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Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas” (Sábado; Ao redor…; 11.01.2023)

A semana começou com incríveis imagens do Brasil. Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.

“Afirmações extraordinárias necessitam de evidências extraordinárias”. Popularizada por Carl Sagan, esta expressão ajuda-nos a reflectir a improbabilidade de um pretenso fim da história, particularmente quando a ciência, a tecnologia e o que se passa ao nosso redor criam constantemente diferentes cenários e alterações à realidade vigente. Ciência esta proveniente de disciplinas que contribuem para a resolução de problemas de elevada complexidade, cada vez mais diluída entre diferentes áreas e com maior reconhecimento de uma parte da sociedade civil e de decisoras e decisores. Uma parte.

É assim com a psicologia com a particularidade de, simultaneamente, contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras. A este propósito, reflictamos sobre três exemplos de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora.

“Uma palmada não faz mal a ninguém.” Uma das grandes mudanças societais das últimas décadas resulta da condenação ampla e quase generalizada das várias formas de violência sobre as crianças. Porém, persiste em algumas franjas da população, a perspectiva de que uma “palmada” não provoca qualquer dano, mantendo-se estas práticas enraizadas em diversos países conforme, por exemplo, a UNICEF vem estudando e sublinhando. Nada mais errado. Além da inutilidade e da ineficácia desta acção no sentido da promoção da mudança comportamental (ao não contribuir para a interiorização e inscrição das regras), existem perigos significativos que resultam da utilização da punição física ou de castigos corporais ao invés de acções de disciplina e parentalidade seguras ou positivas. Efeitos negativos que incluem o perigo do aumento, escalada e banalização da agressividade, violência e dos comportamentos anti-sociais, a não aprendizagem do comportamento esperado e a legitimação da violência de grupos sobre outros. Ainda, dificuldades de aprendizagem, auto-regulação e de desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais (no presente e futuro), além de consequências no bem-estar, segurança (também afectiva) e saúde, incluindo saúde mental.

“As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”. Passa este mês dez anos sobre a publicação, por um hoje deputado à Assembleia da República, do livro “O colonialismo nunca existiu!”. Alguém que assim o defende, junto com colegas de partido que negam também a existência de racismo estrutural em Portugal, desconsiderando factos concretos e estudos de opinião ou barómetros, incluindo os da União Europeia e legitimando, politicamente, esta negação e as suas consequências. As palavras contam. Contam muito. Contavam no final do século XIX, quando se descreveu a drapetomania, uma suposta doença mental responsável, imagine-se, pelo facto de algumas e alguns escravos procurarem fugir da sua condição, algo que, segundo Cartwright, apenas poderia suceder com pessoas em escravidão não saudáveis. Contavam no século XX onde me e nos pediam que pintássemos com “lápis cor de pele”. Contam hoje, na terceira década do século XXI, onde se procuram utilizar expressões como a “ideologia de género” para desconsiderar, denegrir ou ilegitimar condições, pretensões ou direitos de pessoas. Há hoje ampla investigação que demonstra que e como as palavras e expressões podem reforçar e perpetuar cognições ou crenças que influenciam as nossas tomadas de decisões, formação de opiniões e comportamentos. O racismo estrutural existe, em Portugal e no Mundo. Dificilmente esquecerei um estudo que demonstra como nos EUA ser “branco” parece proteger mais da violência policial do que ser um/a menor. Este como outros estudos, em diferentes áreas e países, tornam clara a sua existência, as suas consequências sociais e o seu impacto em dimensões de saúde e bem-estar. Tornam claro como funciona como factor de risco/vulnerabilidade e, potencialmente, de exclusão de pessoas e grupos.

“Os seres humanos são animais racionais”. Desde há quase 2400 anos e de Aristóteles que esta expressão é parte do nosso imaginário. No entanto, a ciência tem demonstrado as suas insuficiências, porquanto é hoje claro que a nossa racionalidade é tendencialmente guiada pelas nossas motivações e emoções e limitada pelos nossos pontos de vista, opiniões e vieses. Ainda que a racionalidade seja fundamental, até porque podemos sempre raciocinar sobre a própria irracionalidade, devemos ter presente que somos “animais racionais não a tempo inteiro”. Que temos falências, vieses. Que cometemos erros e que existem individualmente ou em grupo, momentos e movimentos onde a racionalidade é condicionada por pensamentos, emoções ou influências sociais ou de grupo que condicionam, senão determinam, as nossas tomadas de decisão e comportamentos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a história não tem fim. Mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis. Como a história, a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas, contribuindo para compreendermos o porquê de assim ser, como enquanto seres humanos nos comportamos e tomamos decisões e que é fundamental combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração. Contribuindo, simultaneamente, para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.

 

Tiago Pereira

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/nem-fim-da-historia-nem-fim-da-ciencia-o-contributo-da-psicologia-e-tres-ideias-feitas

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Prevenção (e Promoção)

Recuemos a Novembro de 2018. Apesar do Brexit já ter sido votado, o Reino Unido ainda discutia os termos da sua saída da UE. Boris Johnson ainda não era primeiro-ministro, enquanto Trump presidia os EUA. Não imaginávamos, nos quatro anos que se lhe seguiriam, uma pandemia próxima, uma guerra na Europa e uma crise de inflação e sócio-económica.

Nessa data o Departamento de Saúde e Segurança Social do UK, estrutura de apoio ao governo, publicava o relatório “Prevention is better than cure – Our vision to help you live well for longer” [numa tradução possível: Prevenir é melhor que curar – A nossa visão para a/o ajudar a viver bem por mais tempo].

No sumário executivo do documento destaca-se a necessidade “de priorizar a prevenção e o combate a importantes determinantes da saúde e do bem-estar” [da pobreza à obesidade; da habitação à solidão] e o objectivo de, até 2035, se “viverem pelo menos mais cinco anos extra de uma vida saudável e independente” e de se “diminuir o fosso entre pessoas mais ricas e mais pobres”. Mais, define-se prevenção enquanto o apoio às pessoas no sentido de se manterem “saudáveis, felizes e independentes pelo maior tempo possível”, reduzindo “a possibilidade de emergência de problemas, primeiro, e, quando surgem, apoiar as pessoas na gestão efectiva dos mesmos”. Termina dizendo que a prevenção “é tão importante aos 70 quanto aos 7 anos”.

Por múltiplas e diversas razões (talvez a principal, o quão tarde a ciência psicológica e as e os psicólogos puderam dar o seu contributo ao nosso país), e apesar do caminho percorrido nos últimos anos, a psicologia é ainda, frequentemente, associada a dimensões de intervenção iminentemente remediativas. Ora, enquanto ciência que estuda o comportamento, a tomada de decisão e o que os determina, a psicologia é fundamental nos processos de prevenção e promoção ao longo da vida, nos múltiplos contextos de desenvolvimento e na compreensão e intervenção nos desafios societais e determinantes de saúde e bem-estar.

Isso mesmo é afirmado e sublinhado no regulamento n.º 15/2023, que “aprova o regulamento interno que define os atos dos psicólogos”. No seu artigo 6.º (“Atos dos psicólogos”) a alínea b) refere “As atividades técnico-científicas de intervenção psicológica, incluindo de promoção e prevenção, nos diversos contextos relativos a indivíduos, grupos, organizações e comunidades”.

Uma, mais uma, forma de inscrever este importantíssimo papel das psicólogas e dos psicólogos, a par de outros. Uma, mais uma, forma de informar, clarificar e reforçar o contributo específico da ciência psicológica e das e dos psicólogos para as pessoas e a sociedade.

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Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas

No Domingo voltamos a espantar-nos. “Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.”

“Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”, 49º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a particularidade da psicologia, simultaneamente, “contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras”.

Fá-lo, também, a partir de “três exemplos [detalhados e reflectidos no texto] de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora”:

  1. “Uma palmada não faz mal a ninguém”;
  2. “As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”;
  3. “Os seres humanos são animais racionais”.

As “mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis.

Como a história, “a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas (…) deve combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração e contribuir para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.” 

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Pobreza – Um choque em cadeia (Editorial; PSIS21; N.º27)

Chove lá fora. Um vidro de um carro, embaciado. Um dedo de uma menina desenha uma árvore, fazendo do vidro folha e do dedo marcador. Depois um menino, triste, e outra e depois outra menina e, sempre, o dedo a desenhar o vidro enquanto a mãe Rosie liga do carro-casa para diversos hotéis à procura de um quarto para uma família. A sua família. Não. Não. Não.

O não. O insucesso. A impossibilidade. O problema. A perda. O não cumprimento. No Rosie, filme que assim começa e que retrata dois dias na vida de uma família numa Irlanda que teve recentemente um significativo aumento de pessoas em situação de sem-abrigo. Na vida ao nosso redor, em tantas situações, connosco ou com pessoas cuja história e nome (des)conhecemos.

A pobreza, qual choque em cadeia, todas, todos e tudo impacta. Pessoas em situação de pobreza ou não. A saúde, a educação, o trabalho e a produtividade. As relações na sociedade, a equidade, a confiança e coesão social. Por exequível, mas também porque influencia todos os restantes, a erradicação da pobreza é o primeiro dos objectivos do desenvolvimento sustentável e existe um amplo e diverso campo de contributo da ciência e da prática psicológica nesse sentido.

A actual edição da Psis21 trata-os a propósito do recente retrocesso no caminho de diminuição das diversas formas de pobreza no Mundo e em Portugal e da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, mas, também, do projecto “.Final à Pobreza”, através do qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses se compromete com o desenho de uma estratégia e de acções de reforço do contributo da psicologia na área da pobreza e exclusão.

Se o vidro fosse uma folha e o dedo um marcador, a menina escreveria: “alguém faça algo… alguém nos ajude e a crescer, quais árvores.” Contribuamos para esta estratégia e mobilizemo-nos, enquanto ciência e profissão, para que, a cada dia, menos crianças, menos pessoas, tenham de ultrapassar estes momentos. Para uma sociedade que caminhe, decidida e rapidamente, para a erradicação das diversas formas de pobreza e exclusão, obstáculos decisivos à possibilidade de saúde, bem-estar e de autodeterminação de todas as pessoas.

 

Tiago Pereira

Editorial Psis21 N.º27

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos (Sábado; Ao redor…; 27.12.2022)

Está a terminar um 2022 particularmente exigente. Apesar do conjunto de sinais preocupantes que se observavam em 2021, sobrava uma justa aspiração das pessoas a um ano de retorno e expansão depois de dois anos de diversas restrições e perdas resultantes da pandemia por COVID-19. Porém, ainda em Fevereiro, o início de uma nova fase de invasão pela Federação Russa do território ucraniano e tudo quanto se seguiu, inviabilizou essa pretensão. 2022 acabou por acrescentar imprevisibilidade ao já imprevisível, falta de controlo ao pouco que controlávamos. Acelerou mudanças em curso, perigou a coesão e a abertura da sociedade à diversidade e prejudicou desígnios de países e do Mundo em áreas centrais como os Direitos Humanos ou os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. 2022 será lembrado como um ano muito difícil e de mal-estar para muitas pessoas.

Por cá o ano termina, também, com debate sobre uma nova (a oitava) revisão da Constituição de 1976. Discussão 40 anos após a sua primeira revisão (1982) que introduziu alterações significativas no artigo 9º (“Tarefas fundamentais do Estado”), nomeadamente o objectivo de promoção do “bem-estar e qualidade de vida do povo, a igualdade real entre os portugueses e a efectivação dos direitos económicos, sociais e culturais, mediante a transformação das estruturas económicas e sociais”, início da sua alínea d), ainda hoje com redacção próxima. De 1982 aos dias de hoje, o país percorreu um longo caminho sendo inusitadas quaisquer comparações entre a possibilidade de bem-estar de todas e todos no início da década de 80 face a hoje. Em todo o caso, pressente-se sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso, neste caminho e um não foco neste elemento como primordial do país. A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país. E como recurso fundamental do país e elemento-chave preparação para os desafios do presente e do futuro.

Isto mesmo quando factores que fazem de Portugal destino turístico de excelência, nos aproximam de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar de todas e todos. O nosso clima. O património, a cultura e os seus significados. A gastronomia e qualidade dos produtos. A natureza e a possibilidade de relação e contacto com ela. A proximidade das pessoas e a forma acolhedora como recebemos. A segurança e a coesão. A legislação globalmente avançada, inclusiva e respeitadora dos Direitos Humanos e, até, um caminho por percorrer na resposta a desafios da sociedade, apelando a propósitos potenciais e aos contributos de profissionais e da sociedade civil.

Mas olhemos em detalhe as componentes do bem-estar. Seja através do “Better Life Index” (OCDE) ou do “Índice de Qualidade de Vida” (Eurostat), encontramos 11 dimensões próximas: condições de habitação; rendimentos; trabalho e emprego; tempo e conciliação entre vida pessoal e profissional; suporte e conexão social; educação e formação; qualidade do meio ambiente; envolvimento cívico, participação democrática e governação; cuidados de saúde de qualidade e acesso; satisfação com a vida; e segurança. Nelas identificamos parte do atrás referido e, sobretudo, pistas fundamentais para o que podemos promover e investir. É que, se Portugal apresenta, por exemplo, resultantes relevantes nas áreas da qualidade do meio ambiente e segurança, apresenta valores abaixo da média dos países da UE e da OCDE na satisfação com a vida ou o rendimento e diversas dimensões com forte potencial de melhoria e crescimento. Para esse desígnio beneficiaria de cinco factores que se interligam.

Antes de mais, conforme procurei sustentar nesta rubrica em Maio, considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas. Depois, melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e de exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população (vejam-se os dados do “Society at a Glance 2016 – OCDE” que o Luís Aguiar-Conraria partilhou recentemente e que indicavam que em Portugal apenas 11% das transferências públicas se destinavam aos 20% de população em situação de maior pobreza face a cerca de 40% à população em situação de maior riqueza). Também que, em períodos de crise e dificuldade, a população mais vulnerável seja mais protegida e apoiada (vejam-se os resultados do estudo “Desigualdade do rendimento e pobreza em Portugal – As consequências sociais do programa de ajustamento”, da responsabilidade de Carlos Farinha Rodrigues, que demonstram que entre 2009 e 2014 o decil das/os 10% de população com rendimento mais elevados decresceu 13% em rendimento enquanto que o dos 10% com rendimentos mais baixos decresceu 25%, contrariando a narrativa de que as pessoas em situação de maior vulnerabilidade foram protegidas nesse período). Ainda que a sociedade civil aumente o envolvimento e a sua participação cívica, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforce os níveis de conexão e suporte social da população. Finalmente, que se criem condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental que possam, em espiral, resultar em alterações no quotidiano, na capacidade de realização de funções e no agravamento das dificuldades e problemas.

Assim, conforme desejei para 2022 que construíssemos mais paz pelo que há um ano sentia como ameaças potenciais à paz, desejo para 2023 que promovamos mais e maiores possibilidades de bem-estar para todas e para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme passou a prever a Constituição Portuguesa também aquando da revisão de 1982, depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar de todas e todos. Depende de desenvolvermos uma sociedade de bem-estar e, assim, de maior previsibilidade, controlo, coesão e capacidade de não deixar ninguém para trás. De foco nos Direitos Humanos e na procura de cumprir e apoiar o cumprimento dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

in Sábado (Ao redor…); 27.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos

 

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Solidão… Um problema de saúde pública.

“Quantas/os amigas/os realmente próximos necessitamos?” Num artigo publicado no The New York Times, Catherine Pearson discute este importante e estruturante tema do nosso tempo a partir da constatação do declínio das relações de amizade próximas nos últimos anos e, particularmente, durante a pandemia. Inquéritos da Gallup demonstram que se há 30 anos apenas 3% das/os americanas/os referia não ter amigas/os próximas/os, estudos mais actuais indicam que até cerca de 13% das americanas e 8% dos americanos assim o consideraram, hoje. Em Portugal o aumento é igualmente significativo, contribuindo para uma realidade onde cerca de 330 milhões de pessoas (mais de 3% da população Mundial) afirmaram não ter comunicado com pessoas próximas nas duas semanas anteriores a um estudo desta empresa.

A solidão e o isolamento social são dimensões relevantes de saúde pública e determinantes fundamentais do bem-estar e da saúde. São, nesse sentido, factores fulcrais a considerar e, fundamentalmente, devem informar a definição de políticas, a acção de diferentes entidades/organizações da sociedade civil e de cada pessoa na relação com outras pessoas. Merecem ser faladas, discutidas e ser promovida literacia para todas as pessoas em seu torno.

Foi o que se procurou com o nono episódio do programa online “Eu sinto.me” (https://eusinto.me), recentemente disponibilizado e que aqui partilho. Abordando a solidão, parte destes pressupostos e da realidade que a Julianne Holt-Lunstad (que esteve em Portugal aquando do IV Congresso da OPP) vem estudando há muitos anos, algo que lhe permite afirmar que o “impacto da solidão na saúde é equivalente ao de fumar 15 cigarros por dia ao longo da vida”. Episódio que conta, como habitualmente, com apresentação da Andresa Oliveira e com contribuições de Fabio Medina, Luísa Ribeiro e Júlio Machado Vaz.

“Pessoa jovem ou pessoa mais velha, a solidão não discrimina.” Assim é e assim afirmava Jo Cox, deputada do Reino Unido que criou a comissão para a solidão, sobre os impactos da solidão na sociedade. Criou-a pouco tempo antes de ser barbaramente assassinada por razões relacionadas com o ódio às e aos outros e à diversidade, combustível do que nos afasta e deslaça. Do que fragmenta a sociedade e fragiliza a coesão.

O trabalho da comissão que criou (que continuou depois do seu assassinato) originou uma estratégia intergovernamental nesta matéria e, mais tarde, uma Ministra da Solidão no Reino Unido. A primeira de um caminho que, entretanto, o Japão também trilhou e que, tudo indica, seja sobre a forma de estratégias, seja através de estruturas de decisão, continuará noutras latitudes, tamanhos são os determinantes solidão e isolamento social na saúde e no bem-estar e o problema de saúde pública que representam.

Esperemos que também em Portugal onde, apesar de uma recomendação da Assembleia da República ao Governo ter sido aprovada em Outubro de 2021 nesse sentido, continuamos sem uma estratégia de prevenção e combate à solidão.

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2023

2023. Entramos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio. Momento para pensarmos o ano que temos pela frente e para nos pensarmos nele.

Profissionalmente, a cada ano, faço-o também a partir das tendências da psicologia que a @American Psychological Association publica por estes dias. Resumo as para 2023:

1) ciência psicológica a chegar a mais (e mais diversas) pessoas com 2) investigação inovadora e mais inclusiva; 3) combate à desinformação; 4) promoção do bem-estar de trabalhadoras/es e 5) de lideranças que promovam na gestão a equidade, diversidade e inclusão; 6) foco na promoção da saúde mental de crianças/jovens e na 7) prevenção do suicídio; 8) financiamento significativo de apps de saúde mental e integração da inteligência artificial; 9) crescente abandono de carreiras académicas em psicologia [mais específico dos EUA/Canadá]; 10) maior contributo para a saúde pública, dirigindo intervenções para a promoção da saúde psicológica de toda a população e 11) reforço de parcerias no âmbito dos principais desafios societais.

2023 será, também, o terceiro ano com as minhas actuais responsabilidades e, também na @Ordem dos Psicólogos Portugueses, acompanharemos parte destas tendências, contribuindo na relação com as congéneres internacionais e pela nossa actividade específica. Dela, e da que mais directamente me envolverá/caberá, destaco:

Contributo para a construção de locais de trabalho saudáveis, com prevenção e gestão dos riscos psicossociais e sensibilização das lideranças para as questões da equidade, diversidade, inclusão e bem-estar nas organizações; parceria com entidades e organizações diversas (incluindo seguradoras) no sentido melhorar o acesso da população (e a equidade de acesso) a serviços de psicologia; a criação de mais e melhores condições (incluindo para as/os profissionais) de prevenção, promoção e intervenção na área da saúde mental, particularmente nas crianças/jovens; processos de desenvolvimento profissional e especialização em psicologia e valorização dos actos e das/os profissionais; promoção da literacia em saúde psicológica e da ciência com evidência; contributo da psicologia para a saúde pública e para desafios societais complexos como a crise climática, demográfica, as migrações e…

Como o Presidente da República ontem disse na comunicação ao país, 2022 trouxe o “agravamento da pobreza e das desigualdades sociais”. Antes havia dito que “haver menor desigualdade e menor pobreza” era um dos três “grandes desejos e votos” do Presidente para 2023. Diria de todas e todos. Uma parte significativa do meu ano será a procurar contribuir para a definição (e concretização) da estratégia, que a partir do https://finalapobreza.pt, procurará estimular um maior e mais decisivo contributo da psicologia e das/os psicólogas/os para este desígnio. Para um país com menos pessoas em situação de pobreza, menos exclusão e desigualdade.

Venha de lá 2023. Que ele nos aproxime, aqui e fora daqui.

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres (Sábado; Ao redor…; 07.12.2022)

“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.

Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.

Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.

Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.

Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.

A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.

 

Tiago Pereira

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

Hoje passa um ano e um dia da publicação um artigo que escrevi de título “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”. Escrevi-o porque o sentia importante, necessário, considerando as ameaças potenciais à Paz a que assistíamos e que intuía. Estava, porém, longe de perspectivar a amplitude do que 58 dias depois viria a suceder e de ver imagens de tanques russos nas ruas de Kyiv nos momentos que se seguiram ao trágico 24.02.22. Hoje, um ano depois, passa um dia de que foi publicado um outro artigo, de “desejo” e próximo na “arquitectura”.

“Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos”, 48º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte dos “sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso”, no caminho de melhoria da possibilidade de bem-estar em Portugal. “A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país.”

No artigo reflicto sobre como o que nos torna “destino turístico de excelência, nos aproxima de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar” e, a partir de dois índices internacionais, o que parece fazermos bem, menos bem e que podemos significativamente melhorar para tal, sublinhando cinco factores de investimento essenciais que se interligam:

  1. considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas;
  2. melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população;
  3. em períodos de crise e dificuldade, proteger e apoiar a população mais vulnerável;
  4. maior envolvimento e participação da sociedade civil, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforçando os níveis de conexão e suporte social da população;
  5. criação de condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental.

Caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme prevê a Constituição Portuguesa, “depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar”.

Que o priorizemos e promovamos, mais, em 2023.

Obrigado a quem neste 2022 aqui me acompanhou. Bom 2023 e que nos possamos continuar a encontrar, aqui e noutros lugares.

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Que especialidades para a psicologia?

Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt foram, respectivamente, o 16º e 32º presidente dos EUA. Presidentes marcantes, com elementos que os ligam (desde logo terem falecido no exercício da sua presidência), a quem são atribuídas, também respectivamente, estas frases: “a melhor forma de prever o futuro é criá-lo” | “nem sempre conseguimos construir um futuro para as e os nossos jovens, mas podemos construir os e as jovens para o futuro”. Evoco-as no sentido de pensarmos uma sua possível síntese. Um aceitar que não podemos criar o futuro, mas que para ele podemos contribuir e nos preparar.

Quem comigo vai falando ou, por exemplo aqui, me lê, sabe que assim o penso no que se refere à psicologia e ao seu contributo no e para o futuro. Que assim o penso relativamente à formação, desenvolvimento profissional e especialização no seio da profissão. Um equilíbrio, portanto, entre a influência possível no futuro e um respeito pela história, experiência e diversidade de caminhos de desenvolvimento na profissão e a necessidade de maturidade e melhoria incremental dos seus sistemas.

Assim chego ao tempo de reflexão sobre sobre as especialidades profissionais de psicologia, compromisso da direcção da Ordem dos Psicólogos Portugueses visando a revisão do seu regulamento que agora se inicia. Organizado em cinco fases (Potenciar; Expandir; Amadurecer; Sustentar; Transformar), procura promover o envolvimento de todas e todos, num debate, necessariamente exigente e complexo sobre o caminho percorrido e a percorrer, que espero e esperamos que possa ser intensamente participado na procura das melhores e mais adequadas soluções.

Integrado no conjunto de iniciativas da primeira fase, realizou-se um debate (“O passado, presente e futuro das especialidades”) que partilho e que reuniu actuais e anterioras/es presidentes dos conselhos de especialidade (David Dias Neto, Sofia Mendes, em representação do Leandro Almeida, Susana Monteiro, Miguel Ricou, Marisa Carvalho e Jaime Ferreira da Silva), apresentado pela Sofia Ramalho e por mim moderado.

Conversa estimulante sobre a profissão, o que significam os quase 10 anos (e que 10 anos…) corridos sobre o início da discussão da criação das especialidades e os 6 anos da eleição dos primeiros conselhos de especialidade. Momento que reuniu, também, parte da restante equipa envolvida, por vezes menos visível, mas não menos importante, que inclui conselhos consultivos, comissões técnicas e a equipa interna da OPP, inicialmente coordenada pela Ana Faria, hoje pela Ana Sofia Nobre.

Deixo, apelando à reflexão e participação, link para informações e formulário de contributos, bem como, permitam-me, uma sugestão de leitura de um texto que escrevi em OUT21 (Hiperespecialização: Sim ou Não?)

Envolvamo-nos no e pelo futuro.