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Palíndromos…

Da junção das palavras gregas “pálin” (novamente) e “dromos” (caminho/estrada) resulta a expressão palíndromo que descreve elementos com simetria linear, logo com o mesmo significado quando lidos da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Existem números palíndromos (também apelidados de capicua) e existem palavras e datas palíndromos – a última desta década o dia 22.02.2022.

Nesta simbólica data a Líder – Ideias que fazem futuro publicou uma entrevista que a Rita Saldanha me fez a propósito do aproximar, naquele momento, da passagem de dois anos sobre a criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses que coordeno.

“O caminho para uma melhor saúde mental em Portugal”, assim titulada a entrevista que agora partilho, trata este balanço de dois anos de actividade e contributo, a (des)informação, a importância da capacitação e desenvolvimento de pessoas e comunidades, a literacia em saúde e em saúde psicológica, a saúde mental (e a saúde mental nas organizações), o papel das lideranças e as possíveis prioridades para o Mundo depois desta gravíssima crise pandémica que ainda vivemos.

Uma entrevista onde afirmo que a “boa informação previne a má informação”, que o “controlo e a previsibilidade” são “variáveis fundamentais para a saúde e bem-estar”, que é fundamental que “a sociedade seja amiga [das pessoas em sofrimento psicológico], sem culpabilização ou estigmatização, para que a pessoa possa encontrar uma ajuda e com isso florescer novamente”. Onde afirmo, também, que as organizações devem desenvolver capacidades e ter recursos que lhes permitam a “adaptação e superação”, que precisam de “confiança e coesão”, “de tempo” e que “ficaria muito surpreendido se nos próximos anos não tivéssemos um movimento de reconhecimento de organizações que promovam a saúde e bem-estar, até pelas/os consumidoras/es”.

Menos de 48 horas depois da publicação da entrevista começava a invasão da Ucrânia pelas tropas russas e o escalar do conflito para uma perturbadora Guerra, na Europa e no século XXI, com todas as consequências que observamos ao longo dos já mais de dois meses corridos e que sabemos virem a existir no futuro. Também, durante a pandemia, estreou o “Tenet”, filme de C. Nolan inspirado no “Quadrado Mágico”, conjunto de 5 palavras latinas encontrado nas ruínas de Pompeia e que incluem a palavra/título palíndromo do filme. O filme trata, exactamente, o tempo e a possibilidade de se caminhar do presente para o futuro mas também do presente para o passado e como, naquela história, esta possibilidade resulta no evitar de uma possível 3ª Guerra Mundial “desejada” por um oligarca russo.

Como refere M. Atwood ao Expresso de hoje, é mesmo “um acto de esperança assumir que haverá futuro”. Esperança que apenas poderá resultar da inscrição do passado e da reflexão sobre ele no sentido de pensarmos o presente e perspectivarmos o futuro. Um futuro de Paz e de bem-estar para todas e todos com um “novo caminho” para a saúde mental.

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3 dias para o 25.4.2022

Auto-determinação, direitos humanos, não discriminação, equidade, coesão social, saúde (e saúde mental), educação, capacitação, trabalho, ciência (e evidência), dignidade, confiança, inclusão, participação, abertura à/ao outra/o, diversidade, cooperação, ética, cidadania, responsabilidade, solidariedade e bem-estar.

A 22.04.1974 muitas pessoas, país e Mundo fora, em diferentes contextos e com diferentes proveniências, partilhavam da aspiração e do desejo de verem possibilitados e cumpridos em Portugal estes 22 valores. Faltavam, como hoje, 3 dias para o dia 25 de Abril. Dia em que em 1974 se lhe acrescentou a liberdade, a democracia e a Paz. Dia em que de 1975 a 2022, o celebramos e, ao celebrá-lo, nos recordamos que estes 25 valores se constroem todos os dias, por e com todas as pessoas, por e em todos os contextos.

Eu pude estudar esta ciência que é a psicologia numa Universidade também e muito pelo 25 de Abril. Não apenas porque a abertura que trouxe, permitiu, finalmente, um outro olhar para esta ciência e possibilitou a sua emergência, contributo e desenvolvimento na sociedade portuguesa. Também porque pertenço a uma geração (e a um contexto) que é, porventura, das que mais se pode transformar face às possibilidades que teria pelos valores acima… Num conceito da psicologia, uma geração cuja zona de desenvolvimento potencial foi bastante expandida por um país a acreditar nas suas pessoas e a dar-lhes condições, com dificuldades é certo, para se desenvolverem, florescerem e se cumprirem.

Hoje continuo a estudar e no meu pequeno (mas devido) contributo a fazer e a praticar esta ciência (psicologia) com a certeza (e responsabilidade) de que partilha grande parte dos 25 valores acima. De que partilha e de que para eles procura contribuir, estando próxima das pessoas e das comunidades, ao longo de todo o ciclo de vida, em cada um dos contextos, nos acontecimentos de vida mais significativos, sejam eles “positivos” ou geradores de sofrimento psicológico.

Uma ciência (e uma prática) que também se procura afirmar pela presença na sociedade, não apenas mas também pela opinião, pela informação, pelo comentário e pela literacia que procura promover. Por isso, e pelo seu simbólico num país também antes encerrado a este nível, partilho hoje este “Afirmar os psicólogos nos media 2021”, onde se reúnem contributos meus e de colegas dos órgãos da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Ana Meira, Carla Fernandes, Carla Rocha, Filipe Fernandes, Francisco Barrocas, Francisco Miranda Rodrigues, Gaspar Ferreira, Jaime Ferreira da Silva, Joana Amen, Marco Santos, Marisa Alexandre, Miguel Ricou, Paula Domingues, Paulo Cunha, Raquel Raimundo, Renata Benavente, Renato Gomes Carvalho e Sofia Ramalho.

Um nosso contributo para a memória e inscrição destes valores. Para a sua co-construção, todos os dias em todos os contextos, também com o contributo das psicólogas e psicólogos.

 

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Comportamento COVID-19 Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Visão é significado; Significado é história.

Como eu, certamente têm autoras/es, cantoras/es, séries, filmes ou lugares a que, ao regressarem, sentiram terem gostado menos que quando os leram, ouviram, viram ou sentiram na primeira vez. Assim senti com a série “True Detective”, cuja 1ª temporada é (a meu ver) muito mais interessante que a 2ª e que tem num episódio uma frase de imenso impacto em mim que aqui destaco: “visão é significado; significado é história”. Se assim foi com a série, assim não é com a “minha aldeia” (Lapas), onde permanece parte significativa da minha família e parte do significado (da [minha] história), conceito de uma importância e complexidade extrema, pelo que releva e revela do que nos sucede e damos valor, e porque não sendo objectivo (não existe fora de nós e não é absoluto) também não é subjectivo (não resulta da construção de uma única pessoa).

Uma parte deste significado é co-construída e partilhada também por rituais repetidos, entre comunidades e gerações. Um, a leitura, ora profunda ora de soslaio, do jornal local que a cada 6ª feira entrava nas casas de tantas pessoas da minha aldeia e, em cima daquela mesa (como de tantas outras da aldeia) passava dias até ser substituído pelo novo que chegava na semana seguinte. Falo do jornal “O Almonda”, semanário com 5394 edições, sempre presente no meu dia-a-dia e imaginário de infância/juventude e portador de notícias e informações que me eram indiferentes, claro está, mas também de algumas das melhores (dos meus próprios resultados desportivos aos filmes que chegariam à cidade na semana seguinte) e das piores notícias daqueles momentos (talvez de sempre).

E sim, são mais de 100 anos de edições semanais, iniciadas no duplamente simbólico 1918 – ano do final da I Guerra Mundial e de início da pandemia da gripe pneumónica. Curiosamente, 104 anos depois, uma entrevista (contributo) minha fez capa da edição de 01.04.22 destacando que a “Pandemia e [a] guerra na Ucrânia agravam saúde mental dos portugueses”. Outra pandemia e outra guerra, mais de 100 anos depois, a lembrarem-nos com violência e sofrimento que a história pode repetir-se e o quanto as consequências da repetição resultam da forma como (com que recursos e vulnerabilidades) enquanto pessoas, comunidade e sociedade chegamos às crises e adversidades. Na entrevista reflicto sobre estes aspectos, destacando o que podemos fazer, ao que devemos estar atentas/os, que estratégias podemos mobilizar e que apoios são essenciais disponibilizar. Discuti o acolhimento de pessoas em situação de refugiada/o, as crianças/jovens, o futuro e como é essencial promover a saúde mental.

Um pequeníssimo (mas empenhado e emocionado) contributo meu para a minha comunidade conforme os que recebi, alguns de pessoas que sei que agora me leram. Também porque creio que a visão (futuro) também é o significado que damos à nossa história (passado), reconhecendo o seu papel e retribuindo como posso para a co-construção desse significado. Partilhado, significativo.

 

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Comportamento Democracia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Construir a Paz…

“O único discurso sem lugar aqui [na Assembleia da República] é o discurso de ódio, o de negar a dignidade humana seja a quem for, de insultar o outro só porque é diferente, de incitar à violência e à perseguição”. Parte da primeira intervenção enquanto Presidente da Assembleia da República de Augusto Santos Silva, intervenção que, além das deputadas e deputados, creio que todos e todas devemos ouvir e sobre ela reflectir. “Estes tempos difíceis, complexos, são temos propícios a toda a espécie de manipulações, de preconceitos e de messianismos, tempos em que pode prosperar o populismo com as simplificações abusivas, as exclusões sumárias, a negação do pluralismo e da diversidade, a estigmatização dos vulneráveis, a culpabilização das vítimas e a substituição do debate pelo insulto”, disse ainda, num apelo que creio certeiro à construção de um espaço de diálogo, cooperação, civilidade, respeito pelos direitos, pela diversidade e de cuidado com outras e outros. Um espaço, afinal, de construção e promoção de Paz.

Assim mesmo defini a Paz em conversa com o jornalista Ricardo Alexandre para o “Conselho de Guerra” (TSF) de 24.03.22. Como, mais que a ausência de guerra. Como algo sobre o qual todos os dias devemos conversar. Como algo que todos os dias, em todos os contextos, podemos e devemos co-construir. Como algo para o qual todas e todos temos um papel, da nossa casa (enquanto modelos de comportamento para crianças/jovens), às Escolas/Universidades ou aos locais de trabalho, disseminando formas não violentas de resolução de conflitos; empatia, compaixão e perdão; a valorização dos direitos humanos, da ética e do interesse colectivo e a promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições).

Conversa que teve com mote a trilogia de documentos da @Ordem dos Psicólogos Portugueses Conversar sobre a Paz: Como todas e todos podemos ajudar a construir a Paz; Como podem as crianças/jovens (e mães/pais, cuidadoras/es, professoras/es e educadoras/es) ajudar a construir a Paz; Como podem os psicólogos e psicólogas ajudar a construir a Paz (https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/psicologia-construir-a-paz).

Conversa que, finalmente, procurou sublinhar a importância da promoção e preservação de um espaço de coesão harmoniosa, onde os princípios humanitários são prioritários e existe uma equidade na valorização das pessoas, assente em ideias de liberdade, justiça, participação democrática e de possibilidade de auto-determinação e de cumprimento do potencial das pessoas. Um espaço, também, de não complacência e não legitimação da violência e da discriminação. De coesão, capaz de prevenir que o mal-estar de pessoas e da sociedade, que decorre de crises sucessivas e de riscos significativos que enfrenta(re)mos, não seja politizado e utilizado no sentido de fragilizar instituições e a sociedade e de vulnerabilizar mais, pessoas já de si vulneráveis. De coesão, enquanto garante de um futuro com possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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A primavera há-de chegar…

“A primavera há-de chegar”, título de um “grande” livro de Fante. Evoco-o, sugerido por uma música de um filme que trata a complexidade da guerra: “E todos os anos; pássaros livres voam (…) a floresta suspira; esperando pela primavera; para os trazer de volta.” Ontem, a primavera chegou. Ontem, como há muitos anos não sucedia, chegou com a complexidade de uma (trágica e obscena) guerra na Europa. Um trabalho da Sílvia Maia (LUSA) para o qual contribui, resultou em três notícias que, creio, demonstram esta complexidade e os seus múltiplos impactos:

  1. “Escolas apoiam alunos afetados pelas imagens da guerra na Ucrânia”, tratando os impactos (naturais) da guerra no comportamento das crianças, “sensíveis à situação que estão a viver, dispostas a lutar por um mundo melhor e que estão disponíveis para os outros”. Na peça assinalo que “as escolas estão hoje muito mais bem preparadas do que estavam há 10 anos, mas tendo em conta estes dois acontecimentos – a pandemia e agora a guerra – todos os recursos são poucos”.
  2. “Psicólogos defendem urgência na integração de crianças refugiadas nas escolas”, onde sublinho a importância da rápida integração nas Escolas de crianças/jovens, potenciando a criação de rotinas (fundamentais à previsibilidade e controlo) e de suporte social (fundamental à resiliência e ao bem-estar). Reforço a importância de, numa primeira fase, se privilegiar as relações e os espaços de espontaneidade e de brincar face ao currículo, bem como da criação de espaços seguros, investindo-se numa rede de mediadoras/es ucranianas/os. Abordo, ainda, o papel reparador que a Escola pode assumir, bem como a universalidade das emoções, das referências (a Frozen, o Harry Potter ou o Tik Tok) e a capacidade de adaptação das crianças como “antídotos” à adversidade/dificuldades (ex. língua).
  3. “Psicólogos portugueses dão formação a colegas ucranianos”, onde abordo a resposta da OPP à solicitação da Associação Nacional de Psicólogos Ucraniana e apoio à formação de 32 psicólogas/os (que em cascata formarão outras/os) em intervenção psicológica em situações de crise e catástrofe, considerando que “a intervenção psicológica precoce (nomeadamente os Primeiros Socorros Psicológicos) é de extrema importância na estabilização inicial e na prevenção do desenvolvimento de psicopatologia”.

Da inspiração de quem, mesmo em condições extremas, procura apoiar outras/os ao apoio à minimização dos impactos da guerra e recuperação de quem escolhe ou chega a Portugal proveniente dela… Contributos das/os psicólogas/os que se complementam com o seu apoio à construção e manutenção da Paz.

Porque, “a floresta suspira; esperando pela primavera; para os trazer de volta”.

Porque, a “primavera há-de chegar”.

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Conferência de imprensa. Documentário. Estudo.

Conferência de imprensa. Documentário. Estudo.

Na conferência de imprensa após o Conselho de Estado, o Presidente da República disse que a guerra terá “custos na vida de todos” que deveremos enfrentar “com a mesma coragem e determinação dos últimos dois anos, em espírito de unidade, coesão, solidariedade e eficácia”. Assim é e será.

“Depois de uma pandemia que nos trouxe muita incerteza, vivemos agora uma guerra que nos entra diariamente em casa”, escreveu @MARIA AUGUSTA CASACA (@TSF) na peça (“A guerra afeta-nos a todos – Psicólogos lançam estratégias para prevenir angústia causada pelo conflito”) que partilho. Nela, procuro, divulgando o documento da OPP, sublinhar a naturalidade de nos sentirmos impactadas/os, angustiadas/os e/ou ansiosas/os com esta situação. Também, reforçar que algumas pessoas – quem experienciou contextos de guerra (algo ainda muito comum em Portugal), tem amigas(os)/familiares na Ucrânia ou tem maiores vulnerabilidades socioeconómicas, temendo o futuro incerto – podem ter especiais vulnerabilidades e, por isso, estarem mais expostas à situação, ao sofrimento e, até, ao potencial trauma dela decorrente. E ainda, a necessidade de prevenção da sobre-exposição à guerra e a importância do agenciamento decorrente de acções que comportem e nos tragam significado/propósito.

“Na minha infância o que tornava o meu dia suportável? Tinha uma tia já idosa que me via. As crianças têm de ser vistas e cuidadas. Têm de sentir carinho. Foi isso que me salvou. Nos momentos sombrios, pensava: Tenho a tia Hilma. Acho que todas as crianças nascidas da guerra precisam de uma tia Hilma.” Parte do documentário “A guerra nunca acaba” que versa 5 histórias de crianças filhas de soldados da Alemanha Nazi e de mães Norueguesas (ocupação na II Guerra Mundial) que viveram toda a vida sob a égide de “genes Nazis” e da discriminação daí decorrente.

Sobre discriminação e “dupla penalização” (assim apelidei), discuti a situação da população russa com a @CATARINA SILVA (@JN) (https://www.noticiasmagazine.pt/2022/ser-russo-nao-e-ser-dono-de-uma-guerra/historias/273141/). Recuperação de traumas passados. Lembrar que, algumas destas pessoas, saíram da Rússia à procura de um país livre e que hoje são penalizadas pelas opções de um regime que já as havia penalizado. Racionalizar, prevenir generalizações abusivas, simplificações e, essencialmente, humanizar por via da história das pessoas.

E o estudo. Do instituto Jacques Delors, sublinha que “a distribuição desigual das dificuldades [da guerra] nos diferentes estados-membros não é apenas um problema económico – tem importância política”, reforçando a necessidade da “união” dos países. União que deve prevenir a possível fragmentação, diminuição da coesão e da confiança, essenciais à vivência desta crise e a um futuro de possibilidade de autodeterminação e de direitos humanos globais.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Quem diria que nos 2 anos do gabinete de crise COVID-19…

Ontem passaram 2 anos do dia (13.3.20) em que a Ordem dos Psicólogos Portugueses criou o gabinete de crise COVID-19 que coordeno. Em 13.3.21 publiquei esta mesma imagem e escrevi: “Ano incerto, intenso e exigente, que nos colocou à prova nas capacidades de adaptação, resiliência e de superação. Ano em que a responsabilidade (propósito) que me foi confiada – a par do apoio/carinho da nossa casa, do empenho de toda a nossa OPP e da inspiração de tantas pessoas, incluindo colegas psicólogas/os – foi essencial ao meu bem-estar.”

Reflectia, grato pela confiança em mim depositada (agradeço ao Francisco Miranda Rodrigues) para uma tarefa de enorme responsabilidade, suportado numa equipa de um empenho incrível e por centenas de psicólogas/os que se envolveram no desenvolvimento/operacionalização do conjunto significativo (e importante a muitas pessoas) de iniciativas, contributos e recursos disponibilizados pela OPP. Acções que complementaram o trabalho imenso das/os cerca de 25.000 psicólogas/os que, ao longo destes 2 anos, mesmo com desafios/dificuldades consideráveis à sua intervenção, um pouco por todo país e em todos os contextos, estiveram junto das pessoas num período de disrupção das suas vidas, de perda e em que se viram desafiadas na sua saúde psicológica e bem-estar.

Hoje caminhamos já para uma 6ª vaga. Mas hoje a COVID-19 não é já o tema central. Também pelo que se avançou na gestão da pandemia mas, particularmente, pela angustiante invasão de um país Europeu e uma catastrófica guerra, com significativas consequências no presente e para o futuro da Ucrânia, da Europa e do Mundo. Uma Guerra que traz perdas, trauma. Incerteza e imprevisibilidade. Que questiona Direitos Humanos e que afecta, ainda que de forma distinta, todas e todos. Uma Guerra que reforça a necessidade de contributo da ciência e da prática das/os psicólogas/os na reparação e recuperação das pessoas e na necessidade de construção, em qualquer momento e lugar do Mundo, da Paz. Uma Guerra que nos volta a ocupar como grupo de missão e que, mais uma vez, levou a que já dezenas de psicólogas/os se envolvessem no contributo da OPP nesta grave crise.

Há um ano, também escrevi: “Pensar um dia pode passar por pensarmos 3 aspectos bons dele (aumenta a percepção de controlo) e agradecermos/celebrarmos algo com alguém (aumenta o sentimento de pertença). Faço-o, assim por importante, para este ano. Muitos desafios nos esperam. As pessoas e o país precisam de mais (e melhor) psicologia junto de si.” Reescrevo-o hoje com a mesma convicção e com a certeza reforçada da necessidade de desenvolvermos a nossa ciência e profissão para cada vez mais e melhor podermos contribuir para a autodeterminação e possibilidade de bem-estar de todas/os. Para a equidade e coesão social.

“O Mundo ou será salvo pelos psicólogos ou não será salvo de todo”. 64 anos após esta frase de Maslow, conhecemos, a cada dia mais, o contributo da psicologia para um Mundo “salvo”. Um Mundo de Direitos Humanos globais e de Paz.

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Quando tinha 8 anos e quem tem 8 anos hoje…

Tinha 8 anos quando em Novembro de 1991 vi imagens que, viajando 15.000 km, se alojaram imediatamente em mim, perdurando até hoje na minha memória. Na nossa memória. Tinha acontecido o massacre do cemitério de Santa Cruz (Díli) e algo mudou em mim nesse dia. Sei (sinto), ainda hoje, o quão me foi importante uma ideia de mobilização e de esperança que se seguiu a esse momento, simbolizada em acções que parecem simples (uma carta que na Escola escrevemos a crianças Timorenses; um cordão humano que organizamos;…) mas que me fizeram, nos anos seguintes, sentir-me parte, ainda que insignificante, da procura da possibilidade de auto-determinação daquele povo e país.

Eis-nos 3 décadas depois a viver a invasão (palavra proibida I) de um país europeu por uma Rússia que, além de proibir palavras, faz hoje guerra (palavra proibida II) na Ucrânia. Que condena e procura vergar um povo e um país, privando-o do direito à democracia, aos direitos humanos e à auto-determinação. Como foi importante para mim, tenho procurado que também neste momento, quando conversamos com crianças/jovens sobre guerra, procuremos promover compaixão, reflexão sobre formas não violentas de resolução de conflitos e a procura de propósito/significado, também com acções e ainda que pareçam insignificantes. Aqui partilhei outras intervenções neste âmbito. Partilho hoje uma peça da Patrícia Pires (CNN Portugal) e a entrevista da Iva Domingues (TVI) de apresentação de um documento da OPP sobre o assunto – um primeiro de futuros contributos, pela promoção de literacia e disponibilização de informação de base científica, para o momento que vivemos.

Eis-me 3 décadas depois, psicólogo e, por isso, membro de uma profissão “empenhada, preparada e motivada” para, também nesta grave crise, contribuir para a resposta aos desafios que se colocam às pessoas em Portugal e no Mundo. Para advogar, mobilizar-se e contribuir para a criação de respostas de suporte às populações, conforme assinalamos (OPP) neste comunicado, onde condenamos veementemente esta trágica e indecente guerra.

Após a prontidão, Putin e o seu comando militar terão iniciado exercícios no mar de Barents com submarinos nucleares. Poucas horas antes de o sabermos, dizia Timothy G. Ash que não devemos começar frases por “estou certa/o que Putin não faria isso”. Não, não devemos. Antes podemos, com segurança, começar com “estou certa/o que as psicólogas e os psicólogos não deixarão de contribuir com a sua ciência (desenvolvendo-a e transferindo-a) e prática para os principais desafios societais, “sejam a pobreza e exclusão, crises de saúde pública, a crise climática ou a paz.” Sempre pela possibilidade de auto-determinação e de bem-estar de todas e todos. Sempre pela coesão social.

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Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Trabalhar…

“Viver para contá-la” de G.G.Márquez é, para mim, um dos mais impactantes títulos de livro. Viver para contar a vida e na vida (contá-la). Viver para conjugar a vida e na vida (conjugá-la). A viver, conjugamos. Procuramos, com dificuldade e desafio, harmonizar diferentes interesses, escolhas e papéis. Conciliar, por exemplo, a nossa vida pessoal com a nossa via profissional. A contar, conjugamos. Verbos. Por exemplo, o trabalhar que, pela centralidade e importância que assume na nossa saúde e bem-estar, nos faz caminhar em dois contínuos de verbos: adoecer–florescer; confranger–desenvolver.

“Trabalhar – Pensar um verbo da primeira conjugação através de quatro verbos da segunda conjugação”, 26º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes dois contínuos para reflectir sobre como a “great resignation” e o mercado laboral jovem na Europa nos conferem pistas sobre (novas) expectativas/exigências de trabalhadoras/es, nomeadamente locais de trabalho saudáveis e avanços da ideia do trabalho como direito para a perspectiva da dignidade, propósito e florescimento no trabalho como direito. Caminho, não apenas desígnio ou objectivo irrealizável.

É realizável e há significativa evidência científica que o demonstra, algo cujas campanhas locais de trabalho saudáveis da EU-OSHA sublinham ao insistirem que um dos investimentos com maior retorno em produtividade, redução de absentismo, de abandono laboral e de erros/acidentes laborais é a prevenção/gestão de riscos psicossociais associados ao trabalho, nomeadamente o stresse, depressão e burnout [esgotamento].

É realizável e há profissionais preparadas/os e motivadas/os para participarem neste processo, conforme a DGS afirma no guia “Vigilância da saúde dos trabalhadores expostos a fatores de risco psicossocial no local de trabalho”, ao sugerir o fomentar de “processos de articulação e o trabalho integrado entre os diversos profissionais que integram os Serviços de SST/SO, nomeadamente médico do trabalho, enfermeiro do trabalho, técnico (superior) de segurança do trabalho, psicólogo do trabalho e outros profissionais (ex. assistentes sociais, ergonomistas, entre outros)”.

É realizável e há práticas já instituídas que o demonstram, com ganhos para todas as partes envolvidas, desde a organização a trabalhadoras/es, incluindo lideranças e a sociedade. Práticas que a OPP volta a reconhecer na 4ª edição do “Prémio Healthy Workplaces–Locais de Trabalho Saudáveis”, cujas inscrições (gratuitas) decorrem até 18.2 em maisprodutividade.org

Estando as organizações mais despertas para a centralidade destas questões, é fundamental que as estratégias que adoptem sejam integradas e suportadas em evidência e não baseadas em acções esporádicas e não cientificamente sustentadas. Acções que, contribuindo para maior produtividade e competitividade, permitem às pessoas e ao país mais desenvolvimento e prosperidade, maior sustentabilidade dos serviços públicos, coesão social e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

2022

“Apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer” pelo que devemos comprometer-nos a “trabalhar conjuntamente e com urgência e propósito para assegurar cuidados de qualidade na área da saúde mental a todas as pessoas em qualquer lugar do Mundo.” A. Guterres, ao assinalar o Dia Mundial da Saúde Mental (10.10), sinalizou a grande preponderância, visibilidade e reconhecimento da saúde mental, para o qual contribuiu um 2º ano (2021) de forte incerteza, perdas diversas e de aprofundamento de desigualdades, consequência de uma pandemia que acresce desafio aos já enormes e complexos desafios societais contemporâneos, bem como o facto de persistir um longo caminho por fazer nesta matéria.

Numa possível “fotografia” portuguesa do tema, participei num trabalho da Clara Soares e da Mariana de Almeida Nogueira (Revista Visão) intitulado “Ansiedade, depressão, fobias: A epidemia escondida na saúde mental” e numa peça da Sónia Bento (Sábado) intitulada “Celebridades fazem da saúde mental um negócio” que, contribuindo e resultando (em simultâneo) da visibilidade descrita, pensa o crescente interesse de celebridades, marcas e “negócios” em torno da saúde mental e bem-estar, com o bom e o menos bom que isso pode comportar, conforme procuro reflectir. Uma e outra peça a sinalizar, também, que “apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer” e uma transição a cumprir, conforme há dias referido e defendido pelo Presidente da República. Uma e outra peça a sublinhar o papel da psicologia no momento que vivemos e nesta transição, justa, necessária e urgente.

Mas, também aqui (na visão do contributo da psicologia) e estando nós a iniciar um novo ano, creio importante sublinhar que “apesar dos passos positivos, há um longo caminho a percorrer”. Que, apesar da maior percepção hoje do seu papel na prevenção, na promoção de saúde mental e na intervenção em problemas neste âmbito, há um longo caminho para o reconhecimento mais amplo (e respectiva consequência) do papel desta ciência do comportamento em dimensões mais vastas da saúde, bem-estar e qualidade de vida, do relacionamento e da cooperação, da educação e investigação, do trabalho e da economia, da gestão de (grandes) dados, comunicação ou mudança, da equidade e coesão social e do desenho de políticas (públicas). De reconhecimento, mais amplo, do seu contributo ímpar para os objectivos do desenvolvimento sustentável.

Da minha parte, neste 2022, assumo-o como objectivo e compromisso: tendo oportunidade, contribuir para o papel da nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses no aprofundar dos passos positivos na área da saúde mental, mas, também, para avançarmos no caminho a percorrer, particularmente no papel que a psicologia pode (e tem como dever) assumir no caminho de erradicação da pobreza, de combate a todas as formas de exclusão, de resposta à complexa crise climática e de promoção da Paz.