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A vergonha e a “expressão saudável das emoções” (Ao redor…; 08.05.2024)

A espaços estou a rever a série “Daniel Tigre” que há alguns anos descobri com o meu filho mais velho. Hoje vejo-a com o meu filho mais novo, interessado que está nestes desenhos animados e nas suas músicas que pede que coloquemos, particularmente aquando das nossas deslocações de carro. O argumento da série faz uma síntese honesta entre uma apenas aparente simplicidade e uma total intencionalidade no que pretende fazer sentir, reflectir, transmitir. Faz jus à pessoa e ao programa base da sua génese.

O filme “Um amigo Extraordinário” é uma interessante forma de conhecer essa pessoa e esse programa. Realizado por Marielle Heller, narra a criação e desenvolvimento de uma amizade improvável de um jornalista (Lloyd Vogel), convidado pela Esquire para realizar uma peça perfil sobre Fred Rogers e o seu “Mister Rogers Neighborhood”, programa infantil da televisão americana, extremamente popular na década de 1960. O filme retrata esta improvável amizade entre ambos, que surge a partir dos contactos e entrevistas iniciais de Lloyd a Fred Rogers e mostra-nos, logo no início, uma passagem onde Fred Rogers refere que o seu trabalho e o seu programa pretendem “propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. Este programa inspira o mais recente “Daniel Tigre” que procura ajudar crianças, como os meus filhos, mas não apenas crianças, a entenderem e expressarem as suas emoções de forma mais saudável.

No meu último artigo nesta rubrica – Propósito e os 50 anos do 25 de Abril – referi-me a um certo e inquietante “vazio”, também de comunidade e propósito, que tende a “ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo.” Grupos e ideais que proclamam estes vazios, vivendo deles, e que, não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.

Por estes dias temos vivido, a maioria de nós creio com significativa apreensão, os inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, onde um conjunto de pessoas se reuniram para, violentamente, agredirem um conjunto de outras pessoas que em comum, aparentemente, tinham apenas a condição de habitarem na mesma casa e serem imigrantes a residir em Portugal. Inenarráveis acontecimentos que apenas merecem repúdio veemente, mas que não anularam espaço para, como atrás referia, alguns grupos, com diferentes fins, os relativizarem ou, no mínimo, procurarem enquadrar comportamentos não enquadráveis em qualquer contexto de Direitos Humanos.

Estas atitudes, primeiro presumidas pelos grupos que perpetuam este tipo de actos e violência, depois concretizadas, a par de outras atitudes e comportamentos em áreas chave e modelo da sociedade, particularmente para a população mais jovem – da política ao futebol, passando pela cultura e pelo ambiente online – criam condições óptimas para que um conjunto de atitudes negativas e de emoções fortes face aos outros (sejam esses outros, outros porque adversários políticos ou desportivos, porque provenientes de um outro país ou porque de uma outra religião ou orientação sexual) terminem em comportamentos de conflito destrutivo, agressivos, violentos, discriminatórios ou mesmo xenófobos ou racistas.

Esta “passagem ao acto”, normalmente em grupo, decorre, desde logo, da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades. Decorre, também, da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos, que potenciam a disrupção que, podendo ter tanto de positivo – pela possibilidade de afirmação, mudança e minimização das consequências potencialmente negativas, incluindo nas dimensões da saúde mental,  – como de negativo, quando permite ultrapassar a sensação de “inadequação pessoal” que dela resulta, possibilitando romper com as convenções sociais e comporta processos de justificação ou legitimação de comportamentos atentatórios, por exemplo, de bens ou pessoas em sociedade. Decorre, finalmente, de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas, valendo isso pouco face aos potenciais ganhos de causa para determinados grupos e objectivos no curto prazo.

É também por isso que o sentido de comunidade e propósito, como aqui referi no último artigo, têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos em sociedade. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.

 

Tiago Pereira

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-vergonha-e-a-expressao-saudavel-das-emocoes

 

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Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

Link para o programa:

Parte I

Parte 2

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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril (Ao redor…; 24.04.2024)

Por estes dias muito se falará e discutirá em torno do 25 de Abril, dos 50 anos que se comemoraram e de tudo quanto o país evoluiu e mudou. Debater-se-ão os mais diversos pontos de vista e eu, grato que sou ao 25 de Abril e a quem tanto lutou e deu para o tornar possível e para se cumprir, associo-me ao debate trazendo, eventualmente, um outro ângulo: a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito.

Cresci numa aldeia que, embora pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema. Cresci numa família que, embora também pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema e um dia muito relevante e feliz. Certamente, muito por isso, pelas histórias e pelas experiências ao meu redor, sempre me fascinou e sempre admirei as tantas pessoas que durante tantos anos e com desafios e dificuldades que não posso sequer imaginar, “deram” a sua vida a um ideal, a uma causa, a um propósito: o de contribuir para uma sociedade em que pudessem pensar e agir de forma livre e autodeterminada, uma sociedade onde pudéssemos, quem se lhes segue, pensar e agir de forma livre e autodeterminada.

Fascina-me e admiro essa abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais. É que, não, pessoas que se privavam de ver a sua família e amigos, de acompanhar o nascimento ou crescimento de filhas e filhos não o faziam porque gostavam menos da família, amigos ou das filhas ou filhos que pessoas que não o faziam. Não, estas pessoas não o faziam sem sofrimento, sem sacrífico, antes procuravam um bem maior também para a família, amigos, filhas e filhos, considerando que o seu contributo para tal decorria desse esforço, desse compromisso, dessa outra vida. Por vezes, de, literalmente, se dar a vida, como infelizmente tantas e tantos deram.

O dia 25 de Abril de 1974 deu significado a todo esse esforço de décadas. O dia 25 de Abril de 2024 continua a dar significado a todo esse esforço, celebrando-o e, também pelo momento histórico que vivemos, em Portugal, na Europa e no Mundo, constituindo-se como uma oportunidade, é certo, para celebrarmos esse propósito que uniu tantas e tantos que desejaram e fizeram Abril mas, também, como uma oportunidade para um novo contrato de propósito comum, com o continuar a cumprir os valores de Abril, os valores da equidade, bem-estar, da possibilidade de autodeterminação. Da liberdade.

Apesar de todos os problemas sociais, alguns muito complexos, temos hoje acesso, em Portugal, também pelo que Abril cumpriu, e em parte significativa do Mundo, a mais oportunidades, serviços e, no geral, a mais qualidade de vida face à grande maioria das pessoas que viveram, em Portugal e no Mundo, nos últimos milénios, séculos, décadas. No entanto, temos também níveis inquietantes de problemas na área da saúde mental, particularmente de ansiedade e depressão, e temos assistido nos últimos anos a retrocessos, em alguns casos significativos, nas Democracias, nos Direitos Humanos e, até, no que significa ser-se livre e na vivência plena da Liberdade.

É atribuída a Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no século XIX, uma frase que associa a ansiedade a algo próximo de uma tontura ou vertigem [“dizziness”] resultante da liberdade e do livre-arbítrio. Apesar de “figurada” a imagem, importa reflectir sobre dois fenómenos. Um primeiro é uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo advento e crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com algum crescimento do individualismo, da solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais expressos, por exemplo, na participação em grupos (incluindo religiosos ou políticos) não fundamentalistas ou populistas. E um segundo associado a um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas mais significativas e por mudanças no seu entorno que geram, particularmente em algumas pessoas, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.

É este o contexto e o risco que dele decorre, particularmente o relativo a este “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação esta utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, do ressentimento e da despersonalização “cola” de um conjunto de pessoas e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento acelerado por via de apropriações religiosas e políticas de uma ideia do Estado Novo tão acarinhada por António de Oliveira Salazar: “Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento”. Sendo-o, no entanto, sempre e quando as pessoas “providenciais” e as escolhidas pelas “providenciais” assim o desejam e queiram, para garantir, contra quem pense ou aja de forma diferente, desse Estado do Estado.

Eu não me resigno à possibilidade deste caminho e ao que ele implica já no presente, mas pode implicar no futuro próximo e não tão próximo. É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como Irene Vallejo bem assinala, “o que somos e seremos deve-se em grande parte a pessoas que viveram vidas escondidas e que descansam em túmulos que nenhum turista vai visitar”. Façamo-lo, assim, por essas pessoas. A partir do que significam, criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós, pelos que nenhum turista vai visitar e pelos que nos seguirão.

 

Tiago Pereira

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

in Sábado (Ao redor…); 24.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/proposito-e-os-50-anos-do-25-de-abril

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Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial

“Passam cerca de 30 anos desse momento. E tanto mudou. Temos hoje outra sensibilidade na sociedade para o impacto destas situações na saúde, incluindo naturalmente na saúde mental, e bem-estar. Impactos para quem vive (directa ou indirectamente) ou observa situações de crise, catástrofe e/ou situações trágicas. Temos hoje profissionais de diversas áreas, em diversos contextos, mais preparadas/os e capacitadas/os para responder e apoiar nestes desafios. Temos hoje, psicólogas e psicólogos nas Escolas, ao contrário do que acontecia naquela e em muitas naquele momento. Temos hoje psicólogas/os nas estruturas de emergência, incluindo pré-hospitalar, e nos agentes de protecção civil. Muito mudou, mas muito caminho há por percorrer.”

Este é um dos parágrafos do prefácio que escrevi para o livro “Vidas da Emergência Pré-Hospitalar – Contexto, equipas e intervenção psicossocial” cujas primeiras páginas aqui partilho.

Parte de uma experiência que vivi para me permitir referir quanto “este livro nos ajuda a pensar esta mudança, o caminho percorrido e o caminho por percorrer.” Porquê? “Porque reúne um conjunto significativo de pessoas que fazem parte desta história, desta mudança, que dia-a-dia, muitas vezes em condições particularmente exigentes e complexas, construíram a resposta pré-hospitalar de apoio às populações, também a partir do contributo específico, integrado multidisciplinarmente, da ciência e prática psicológica.” Pessoas, várias, que muito admiro reunidas por uma outra pessoa e profissional de excelência que coordenou a obra.

É que “a Ana Oliveira, além de personagem participante activa desta história, fez este muito desafiante percurso, desde o seu interesse, atitude e disponibilidade para nesta área contribuir com o seu tempo e intervenção como cidadã primeiro e depois como psicóloga, à feliz ideia de reunir esta diversidade de pessoas e contributos, organizando-os e concretizando-os nesta obra. Devemos-lhe, por isso e pela dificuldade disso, um agradecimento especial. Devo-lhe eu, um duplo, por ter tido ainda a gentileza de confiar em mim e me permitir estar associado a este seu esforço, a este grupo de pessoas e a este trabalho.”

Termino este texto-convite a conhecerem a obra como termino o prefácio, escrevendo: “Ora, as páginas que se seguem, creio, contribuem para tudo isto. Orgulho-me de fazer parte delas e também o devo a uma pessoa que muito contribuiu para a sensibilidade que tenho face a estes temas e que me e nos falta todos os dias.”

Hoje seria um dia especial para este amigo que me e nos falta todos os dias. Quanto queria dar-te um abraço, agora.

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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

“É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.”

“Propósito e os 50 anos do 25 de Abril”, 81º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa os 50 anos do 25 de Abril e “a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito”.

Parte das minhas raízes e do meu fascínio e admiração pela dádiva e luta de tantas e tantos ao longo de tanto tempo para o tornar possível, “abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais.”

Discute, depois, o quanto evoluímos/mudamos mas situa estes 50 anos num tempo marcado por 2 fenómenos: a) uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com o crescimento do individualismo, solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais / grupos; b) um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas e por mudanças no seu entorno que geram, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.”

Refiro-me ao risco deste “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer sejam religiosas, políticas ou resultem da conjugação de ambas, numa procura conexão das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, devolvendo sensação de pertença a algo maior, poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, ressentimento e da despersonalização “cola” e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento.

A isso, não me resigno. Construamos “um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril. “Criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós.”

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Uma (só) Saúde (Ao redor…; 09.04.2024)

Na passada semana tomou posse o XXIV Governo Constitucional em Portugal. Como porventura aconteceria em qualquer outro lugar do Mundo onde exista e funcione uma Democracia, este acontecimento suscitou um conjunto de debates e discussões em torno da composição e da organização do Governo. Um deles, o facto dos anteriores Ministério da Educação e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do XVIII Governo Constitucional resultarem num único Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do que isso pode ou não representar e significar para a visão política sobre a Educação, mesmo num país onde as Creches e, portanto, a Educação dos 0-3 anos permanecem, ainda, com um “pé fora” do sistema educativo e fora da área da Educação na organização governativa. Uma Educação?

Já na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates e discussões, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo. Ao contrário de outros países na Europa onde o Ministério não é, exclusivamente, da Saúde e se associa a outras áreas, particularmente a solidariedade, a segurança e os assuntos sociais ou os cuidados (informais), há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as próprias competências do Ministério historicamente se alterem e indiciem a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?

Em rigor, talvez com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas, a verdade é que temos um caminho percorrido desde um modelo normalmente definido como “biomédico”, essencialmente centrado nas dimensões biológicas dos Seres Humanos e nas suas patologias e que tendia a desconsiderar ou relativizar os factores sociais, ambientais e psicológicos que influenciam decisivamente a saúde. Este modelo, embora com a discrepância que atrás assinalo, foi sendo substituído nas últimas décadas por um modelo habitualmente referenciado como “biopsicossocial” que, ao adoptar uma visão mais ampla da saúde, reconhece a relação complexa e a influência mútua de factores biológicos, sociais e psicológicos na saúde considerando, nesse sentido, questões como as dimensões comportamentais, emocionais ou, noutro prisma, as práticas culturais e condições sócio-económicas das pessoas e comunidades. Já nos últimos anos temos assistido a um aprofundamento desta visão, tendente à inclusão da saúde dos restantes animais e ao cuidado e integridade com o meio ambiente e os ecossistemas como outros aspectos fundamentais à saúde, uma abordagem mais integrativa e conhecida por “uma (só) saúde” [“one health”] que reforça, entre outros aspectos, a consideração da qualidade da água, dos alimentos ou a proteção e resposta das comunidades e sistemas face, por exemplos, a catástrofes “naturais” ou a doenças infecciosas.

Caminhamos, dizia, de modelos em que a saúde era entendida quase apenas como a ausência de doença para abordagens mais complexas da saúde e do bem-estar, focadas numa compreensão mais integrativa e sustentável da pessoa, das comunidades e do ambiente. Neste caminho assistimos também a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e a desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade dos ecossistemas, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação, o desenvolvimento de novas abordagens e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.

Esta transformação progressiva foi também assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano, comemorado no último Domingo, cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”], advogando pelo direito de todas as pessoas, em qualquer lugar do Mundo e circunstância, a acederem a “serviços de saúde de qualidade, a educação e informação, bem como a água potável e segura, a ar limpo, a uma boa nutrição, a habitação de qualidade, a boas condições de trabalho e ambientais e a liberdade e não-discriminação”. Direito(s) em Portugal protegido(s) pela Constituição e Direito a uma saúde de qualidade que depende do envolvimento de todas e todos, individual e colectivamente, cívica e politicamente, para o seu cumprimento.

Foi, também, com esse espírito de missão e de compromisso que, a partir da abordagem “One Health”, neste exacto Dia Mundial da Saúde de 2024, o conjunto das nove Ordens da Saúde (Biólogos, Enfermeiros, Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Médicos, Médicos Dentistas, Médicos Veterinários, Nutricionistas e Psicólogos) apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal.

Contributo que assente num processo de colaboração e construção conjunta pretende dar um sinal da disponibilidade das Ordens Profissionais da Saúde e da importância da colaboração de todas as entidades neste grande objectivo de melhorar o acesso, a qualidade no acesso aos serviços de saúde e a saúde da população, aspectos fundamentais à qualidade de vida e bem-estar e à sustentabilidade, desenvolvimento e prosperidade do país. O documento sublinha a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; promover a literacia em saúde, incluindo saúde animal; reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental e desenvolver a área da saúde animal; investir em inovação, investigação, desenvolvimento e tecnologia; e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à complexidade dos desafios que vivemos só poderão corresponder abordagens também elas complexas, determinadas, comprometidas e com suporte interdisciplinar e multiprofissionais. Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.

 

Tiago Pereira

Uma (só) Saúde

in Sábado (Ao redor…); 09.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uma-so-saude

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Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”? (Ao redor…; 26.03.2024)

Ou será apenas ao meu redor que tal parece acontecer? Ou melhor, serei apenas eu a senti-lo? Por assim pensar e reflectir, questionei algumas pessoas que, primeiro estranharam, mas, depois e porque mais atentas, sorriram quando acontecia e, de certa forma e à sua maneira, confirmaram. Estarão, então, mais pessoas a dizer a palavra “exacto” e essas mais pessoas mais vezes? Exacto. E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.

Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online) ou de acontecimentos (troika ou quarentena) mas, também, outras palavras e expressões não relacionadas com uma transformação ou acontecimento em específico. “Bué”, “fixe”, “tipo” e, agora, mais recentemente, “exacto”, para dar apenas alguns exemplos.

Não pretendo discutir propriamente porquê “exacto” e porquê neste momento. Antes, assinalá-lo e, ao assinalá-lo, procurar que pensemos a forma como se processa e o impacto que tem um fenómeno apelidado de contágio social. Fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais que incluem, entre outros, a imitação (directa) ou a conformidade e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção, seja ela um comportamento, uma expressão emocional ou mesmo uma palavra ou expressão. O contágio social por via das múltiplas interacções sociais é, nesse sentido, um processo fundamental na forma como nas línguas se criam e universalizam gírias ou modismos, como as diferentes línguas interagem umas com as outras e como se têm transformado e adaptado ao longo do tempo.

Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas. Senão vejamos, a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas, permitindo sucessivamente que essas pessoas cheguem a outras pessoas. Fá-lo ao mesmo tempo que potencia a possibilidade de encontro entre grupos e comunidades, explorando factores de liderança, reverência e relevância e aumentando, também por essa via, não apenas a velocidade, mas também a intensidade do fenómeno de contágio. Intensidade que, por sua vez, é influenciada pelas emoções associadas às acções, algo também potenciado pelas novas tecnologias e, particularmente, quando nos referimos a emoções normalmente classificadas como menos positivas como sejam o ódio, a raiva ou o ressentimento que se propagam a velocidades maiores no contexto das redes sociais. Finalmente, há também o papel importante da conformidade e da pressão (percebida) dos pares nos processos de contágio, algo que, necessariamente, é também aumentado pela presença online e pela forma como decorrem os processos de reconhecimento em ambiente digital.

Aqui chegados creio que restará claro que, conforme o atrás pode permitir compreender o porquê de uma maior utilização em Portugal da expressão “exacto”, apoia também a compreensão de como estes mecanismos são, cada vez com maior eficácia, utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, como podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo como podem, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, também e por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.

O contágio social é assim um veículo importante para processos de deslegitimação de comportamentos ou crenças outrora legitimados socialmente e vice-versa. Também porque uma maior e mais permanente presença de um determinado fenómeno no espaço social e, hoje, mediático tende para a sua normalização e naturalização e, por essa via, para uma progressiva alteração das normas sociais vigentes, proporcionando maior aceitação de comportamentos ou acções antes não aceites ou a rejeição de comportamentos ou acções antes aceites, mudanças que, por vezes, podem gerar desconforto, conflito ou até sobressalto social. Neste sentido, particularmente em questões mais ideológica ou socialmente fracturantes, o contágio social tem o paradoxo de tender para a generalização de uma crença ou comportamento no seio de um grupo ou comunidade mas, ao mesmo tempo, potencial de fragmentação, de polarização e de diminuição do espaço de compromisso e construção conjunta, porquanto esse grupo e comunidade tenderá a afastar-se progressivamente mais e mais significativamente de outros grupos e comunidades com crenças e comportamentos distintos. Por vezes opostos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o contágio social tem um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas, suportando importantes mudanças sociais com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. Tê-lo presente é ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.

 

 

Tiago Pereira

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

in Sábado (Ao redor…); 26.03.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tem-reparado-que-agora-mais-pessoas-dizem-mais-vezes-exacto

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Uma (só) Saúde

Ao contrário do que aconteceu com a Educação, “na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo (…) Há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as suas próprias competências se vão alterando e indiciando a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?”

“Uma (só) Saúde”?, 80º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre como, “com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas”, caminhamos do modelo biomédico para o modelo biopsicossocial (explicitando-os) e o aprofundamos, acrescentando progressivamente às dimensões sociais e psicológicas, a saúde dos restantes animais e o cuidado e integridade com o meio ambiente e ecossistemas, numa abordagem integrativa conhecida por “uma (só) saúde” [“One health”].

“Neste caminho assistimos a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação e desenvolvimento e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.”

“Esta transformação progressiva foi assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”] (…) Dia em que, a partir da abordagem “One health”, o conjunto das nove Ordens da Saúde apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal, sublinhando a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do SNS, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; (…) reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental (…) e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.”

“Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.”

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Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

Exacto. Exactamente. Exacto… Também sentem, ao vosso redor, que agora mais pessoas mais vezes dizem “exacto”? “E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.“

“Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?, 79º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão para reflectir sobre o papel e impacto do contágio social.

“Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online), de acontecimentos (troikaou quarentena) mas, também, palavras e expressões como “bué”, “fixe” ou “tipo”.

Não pretendo, portanto, discutir porquê “exacto” e porquê agora. Antes assinalá-lo e pensar o contágio social, “fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais (…) e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção.”

“Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas”. Por exemplo [outros são detalhados no artigo], “a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas.”

Os processos de contágio social são, por isso e cada vez com maior eficácia, “utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.”

“O contágio social tem, assim, um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. É ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.”

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Kahnemam. 90 anos.

“Tudo o que fiz foi colaborativo”, disse Daniel Kahneman numa entrevista-almoço ao Finantial Times em Maio de 2021 a propósito da apresentação do seu último livro – “Ruído | Como tomamos más decisões e como podemos evitá-lo”, título da tradução portuguesa.

O trabalho de Kahnemam, a forma como o comunicou e, mais importante, o colocou colaborativamente ao serviço da sociedade foi fundamental na afirmação do contributo mais amplo e com impacto da psicologia e na compreensão do comportamento humano e dos processos de tomada de decisão.

Foi, entre outros reconhecimentos, galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2002. Na conferência associada a este prémio – “Maps of Bounded Rationality” – desde logo pelas palavras que dedica a Amos Tversky, companheiro de estudos e de vida falecido 6 anos antes, deixa claro um conjunto de características que quem de perto o conhecia lhe reconhecia: a junção feliz de uma inteligência e capacidade de análise ímpar com uma imensa abertura a novos saberes, conhecimento e às outras pessoas.

“Uma mente aberta”, algo sempre consigo até final da sua vida e reflectido, por exemplo, na participação que teve nos últimos anos no debate sobre os impactos nas pessoas, na tomada de decisão e na sociedade da inteligência artificial e, mais especificamente, dos novos modelos de linguagem e de aprendizagem profunda. “Uma mente aberta” e uma inquietude que antes o levou, em diferentes momentos e países, a ser decisivo para o aprofundamento dos contributos da psicologia, e de forma mais ampla das ciências comportamentais, para as políticas públicas e para a promoção do bem-estar, tendo mesmo recebido o mais elevado reconhecimento civil nos EUA em 2013 de Barack Obama. De um Obama que considera um dos seus livros – “Pensar Depressa e Devagar,” título da tradução portuguesa – um dos 10 mais importantes livros que leu.

O fim de vida que falava chegou ontem. Tinha 90 anos.

É, como podem perceber e como quem me lê habitualmente saberá, uma pessoa muito relevante no meu processo de reflexão e desenvolvimento. Desafiou-me, muito. É um dos psicólogos e psicólogas cujos livros ofereço (também) a não psicólogas e psicólogos, incluindo a pessoas que muito gosto, como fiz não há muito com o seu último livro. É uma perda tremenda, mas deixa um legado que, espero, o orgulhe e orgulhe todas e todos quantos participaram em “tudo o que [fez colaborativamente]”.

Continuemo-lo. Cumprindo-o.

Obrigado, Kahneman.

 

Entrevista Finantial Times (Maio, 2021): https://www.ft.com/content/7cf78f4f-d40a-44f1-9946-e78eccb3da57