Dois dos elos que unem a maioria dos desafios societais mais significativos do nosso tempo são a desigualdade e a forma como da diversidade não resulta apenas curiosidade, espanto e interesse, mas, também, e de certa forma com crescente intensidade, medo, tensão e ódio. Isto mesmo quando cada um/a de nós tem certamente uma ou mais pessoas ao nosso redor que, por algum motivo, se destacam e diferenciam, muitas vezes a partir do desenvolvimento de um interesse específico. Recuemos dois séculos e a um exemplo.
Pouco sabemos do grupo de pares de infância de Hans Christian Anderson, escritor cuja obra, particularmente a relativa aos contos e fábulas que nos deixou, foi e é tão marcante e relevante para tantas crianças e jovens. Sabemos, no entanto, que nasceu no início do século XIX, num lugar hoje parte da Dinamarca e que o seu pai, sapateiro de profissão, morreu quando tinha apenas 11 anos. Sabemos, também, que apesar disso, nesses anos de vida conjunta, ele impactou a vida do seu filho, talvez decisivamente, ao fomentar a sua imaginação e criatividade, principalmente pela leitura de contos e histórias (entre as quais as “Mil e uma noites”) e pela dramatização, a partir de um teatro de marionetas que construiu para ele.
Podemos questionar-nos sobre o impacto transformador que esta experiência de Hans Christian Anderson teve no desenvolvimento dos seus interesses e na decisão de, aos 14 anos e quando trabalhava como aprendiz de tecelão, mudar-se para Copenhaga perseguindo do sonho de ser actor e integrando o Teatro Real e daí caminhado para a literatura e, particularmente, para as histórias infantis e juvenis. Podemos pensar sobre o impacto transformador de determinados estímulos e experiências na primeira infância e, hoje e para o futuro, sobre a importância de diminuir a arbitrariedade dos mesmos, garantindo acesso a todos os bebés e crianças a estímulos positivos e respostas diferenciadas na educação ou saúde e, depois, ao longo da vida, no acesso a suporte face a necessidades específicas ou na adaptação a circunstâncias e acontecimentos de vida.
Podemos pensar, diria, o papel desta história na reflexão que o levou a escrever, em 1837, o conto “A Nova Roupa do Rei” ou “O Rei vai Nu”, conforme é conhecido em alguns países, incluindo Portugal. Nele duas pessoas enganam o Rei vendendo uma roupa com a suposta extraordinária característica de ser invisível para pessoas, digamos, pouco inteligentes, passando o Rei, ao não assumir que não via a roupa que não existia, a “vesti-la” e as e os seus próximos a “apreciá-la” até uma criança gritar ao Rei que vai nu. Hans Christian Anderson sentia-o no percebia à sua volta. Cada um/a de nós sente-o, hoje, face a alguns programas e serviços públicos que, existindo, na prática não resultam numa resposta adequada, atempada e capacitada. Numa resposta eficiente e eficaz. Programas e serviços em que, muitas vezes, o acesso faz de “roupa do Rei”.
Quando, gerindo listas de espera, se agenda uma primeira consulta de psicologia mas, num processo que necessita de um acompanhamento próximo, a segunda sessão decorre apenas seis meses depois. Quando uma Mulher inicia um processo de interrupção voluntária da gravidez, mas encontra obstáculos a que ele possa decorrer no período previsto e/ou em serviços próximos e a si acessíveis. Quanto alguém sofre um acidente com consequências na sua mobilidade e inicia um processo de reabilitação numa instituição de saúde que finda sem acautelar a transição para a sua habitação, impreparada do ponto de vista da estrutura, e para a necessidade de enfrentar as rotinas de forma autónoma. Quando um bebé ou criança e uma família beneficiariam de um acompanhamento próximo pela equipa de intervenção precoce, mas esta não tem os recursos especializados necessários ao acompanhamento e capacitação da família para apoio ao desenvolvimento do bebé ou criança. Ou mesmo, quando se procura (e bem) garantir o acesso a creche para todos, mas, simultaneamente, não se qualifica e investe na capacitação dos ambientes educativos e na qualidade das práticas nestes contextos. Quando isto acontece, pensar-se, apenas, o acesso é uma armadilha onde cai o debate e sobressalto público, guardando-se pouco espaço para se discutir além do acesso, a qualidade, eficiência e eficácia do serviço ou programa a que se acede.
Convido cada um/a de vós a pensar quanto ouviram reflectido na campanha para as Legislativas de 2024 o além do acesso aos serviços públicos. O além da produção, da evolução do número de actos, de quem os pratica ou pode praticar ou dos números de acesso. Quem ouviu falar da qualidade, do resultado e do impacto dos mesmos e da sua avaliação? Sendo fundamental o acesso e a quantidade, quem ouviu falar da qualidade e organização do serviço ou programa a que se acede e da forma como este pode melhorar, ser mais e mais consistentemente avaliado e servir melhor a promoção da saúde, da educação, do bem-estar e da coesão social?
A qualificação das práticas faz-se a partir de mais experimentação e avaliação, de mais integração do conhecimento científico das áreas específicas e da forma como as pessoas se comportam e tomam decisões e com profissionais empoderados, capacitados e comprometidos. A qualificação das práticas é fundamental à confiança e à melhoria das políticas públicas, sofrendo com a “armadilha do acesso”, ao mesmo tempo que a não qualificação resulta, por si, em maior necessidade e pressão no acesso. Aliás, este ciclo é mesmo fundamental às duas constantes que resultam dessa “armadilha”: a maior arbitrariedade e dependência da “sorte ou azar” de onde se nasce, vive e onde e a qual serviço/profissional se consegue aceder, algo que reforça as desigualdades e, em muito, contribui para a geracionalidade das situações de pobreza; a maior vulnerabilidade de quem, por motivos biológicos, sociais ou ambos, nasce e vive com especificidades face aos “grandes grupos” e às “maiorias”, necessitando de empatia, apoio, suporte e respostas específicas e personalizadas para a sua situação e contingência específica.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, responder aos desafios que enfrentamos também depende de sermos capazes de, enquanto país, crescer e nos desenvolvermos, ao mesmo tempo que reduzimos disparidades e desigualdades. Harold Lasswell publicou um importante livro sobre ciência política cuja título nos confrontava: “Políticas: Quem recebe o quê, quando e como?” Acrescentemos ao recebe, acede. Quem acede a quê, quando e como? Porque não são apenas fundamentais a disponibilidade e o acesso. Também é fundamental a qualidade, organização e eficácia dos serviços e respostas a que se acede para responder aos anseios e expectativas das pessoas, para a garantia de maior equidade e para a redução das disparidades e desigualdades. Porque a qualidade é garantia de mais bem-estar para todas e todos, de mais coesão social e, através dela, para a redução da tensão social existente na sociedade contemporânea.
Tiago Pereira
A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso
in Sábado (Ao redor…); 28.02.2024

