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Nuno Portas, tolerância, liberdade, ternura

“Camila Sosa Villada, escritora, actriz, travesti”, escreveu Isabel Lucas em Abril deste ano para titular a sua entrevista para o Ipsilon (Público) a Camila Villada acentuado, a seguir, uma frase sua: “Cada dia era o último dia”.

Este “cada dia era o último dia” é uma descrição de Camila do que refere ser o facto das pessoas travestis estarem, a cada dia, perante um abismo. Escreve-o e descreve-o, com profundidade e intensidade, no seu primeiro livro – “As Malditas”.

História em parte autobiográfica, que acabo de ler num momento particularmente sensível do nosso país onde a intolerância, a reacção hostil ao diverso e a invisibilidade parecem cavalgar um território não imune ao ressentimento, onde a vergonha (de insultar, inventar, mentir, lubridiar e de assumir publicamente os instintos mais básicos) parece ter desaparecido e extremamente permeável aos discursos e narrativas simplistas e de facção (nós vs. outras/os) e à balada da (des)informação das redes sociais.

Que acabo de ler, também, no momento do desaparecimento de Nuno Portas, figura e pessoa maior de um tempo que, em parte, pude viver e de um tempo em que benefício significativamente do seu trabalho, pensamento e, por vezes abnegação. Seu e de seus companheiros de tempo, mesmo quando uns e outras/os, naturalmente, não concordavam em tudo.

Também no Público na homenagem de Paulo Portas (e da família) ao Pai leio: “o nosso Pai [Nuno Portas] viveu a vida que quis viver e não me lembro de o ouvir falar pelos outros, ou por nós. É um homem inteiramente livre e ensinou-nos a viver apenas como a nossa liberdade determinasse. Numa família tão plural, essa lição de tolerância e ternura está guardada nos nossos corações.”

De tolerância e de ternura, que se guarda, que se inscreve, nos corações dos que toca e dos que o rodeiam e nele se inspiram. Uma lição que contrasta com a frase final (pequeno mas inócuo spoiler, desculpem) do livro de Camilla Villada: “Nós, as esquecidas, já não temos nome. É como se nunca tivéssemos estado ali.”

Que não nos esqueçamos, nunca. Do e do que representa Nuno Portas. De todas as pessoas.

E que não esqueçamos que, por vezes, pequenas lutas (eventuais vitórias) no presente têm significativos e não previstos impactos no futuro. E que não esqueçamos que por vezes, pequenas lutas programáticas ou ideológicas (eventuais vitórias) no presente têm reais e não previstos impactos na vida de pessoas reais, concretas. As ou os sem nome são, afinal, muitos nomes, muitas vidas, muitas histórias, não raras vezes de muito empenho, sacrifício e sofrimento de pessoas. De pessoas como cada um/a de nós.

Parte, portanto, de nós.

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Vieira…

Uma vieira. Uma bonita taça, redonda. A sua preparação, a atenção, o foco, o cuidado, o carinho nela colocada:

“É para provar? | Sim, por favor.”

Um olhar para a taça, as texturas e aromas, o simples, mas belo, que acompanha a vieira. O provar e um acenar de aprovação.

“Está perfeita.”

Um esgar de alívio, mas ainda intranquilo.

“Está boa?”, pergunta quem a idealizou, projectou, cozinhou.

“Está mais do que perfeita. Inclui na ementa | Sim, chef. Obrigada.”

E aí sim, um sorriso.

Assim começa o terceiro episódio da quarta temporada da série The Bear. São 3 minutos incríveis ao som de Slow Disco, uma música de St Vincent cujo refrão nos interpela com a questão: “Am I thinking what everybody’s thinkin’?” [Estou a pensar o que todos pensam?]. E quem sabe, sim.

A jovem chefe Sydney da série, brilhante à sua forma, naquele contexto de pressão, de exigência, de uma solitude estranha (mesmo que “nunca se esteja sozinho num restaurante”), ouve do chefe Carmy (Bear) o feedback de uma (acção) perfeita logo traduzida e reinterpretada por si de outra forma. Mesmo aquando de uma perfeição, realmente perfeita, conforme podemos perceber e sentir ao longo do episódio.

Esta busca pela perfeição (mais que perfeita), que a série tão bem explora; esta tendência para a impossibilidade e, até, para a irreversibilidade da falha, do erro, da não perfeição que o contexto da série (as cozinhas e os restaurantes) tão bem explora; este “cada segundo conta”, mantra da série, tão contemporâneo, tão presente, tão violento por vezes, fazem-nos duvidar, proteger, estar permanentemente em “modo alerta/segurança” e, por isso, tendermos a confiar tão pouco em nós, desde logo, e nas outras e outros, particularmente quando por nós sentidas e sentidos como verdadeiramente outras e outros. Fazem-nos assim e fazem-nos quebrar enquanto comunidade, simultaneamente coesa e aberta. Mexem com a nossa possibilidade de bem-estar.

Também por isso, creio, valem tanto os minutos do episódio (ou da série, toda), como os que nos levem a ler, por exemplo, este texto sobre o Harvard Study (que tem o link para uma Ted Talk do seu, há época, director – https://news.harvard.edu/gazette/story/2017/04/over-nearly-80-years-harvard-study-has-been-showing-how-to-live-a-healthy-and-happy-life/). Um estudo que acompanha e segue pessoas desde 1938 – em diferentes fases e com diferentes grupos – e que nos ajuda, com evidência, a pensar sobre a saúde (e doença) e o bem (e mal)-estar. Um estudo que demonstra o quanto as relações e o quão nos sentirmos bem nas nossas relações e comunidade (até mais que a fama/reconhecimento e o dinheiro) determina o nosso bem-estar e a nossa saúde.

Relações, comunidade e propósito. O que queremos, @Fundação Mendes Gonçalves, contribuir para co-construir, estudar impacto e, quem sabe, inspirarmos outras e outros. Isso procuramos. Procuraremos.. Juntos, pelo futuro de todos.

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Diálogos Cruzados: A responsabilidade social da psicologia

Hoje partilho umas palavras convosco, profundamente sentidas, escritas para uma pessoa que, creio, não as lerá. Não é seu hábito partilhar este espaço virtual connosco e não é minha intenção com ela as partilhar, directamente. Antes aqui as escrever, deixar e, quem sabe, um dia se cruze com elas ou alguém as partilhe com ela…

Convidou-me para ontem voltar à Universidade onde estudei e cresci, antes de mais como pessoa e cidadão, mas, também, como profissional. À Universidade, também, onde, depois e em parte também com ela, pude trabalhar e contribuir para a investigação e, sobretudo, formação de (futuros) colegas. À Universidade, finalmente, onde, também com ela, iniciei um processo que a envolvia que, por vicissitudes (boas, maioritariamente), não terminei e que parte do lamento que sinto por isso ter acontecido advém do quanto ela desejava que assim não tivesse sido e o quão era para si importante.

Fi-lo para falar sobre algo sobre o qual falamos muito e muitas vezes nos últimos 20 anos: a responsabilidade social da psicologia nos diversos momentos do país e do Mundo que vivemos. Fi-lo, também, porque ela tem uma capacidade (escrevo-o propositadamente) profundamente profunda a si de acreditar e confiar, não naturalmente sem se por vezes desiludir e frustrar. Junta-lhe a capacidade de reconhecer, muitas vezes muito além do que lhe é reconhecido.

Foi, é, uma pessoa fundamental no meu percurso. Não certamente por ser a professora com mais publicações, daquelas que valem muitos pontos em avaliações e CV, mas, nos bons e menos bons momentos lá estava. Sempre, comigo, connosco, dando valor à palavra relação naquilo que tem de melhor, mas também no que tem de desafiante e nos faz crescer. Partilhava com entusiasmo os novos textos, livros, o que sabia, não guardando para si e fazendo-o com o entusiasmo com que eu, anos antes, partilhava música com amigas/os. Fora sempre assim…

Estimulou-me a pensar a psicologia além da psicologia. Estimulou-me a pensar-la a contribuir para políticas públicas. A contribuir para uma sociedade e um Mundo melhor, para cada pessoa. É, por isso, parte fundamental do caminho que me trouxe à Fundação Mendes Gonçalves e do meu contributo, junto com o de outras pessoas, para a afirmação da missão, valores e da nossa forma de fazer: https://fundacaomendesgoncalves.org/a-fundacao/

Espero que se reveja. Espero que se orgulhe.

Características suas e uma dimensão mais activista e ligada ao movimento feminista e à cultura brasileira lembram-me uma frase que há dias me foi recordada por uma outra pessoa amiga: “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso… Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”.

Uma frase da Clarice Lispector que devemos guardar, fundo, connosco, no que queremos e desejamos. Para nós e para as outras e outros.

Eu procuro fazê-lo. Como procuro não me esquecer de quem é muito importante e a quem estou muito grato.

Obrigado, Madalena Melo.

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Democracia Desafios da Psicologia Emergência Climática Fundação Mendes Gonçalves

Revista Associação Portuguesa de Horticultura

“Mudar da “sustentabilidade” para a regeneração”. Estávamos em 2007 quando Bill Reed publicou um artigo com este título, com a palavra sustentabilidade entre as aspas que aqui mantenho e com um gráfico que enquadra, na sua visão, uma “trajectória do desenho de respostas ambientalmente responsáveis”. No fundo, como caminharmos das, como nomeia, práticas convencionais, verdes e depois sustentáveis (neutras), para práticas restaurativas, reconciliatórias e, finalmente, regenerativas (positivas)… Porque sermos neutros, em diferentes áreas, é hoje insuficiente.

No desenho dos programas estruturais da Fundação Mendes Gonçalves procuramos ser consequentes com esta necessidade, hoje ainda mais premente, e com a importância que este caminho que pode desempenhar já no presente, para o futuro e numa perspectiva intergeracional. Pretenderemos, com o programa, “cuidar, através da regeneração dos solos e da biodiversidade, para que o planeta e as comunidades tenham um futuro melhor” e, a partir deste intuito e enquadrado na missão, valores e “forma de fazer” da Fundação, desenhamos as bases do programa cuja informação e nota conceptual podem ser aqui consultadas – https://lnkd.in/dbVwf-DU.

Parte importante deste nosso trabalho assenta, não apenas na produção de conhecimento, mas na sua transferência, quer para a informação a processos de formação, de práticas ou desenho de políticas, quer para mais sensibilidade e literacia da sociedade relativa a práticas neste âmbito e aos seus potenciais impactos.

Nesse sentido, foi com enorme satisfação que vimos a Associação Portuguesa Horticultura dedicar a sua revista (n.º 156; Abril de 2025) à “Saúde do Solo” e participamos numa peça da responsabilidade da Nélia Silva (obrigado!) com título: Fundação Mendes Gonçalves – Nutrir o futuro através da regeneração dos solos (https://lnkd.in/dTtHwYNe).

Na peça, além da experiência de práticas regenerativas de produção realizadas e promovidas pela Casa Mendes Gonçalves, com participações do João Ferreira e do Carlos Goncalves, procuro enquadrar o modelo da Fundação Mendes Gonçalves, reforçando os seus princípios relativos à procura da revitalização da filantropia de proximidade e o compromisso com a co-criação e envolvimento de diferentes parceiros, bem como a forma como o programa Regenerar se liga com os programas Educar e Nutrir na missão maior da Fundação.

Futuro este que, como o Carlos Goncalves sempre refere e a peça expressa, dependendo de mudanças no Mundo, só se concretizará verdadeiramente se “primeiro mudarmos o que está à nossa volta”. Tudo faremos para contribuir para tal. Oxalá o consigamos, juntos, pelo futuro de todos.

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Crítica-Elogio

Hoje começa uma semana muito importante para mim e para um conjunto de pessoas que, primeiro confiaram no meu contributo para reflexão e desenho de um plano estratégico, depois confiaram-me o meu actual papel e, finalmente, me acolheram. Será uma semana com um conjunto de iniciativas no âmbito do lançamento da @Fundação Mendes Gonçalves, iniciativas estas que começam hoje e culminam, quarta-feira, dia 23 de abril, com o evento público que o assinala. Até lá, duas sugestões:

  1. Se quiserem conhecer mais e acompanhar a actividade da @Fundação Mendes Gonçalves, sugiro seguirem o perfil aqui no LinkedIn que já nos próximos dias passará, com regularidade, a partilhar e informar sobre a acção da Fundação;

  1. Noutro prisma, partilho abaixo mais um episódio do “Descubra as Diferenças” do canal Canal S+ onde, com a Irina Gomes, desta vez converso e reflicto sobre crítica e elogio.

Depois de o haver feito em torno do binómio “revolta-apaziguamento” [1ª temporada | https://lnkd.in/dqWv82uw] e do binómio “indiferença-empatia” [2ª temporada | https://www.linkedin.com/posts/tiagoandpereira_sa%C3%BAde-activity-7304782430350024704-Sf13?utm_source=share&utm_medium=member_desktop&rcm=ACoAABUdsUoBSQRUD9nKHxubGYmf2eFYmTQWxqU], voltei para, desde logo, procurar sublinhar a relevância que a crítica, quando construtiva, assume no nosso processo de reflexão e melhoria, particularmente, na nossa forma de comunicar, decidir ou agir. Também para assinalar a importância de prepararmos e reflectirmos o momento, o contexto e a forma de realizarmos críticas, considerando o impacto que podem ter na/o outra/o e termos presente que, enquanto seres humanos, a nossa tendência – a tendência de quem recebe feedback – é, em geral, considerar mais os aspectos menos positivos da comunicação face aos mais positivos.

Falamos, também, da importância da segurança (psicológica), do reconhecimento e da legitimação/validação no quadro das relações e do feedback. Do elogio, do auto-elogio e da relevância de reconhecermos o que conquistamos/conseguimos. Ainda de liderança e da importância de quem lidera construir relações de confiança e presença e de adoptar estilos de comunicação não-ambivalentes, para que o seu feedback possa ser validante, acolhido e promotor de desenvolvimento em contexto profissional. Falamos, finalmente e não menos importante, de relações de proximidade (amorosas, filhas/os-pai/mãe, …) e de como a crítica/elogio é determinante na comunicação e na nossa relação connosco e com as outras e outros.

Espero que gostem… E venha de lá esta semana que, significativamente (para mim), termina a 25.4.

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Pensa que ser adolescente hoje é mais, menos ou igualmente difícil quando comparado com ser adolescente há 20 anos?

Pensa que ser adolescente hoje é mais, menos ou igualmente difícil quando comparado com ser adolescente há 20 anos? Foi esta a pergunta-base do estudo publicado no Verão passado do @Pew Research Center que partilho e cuja consulta e reflexão recomendo.

Além do grafismo particularmente interessante e do universo de 1453 mães, pais e adolescentes dos EUA ter referido que é hoje mais difícil (69% das mães/pais e 44% das/os adolescentes, face a 15% das mães e pais e 12% das/os adolescentes que consideram ser hoje mais simples), importa, creio, que paremos um pouco para reflectir sobre os principais motivos pelos quais as mães e pais suportam a sua percepção: a tecnologia, internet e, em particular as redes sociais, além da grande pressão para corresponderem às expectativas.

Curiosamente, apesar da percentagem ser significativamente mais baixa, as mães e os pais que consideram que é mais simples ser-se hoje adolescente face há 20 anos suportam essa percepção exactamente no acesso à tecnologia, em especial à internet, embora a percentagem que refere as redes sociais como fundamento para essa maior facilidade seja muito baixa (3% face a 47% que refere a tecnologia de forma geral).

Já as e os adolescentes consideram que o factor preponderante para a sua percepção de que é hoje mais difícil é a maior pressão e a dificuldade em cumprir expectativas, não deixando de salientar as redes sociais e as mudanças percepcionadas como negativas na sociedade e no Mundo. Noutro prisma, as e os adolescentes que dizem ser hoje mais simples que há 20 anos mencionam, também, a tecnologia e a internet como os maiores contribuidores par esta mudança positiva.

Em síntese, e numa síntese que sugiro que nos mobilize enquanto sociedade, temos as exigências, as expectativas e os recursos (ou ausência deles) para se atingirem e cumprirem as expectativas, por vezes “colocadas” ou parte da vida com cada vez mais intensidade e cada vez mais cedo – pensemos na quantidade de crianças e adolescentes que têm hoje explicações no 2º ou 3º ciclos, quando não no 1º ciclo e da procura/escolha de Escolas que atribuem melhores notas. E temos a tecnologia e a internet, incluindo as redes sociais, que sendo maioritariamente atribuídas à dificuldade podem ser, também, motor de maior facilidade.

Coragem e determinação a lidar e orientar/regular a utilização da tecnologia e das redes sociais e foco no bem-estar será determinante para não permanecermos indiferentes a esta percepção e, eventual, nova realidade. Se nada fizermos estaremos a falhar às e aos mais jovens e tudo o que se possa fazer mais tarde será sempre mais difícil e com mais custo do que o que podemos fazer já, hoje.

Pelo futuro de todos.

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0-3, regeneração

Um conjunto de regiões do país estão a ser sofrer/sofreram com o impacto da depressão Martinho que, desde ontem e até aos próximos dias, junta chuva e ventos impressionantes. Condições adversas que desafiam pessoas e (infra)estruturas. Condições adversas que (creio que para todos será perceptível), a serem quotidianas / permanentes, alterariam/transformariam a nossa forma de viver e os nossos próprios processos de interacção, aprendizagem e desenvolvimento.

Vem isto a propósito de nem sempre esta simples reflexão ser feita (ou pelo menos sermos consequentes com ela) relativamente a bebés e crianças que vivem, permanentemente, em situação de adversidade… De tempestade. E a propósito de, não raras vezes, não re reconhecer o impactos dessas situações e, ainda que existam, se “culpar” excessivamente a/o aluna/o por não atingir determinados resultados (desde logo de desempenho escolar) ou mesmo, em sentido mais amplo, tendermos maioritariamente a culpabilizar pessoas que vivem em situação de pobreza por viverem em situação de pobreza.

Ora, a este propósito, duas notas (também em jeito de convite) a partir de contributos que procurarei dar amanhã:

a) É crucial que, enquanto país e rapidamente, passemos a complementar o debate público sobre o acesso à educação (em particular nos 0-3 anos) com a qualidade que resulta desse acesso e internacionalizar-se, na sociedade civil e nos meandros da decisão (política), a importância de uma educação de qualidade no período 0-3 enquanto garante fundamental de uma base minimamente equitativa de oportunidades de desenvolvimento entre bebés e crianças em Portugal. No fundo, um contributo para mitigar (ou pelo menos prevenir que se aprofundem) desvantagens que, por vezes, existem desde literalmente o dia 0 de vida e cujo impacto de uma educação de qualidade pode ser decisivo. Sobre isso conversarei, na próxima 6ªF, a convite da Câmara Municipal de Mafra (que agradeço, informações abaixo) na sessão “A importância dos primeiros mil dias e a injustiça das injustiças” (e sabem qual é a injustiça das injustiças?);

b) É crucial tornar o verbo regenerar e os seus múltiplos significados mais saliente… Também amanhã, numa colaboração da Nova School of Business and Economics (Centro de Conhecimento “Leadership for Impact”) e a Casa Mendes Gonçalves, participarei na 1ª fase de uma iniciativa que convido a conhecerem e que pretende contribuir para a “aceleração” e desenvolvimento de projectos de impacto na área ambiental e, mais particularmente, da regeneração (https://lnkd.in/diyYnqCF), tema para uma conversa que terei com o Carlos Goncalves, também a propósito deste conceito no quadro dos programas, actividades e da visão e missão da Fundação Mendes Gonçalves.

Temas relevantes também ao momento que vivemos. Temas que não tocam apenas algumas e alguns, antes todos, hoje e para o futuro. Temas que devemos discutir, discutir e discutir, tornando-os salientes e quotidianos na agenda das/os decisoras/es.

Lá vos espero…

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Indiferença-Empatia

Voltei recentemente ao canal Canal S+ para, com a Irina Gomes, gravar um novo episódio do “Descubra as Diferenças”, agora para a sua 2ª temporada.

Há alguns meses havia gravado um outro, relativo ao binómio “revolta-apaziguamento”, que por aqui partilhei numa publicação que assim terminava: “Finalmente, um conselho para quando nos sentirmos revoltados? [havia-me sido pedido] Tentarmos definir exactamente o que nos está a fazer sentir o que estamos a sentir (não deixar que fique difuso) e perceber o que podemos fazer para o alterar, mesmo que decidamos nada fazer. Se assim fizermos, estaremos a garantir agência e controlo sobre a situação. Estaremos a criar perspectivas e diversificar o que pode ser a nossa actuação e como podemos lidar com a situação, ajudando-nos isso a lidar melhor com ela, a sentirmo-nos mais equilibradas/os e, potencialmente, melhor. Mais em paz.”

Hoje volto para partilhar este novo episódio em torno do binómio “indiferença-empatia” onde começo por desafiar a ideia de que é “mais fácil a indiferença”, sublinhando que o bem-estar individual depende do bem-estar colectivo e logo da possibilidade de bem-estar das/os outras/os, mesmo quando um conjunto de alterações na sociedade, na forma como gerimos e vivemos o nosso (acelerado) tempo e as nossas interações e comunicações (em bolhas, junto de pessoas que pensam como nós e mais individualizados), possam “empurrar” nesse sentido.

Falamos depois de empatia e de como desenvolvê-la. Do seu poder, relevância, da forma como nos prepara para lidarmos com o dia-a-dia e com novas situações e influencia a nossa abertura ao que nos rodeia e às outras e outros. Mas também de alguns dos seus limites, com exemplos concretos, e de como pode estar também ligada a dificuldades de alteração de comportamentos/rotinas, a excessivo envolvimento emocional ou mesmo a situações de (justificação de) abusos, condicionando-nos o bem-estar.

Falamos, depois, de compaixão e desse “passo em frente” face à empatia, porque envolve a agência sucessiva perante a situação, para não nos limitarmos à compreensão (empatia) e fazermos algo a partir dessa compreensão, seja face a nós, seja face a outras e outros.

Falamos de reconhecimento e validação de emoções e de como isso é fundamental nas relações e na criação de canais de comunicação (seguros), por exemplo com crianças/adolescentes. De como pararmos e guardarmos espaço para conversas importantes pode ser relevante na conexão emocional.

E finalmente de como podemo-nos aproximar, passo a passo, experiência a experiência, do que nos é mais diverso, mais afastado. Expandirmo-nos. Algo fundamental, não apenas para a nossa capacidade empática, mas que nos prepara melhor para o Mundo interconectado em que vivemos e para criarmos comunidade.

E como é importante hoje criarmos comunidade.

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Curtoprazismo e Individualismo

Este Sábado tive uma (boa) conversa com o Miguel Ricou e com um conjunto de pessoas, incluindo amigas/os, que dedicaram um final de tarde de fim de semana para estar connosco e connosco discutir. Falamos sobre democracia, confiança e futuro. Falamos sobre a psicologia em tudo isto e sobre potenciais contributos dos e das psicólogas, enquanto profissionais e enquanto cidadã(o)s, nestes fenómenos. Falamos porque democracias enfraquecidas correspondem a riscos, por vezes significativos, para os direitos humanos, para a equidade e para a possibilidade de bem-estar para todas as pessoas. No presente e para o futuro.

 

Falamos, além de consequências, de causas e do papel das políticas públicas e de cada pessoa na prevenção da preocupante (caracterização minha) tendência que hoje se pode observar. A este propósito, queria partilhar convosco algumas considerações e um interessante exemplo.

 

As considerações versam o papel da conjugação da vertigem para o “curtoprazismo” com um certo individualismo contemporâneo para este processo de enfraquecimento. Tendencialmente explicáveis por uma certa ideia de sucesso e mérito inscrita na sociedade (retorno e afirmação individual), por uma cultura assente no imediatismo (também à boleia das redes sociais e no crescimento voraz), na perda de laços e vínculos comunitários de base mais fundacional. Isto, além da crescente desconfiança e na dificuldade de se assumirem compromissos e planos de médio e longo prazo num contexto de incerteza e imprevisibilidade.

 

São políticas públicas que ousam inovar/experimentar, co-construidas, bem-sucedidas e centradas nas pessoas, no seu bem-estar e no bem-comum, que melhor podem contrabalançar estas forças. Um extraordinário exemplo foi-nos mostrado pelo Público e versa o projecto de Bjørvika, uma intervenção no espaço urbano de Oslo. Um trabalho dos estudantes Gabriel Miraldo e Maria Maia (as maiores felicidades) que convido a conhecerem. A certa altura… “Hoje, Sofie reconhece Bjørvika como um bairro que “funciona para as pessoas”, incluindo estruturas que garantem uma comunidade local activa.” E… “Muitas vezes nós pensamos que os políticos vêm sempre atrás, mas eu acho que aqui há mesmo esta vontade da parte política.”

 

Vontade que deve complementar a agência de cada pessoa. Na tertúlia de Sábado procurei estimular que reflictamos sobre o que estamos dispostos a abdicar… Decidir de forma diferente da que decidiríamos sem pensarmos no futuro. Decidir para não ganhar (tanto) hoje, contribuindo para uma melhor sociedade a médio/ longo prazo para todas as pessoas.

 

Façamos este exercício. Ajuda-nos, creio, a perceber, até pela dificuldade do mesmo, porque aqui chegamos. Ajuda-nos, pela consciência, a termos mais agência e a podermos fazer algo, mais. E, quem sabe, se essas eventuais mudanças e diferentes decisões, menos “curtoprazistas” e individuais não resultarão melhor(es), não apenas para o que nos rodeia e para todas e todos, mas, também e principalmente, para nós próprios.

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ESG

Creio provável que não tenham existido muitos momentos históricos em que fosse tão presente uma verdade inquestionável: que a ideia de futuro, ou de futuros possíveis, comporta sempre consigo uma carga imensa de imprevisibilidade.

 

Parte desta consciência (colectiva) assenta, naturalmente, na forma como estamos hoje mais conectados e a informação circula. Mas essa consciência provém, também, da profunda complexidade e incerteza que resulta da interacção de diversos factores – económicos, ambientais, geopolíticos, societais ou tecnológicos – e de como isso desafia a possibilidade de se “prever” com segurança o futuro.

 

Por isso falamos cada vez mais de antecipação (estratégica) e dela não procurar “prever”, antes explorar futuros possíveis e plausíveis, informados por trajectórias e mudanças emergentes.

 

Esta mudança é relevante quando se conjuga com tendências da sociedade. Vejamos a evolução anual do quadro da percepção dos riscos globais do World Economic Forum. O relatório de 2024, no top-10, identifica para os próximos 2 anos 2 riscos tecnológicos (a má-informação / desinformação é mesmo o n.º 1), 2 ambientais, 1 geopolítico e 2 económicos. Mas, talvez mais determinante seja pensar que o mesmo relatório, para os próximos 10 anos, não apresenta nos 10 primeiros quaisquer riscos económicos ou geopolíticos, tendo 5 ambientais (4 dos quais nos 4 primeiros lugares), 3 tecnológicos e 2 societais.

 

Isto sublinha a premência de se abordarem as dimensões de ESG (ambientais, sociais e de governança) das organizações e empresas. Sublinha que o devemos fazer de forma mais activa, intencional e particularmente tendo presente que será sempre limitado o espaço de florescimento e prosperidade de uma organização a médio/longo prazo quando o seu entorno (e a sociedade como um todo) não tenha, também, esse espaço de florescimento e prosperidade.

 

É desta visão e compromisso da Casa Mendes Gonçalves e do Carlos Goncalves que, também, surge a Fundação Mendes Gonçalves. É do seu espírito de contributo e estímulo que surge a parceria com a Câmara de Comércio e Indústria Luso-Brasileira e a Opera Education para a co-organização do Seminário Transformação ESG. Nele participarei, no seu 2º dia, com o Carlos Goncalves, a Giovana Bratti, o Charles Tokarski, o Cesar Blanco, o João Ferreira e o Mauro Peres intervindo sobre “Liderança e Impacto Social”.

 

Espero ter oportunidade de discutir a importância e o papel das organizações e lideranças no bem-estar (individual e colectivo), no reforçar das dimensões da equidade, diversidade e inclusão (neste momento em particular) e, ainda, o quão determinante pode ser para os futuros possíveis o contributo das organizações, também filantrópico, para transformações sistémicas a partir das comunidades de que são parte.

 

Venham daí.

 

Informações: https://ccilb.pt/eventos/transformacao-esg-a-revolucao-necessaria-para-o-futuro-empresarial-sustentavel-e-lucrativo/

 

Inscrições (gratuitas): https://marketing.egoi.page/5eAe6gpf/inscricao