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III Encontro Psicólogos na Administração Local

Comecemos pelo Capitólio. Ali voltei ontem, 3 anos e alguns dias depois de a 16.02.20, para um concerto, o último a que assisti pré-pandemia. Mal sabia. Mal sabíamos com toda a amplitude o que aí viria.

Mas voltei, voltamos, para o III Encontro dos Psicólogos da Administração Local, co-organização da Câmara Municipal de Lisboa e da Ordem dos Psicólogos Portugueses, ponto de encontro, partilha, reflexão e debate de psicólogas e psicólogos das autarquias de todo o país. Voltamos, e o que mudou das edições de 2017 e 2019, com (cada vez) mais psicólogas/os a darem o seu contributo (incluindo mais psicólogas/os júnior) nas estruturas/projectos das autarquias, a partilharem práticas no âmbito do prémio de boas práticas e, não menos relevante, com papéis cada vez mais amplos e diversos, incluindo as/os com posições de liderança e decisão.

Mas, de repente (por uma alteração de última hora, última hora mesmo), ali estava eu e o Gabriel Soares (um dos mentores, com a sua equipa, da iniciativa e que mais se tem a ela dedicado; Obrigado, Gabriel) para procurar estimular a reflexão sobre como pode a psicologia e as psicólogas e psicólogos contribuir para a promoção do bem-estar a partir das autarquias. Para pensar o nosso papel:

a) No desenvolvimento de ciência, a partir da psicologia, que permita afirmar a importância da promoção do bem-estar e o que pode ou não funcionar (what works?) para mediar a “tensão” entre os espaços que idealizamos para viver (com verde e azul, sem ruídos de transportes, com encontro e conexão, com tempo, …) e as cidades actuais;

b) Na advocacia para que a promoção da saúde (mental) e do bem-estar possa verdadeiramente ser prioridade das autarquias e possa ser aspiração das e dos munícipes, valorizando projectos de “cidade” nela centrados e usando do capital social para os influenciar;

c) Nas respostas de proximidade considerando que é nos territórios que os desafios societais (pobreza, migrações, insucesso/abandono escolar, …) ganham nome e história de vida e onde mais eficazes intervenções junto das pessoas e na transformação dos determinantes sociais da saúde e do bem-estar podem acontecer;

d) Na disseminação do conhecimento da psicologia nas diversas áreas da sociedade, no apoio à tomada de decisão e, porque não, com mais psicólogas e psicólogos em posições de responsabilidade, liderança e tomada de decisão.

Volto ao Capitólio porque também me recorda o que aconteceu no dos EUA. Faço-o para, como também disse, partilhar que é a possibilidade de bem-estar de todas e todos e a coesão social que dela resulta que mais nos protege da deterioração da confiança nas instituições, nas outras e outros e na democracia. Que mais nos protege de emoções como a raiva ou o ódio serem dominantes no espaço público e na política, num ciclo que inevitavelmente conduzirá a mais violência e a menor equidade, possibilidade de autodeterminação e de uma vida plena, de bem-estar.

Oxalá vos tenha feito sentido. Para mim foi um gosto. Obrigado.

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Natália…

Indomável, imprevisível, ousada. Assim foi Natália Correia, figura ímpar da literatura e do século XX português, que perdemos fará no próximo mês 30 anos e cujo centenário do seu nascimento se assinalará em Setembro.

Recordo-me do um Polígrafo feito a seu respeito. Verificava se seriam verdadeiras (e confirmava serem) umas frases a si atribuídas datadas do ano do seu desaparecimento: “As primeiras décadas do próximo milénio serão terríveis… Miséria, fome, corrupção, desemprego, violência, abater-se-ão aqui por muito tempo (…) O Serviço Nacional de Saúde, a maior conquista do 25 de abril, o Estado social e a independência nacional sofrerão gravíssimas ruturas (…) Abandonados, os idosos vão definhar, morrer, por falta de assistência e comida. A esperança média de vida cairá. Espoliada a classe média declinará, só haverá muito ricos e muito pobres.”

Algumas pessoas olha(ra)m para estas palavras como premonitórias. Fernando Dacosta, que as confirma, refere que Natália sofria ao ver o Mundo “da cultura, dignidade, liberdade, criatividade e afetuosidade ruir”, conforme entendia. Ruína para si muito decorrente da desigualdade e da abundância de situações de pobreza e exclusão. Condicionantes que entendia fundamentais e que privavam pessoas da dignidade e da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Continuo, por estes dias, em iniciativas que cruzam os contributos da ciência e da prática da psicologia com o enorme desafio societal que representam os fenómenos da pobreza e da exclusão. Há uma semana, na ilha da Madeira, discuti a temática com colegas, recolhi contributos para o projecto https://finalapobreza.pt e procurei via comunicação social um contributo para a mediatização e discussão no espaço público do tema e, mais particularmente, da pobreza infantil, conforme partilho exemplo: https://www.rtp.pt/madeira/sociedade/acompanhamento-psicolgico-desde-a-infncia-uma-forma-de-reduzir-impacto-da-pobreza-udio_111756

Já amanhã, volto a recolher contributos para o projecto, agora em S. Miguel (Açores), sessão que decorrerá exactamente no Centro Cultural Natália Correia e que, numa parceria entre e @Ordem dos Psicólogos Portugueses e a @Câmara Municipal de Ponta Delgada, terá posteriormente um debate sob o tema “A Intervenção Psicológica no combate à pobreza e na promoção da equidade social”, que assinalará o Dia Mundial da Justiça Social celebrado a 20 de Fevereiro (informações e inscrições aqui: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/4483).

Porque, conforme Natália, precisamos ousar… Na literatura. Na crítica (social). No combate à pobreza e à exclusão, com maior contributo das psicólogas e psicólogos e fazendo dele desígnio de todas as pessoas nos Açores, no país e no Mundo.

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política

De número em número até 5.3 mil milhões

“Portanto… Enfim, é fazer a conta.” Permanece no imaginário colectivo o momento em que António Guterres, então primeiro-ministro, não conseguiu responder rapidamente a um pedido de um jornalista para quantificar quanto significava 6% do PIB português. 6% em 1995, treze (pessoas), quinhentos (milhares de euros), quatro ponto dois e três (milhões de euros), mais recentemente. “Discutimos muito, muitas vezes acaloradamente” números, números aos quais acrescento um que merecerá menor debate mas a que não “creio corresponder a uma importância menor: cinco ponto três. Cinco mil e trezentos milhões de euros.”

“De número em número até 5.3 mil milhões”, 51 º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) destaca o “custo estimado em 2022 das perdas directas de produtividade das organizações portuguesas causadas pelo absentismo e presentismo (quando se trabalha abaixo das reais capacidades), resultantes de stresse e de problemas de saúde psicológica de trabalhadoras e trabalhadores. Número que seria consideravelmente superior se envolvesse organizações do sector público e do sector financeiros (sectores não considerados no estudo) e que corresponde a um aumento de 66% face às perdas estimadas de 3.2 mil milhões de euros em 2020.

Este impactante número é detalhado no relatório “Prosperidade e Sustentabilidade das Organizações – Relatório do Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica
no Trabalho, em Portugal” e resulta dos 8 dias de trabalho que em 2022 cada trabalhador/a em média perdeu e dos 15,8 dias que, também em média, trabalhou mas abaixo das suas capacidades reais, por razões associadas ao stresse e a problemas de saúde psicológica (em conjunto, mais de 10% do seu tempo anual útil de trabalho).

“Objectivamente, a prevenção dos riscos psicossociais, a par da promoção da saúde psicológica e do bem-estar, se baseadas em projectos e iniciativas com base e evidência cientifica e na mobilização de toda a organização (incluindo o empenho e compromisso da gestão e liderança), é um investimento de enorme retorno para a prosperidade e sustentabilidade das organizações, particularmente se aos custos directos anteriormente assinalados juntarmos outros resultantes, por exemplo, da prevenção de erros e acidentes de trabalho (…) Pode, ainda, reduzir significativamente o sofrimento e mal-estar individual e os custos com ele relacionados para sistemas como o de saúde e segurança social e produzir melhorias na produtividade e economia do país”.

“Portanto… Enfim, é fazer a conta”, disse Guterres. Digo-o agora a líderes, a gestoras e gestores, mas também a decisoras e decisores a quem o compete estimular: Enfim, é fazer a conta a tudo quanto de bom pode significar investir na prevenção dos riscos psicossociais e na promoção da saúde psicológica e do bem-estar de trabalhadoras e trabalhadores.

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Policrise.

Policrise. Ouvimos a expressão amiúde a propósito da pandemia por COVID-19. Foi agora amplamente referida no “Global Risks Report 2023” do World Economic Forum.

Nele, além da ideia fundamental de que “crises presentes profundamente interconectadas e a menor resiliência aumentam o risco de uma policrise de riscos ambientais, geopolíticos e socioeconómicos relacionada com a procura de recursos naturais”, trata-se a percepção dos principais riscos do Mundo a 2 e 10 anos. E, se a 10 anos os principais surgem associados à crise climática (o primeiro é a “incapacidade de mitigação das alterações climáticas”), a 2 anos o primeiro é a “crise do custo de vida” e o quinto a “erosão da coesão social e polarização da sociedade”.

Se os pensarmos para Portugal, e olhando o último Eurobarómetro que aqui referi recentemente, encontramos percepções próximas. Um potencial de conjugação de crises que desafiam a sociedade, a equidade e a possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Há dias, num excelente artigo no Público, Ricardo Arroja discutia-o com clarividência. Partindo de dados do INE que contrariam a ideia zombie (apesar de não factual, permanece no imaginário/debate público como verdadeira) de que as pessoas em situação de pobreza têm mais filhas/os, permitia pensarmos como o desafio da pobreza (e exclusão) no nosso país se relaciona com a crise demográfica, com as iniquidades na área da educação e formação e com o próprio desenvolvimento económico e social do país.

Isso e, a mim, a pensar num texto que li há algum tempo onde se dizia que, se uma planta estiver a murchar, não tendemos a assumir que o problema é da planta (apenas) e procuramos ajudá-la, também, alterando as condições a que está sujeita. A pensar nele e no quanto o creio fundamental nas pessoas, cuidando-se de analisar os determinantes sociais da saúde e bem-estar e de intervir não apenas na pessoa que “sofre” e “murcha” com eles, mas nos próprios determinantes.

Quem me vai lendo (e/ou ouvindo) sabe que é com esta visão e porque a pobreza é um dos (senão o) principais determinantes sociais, que estamos a preparar uma estratégia de (maior) contributo da psicologia para um “.Final à Pobreza”. Nos próximos dias promoverei sessões de discussão e recolha de contributos em Évora (07.02), Funchal (15.02), Ponta Delgada (23.02) e no Porto (11.04) (informações na área das Delegações Regionais respectivas do site da OPP).

Voltemos ao Fórum Económico Mundial que, também este ano, dedicou a conferência de Davos à cooperação num Mundo fragmentado. Pensar a ciência e a prática da psicologia, hoje, implica considerá-lo, de facto, e envolvermo-nos, desde logo, no combate à pobreza e exclusão… Pela dignidade e possibilidade de bem-estar das pessoas e por maior coesão e equidade, juntemo-nos.

Cooperemos.

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Sim, é possível. Sim, Portugal pode (in Sábado; Ao redor…; 25.01.2023)

Um, dois, três, quatro, cinco, (…) cinquenta. Este é 50º artigo deste “Ao redor…”. Se no primeiro aqui escrevi que “há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o”, neste procuro reflectir sobre como é possível e o que pode ser determinante na transformação social e como Portugal, em algumas áreas, a pode fazer. Se no primeiro aqui escrevi que “pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntos podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”, neste procuro que o pensemos face a uma situação específica, com impacto significativo em todas as pessoas e na sociedade – a pobreza.

Mas, primeiro, recuemos à segunda metade da década de 90. A toxicodependência e as suas múltiplas consequências eram fonte de problemas complexos nas pessoas e famílias, alarmavam cidades e inquietavam toda a sociedade portuguesa. No Eurobarómetro de 1997 a elevada taxa de consumo de drogas era a principal preocupação das portuguesas e portugueses, acima de questões como a habitação, o (des)emprego ou a pobreza. Tínhamos números dramáticos, dos piores, senão mesmo os piores, da Europa em infecções por VIH e uma parte significativa da criminalidade era associada ao fenómeno do tráfico e consumo de droga.

Cerca de 25 anos depois, a taxa de consumo de drogas, que decresceu consideravelmente, não é a principal, nem sequer das principais, preocupações da sociedade portuguesa. A criminalidade associada à droga baixou também e, quer o número global de infecções por VIH, quer particularmente o relativo às pessoas que usam drogas, diminuiu de forma significativa e em 2020 havíamos atingido e superado a meta 90-90-90 (pelo menos 90% das pessoas infetadas com VIH com diagnóstico; 90% das pessoas com diagnóstico em tratamento; e 90% das pessoas em tratamento com carga viral suprimida).

Esta transformação social, com forte impacto nas pessoas e sociedade, foi também possível a partir da Estratégia Nacional de Luta contra a Droga (1999) e do que dela adveio. Pela inovação e pelo sobressalto (até fora de Portugal), destacou-se o facto de se ter descriminalizado o consumo de todo o tipo de drogas (ainda que com limites), deixando de ser penalizado judicialmente para, enquanto problema de saúde pública, sê-lo administrativamente, promovendo o acesso ao tratamento, à ajuda e apoio especializado e à prevenção da toxicodependência. Mas foi fundamental ter sido assumido como desígnio nacional, ter sido definida e prosseguida uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, ter sido assumida a necessidade de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados.

Foi também fundamental a criação de uma estrutura de coordenação de toda a intervenção (na altura o Instituto da Droga e da Toxicodependência) e a coragem, a visão, o vigor e o pragmatismo de decisoras e decisores de criarem as condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais de saúde espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta a um problema sério de saúde pública. E se responderam! Sabem-no tantas e tantas famílias em Portugal. Sabe o Mundo que estuda o caso português. Sabemos ainda melhor hoje, a importância da conjugação dos factores acima porque, quando na década passada começaram a ser alteradas e fragilizadas algumas das condições anteriores, logo o modelo e os resultados o acusaram.

No início deste mês foram publicados dados relativos ao último Eurobarómetro. Ao contrário de 1997, as principais preocupações assinaladas pelos portugueses e portuguesas foram o aumento do custo de vida e a pobreza e exclusão social. Pobreza e exclusão, dois determinantes fundamentais da dignidade humana, da saúde e bem-estar, com forte impacto nas pessoas que experienciam estas situações e em toda a sociedade.

Também aqui, e como em 1999 para a luta contra droga, Portugal tem desde o final de 2021 uma Estratégia Nacional de Combate à Pobreza. Sobressaltemo-nos e inovemos. Pensemos a pobreza e a exclusão como problemas de saúde pública e não como problemas individuais, de “pessoas pobres”. Combatamos o estigma e processos de culpabilização e assumamos o combate à pobreza como verdadeiro desígnio nacional. Prossigamos uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, assumamos a necessidade de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados e com condições e segurança de trabalho.

Tal, considerando a realidade da intervenção social em Portugal (pouco especializada, pouco focada na ciência e no “what works” [no que funciona], muitas vezes de carácter voluntário ou, quando com profissionais, com baixos rendimentos médios, elevada precariedade e permamente mudança nas equipas), depende da coragem, visão, vigor e pragmatismo de decisoras e decisores. Do seu compromisso com a criação de condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta ao enorme desafio que a pobreza e exclusão constituem em Portugal.

Inspiremo-nos na luta contra a droga, para combatermos a pobreza. Aspiremos para a pobreza e exclusão os resultados e o sucesso na área a droga e toxicodependência. Mobilizemo-nos porque é possível. Mobilizando-nos, conseguiremos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é possível continuar a diminuir significativamente a pobreza e as diversas formas de exclusão. Sim, é possível. Sim, Portugal pode. Também motivados pela recuperação em 2021 do aumento da pobreza em Portugal em 2020 (o primeiro desde 2013), todos devemos mobilizarmo-nos, qual equipa de 10 milhões, para este combate. Pela dignidade e possibilidade de bem-estar de todas as pessoas. Por uma sociedade mais equitativa e de maior justiça social.

 

Tiago Pereira

Sim, é possível. Sim, Portugal pode

in Sábado (Ao redor…); 25.01.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/sim-e-possivel-sim-portugal-pode

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Ao redor... (Revista Sábado) Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

50 artigos “Ao redor…”

“Um, dois, três, quatro, cinco, (…) cinquenta.” 50 artigos do “Ao redor…” (link abaixo), rubrica que dinamizo na edição online da Sábado. “Há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o”, escrevi no 1º destes artigos (link abaixo). No 50º reflicto sobre como é possível e o que pode ser determinante na transformação social e como Portugal, em algumas áreas, a pode fazer. Ainda no 1º escrevi que “pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntos podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa”. No 50º procuro que o pensemos face a uma situação específica, com impacto significativo em todas as pessoas e na sociedade – a pobreza.

“Sim, é possível. Sim, Portugal pode”, 50º artigo da rubrica “Ao redor” (link abaixo) procura desafiar a olharmos o combate à pobreza e exclusão inspirando-nos no caminho que Portugal fez na área da toxicodependência com a implementação (com visão, compromisso e coragem) da “Estratégia Nacional de Luta contra a Droga (1999)”.

É que, também na pobreza, Portugal tem desde 2021 uma Estratégia Nacional e, seguindo este exemplo e os princípios que guiaram o sucesso, também nesta área podemos sobressaltar-nos e inovar. Pensar “a pobreza e a exclusão como problemas de saúde pública e não como problemas individuais, de “pessoas pobres”. Combater “o estigma e processos de culpabilização e assumirmos o combate à pobreza como verdadeiro desígnio nacional”. Prosseguir “uma estratégia intersectorial (saúde, social, educação, emprego, …) e, particularmente, a criação de uma resposta especializada, assente na mobilização, capacitação, envolvimento e motivação de profissionais, especializados e com condições e segurança de trabalho.”

Dependendo tal – e “considerando a realidade da intervenção social em Portugal (pouco especializada, pouco focada na ciência e no “what works” [no que funciona], muitas vezes de carácter voluntário ou, quando com profissionais, com baixos rendimentos médios, elevada precariedade e permanente mudança nas equipas) – da coragem, visão, vigor e pragmatismo de decisoras/es. Do seu compromisso com a criação de condições para, de acordo com a melhor evidência científica e sempre avaliando resultados, metas e objectivos, permitirem aos profissionais espaço e oportunidade para humanizar e capacitar a resposta ao enorme desafio que a pobreza e exclusão constituem.”

“Mobilizemo-nos porque é possível. Mobilizando-nos, conseguiremos.”

…

Artigo 1 – Nós e os nossos Mundos

Artigo 50 – Sim, é possível. Sim, Portugal pode

Ao redor…

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Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Mais (possibilidade de) bem-estar…

“Um dos pressupostos da nossa União Europeia é que o bem-estar de cada um de nós depende do bem-estar de todos os outros.” Estávamos em Janeiro de 2020 quando Elisa Ferreira e Frans Timmermans o escreveram. Escreviam, ainda, no artigo “Mecanismo para uma Transição Justa: não deixar ninguém para trás” (em torno da transição climática) que “a nossa solidariedade é um interesse próprio com fundamento racional” e que “nestes tempos de turbulência, é evidente que nenhum Estado pode por si só enfrentar com êxito os grandes desafios”.

Esta interdependência de países e de pessoas face a diversas dimensões e, especificamente, no que à possibilidade de bem-estar diz respeito, é fundamental e foi base de uma recente participação minha no “Quarto do Fundo”, parceira da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses. A temática – “Mais bem-estar para todas e para todos” – derivou, como a Carla Rocha (a quem agradeço a forma como conduz o programa) assinalou no início da conversa, deste texto que escrevi e publiquei alguns dias antes – https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_terminou-um-2022-particularmente-exigente-activity-7017415316045541376-mIbz?utm_source=share&utm_medium=member_desktop

A conversa, que partilho, partiu do artigo e do desafio de, num momento particularmente exigente (com a pandemia, a Guerra na Europa e os desafios sócio-económicos e societais que enfrentamos), podermos pensar em como promover mais possibilidade de bem-estar para cada e para todas as pessoas. Como podemos fazer disso objectivo de todos, potenciando o que de excelentes condições para tal também temos no país (desde logo, algumas das condições que o tornam um destino turístico de excelência e questões como a segurança e, ainda assim, a confiança em pessoas e instituições).

Ainda, como podemos apoiar ou suportar as pessoas com maiores vulnerabilidades, no sentido da promoção do seu bem-estar e da consideração que uma sociedade de maior equidade (também a este nível) resulta uma melhor sociedade para todas e todos. Como podem, também as autarquias, em proximidade e de forma mais personalizada, criar mais condições e possibilidades de bem-estar para as suas populações.

Também o que podemos melhorar em dimensões como os rendimentos, o combate à pobreza e exclusão, a habitação ou no acesso (e equidade de acesso) à saúde e à educação. O que podemos melhorar, finalmente, no apoio contingente, próximo e eficaz em situações de sofrimento psicológico que o justifiquem.

Porque “um dos pressupostos” (…) “é que o bem-estar de cada um de nós depende do bem-estar de todos os outros.”

Episódio disponível aqui

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Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Habitação e Saúde Mental

“Estamos separados, mas vivemos na mesma casa por falta de alternativas.” É esta a afirmação destacada pela TVI/CNN Portugal no anúncio de uma reportagem sua que, a partir da experiência de 4 pessoas, procura reflectir sobre os múltiplos impactos que as dificuldades e iniquidades no acesso à habitação provocam a pessoas, famílias e à sociedade.

Disse-o Joana Ferreira que, com um filho menor, a viver em Lisboa, vê aproximar-se a data de revisão do valor do seu arrendamento (pensa poder duplicar). Resta-lhe, nas suas palavras, “continuar a busca intensa por casa”, “arranjar uma forma de ter mais rendimentos, um segundo trabalho que não implique o tempo de qualidade com o filho” e ponderar “voltar para o Alentejo” onde “também já não é fácil encontrar uma casa.”

Insegurança, medo, angústia, ansiedade. Dificuldade de constituir família, de ter filhos, na integração. Ausência de perspectivas e a emigração como solução são constantes da reportagem.

Sabemos que alguma previsibilidade e controlo são elementos essenciais ao bem-estar. Sabemos quão importante é, no processo de autonomização, a possibilidade de termos um espaço que é mais que uma casa-edifício. Espaço onde investimos afectivamente, com o qual desenvolvemos sentimento de pertença e segurança e que nos apoia na construção de redes de relacionamento e suporte social, essenciais à saúde mental. Isto procurei dizer na reportagem. Isto e quanto o corte com este vínculo e o processo de desenraizamento (particularmente em pessoas que viveram muitos anos no mesmo lugar), pode perigar estas dimensões e logo a saúde mental.

Na conversa com a Helena Lins reflecti, ainda, sobre o peso que a habitação tem em questões associadas ao stresse, ao potencial de desenvolvimento e/ou aprofundamento de doença mental, mas, também, em importantes desafios da sociedade portuguesa como a crise demográfica, o desenvolvimento económico ou as questões da solidão e isolamento.

“Tenho 28 anos, faço o que gosto, sou especialista na minha área [farmacêutica hospitalar] e não consigo sozinha sair de casa [dos pais]” | “Tenho 43 anos e voltei a viver em casa dos meus pais porque, neste momento, é impossível pagar uma renda [sozinho]” | “Estou à espera de um milagre”.

Problema hoje e em Portugal, transversal. Não apenas resumido (ainda que particularmente impactante) aos grupos populacionais mais vulneráveis ou às camadas mais jovens ou de menores rendimentos da população. Não o esqueçamos. E não esqueçamos que, apesar de não ser apenas em Portugal que têm crescido os custos com a habitação, em Portugal cresceram muito mais que a média europeia.

Um (outro) importantíssimo desafio do país, com consequências muito significativas na sociedade e na saúde e bem-estar das pessoas e famílias.

Reportagem aqui.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia Tomada de Decisão

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas” (Sábado; Ao redor…; 11.01.2023)

A semana começou com incríveis imagens do Brasil. Dois anos e dois dias depois da invasão do Capitólio por apoiantes de Trump, e com o início de uma Guerra na Europa pelo meio, uma nova invasão das instituições democráticas, agora por apoiantes de Bolsonaro. Dois anos e dois dias e três acontecimentos que desafiam o “fim da história” de Francis Fukuyama, um pretenso não retorno de um caminho de afirmação e generalização das democracias liberais e de impossibilidade de grandes conflitos ideológicos ou transformações históricas.

“Afirmações extraordinárias necessitam de evidências extraordinárias”. Popularizada por Carl Sagan, esta expressão ajuda-nos a reflectir a improbabilidade de um pretenso fim da história, particularmente quando a ciência, a tecnologia e o que se passa ao nosso redor criam constantemente diferentes cenários e alterações à realidade vigente. Ciência esta proveniente de disciplinas que contribuem para a resolução de problemas de elevada complexidade, cada vez mais diluída entre diferentes áreas e com maior reconhecimento de uma parte da sociedade civil e de decisoras e decisores. Uma parte.

É assim com a psicologia com a particularidade de, simultaneamente, contribuir para a compreensão do porquê do “não fim da história” e do conhecimento científico ser apenas legitimado por parte das pessoas e dos decisores e decisoras. A este propósito, reflictamos sobre três exemplos de como os avanços da ciência psicológica questionam algumas “ideias feitas” e como, não raras vezes, esse questionamento não é aceite por todas e todos em simultâneo ou como a mudança pode ser complexa e/ou polarizadora.

“Uma palmada não faz mal a ninguém.” Uma das grandes mudanças societais das últimas décadas resulta da condenação ampla e quase generalizada das várias formas de violência sobre as crianças. Porém, persiste em algumas franjas da população, a perspectiva de que uma “palmada” não provoca qualquer dano, mantendo-se estas práticas enraizadas em diversos países conforme, por exemplo, a UNICEF vem estudando e sublinhando. Nada mais errado. Além da inutilidade e da ineficácia desta acção no sentido da promoção da mudança comportamental (ao não contribuir para a interiorização e inscrição das regras), existem perigos significativos que resultam da utilização da punição física ou de castigos corporais ao invés de acções de disciplina e parentalidade seguras ou positivas. Efeitos negativos que incluem o perigo do aumento, escalada e banalização da agressividade, violência e dos comportamentos anti-sociais, a não aprendizagem do comportamento esperado e a legitimação da violência de grupos sobre outros. Ainda, dificuldades de aprendizagem, auto-regulação e de desenvolvimento de competências cognitivas, sociais e emocionais (no presente e futuro), além de consequências no bem-estar, segurança (também afectiva) e saúde, incluindo saúde mental.

“As palavras não contam, apenas os actos” e “não há racismo estrutural (em Portugal)”. Passa este mês dez anos sobre a publicação, por um hoje deputado à Assembleia da República, do livro “O colonialismo nunca existiu!”. Alguém que assim o defende, junto com colegas de partido que negam também a existência de racismo estrutural em Portugal, desconsiderando factos concretos e estudos de opinião ou barómetros, incluindo os da União Europeia e legitimando, politicamente, esta negação e as suas consequências. As palavras contam. Contam muito. Contavam no final do século XIX, quando se descreveu a drapetomania, uma suposta doença mental responsável, imagine-se, pelo facto de algumas e alguns escravos procurarem fugir da sua condição, algo que, segundo Cartwright, apenas poderia suceder com pessoas em escravidão não saudáveis. Contavam no século XX onde me e nos pediam que pintássemos com “lápis cor de pele”. Contam hoje, na terceira década do século XXI, onde se procuram utilizar expressões como a “ideologia de género” para desconsiderar, denegrir ou ilegitimar condições, pretensões ou direitos de pessoas. Há hoje ampla investigação que demonstra que e como as palavras e expressões podem reforçar e perpetuar cognições ou crenças que influenciam as nossas tomadas de decisões, formação de opiniões e comportamentos. O racismo estrutural existe, em Portugal e no Mundo. Dificilmente esquecerei um estudo que demonstra como nos EUA ser “branco” parece proteger mais da violência policial do que ser um/a menor. Este como outros estudos, em diferentes áreas e países, tornam clara a sua existência, as suas consequências sociais e o seu impacto em dimensões de saúde e bem-estar. Tornam claro como funciona como factor de risco/vulnerabilidade e, potencialmente, de exclusão de pessoas e grupos.

“Os seres humanos são animais racionais”. Desde há quase 2400 anos e de Aristóteles que esta expressão é parte do nosso imaginário. No entanto, a ciência tem demonstrado as suas insuficiências, porquanto é hoje claro que a nossa racionalidade é tendencialmente guiada pelas nossas motivações e emoções e limitada pelos nossos pontos de vista, opiniões e vieses. Ainda que a racionalidade seja fundamental, até porque podemos sempre raciocinar sobre a própria irracionalidade, devemos ter presente que somos “animais racionais não a tempo inteiro”. Que temos falências, vieses. Que cometemos erros e que existem individualmente ou em grupo, momentos e movimentos onde a racionalidade é condicionada por pensamentos, emoções ou influências sociais ou de grupo que condicionam, senão determinam, as nossas tomadas de decisão e comportamentos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a história não tem fim. Mudanças sociais e económicas, hoje particularmente aceleradas e impulsionadas pelos avanços na ciência e na tecnologia, não permitem o fim da história, como não permitem “ideias feitas” como verdades absolutas e intemporais. Não permitem, também, considerarmos permanentemente adquiridas conquistas diversas como a democracia ou os Direitos Humanos ou que é impossível a repetição de acontecimentos ou eventos que julgaríamos jamais repetíveis. Como a história, a ciência também não tem fim e a ciência psicológica deve assumir-se como credível e com respostas, contribuindo para compreendermos o porquê de assim ser, como enquanto seres humanos nos comportamos e tomamos decisões e que é fundamental combater activamente a pseudociência, as fake news ou as teorias da conspiração. Contribuindo, simultaneamente, para transformações pessoais e sociais no sentido da maior possibilidade de saúde e bem-estar e autodeterminação de cada pessoa e para equidade e coesão na sociedade. Para mais e maior cumprimento dos Direitos Humanos e para a promoção e protecção da democracia.

 

Tiago Pereira

Nem fim da história, nem fim da ciência: O contributo da psicologia e três “ideias feitas”

in Sábado (Ao redor…); 11.01.2023

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Prevenção (e Promoção)

Recuemos a Novembro de 2018. Apesar do Brexit já ter sido votado, o Reino Unido ainda discutia os termos da sua saída da UE. Boris Johnson ainda não era primeiro-ministro, enquanto Trump presidia os EUA. Não imaginávamos, nos quatro anos que se lhe seguiriam, uma pandemia próxima, uma guerra na Europa e uma crise de inflação e sócio-económica.

Nessa data o Departamento de Saúde e Segurança Social do UK, estrutura de apoio ao governo, publicava o relatório “Prevention is better than cure – Our vision to help you live well for longer” [numa tradução possível: Prevenir é melhor que curar – A nossa visão para a/o ajudar a viver bem por mais tempo].

No sumário executivo do documento destaca-se a necessidade “de priorizar a prevenção e o combate a importantes determinantes da saúde e do bem-estar” [da pobreza à obesidade; da habitação à solidão] e o objectivo de, até 2035, se “viverem pelo menos mais cinco anos extra de uma vida saudável e independente” e de se “diminuir o fosso entre pessoas mais ricas e mais pobres”. Mais, define-se prevenção enquanto o apoio às pessoas no sentido de se manterem “saudáveis, felizes e independentes pelo maior tempo possível”, reduzindo “a possibilidade de emergência de problemas, primeiro, e, quando surgem, apoiar as pessoas na gestão efectiva dos mesmos”. Termina dizendo que a prevenção “é tão importante aos 70 quanto aos 7 anos”.

Por múltiplas e diversas razões (talvez a principal, o quão tarde a ciência psicológica e as e os psicólogos puderam dar o seu contributo ao nosso país), e apesar do caminho percorrido nos últimos anos, a psicologia é ainda, frequentemente, associada a dimensões de intervenção iminentemente remediativas. Ora, enquanto ciência que estuda o comportamento, a tomada de decisão e o que os determina, a psicologia é fundamental nos processos de prevenção e promoção ao longo da vida, nos múltiplos contextos de desenvolvimento e na compreensão e intervenção nos desafios societais e determinantes de saúde e bem-estar.

Isso mesmo é afirmado e sublinhado no regulamento n.º 15/2023, que “aprova o regulamento interno que define os atos dos psicólogos”. No seu artigo 6.º (“Atos dos psicólogos”) a alínea b) refere “As atividades técnico-científicas de intervenção psicológica, incluindo de promoção e prevenção, nos diversos contextos relativos a indivíduos, grupos, organizações e comunidades”.

Uma, mais uma, forma de inscrever este importantíssimo papel das psicólogas e dos psicólogos, a par de outros. Uma, mais uma, forma de informar, clarificar e reforçar o contributo específico da ciência psicológica e das e dos psicólogos para as pessoas e a sociedade.