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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

04.09.2022

Hoje, 04 de Setembro, é Dia Nacional do Psicólogo. Dia em que, desde 2018, quando consagrado pela Assembleia da República após proposta da Ordem dos Psicólogos Portugueses, se celebram as psicólogas e os psicólogos em Portugal, valorizando o seu contributo, dia-a-dia e nas mais diversas áreas de actuação, para a saúde e bem-estar de pessoas e comunidades e para o desenvolvimento, a sustentabilidade e coesão da sociedade.

Dia para pensarmos a profissão (e a ciência que a suporta). O seu passado, em Portugal e no Mundo, no muito de bom e no que também de menos bom teve, contribuindo para a fundamental responsabilidade de exigência e melhoria constantes, únicos garantes da confiança nos seus contributos e nas e nos profissionais.

O seu presente, bem espelhado, entre outros, na carta aberta do Bastonário da OPP, Francisco Miranda Rodrigues, ao Sr. Presidente da República.

O seu futuro, particularmente na necessidade de reforço do caminho de complementar, cada vez mais intensamente, os seus contributos de prevenção e promoção da saúde e do bem-estar com as indispensáveis intervenções ditas “remediativas” e as intervenções mais “macro” (sociedade; causas/determinantes de problemas) com as indispensáveis intervenções mais “micro” (pessoa e grupos; consequências dos problemas).

A este propósito convido à descoberta e partilha de uma campanha sobre os contributos da psicologia e das psicólogas e psicólogos nos desafios societais como a saúde e bem-estar, a demografia e envelhecimento, as migrações, a crise climática e sustentabilidade, o trabalho e o desenvolvimento sustentável, a educação, a justiça e equidade, a pobreza e inclusão e a paz.

Dia para também, creio, nos (psicólogas e psicólogos) pensarmos na profissão e enquanto cidadãs e cidadãos psicólogos face ao país e Mundo, hoje. Eu regresso a este meu pequeno texto. Data de 23.03.2020, 10 dias após ter assumido a responsabilidade de coordenar o gabinete de crise COVID-19 da OPP e apenas um dia após o início do primeiro período de dever de recolhimento obrigatório em Portugal. Nele penso os antes e depois a propósito de uma muito significativa situação pessoal e da pandemia por COVID-19, convidando a uma visita à Quinta da Regaleira. Hoje pensarei estes e outros antes e depois, também de ser psicólogo. Hoje vou – finalmente – à Quinta da Regaleira.

Um dia feliz. Obrigado a todas e todos vocês, neste e todos os dias.

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

The future is…

“O que as/os psicólogas/os desejam que as/os jovens adultas/os de hoje saibam?”. Com este chamativo título, Dani Blum escreveu um estimulante artigo no The New York Times sobre uma potencial crise de “quarto de vida” e como a “geração que hoje chega à idade adulta se confronta com novos [muito complexos, acrescento], por vezes debilitantes, desafios”. Olhando o Mundo e usando da racionalidade, creio possível vermos hoje dos melhores indicadores de educação, saúde e bem-estar globais e, simultaneamente, desigualdades gritantes e desafios societais de complexidade significativa, apenas endereçáveis com mobilização global, concertação de esforços e, sobretudo, cooperação.

Como sabe, quem me lê, um dos que muito me (pre)ocupa é a crise climática (e suas consequências). Nele há trabalho desenvolvido (e em desenvolvimento) globalmente pela psicologia, a partir dos seus contributos enquanto ciência e profissão, que permitiu a participação na COP26 e outros contributos junto da United Nations (https://www.apaservices.org/advocacy/news/global-climate-policy). Não é este, todavia, o único dos desafios e este não se pode desligar de outros.

Um outro, particularmente relevante, relaciona-se com os fenómenos de ódio, racismo e xenofobia que muito condicionam a sociedade, a democracia, a coesão social e as possibilidades de saúde (incluindo psicológica) e bem-estar das pessoas e comunidades. Aqui, creio, há caminho a percorrer, particularmente num contributo mais global da psicologia.

Desde logo, conforme a American Psychological Association está a fazer, olhando, de forma crítica, o passado dos contributos e reflectindo sobre os seus impactos, alguns muito negativos. A reportagem que partilho (abaixo) relata este “confrontar sos erros para construir um futuro de equidade”, a partir de um devido pedido de desculpas e de acções de reparação do racismo histórico -convido também à reflexão sobre esta cronologia (https://www.apa.org/about/apa/addressing-racism/historical-chronology) de 1869 (com Galton, com os primeiros estudos das diferenças individuais em psicometria e emergência do conceito de “eugenia”) até 2021 (aprovação pela APA da resolução que suporta este trabalho).

Este é tema central da #APAconvention 2022. Tema central num momento do Mundo (mas também pelo que se vive em Portugal) onde é premente unirmos esforços nesta temática. A convenção será nos próximos dias na cidade onde G. Floyd foi brutalmente assassinado em 2020. Minneapolis, cidade que viu Prince nascer e “partir” para nos dar, entre outras, a música “The future” (lembram-se do Joker J. Nicholson dizer “Hey Eckhardt, think about the future!”) que Prince termina a repetir 6 vezes “Eu vi o futuro e ele será…”, acrescentando um “all right” apenas na primeira.

6 possibilidades de inovação, novas narrativas e futuros alternativos. Futuros que, com cooperação e com uma psicologia a reflectir o seu passado para projectar o futuro, existam. Sejam “all right”… para todas e todos.

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia Tomada de Decisão

Maioridade(s)

Acabo de cumprir o momento do ano em que um segundo, minuto, hora e dia significam (mais) um ano de vida. E, se esse momento significa hoje “apenas” mais um ano de vida, no passado mais um segundo, minuto, hora e dia significaram uma mudança de idade que me garantiu (novos) direitos e deveres.

O meu aniversário de 2022 distou 5 dias da publicação do trabalho da Maria João Bourbon (Fisga; Revista Expresso) focado, exactamente, na questão da maioridade e da recente alteração nessa Lei no Japão (de 20 para 18 anos).

A peça trata a realidade em diferentes países, incluindo Portugal, e procura focar “discrepâncias” entre países e dentro dos países para questões distintas (votar, consumir álcool/tabaco, apostas, conduzir, casar, entre outras). “Discrepâncias” que – digo na peça – considero naturais, afirmando que o que “seria inconsistente com a ciência e o conhecimento disponível seria existir uma idade igual para todas as situações”, particularmente quando os estudos, cada vez mais sólidos, identificam diferentes momentos de maturidade e desenvolvimento que influenciam a idade de maioridade. Nomeadamente “funções mais racionais, cognitivas, de deliberação e de pensamento lógico”, onde, em média. o nível de competência da idade adulta se atinge aos 15/16 anos, e “funções e capacidades mais relacionadas com o autorregulação e a capacidade de controlar determinados impulsos”, onde, em média, se alcança próximo dos 20 anos.

Significa isto, digo, “que existe mais capacidade de tomada de decisão, mais precocemente, que envolva uma situação de saúde (se devem ou não ser alvo de um determinado procedimento, por ex.) do que serem capazes de, a conduzir, não avançarem num sinal amarelo ou para controlarem determinados impulsos relacionados com o consumo de álcool ou jogo”.

Ainda assim, refiro que persistem perplexidades na legislação (como a agora corrigida no Japão que permitia o serviço militar a partir dos 18 anos, mas o direito de voto apenas aos 20) demonstrativas de que nem “sempre há a consideração da melhor evidência disponível”. Afirmo, portanto, que a legislação (e quem a faz e aplica) deve ser sensível aos fenómenos sociais e culturais e ao conhecimento científico, também da psicologia, procurando as melhores e mais informadas decisões e estando disponível para produzir alterações, quando convenientes e suportadas, até pela “complexificação muito significativa dos processos de vivência e de escolha” com que as e os jovens se confrontam na sociedade contemporânea.

Tema exemplar onde ciência, sociedade, Lei e tomada de decisão devem “andar de mãos dadas”. Exemplar do quão certeiro é o mote da rubrica Fisga: “Quem sabe tudo é porque anda muito mal informado”. Do quão certeira é a metáfora de Carlos Fiolhais (“Por vezes os cientistas parecem para os governos como os candeeiros para as pessoas alcoolizadas – mais apoio [encosto] que iluminação”) e do quão assim não deverá ser visando o melhor interesse das pessoas, da justiça e da coesão social.

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COVID-19 Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Ontem. Amanhã.

Ontem foi um dia bom e importante para mim. Dia em que, necessariamente, pensei (e penso) o que passou e em que procurei (e procuro), na medida do possível, projectar o que aí vem. Dia em que me senti (e sinto) grato.

Neste caso, e neste ano, dia deste anúncio. Simbolicamente associado também a um momento de reflexão sobre o que foi, no empenho, dedicação e compromisso das psicólogas e dos psicólogos em Portugal, o contributo da sua ciência e da sua prática para um grave desafio de saúde pública global – a pandemia que ainda vivemos por COVID-19.

Simbolicamente associado a um momento de reflexão sobre os 30 meses que vão ter passado sobre os primeiros casos confirmados em Portugal e a constituição do gabinete de crise COVID-19 da OPP. Sobre as muitas centenas de colegas que, desde a primeira hora, contactaram a sua associação profissional disponibilizando-se a apoiar as mais diversas iniciativas e disponibilizando-se para contribuir num momento muito desafiante na vida das pessoas, das famílias, das e dos profissionais, das comunidades e das decisoras e decisores.

Sobre o quão também envolvido estive, o quanto propósito e significado acresceu ao que procurei que fosse também o meu contributo e ao quão grato estive, estou e estarei por o poder ter feito e essa tarefa me ter sido confiada.

Por, finalmente, a forma como aquele momento impacta o presente da psicologia em Portugal e impactará, ainda, o futuro. Um futuro com a psicologia e as psicólogas e psicólogos cada vez mais presente em cada vez mais momentos e circunstâncias da vida de cada vez mais pessoas.

Sobre isso procurarei reflectir nesta conversa / entrevista. Fica o convite para que nos encontremos e conversemos no V Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses, no final de Setembro em Aveiro. Nesta sessão e em qualquer outro momento porque falar, conversar, reflectir conjuntamente, é verdadeiramente importante.

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Ao redor... (Revista Sábado) Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política

Por um . Final à Pobreza (Ao redor…; Sábado; 05.07.2022)

Imaginemos por um momento um país onde apenas 3 em cada 100 pessoas têm acesso a alimentos que garantem qualidade e segurança alimentar. O cenário de 97% da população não conseguir cumprir as suas refeições mínimas parece o guião de um livro, uma série ou um filme “apocalíptico” inquietante. Não é. É, antes, a realidade que sustenta que António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, tenha afirmado que o “Afeganistão está por um fio.” Guerra. Um regime autoritário que não respeita direitos humanos básicos. Crise climática e seca extrema. Pobreza e exclusão. Determinantes desta situação que, além do sofrimento que comporta e das suas implicações de curto, médio e longo prazo, é um “barril de pólvora” de consequências imprevisíveis para o Afeganistão, para a região e para o Mundo.

Cada um destes determinantes relaciona-se, directa ou, pelo menos, indirectamente, com todas pessoas, com o seu comportamento e com as suas tomadas de decisão. São, portanto, objecto de uma ciência – a Psicologia – que há mais de um século os estuda e assegura, hoje, um vasto e sólido corpo de investigação que apoia a sua compreensão e que pode e deve contribuir para a sua mitigação e prevenção. Que deve, interna e externamente, afirmar-se enquanto ciência e prática não apenas centrada na doença ou nas perturbações da pessoa, que resultam das adversidades que enfrenta, mas também, e cada vez mais, no contributo decisivo que pode ter na qualidade de vida e no bem-estar no dia-a-dia das pessoas, numa potencial mudança da sociedade, rumo a um quotidiano com menos exposição à adversidade (e mais apoio aquando desta), capaz de prevenir a referida doença. Afirmar, na profissão e na sociedade, em Portugal e no Mundo, a Psicologia, também na sua intervenção social e comunitária, complementar ao contributo de outras suas áreas para esta mudança, portanto não só focada no individual e no psíquico, apoiando a pessoa nos seus problemas, empoderando-as e promovendo recursos. Mas, também, focada na mudança de políticas públicas e das realidades que nos conduzem a e perpetuam ciclos de adversidade, como os resultantes da pobreza e da exclusão, impactando significativamente a sociedade e colaborando nos principais desafios societais, a partir dos contributos únicos da ciência e prática da profissional.

Não por acaso a erradicação da pobreza é o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. É-o porque tudo impacta (educação, saúde, trabalho, participação social, …), qual espiral tóxica, alimentando factores de exclusão e dificultando a saída dessa situação, com sérias repercussões no futuro, particularmente das crianças e jovens. E é-o porque, apesar de ser um desafio crítico, sem fronteiras e intergeracional, e apesar de por vezes nos ser difícil assim o sentir, é possível e está ao nosso alcance terminar com a pobreza e, em particular, com a pobreza extrema. Está ao nosso alcance substituir a desesperança, consciente ou inconsciente, individual e colectiva, por um propósito de acção, consciente, individual e colectivo rumo a um fim à pobreza.

Possível, em Portugal, um dos países da União Europeia em que é mais difícil sair desta situação e em que uma em cada cinco pessoas, mesmo considerando apoios sociais, vive hoje em situação de pobreza. Possível, no Mundo, onde vivem hoje 700 milhões de pessoas em situação de pobreza extrema, número que hoje cresce, invertendo uma tendência de diminuição significativa dos últimos anos, particularmente pelos efeitos da pandemia por COVID-19, da crise climática e seca severa ou extrema em diversas regiões e da guerra (não apenas, mas particularmente na Ucrânia).

Curiosamente, ou não tanto, são também mais de uma em cada cinco as pessoas que em Portugal vivem com um problema de saúde mental. A relação entre estes problemas, particularmente a ansiedade, a depressão e o stresse e as situações de exclusão e pobreza é “íntima”, conforme compreendemos e reconhecemos, bastando-nos olhar sensitivamente à nossa volta. Ainda que seja evidente, nem sempre as pessoas e as políticas públicas são responsivas a esta realidade mas, hoje, ao olhar do senso comum, junta-se um forte corpo de investigação que demonstra esta associação cíclica e forte, tal como demonstra como o “efeito túnel” e a escassez mental associada às situações de pobreza, influenciam a capacidade de autocontrolo (comportamental e emocional), de planeamento e de tomada de decisão.

Imagine-se a tomar decisões relativamente à Escola do seu filho no próximo ano num final de tarde em que não tem, e não sabe como poderá ter, uma refeição para lhe dar de jantar. Imagine e imagine, por ser impossível fazê-lo, o quão duplamente injusto é, na maioria das situações, culparmos as pessoas pelas suas situações de pobreza, as penalizarmos por não tomarem as melhores decisões, planearem a sua vida ou reagirem impulsivamente e as estigmatizarmos. Imagine e imagine o quão triplamente injusto pode ser quando, a esta culpabilização e estigmatização, acresce auto-culpabilização e auto-estigmatização por parte das pessoas por não conseguirem dar-se e dar a outras e outros (dependentes, por exemplo) outras condições, sendo muitas vezes penalizadas por isso por uma sociedade que por vezes não lhes garante condições e oportunidade para sair da situação em que se encontram. Imagine e imagine quando a esta realidade juntamos níveis subsequentes de exclusão, por via de se tratar de pessoas especialmente vulneráveis como (algumas) pessoas migrantes, pessoas com problemas de saúde psicológica ou pessoas com baixas qualificações, para dar apenas três exemplos particularmente frequentes. Imagino, eu agora, que parte das pessoas a quem peço que imagem possam já ter vivido alguma destas situações, possam estar a viver ou que, como todas as outras pessoas, possam vir a vivenciar.

Também porque, não esqueçamos: a pobreza vai além da mera ausência ou escassez de recursos materiais. É uma experiência pela qual todas e todos nós poderemos passar e que condiciona direitos, a possibilidade de desenvolvimento e de nos cumprirmos. Condiciona a saúde psicológica e bem-estar. Por compromisso com estes valores, com a promoção da justiça social e dos Direitos Humanos e em total fidelidade com o objecto e com os princípios do Código Deontológico da profissão, a Ordem dos Psicólogos Portugueses apresentou a campanha “. Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt). Com ela pretendemos – assumindo um papel de ciência e profissão capaz de contribuir para a mudança e coordenando a nossa acção com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 de Portugal – potenciar a aplicação do conhecimento procedente da Psicologia à construção de políticas públicas eficientes e responsivas às pessoas, de respostas integradas e multidimensionais e reforçar os instrumentos disponíveis para o contributo da profissão e das psicólogas e dos psicólogos na área da pobreza e da exclusão.

Na Madalena (Ilho do Pico), na primeira sessão de recolha de contributos com psicólogas e psicólogos para a campanha, uma das participantes deixou esta simples proposta: “Promover a ideia de que a pobreza de uns afecta todos”. Que a pobreza, mesmo quando são outras as pessoas a vivenciá-la, a todas e todos impacta, que a sua mitigação e prevenção depende, também, de todas e todos e que a sua diminuição (fim, um dia) garantirá maior possibilidade de bem-estar para todas e todos. Que, no fundo, promover a equidade é, em si e pelo seu impacto potencial, preventivo. Além, claro está, de justo, porque é um direito. Além de, até terapêutico, se quisermos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental que priorizemos o combate à pobreza e à pobreza extrema, considerando todos os seus impactos e os problemas que comporta às pessoas e à sociedade. Que priorizemos e que, nesse combate, usemos a ciência que estuda o comportamento humano e os profissionais que, dia-a-dia, a aplicam nos seus diversos contextos de intervenção, em todo o ciclo de vida das pessoas e na informação às decisões e desenho e mobilização de soluções: as psicólogas e psicólogos. Profissionais felizmente disponíveis em Portugal e motivados para um contributo numa matéria decisiva para, afinal, o objectivo fundamental da sua intervenção: promover a autodeterminação, a saúde psicológica e o bem-estar das pessoas; contribuir para uma sociedade de direitos humanos, de equidade e coesão social.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 05.07.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/por-um–final-a-pobreza

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COVID-19 Desafios da Psicologia Emergência Climática Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Ainda o ECP2022

Stephen Reicher. Conheci-o a propósito do estudo das massas (dos grupos). Ouvi-o, por estes dias, pensar a liderança e o comportamento. Como influenciam organizações e governos, a gestão de crises (COVID-19 ou a climática). De como são fundamentais ao contínuo paz-guerra. Recentemente participou num trabalho que resultou num artigo que apresenta em cinco “R”, cinco prioridades das políticas relacionadas com a liderança identitária”: Readying [preparação]; Reflecting [reflexão]; Representanting [representação]; Realizing [realização]; e Reinforcing [reforço]. Além de neles me rever, no dever e na responsabilidade que assumi enquanto coordenador do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), creio 5 “R” farol para o trabalho de contributo de uma associação profissional para os desafios societais que enfrentamos.

Isso discutimos no simpósio que coordenei no European Congress of Psychology 2023 (Human Behavior and Decision Making – Psychology’s Role in Adressing Climate Crisis | Comportamento Humano e Tomada de Decisão – O papel da Psicologia na Crise Climática), onde, também, partindo da defesa da necessidade de caminharmos da pergunta “O que pode a Psicologia contribuir?” para “Como poderíamos enfrentar a crise climática sem o contributo da Psicologia enquanto ciência e profissão?”, apresentei o percurso da OPP nesta área, junto da profissão, da sociedade civil e das decisoras e decisores.

Reforcei também o nosso comprometimento com a Global Psychology Alliance, resultante da Summit que co-organizamos com a American Psychological Association em 2019, e com a EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), onde integro um Grupo de Trabalho. No simpósio, a Amanda Clinton, Ph.D. e a Nicola Gale, respetivamente, apresentaram o trabalho da APA e da EFPA e a Valeriia Palii (Ucrânia) e a Moanna Waitoki (Nova Zelândia), presidentes das respectivas associações nacionais, o trabalho desenvolvido nestes países.

Mas discuti-o também na comunicação (Dealing With a Pandemic in XXI Century – OPP Role and Contributions in COVID-19 Crisis | Lidar com uma pandemia no século XXI – O papel e os contributos da OPP na crise COVID-19]), reflexão da acção da OPP em 2 anos de pandemia. Entre outros, destaquei os contributos na formação e nos documentos orientadores da prática, na literacia, no apoio à criação do serviço de aconselhamento psicológico e da advocacia para a criação e apoio à Task Force das Ciências Comportamentais, coordenada pela Margarida Gaspar de Matos (ali representada pelo Osvaldo Santos), bem como o contributo para a rede de microinfluenciadores da Direção-Geral da Saúde (ali representada pelo Miguel Arriaga).

Momentos que nos recordam que os complexos desafios societais não têm fronteiras, que necessitamos de uma Psicologia com identidade, elevados padrões éticos, globalmente forte e que os psicólogos e psicólogas portuguesas têm tido (e devem continuar a ter) um relevante e reconhecido contributo para tal.

 

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade

Cara/o colega, qual é o seu contributo enquanto psicóloga/o para um “. Final à Pobreza”? [Mailing OPP; 24.06.2022]

Um oceano, uma falésia ou uma montanha. Olhamos, contemplamos e sentimo-nos pequenas e pequenos. A guerra, a crise climática ou a pobreza. Pensamos, vivemo-las, por vezes, e sentimo-nos pequenas e pequenos. Não raras vezes, perante desafios societais complexos, quais oceanos, falésias ou montanhas de problemas, sentimo-nos desincentivadas e desincentivados por não acreditarmos terem resolução possível ou por não nos percebermos capazes de contribuir para a sua resolução. Porém, assim não creio ter de ser. Não apenas acredito que têm resolução possível, como acredito no papel imprescindível da ciência psicológica e no contributo fundamental de cada psicóloga e psicólogo, com a sua prática profissional e de cidadania.

Penso-o assim no que se refere à erradicação da pobreza e, particularmente, da pobreza extrema. Pobreza que tudo impacta. A possibilidade de bem-estar, desde logo. A dignidade, quando limita ou impossibilita o acesso a condições e necessidades (básicas) de vida. Os direitos humanos, quando restringe ou impossibilita a pessoa, entre outros, de se cumprir. É, por isso, um importantíssimo determinante da saúde e, como cada vez mais investigação comprova, pode ser causa, mas também consequência, de problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse, que se associam em ciclo com as situações de pobreza. Acresce que a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afectivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização, num e noutro caso também das próprias pessoas sobre si próprias. Aliás, diria, que se há algo que toda e qualquer pessoa, qualquer que seja o seu papel, formação ou circunstância, pode rapidamente fazer para apoiar a solução deste problema é deixar de culpar, e contribuir para que outras e outros deixem de culpar as pessoas pela sua situação de pobreza.

Porque hoje sabemos muito mais sobre as múltiplas causas destas situações e sobre os seus múltiplos impactos. Porque hoje a ciência psicológica aporta contributos a esta compreensão e, particularmente, à forma como poderemos mitigar e prevenir estes problemas. Porque a erradicação da pobreza é, não por acaso, o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável e que, por via da pandemia por COVID-19 e da Guerra que hoje se vive na Ucrânia, sofreu recentemente um retrocesso significativo no caminho percorrido nas últimas décadas. E, porque a sociedade espera de nós, enquanto profissão, um contributo decisivo na estratégia nacional de combate à pobreza em curso – a nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses lançará publicamente amanhã a campanha “. Final à Pobreza”.

Uma campanha que pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos, disponibilizados neste portal, promover um debate amplo e participado com as psicólogas e os psicólogos no sentido da recolha de contributos (também através deste formulário que convido a preencher) para o desenvolvimento de um plano estratégico de acção nesta matéria assente em quatro dimensões:

a)     Sociedade civil: promovendo literacia sobre a pobreza nas suas causas, consequências e possibilidades de erradicação, bem como sobre o potencial contributo da psicologia;

b)    Decisoras e decisores: contribuindo com conhecimento e evidência da ciência psicológica para o desenho e para a efectividade de políticas e intervenções nesta área;

c)     Profissão: estimulando e apoiando com recursos e ferramentas a prática profissional, a formação inicial e contínua e a investigação científica neste âmbito;

d)    Cooperação nacional e internacional: afirmando e promovendo redes colaborativas de reforço do contributo da psicologia para a erradicação da pobreza em Portugal e no Mundo.

Investigando, advogando e praticando a psicologia, nós, psicólogas e psicólogos, fazemos do princípio A do nosso Código Deontológico (“Respeito pela dignidade e direitos da pessoa”) razão e motivo maior da ciência e profissão que nos une. Pela dignidade, pelos direitos (humanos) e pela possibilidade de autodeterminação das pessoas, só possíveis numa sociedade de equidade, bem-estar e coesão social. Contem comigo e connosco, conforme conto e contamos convosco para, juntas e juntos e com um chão e um tecto comum, caminharmos nesse sentido, também pelo nosso contributo para um “. Final à Pobreza”.

 

Mailing Ordem dos Psicólogos Portugueses [23.06.2022]

Tiago Pereira

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Ordem dos Psicólogos Portugueses

SNS… Psicologia…

Domingo, 19 de Junho de 2022. O país acordou com o simbólico da Maternidade Alfredo da Costa não estar a receber grávidas provenientes dos CODU (INEM) para gestão dos fluxos e da pressão associada aos encerramentos de urgências de obstetrícia nos dias anteriores. Eram as primeiras horas do dia do 78º aniversário de Chico Buarque, pessoa e artista ímpar da língua portuguesa. Compositor, cantor e escritor que em 2019, ano em que recebeu o Prémio Camões, publicou o romance “Essa Gente” onde, a certa altura, escreve: “Era esperável que eu me confortasse.”

Era? Seria, penso a propósito da situação que vivemos. Regresso à sexta-feira, 09 de Junho de 2022, véspera de um dia de reflexão sobre o país, aqui e no Mundo. Dia em que o Fórum da TSF – Rádio Notícias discutiu a “multiplicação de alertas sobre os problemas do SNS”, antes dos encerramentos de diversas urgências que aconteceriam nos dias seguintes.

Na intervenção que fiz (que partilho), parto da ideia de que “nem tudo está mal no SNS”, para sublinhar o seu papel na melhoria dos indicadores de saúde, sociais e de bem-estar em Portugal e do capital social que hoje tem. Capital que funciona como elemento de pressão das pessoas e da sociedade civil para mais, melhores e mais rápidas respostas, também na área da saúde mental. Continuo, na intervenção, focando 4 aspectos relevantes da resposta nesta área do SNS e do contributo da ciência e prática psicológica para a sua maior sustentabilidade, acabando por (hoje assim reflicto), tocar dimensões que apoiam a compreensão da relevante e ampla crise do SNS (e da potencial resposta à mesma) que hoje discutimos.

Senão vejamos, foquei: a) a falta de recursos (na área da saúde mental e da psicologia em particular), principalmente nos cuidados de saúde primários; b) as ineficiências no sistema, que exemplifiquei através do circuito provável de uma pessoa que procure apoio psicológico no SNS (médica ou médico de família – serviço de psiquiatria e saúde mental – serviço de psicologia, quando existente), com os diferentes tempos de espera acumulados, sofrimento e problemas potenciais agravados e actos prescindíveis num quadro de acesso mais rápido e directo; c) os factores psicossociais associados ao trabalho no SNS, desde a enorme fadiga, stresse, por vezes desmotivação ao absentismo ou até abandono das e dos profissionais de saúde; d) a necessidade de reconceptualizarmos a intervenção do SNS, investindo mais na prevenção da doença e na promoção da saúde (também mental) e de estilos de vida saudáveis.

“Esperável”, diz o Fernando Alves, pessoa e jornalista ímpar da língua portuguesa, “é a formulação doce e cortês de uma ideia de espera e de uma ideia de desejo”. No caso, da minha ideia de espera, associada à esperança que tenho nesta necessária e urgente transformação e ao desejo de contribuir para que a ciência e a prática dos psicólogos e das psicólogas a possa mais e mais apoiar, estimular, promover e sustentar.

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. final à pobreza

Imagine que esta manhã não tinha qualquer roupa lavada para vestir. Como seria? Que impacto teria no seu dia? Quão menos segura/o ou confiante se sentiria? Ou imagine que não tinha como se deslocar onde precisasse ou quisesse ir, que não podia aceder a um serviço de saúde de que necessita ou ter condições de minimamente aquecer-se em dias frios… Ou, até, que estava a dias do aniversário do seu filho e não tinha como assinalar a data, fazendo uma pequena festa de aniversário ou sequer comprando um pequeno presente.

Estas são situações do quotidiano de muitas e muitas pessoas Mundo fora e também em Portugal. Situações muito mais próximas de todas e todos nós do que por vezes parece ou, simplesmente, do que gostaríamos e que nos lembram que a pobreza não se restringe à gravíssima pobreza extrema. Nos EUA, com indicadores não particularmente distantes dos de Portugal, 6 em cada 10 pessoas viverão pelo menos 1 ano da sua vida em situação de pobreza relativa. Mais de metade das pessoas, realidade certamente próxima da portuguesa e autoexplicativa do porquê da erradicação da pobreza ser o 1º dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Este foi o mote para uma conversa com a Carla Rocha, para a rúbrica Quarto do Fundo, parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que partilho. Conversa que versa o “. final à pobreza”, projecto da OPP que será muito brevemente lançado e que visa a definição de uma estratégia e a implementação de um plano de acção para um mais efectivo contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos para um ponto final à pobreza. Para um ponto final a um dos principais determinantes da (ausência de) saúde e, conforme hoje abundante e robusta evidência científica demonstra, para o mitigar da circularidade existente entre problemas de saúde psicológica (particularmente stresse, ansiedade e depressão) e situações de precariedade, exclusão e pobreza.

Falamos do porquê neste momento, ainda numa pandemia e quando se desenvolve uma absurda guerra, situações que invertem hoje um caminho de décadas de melhorias dos indicadores neste âmbito. Falamos do porquê do contributo da psicologia, pela dignidade, direitos humanos, equidade e coesão social e de como a compreensão do impacto das situações de pobreza no planeamento e tomada de decisão e da (auto)estigmatização e culpa associadas, são fundamentais às intervenções neste âmbito.

Falamos, ainda, das quatro dimensão e âmbitos da estratégia e do futuro plano de acção, com medidas e acções dirigidas à profissão; sociedade civil; decisoras e decisores; e cooperação nacional e internacional. Falamos, finalmente, no quanto creio possível um país e um Mundo sem pobreza e no papel que a mobilização da profissão e das psicólogas e dos psicólogos pode assumir enquanto contributo fundamental para um ponto final à pobreza.

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Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política

“Tudo se resume a escolhas humanas…” / OPP e OCDE

A dias do início da invasão e da actual guerra na Ucrânia, Y.N.Harari escrevia na “The Economist” que a “mais óbvia consequência deste regresso à lei da selva seria um forte aumento das despesas militares à custa de tudo o resto”. Por “lei da selva” referia-se à “possibilidade de países poderosos conseguirem esmagar impunemente os seus vizinhos mais fracos”. Por “à custa de tudo o resto” referia-se a que “o dinheiro que deverá ir para professoras/es, enfermeiras/os e assistentes sociais será investido em tanques, mísseis e armas cibernéticas” bem como à “fragilização da cooperação mundial, especialmente na prevenção das alterações climáticas ou na regulação de tecnologias potencialmente perigosas como a inteligência artificial e a engenharia genética”, resultante da impossibilidade de se “trabalhar ao lado de países que se estão a preparar para nos apagar do mapa”. O texto (“A história da humanidade está em jogo”), embora não os mencionando, é um excelente ensaio para pensarmos como evoluiu a sociedade e o Mundo no sentido de se organizar em torno dos objectivos do desenvolvimento (hoje sustentável) (ODS) e de como os tratados de direito e cooperação internacional e a carta da ONU que os sustentam podem, rapidamente, ser questionados e desinvestidos.

Também a dias de uma iniciativa da Ordem dos Psicólogos Portugueses na OECD – OCDE foi, por esta organização para a cooperação e desenvolvimento económico, publicado um relatório sobre o (in)cumprimento actual dos 17 ODS e das suas metas para 2030. Na perspectiva do copo (meio cheio ou vazio) creio que a imagem permite que sintamos, provavelmente em simultâneo, que há caminho já (e a ser) percorrido (por ex. nas áreas da saúde e bem-estar ou da qualidade da água e saneamento) e que há (muito) caminho por percorrer (por ex. na fome ou na igualdade de género). Permite-nos, também, intuir que, após retrocessos resultantes da pandemia por COVID-19, a Guerra e a sucessiva instabilidade internacional ameaçam o comprometimento e empenhamento nos ODS e nas suas dimensões chave: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceiras, esta, talvez, a área menos desenvolvida face aos objectivos estabelecidos.

Junto com o Francisco Miranda Rodrigues, a Sofia Ramalho, a Alexandra Antunes e a Patrícia Batista foi exactamente a parceria com a OCDE que procuramos estimular neste dia de reuniões de trabalho, contactos e de colaboração com as suas áreas de “Desenvolvimento e Cooperação”, “Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais”, com o “Centro de bem-estar, inclusão, sustentabilidade e igualdade de oportunidade” e com a Associação de Trabalhadores da OCDE. Falamos de cooperação e de contributos da psicologia. Falamos de desafios societais complexos “sem fronteiras”, de ODS e do seu futuro e de como, já hoje, devemos preparar e contribuir para o pós-2030. Porque no presente preparamos o futuro. Porque, tal como Harari fecha o artigo, não podemos esquecer que “o que é velho já foi novo” e que “tudo se resume a escolhas humanas.”