Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Do amor ninguém foge…

Por estes dias o meu pensamento (e o meu coração) ligam-me ao Brasil. Talvez também por isso, vi o “Do amor ninguém foge”. Documentário cujo título é a “expressão maior” dos centros APAC, Estabelecimentos Prisionais (EP) geridos, grosso modo, por pessoas voluntárias, sem polícias ou guardas e onde as pessoas detidas são co-responsáveis pela gestão, incluindo a segurança, e pelas actividades e operação do próprio centro.

Cor num quadro negro que são os EP tradicionais no Brasil, como vários relatórios internacionais têm destacado e tragédias como a do EP de Manaus (2017) demonstram. São hoje mais de 50 os centros APAC no Brasil, inspirados de experiências noutros países, porque, mais que uma “utopia”, apresentam resultados. Levantando, naturalmente, questões relativas aos seus princípios, é fundamental atendermos a um projecto com décadas e com resultados na melhoria da percepção da satisfação das pessoas detidas com o seu processo de recuperação; na menor incidência de violência e inexistência de motins; na melhoria da reintegração (taxas de reincidência significativamente inferiores à dos EP tradicionais); e, até, no próprio custo directo para o sistema, considerando que o custo médio por pessoa num centro APAC é cerca de um terço do custo médio nos restantes EP.

Num momento em que a defesa dos Direitos Humanos e as Democracias persistem em declínio Mundo fora (veja-se o recente relatório do “V-Dem Institute”), é fundamental melhorarmos os serviços nos diferentes países, tornando-os mais eficientes, mais geradores de oportunidades, de equidade e promotores de bem-estar. É necessário mudar, estudando os problemas e o que os mantém, pensando, planeando e ousando fazer diferente. Falhar, talvez. Mas fazer diferente, para conseguirmos fazer melhor.

Vi o documentário (que recomendo) no dia em que terminei de ler o livro “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de outro”. Livro em torno da odisseia de Maria Lamas retratando e escrevendo as “Mulheres do meu país”, escrito por Susana Moreira Marques que, numa passagem, pensando num diálogo com a sua filha, reflecte sobre como “é fácil mostrar como era [a vida das Mulheres naquela década de 1940] mas é difícil explicar porquê”. Penso nos EP em 2023, não apenas, mas em Portugal, e em como é fácil mostrar como são, explicar porque são como são, mas, ao mesmo tempo, aceitar que ainda são como são.

“Tem gente presa no passado, tem gente presa no futuro… tem gente presa na cadeia e gente presa pelas ruas (…) Tem gente se sentindo presa por ser pobre e gente se sentindo presa por ter muita riqueza (…) O que prende a gente não parece ser o frio ou o calor, nem filho nem solidão, nem ter nascido na Bolívia ou no Japão, nem a idade, nem o ferro de uma grade. O que é que prende a gente? O que é que liberta a gente?”, diz uma personagem no final do documentário.

“O que é que prende a gente” de mudar? “O que é que liberta a gente” para ousar mudar, para fazer melhor?

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Congresso Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Espaço Jovem, Congresso

Neste último Sábado Gabriel Attal comemorou o seu 35º aniversário. Depois de ter tomado posse em Janeiro último, fê-lo enquanto primeiro-ministro de França, sexta maior economia mundial, num período particularmente incerto e exigente. Foi (é) o primeiro-ministro mais novo de sempre em França, depois de ter sido Ministro antes dos 30 anos. E foi nomeado por Macron, também ele, quando inicialmente eleito, o Presidente mais jovem de sempre em França e que tem sempre defendido a necessidade de incluir mais pessoas, mais jovens, nos processos políticos, pela identificação, participação e inovação que aportam ao debate, à co-construção e à decisão política.

Não posso estar mais de acordo e, creio que, além da justiça intergeracional que representa, que o tempo e os desafios que vivemos o exigem. Na política, certamente. Como noutras áreas da nossa vivência cidadã e profissional.

Na Ordem dos Psicólogos Portugueses temos procurado fazê-lo. Desde logo no conjunto de iniciativas que, desde há anos, mantemos junto de estudantes de psicologia, incluindo o mais recente projecto Estudante Embaixador OPP cuja candidatura para a 2ª geração se encontra aberta. Depois junto de diplomadas/os em psicologia e no acompanhamento dos anos profissionais júnior (estágios profissionais), incluindo o conselho consultivo. Ainda num conjunto de iniciativas conjuntas com associações representativas de estudantes e jovens profissionais e num grupo de trabalho com jovens psicólogas/os recentemente criado, numa tentativa de generalizar a identificação e participação da camada mais jovem da profissão no debate, co-construção e decisão da sua organização.

Voltamos a fazê-lo no próximo (6º) Congresso da OPP que decorre em simultâneo com o XIII Congresso da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP), em Setembro e no CCB. Nele teremos o “Espaço Jovem” onde, partindo-se do conceito 3MT®, desenvolvido na Universidade de Queensland convidamos estudantes, diplomadas/os, psicólogas/os júnior e membros efectivos nos seus primeiros 5 anos de actividade, fundamentais para o crescimento da profissão, a apresentarem trabalhos relativos à sua prática profissional e/ou de investigação. Além dos prémios monetários previstos para as/os vencedoras/es, pretende-se reforçar a sua participação activa, reconhecer, dar visibilidade, comunicar e disseminar os trabalhos, bem como promover redes de contacto entre profissionais.

Se cumpres os critérios, submete o teu trabalho para avaliação pela comissão científica, também ela com jovens profissionais, presidida pela Isabel Soares. Se não, participe no Congresso e, desfrute, entre outras iniciativas e espaços de (re)encontro, neste Espaço Jovem.

2ª Geração – Estudante Embaixador OPP: aqui:

https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/estudante-embaixador-opp

Submissões Espaço Jovem | Congresso OPP/FIAP:

https://abstracts.ordemdospsicologos.pt/pt/

Inscrições Congresso OPP/FIAP: https://congresso.ordemdospsicologos.pt/bilhetes-2024/

Categories
Comportamento Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Pobreza e problemas de saúde mental nas crianças e famílias: as duas faces da mesma moeda (Diário de Notícias; 22.02.2024)

Em 2022 assistimos a um aumento da taxa de risco de pobreza em Portugal. De acordo com o INE, 17% da população do nosso país viveu com rendimentos líquidos inferiores a 591 euros, mais 0,6 pontos percentuais que em 2021. Todavia, foram 20,7% as crianças que viveram em situação de pobreza, mais 2,2 pontos percentuais que em 2021.

A pobreza é um fator de risco bem conhecido para problemas de saúde mental uma vez que restringe o acesso a recursos económicos, sociais e pessoais necessários a uma vida saudável. Esta restrição, por sua vez, afeta o comportamento e diversos processos psicológicos e cognitivos. Assim, pessoas com menores rendimentos são expostas, com maior frequência, a fatores de risco e a hábitos de vida pouco saudáveis. A exposição a eventos adversos na infância é um mecanismo pelo qual a pobreza e a privação de recursos prejudicam a saúde mental. A situação de pobreza está muitas vezes associada a outras condições de vulnerabilidade. Ser criança em situação de vulnerabilidade social é, por vezes, também não ter família; viver em famílias desestruturadas, estar exposta, desde tenra idade, à violência doméstica, ao tráfico ilícito ou à dependência das drogas, ser olhada, viver na insegurança permanente, possuir uma baixa autoestima e não ter razões e estímulos para alimentar sonhos de um futuro esperançoso. A exposição a estas experiências adversas durante a infância está fortemente associada ao desenvolvimento de problemas de saúde mental ao longo da vida, tais como perturbações psiquiátricas e abuso de álcool.

Para além de constituir uma violação dos direitos humanos fundamentais a não erradicação da pobreza entre a população infantil significa uma dupla tragédia. Para a criança, que vê prejudicado o seu desenvolvimento físico, intelectual, mental e moral a que tem direito e, consequentemente, o seu futuro ficará comprometido; e para sociedade, que ao não preservar e desenvolver, o seu capital humano está a transferir custos sociais para as gerações vindouras.

Assim, uma estratégia eficaz de combate à pobreza tem que considerar, obrigatoriamente, a promoção da saúde mental, da mesma forma que a saúde mental da população depende de uma diminuição das situações de precariedade, pobreza e exclusão, particularmente nas crianças e jovens.

Consideramos que existem prioridades estratégicas em políticas públicas com vista à promoção da saúde e bem-estar de crianças e jovens e à diminuição das situações de pobreza e exclusão e sua “geracionalidade”. A primeira, ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé (9 meses de gestação e os 2 primeiros anos de vida extrauterina) e aos impactos negativos no seu desenvolvimento integral, resultantes da exposição a situações de stresse significativo; Também a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde, incluindo saúde mental, para responder, precocemente e de forma contingente, às primeiras necessidades de bebés, crianças e famílias. Outras estratégias seriam a generalização do acesso a contextos educativos de qualidade a bebés e crianças dos 0 aos 3 anos e investir em programas de formação e desenvolvimento profissional da classe docente, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades e com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade. Por fim, melhorar a qualidade do acolhimento residencial e reforçar os mecanismos de prevenção da violência doméstica e de reparação e mitigação de situações traumáticas.

O reconhecimento de que os problemas de saúde mental, nas crianças e famílias, são simultaneamente causa e consequência de situações de vulnerabilidade social, motivou a Universidade de Coimbra a associar-se a um consórcio europeu para implementar em Portugal o Projeto Europeu “Lets Talk About Children”. Este projeto, que se iniciou em 2023, permitirá capacitar os agentes de proximidade com crianças e jovens, como professores, educadores, outros profissionais da educação, da saúde e da área social, para que possam adquirir novas competências para trabalhar com as famílias, reconhecendo precocemente as suas necessidades psicossociais. É necessário, cada vez mais, que diversos agentes da sociedade civil se unam no compromisso de prevenção e redução à exposição de fenómenos de pobreza e exclusão das crianças e jovens.

 

Tiago Pereira, Paula Duarte e Joaquim Cerejeira

Pobreza e problemas de saúde mental nas crianças e famílias: as duas faces da mesma moeda

Diário de Notícias; 22.02.2024

https://www.dn.pt/312737185/pobreza-e-problemas-de-saude-mental-nas-criancas-e-familias-as-duas-faces-da-mesma-moeda/

 

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso (Ao redor…; 28.02.2024)

Dois dos elos que unem a maioria dos desafios societais mais significativos do nosso tempo são a desigualdade e a forma como da diversidade não resulta apenas curiosidade, espanto e interesse, mas, também, e de certa forma com crescente intensidade, medo, tensão e ódio. Isto mesmo quando cada um/a de nós tem certamente uma ou mais pessoas ao nosso redor que, por algum motivo, se destacam e diferenciam, muitas vezes a partir do desenvolvimento de um interesse específico. Recuemos dois séculos e a um exemplo.

Pouco sabemos do grupo de pares de infância de Hans Christian Anderson, escritor cuja obra, particularmente a relativa aos contos e fábulas que nos deixou, foi e é tão marcante e relevante para tantas crianças e jovens. Sabemos, no entanto, que nasceu no início do século XIX, num lugar hoje parte da Dinamarca e que o seu pai, sapateiro de profissão, morreu quando tinha apenas 11 anos. Sabemos, também, que apesar disso, nesses anos de vida conjunta, ele impactou a vida do seu filho, talvez decisivamente, ao fomentar a sua imaginação e criatividade, principalmente pela leitura de contos e histórias (entre as quais as “Mil e uma noites”) e pela dramatização, a partir de um teatro de marionetas que construiu para ele.

Podemos questionar-nos sobre o impacto transformador que esta experiência de Hans Christian Anderson teve no desenvolvimento dos seus interesses e na decisão de, aos 14 anos e quando trabalhava como aprendiz de tecelão, mudar-se para Copenhaga perseguindo do sonho de ser actor e integrando o Teatro Real e daí caminhado para a literatura e, particularmente, para as histórias infantis e juvenis. Podemos pensar sobre o impacto transformador de determinados estímulos e experiências na primeira infância e, hoje e para o futuro, sobre a importância de diminuir a arbitrariedade dos mesmos, garantindo acesso a todos os bebés e crianças a estímulos positivos e respostas diferenciadas na educação ou saúde e, depois, ao longo da vida, no acesso a suporte face a necessidades específicas ou na adaptação a circunstâncias e acontecimentos de vida.

Podemos pensar, diria, o papel desta história na reflexão que o levou a escrever, em 1837, o conto “A Nova Roupa do Rei” ou “O Rei vai Nu”, conforme é conhecido em alguns países, incluindo Portugal. Nele duas pessoas enganam o Rei vendendo uma roupa com a suposta extraordinária característica de ser invisível para pessoas, digamos, pouco inteligentes, passando o Rei, ao não assumir que não via a roupa que não existia, a “vesti-la” e as e os seus próximos a “apreciá-la” até uma criança gritar ao Rei que vai nu. Hans Christian Anderson sentia-o no percebia à sua volta. Cada um/a de nós sente-o, hoje, face a alguns programas e serviços públicos que, existindo, na prática não resultam numa resposta adequada, atempada e capacitada. Numa resposta eficiente e eficaz. Programas e serviços em que, muitas vezes, o acesso faz de “roupa do Rei”.

Quando, gerindo listas de espera, se agenda uma primeira consulta de psicologia mas, num processo que necessita de um acompanhamento próximo, a segunda sessão decorre apenas seis meses depois. Quando uma Mulher inicia um processo de interrupção voluntária da gravidez, mas encontra obstáculos a que ele possa decorrer no período previsto e/ou em serviços próximos e a si acessíveis. Quanto alguém sofre um acidente com consequências na sua mobilidade e inicia um processo de reabilitação numa instituição de saúde que finda sem acautelar a transição para a sua habitação, impreparada do ponto de vista da estrutura, e para a necessidade de enfrentar as rotinas de forma autónoma. Quando um bebé ou criança e uma família beneficiariam de um acompanhamento próximo pela equipa de intervenção precoce, mas esta não tem os recursos especializados necessários ao acompanhamento e capacitação da família para apoio ao desenvolvimento do bebé ou criança. Ou mesmo, quando se procura (e bem) garantir o acesso a creche para todos, mas, simultaneamente, não se qualifica e investe na capacitação dos ambientes educativos e na qualidade das práticas nestes contextos. Quando isto acontece, pensar-se, apenas, o acesso é uma armadilha onde cai o debate e sobressalto público, guardando-se pouco espaço para se discutir além do acesso, a qualidade, eficiência e eficácia do serviço ou programa a que se acede.

Convido cada um/a de vós a pensar quanto ouviram reflectido na campanha para as Legislativas de 2024 o além do acesso aos serviços públicos. O além da produção, da evolução do número de actos, de quem os pratica ou pode praticar ou dos números de acesso. Quem ouviu falar da qualidade, do resultado e do impacto dos mesmos e da sua avaliação? Sendo fundamental o acesso e a quantidade, quem ouviu falar da qualidade e organização do serviço ou programa a que se acede e da forma como este pode melhorar, ser mais e mais consistentemente avaliado e servir melhor a promoção da saúde, da educação, do bem-estar e da coesão social?

A qualificação das práticas faz-se a partir de mais experimentação e avaliação, de mais integração do conhecimento científico das áreas específicas e da forma como as pessoas se comportam e tomam decisões e com profissionais empoderados, capacitados e comprometidos. A qualificação das práticas é fundamental à confiança e à melhoria das políticas públicas, sofrendo com a “armadilha do acesso”, ao mesmo tempo que a não qualificação resulta, por si, em maior necessidade e pressão no acesso. Aliás, este ciclo é mesmo fundamental às duas constantes que resultam dessa “armadilha”: a maior arbitrariedade e dependência da “sorte ou azar” de onde se nasce, vive e onde e a qual serviço/profissional se consegue aceder, algo que reforça as desigualdades e, em muito, contribui para a geracionalidade das situações de pobreza; a maior vulnerabilidade de quem, por motivos biológicos, sociais ou ambos, nasce e vive com especificidades face aos “grandes grupos” e às “maiorias”, necessitando de empatia, apoio, suporte e respostas específicas e personalizadas para a sua situação e contingência específica.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, responder aos desafios que enfrentamos também depende de sermos capazes de, enquanto país, crescer e nos desenvolvermos, ao mesmo tempo que reduzimos disparidades e desigualdades. Harold Lasswell publicou um importante livro sobre ciência política cuja título nos confrontava: “Políticas: Quem recebe o quê, quando e como?” Acrescentemos ao recebe, acede. Quem acede a quê, quando e como? Porque não são apenas fundamentais a disponibilidade e o acesso. Também é fundamental a qualidade, organização e eficácia dos serviços e respostas a que se acede para responder aos anseios e expectativas das pessoas, para a garantia de maior equidade e para a redução das disparidades e desigualdades. Porque a qualidade é garantia de mais bem-estar para todas e todos, de mais coesão social e, através dela, para a redução da tensão social existente na sociedade contemporânea.

 

Tiago Pereira

A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso

in Sábado (Ao redor…); 28.02.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-qualidade-e-organizacao-dos-servicos-publicos-e-a-armadilha-do-acesso

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia Tomada de Decisão

2 minutos e a amalhada do curto prazo

Apenas uma em 8760 horas. Se pensarmos o tempo que dista da actualidade ao momento do primeiro ser vivo na Terra como um ano (12 meses, 365 dias, 8760 horas), a extinção dos Dinossauros aconteceu, precisamente, no dia de Natal (25.12), o primeiro Ser Humano surgiu às 23h do último dia do ano e da Agricultura às 23h58m desse dia. Dois minutos apenas, algo que nos deveria fazer reflectir sobre a quantidade imensa de passado atrás de nós e sobre, esperamos, a quantidade imensa de futuro à frente de nós.

Fazer-nos reflectir sobre o que somos e o momento que somos.

Sobre, no fundo, como importa resistirmos à tentação de assumirmos posições e tomarmos decisões que – respondendo a situações circunstanciais, aproveitando erros ou falhas de outras/os ou procurando-se benefícios individuais ou para o nosso grupo – condicionam decisivamente o futuro e não correspondem a benefícios no presente e futuro para o bem-comum, obstaculizando-o ou dificultando a vida de determinadas pessoas ou grupos.

Sobre como importa prevenir que o impulso de um Mundo e de uma sociedade (também digital) que tende, hoje, para o imediato e em que o sistema de estímulos, de recompensas e até de reconhecimento (social) nos impele a assumir posições e tomar decisões demasiado centradas num “aqui e agora” considerando, menos, os impactos no futuro, nas outras e nos outros e a justiça intergeracional.

Penso-o num momento em que vamos para eleições em Portugal muito em breve e um pouco por todo o Mundo, mais tarde este ano. Penso-o num momento em que, contraditoriamente, esta tensão cresce ao mesmo tempo que cresce, significativamente, a necessidade de pensarmos a longo prazo, considerando as transformações e desafios que nos esperam, da crise climática às alterações que advirão do desenvolvimento tecnológico, passando pelos riscos de saúde pública (futuras pandemias, …) ou geopolíticos (Guerras, ameaças à liberdade de democracia, …) que o Mundo vivencia.

É momento de, também, introduzirmos na reflexão e na acção uma noção mais ampla do tempo que vivemos e projectarmos um futuro mais distante, além do nosso tempo, influenciando o futuro, considerando o legado e a prosperidade individual e colectiva.

É este o tempo da política e das políticas responderem, também, a estas dimensões, prevenindo-se discursos e acções que atendam, exclusivamente, a ganhos de curto prazo, não considerando externalidades e impactos negativos a médio e longo prazo. É este o tempo de se considerar a promoção do bem-estar individual “aqui e agora”, é certo, mas a par das possibilidades de bem-estar colectivo e “ali e no futuro”. Se o conseguirmos, em Portugal e no Mundo, deixaremos um país e um Mundo melhor para quem nos seguirá e, contribuirmos para isso e o seu significado é, no final, fundamental ao nosso bem-estar hoje, individual e colectivo.

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

TSF, Liberdade, Democracia, Pobreza e Problemas de Saúde Mental na primeira infância

Ontem a TSF fez 36 anos. Também ontem a TSF, diria eu (assim senti), em forma de homenagem às e aos profissionais que a construíram e constroem (e cuja situação desafiante bem conhecemos), dedicou o seu Fórum à Democracia. Democracia que ao longo destes últimos 36 anos a TSF também tem ajudado a construir. O mote foi “Direitos e Liberdades em queda para 20% da população mundial” e o debate, em plena campanha eleitoral em Portugal, partiu de mais um relatório da Freedom House que assinala 2023 como o 18º ano consecutivo onde “a liberdade no Mundo diminuiu”.

Liberdade que, dependendo da Democracia, a influencia. Liberdade que, tantas vezes é reduzida, coartada, também por problemas de saúde mental que limitam a autodeterminação das pessoas, o seu florescimento e cumprimento. Liberdade que, tantas vezes é reduzida, coartada, também pelas desigualdades e situações de pobreza. Liberdade que, tantas vezes é reduzida, coartada, desde a primeira infância.

Com a Paula Duarte e o Joaquim Cerejeira escrevi sobre estas dimensões, como se interligam e influenciam mutuamente. O artigo (“Pobreza e problemas de saúde mental nas crianças e famílias: as duas faces da mesma moeda”), que partilho, resulta da nossa participação num debate do Projecto Europeu “Let’s Talk About Children” e procura ser um contributo para pensarmos estes fenómenos e advogarmos por políticas (públicas) mais responsivas às causas e consequências dos mesmos.

Nele sublinhamos que “uma estratégia eficaz de combate à pobreza tem que considerar, obrigatoriamente, a promoção da saúde mental, da mesma forma que a saúde mental da população depende de uma diminuição das situações de precariedade, pobreza e exclusão, particularmente nas crianças e jovens.” Defendemos, também, “políticas de promoção da natalidade e sociais, que apontem aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé e aos impactos negativos no seu desenvolvimento integral, resultantes da exposição a situações de stresse significativo; a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde, incluindo saúde mental; a generalização do acesso a contextos educativos de qualidade a bebés e crianças dos 0 aos 3 anos e o investimento em programas de formação e desenvolvimento profissional docente; a melhoria da qualidade do acolhimento residencial e reforço dos mecanismos de prevenção da violência doméstica e de reparação/mitigação de situações traumáticas”.

Terminamos referindo ser “necessário, cada vez mais, que diversos agentes da sociedade civil se unam no compromisso de prevenção e redução à exposição de fenómenos de pobreza e exclusão das crianças e jovens”. Porque também disso depende a qualidade da Democracia no presente e para o futuro e a Liberdade de todas as pessoas. Hoje, amanhã e depois.

Fórum TSF (29.02.2024) 

Freedom in the World

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso

“Pouco sabemos do grupo de pares de infância de Hans Christian Anderson (…) Sabemos, no entanto, que nasceu no início do séc. XIX, num lugar hoje parte da Dinamarca e que o seu pai, sapateiro de profissão, morreu quando tinha apenas 11 anos. Sabemos, também, que apesar disso, nesses anos de vida conjunta, ele impactou a vida do seu filho, talvez decisivamente, ao fomentar a sua imaginação e criatividade, principalmente pela leitura de contos e histórias (e.g. “Mil e uma noites”) e pela dramatização, a partir de um teatro de marionetas que construiu para ele.”

“Podemos pensar sobre o impacto transformador de determinados estímulos e experiências na primeira infância e, hoje e para o futuro, sobre a importância de diminuir a arbitrariedade dos mesmos, garantindo acesso a todos os bebés e crianças a estímulos positivos e respostas diferenciadas na educação ou saúde e, depois, ao longo da vida, no acesso a suporte face a necessidades específicas ou na adaptação a circunstâncias e acontecimentos de vida.”

“A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso”, 77º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte daqui para pensar sobre como “cada um/a de nós sente, hoje, face a alguns programas e serviços públicos que, existindo, na prática não resultam numa resposta adequada, atempada e capacitada. Numa resposta eficiente e eficaz. Programas e serviços em que, muitas vezes, o acesso faz de “roupa do Rei” do seu conto “O Rei vai nu”.

“Quando, gerindo listas de espera, se agenda uma 1ª consulta de psicologia mas, num processo que necessita de um acompanhamento próximo, a 2ª sessão decorre apenas seis meses depois ou quando uma Mulher inicia um processo de IVG, mas encontra obstáculos a que ele possa decorrer no período previsto e/ou em serviços próximos e a si acessíveis.” Deixo outros exemplos, da reabilitação à intervenção precoce na infância, destacando “quando se procura (e bem) garantir o acesso a creche para todos, mas, simultaneamente, não se qualifica e investe na capacitação dos ambientes educativos e na qualidade das práticas. Quando isto acontece, pensar-se, apenas, o acesso é uma armadilha onde cai o debate e sobressalto público, guardando-se pouco espaço para se discutir além do acesso, a qualidade, eficiência e eficácia do serviço ou programa a que se acede.”

No artigo discuto o facto em campanha se falar de acesso (produção, número de actos, …) mas não da qualidade, organização, eficácia do(s) mesmo(s). Discuto, ainda, como podemos qualificar as práticas com maior integração da ciência e com profissionais “empoderados, capacitados e comprometidos”. Termino sublinhando que esta evolução é chave “para responder aos anseios e expectativas das pessoas, para a garantia de maior equidade e para a redução das disparidades e desigualdades. Porque a qualidade é garantia de mais bem-estar para todas e todos, de mais coesão social e, através dela, para a redução da tensão social existente na sociedade contemporânea.”

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal (Ao redor…; 14.02.2024)

Não sendo significativas as referências na obra de Philip Roth a Portugal, há duas coincidências que envolvem o país e a sua vida e obra. Roth nasceu em Newark a 19 de Março de 1933, dia em que em Portugal se organizou o “Referendo Constitucional”, acto repleto de particularidades, onde, por exemplo, abstenções foram consideradas votos a favor, e que validou a constituição de 1933 e institucionalizou o Estado Novo. Noutro prisma, Roth publicou em 2004 “Conspiração contra a América”, livro que relata a história de uma hipotética vitória de Charles Lindberg nas presidenciais americanas de 1940 (eleições ganhas na realidade por Franklin Roosevelt derrotando Wendell Willkie). Lindberg foi um militar americano e a sua paixão pela aviação fez dele a primeira pessoa a realizar sozinha um voo transatlântico e ter um monumento em Valença. O monumento assinala a amaragem forçada que realizou no Rio Minho a 13 de Novembro de 1933, um dia após as primeiras eleições parlamentares na Alemanha com o Partido Nazi no poder e de um referendo que, também repletos de particularidades, deram a totalidade do parlamento ao “Partido Nazi e Convidados” e retiraram a Alemanha da Sociedade das Nações. Duas “eleições” e datas, cujos antecedentes sociais e políticos estimulam a proximidade, com as gravíssimas consequências que todos conhecemos para muitas pessoas em Portugal, na Alemanha, na Europa e no Mundo.

Mas, mais do que estas coincidências, queria reflectir sobre três temas superiormente tratados por Roth no “Conspiração contra a América” e profundamente actuais e decisivos em Portugal: a complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a.

É provável que Lindberg, já naturalmente antevendo, tenha tido a confirmação do resultado das eleições e referendo na Alemanha em Portugal, após a sua amaragem forçada. É possível que tenha recebido a informação com alguma simpatia considerando que, mais tarde, teria posições públicas de elogio à eficiência do regime Nazi, de responsabilização da comunidade judaica pela II Guerra Mundial e, como porta-voz do “American First Comittee”, defendido uma posição isolacionista dos EUA na II Guerra Mundial. É, com este contexto, que Roth constrói a narrativa da hipotética eleição de Lindberg como presidente dos EUA, repleta de momentos em que inúmeras personagens, incluindo famílias judaicas, desconsideram o impacto da sua ascensão, apoiando-o primeiro e não crendo, depois e quando passou a ser possível ganhar eleições (após ganhar as primárias Republicanas), que as instituições democráticas permitissem que se constituísse como ameaça aos valores vigentes e aos direitos e segurança da população judaica, implementando medidas de marginalização e discriminação desta comunidade, conforme a história descreve após a sua eleição.

O livro confronta-nos com como compactuarmos e sermos complacentes, particularmente em momentos de crise, divisão e polarização, negando, justificando ou desconsiderando propostas, sinais e comportamentos anti-democráticos, autoritaristas ou anti-direitos humanos, pode resultar em ameaças sérias ao bem-comum. Descreve, também, como ao contrário do que podemos por vezes pensar, as ameaças constroem-se muito antes dos dias das votações, num processo decremental, de enfraquecimento das instituições democráticas, da confiança e dos valores, que decorre capilarmente na sociedade. Rua-a-rua, em conversas e reuniões, normalmente primeiro privadas, depois em conversas e debate públicos com laivos de bizarrice e estranheza, para, em seguida, serem legitimados, normalizados e naturalizados, mesmo por quem os considerava imprórios porque, tendo entrado na ordem do dia social e política, são fundamentais às audiências, ao debate de determinados temas ou a determinadas estratégias políticas.

Roth, dizia, descreve bem como a democracia e os direitos vão enfraquecendo ao invés de desaparecerem de um dia para o outro. Como é, normalmente, um processo decremental (gradual, progressivo) e como isso decorre de cada comportamento, justificação, desconstrução e construção de crenças e preconceitos. De desconfiança. Descreve, como todas e todos temos nesse processo um papel, sendo-nos exigida uma posição activa de não aceitação, de não complacência e de acção para preservação e defesa do bem-comum, chave para o bem-estar individual e colectivo presente e futuro.

Sabemo-lo de exemplos do passado mais distante, como o de Portugal. Sabemo-lo por exemplos recentes, do Brasil ou da Polónia. Da Venezuela ou Hungria, passando pelos EUA. País melhor classificado no Índice de Desenvolvimento Humano (ONU) em 1990 e que desceu para 5º em 2000, 12º em 2010 e 21º em 2020 e 2021, último ano com dados. País fortemente impactado pelas transformações nas suas instituições e na sociedade civil, muito além do período de governação de Trump, bastando pensarmos a forma como a sua actual participação nas primárias republicanas, por si só, impacta o partido, o país e o Mundo, disseminando e pulverizando a desconfiança, alimentando teorias conspirativas e criando condições para maior polarização e legitimação de ideias e ideais contrários ao ideário democrático, de paz e de direitos humanos.

Por isso penso que lá como cá o momento que vivemos implica que nos tornemos activistas do ideário democrático, de paz e de direitos humanos. Que, como Robert Reich recentemente escreveu, “não sucumbamos à complacência e ao cinismo”, que confrontemos “as mentiras e falsidades com verdades e factos”, que não aceitemos “a intolerância e o ódio”, que sejamos “compassivos” com as pessoas que apoiam ideias contrárias a este ideário, mas “firmes na sua oposição”. Que não nos “distraiamos com histórias sensacionalistas” sobre as pessoas “providenciais” de cada país e, essencialmente, não esqueçamos que a “acção é mais que a manifestação”. Acção fundamental e quotidiana de cada um e uma, junto das pessoas ao nosso redor, da nossa família, amigos e colegas de trabalho ou grupo. Nas conversas privadas e públicas. Nos debates, quaisquer que sejam. Acção firme, combativa, construtiva e com propósito.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, pensemos por um momento como poderia ter sido a história dos EUA, da Europa e do Mundo se aquele Lindberg construído por Roth concorresse e ganhasse as presidenciais de 1940. Ou, como será a história de Portugal, da Europa e do Mundo se formos complacentes com o “decrementalismo” que resulta, também, na transformação de partidos que garanti(r)am um caminho de construção de valores, direitos humanos e paz um pouco por toda a Europa. Como será um futuro com assunção de responsabilidades governativas por cada vez mais decisoras e decisores que fazem da divisão e ódio, da desconfiança, da sobreposição do bem-individual face ao bem-comum e do autoritarismo e providencialismo, soluções (simples) para os desafios complexos que enfrentamos? Certamente de menor possibilidade de autodeterminação e bem-estar para muitas pessoas. Certamente menos baseado e a aspirar menos à equidade, à justiça social e ao desenvolvimento sustentável.

 

Tiago Pereira

A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal

in Sábado (Ao redor…); 14.02.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-complacencia-o-efeito-decremental-e-o-papel-de-cada-uma-ate-a-proxima-e-as-proximas-eleicoes-em-portugal

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Ainda a pobreza em Portugal…

Ontem assinalou-se o Dia Mundial da Justiça Social, data instituída pelas United Nations com o duplo objetivo de promover “o emprego decente, especialmente para as mulheres e jovens” e a “construção de sociedades mais justas e equitativas”.

Comemoramos a data a caminho das Legislativas de 2024 e num dia em que se publicaram dados do inquérito “Rendimento e condições de vida – Pobreza, trabalho e educação 2023” que, entre outros, indicam 1) que o risco de pobreza de pessoas em situação de desemprego foi em 2022 significativamente maior (46,7%) que o de pessoas empregadas (10%) e reformadas (15,4%) e 2) que o nível de escolaridade é um factor chave na redução da pobreza porquanto em 2022 foram 5,8% as pessoas em risco de pobreza com ensino superior face a 13,5% com o ensino secundário e 22,6% com o ensino básico.

Conversei sobre estes dados com a jornalista Sara Rodrigues Tainha em reportagem da SIC que partilho. Assinalei, desde logo, como a dimensão emprego foi tão relevante num ano de 2022 “particularmente difícil”, onde vivemos a “maior inflação dos últimos 30 anos”. Emprego aqui proporcionador de “segurança, previsibilidade e de algum controlo para a vida das pessoas, garantes fundamentais da saúde e bem-estar”.

Falamos também do projecto “.Final à Pobreza” da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), da relação das situações de pobreza com os problemas de saúde mental e da importância da educação na interrupção de ciclos geracionais de pobreza. Reforcei que “crescer num ambiente pautado pelo stresse associado a situações de pobreza e exclusão é, por si, um indicador negativo e preditivo de potenciais situações de pobreza no futuro”, pelo impacto decisivo no desenvolvimento, na educação e na saúde.

Disse, finalmente, que “estamos a viver um momento de campanha eleitoral” e que é muito importante que a pobreza e a sua erradicação “possa ser um tema… Um tema central da campanha”. Proponho que, a este propósito, se reflicta sobre as propostas da UNICEF Portugal, apresentadas pela Beatriz Imperatori, e sobre os contributos e propostas da OPP (ver ambas abaixo).

Proponho que reflictamos sobre o papel de cada um/a neste caminho e tenhamos sempre presente que um país com menos pessoas em situação de pobreza, menos desigual, mais justo e mais coeso é um país com maior potencial de desenvolvimento, de prosperidade e onde todas as pessoas, independentemente da sua condição, terão mais possibilidades de viver melhor.

 

Reportagem SIC

Rendimento e condições de vida – Pobreza, trabalho e educação 2023, INE

Legislativas 2024, UNICEF

Legislativas 2024, OPP 

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal

“Mas, mais do que estas coincidências, queria reflectir sobre três temas superiormente tratados por Roth no “Conspiração contra a América” e profundamente actuais e decisivos em Portugal: a complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a”. Assim começo, depois de assinar que Roth nasceu no dia do referendo constitucional que em Portugal “validou a constituição de 1933 e institucionalizou o Estado Novo” e que Charles Lindberg, figura chave do livro, tem um monumento em Valença que assinala uma amaragem forçada que fez no Rio Minho também em 1933.

“A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal”, 76º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre “como compactuarmos e sermos complacentes, particularmente em momentos de crise, divisão e polarização, negando, justificando ou desconsiderando propostas, sinais e comportamentos anti-democráticos, autoritaristas ou anti-direitos humanos, pode resultar em ameaças sérias ao bem-comum.”

Descreve “como ao contrário do que podemos por vezes pensar, as ameaças constroem-se muito antes dos dias das votações, num processo decremental, de enfraquecimento das instituições democráticas, da confiança e dos valores, que decorre capilarmente na sociedade. Rua-a-rua, em conversas e reuniões, normalmente primeiro privadas, depois em conversas e debate públicos com laivos de bizarrice e estranheza, para, em seguida, serem legitimados, normalizados e naturalizados, mesmo por quem os considerava impróprios porque, tendo entrado na ordem do dia social e política, são fundamentais às audiências, ao debate de determinados temas ou a determinadas estratégias políticas.”

Portanto, como “todas e todos temos nesse processo um papel, sendo-nos exigida uma posição activa de não aceitação, de não complacência e de acção para preservação e defesa do bem-comum, chave para o bem-estar individual e colectivo presente e futuro.”

Termino mencionando os impactos potenciais destas questões na aspiração do país e Mundo à “equidade, justiça social e desenvolvimento sustentável”, defendendo que “o momento que vivemos implica que nos tornemos activistas do ideário democrático, de paz e de direitos humanos. Que, como R. Reich recentemente escreveu, “não sucumbamos à complacência e ao cinismo”, que confrontemos “as mentiras e falsidades com verdades e factos”, que não aceitemos “a intolerância e o ódio”, que sejamos “compassivos” com as pessoas que apoiam ideias contrárias a este ideário, mas “firmes na sua oposição”. Que não nos “distraiamos com histórias sensacionalistas” sobre as pessoas “providenciais” de cada país e, essencialmente, não esqueçamos que a “acção é mais que a manifestação”.

Uma “acção fundamental e quotidiana de cada um/a, junto das pessoas ao nosso redor, da nossa família, amigos e colegas de trabalho ou grupo. Nas conversas privadas e públicas. Nos debates, quaisquer que sejam. Acção firme, combativa, construtiva e com propósito.”