Domingo, 19 de Junho de 2022. O país acordou com o simbólico da Maternidade Alfredo da Costa não estar a receber grávidas provenientes dos CODU (INEM) para gestão dos fluxos e da pressão associada aos encerramentos de urgências de obstetrícia nos dias anteriores. Eram as primeiras horas do dia do 78º aniversário de Chico Buarque, pessoa e artista ímpar da língua portuguesa. Compositor, cantor e escritor que em 2019, ano em que recebeu o Prémio Camões, publicou o romance “Essa Gente” onde, a certa altura, escreve: “Era esperável que eu me confortasse.”
Era? Seria, penso a propósito da situação que vivemos. Regresso à sexta-feira, 09 de Junho de 2022, véspera de um dia de reflexão sobre o país, aqui e no Mundo. Dia em que o Fórum da TSF – Rádio Notícias discutiu a “multiplicação de alertas sobre os problemas do SNS”, antes dos encerramentos de diversas urgências que aconteceriam nos dias seguintes.
Na intervenção que fiz (que partilho), parto da ideia de que “nem tudo está mal no SNS”, para sublinhar o seu papel na melhoria dos indicadores de saúde, sociais e de bem-estar em Portugal e do capital social que hoje tem. Capital que funciona como elemento de pressão das pessoas e da sociedade civil para mais, melhores e mais rápidas respostas, também na área da saúde mental. Continuo, na intervenção, focando 4 aspectos relevantes da resposta nesta área do SNS e do contributo da ciência e prática psicológica para a sua maior sustentabilidade, acabando por (hoje assim reflicto), tocar dimensões que apoiam a compreensão da relevante e ampla crise do SNS (e da potencial resposta à mesma) que hoje discutimos.
Senão vejamos, foquei: a) a falta de recursos (na área da saúde mental e da psicologia em particular), principalmente nos cuidados de saúde primários; b) as ineficiências no sistema, que exemplifiquei através do circuito provável de uma pessoa que procure apoio psicológico no SNS (médica ou médico de família – serviço de psiquiatria e saúde mental – serviço de psicologia, quando existente), com os diferentes tempos de espera acumulados, sofrimento e problemas potenciais agravados e actos prescindíveis num quadro de acesso mais rápido e directo; c) os factores psicossociais associados ao trabalho no SNS, desde a enorme fadiga, stresse, por vezes desmotivação ao absentismo ou até abandono das e dos profissionais de saúde; d) a necessidade de reconceptualizarmos a intervenção do SNS, investindo mais na prevenção da doença e na promoção da saúde (também mental) e de estilos de vida saudáveis.
“Esperável”, diz o Fernando Alves, pessoa e jornalista ímpar da língua portuguesa, “é a formulação doce e cortês de uma ideia de espera e de uma ideia de desejo”. No caso, da minha ideia de espera, associada à esperança que tenho nesta necessária e urgente transformação e ao desejo de contribuir para que a ciência e a prática dos psicólogos e das psicólogas a possa mais e mais apoiar, estimular, promover e sustentar.