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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

54 anos das cheias de 1967 e impacto da pandemia nas/os bombeiras/os e outros agentes de protecção civil

“Foi a maior catástrofe do país depois do terramoto de 1755.” Esta noite (e madrugada) passam 54 anos das cheias de 1967. Nessa noite, em alguns concelhos da “Grande Lisboa”, a chuva atingiu 170L/m2/hora (entre as 19h e as 00h a precipitação correspondeu a 1/5 do que choveu em todo o ano de 1967) dizimando aldeias nas zonas mais pobres e “abandonadas” (20.000 casas totalmente destruídas), provocando centenas de mortes (462 “oficiais” embora se estimem 700) e muito sofrimento nas famílias e comunidades. Apesar da onda de apoio (particularmente do movimento estudantil face a um regime “inoperante” que, essencialmente, procurou “esconder” a dimensão da tragédia e as suas causas – a pobreza (extrema) e as condições de vida das populações), o sofrimento estendeu-se a quem naquele e nos dias seguintes procuraram ajudar as “suas pessoas”, aldeias e comunidades com recursos limitados, nomeadamente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil. “Quando vim para baixo a ponte já tinha sido levada pela água e o quartel estava cheio de mortos. Foram 63 só no 1º dia. Passaram-me todos pelas mãos antes de serem levados para o Inst. Medicina Legal”, contava em 2017 à Renascença o à época bombeiro de Odivelas Abílio Silva. Descrição que nos convida a pensar nestas pessoas e profissionais, no seu papel e condições, na incerteza perante e nos impactos do seu trabalho no seu bem-estar.

Coincidentemente, hoje passam 50 dias de uma conversa que aqui partilho no Porto Canal (06.10) a propósito do documento produzido conjuntamente entre a ANEPC (um cumprimento especial ao Bruno Vaz por todo o empenho) e a Ordem dos Psicólogos Portugueses – “Os bombeiros e a saúde psicológica em tempos de pandemia”. Nela reflecti sobre o impacto da pandemia (e o prolongamento desse impacto), mas não apenas, nas e nos profissionais de primeira linha, particularmente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil, em muito devido ao contacto permanente com situações de perda, luto e sofrimento, stresse, a necessidade de mudança de rotinas, protocolos e equipamentos e com a incerteza. Também sobre a importância da literacia, auto-cuidado e conciliação das dimensões pessoais e profissionais com propósito nestas e nestes profissionais ou a necessidade de reforço das redes de apoio entre pares e da ajuda profissional, quando necessária, contingente aos problemas e dificuldades.

As cheias de 1967 impactaram, além das comunidades afectadas, a consciência colectiva, estimulando tensão de mudança na sociedade. De certa forma, espero que as catástrofes/crises dos últimos anos nos impelem a uma reflexão tendente à valorização e apoio às pessoas que, com dificuldade, se dedicam a ajudar outras nestes momentos. Isso e a reflectirmos sobre o que, enquanto pessoas, comunidades e sociedade, podemos fazer para as prevenir, mitigar e vivermos com maior (potencial de) bem-estar para todas e todos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Saúde Mental | Erradicação da Pobreza: 7 dias de distância (Ao redor…; Sábado; 19.10.2021)

Desde 1994, 7 dias separam as comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental (10.10) do Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza (17.10). 7 dias, uma semana, com um simbolismo próprio, este ano reforçado pelo facto de o tema das comemorações do Dia Mundial da Saúde Mental ser a “Saúde Mental num Mundo desigual”, a propósito de um Mundo onde “as pessoas mais ricas continuam a enriquecer” coexistindo com “um número de pessoas ainda muito alto que vivem em situação de pobreza”. Por vezes, extrema, acrescento. Como acrescento que poderia o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza ter sido também ele dedicado à “Pobreza num Mundo desigual” a propósito de um Mundo onde as pessoas não pobres têm mais oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental coexistindo com um número ainda muito alto de pessoas pobres e excluídas sem oportunidade e acesso a respostas e serviços na área da Saúde Mental.

Uma semana e um ciclo muito próprio. Ciclo sobre o qual já reflecti nesta rubrica, porquanto a pobreza e a exclusão, também dela resultante, têm uma forte e cíclica associação com dificuldades e problemas de saúde mental ou psicológica, como são a depressão, a ansiedade e o stresse. Ciclo sobre o qual é urgente agirmos, porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, vivenciaremos ou poderemos vivenciar dificuldades ou problemas de saúde psicológica ou por eles sermos impactados. Porque todas e todos, num determinado momento da nossa vida, ficaremos ou poderemos ficar expostos a alguma precariedade, vulnerabilidade ou exclusão ou por elas ser impactados. Porque este ciclo significa, sobretudo, o sofrimento de muitas pessoas e comunidades, perda de anos de vida com qualidade e perdas económicas significativas em Portugal, na União Europeia (4% a 5% do PIB Europeu, segundo dados recentes) e no Mundo.

 

Daqui resultam três inevitabilidades. A de que não poderá existir um avanço significativo ao nível da saúde mental da população portuguesa se não existir também a diminuição significativa dos níveis a pobreza e de exclusão, seu importante determinante. A de que não haverá uma diminuição significativa no nível de pobreza e exclusão sem um investimento de recuperação das pessoas com doença mental e da promoção de saúde mental, enquanto factor determinante de resiliência e de possibilidade de adaptação da pessoa aos acontecimentos de vida e de projecção de e no futuro. Finalmente, a de que investir na saúde mental resultará também na diminuição de factores de vulnerabilidade que conduzem e/ou reforçam situações de pobreza e exclusão e que investir na diminuição dos níveis de pobreza e exclusão resultará no aumento da potencial da saúde mental, pela redução da escassez, promoção de competências transversais de vida e pela maior possibilidade de florescimento e de bem-estar.

 

Daqui resulta também a necessidade, não menos urgente, de sermos congruentes com quatro dimensões conceptuais nestas áreas que podem informar decisivamente as políticas e intervenções neste âmbito. Que todas e todos nos encontramos no espaço que existe entre os polos doença e saúde mental, deambulando mais para próximo de um ou outro polo, consoante mudam certos determinantes da nossa vida e vivenciamos e nos adaptamos aos seus acontecimentos, existindo espaço de oportunidade para políticas de prevenção e promoção que considerem este contínuo. Ainda, que em toda a nossa vida e, particularmente, quando expostos a situações de maior vulnerabilidade como a pobreza e exclusão ou como a doença mental, a dignidade é fundamental e que apenas podem existir respostas, numa e noutra área, assentes na dignidade da pessoa, em ferramentas e intervenções com base em evidência científica que suportem a recuperação e a mudança e no desenvolvimento de políticas e respostas integradas, humanistas, qualificadas, visando a autonomia e a integridade da pessoa em qualquer circunstância – quando “bem”, aquando de potenciais dificuldades ou problemas ou em processo de recuperação, apoio ou intervenção.

 

Resulta, também, que o indicador bem-estar percebido pelas pessoas e pelas comunidades deva ser um elemento central na definição de políticas (sociais, de emprego ou de saúde, para referir apenas três exemplos), vector-chave no desenho das mesmas e objecto de avaliação na observação dos seus impactos. Finalmente, que, nem as questões da pobreza e da exclusão, nem as relativas à doença mental, são problemas iminentemente individuais, como muitas e muitos querem fazer supor, antes a sociedade, a sua complexidade e volatilidade e toda a incerteza associada aos desafios actuais e à precariedade de algumas situações, desempenham um papel fundamental nestes problemas, não sendo os mesmos da responsabilidade de cada pessoa ou resolvidos exclusivamente por cada pessoa, e necessário que previnamos que a recente saliência da importância do autocuidado ou da resiliência não resulte em processos de dupla culpabilização decorrente da responsabilização das pessoas que sofrem com estas dificuldades pelas próprias dificuldades.

 

Considerando este ciclo, as inevitabilidades referidas e em congruência quer com o quadro conceptual acima, quer com o papel que interpretamos como essencial de uma associação pública profissional (por estes dias bastante discutido), a Ordem dos Psicólogos Portugueses desenvolverá no próximo ano um amplo debate que conduzirá à definição de uma estratégia de promoção do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos portugueses para a prevenção, mitigação e erradicação dos fenómenos de pobreza e de exclusão. A estratégia viverá de acções e contributos dirigidos à própria profissão, à sociedade civil, aos e às decisoras e a instâncias internacionais e procurará motivar um relevante e mobilizador questionamento: qual o meu papel e qual o meu contributo junto dos fenómenos da pobreza, da exclusão e da desigualdade?

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada um e uma de nós não conseguirá por si mudar o Mundo. Mas poderá, intervindo nos determinantes e promovendo saúde mental, contribuir para a mudança de uma ou de um conjunto de pessoas. Mudando o Mundo de cada uma. Mudando o Mundo do Ricardo, da Luísa, do Manuel ou da Micaela. Deles, das suas filhas e filhos, amigos e amigas, pais e mães. Sentem e sabem do que falo, não sabem? Porque esperamos?

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

“Não é um problema só para os outros.”

Araquibutirofobia, triscaidecafobia ou pogonofobia. Quaisquer fobias têm como base medos irracionais com impacto significativo no quotidiano e qualidade de vida das pessoas. Em todo o caso, existem fobias que provocam sofrimento a muitas pessoas e nos parecem, por menos comuns, ainda mais irracionais. Aos medos de que algo pastoso se cole ao céu da boca, do número correspondente ao dia de hoje (13) e de barbas (acima respectivamente nomeados), junto a optofobia, o medo irracional de abrir os olhos.

Quem sofre de optofobia, ou de qualquer outra fobia ou problemas de saúde mental, merece toda a atenção e cuidado da parte de cada pessoa e da sociedade. Merece que “abramos” os olhos a esta realidade e que reconheçamos o quão fundamental é hoje investirmos na promoção da saúde mental e apoiar as pessoas que hoje sofrem de problemas de saúde psicológica para recuperarmos o país e uma ideia de futuro das pessoas, famílias e comunidades baseadas numa real aspiração de bem-estar e cumprimento. O quão fundamental é, para que tal suceda, conseguirmos, enquanto sociedade, dar significado ao que as pessoas sentem, sublinhando que existem saídas possíveis e tratamento disponível para os seus problemas, bem como é possível prevenir este tipo de dificuldades.

Assim comecei um diálogo (que aqui partilho) no Dia Mundial da Saúde Mental na TVI24 que partiu da importante premissa que serão hoje, considerando a prevalência pré-pandemia e o agravamento potencial da mesma nos últimos dois anos, entre 2 a 3 milhões as pessoas em Portugal que necessitam de apoio psicológico urgente. Perguntou-me (Interpelou-me), bem, o José Gabriel Quaresma “como pode uma sociedade desenvolver-se de forma saudável quando não olha para estes problemas da sua população?” Perguntou-me (Interpelou-me), também bem, se, “dado que há décadas falamos destes temas”, eu acreditava mesmo “que estes problemas se podem resolver”.

Falamos de causas, de consequências da insuficiência das respostas, dos impactos da pandemia. Falamos de respostas possíveis. Falamos finalmente, optimista que sou, de que só se podem resolver, porque não há bem maior em que se possa investir (com retornos múltiplos) que não as pessoas, principal recurso do país; porque temos recursos disponíveis, preparados e motivados para tal; porque, como a Maria João Marques hoje afirma num importante e corajoso artigo no Público, este “não é um problema só para os outros”.

Não abramos os olhos só para a doença mental. Não tenhamos receio de o fazer com a saúde mental. Uma política humana e sustentável nesta área depende de não investirmos apenas na recuperação, aguardando mais e mais pessoas a necessitarem de ser recuperadas. Depende da conciliação da recuperação com a promoção da resiliência, prevenindo sofrimento e necessidade de recuperação no futuro, criando condições de bem-estar e, através dele, de equidade e coesão social.

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Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses

Meu filho…

Quando hoje te deixei na Escola para o teu 1º dia do 1º ano de escolaridade pensei nos 32 anos que separam este momento de quando eu o fiz. Desse Setembro de 1989 ao de 2021, há um conjunto imenso de transformações na nossa sociedade e na nossa Escola.

Com todos os desafios que se lhe colocam e com todo o caminho que há por percorrer, o sistema educativo português é espaço de políticas (públicas) de qualidade e com resultados. Sou-lhes grato e, de certa forma, devedor. Por isso, mas também porque creio que a confiança (em nós, nas outras e nos outros e nas instituições) será decisiva para maior coesão social na resposta aos desafios societais complexos que enfrentaremos, reflticto sobre este simbólico momento.

Avançamos significativamente na escolaridade da população recuperando de um atraso significativo que penalizou gerações e gerações. Implementamos políticas de alargamento progressivo da escolaridade obrigatória, prevenção do insucesso e redução do abandono escolar precoce. Procuramos construir escolas inclusivas, promover competências sócio-emocionais e desenvolver cidadãs e cidadãos mais preparados e responsivos às e aos outros e aos desafios que o futuro nos reserva. Nem tudo se fez bem. Mas muito, por vezes com poucos recursos mas com dedicação e abnegação de muitas pessoas, se conseguiu.

A meio caminho (2005) entre os Setembros de 1989 e 2021, entrei na Escola de 1º ciclo onde fiz o meu estágio curricular e onde trabalhei nos anos subsequentes como psicólogo. Tenho perspectiva sobre o papel da ciência psicológica e da presença de psicólogas e psicólogos nos contextos escolares e da forma como sustentaram a implementação e sucesso destas políticas. Hoje somos imprescindíveis nas Escolas e somos muitas e muitos mais que em 2005. Amanhã teremos que ser ainda mais e, essencialmente, ter recursos para garantir maior eficácia na nossa intervenção, pela maior autonomia, continuidade e compreensão do papel e com melhor articulação de intervenções na Escola, na comunidade e na saúde, com enfoque no SNS e nos cuidados de saúde primários como defendemos no seu 42º aniversário que hoje se cumpre.

Conciliar, com mais exigência, medidas sanitárias com a promoção do bem-estar e da saúde psicológica, deve ser hoje objectivo central. Em 2021 lutamos por uma Escola que responda às iniquidades, promova o bem-estar e acompanhe as expectativas de estudantes e das suas e seus cuidadores. Como lutamos por políticas públicas promotoras de equidade, bem-estar e respondam às expectativas da população, utilizando eficazmente os limitados recursos disponíveis.

Que sintas, na Escola e não apenas, espaço para cresceres, floresceres, desfrutares da relação com as outras e os outros e com o que te rodeia e te sentires bem no que és e desejas ser, meu filho. Hoje. Sempre.

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Celebrar

Nigel Nicolson é um dos muitos escritores e escritoras que publicaram biografias ou outros textos em torno de uma das mais marcantes e mais complexas figuras da literatura mundial – Virginia Woolf. Filho de Vita Sackville-West, também ela escritora, contactou com Woolf a propósito da sua relação muito próxima com a sua mãe, de quem foi, além de amiga, amante. A certo momento Woolf disse a Nicolson que “nada acontece verdadeiramente até estar escrito”, momento que diz marcante na sua vida.

Penso esta frase numa perspectiva de “inscrição” muito explorada no trabalho e na reflexão de José Gil e no papel que a escrita (no sentido também da reflexão e da partilha) tem nos nossos acontecimentos e nas nossas práticas em vida. Penso-o também 48 horas depois do Dia Nacional do Psicólogo (04.09), ao reflectir sobre a importância da sua “inscrição” pela Assembleia da República em 2018 para celebrar o papel das já quase 25.000 psicólogas e psicólogos que dia-a-dia, com a sua ciência e a sua prática, contribuem para o bem-estar de pessoas e organizações e para a coesão social no nosso país. Penso-o final e curiosamente a propósito da fase de candidaturas para o Prémio Ano Profissional Júnior 2020 que a Ordem dos Psicólogos Portugueses atribui e cujas normas e formulário de candidatura se encontram disponíveis aqui.

Porque aos desafios que hoje vivemos se sucederão outros, alguns deles particularmente complexos; porque, mais do que nunca, necessitamos de todas e todos a construírem a ciência e a profissão e a trazerem inovação e proximidade às pessoas, à sua linguagem e aos seus acontecimentos de vida mais significativos; porque, precisamos de inscrever práticas para as reflectir e para que partilhadas possam informar, melhorando, outras e possam chegar a mais pessoas; e porque precisamos de celebrar o tanto de bom que dia-a-dia, psicólogas e psicólogos, fazem por vezes em condições particularmente difíceis e exigentes – estimulo todas e todos os colegas que preencham as condições de candidatura a fazerem-no e a todas e todos os outros a acompanharem os projectos candidatos e o projecto vencedor, numa celebração da nossa ciência, da nossa profissão e do contributo que cada uma e um de nós também deu ao que informou aqueles projectos e ao que permitiu o resultado dos mesmos, no benefício de pessoas, organizações e da nossa sociedade.

Construamos e celebremos, sempre, a psicologia. A bem de estar cada vez mais próxima, mais acessível e mais capaz de apoiar as pessoas, os grupos e a sociedade nos desafios societais complexos que enfrentaremos.

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Democracia Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

A impaciência do coração…

Na sua autobiografia (“O mundo de ontem”), Stefan Zweig escreve, com uma simplicidade desconcertante face à complexidade da sua reflexão (e percurso), que os dias mais importantes da vida têm um brilho maior que os dias comuns. Assim sabemos ser. A 16 de Junho vivi um desses dias, daqueles que sabemos que, aconteça o que acontecer, será sempre dos mais importantes da minha vida e que nele conteve os dois polos: provavelmente o melhor e mais intenso que a vida nos pode trazer; mas também uma perda com significado e tudo quanto ela implica.

Os 2 acontecimentos que assim fazem o meu 16.06.2021, numa feliz coincidência, coexistiram e coexistirão na minha memória com a estreia do programa da RTP2 Impaciência do coração”, que contou com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Programa que começou a ser imaginado e construído há alguns anos (algo que reforça a feliz coincidência) e que tive oportunidade de acompanhar desde a ideia até vê-lo na televisão. Um programa onde uma sempre excelente Gabriela Moita conversa com psicólogas e psicólogos sobre comportamentos “sociais, afectivos e quotidianos” e que “pretende refletir e partilhar o saber disponível sobre diversas dimensões do comportamento e a sua relação com áreas de intervenção, como a saúde, a educação, o trabalho, entre outras”, conforme a sua apresentação. Um programa semanal que tratou em conversas com o David Dias Neto, Miguel Ricou e o Luís Fernandes a mudança, a relação corpo-mente e a justiça e o “desvio” nos primeiros episódios e que hoje trará a conversa com Constanca Paúl sobre envelhecimento (https://www.rtp.pt/play/p8960/impaciencia-do-coracao). Um programa que continuará com outros temas e que terá um episódio-conversa onde participei sobre informação e desinformação e seus impactos nas pessoas e na sociedade.

Beware of pity (“Cuidado com a pena que sentes”), publicado em Portugal como “Coração impaciente”, é um livro escrito por Zweig num ano que não esqueceria – 1939. Ano em que vivenciou os tais dois polos: casou com a sua esposa Charlotte com quem viveu e, literalmente, morreu anos mais tarde; ano em que viu eclodir a II Guerra Mundial, acontecimento importante no seu crescente desânimo e sofrimento pelo crescimento e expansão da intolerância e autoritarismo no Mundo, conforme escreveu já próximo do final da sua vida. Um ano com impacto numa vida que impactou a sociedade e a confrontou na sua reflexão. Estimo e espero que o “A impaciência do coração” seja um outro contributo, necessariamente distinto, para nos pensarmos, pensarmos o comportamento humano e reflectirmos sobre a nossa sociedade e os desafios que se lhe e nos colocam.

Ps. Um abraço ao Duarte Zoio, pessoa particularmente envolvida neste projecto e que acabou por ver a sua estreia já num novo projecto profissional. Que o programa também sirva o propósito de o fazer sentir o quanto contribuiu ao longo de anos para um melhor conhecimento e reconhecimento da Psicologia e das psicólogas e dos psicólogos na sociedade.

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Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Eu sinto.me – Programa online

As últimas décadas – e também as próximas, podemos imaginar – foram fortemente impactadas pelo desenvolvimento e generalização da world wide web (www), um sistema de documentos, em diversos formatos, interligados e executados na internet. Este sistema assemelha-se muito a um outro que nos influencia de forma ainda mais determinante há milhões de anos – o wood world web, rede subterrânea florestal onde árvores de diferentes espécies, interconectadas através de fungos e de bactérias, partilham recursos pelas suas raízes. O wood world web influencia-nos ao ponto de ser “raiz” da existência da sociedade como a que hoje conhecemos que, com os seus desafios societais complexos e iniquidades, se organiza também em torno da interconexão das pessoas e da partilha de recursos entre elas. Uma sociedade onde nos “contagiamos”, não apenas dos hoje tão falados vírus, mas também de comportamentos, de pensamentos ou cognições, de sentimentos ou emoções. Uma sociedade de relação.

Assim o é também com a saúde psicológica e com o bem-estar. Na Ordem dos Psicólogos Portugueses temos investido significativamente na promoção da literacia, saúde psicológica e do bem-estar, desenvolvendo e disseminando gratuitamente centenas de recursos baseados na ciência psicológica e e em diferentes formatos, partilhando-os com entidades a quem nos associamos e disponibilizando, desde o Dia Mundial da Saúde de 2021, o portal “eu sinto.me” (https://eusinto.me) que os reúne e disponibiliza de forma simples e acessível.

Na procura de complementar o portal e chegar, de forma mais próxima e com mais impacto a mais pessoas, lançamos recentemente o programa online “eu sinto.me” que em episódios mensais em vídeo, com psicólogas e psicólogos, outros profissionais e cidadãos ou cidadãs aborda temas específicos da saúde psicológica e bem-estar. Os 3 primeiros episódios – autocuidado e bem-estar (https://www.youtube.com/watch?v=XXzwipNKD1U&list=PL1EhLnDjTQMRBgbgn0y_smV1jrv_HRG4z&index=1), ansiedade (https://www.youtube.com/watch?v=GVMSWOkoVu0&list=PL1EhLnDjTQMRBgbgn0y_smV1jrv_HRG4z&index=2) e sono (a disponibilizar este mês) – formam nas temáticas um triângulo fulcral ao bem-estar e saúde psicológica situando-se no autocuidado, hábitos de vida e problemas e dificuldades comuns de saúde psicológica.

Partilho-o para que nos “contagiemos” na saúde psicológica e bem-estar, também assinalando a memória de alguém que perdemos esta semana (mas que muitas e muitos não esqueceremos) – António Coimbra de Matos. Alguém que, além de “inscrever” na sociedade como trazia inscrito na sua pessoa, a Galafura, aldeia onde nasceu, inscreveu na sociedade, por em si inscrito, o papel do humanismo, das relações e dos afectos na saúde mental, sendo uma figura incontornável na promoção da literacia e do conhecimento neste âmbito, em momentos em que o estigma associado à doença mental era ainda mais significativo e a sociedade mais fechada. Obrigado pelo que me deu. Obrigado pelo que nos deu e pelo que nos deixou.

 

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Magazine – Quando, Como e Porquê?

“Senhores espectadores, boa noite! Vamos apresentar a 1ª edição do Telejornal da RTP constituída por noticiário e actualidades do país e do estrangeiro”. Estávamos em 1959 e foram estas as palavras com que Mário Pires abriu o 1º Telejornal em Portugal, um “programa” inspirado no Telegiornale da RAI Italiana que se iniciara 5 anos antes.

Passaram 61 anos, vivemos outro tempo e outros desafios, um sistema político diferente e com outras possibilidades e direitos no acesso à informação e liberdade. 61 anos sempre com os Telejornais como modelo procurado por milhões de pessoas para acesso ao “noticiário e actualidades”.

Procurando aumentar as formas disponíveis para acesso à informação sobre a OPP, tornando-a mais acessível e presente junto de todas/os as/os psicólogas/os, a Ordem dos Psicólogos Portugueses, num trabalho exclusivamente realizado pela sua equipa, disponibilizou um novo Magazine Informativo (“Quando, Como e Porquê”) que vos convido a ver e que pretende resumir “notícias e actualidades” da associação de todas/os as/os psicólogas/os e do que a rodeia.

É mais uma forma de estarmos cada vez mais próximos e de estando mais próximos sermos uma OPP cada vez mais forte e com maior capacidade de responder aquilo que o país, as pessoas e as/os psicólogas/os dela esperam.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Era o que faltava… (Rádio Comercial; 15.04.2021)

Falar ajuda. Não resolve ou soluciona tudo. Mas ajuda, muito.

Conversar com alguém, particularmente quando mais preocupadas/os ou ansiosas/os, pode ajudar-nos a compreender melhor o que (e porque o) sentimos e ser bastante organizador.

Na 5ªF fi-lo a convite da Rádio Comercial com a Ana Delgado Martins e o Rui Maria Pêgo, dois excelentes conversadores, no “Era o que faltava”. Uma das muitas conversas que, “ao baralhar e voltar a dar”, cumprem esse propósito, permitindo a quem ouve rever-se (ou não) na/o convidada/o, descobrindo mais de si.

Conversa que versou o propósito; a produtividade e bem-estar; a vulnerabilidade e diversidade; o luto; a recuperação das pessoas e da confiança em nós, nas/os outras/os e nas instituições, também pela promoção da saúde psicológica; a adolescência e o idadismo; a adaptação, o retomar e a reparação; a literacia, auto-cuidado e a ajuda profissional; a “positividade tóxica” e culpa; a desinformação, polarização e conspiração; a pobreza e o que podemos fazer por um país com mais bem-estar, equidade e coesão social.

Convido-vos a ouvir aqui tal como convido a ver o vídeo “Falar Ajuda” da Ordem dos Psicólogos Portugueses aqui.

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Elas/es sentem-se, vós, nós, ela/e, tu, eu sinto-me…

Elas/es sentem-se, vós, nós, ela/e, tu, eu sinto-me… Quantas vezes no último ano conjugamos o verbo sentir?

Ano de diversas (por vezes violentas) transformações na vida das pessoas e da sociedade. Parte delas com sofrimento. Parte delas confrontando-nos com a importância de aspectos (por vezes pouco valorizados) como um abraço, a possibilidade de uma visita ou a segurança de um emprego… Com a impossibilidade de saúde sem saúde psicológica, literacia e bem-estar.

Ano em que, ao coordenar o gabinete de crise COVID-19, participei, no contributo cívico de promoção da literacia em saúde e em saúde psicológica da OPP. Investimento já pré-pandemia, amplamente reforçado agora com o contributo voluntário de centenas de psicólogas/os (que orgulho sinto nos inúmeros contactos que recebi a disponibilizarem-se) e que é agora projectado e ampliado com o https://eusinto.me.

Portal que “vi” em ideia, depois em papel, agora… Portal que reúne 500 recursos gratuitos, baseados na ciência psicológica, para pessoas (todas as idades), psicólogas/os e outros profissionais de saúde, decisores e media sobre saúde psicológica e bem-estar. Projecto que reúne trabalho de tantas/os, desenvolvido com empenho e compromisso da equipa OPP e que nos responsabiliza nesta área para futuro.

Obrigado a todas/os.