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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”? (Ao redor…; 26.03.2024)

Ou será apenas ao meu redor que tal parece acontecer? Ou melhor, serei apenas eu a senti-lo? Por assim pensar e reflectir, questionei algumas pessoas que, primeiro estranharam, mas, depois e porque mais atentas, sorriram quando acontecia e, de certa forma e à sua maneira, confirmaram. Estarão, então, mais pessoas a dizer a palavra “exacto” e essas mais pessoas mais vezes? Exacto. E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.

Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online) ou de acontecimentos (troika ou quarentena) mas, também, outras palavras e expressões não relacionadas com uma transformação ou acontecimento em específico. “Bué”, “fixe”, “tipo” e, agora, mais recentemente, “exacto”, para dar apenas alguns exemplos.

Não pretendo discutir propriamente porquê “exacto” e porquê neste momento. Antes, assinalá-lo e, ao assinalá-lo, procurar que pensemos a forma como se processa e o impacto que tem um fenómeno apelidado de contágio social. Fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais que incluem, entre outros, a imitação (directa) ou a conformidade e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção, seja ela um comportamento, uma expressão emocional ou mesmo uma palavra ou expressão. O contágio social por via das múltiplas interacções sociais é, nesse sentido, um processo fundamental na forma como nas línguas se criam e universalizam gírias ou modismos, como as diferentes línguas interagem umas com as outras e como se têm transformado e adaptado ao longo do tempo.

Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas. Senão vejamos, a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas, permitindo sucessivamente que essas pessoas cheguem a outras pessoas. Fá-lo ao mesmo tempo que potencia a possibilidade de encontro entre grupos e comunidades, explorando factores de liderança, reverência e relevância e aumentando, também por essa via, não apenas a velocidade, mas também a intensidade do fenómeno de contágio. Intensidade que, por sua vez, é influenciada pelas emoções associadas às acções, algo também potenciado pelas novas tecnologias e, particularmente, quando nos referimos a emoções normalmente classificadas como menos positivas como sejam o ódio, a raiva ou o ressentimento que se propagam a velocidades maiores no contexto das redes sociais. Finalmente, há também o papel importante da conformidade e da pressão (percebida) dos pares nos processos de contágio, algo que, necessariamente, é também aumentado pela presença online e pela forma como decorrem os processos de reconhecimento em ambiente digital.

Aqui chegados creio que restará claro que, conforme o atrás pode permitir compreender o porquê de uma maior utilização em Portugal da expressão “exacto”, apoia também a compreensão de como estes mecanismos são, cada vez com maior eficácia, utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, como podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo como podem, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, também e por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.

O contágio social é assim um veículo importante para processos de deslegitimação de comportamentos ou crenças outrora legitimados socialmente e vice-versa. Também porque uma maior e mais permanente presença de um determinado fenómeno no espaço social e, hoje, mediático tende para a sua normalização e naturalização e, por essa via, para uma progressiva alteração das normas sociais vigentes, proporcionando maior aceitação de comportamentos ou acções antes não aceites ou a rejeição de comportamentos ou acções antes aceites, mudanças que, por vezes, podem gerar desconforto, conflito ou até sobressalto social. Neste sentido, particularmente em questões mais ideológica ou socialmente fracturantes, o contágio social tem o paradoxo de tender para a generalização de uma crença ou comportamento no seio de um grupo ou comunidade mas, ao mesmo tempo, potencial de fragmentação, de polarização e de diminuição do espaço de compromisso e construção conjunta, porquanto esse grupo e comunidade tenderá a afastar-se progressivamente mais e mais significativamente de outros grupos e comunidades com crenças e comportamentos distintos. Por vezes opostos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o contágio social tem um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas, suportando importantes mudanças sociais com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. Tê-lo presente é ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.

 

 

Tiago Pereira

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

in Sábado (Ao redor…); 26.03.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tem-reparado-que-agora-mais-pessoas-dizem-mais-vezes-exacto

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Uma (só) Saúde

Ao contrário do que aconteceu com a Educação, “na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo (…) Há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as suas próprias competências se vão alterando e indiciando a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?”

“Uma (só) Saúde”?, 80º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre como, “com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas”, caminhamos do modelo biomédico para o modelo biopsicossocial (explicitando-os) e o aprofundamos, acrescentando progressivamente às dimensões sociais e psicológicas, a saúde dos restantes animais e o cuidado e integridade com o meio ambiente e ecossistemas, numa abordagem integrativa conhecida por “uma (só) saúde” [“One health”].

“Neste caminho assistimos a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação e desenvolvimento e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.”

“Esta transformação progressiva foi assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”] (…) Dia em que, a partir da abordagem “One health”, o conjunto das nove Ordens da Saúde apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal, sublinhando a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do SNS, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; (…) reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental (…) e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.”

“Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.”

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Comportamento Democracia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Como hoje é dia 4 do mês 4 de 2024 partilho 4 parágrafos de reflexão com quem tiver 4 minutos de paciência. Versam sobre logotipo(s), logoterapia e (erradicação da) pobreza.

Nas últimas horas falamos do novo Governo muito em torno da mudança de logotipo por este promovida. Muito haverá a reflectir sobre a mudança, o timing e sobre o quão mobilizador, polarizador (conforme muito do que é mobilizador hoje) e emocional (idem) este tema é. Falamos menos de outro “logo” (por ex. utilizado por V. Frankl na descrição da logoterapia, modelo psicoterapêutico que parte da procura de um sentido de vida como motor de desenvolvimento e adaptação da pessoa), ou seja do sentido, propósito(s) e princípios orientadores do Governo na compreensão e interpretação da realidade actual e projecção do futuro.

Aqui permitam-me uma sugestão: discutamos a pobreza e reforcemos o desígnio de a erradicar. A pobreza que, talvez mais que qualquer outro fenómeno, fragiliza a coesão social e interfere com a saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação das pessoas e com a prosperidade do país. A pobreza e a desigualdade a que está fortemente associada, cujo combate, como Gordon Brown refere no artigo que partilho, “pode ser uma razão de optimismo” [quando ele não abunda], de “parceria que junte organizações sociais, empresariais, comunitárias e o Governo (…) num projecto de unidade e esperança” [quando projectos de unidade e esperança não abundam] e “um sinal que todo o país necessita: o princípio do fim” [da pobreza]. Sinal que dependeria de mais do que duas breves menções à pobreza no discurso de tomada de posse quando comparadas, por ex., com 4 relativas à corrupção e outras 4 à burocracia. Sinal que poderia partir do reforço do compromisso com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza e da priorização do combate à pobreza e à desigualdade como força motriz de construção conjunta na Assembleia da República.

Este não é um momento qualquer para o fazer. Daqui a 3 semanas cumprimos 5 décadas de Democracia (aconselho o “Viva a Democracia – 50 anos e o Futuro”) e podemos orgulhar-nos, creio, de sermos o país da Europa em que mais pessoas (72%) associam o “assegurar que não existe pobreza” a um “princípio fundamental da Democracia”. Reforçar a Democracia, combater populismos e pessoas providenciais, decorre de respondermos à pobreza e desigualdade que permanecem como uma das principais preocupações da população (também com a Democracia).

Que lhe sejamos responsivos e que nos mobilizemos. Que o façamos cuidando do que a Irene Flunser Pimentel tão sabiamente refere no 1º episódio do documentário: que “a grande desigualdade decorre na vida privada, não nas Leis”, acrescento eu, decorre na desigualdade e na(s) violência(s) explicitas e implícitas na vida de pessoas ao nosso redor, não raras vezes escondidas entre paredes, parte das quais legitimadas pela história, por narrativas ou mesmo por discursos proferidos ou intuídos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

Exacto. Exactamente. Exacto… Também sentem, ao vosso redor, que agora mais pessoas mais vezes dizem “exacto”? “E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.“

“Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?, 79º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão para reflectir sobre o papel e impacto do contágio social.

“Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online), de acontecimentos (troikaou quarentena) mas, também, palavras e expressões como “bué”, “fixe” ou “tipo”.

Não pretendo, portanto, discutir porquê “exacto” e porquê agora. Antes assinalá-lo e pensar o contágio social, “fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais (…) e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção.”

“Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas”. Por exemplo [outros são detalhados no artigo], “a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas.”

Os processos de contágio social são, por isso e cada vez com maior eficácia, “utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.”

“O contágio social tem, assim, um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. É ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.”

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

Kahnemam. 90 anos.

“Tudo o que fiz foi colaborativo”, disse Daniel Kahneman numa entrevista-almoço ao Finantial Times em Maio de 2021 a propósito da apresentação do seu último livro – “Ruído | Como tomamos más decisões e como podemos evitá-lo”, título da tradução portuguesa.

O trabalho de Kahnemam, a forma como o comunicou e, mais importante, o colocou colaborativamente ao serviço da sociedade foi fundamental na afirmação do contributo mais amplo e com impacto da psicologia e na compreensão do comportamento humano e dos processos de tomada de decisão.

Foi, entre outros reconhecimentos, galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2002. Na conferência associada a este prémio – “Maps of Bounded Rationality” – desde logo pelas palavras que dedica a Amos Tversky, companheiro de estudos e de vida falecido 6 anos antes, deixa claro um conjunto de características que quem de perto o conhecia lhe reconhecia: a junção feliz de uma inteligência e capacidade de análise ímpar com uma imensa abertura a novos saberes, conhecimento e às outras pessoas.

“Uma mente aberta”, algo sempre consigo até final da sua vida e reflectido, por exemplo, na participação que teve nos últimos anos no debate sobre os impactos nas pessoas, na tomada de decisão e na sociedade da inteligência artificial e, mais especificamente, dos novos modelos de linguagem e de aprendizagem profunda. “Uma mente aberta” e uma inquietude que antes o levou, em diferentes momentos e países, a ser decisivo para o aprofundamento dos contributos da psicologia, e de forma mais ampla das ciências comportamentais, para as políticas públicas e para a promoção do bem-estar, tendo mesmo recebido o mais elevado reconhecimento civil nos EUA em 2013 de Barack Obama. De um Obama que considera um dos seus livros – “Pensar Depressa e Devagar,” título da tradução portuguesa – um dos 10 mais importantes livros que leu.

O fim de vida que falava chegou ontem. Tinha 90 anos.

É, como podem perceber e como quem me lê habitualmente saberá, uma pessoa muito relevante no meu processo de reflexão e desenvolvimento. Desafiou-me, muito. É um dos psicólogos e psicólogas cujos livros ofereço (também) a não psicólogas e psicólogos, incluindo a pessoas que muito gosto, como fiz não há muito com o seu último livro. É uma perda tremenda, mas deixa um legado que, espero, o orgulhe e orgulhe todas e todos quantos participaram em “tudo o que [fez colaborativamente]”.

Continuemo-lo. Cumprindo-o.

Obrigado, Kahneman.

 

Entrevista Finantial Times (Maio, 2021): https://www.ft.com/content/7cf78f4f-d40a-44f1-9946-e78eccb3da57

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Comportamento Desafios da Psicologia Educação Política Psicologia

O valor económico das competências sócio-emocionais na infância (Sábado, 13.03.2024)

Não é muito frequente serem disponibilizados estudos que, porque seguem um número significativo de pessoas durante diferentes décadas, permitem relacionar indicadores de comportamento (por exemplo) na infância e indicadores de “sucesso” na vida profissional (por exemplo) na idade adulta. Também por isso, quando tal acontece, à tendência natural que temos em conferir-lhes uma especial atenção devemos juntar alguma prudência na análise dos dados e resultados. Assim deve ser com o interessante estudo recentemente publicado por três investigadoras/es da Universidade de Essex | “The economic value of childhood socio-emotional skills” [O valor económico das competências sócio-emocionais na infância] https://www.iser.essex.ac.uk/wp-content/uploads/files/working-papers/iser/2024-01.pdf

O estudo parte de uma Coorte no Reino Unido com dados sobre quase 17.000 pessoas nascidas na segunda semana de Abril de 1970 e discute a relação entre capacidades sociais e emocionais dessas pessoas avaliadas aos 10 anos e dados relativos aos seus vencimentos (salários) em 2016. Permite concluir que as pessoas que aos 10 anos manifestavam mais problemas de atenção, menor capacidade de relação com os pares e cooperação e maior instabilidade e dificuldade de regulação emocional, 36 anos depois recebiam, em média, salários mais baixos face a pessoas que em criança apresentavam melhores resultados nestes três indicadores, algo que tende a suportar a importância de se investir no desenvolvimento precoce das competências sócio-emocionais, de relação e cooperação e de atenção. “Se isto era verdade há 50 anos é muito mais verdade hoje”, destaco no trabalho da Leonor Riso da Revista SÁBADO a este propósito, referindo ser fundamental “apostar no desenvolvimento do foco, da empatia, da adaptação e do trabalho em equipa numa sociedade [hoje] muito mais rápida”, mais incerta e mais complexa.

Noutro prisma, o estudo apresenta também dados que indicam que crianças que manifestavam problemas de comportamento e maior agressividade recebiam, em média, salários mais elevados face a crianças que manifestavam menos problemas de comportamento e menor agressividade. Na peço, quer eu, quer a Maria José Chambel, procuramos esclarecer sobre o conjunto de factores mediadores que podem apoiar a compreensão desta associação, distinguindo-a de efeitos de causalidade (causa-efeito). Reflectimos sobre a forma como estes comportamentos na infância podem ter tendido para comportamentos mais assertivos na idade adulta (até pelo cruzamento com os dados acima relativos à regulação emocional e relação com os pares), como podiam resultar de ambientes mais competitivo e que favorecia este tipo de comportamentos em ambiente educativo em 1980 (importa pensar como hoje, particularmente em alguns níveis de ensino, isto ainda acontece) ou como estas dinâmicas influenciam círculos de relação, interesse e as escolhas vocacionais e de carreia que necessariamente impactam as condições salariais futuras.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

Legislómetro 2024: O Pulsómetro e umas Legislativas para não esquecer (Ao redor…; 13.03.2024)

Pulsómetro, um “indicador de sentimento nas redes sociais”. A CNN Portugal lançou e projectou uma ferramenta experimental que, segundo informou, analisou, “durante a última campanha eleitoral e em tempo real, milhões de dados publicados nas redes sociais com recurso à inteligência artificial”. Disse, também, ser assim formulada “uma aproximação precisa da opinião pública relativamente aos debates eleitorais”. Fê-lo em conjunto com a “Augusta Labs”, organização que se diz “comprometida em aumentar a produtividade corporativa” e cujo seu mandato diz ser “economizar dinheiro para as empresas, diminuindo as perdas de tempo e salvando os seres humanos de tarefas aborrecidas que drenam a moral”.

Não me entendam mal, creio muito importante a integração da tecnologia no nosso dia-a-dia e o seu contributo para um conjunto significativo de desafios pessoais e societais.  Contributo tanto maior quanto se consiga integrar no seu desenvolvimento dimensões éticas, conhecimento científico da forma como os seres humanos se comportam, tomam decisões e interagem com a tecnologia e quando existir rastreabilidade do seu funcionamento e um alinhamento dos seus princípios e valores e da sua utilização e impacto com os direitos e a dignidade humana, no presente e para o futuro. Por assim o crer, e por considerar relevante o uso da inteligência artificial na comunicação e, até, no jornalismo, estranho a publicitação e a forma de disseminação por um órgão de comunicação social de resultados desta ferramenta, que, embora referida como experimental, se procura apresentar como tecnicamente fiável, sendo assegurado pelas entidades que “o modelo utilizado é desprovido de inclinações políticas, garantindo imparcialidade na interpretação dos dados”, ou seja, imparcialidade na “análise de sentimento [relativo] às várias interações identificadas”.

Fá-lo, porém, num contexto (diversas redes sociais) sem mediadoras/es. Fá-lo, porém, num contexto onde o valor da verdade e dos factos é relativo face ao da opinião e da desinformação. Fá-lo, porém, num contexto com algoritmos próprios que, baseados em modelos e princípios económicos e no impacto imediato (desconsiderando importantes externalidades de médio e longo prazo, nomeadamente as referentes ao discurso de ódio e polarização), resultam numa propagação mais rápida e com maior alcance de expressões e posições baseadas em emoções percepcionadas como menos positivas, como o medo, a raiva ou o ódio, face a outros tipo de manifestações como o apoio, a concordância ou a favorabilidade. Fá-lo, porém, sem qualquer intervenção humana após a reunião e classificação da informação pela ferramenta. Fá-lo, portanto, num contexto que tende para a incompatibilidade com um espaço e ferramenta “desprovida de inclinações políticas”, porquanto, como sabemos, com os resultados que conhecemos, há partidos em Portugal que usam determinadas redes sociais, a ausência de mediadoras/es, a desinformação e as emoções percepcionadas como negativas como veículo para a reunião e agregação de seguidoras/es, de apoiantes e de militantes. Fá-lo, finalmente, projectando e legitimando uma ferramenta não conforme as boas práticas científicas (com método e normas, como acontece com as sondagens) ou da Inteligência Artificial, porque não perceptível, porque pouco clara, transparente e rastreável, além de que, pelas suas características, ao contrário de uma “aproximação precisa da opinião pública”, parece favorecer o enfraquecimento do debate público e, com isso, dos princípios e valores da própria democracia.

O pulsómetro, dizem, mede, desta forma, sentimentos. Nada mais complexo. Nada ainda mais complexo quando a partir de um tweet, um post ou um comentário numa rede social. Um complexo tornado simples, não matizado. Um exemplo, qual sinal dos tempos que, curiosamente, pode possibilitar e promover discursos que reforçam forças e partidos populistas que sistematicamente afirmam poder, também, resolver desafios individuais e societais complexos com soluções simples, não matizadas e imediatas.

Tivéramos nós um legislómetro e observá-lo-iamos, com a devida intensidade, nas Legislativas de Domingo passado. Legislativas que, creio, recordaremos por muitos e bons anos e que, ao contrário do que muitas e muitos democratas e defensores de uma visão dos direitos humanos tendente à possibilidade de autodeterminação das pessoas entendem, não são para esquecer. São umas Legislativas para inscrever e para com elas sermos congruentes. Dos cuidados éticos, de transparência e de alinhamento ético na utilização da inteligência artificial para o futuro, ao reforço da mediação em tempos de superior impacto da desinformação, passando pela necessidade de estimularmos um debate público, também, construtivo, também com responsabilidade e a apontar ao médio e longo prazo, por oposição ao, unicamente, polarizador, casuístico e imediatista.

Umas Legislativas para inscrever, porquanto os seus resultados devem motivar-nos e activar-nos para prevenirmos o que, no Mundo e em Portugal, favorece a adesão a forças e partidos populistas cujo discurso invariavelmente se baseia num nós contra outras/os poderoso em tempos de incerteza, de imprevisibilidade e de potencial divisão. É fundamental, como antidoto, investirmos decisivamente em criar mais condições para mais saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar na população. Investirmos num combate sem tréguas, colectivo e como desígnio nacional à pobreza e às mais diversas formas de violência, exclusão e discriminação. Criarmos condições para uma sociedade menos desigual e com maior equidade e igualdade de oportunidades. Para uma sociedade menos individualista e mais colectiva onde a civilidade, a cordialidade e a construção e suporte conjunto sejam factores protectores decisivos nos acontecimentos de vida significativos de cada pessoa e nos desafios individuais e societais mais complexos. Uma sociedade de aceitação e reconhecimento, de pontes e de conexão.

Fazer, falhar melhor aqui, prevenindo que pessoas como cada um/a de nós sinta adesão e entenda propósito no discurso populista. Fazer, falhar melhor aqui e, em simultâneo, não ostracizar, antes compreender, empatizar e conversar com quem assim o sentiu ou sente, não criando fossos, antes apoiando e suportando processos de re-identificação e re-significação e espaço para que pessoas possam mudar e na mudança ser aceites.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, sabemos que antes dos momentos de grande transformação política e social vem, normalmente, a retórica do ódio e a sua normalização. Sabemos, também, que as e os “aquém” – que a Clara Cardoso tão bem tem descrito enquanto as pessoas que, seja em que dimensões for, “estão longe daquilo que eram as suas expectativas” – com os factores de risco certos e sem factores de protecção, são susceptíveis a forças e partidos que usam do ódio, do ressentimento e da raiva como motores da sua ascensão. É hora de sermos coerentes e consequentes com o que sabemos. Mais tarde poderá ser tarde demais.

 

Tiago Pereira,

Legislómetro 2024: O Pulsómetro e umas Legislativas para não esquecer

in Sábado (Ao redor…); 22.02.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislometro-2024-o-pulsometro-e-umas-legislativas-para-nao-esquecer

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Do amor ninguém foge…

Por estes dias o meu pensamento (e o meu coração) ligam-me ao Brasil. Talvez também por isso, vi o “Do amor ninguém foge”. Documentário cujo título é a “expressão maior” dos centros APAC, Estabelecimentos Prisionais (EP) geridos, grosso modo, por pessoas voluntárias, sem polícias ou guardas e onde as pessoas detidas são co-responsáveis pela gestão, incluindo a segurança, e pelas actividades e operação do próprio centro.

Cor num quadro negro que são os EP tradicionais no Brasil, como vários relatórios internacionais têm destacado e tragédias como a do EP de Manaus (2017) demonstram. São hoje mais de 50 os centros APAC no Brasil, inspirados de experiências noutros países, porque, mais que uma “utopia”, apresentam resultados. Levantando, naturalmente, questões relativas aos seus princípios, é fundamental atendermos a um projecto com décadas e com resultados na melhoria da percepção da satisfação das pessoas detidas com o seu processo de recuperação; na menor incidência de violência e inexistência de motins; na melhoria da reintegração (taxas de reincidência significativamente inferiores à dos EP tradicionais); e, até, no próprio custo directo para o sistema, considerando que o custo médio por pessoa num centro APAC é cerca de um terço do custo médio nos restantes EP.

Num momento em que a defesa dos Direitos Humanos e as Democracias persistem em declínio Mundo fora (veja-se o recente relatório do “V-Dem Institute”), é fundamental melhorarmos os serviços nos diferentes países, tornando-os mais eficientes, mais geradores de oportunidades, de equidade e promotores de bem-estar. É necessário mudar, estudando os problemas e o que os mantém, pensando, planeando e ousando fazer diferente. Falhar, talvez. Mas fazer diferente, para conseguirmos fazer melhor.

Vi o documentário (que recomendo) no dia em que terminei de ler o livro “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de outro”. Livro em torno da odisseia de Maria Lamas retratando e escrevendo as “Mulheres do meu país”, escrito por Susana Moreira Marques que, numa passagem, pensando num diálogo com a sua filha, reflecte sobre como “é fácil mostrar como era [a vida das Mulheres naquela década de 1940] mas é difícil explicar porquê”. Penso nos EP em 2023, não apenas, mas em Portugal, e em como é fácil mostrar como são, explicar porque são como são, mas, ao mesmo tempo, aceitar que ainda são como são.

“Tem gente presa no passado, tem gente presa no futuro… tem gente presa na cadeia e gente presa pelas ruas (…) Tem gente se sentindo presa por ser pobre e gente se sentindo presa por ter muita riqueza (…) O que prende a gente não parece ser o frio ou o calor, nem filho nem solidão, nem ter nascido na Bolívia ou no Japão, nem a idade, nem o ferro de uma grade. O que é que prende a gente? O que é que liberta a gente?”, diz uma personagem no final do documentário.

“O que é que prende a gente” de mudar? “O que é que liberta a gente” para ousar mudar, para fazer melhor?

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Espaço Jovem, Congresso

Neste último Sábado Gabriel Attal comemorou o seu 35º aniversário. Depois de ter tomado posse em Janeiro último, fê-lo enquanto primeiro-ministro de França, sexta maior economia mundial, num período particularmente incerto e exigente. Foi (é) o primeiro-ministro mais novo de sempre em França, depois de ter sido Ministro antes dos 30 anos. E foi nomeado por Macron, também ele, quando inicialmente eleito, o Presidente mais jovem de sempre em França e que tem sempre defendido a necessidade de incluir mais pessoas, mais jovens, nos processos políticos, pela identificação, participação e inovação que aportam ao debate, à co-construção e à decisão política.

Não posso estar mais de acordo e, creio que, além da justiça intergeracional que representa, que o tempo e os desafios que vivemos o exigem. Na política, certamente. Como noutras áreas da nossa vivência cidadã e profissional.

Na Ordem dos Psicólogos Portugueses temos procurado fazê-lo. Desde logo no conjunto de iniciativas que, desde há anos, mantemos junto de estudantes de psicologia, incluindo o mais recente projecto Estudante Embaixador OPP cuja candidatura para a 2ª geração se encontra aberta. Depois junto de diplomadas/os em psicologia e no acompanhamento dos anos profissionais júnior (estágios profissionais), incluindo o conselho consultivo. Ainda num conjunto de iniciativas conjuntas com associações representativas de estudantes e jovens profissionais e num grupo de trabalho com jovens psicólogas/os recentemente criado, numa tentativa de generalizar a identificação e participação da camada mais jovem da profissão no debate, co-construção e decisão da sua organização.

Voltamos a fazê-lo no próximo (6º) Congresso da OPP que decorre em simultâneo com o XIII Congresso da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP), em Setembro e no CCB. Nele teremos o “Espaço Jovem” onde, partindo-se do conceito 3MT®, desenvolvido na Universidade de Queensland convidamos estudantes, diplomadas/os, psicólogas/os júnior e membros efectivos nos seus primeiros 5 anos de actividade, fundamentais para o crescimento da profissão, a apresentarem trabalhos relativos à sua prática profissional e/ou de investigação. Além dos prémios monetários previstos para as/os vencedoras/es, pretende-se reforçar a sua participação activa, reconhecer, dar visibilidade, comunicar e disseminar os trabalhos, bem como promover redes de contacto entre profissionais.

Se cumpres os critérios, submete o teu trabalho para avaliação pela comissão científica, também ela com jovens profissionais, presidida pela Isabel Soares. Se não, participe no Congresso e, desfrute, entre outras iniciativas e espaços de (re)encontro, neste Espaço Jovem.

2ª Geração – Estudante Embaixador OPP: aqui:

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Pobreza e problemas de saúde mental nas crianças e famílias: as duas faces da mesma moeda (Diário de Notícias; 22.02.2024)

Em 2022 assistimos a um aumento da taxa de risco de pobreza em Portugal. De acordo com o INE, 17% da população do nosso país viveu com rendimentos líquidos inferiores a 591 euros, mais 0,6 pontos percentuais que em 2021. Todavia, foram 20,7% as crianças que viveram em situação de pobreza, mais 2,2 pontos percentuais que em 2021.

A pobreza é um fator de risco bem conhecido para problemas de saúde mental uma vez que restringe o acesso a recursos económicos, sociais e pessoais necessários a uma vida saudável. Esta restrição, por sua vez, afeta o comportamento e diversos processos psicológicos e cognitivos. Assim, pessoas com menores rendimentos são expostas, com maior frequência, a fatores de risco e a hábitos de vida pouco saudáveis. A exposição a eventos adversos na infância é um mecanismo pelo qual a pobreza e a privação de recursos prejudicam a saúde mental. A situação de pobreza está muitas vezes associada a outras condições de vulnerabilidade. Ser criança em situação de vulnerabilidade social é, por vezes, também não ter família; viver em famílias desestruturadas, estar exposta, desde tenra idade, à violência doméstica, ao tráfico ilícito ou à dependência das drogas, ser olhada, viver na insegurança permanente, possuir uma baixa autoestima e não ter razões e estímulos para alimentar sonhos de um futuro esperançoso. A exposição a estas experiências adversas durante a infância está fortemente associada ao desenvolvimento de problemas de saúde mental ao longo da vida, tais como perturbações psiquiátricas e abuso de álcool.

Para além de constituir uma violação dos direitos humanos fundamentais a não erradicação da pobreza entre a população infantil significa uma dupla tragédia. Para a criança, que vê prejudicado o seu desenvolvimento físico, intelectual, mental e moral a que tem direito e, consequentemente, o seu futuro ficará comprometido; e para sociedade, que ao não preservar e desenvolver, o seu capital humano está a transferir custos sociais para as gerações vindouras.

Assim, uma estratégia eficaz de combate à pobreza tem que considerar, obrigatoriamente, a promoção da saúde mental, da mesma forma que a saúde mental da população depende de uma diminuição das situações de precariedade, pobreza e exclusão, particularmente nas crianças e jovens.

Consideramos que existem prioridades estratégicas em políticas públicas com vista à promoção da saúde e bem-estar de crianças e jovens e à diminuição das situações de pobreza e exclusão e sua “geracionalidade”. A primeira, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé (9 meses de gestação e os 2 primeiros anos de vida extrauterina) e aos impactos negativos no seu desenvolvimento integral, resultantes da exposição a situações de stresse significativo; Também a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde, incluindo saúde mental, para responder, precocemente e de forma contingente, às primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias. Outras estratégias seriam a generalização do acesso a contextos educativos de qualidade a bebés e crianças dos 0 aos 3 anos e investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades e com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade. Por fim, melhorar a qualidade do acolhimento residencial e reforçar os mecanismos de prevenção da violência doméstica e de reparação e mitigação de situações traumáticas.

O reconhecimento de que os problemas de saúde mental, nas crianças e famílias, são simultaneamente causa e consequência de situações de vulnerabilidade social, motivou a Universidade de Coimbra a associar-se a um consórcio europeu para implementar em Portugal o Projeto Europeu “Lets Talk About Children”. Este projeto, que se iniciou em 2023, permitirá capacitar os agentes de proximidade com crianças e jovens, como professores, educadores, outros profissionais da educação, da saúde e da área social, para que possam adquirir novas competências para trabalhar com as famílias, reconhecendo precocemente as suas necessidades psicossociais. É necessário, cada vez mais, que diversos agentes da sociedade civil se unam no compromisso de prevenção e redução à exposição de fenómenos de pobreza e exclusão das crianças e jovens.

 

Tiago Pereira, Paula Duarte e Joaquim Cerejeira

Pobreza e problemas de saúde mental nas crianças e famílias: as duas faces da mesma moeda

Diário de Notícias; 22.02.2024

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