao país. Das ideias e dos ideais, de direitos e de liberdades, da procura da igualdade de oportunidades.” Nem “precisamos de evocar o importante contributo da população imigrante e emigrante para o desenvolvimento do país, os seus contributos para o sistema de segurança social ou para os grandes desafios (pobreza, crises sócio-económicas, natalidade, falta de trabalhadoras e trabalhadores em diferentes sectores…), basta “evocar as férias e França e olhar ao redor para aferirmos como a (sua) falta de factualidade e falta de memória não as/os (pre)ocupam tanto quanto a possibilidade de circulação e de migração de pessoas e de ideias e ideais.”

A ociosidade positiva e prazerosa é essencial num caminho rumo a uma maior possibilidade de bem-estar, autodeterminação e ao exercício e usufruto da nossa liberdade. À mudança. À diversidade que enriquece todas e todos, enquanto comunidade. A que posamos interagir, espantar-nos e inspirar-nos mutuamente por um Mundo melhor.

Boas férias, sim?

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Violências (Ao redor…; Sábado; 21.07.2022)

Noite de Sábado, 24 de Julho de 1999. Numa base aérea desactivada nas imediações de Nova Iorque, Fred Durst sobe ao palco e, perante centenas de milhares de pessoas (e milhões a assistirem na TV), com os seus Limp Bizkit, canta a canção “Break stuff [Partam coisas]”. Diz, depois e repetidamente, “não existirem regras” e encoraja a que as pessoas “se zanguem”. Em pleno Woodstock 1999 – depois de dias de calor intenso, com péssimas condições de espaço e de higiene, após um acumular de tensão e de violências várias – Durst convida à “zanga”. Com ou sem consciência, com ou sem intenção, contribuiu para uma legitimação do que se sucedeu nas horas seguintes e que conduziu ao fim abrupto do festival, com uma forte intervenção policial, resultante do perigo provocado pelo total descontrolo de parte significativa do público e já depois da MTV e outros órgãos de comunicação social terem retirado as e os jornalistas do recinto por falta de segurança.

Pensar as violências implica pensar não apenas o que as caracteriza e determina, no presente (no tempo e momento em que decorrem), mas todo o percurso e contexto que a elas conduziu. No Woodstock 1999, nos fenómenos diversos que no Mundo e em Portugal tanto condicionam a sociedade e a saúde e bem-estar das pessoas ou até no percurso etimológico da própria palavra – violência – que a traz ao presente a partir do latim “violentia” (vis), associada a algo bravio, de vigor e de potência, bem como a uma ideia de abundância, essência e força (física) em acção. Associada, portanto, a quatro elementos que me parecem essenciais à reflexão sobre este fenómeno, à forma como impacta a sociedade e as pessoas e à forma como é por elas impactada.

Desde logo, a impossibilidade de definição de “uma violência”, antes de violências (individuais, colectivas, institucionais ou estruturais), e as transformações permanentes do que é ou não percepcionado como violência, da sua (in)visibilidade social, política e/ou jurídica e dos normativos sociais e de direitos humanos que as enquadram. Esta realidade acresce complexidade ao fenómeno, pela dificuldade da sua definição estanque, permanente e abstracta, fazendo depender a sua consideração, logo a sua prevenção e mitigação, de quadros éticos e valorativos também partilhados entre (tod)as pessoas e (tod)as instituições da sociedade, desprotegendo dessa forma grupos ou pessoas com menor visibilidade e capacidade e/ou possibilidade de participação.

Existe ainda, de certa forma, uma naturalização das violências na sociedade, como algo inevitável, quando não considerado mesmo relevante à organização da sociedade. Isto é, ainda hoje e em Portugal, evidente em determinados comportamentos individuais (por exemplo, na violência no namoro e doméstica, particularmente a exercida sobre as Mulheres), colectivos (por exemplo, no Desporto e, particularmente, nos grupos organizados de adeptas e adeptos), institucionais (por exemplo, nas instituições e equipamentos sociais, sobre população mais velha e normalmente mais dependente) ou mesmo em questões mais estruturais de organização da sociedade (por exemplo, os fenómenos de discriminação e exclusão, mais ou menos explícitos, de grupos populacionais). Desnaturalizar e invalidar as diversas formas de violência é essencial à sua não legitimação e, nesse sentido, a uma sociedade de maior equidade, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Há também a utilização política das violências, quer com vista à afirmação identitária de grupos mais expostos às mesmas, quer, sobretudo, à utilização da insegurança, do medo e do sofrimento dela resultante com fins políticos. Daqui podem resultar mecanismos pseudo-securitários que, ao invés de garantirem maior segurança da e na diversidade e liberdade, contra ela atentam. Resultam, ainda, desconfianças e incompreensões diversas, muito relacionadas com os fenómenos de tribalização e polarização das sociedades e de fragilização das instituições da sociedade. Resulta, também, a emergência de autoritarismos e a legitimação de determinadas violências, algo a que crescentemente vimos assistido no discurso na proposta política em Portugal.

Finalmente, a forma como o comportamento e a linguagem, e os fenómenos de grupo, contágio e reprodução a eles associados, perpetuam e tornam estruturais as violências. Se o comportamento é a expressão visível das cognições e emoções que para ele contribuem, e por visível, socialmente aprendido, perpetuado e reproduzido, a linguagem e o vocabulário são um reflexo e uma imagem destes pensamentos, destas emoções e destes potenciais comportamentos, reflectindo as estruturas sociais e históricas que os mantêm e perpetuam. Efectivamente, não há neutralidade na comunicação, na expressão e na linguagem e estas podem ser fundamentais na manutenção ou na criação de possibilidades de mudança no sentido de um futuro com menos naturalização, legitimação e utilização das violências. De um futuro com menos violências.

Futuro que, dependendo de todas e todos, independentemente do nosso papel ou responsabilidades na sociedade, será tão mais possível quanto nos envolvermos (pessoas, comunidades e instituições) numa resposta conjunta que assente na ideia da não inevitabilidade das violências e que nos mobilize numa acção concertada visando a sua prevenção e mitigação, assente em quatro objectivos fundamentais.

À cabeça, melhor compreender o fenómeno, para melhor informar as respostas e as políticas públicas. Caracterizar, estudar e aprofundar dados e conhecimento, prevenindo a cristalização de preconceitos e vieses não factual ou cientificamente comprovados. Como disse o Ministro da Administração Interna, na apresentação da Comissão de Análise Integrada da Delinquência Juvenil e da Criminalidade Violenta, temos a responsabilidade de não associarmos automaticamente o aumento em 2021 da “delinquência juvenil e grupal” (num ano em que a criminalidade violenta no global voltou a decrescer) a questões relacionadas com as zonas ou comunidades de proveniência, algo que apenas confirma e perpetua estereótipos, preconceitos e factores de exclusão. Disse, José Luís Carneiro, que devemos analisar “em que medida os efeitos da pandemia, no domínio da saúde mental, podem contribuir para explicar este fenómeno” e “qual o grau de reemergência [também na sequência da pandemia] de fenómenos de exclusão [e isolamento com consequente maior e menos controlada exposição a conteúdos, alguns violentos, nas redes sociais e internet] e de pobreza que possam contribuir para explicar a delinquência juvenil e a criminalidade”. Mais que associar a um grupo de pessoas ou em comunidades, perceber o quão as dimensões macro ajudam a explicar o fenómeno, e logo, informam a possibilidade de intervenção no mesmo.

Um segundo objectivo está, necessariamente, relacionado com a necessidade de promover um ambiente de segurança, também psicológica, e saúde mental nas pessoas e nas comunidades. A vulnerabilidade, qualquer que seja, tem que ser validada, não penalizada. Tem que ser visível, não escondida. Tem que ser apoiada, para que possa ser superada. Outras pessoas e a comunidade no geral devem assumir-se como apoiantes e garantes de suporte da diferença, da diversidade e da ou das pessoas em situação de vulnerabilidade. Devem adoptar posturas e atitudes que criem um ambiente de segurança psicológica fundamental a uma mais adaptativa resposta da pessoa e das comunidades quando confrontada com adversidades. Para tal é fundamental promover a saúde mental, ao longo de todo o ciclo de vida e, particularmente, construir e capacitar respostas nesta área, contingentes e sensíveis às necessidades e aos momentos das pessoas e comunidades. Ambientes psicologicamente seguros e intervenções psicológicas que apoiem a mudança de comportamentos, de cognições e uma melhor gestão e regulação emocional, desempenham um papel muito importante na prevenção das violências.

A intervenção psicológica e psicossocial, constituem elementos essenciais à reparação e ao apoio às vítimas de diversos fenómenos de violência, por isso destaco-as como terceiro objectivo. Porque, não apenas este apoio é devido às pessoas, enquanto direito da mais elementar justiça social, como este apoio é fundamental à prevenção da reprodução e perpetuação de ciclos de violência, onde pessoas vítimas podem vir a ser pessoas agressoras, particularmente quando falamos de vítimas (ou observadoras/es) directas ou indirectas, ainda crianças ou jovens.

Finalmente, o quarto objectivo, a integração, articulação e inovação de respostas. Quando enfrentamos desafios sociais sistémicos e complexos, conforme os que justificam as violências, precisamos de respostas não simplitas (normalmente populares), mas sistémicas, com envolvimento de todas as instituições políticas, jurídicas e sociais. Precisamos de caminhar de uma responsabilização quase exclusivamente interpessoal para a identificação dos mecanismos sociais justificativos e de como os podemos, a par da intervenção individual, modificar, particularmente com políticas sociais que promovam mais possibilidades de inclusão, maior equidade e que verdadeiramente não “deixem ninguém para trás”. Esta modificação promoverá o empoderamento da participação das pessoas e comunidades menos visíveis e, dependerá, fortemente, do combate a discursos e narrativas (de cada um e uma de nós, das decisoras e decisores, das jornalistas e dos jornalistas, para dar apenas alguns exemplos) e a atitudes, comportamentos e decisões (de entidades e autoridades policiais, judiciais e políticas) se não promotoras, legitimadoras, das violências.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, prevenir e mitigar as violências passa por as contextualizarmos no quadro da sua complexidade, por nos mobilizarmos contra a ideia da sua inevitabilidade e contra a sua naturalização e por nos activarmos, qualquer que seja o nosso papel, para a mudança necessária à sua prevenção e mitigação. Para um contributo para uma sociedade de maior inclusão, equidade, coesão e bem-estar para todas e para todos. Para uma sociedade que possibilite a auto-determinação no presente, garantia de futuro.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 21.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/violencias

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Maioridade(s)

Acabo de cumprir o momento do ano em que um segundo, minuto, hora e dia significam (mais) um ano de vida. E, se esse momento significa hoje “apenas” mais um ano de vida, no passado mais um segundo, minuto, hora e dia significaram uma mudança de idade que me garantiu (novos) direitos e deveres.

O meu aniversário de 2022 distou 5 dias da publicação do trabalho da Maria João Bourbon (Fisga; Revista Expresso) focado, exactamente, na questão da maioridade e da recente alteração nessa Lei no Japão (de 20 para 18 anos).

A peça trata a realidade em diferentes países, incluindo Portugal, e procura focar “discrepâncias” entre países e dentro dos países para questões distintas (votar, consumir álcool/tabaco, apostas, conduzir, casar, entre outras). “Discrepâncias” que – digo na peça – considero naturais, afirmando que o que “seria inconsistente com a ciência e o conhecimento disponível seria existir uma idade igual para todas as situações”, particularmente quando os estudos, cada vez mais sólidos, identificam diferentes momentos de maturidade e desenvolvimento que influenciam a idade de maioridade. Nomeadamente “funções mais racionais, cognitivas, de deliberação e de pensamento lógico”, onde, em média. o nível de competência da idade adulta se atinge aos 15/16 anos, e “funções e capacidades mais relacionadas com o autorregulação e a capacidade de controlar determinados impulsos”, onde, em média, se alcança próximo dos 20 anos.

Significa isto, digo, “que existe mais capacidade de tomada de decisão, mais precocemente, que envolva uma situação de saúde (se devem ou não ser alvo de um determinado procedimento, por ex.) do que serem capazes de, a conduzir, não avançarem num sinal amarelo ou para controlarem determinados impulsos relacionados com o consumo de álcool ou jogo”.

Ainda assim, refiro que persistem perplexidades na legislação (como a agora corrigida no Japão que permitia o serviço militar a partir dos 18 anos, mas o direito de voto apenas aos 20) demonstrativas de que nem “sempre há a consideração da melhor evidência disponível”. Afirmo, portanto, que a legislação (e quem a faz e aplica) deve ser sensível aos fenómenos sociais e culturais e ao conhecimento científico, também da psicologia, procurando as melhores e mais informadas decisões e estando disponível para produzir alterações, quando convenientes e suportadas, até pela “complexificação muito significativa dos processos de vivência e de escolha” com que as e os jovens se confrontam na sociedade contemporânea.

Tema exemplar onde ciência, sociedade, Lei e tomada de decisão devem “andar de mãos dadas”. Exemplar do quão certeiro é o mote da rubrica Fisga: “Quem sabe tudo é porque anda muito mal informado”. Do quão certeira é a metáfora de Carlos Fiolhais (“Por vezes os cientistas parecem para os governos como os candeeiros para as pessoas alcoolizadas – mais apoio [encosto] que iluminação”) e do quão assim não deverá ser visando o melhor interesse das pessoas, da justiça e da coesão social.

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Negatividade, espaço público e debate político

Ontem, com o meu filho mais novo no colo e na sua rotina pré-banho, dei por mim a fechar a janela do quarto enquanto lhe dizia “mais um dia de vida”. Mas… Mais um dia de vida (vivido) ou menos um dia de vida (por viver)?

Pensei-o, creio, pela coincidência de ter acontecido o debate “Estado da Nação”. A esse propósito, durante o dia, havia lido o trabalho “De zero a 20, As notas para o estado da Nação” onde “O painel do programa “O Vencedor É..”, da Rádio Observador, faz a avaliação dos protagonistas políticos”. Continuava o título, “A escala é de 0 a 20 (mas não há nenhum 20)”, frase “contida” porque, além de não existir nenhum 20, conforme referido, não existe também nenhum 19, 18, 17, 16 ou mesmo 15.

15 pessoas avaliaram 15 personalidades políticas (225 avaliações) e nenhuma tem mais de 14 valores numa escala de 0 a 20. Ou de 0 a 14, no caso, pois existem 0, 1, 2, 3, 4, 5, … todas as avaliações possíveis entre 0 e 14, incluindo um curioso (porque preciso) 9,5. Podemos pensar que tal decorre por ser a avaliação de um governo num período de especial complexidade, com problemas e erros significativos. No entanto, o painel faz a avaliação “Do Governo à oposição. De Belém a São Bento”, avaliando o Primeiro-ministro e 5 Ministras/os, mas também o Presidente da República, da Assembleia da República e as/os líderes dos 7 partidos com assento parlamentar, incluindo o recém-empossado Luís Montenegro. A título de ex., as notas atribuídas por J.M.Fernandes, publisher do Observador, resultam numa média de 7,8 (média mais baixa é 6,5 – Filomena Martins; média mais alta é 9,6 – Júlio Magalhães/Pedro Raínho). Podemos ainda pensar que tal sucede por se tratar do Observador, mas assim não creio. Ainda que não idêntico, imagino algo próximo noutros órgãos de comunicação social e/ou painéis.

Antes, creio decorrer de alguma falta de consideração da dificuldade do papel e da crescente utilização da dimensão negativa no espaço público e debate político. Independentemente do contexto e apesar de nem sempre assumido, é este o tipo de discurso mais procurado pelas e pelos (e)leitores e espectadores e é o que melhor funciona no estilo comunicacional breve e “sensacionalista” que as redes sociais estimulam e propagam. Assim, os media tendem a promover mais discursos/campanhas negativas, incentivando a sua reprodução, a polarização política e intensificando a associação da “negatividade” à política e às e aos decisores, aumentada pelo viés (da negatividade) que leva as pessoas a considerarem mais (e serem mais impactadas) por informações, factos ou feedbacks negativos (face a positivos).

Ao invés de “fecharmos, abramos janelas” para que, com o país e o Mundo confrontados com desafios societais complexos, com crises de desconfiança e com o autoritarismo a reemergir, possamos ter mais e não menos pessoas disponíveis para dar o seu contributo na política. Mais e não menos pessoas que acreditem nos princípios democráticos e no valor da dignidade e dos direitos humanos.

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Os incêndios e a crise climática.

Acordamos com um Portugal em estado de alerta. Estado semelhante ao que, com excepção da Área Metropolitana de Lisboa (em contingência), o país vivia há exactamente 2 anos. Uma pandemia por um vírus em 2020. O risco imenso de grandes incêndios rurais pela gravosa conjugação de factores climatéricos em 2022. Fenómenos diversos, é certo, mas hoje mais prováveis num Mundo e, particularmente, num Portugal fortemente exposto às consequências da crise climática que vivemos.

Fenómenos diversos, dizia, mas análogos no que remete ao papel do comportamento e da tomada de decisão das pessoas. No que remete para a importância da resiliência individual e colectiva às adversidades, e sua promoção. Para a relevância dos factores de protecção e dos impactos diferenciados em populações com especiais vulnerabilidades. Para a necessidade de decisoras e decisores informarem as suas políticas e decisões na melhor evidência científica disponível e comunicarem com a população de forma clara, transparente, empoderadora e não culpabilizante. Fenómenos diversos, é certo, mas que apelam à psicologia, enquanto ciência e prática, na sua prevenção, no desenho das respostas aos problemas e na intervenção/reparação dos seus impactos nas pessoas, famílias e comunidades.

Na 6ªF, com o país ainda em contingência, junto com o Alexandre Évora e a Andreia Palmeirim (Jornal do Meio Dia; CNN Portugal), discutimo-lo no que se refere aos incêndios. Do contributo da psicologia no momento da prevenção, à compreensão do comportamento e apoio à mudança. Da sua centralidade na promoção da resiliência das pessoas e comunidades, ao treino e testagem de protocolos de actuação, cada vez mais essenciais face ao que o presente e futuro nos reserva. Da sua essencialidade no apoio às populações, qualquer que seja a idade ou condição, mas, particularmente, junto de populações mais vulneráveis: quem revive catástrofes e situações (potencialmente) traumáticas; as e os “profissionais” envolvidos; algumas pessoas mais velhas que, por vezes, vêem a sua identidade, sentido de pertença e autonomia abaladas pela perda de uma casa (ou terreno); as crianças, cuja protecção, a par da compreensão e intencionalização da comunicação, é fundamental. Discutimos o caminho a percorrer, mas também o percorrido, com o reconhecimento, hoje maior, da necessidade de olhar os incêndios também no seu impacto nas pessoas e comunidades e no reforço nos agentes de protecção civil de psicólogas/os para auxílio à decisão e acção.

Partilho este momento. Como partilho a recordação de um vídeo. Imagem alaranjada. Uma mulher, descalça, com uma pequena mangueira. Um oficial da GNR diz-lhe: “Minha senhora, tem que sair daqui” e… “Ai, eu não saio daqui. Tenho os meus animais”. O incêndio lá vinha e, com ele, a perda, o tal momento que tudo muda. Um monstro alimentado por uma crise climática que, passo a passo, elimina o “natural” da expressão “catástrofe natural”. Nem natural nem, cada vez mais, rara. Preparemo-nos. Garantamos agenciamento.

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Ainda o ECP2022

Stephen Reicher. Conheci-o a propósito do estudo das massas (dos grupos). Ouvi-o, por estes dias, pensar a liderança e o comportamento. Como influenciam organizações e governos, a gestão de crises (COVID-19 ou a climática). De como são fundamentais ao contínuo paz-guerra. Recentemente participou num trabalho que resultou num artigo que apresenta em cinco “R”, cinco prioridades das políticas relacionadas com a liderança identitária”: Readying [preparação]; Reflecting [reflexão]; Representanting [representação]; Realizing [realização]; e Reinforcing [reforço]. Além de neles me rever, no dever e na responsabilidade que assumi enquanto coordenador do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), creio 5 “R” farol para o trabalho de contributo de uma associação profissional para os desafios societais que enfrentamos.

Isso discutimos no simpósio que coordenei no European Congress of Psychology 2023 (Human Behavior and Decision Making – Psychology’s Role in Adressing Climate Crisis | Comportamento Humano e Tomada de Decisão – O papel da Psicologia na Crise Climática), onde, também, partindo da defesa da necessidade de caminharmos da pergunta “O que pode a Psicologia contribuir?” para “Como poderíamos enfrentar a crise climática sem o contributo da Psicologia enquanto ciência e profissão?”, apresentei o percurso da OPP nesta área, junto da profissão, da sociedade civil e das decisoras e decisores.

Reforcei também o nosso comprometimento com a Global Psychology Alliance, resultante da Summit que co-organizamos com a American Psychological Association em 2019, e com a EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), onde integro um Grupo de Trabalho. No simpósio, a Amanda Clinton, Ph.D. e a Nicola Gale, respetivamente, apresentaram o trabalho da APA e da EFPA e a Valeriia Palii (Ucrânia) e a Moanna Waitoki (Nova Zelândia), presidentes das respectivas associações nacionais, o trabalho desenvolvido nestes países.

Mas discuti-o também na comunicação (Dealing With a Pandemic in XXI Century – OPP Role and Contributions in COVID-19 Crisis | Lidar com uma pandemia no século XXI – O papel e os contributos da OPP na crise COVID-19]), reflexão da acção da OPP em 2 anos de pandemia. Entre outros, destaquei os contributos na formação e nos documentos orientadores da prática, na literacia, no apoio à criação do serviço de aconselhamento psicológico e da advocacia para a criação e apoio à Task Force das Ciências Comportamentais, coordenada pela Margarida Gaspar de Matos (ali representada pelo Osvaldo Santos), bem como o contributo para a rede de microinfluenciadores da Direção-Geral da Saúde (ali representada pelo Miguel Arriaga).

Momentos que nos recordam que os complexos desafios societais não têm fronteiras, que necessitamos de uma Psicologia com identidade, elevados padrões éticos, globalmente forte e que os psicólogos e psicólogas portuguesas têm tido (e devem continuar a ter) um relevante e reconhecido contributo para tal.

 

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Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal (Ao redor…; Sábado; 08.06.2022)

Uma menina de cara redonda vira a esquina, aproxima-se de dois homens que olham para um buraco que abrem no passeio e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não menina, de uma fuga de gás”, responde um dos homens. “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, vemos na imagem seguinte a Mafalda pensar. Décadas passaram sobre a publicação desta sempre actual tira que suscita em cada um e uma de nós, ou em nós em diferentes momentos, um ímpeto para substituir “raízes nacionais” por um qualquer problema, desafio ou prática e “fuga de gás” por outro qualquer problema, desafio ou prática. Hoje, “raízes nacionais”, evoca em mim a promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos. Já “fuga de gás” situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde. Em bom rigor, hoje a tira de há algumas décadas que questiona a Argentina da Mafalda faz-me pensar a prática da psicologia em contexto escolar em Portugal, hoje.

É verdadeiramente significativa a mudança que ocorreu desde que iniciei (ainda enquanto estagiário, em 2005) ou mesmo desde que interrompi (em 2013) funções como psicólogo com intervenção escolar. É verdadeiramente significativa, particularmente, no potencial impacto destes profissionais junto da comunidade educativa. Esta mudança decorreu, essencialmente, a partir de três grandes e relativamente rápidas transformações: o capital que a psicologia tem hoje na sociedade, o que representa e o seu (re)conhecimento e valorização; o crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos com intervenção em contexto escolar; a transformação conceptual dos referenciais e do seu papel, de intervenções tipicamente remediativas, apenas directas e junto de crianças e jovens com algum problema para intervenções de índole preventiva e promotora, também de consultadoria e junto de todas as crianças e jovens, professoras e professores, direcções, outros profissionais e assistentes e toda a comunidade educativa.

Impacto potencial que advém deste caminho de transição de uma intervenção quase exclusiva com as dificuldades de aprendizagem, a que se somava a orientação e desenvolvimento vocacional, para a intervenção em todo o contexto, apoiando e estimulando a criação de ambientes promotores de aprendizagem e desenvolvimento. Do caminho de intervenções quase exclusivas nos problemas de saúde mental para uma acção promotora da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar. Impacto, apenas potencial por não totalmente cumprido. Porque, se antes não existia este referencial de actuação. Porque, se antes também, já existindo referencial, não existiam profissionais em número mínimo. Porque hoje, mesmo existindo referencial e profissionais num número mais significativo, a ausência de resposta aos problemas das crianças e jovens nos serviços de saúde explica o fosso entre o potencial instalado e a forma como, concretamente, as práticas ocorrem.

É que se já pré-pandemia – também em resultado da crise social e económica do início da década anterior e da não mobilização de respostas contingentes na área da saúde mental – existia uma prevalência de dificuldades e problemas de saúde psicológica nas Escolas portuguesas, a pandemia veio agravar este cenário e acrescentou sofrimento psicológico significativo a muitas crianças e jovens, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Esta realidade foi recentemente reforçada com um importante estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos que, além do sofrimento nas crianças e dos jovens (1 em cada 3), evidencia-o também nas professoras e professores (1 em cada 2). A propósito destes indicadores, e validando as propostas de acções sugeridas no estudo, o Ministro da Educação voltou a assumir o facto das psicólogas e psicólogos serem “necessidades permanentes” das Escolas, a comprometer-se com a continuidade dos profissionais contratados nos últimos anos e a reforçar o “compromisso para com a saúde mental”, assumindo que ainda “não se investiu tanto quanto se devia”. Fê-lo tal qual António Costa havia feito, há semanas e numa conferências sobre o futuro da Europa, quando assumiu a necessidade de ser concretizado um “grande investimento” e a “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para poderem responder” aos problemas de saúde mental e disse ser necessário cumprir um programa “que está a ser desenvolvido, com muito lentidão neste caso, de introdução de psicólogos na Escola de forma a poder haver um melhor acompanhamento, uma melhor protecção e melhor resposta aos problemas de saúde mental entre os jovens”.

Ora, não poderia estar mais de acordo. Ao cumprimento do programa de reforço da psicologia em contexto escolar e transformação progressiva das suas práticas, alinhando-as com a melhor evidência científica disponível, deve corresponder a capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para responder às situações hoje já problema. Isso é essencial para assegurar que existem recursos dirigidos às “fugas de gás”, podendo estas ser intervencionadas onde devem sê-lo (em contexto e com setting clínico, particularmente nos cuidados de saúde primários) pós-sinalização, entre outros, do próprio sistema educativo. Isso é essencial para se libertar recursos para que as “raízes nacionais” sejam “procuradas” e neste caso existam recursos disponíveis para intervir preventivamente onde isso mais deve e pode acontecer – nas Escolas e acompanhando todo o percurso educativo das crianças e jovens. Esta complementaridade porque permitiria também a articulação interinstitucional entre serviços, melhoraria a resposta e torná-la-ia mais eficiente. Permitiria que a “urgência” de responder na Escola a problemas não intervencionados fora dela, por escassez ou ausência de recursos, não invalidasse a oportunidade de se intervir no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde.

Mais isto é fundamental num país ainda de forte exposição da sua população mais jovem aos principais determinantes socioeconómicos dos problemas de saúde mental (pobreza, exclusão e instabilidade nos contextos familiares). Mais isto é fundamental quando sucessivos estudos confirmam a importância do envolvimento das e dos alunos com a Escola e do seu gosto pela Escolar. Vejamos, por exemplo, resultados recentes de um novo estudo com o grupo de pais, mães e crianças que é longitudinalmente seguido desde 1991 (Avon Longitudinal Study) que demonstra que o “gosto pela Escola” de um ou uma estudante aos 6 anos é sensivelmente tão preditor do sucesso escolar aos 16 anos (10 anos depois) quanto o seu nível socioeconómico. Esta conclusão é uma importante pista para a intervenção visto ser, teoricamente, muito mais simples promover o gosto pela Escola quando comparado com a promoção de mudanças estruturais nos níveis socioeconómicos das famílias (ainda que pudessem ser desejáveis). Pista esta que se associa a outra conclusão do estudo (esta menos surpreendente), a forte relação entre o gosto pela Escola das e dos estudantes e a opinião que têm dos seus e das suas professoras, algo que sublinha a amplitude de benefícios de se avaliarem e prevenirem os riscos psicossociais dos profissionais na área de Educação e de se desenharem planos de desenvolvimento das pessoas nesta área.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, comemora-se, por estes dias e desde 1950, o Dia Mundial da Criança. Dia que pretende assinalar a importância da defesa dos direitos das crianças num Mundo onde tantos milhões de crianças e jovens são ainda deles privadas. Dia que hoje evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços” para que “tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e liberdades aqui enunciados”. A humanidade deve-o às crianças e, devendo-o, não pode apenas responder ao urgente, mas, no seu melhor interesse, também ao importante. Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/importante-vs-urgente—-o-sofrimento-psicologico-nas-criancas-e-jovens-em-portugal

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Ao redor... (Revista Sábado) Educação Psicologia

Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal

Quase 70 anos depois, é ainda célebre o discurso onde Eisenhower, ex-presidente dos EUA, disse: “Eu tenho dois tipos de problemas: os urgentes e os importantes; os urgentes, não são importantes; os importantes nunca são urgentes.” Anos mais tarde, Quino revisitou esta dicotomia através de uma tira onde a sua Mafalda se aproxima de dois homens que abrem um buraco e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais? | Não menina, de uma fuga de gás | Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, acaba por dizer.

“Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal”, 34º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre esta dicotomia transportada para prática da psicologia nas Escolas em Portugal, hoje. Sobre como a importante “promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos” é condicionada pela urgência das “situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde”.

O artigo pensa as rápidas e profundas transformações dos últimos anos na prática da psicologia em contexto escolar, particularmente pelo maior capital social e reconhecimento da psicologia; pelo crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos nestes contextos; e pelas alterações conceptuais na sua intervenção, de intervenções quase exclusivamente remediativas para uma prioridade a intervenções de índole preventiva e promotora. Transformações infelizmente não totalmente cumpridas porque a “ausência de resposta aos problemas de saúde mental das crianças e jovens nos serviços de saúde” não permite, muitas vezes, o foco da intervenção no importante e nos novos referenciais dos contextos escolares. Mais quando 1 em cada 3 alunas e alunos manifestam sofrimento psicológico, segundo dados de um estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos (com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses).

António Costa disse recentemente ser necessário um “grande investimento” com vista à “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde na resposta aos problemas de saúde mental”. No fundo, às situações hoje já problema, permitindo intervir-se no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde”.

O Dia Mundial da Criança evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços”. “Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.”

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Psicologia

. final à pobreza

Imagine que esta manhã não tinha qualquer roupa lavada para vestir. Como seria? Que impacto teria no seu dia? Quão menos segura/o ou confiante se sentiria? Ou imagine que não tinha como se deslocar onde precisasse ou quisesse ir, que não podia aceder a um serviço de saúde de que necessita ou ter condições de minimamente aquecer-se em dias frios… Ou, até, que estava a dias do aniversário do seu filho e não tinha como assinalar a data, fazendo uma pequena festa de aniversário ou sequer comprando um pequeno presente.

Estas são situações do quotidiano de muitas e muitas pessoas Mundo fora e também em Portugal. Situações muito mais próximas de todas e todos nós do que por vezes parece ou, simplesmente, do que gostaríamos e que nos lembram que a pobreza não se restringe à gravíssima pobreza extrema. Nos EUA, com indicadores não particularmente distantes dos de Portugal, 6 em cada 10 pessoas viverão pelo menos 1 ano da sua vida em situação de pobreza relativa. Mais de metade das pessoas, realidade certamente próxima da portuguesa e autoexplicativa do porquê da erradicação da pobreza ser o 1º dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Este foi o mote para uma conversa com a Carla Rocha, para a rúbrica Quarto do Fundo, parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que partilho. Conversa que versa o “. final à pobreza”, projecto da OPP que será muito brevemente lançado e que visa a definição de uma estratégia e a implementação de um plano de acção para um mais efectivo contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos para um ponto final à pobreza. Para um ponto final a um dos principais determinantes da (ausência de) saúde e, conforme hoje abundante e robusta evidência científica demonstra, para o mitigar da circularidade existente entre problemas de saúde psicológica (particularmente stresse, ansiedade e depressão) e situações de precariedade, exclusão e pobreza.

Falamos do porquê neste momento, ainda numa pandemia e quando se desenvolve uma absurda guerra, situações que invertem hoje um caminho de décadas de melhorias dos indicadores neste âmbito. Falamos do porquê do contributo da psicologia, pela dignidade, direitos humanos, equidade e coesão social e de como a compreensão do impacto das situações de pobreza no planeamento e tomada de decisão e da (auto)estigmatização e culpa associadas, são fundamentais às intervenções neste âmbito.

Falamos, ainda, das quatro dimensão e âmbitos da estratégia e do futuro plano de acção, com medidas e acções dirigidas à profissão; sociedade civil; decisoras e decisores; e cooperação nacional e internacional. Falamos, finalmente, no quanto creio possível um país e um Mundo sem pobreza e no papel que a mobilização da profissão e das psicólogas e dos psicólogos pode assumir enquanto contributo fundamental para um ponto final à pobreza.