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13 anos… E muito (mas nem tudo) mudou…

Passam hoje 13 anos que a perdemos. Que a perdi.

Com ela fui, em 2004, a primeira vez aos Açores. Visitamos três das nove ilhas do arquipélago e viajamos por cada recanto da ilha de S. Miguel. De Ponta Delgada ao Nordeste e às Sete Cidades… Das Furnas, a Mosteiros e a Rabo de Peixe. Nos já quase 19 anos que passam desse momento, voltei algumas vezes aos Açores e a S. Miguel. Todas já sem ela, na minha vida. Não apenas mas também por isso, diferente e com outra visão e reflexão sobre o meu “ao redor”. Consciente de que muito mudou nestes anos, mas de que muitos desafios se mantêm, incluindo os fenómenos associados à iniquidade de oportunidades, de exclusão, da vivência em situação de pobreza e da reprodução, geracional, da mesma.

No final da passada semana voltei aos Açores e a S. Miguel. Voltei para (mais) uma sessão de recolha de contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e, ainda, para um debate. Debate que, a propósito da comemoração do Dia Mundial da Justiça Social, juntou a Ordem dos Psicólogos Portugueses (eu e o Marco Santos, presidente da nossa Delegação Regional dos Açores), aos colegas Hélder Fernandes e Pedro Gomes, da Associação Novo Dia e da Associação para Públicos Jovens, e, ainda, às colegas Cristina Canto Tavares, Vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada e Tânia Moreira da Fonseca, Vogal do Conselho Diretivo do Instituto de Segurança Social dos Açores.

“Se me dissessem há 20 anos que aqui estaria hoje, entre psicólogas e psicólogos, a discutir o nosso contributo para os desafios da pobreza não acreditaria”, diria um colega já perto do final da sessão. Penso o mesmo… Há 20, há 19 quando fui a primeira vez aos Açores, e, até, há muito menos anos. E que importante é conversar-se sobre este tema.

Além da importante reflexão, já por si significativa, a sessão permitiu a comunicação do tema a partir dos contributos da ciência e prática psicológica para a sociedade (por exemplo com a reportagem da RTP Açores), além do pedido e do compromisso para um contributo da OPP para a “Estratégia Local Integrada de Combate à Pobreza e Exclusão Social” de Ponta Delgada, conforme aqui noticiado.

Passo a passo, momento a momento, caminhamos para um maior contributo da psicologia no combate à pobreza e à exclusão. Passo a passo, momento a momento, procuramos afirmar que este caminho é, necessariamente, ligado também à saúde mental e, logo, à necessidade de reforço das psicólogas e psicólogos nos diversos serviços públicos, quer seja nas dimensões de prevenção e promoção, quer seja na intervenção junto das pessoas com problemas na área da saúde mental, e à necessidade de maior envolvimento da ciência psicológica no desenho de estratégias/políticas nesta área.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Psicologia Tomada de Decisão

Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização

Passam agora umas horas desse momento. Recordo-o, por tão marcante. Era madrugada, escrevia como escrevo agora, mas naquele momento com a televisão ligada. Via, em rigor ouvia, a CNN. Um repórter comentava a precipitação de acontecimentos dos últimos anos, meses, emanas, dias. Horas até numa vertiginosa aceleração que… trouxe uma Guerra ampla na Europa. Uma Guerra que vi começar em directo, com o início dos bombardeamentos a Kyiv naquele preciso momento, com o repórter a procurar abrigar-se, colocar capacete, depois mudar de lugar naquele topo de hotel de onde fazia o directo mas, quase sempre, em directo e sem o interromper… O directo de uma Guerra que um ano depois não mostra sinais de ser interrompida.

“Sexta-Feira, 24 de Fevereiro – Dia da não-naturalização”, 52 º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) procura recordar que hoje se cumprem dois aniversários muito relevantes para pensamos a Europa e o Mundo: nove anos do afastamento forçado do governador de Sevastopol (…) concretizando o início da ocupação da Crimeia; Um ano do início da segunda fase de invasão da Ucrânia pela Federação Russa (…) e de uma Guerra que desrespeita o direito internacional e os direitos humanos. De uma Guerra que muito desafia. Mas, como em quase tudo, de uma Guerra que corre o risco de ser naturalizada.

A compreensão do nosso comportamento e da forma como ele é influenciado pelo contexto determina a necessidade de que o investimento na construção da paz seja permanente. Tal qual determina termos presentes que, sim, o passado pode encontrar formas de se repetir, particularmente quando muitos acreditamos no contrário, a partir exactamente da nossa baixa percepção de risco, geradora de menor envolvimento na preservação das instituições, da civilidade e da paz. Ainda, determina que tenhamos presente que tendemos a naturalizar quase todas as condições humanas, incluindo a Guerra, pelo que activa e empenhadamente temos de o contrariar, não aceitando e não compactuando com as violações de direitos que a mesma comporta.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, talvez seja importante lembrarmos Erasmo de Roterdão que, viajante e construtor de pontes entre povos, escreveu há mais de 500 anos no seu “A Guerra e a queixa da Paz” que se “formássemos um cálculo justo do custo da guerra e o da busca da paz, veríamos que a paz pode ser comprada a um décimo do custo dos cuidados, labores, problemas, perigos, despesas e sangue envolvidos numa guerra.” Buscar a paz era, é e será sempre o caminho que nos aproxima da convivência entre povos e de um Mundo melhor. Lutemos por ela, pelas ucranianas e ucranianos. Por todas e todos nós.

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Natália…

Indomável, imprevisível, ousada. Assim foi Natália Correia, figura ímpar da literatura e do século XX português, que perdemos fará no próximo mês 30 anos e cujo centenário do seu nascimento se assinalará em Setembro.

Recordo-me do um Polígrafo feito a seu respeito. Verificava se seriam verdadeiras (e confirmava serem) umas frases a si atribuídas datadas do ano do seu desaparecimento: “As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis… Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo (…) O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de abril, o Estado social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas (…) Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e comida. A esperança média de vida cairá. Espoliada a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.”

Algumas pessoas olha(ra)m para estas palavras como premonitórias. Fernando Dacosta, que as confirma, refere que Natália sofria ao ver o Mundo “da cultura, dignidade, liberdade, criatividade e afetuosidade ruir”, conforme entendia. Ruína para si muito decorrente da desigualdade e da abundância de situações de pobreza e exclusão. Condicionantes que entendia fundamentais e que privavam pessoas da dignidade e da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Continuo, por estes dias, em iniciativas que cruzam os contributos da ciência e da prática da psicologia com o enorme desafio societal que representam os fenómenos da pobreza e da exclusão. Há uma semana, na ilha da Madeira, discuti a temática com colegas, recolhi contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e procurei via comunicação social um contributo para a mediatização e discussão no espaço público do tema e, mais particularmente, da pobreza infantil, conforme partilho exemplo: https://www.rtp.pt/madeira/sociedade/acompanhamento-psicolgico-desde-a-infncia-uma-forma-de-reduzir-impacto-da-pobreza-udio_111756

Já amanhã, volto a recolher contributos para o projecto, agora em S. Miguel (Açores), sessão que decorrerá exactamente no Centro Cultural Natália Correia e que, numa parceria entre e @Ordem dos Psicólogos Portugueses e a @Câmara Municipal de Ponta Delgada, terá posteriormente um debate sob o tema “A Intervenção Psicológica no combate à pobreza e na promoção da equidade social”, que assinalará o Dia Mundial da Justiça Social celebrado a 20 de Fevereiro (informações e inscrições aqui: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/4483).

Porque, conforme Natália, precisamos ousar… Na literatura. Na crítica (social). No combate à pobreza e à exclusão, com maior contributo das psicólogas e psicólogos e fazendo dele desígnio de todas as pessoas nos Açores, no país e no Mundo.

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Ice Merchants e o nosso Mundo…

Uma imagem bonita, feita como que de esquissos. Pensada com sentido e significado. Desenhada com uma estética com eles compatível e, particularmente, impactante. Abaixo da varanda da casa da montanha, um baloiço baloiça com um menino nele sentado. Quem viu o trailer (ou toda a curta), que nos enche de orgulho pela recente nomeação para os Óscares, sabe que falo do filme de João Gonzalez, “Ice Merchants”. Quem não viu, convido a olhar a imagem abaixo…

O baloiço daquela imagem, signo de um resquício de infância, de diversão, de liberdade, lembra-me os “baloiços”, como chamava e chamávamos ao único parque infantil da aldeia onde cresci. Nele existiam dois como aquele junto com outros equipamentos e ali brinquei e joguei primeiro, me encontrei, conversei e me escondi depois. Ali, mais tarde, ouvi música, li. Entre os outros equipamentos havia um velhinho (parece que sempre foi velhinho) escorrega metálico que, não sendo exactamente idêntico, me lembra o da imagem que também partilho abaixo e que…

Nos parecia, invariavelmente, que à descida, mais rápida inicialmente, correspondia um abrandamento no final, por vezes “como se levantássemos” antes de chegar ao chão. Mas sempre, sempre, a caminho do chão. Penso-o exactamente assim a propósito do caminho que se vem realizando na erradicação da pobreza extrema no Mundo onde, à descida consistente (mesmo que não tão rápida e em todos os lugares como gostaríamos) de 80 para 8% da população, correspondeu um aumento em 2020. Um aumento que sinaliza o caminho ainda a percorrer até ao chão e, particularmente, alerta para que apenas com envolvimento, compromisso e com a conjugação de vontades e saberes (científicos) se combate a pobreza extrema e a pobreza e exclusão no geral.

Na @Ordem dos Psicólogos Portugueses continuamos a fase de visitas a instituições e projectos com contributos nas áreas da pobreza e exclusão e com sessões de discussão da temática e recolha de contributos para a estratégia https://finalapobreza.pt junto de psicólogas e psicólogos. Na passada semana, em Évora, conforme também o Diário do Sul (abaixo) reportou. Hoje no Funchal (informações e inscrições aqui) no âmbito de uns Trilhos da Psicologia e no próximo dia 23.2 em S. Miguel (informações e inscrições aqui), no âmbito de um evento nesta área.

O “Ice Merchants”, porque pensado com sentido e significado, permite múltiplas reflexões. Do isolamento à família, das relações ao trabalho e sua relevância, das rotinas, do quotidiano, do binómio pobreza–riqueza, além da dimensão (importantíssima para as pessoas em situação de pobreza) monetária. Muitas, mais uma outra, a ausência de um elemento, sempre presente, porém. Uma não completude, um não preenchimento que, mais ou vez, qual escorrega, me lembra quem vive em situação de pobreza e de exclusão e o nosso dever de colocar a nossa ciência e a nossa prática mais e mais ao serviço do seu fim.

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O(s) Grito(s)

“Caminhava pela estrada com dois amigos enquanto o sol se punha. Parei e encostei-me à vedação. Completamente exausto. Sobre a cidade e o fiorde azul-escuro pairavam línguas de fogo. As cores gritavam. Os meus amigos continuaram a caminhar e eu fiquei para trás, a tremer de angústia. Senti um grito interminável a passar pela natureza.”

Foram estas as palavras que Edvard Munch escreveu antes de pintar “O grito” (1893).  Quadro que sustentaria o seu reconhecimento enquanto artista e, de certa forma, tornar-se “interminável”, como o grito que sentiu. Interminável e determinante no cruzamento entre o (seu) naturalismo e expressionismo com nuances de um existencialismo, em desenvolvimento há época enquanto corrente filosófica, de influência fundamental em diferentes expressões artísticas (na literatura, por exemplo) e, até, na emergência e desenvolvimento da psicologia.

Dito de outra forma, colocar-se enquanto pessoa nos seus quadros. Colocar-se no que implica a sua experiência humana, o seu sentir, pensar e agir. No que significa experienciar a melancolia, sempre presente no seu trabalho, a ansiedade ou o desespero e como se lhes pode (ou não) e consegue (ou não) dar sentido [se desejarem conhecer um pouco da história e do contexto de vida de Munch, recomendo este documentário que passou recentemente na @RTP2].

Mas, se no final do século XIX a experiência humana era partilhada (e compartilhada) através da arte, é certo, mas, particularmente, nos cafés, tertúlias e colectividades, hoje é-o, numa velocidade completamente distinta, através da arte, dos cafés, tertúlias e colectividades, mas, também, dos media e, particularmente, das redes sociais, chegando a milhões de pessoas numa velocidade incrível. Talvez a melhor metáfora desta transformação é olharmos a singularidade do quadro de Munch e pensarmos a quantidade de vezes que somos confrontados com este emoji [😱] que, também, dele resulta.

Mas há o que caminhe junto nestes cerca de 130 anos que distam do quadro ao emoji: a omnipresença da angústia existencial; o ímpeto (e os potenciais erros) de interpretação das motivações de quem “usa”; e, sempre, a tal figura sozinha… No quadro como no emoji, sozinha e por isso com menor oportunidade de reformulação e de transformação da angústia que exprime.

Munch escreveu no seu quadro que havia sido “feito por um louco”. À compreensão da existência própria e da/o outra/o a partir do (auto)julgamento e da (auto)estigmatização, devemos contrapor com uma atitude de não-julgamento, de empatia e, particularmente, de (auto)compaixão.

(Auto)compaixão, também para que a conjugação do existencialismo com a velocidade e os meios de comunicação actuais não resulte numa sociedade menos sociedade.

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Policrise.

Policrise. Ouvimos a expressão amiúde a propósito da pandemia por COVID-19. Foi agora amplamente referida no “Global Risks Report 2023” do World Economic Forum.

Nele, além da ideia fundamental de que “crises presentes profundamente interconectadas e a menor resiliência aumentam o risco de uma policrise de riscos ambientais, geopolíticos e socioeconómicos relacionada com a procura de recursos naturais”, trata-se a percepção dos principais riscos do Mundo a 2 e 10 anos. E, se a 10 anos os principais surgem associados à crise climática (o primeiro é a “incapacidade de mitigação das alterações climáticas”), a 2 anos o primeiro é a “crise do custo de vida” e o quinto a “erosão da coesão social e polarização da sociedade”.

Se os pensarmos para Portugal, e olhando o último Eurobarómetro que aqui referi recentemente, encontramos percepções próximas. Um potencial de conjugação de crises que desafiam a sociedade, a equidade e a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Há dias, num excelente artigo no Público, Ricardo Arroja discutia-o com clarividência. Partindo de dados do INE que contrariam a ideia zombie (apesar de não factual, permanece no imaginário/debate público como verdadeira) de que as pessoas em situação de pobreza têm mais filhas/os, permitia pensarmos como o desafio da pobreza (e exclusão) no nosso país se relaciona com a crise demográfica, com as iniquidades na área da educação e formação e com o próprio desenvolvimento económico e social do país.

Isso e, a mim, a pensar num texto que li há algum tempo onde se dizia que, se uma planta estiver a murchar, não tendemos a assumir que o problema é da planta (apenas) e procuramos ajudá-la, também, alterando as condições a que está sujeita. A pensar nele e no quanto o creio fundamental nas pessoas, cuidando-se de analisar os determinantes sociais da saúde e bem-estar e de intervir não apenas na pessoa que “sofre” e “murcha” com eles, mas nos próprios determinantes.

Quem me vai lendo (e/ou ouvindo) sabe que é com esta visão e porque a pobreza é um dos (senão o) principais determinantes sociais, que estamos a preparar uma estratégia de (maior) contributo da psicologia para um “.Final à Pobreza”. Nos próximos dias promoverei sessões de discussão e recolha de contributos em Évora (07.02), Funchal (15.02), Ponta Delgada (23.02) e no Porto (11.04) (informações na área das Delegações Regionais respectivas do site da OPP).

Voltemos ao Fórum Económico Mundial que, também este ano, dedicou a conferência de Davos à cooperação num Mundo fragmentado. Pensar a ciência e a prática da psicologia, hoje, implica considerá-lo, de facto, e envolvermo-nos, desde logo, no combate à pobreza e exclusão… Pela dignidade e possibilidade de bem-estar das pessoas e por maior coesão e equidade, juntemo-nos.

Cooperemos.

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Sim, é possível. Sim, Portugal pode (in Sábado; Ao redor…; 25.01.2023)

Um, dois, três, quatro, cinco, (…) cinquenta. Este é 50º artigo deste “Ao redor…”. Se no primeiro aqui escrevi que “há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o”, neste procuro reflectir sobre como é possível e o que pode ser determinante na transformação social e como Portugal, em algumas áreas, a pode fazer. Se no primeiro aqui escrevi que “pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntos podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”, neste procuro que o pensemos face a uma situação específica, com impacto significativo em todas as pessoas e na sociedade – a pobreza.

Mas, primeiro, recuemos à segunda metade da década de 90. A toxicodependência e as suas múltiplas consequências eram fonte de problemas complexos nas pessoas e famílias, alarmavam cidades e inquietavam toda a sociedade portuguesa. No Eurobarómetro de 1997 a elevada taxa de consumo de drogas era a principal preocupação das portuguesas e portugueses, acima de questões como a habitação, o (des)emprego ou a pobreza. Tínhamos números dramáticos, dos piores, senão mesmo os piores, da Europa em infecções por VIH e uma parte significativa da criminalidade era associada ao fenómeno do tráfico e consumo de droga.

Cerca de 25 anos depois, a taxa de consumo de drogas, que decresceu consideravelmente, não é a principal, nem sequer das principais, preocupações da sociedade portuguesa. A criminalidade associada à droga baixou também e, quer o número global de infecções por VIH, quer particularmente o relativo às pessoas que usam drogas, diminuiu de forma significativa e em 2020 havíamos atingido e superado a meta 90-90-90 (pelo menos 90% das pessoas infetadas com VIH com diagnóstico; 90% das pessoas com diagnóstico em tratamento; e 90% das pessoas em tratamento com carga viral suprimida).

Esta transformação social, com forte impacto nas pessoas e sociedade, foi também possível a partir da Estratégia Nacional de Luta contra a Droga (1999) e do que dela adveio. Pela inovação e pelo sobressalto (até fora de Portugal), destacou-se o facto de se ter descriminalizado o consumo de todo o tipo de drogas (ainda que com limites), deixando de ser penalizado judicialmente para, enquanto problema de saúde pública, sê-lo administrativamente, promovendo o acesso ao tratamento, à ajuda e apoio especializado e à prevenção da toxicodependência. Mas foi fundamental ter sido assumido como desígnio nacional, ter sido definida e prosseguida uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, ter sido assumida a necessidade de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados.

Foi também fundamental a criação de uma estrutura de coordenação de toda a intervenção (na altura o Instituto da Droga e da Toxicodependência) e a coragem, a visão, o vigor e o pragmatismo de decisoras e decisores de criarem as condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais de saúde espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta a um problema sério de saúde pública. E se responderam! Sabem-no tantas e tantas famílias em Portugal. Sabe o Mundo que estuda o caso português. Sabemos ainda melhor hoje, a importância da conjugação dos factores acima porque, quando na década passada começaram a ser alteradas e fragilizadas algumas das condições anteriores, logo o modelo e os resultados o acusaram.

No início deste mês foram publicados dados relativos ao último Eurobarómetro. Ao contrário de 1997, as principais preocupações assinaladas pelos portugueses e portuguesas foram o aumento do custo de vida e a pobreza e exclusão social. Pobreza e exclusão, dois determinantes fundamentais da dignidade humana, da saúde e bem-estar, com forte impacto nas pessoas que experienciam estas situações e em toda a sociedade.

Também aqui, e como em 1999 para a luta contra droga, Portugal tem desde o final de 2021 uma Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Sobressaltemo-nos e inovemos. Pensemos a pobreza e a exclusão como problemas de saúde pública e não como problemas individuais, de “pessoas pobres”. Combatamos o estigma e processos de culpabilização e assumamos o combate à pobreza como verdadeiro desígnio nacional. Prossigamos uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, assumamos a necessidade de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados e com condições e segurança de trabalho.

Tal, considerando a realidade da intervenção social em Portugal (pouco especializada, pouco focada na ciência e no “what works” [no que funciona], muitas vezes de carácter voluntário ou, quando com profissionais, com baixos rendimentos médios, elevada precariedade e permamente mudança nas equipas), depende da coragem, visão, vigor e pragmatismo de decisoras e decisores. Do seu compromisso com a criação de condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta ao enorme desafio que a pobreza e exclusão constituem em Portugal.

Inspiremo-nos na luta contra a droga, para combatermos a pobreza. Aspiremos para a pobreza e exclusão os resultados e o sucesso na área a droga e toxicodependência. Mobilizemo-nos porque é possível. Mobilizando-nos, conseguiremos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é possível continuar a diminuir significativamente a pobreza e as diversas formas de exclusão. Sim, é possível. Sim, Portugal pode. Também motivados pela recuperação em 2021 do aumento da pobreza em Portugal em 2020 (o primeiro desde 2013), todos devemos mobilizarmo-nos, qual equipa de 10 milhões, para este combate. Pela dignidade e possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Por uma sociedade mais equitativa e de maior justiça social.

 

Tiago Pereira

Sim, é possível. Sim, Portugal pode

in Sábado (Ao redor…); 25.01.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sim-e-possivel-sim-portugal-pode

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

50 artigos “Ao redor…”

“Um, dois, três, quatro, cinco, (…) cinquenta.” 50 artigos do “Ao redor…” (link abaixo), rubrica que dinamizo na edição online da Sábado. “Há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o”, escrevi no 1º destes artigos (link abaixo). No 50º reflicto sobre como é possível e o que pode ser determinante na transformação social e como Portugal, em algumas áreas, a pode fazer. Ainda no 1º escrevi que “pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntos podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. No 50º procuro que o pensemos face a uma situação específica, com impacto significativo em todas as pessoas e na sociedade – a pobreza.

“Sim, é possível. Sim, Portugal pode”, 50º artigo da rubrica “Ao redor” (link abaixo) procura desafiar a olharmos o combate à pobreza e exclusão inspirando-nos no caminho que Portugal fez na área da toxicodependência com a implementação (com visão, compromisso e coragem) da “Estratégia Nacional de Luta contra a Droga (1999)”.

É que, também na pobreza, Portugal tem desde 2021 uma Estratégia Nacional e, seguindo este exemplo e os princípios que guiaram o sucesso, também nesta área podemos sobressaltar-nos e inovar. Pensar “a pobreza e a exclusão como problemas de saúde pública e não como problemas individuais, de “pessoas pobres”. Combater “o estigma e processos de culpabilização e assumirmos o combate à pobreza como verdadeiro desígnio nacional”. Prosseguir “uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, a criação de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados e com condições e segurança de trabalho.”

Dependendo tal – e “considerando a realidade da intervenção social em Portugal (pouco especializada, pouco focada na ciência e no “what works” [no que funciona], muitas vezes de carácter voluntário ou, quando com profissionais, com baixos rendimentos médios, elevada precariedade e permanente mudança nas equipas) – da coragem, visão, vigor e pragmatismo de decisoras/es. Do seu compromisso com a criação de condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta ao enorme desafio que a pobreza e exclusão constituem.”

“Mobilizemo-nos porque é possível. Mobilizando-nos, conseguiremos.”

…

Artigo 1 – Nós e os nossos Mundos

Artigo 50 – Sim, é possível. Sim, Portugal pode

Ao redor…

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Mais (possibilidade de) bem-estar…

“Um dos pressupostos da nossa União Europeia é que o bem-estar de cada um de nós depende do bem-estar de todos os outros.” Estávamos em Janeiro de 2020 quando Elisa Ferreira e Frans Timmermans o escreveram. Escreviam, ainda, no artigo “Mecanismo para uma Transição Justa: não deixar ninguém para trás” (em torno da transição climática) que “a nossa solidariedade é um interesse próprio com fundamento racional” e que “nestes tempos de turbulência, é evidente que nenhum Estado pode por si só enfrentar com êxito os grandes desafios”.

Esta interdependência de países e de pessoas face a diversas dimensões e, especificamente, no que à possibilidade de bem-estar diz respeito, é fundamental e foi base de uma recente participação minha no “Quarto do Fundo”, parceira da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses. A temática – “Mais bem-estar para todas e para todos” – derivou, como a Carla Rocha (a quem agradeço a forma como conduz o programa) assinalou no início da conversa, deste texto que escrevi e publiquei alguns dias antes – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_terminou-um-2022-particularmente-exigente-activity-7017415316045541376-mIbz?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

A conversa, que partilho, partiu do artigo e do desafio de, num momento particularmente exigente (com a pandemia, a Guerra na Europa e os desafios sócio-económicos e societais que enfrentamos), podermos pensar em como promover mais possibilidade de bem-estar para cada e para todas as pessoas. Como podemos fazer disso objectivo de todos, potenciando o que de excelentes condições para tal também temos no país (desde logo, algumas das condições que o tornam um destino turístico de excelência e questões como a segurança e, ainda assim, a confiança em pessoas e instituições).

Ainda, como podemos apoiar ou suportar as pessoas com maiores vulnerabilidades, no sentido da promoção do seu bem-estar e da consideração que uma sociedade de maior equidade (também a este nível) resulta uma melhor sociedade para todas e todos. Como podem, também as autarquias, em proximidade e de forma mais personalizada, criar mais condições e possibilidades de bem-estar para as suas populações.

Também o que podemos melhorar em dimensões como os rendimentos, o combate à pobreza e exclusão, a habitação ou no acesso (e equidade de acesso) à saúde e à educação. O que podemos melhorar, finalmente, no apoio contingente, próximo e eficaz em situações de sofrimento psicológico que o justifiquem.

Porque “um dos pressupostos” (…) “é que o bem-estar de cada um de nós depende do bem-estar de todos os outros.”

Episódio disponível aqui

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Habitação e Saúde Mental

“Estamos separados, mas vivemos na mesma casa por falta de alternativas.” É esta a afirmação destacada pela TVI/CNN Portugal no anúncio de uma reportagem sua que, a partir da experiência de 4 pessoas, procura reflectir sobre os múltiplos impactos que as dificuldades e iniquidades no acesso à habitação provocam a pessoas, famílias e à sociedade.

Disse-o Joana Ferreira que, com um filho menor, a viver em Lisboa, vê aproximar-se a data de revisão do valor do seu arrendamento (pensa poder duplicar). Resta-lhe, nas suas palavras, “continuar a busca intensa por casa”, “arranjar uma forma de ter mais rendimentos, um segundo trabalho que não implique o tempo de qualidade com o filho” e ponderar “voltar para o Alentejo” onde “também já não é fácil encontrar uma casa.”

Insegurança, medo, angústia, ansiedade. Dificuldade de constituir família, de ter filhos, na integração. Ausência de perspectivas e a emigração como solução são constantes da reportagem.

Sabemos que alguma previsibilidade e controlo são elementos essenciais ao bem-estar. Sabemos quão importante é, no processo de autonomização, a possibilidade de termos um espaço que é mais que uma casa-edifício. Espaço onde investimos afectivamente, com o qual desenvolvemos sentimento de pertença e segurança e que nos apoia na construção de redes de relacionamento e suporte social, essenciais à saúde mental. Isto procurei dizer na reportagem. Isto e quanto o corte com este vínculo e o processo de desenraizamento (particularmente em pessoas que viveram muitos anos no mesmo lugar), pode perigar estas dimensões e logo a saúde mental.

Na conversa com a Helena Lins reflecti, ainda, sobre o peso que a habitação tem em questões associadas ao stresse, ao potencial de desenvolvimento e/ou aprofundamento de doença mental, mas, também, em importantes desafios da sociedade portuguesa como a crise demográfica, o desenvolvimento económico ou as questões da solidão e isolamento.

“Tenho 28 anos, faço o que gosto, sou especialista na minha área [farmacêutica hospitalar] e não consigo sozinha sair de casa [dos pais]” | “Tenho 43 anos e voltei a viver em casa dos meus pais porque, neste momento, é impossível pagar uma renda [sozinho]” | “Estou à espera de um milagre”.

Problema hoje e em Portugal, transversal. Não apenas resumido (ainda que particularmente impactante) aos grupos populacionais mais vulneráveis ou às camadas mais jovens ou de menores rendimentos da população. Não o esqueçamos. E não esqueçamos que, apesar de não ser apenas em Portugal que têm crescido os custos com a habitação, em Portugal cresceram muito mais que a média europeia.

Um (outro) importantíssimo desafio do país, com consequências muito significativas na sociedade e na saúde e bem-estar das pessoas e famílias.

Reportagem aqui.