Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Política Psicologia Tecnologia

Hawkins, IA e o que estamos a fazer e podemos fazer

Por estes dias, olhamos ao nosso redor e não é difícil que, face a certos acontecimentos e fenómenos sociais, sintamos uma certa “repetição da história” e um regresso a situações que, porventura, julgávamos “impossíveis de repetir”. Da Guerra na Europa, a um certo discurso de ódio, passando por um certo recrudescimento da violência e desigualdade de género, para dar apenas alguns exemplos. Tudo a lembrar-nos que não há futuro sem passado, passado este que importa ter sempre presente e “inscrito” para um melhor futuro.

Penso-o, hoje, a propósito do vertiginoso avanço da inteligência artificial e da recente disponibilização do ChatGPT 4o, face mais visível e reconhecida de uma série de ferramentas que, a cada dia, passamos a dispor e/ou impactam a nossa vida. Em rigor, que algumas pessoas, e apenas algumas pessoas – por razões diversas, desde o conhecimento e literacia, aos receios, medos e resistência e, naturalmente, às desigualdades sociais e económicas – têm ao seu dispor, mas que impactam, significativamente, a vida de todas as pessoas.

E penso-o evocando Stephen Hawkins a partir do artigo que partilho, que publicou no “The Independent” com colegas há 10 anos (4 anos antes do seu desaparecimento). Parte da pergunta base se “estamos mesmo a levar a sério as implicações da inteligência artificial?”, alertando que é um erro (talvez “o maior erro da história humana”) pensarmos que máquinas superinteligentes sejam “mera ficção científica” quando os avanços na inteligência artificial são (eram já) tão velozes.

Hawkins escrevia-o quando surgiam as primeiras experiências de condução autónoma ou de assistentes como a Siri, portanto distante ainda do potencial que hoje reconhecemos noutras ferramentas, mas suportado nos “investimentos sem precedentes nesse desenvolvimento” e nas fundações “conceptuais e teóricas sólidas” que o faziam crer (como hoje testemunhamos) que o desenvolvimento seria tremendamente impactante e rápido.

Hawkins afirma que a IA podia ser o mais transformador acontecimento na história humana e ter, porventura, “potencial de erradicar a guerra, a pobreza ou a(s) doença(s)” mas, ao mesmo tempo, dois enormes riscos: a) de atingirmos a superinteligência e tecnologias que possam “desconstuir mercados financeiros, manipular líderes humanos ou desenvolver armas que não podemos sequer compreender”; b) de fazermos pouco para, pela investigação, preparação e regulação, influenciar positivamente estas mudanças (sobre isto, partilho este meu pequeno contributo).

Estávamos a “levar a sério” há 10 anos? E estamos hoje? Penso que não totalmente e que podemos, pensando e inscrevendo o passado, fazer mais no presente (com o contributo e reivindicação de cada um/a de nós) para um futuro. Melhor.

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Psicologia

Os acasos felizes acontecem quando saímos de casa e estamos abertos aos outros

“Os acasos felizes acontecem quando saímos de casa e estamos abertos aos outros”, disse…

…Em resposta à pergunta “O que pode contribuir para minimizar o azar? Ou encontrar acasos felizes?”, feita pela @Clara Soares, no âmbito de uma entrevista/contributo que partilho para um trabalho maior intitulado “A ciência da Sorte”, parte da penúltima edição da Revista @Visão.

Nela procuro contribuir para a reflexão sobre este tema a partir dos contributos da ciência psicológica. Abordo, desde logo, a serendipidade – processo de desenvolver ou encontrar coisas felizes, úteis ou interessantes por acaso – para muitas pessoas uma forma especial de criatividade, e o quanto depende da perseverança, da inteligência (particularmente a “fluída”) e do sentido de observação e empatia com o que e quem nos rodeia.

Falamos de incerteza, de imprevisibilidade, e do quanto ontem, como hoje, as lendas, o pensamento mágico, as mezinhas também resultam de uma tentativa de maior controlo por parte das pessoas e funcionam como estratégias para lidar com essa incerteza, da própria pessoa ou das outras pessoas. Reflectimos sobre profecias que se auto-realizam, nomeadamente sublinhando como a expectativa (negativa ou positiva) influencia o nosso comportamento e as emoções associadas a determinados fenómenos e quanto isso implica (negativa ou positivamente) o nosso foco e comprometimento, impactando o resultado final e contribuindo para essa percepção da auto-realização das expectativas.

Discutimos ainda o papel do “viés do mundo justo” e de uma tendência nossa (humana) para uma atribuição causal de tudo quanto nos sucede e de como isso – por exemplo nas situações de pobreza ou violência – pode resultar numa (auto)atribuição de culpa/responsabilidade a quem vive determinada situação. Noutro sentido, falamos também do “viés da sobrevivência” e de como tendemos a olhar para casos absolutamente excepcionais como se fossem “comuns”, esquecendo que o mais natural é o que sucede com o(s) que não é(são) excepcional(ais).

Termino com a necessidade de abertura ao que nos rodeia e às outras pessoas, também com empatia, como veículo para os tais acasos felizes e o quão importante ao bem-estar é a capacidade de adaptação, de transformação do que nos acontece e de alguma “higiene de informação”, prevenindo uma visão do Mundo como um lugar “perigoso e azarento”. Com elas e com o quanto, as oportunidades de sentirmos propósito, contribuem para o meu e nosso bem-estar…

…Para que sinta o quanto a vida me ter dado oportunidades para me sentir realizado.

Link para a Entrevista

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Educação Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

“Propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. É assim que Fred Rogers, criador e apresentador do “Mister Rogers Neighborhood” (programa infantil da década de 1960 que inspira a série “Daniel Tigre”), descreve o intuito do seu trabalho e contributo.

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”, 82º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura sublinhar como “grupos e ideais” usam de vazios e “não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.”

Os “inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, resultam de uma “passagem ao acto”, normalmente em grupo, que tende, também, a decorrer:

a) da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades;

b) da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos;

c) de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas.

“É também por isso que o sentido de comunidade e propósito (…) têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.”

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tecnologia

Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

Link para o programa:

Parte I

Parte 2

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril (Ao redor…; 24.04.2024)

Por estes dias muito se falará e discutirá em torno do 25 de Abril, dos 50 anos que se comemoraram e de tudo quanto o país evoluiu e mudou. Debater-se-ão os mais diversos pontos de vista e eu, grato que sou ao 25 de Abril e a quem tanto lutou e deu para o tornar possível e para se cumprir, associo-me ao debate trazendo, eventualmente, um outro ângulo: a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito.

Cresci numa aldeia que, embora pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema. Cresci numa família que, embora também pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema e um dia muito relevante e feliz. Certamente, muito por isso, pelas histórias e pelas experiências ao meu redor, sempre me fascinou e sempre admirei as tantas pessoas que durante tantos anos e com desafios e dificuldades que não posso sequer imaginar, “deram” a sua vida a um ideal, a uma causa, a um propósito: o de contribuir para uma sociedade em que pudessem pensar e agir de forma livre e autodeterminada, uma sociedade onde pudéssemos, quem se lhes segue, pensar e agir de forma livre e autodeterminada.

Fascina-me e admiro essa abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais. É que, não, pessoas que se privavam de ver a sua família e amigos, de acompanhar o nascimento ou crescimento de filhas e filhos não o faziam porque gostavam menos da família, amigos ou das filhas ou filhos que pessoas que não o faziam. Não, estas pessoas não o faziam sem sofrimento, sem sacrífico, antes procuravam um bem maior também para a família, amigos, filhas e filhos, considerando que o seu contributo para tal decorria desse esforço, desse compromisso, dessa outra vida. Por vezes, de, literalmente, se dar a vida, como infelizmente tantas e tantos deram.

O dia 25 de Abril de 1974 deu significado a todo esse esforço de décadas. O dia 25 de Abril de 2024 continua a dar significado a todo esse esforço, celebrando-o e, também pelo momento histórico que vivemos, em Portugal, na Europa e no Mundo, constituindo-se como uma oportunidade, é certo, para celebrarmos esse propósito que uniu tantas e tantos que desejaram e fizeram Abril mas, também, como uma oportunidade para um novo contrato de propósito comum, com o continuar a cumprir os valores de Abril, os valores da equidade, bem-estar, da possibilidade de autodeterminação. Da liberdade.

Apesar de todos os problemas sociais, alguns muito complexos, temos hoje acesso, em Portugal, também pelo que Abril cumpriu, e em parte significativa do Mundo, a mais oportunidades, serviços e, no geral, a mais qualidade de vida face à grande maioria das pessoas que viveram, em Portugal e no Mundo, nos últimos milénios, séculos, décadas. No entanto, temos também níveis inquietantes de problemas na área da saúde mental, particularmente de ansiedade e depressão, e temos assistido nos últimos anos a retrocessos, em alguns casos significativos, nas Democracias, nos Direitos Humanos e, até, no que significa ser-se livre e na vivência plena da Liberdade.

É atribuída a Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no século XIX, uma frase que associa a ansiedade a algo próximo de uma tontura ou vertigem [“dizziness”] resultante da liberdade e do livre-arbítrio. Apesar de “figurada” a imagem, importa reflectir sobre dois fenómenos. Um primeiro é uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo advento e crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com algum crescimento do individualismo, da solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais expressos, por exemplo, na participação em grupos (incluindo religiosos ou políticos) não fundamentalistas ou populistas. E um segundo associado a um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas mais significativas e por mudanças no seu entorno que geram, particularmente em algumas pessoas, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.

É este o contexto e o risco que dele decorre, particularmente o relativo a este “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação esta utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, do ressentimento e da despersonalização “cola” de um conjunto de pessoas e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento acelerado por via de apropriações religiosas e políticas de uma ideia do Estado Novo tão acarinhada por António de Oliveira Salazar: “Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento”. Sendo-o, no entanto, sempre e quando as pessoas “providenciais” e as escolhidas pelas “providenciais” assim o desejam e queiram, para garantir, contra quem pense ou aja de forma diferente, desse Estado do Estado.

Eu não me resigno à possibilidade deste caminho e ao que ele implica já no presente, mas pode implicar no futuro próximo e não tão próximo. É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como Irene Vallejo bem assinala, “o que somos e seremos deve-se em grande parte a pessoas que viveram vidas escondidas e que descansam em túmulos que nenhum turista vai visitar”. Façamo-lo, assim, por essas pessoas. A partir do que significam, criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós, pelos que nenhum turista vai visitar e pelos que nos seguirão.

 

Tiago Pereira

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

in Sábado (Ao redor…); 24.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/proposito-e-os-50-anos-do-25-de-abril

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial

“Passam cerca de 30 anos desse momento. E tanto mudou. Temos hoje outra sensibilidade na sociedade para o impacto destas situações na saúde, incluindo naturalmente na saúde mental, e bem-estar. Impactos para quem vive (directa ou indirectamente) ou observa situações de crise, catástrofe e/ou situações trágicas. Temos hoje profissionais de diversas áreas, em diversos contextos, mais preparadas/os e capacitadas/os para responder e apoiar nestes desafios. Temos hoje, psicólogas e psicólogos nas Escolas, ao contrário do que acontecia naquela e em muitas naquele momento. Temos hoje psicólogas/os nas estruturas de emergência, incluindo pré-hospitalar, e nos agentes de protecção civil. Muito mudou, mas muito caminho há por percorrer.”

Este é um dos parágrafos do prefácio que escrevi para o livro “Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial” cujas primeiras páginas aqui partilho.

Parte de uma experiência que vivi para me permitir referir quanto “este livro nos ajuda a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer.” Porquê? “Porque reúne um conjunto significativo de pessoas que fazem parte desta história, desta mudança, que dia-a-dia, muitas vezes em condições particularmente exigentes e complexas, construíram a resposta pré-hospitalar de apoio às populações, também a partir do contributo específico, integrado multidisciplinarmente, da ciência e prática psicológica.” Pessoas, várias, que muito admiro reunidas por uma outra pessoa e profissional de excelência que coordenou a obra.

É que “a Ana Oliveira, além de personagem participante activa desta história, fez este muito desafiante percurso, desde o seu interesse, atitude e disponibilidade para nesta área contribuir com o seu tempo e intervenção como cidadã primeiro e depois como psicóloga, à feliz ideia de reunir esta diversidade de pessoas e contributos, organizando-os e concretizando-os nesta obra. Devemos-lhe, por isso e pela dificuldade disso, um agradecimento especial. Devo-lhe eu, um duplo, por ter tido ainda a gentileza de confiar em mim e me permitir estar associado a este seu esforço, a este grupo de pessoas e a este trabalho.”

Termino este texto-convite a conhecerem a obra como termino o prefácio, escrevendo: “Ora, as páginas que se seguem, creio, contribuem para tudo isto. Orgulho-me de fazer parte delas e também o devo a uma pessoa que muito contribuiu para a sensibilidade que tenho face a estes temas e que me e nos falta todos os dias.”

Hoje seria um dia especial para este amigo que me e nos falta todos os dias. Quanto queria dar-te um abraço, agora.

Categories
Comportamento Psicologia

MUS-E Portugal: 25 Anos

O www que quotidianamente utilizamos para acedermos a sítios na internet, representa o termo “world wide web”, um sistema de documentos interligados entre si e executados a partir da internet. Nos últimos anos, embora com algum questionamento e debate científico, vem-se falando de outro www, o “wood wide web”. Assim chamada, ou usando-se do termo mais técnico (“rede micorrízica comum”), refere-se a uma rede subterrânea de fungos (e bactérias) que, aparentemente, conectam várias árvores e plantas, permitindo via raízes a troca de nutrientes e informação química.

Pensei neste termo, neste fascinante mecanismo, na cooperação, na interligação, relação e conexão e nas “raízes”, ao ver o documentário “MUS-E: 25 anos em Portugal”. Gravado há já algum tempo, é certo, passou na @RTP 2 na passada sexta-feira, curiosamente no dia seguinte das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974.

Documentário que trata um programa e um conjunto de projectos que em tudo se relaciona com a Liberdade, a equidade e o acesso. Fundado pelo compositor, violinista e humanista Yehudi Menuhin, a rede MUS-E interconecta Escolas de diferentes países na Europa comprometidas com um projecto de inclusão escolar e social de crianças e jovens em contextos de especial vulnerabilidade, a partir das expressões artísticas e do seu potencial de transformação e aproximação de comunidades, culturas e pessoas.

Promovido em Portugal pela Associação Yehudi Menuhin Portugal, associação a quem muito devo. Foi pela confiança que em mim depositou que pude trabalhar – o meu primeiro trabalho, a par das minhas funções há época enquanto Assistente Convidado da @Universidade de Évora – enquanto psicólogo e coordenador de um projecto financiado pelo Programa Escolhas numa Escola e comunidade em Évora. Associação a quem procuro retribuir, através do meu compromisso com os valores, o legado do projecto e o, hoje, singelo papel que tenho na sua direcção.

Mas voltemos ao documentário que “dá” imagem e som, também, a essas minhas raízes, mas, principalmente, a esta interligação e relação, trazendo as caras das pessoas que o inspiraram, fizeram e fazem, na Europa e em Portugal. Aqui, no meu contributo por via da minha participação do documentário procuro focar, essencialmente: o privilégio de poder ter acompanhado e sentido, em primeira mão, os processos de transformação que gera, nas e nos alunos e na Escola; e o sentir da diversidade, enquanto desafio, mas enquanto riqueza maior da vivência em sociedade e no Mundo.

Deixo em seguida um www para o documentário. Um www para acesso às crianças, às e aos professores, artistas, coordenadoras/es e dirigentes que fazem este bonito projecto e procuram cumprir, dia-a-dia, o bonito sonho do Menuhin.

Link para Documentário

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

“É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.”

“Propósito e os 50 anos do 25 de Abril”, 81º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa os 50 anos do 25 de Abril e “a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito”.

Parte das minhas raízes e do meu fascínio e admiração pela dádiva e luta de tantas e tantos ao longo de tanto tempo para o tornar possível, “abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais.”

Discute, depois, o quanto evoluímos/mudamos mas situa estes 50 anos num tempo marcado por 2 fenómenos: a) uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com o crescimento do individualismo, solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais / grupos; b) um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas e por mudanças no seu entorno que geram, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.”

Refiro-me ao risco deste “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer sejam religiosas, políticas ou resultem da conjugação de ambas, numa procura conexão das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, devolvendo sensação de pertença a algo maior, poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, ressentimento e da despersonalização “cola” e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento.

A isso, não me resigno. Construamos “um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril. “Criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Uma (só) Saúde (Ao redor…; 09.04.2024)

Na passada semana tomou posse o XXIV Governo Constitucional em Portugal. Como porventura aconteceria em qualquer outro lugar do Mundo onde exista e funcione uma Democracia, este acontecimento suscitou um conjunto de debates e discussões em torno da composição e da organização do Governo. Um deles, o facto dos anteriores Ministério da Educação e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do XVIII Governo Constitucional resultarem num único Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do que isso pode ou não representar e significar para a visão política sobre a Educação, mesmo num país onde as Creches e, portanto, a Educação dos 0-3 anos permanecem, ainda, com um “pé fora” do sistema educativo e fora da área da Educação na organização governativa. Uma Educação?

Já na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates e discussões, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo. Ao contrário de outros países na Europa onde o Ministério não é, exclusivamente, da Saúde e se associa a outras áreas, particularmente a solidariedade, a segurança e os assuntos sociais ou os cuidados (informais), há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as próprias competências do Ministério historicamente se alterem e indiciem a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?

Em rigor, talvez com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas, a verdade é que temos um caminho percorrido desde um modelo normalmente definido como “biomédico”, essencialmente centrado nas dimensões biológicas dos Seres Humanos e nas suas patologias e que tendia a desconsiderar ou relativizar os factores sociais, ambientais e psicológicos que influenciam decisivamente a saúde. Este modelo, embora com a discrepância que atrás assinalo, foi sendo substituído nas últimas décadas por um modelo habitualmente referenciado como “biopsicossocial” que, ao adoptar uma visão mais ampla da saúde, reconhece a relação complexa e a influência mútua de factores biológicos, sociais e psicológicos na saúde considerando, nesse sentido, questões como as dimensões comportamentais, emocionais ou, noutro prisma, as práticas culturais e condições sócio-económicas das pessoas e comunidades. Já nos últimos anos temos assistido a um aprofundamento desta visão, tendente à inclusão da saúde dos restantes animais e ao cuidado e integridade com o meio ambiente e os ecossistemas como outros aspectos fundamentais à saúde, uma abordagem mais integrativa e conhecida por “uma (só) saúde” [“one health”] que reforça, entre outros aspectos, a consideração da qualidade da água, dos alimentos ou a proteção e resposta das comunidades e sistemas face, por exemplos, a catástrofes “naturais” ou a doenças infecciosas.

Caminhamos, dizia, de modelos em que a saúde era entendida quase apenas como a ausência de doença para abordagens mais complexas da saúde e do bem-estar, focadas numa compreensão mais integrativa e sustentável da pessoa, das comunidades e do ambiente. Neste caminho assistimos também a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e a desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade dos ecossistemas, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação, o desenvolvimento de novas abordagens e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.

Esta transformação progressiva foi também assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano, comemorado no último Domingo, cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”], advogando pelo direito de todas as pessoas, em qualquer lugar do Mundo e circunstância, a acederem a “serviços de saúde de qualidade, a educação e informação, bem como a água potável e segura, a ar limpo, a uma boa nutrição, a habitação de qualidade, a boas condições de trabalho e ambientais e a liberdade e não-discriminação”. Direito(s) em Portugal protegido(s) pela Constituição e Direito a uma saúde de qualidade que depende do envolvimento de todas e todos, individual e colectivamente, cívica e politicamente, para o seu cumprimento.

Foi, também, com esse espírito de missão e de compromisso que, a partir da abordagem “One Health”, neste exacto Dia Mundial da Saúde de 2024, o conjunto das nove Ordens da Saúde (Biólogos, Enfermeiros, Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Médicos, Médicos Dentistas, Médicos Veterinários, Nutricionistas e Psicólogos) apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal.

Contributo que assente num processo de colaboração e construção conjunta pretende dar um sinal da disponibilidade das Ordens Profissionais da Saúde e da importância da colaboração de todas as entidades neste grande objectivo de melhorar o acesso, a qualidade no acesso aos serviços de saúde e a saúde da população, aspectos fundamentais à qualidade de vida e bem-estar e à sustentabilidade, desenvolvimento e prosperidade do país. O documento sublinha a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; promover a literacia em saúde, incluindo saúde animal; reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental e desenvolver a área da saúde animal; investir em inovação, investigação, desenvolvimento e tecnologia; e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à complexidade dos desafios que vivemos só poderão corresponder abordagens também elas complexas, determinadas, comprometidas e com suporte interdisciplinar e multiprofissionais. Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.

 

Tiago Pereira

Uma (só) Saúde

in Sábado (Ao redor…); 09.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uma-so-saude

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza

No seu discurso de tomada de posse como Primeiro-Ministro, Luís Montenegro citou Saramago. Não citou, no entanto, um excerto do “Viagem a Portugal” onde Saramago refere que “é preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

Não em viagem (pelo menos como aqui referida) voltei há dias aos “passos que foram dados”. A uma cidade onde vivi parte significativa da minha vida (Évora), à Universidade onde estudei e a uma iniciativa (Semana da Psicologia, organizada pelo NEPUÉ, em que participei nas condições possíveis – participante, organizador e “palestrante”). Esta última, pela segunda vez e, desta vez, para uma conversa sobre “A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza”.

Fi-lo na quinta-feira, dois dias antes da apresentação do contingente de vagas para o Ensino Superior para o próximo concurso e de, mais uma vez, serem expostos e discutidos os dados que indicam que as/os estudantes de escalão A de acção social têm muito mais dificuldade (apenas metade da probabilidade) que estudantes sem acção social têm de aceder aos cursos com notas de entrada mais altas e essas e esses “sobreviventes”, conforme alguns estudos as/os apelidam, acabarem por reprovar mais e abandonar mais e mais precocemente o sistema.

Estes indicadores contribuem decisivamente para a cristalização das situações de maior desigualdade e pobreza. Problemas e desafios que, conforme aqui tenho discutido, impactam significativamente a dignidade, a saúde, o bem-estar e a possibilidade de autodeterminação das pessoas e limitam o desenvolvimento, prosperidade e coesão do país. Problemas e desafios fundamentais à psicologia, também pelo seu contributo, e à psicologia num Mundo transdisciplinar, mote desta Semana da Psicologia de 2024.

Neste sentido foi um gosto este regresso, pelo simpático (duplo) convite, pelo que de simbólico ele comporta e, espero, pela oportunidade que quem assistiu teve de reflectir estes temas nas diversas etapas de desenvolvimento profissional em que se encontram. Finalmente, como discutíamos no final, pelo que representa na e para a identidade da psicologia, considerando o combate à pobreza como elemento-chave do nosso contributo e um tema/objectivo que, ao percorrer diferentes papéis das e dos profissionais e diversas áreas de actividade, ser fonte, também, de reforço da identidade e de trabalho conjunto e colaborativo.

A propósito, a citação de Montenegro foi “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Sim, não percamos tempo. Erradicar a pobreza é possível, mas depende de ser desígnio de todas e todos e do importante contributo de um conjunto de ciências e de profissionais, incluindo a psicológica e as psicólogas e psicólogos.