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A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso

“Pouco sabemos do grupo de pares de infância de Hans Christian Anderson (…) Sabemos, no entanto, que nasceu no início do séc. XIX, num lugar hoje parte da Dinamarca e que o seu pai, sapateiro de profissão, morreu quando tinha apenas 11 anos. Sabemos, também, que apesar disso, nesses anos de vida conjunta, ele impactou a vida do seu filho, talvez decisivamente, ao fomentar a sua imaginação e criatividade, principalmente pela leitura de contos e histórias (e.g. “Mil e uma noites”) e pela dramatização, a partir de um teatro de marionetas que construiu para ele.”

“Podemos pensar sobre o impacto transformador de determinados estímulos e experiências na primeira infância e, hoje e para o futuro, sobre a importância de diminuir a arbitrariedade dos mesmos, garantindo acesso a todos os bebés e crianças a estímulos positivos e respostas diferenciadas na educação ou saúde e, depois, ao longo da vida, no acesso a suporte face a necessidades específicas ou na adaptação a circunstâncias e acontecimentos de vida.”

“A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso”, 77º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte daqui para pensar sobre como “cada um/a de nós sente, hoje, face a alguns programas e serviços públicos que, existindo, na prática não resultam numa resposta adequada, atempada e capacitada. Numa resposta eficiente e eficaz. Programas e serviços em que, muitas vezes, o acesso faz de “roupa do Rei” do seu conto “O Rei vai nu”.

“Quando, gerindo listas de espera, se agenda uma 1ª consulta de psicologia mas, num processo que necessita de um acompanhamento próximo, a 2ª sessão decorre apenas seis meses depois ou quando uma Mulher inicia um processo de IVG, mas encontra obstáculos a que ele possa decorrer no período previsto e/ou em serviços próximos e a si acessíveis.” Deixo outros exemplos, da reabilitação à intervenção precoce na infância, destacando “quando se procura (e bem) garantir o acesso a creche para todos, mas, simultaneamente, não se qualifica e investe na capacitação dos ambientes educativos e na qualidade das práticas. Quando isto acontece, pensar-se, apenas, o acesso é uma armadilha onde cai o debate e sobressalto público, guardando-se pouco espaço para se discutir além do acesso, a qualidade, eficiência e eficácia do serviço ou programa a que se acede.”

No artigo discuto o facto em campanha se falar de acesso (produção, número de actos, …) mas não da qualidade, organização, eficácia do(s) mesmo(s). Discuto, ainda, como podemos qualificar as práticas com maior integração da ciência e com profissionais “empoderados, capacitados e comprometidos”. Termino sublinhando que esta evolução é chave “para responder aos anseios e expectativas das pessoas, para a garantia de maior equidade e para a redução das disparidades e desigualdades. Porque a qualidade é garantia de mais bem-estar para todas e todos, de mais coesão social e, através dela, para a redução da tensão social existente na sociedade contemporânea.”

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