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A vergonha e a “expressão saudável das emoções”

“Propor ao Mundo uma forma saudável de lidar com as emoções”. É assim que Fred Rogers, criador e apresentador do “Mister Rogers Neighborhood” (programa infantil da década de 1960 que inspira a série “Daniel Tigre”), descreve o intuito do seu trabalho e contributo.

A vergonha e a “expressão saudável das emoções”, 82º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura sublinhar como “grupos e ideais” usam de vazios e “não raras vezes tendo como móbil o ressentimento e o ódio, tendem para a legitimação de atitudes e comportamentos, particularmente junto de grupos minoritários ou em situação de maior vulnerabilidade, não-enquadrados em dimensões de valores socialmente maioritários. Para a legitimação e para a anulação, entre outras, de uma emoção cuja complexidade e valor para a vivência em sociedade e para a coesão social nem sempre são reconhecidos – a vergonha.”

Os “inenarráveis acontecimentos numa freguesia da cidade do Porto na madrugada da passada sexta-feira, resultam de uma “passagem ao acto”, normalmente em grupo, que tende, também, a decorrer:

a) da incapacidade de uma expressão das emoções de forma saudável e da mobilização das mesmas no sentido de formas assertivas de procura de resolução, construtiva, dos conflitos e dificuldades;

b) da “perda” de vergonha ou de formas de projecção não elaboradas da vergonha em comportamentos conflituantes e/ou violentos;

c) de uma consideração quase exclusiva do presente e do curto prazo, estimulando comportamentos cujas consequências mais a médio, longo prazo e no legado face às novas gerações podem ser profundamente negativas.

“É também por isso que o sentido de comunidade e propósito (…) têm um papel importantíssimo para uma vivência plena dos Direitos Humanos. Enquanto seres sociais, vemo-nos, também, a partir do olhar de quem nos rodeia e construímo-nos em relação, connosco, com os outros e com o que nos rodeia. Em momentos de maior incerteza, de mudança mais significativa, mais rápida e mais imprevisível existem tensões para a polarização e para o tribalismo que tornam ainda mais urgente o reforço desse sentido de comunidade e propósito. Até porque, como um dos mais reconhecidos psicólogos e humanistas também de apelido Rogers (Carl) afirmava, curiosa e paradoxalmente, “é quando nos aceitamos como somos que podemos mudar.” Aceitação. Mudança.”

“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental investirmos e educarmos para a expressão saudável das emoções enquanto base da convivência, do respeito e promoção da diversidade e da coesão social. Enquanto base, também, da aceitação e da possibilidade de mudança. Como Fred Rogers defendia esta é uma responsabilidade individual e colectiva. Minha, certamente. E de cada um/a de nós.”

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Inteligência Artificial e Saúde: Benefícios, Desafios e Limites

Na última Assembleia Geral das United Nations, António Guterres destacou Inteligência Artificial generativa como prioridade e, potencialmente, a mais importante “ferramenta para construir economias e sociedades inclusivas, verdes e sustentáveis”, fundamental na educação, acção climática, alimentação e saúde. Mas…

Foi exactamente aos benefícios da Inteligência Artificial (IA) na Saúde mas, também, aos limites e desafios da sua aplicação, que o Canal S+ dedicou um recente Corpo Clínico, moderado pelo Marco António. Gentilmente convidaram-me a acompanhar a Sofia Couto da Rocha e o Rui Nunes no debate, tendo procurado contribuir com reflexões sobre:

a) A dimensão “humana” no desenvolvimento das novas tecnologias e da IA e os desafios e iniquidades na adaptação das pessoas e da sociedade;

b) A forma como os “riscos” que decorrem dos desenvolvimentos nos devem comprometer com melhores processos de desenvolvimento, que considerem mais a ciência, incluindo a psicológica, e a participação do conjunto dos profissionais impactados, incluindo as psicólogas e psicólogos, no seu desenvolvimento, bem como o cuidado com a necessidade de alinhamento de valores entre as novas tecnologias e os Direitos Humanos;

c) O quão fundamental é a literacia científica e em saúde e a confiança para a equidade no acesso aos benefícios da integração da IA e das novas tecnologias na Saúde;

d) Como pode melhorar o treino e formação de profissionais de saúde (veja-se o VR Ethics desenvolvido pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e HEI-Lab Human Environment Interaction Lab), promover cuidados mais personalizados, a saúde pública, a prevenção e a resposta a crises, a partir da melhor utilização de dados de saúde pública e individual;

e) O surgimento de “novos problemas”, incluindo de saúde (mental), relacionados com as novas tecnologias e as “novas” dependências que, previsivelmente, no futuro, tenderão a aumentar e complexificarem-se, bem como as novas tipologias de problemas, alguns eventualmente ainda não possíveis de prever;

f) A importância decisiva na intervenção multinível na área da saúde mental e a investigação promissora para algumas intervenções e menos promissora para outras;

g) Finalmente, a necessidade de boa informação e transparência na forma e nos objectivos dos desenvolvimentos para que pessoas e sociedade mantenham dimensões mínimas de previsibilidade e controlo, essenciais a adaptações positivas.

“A tecnologia deve reduzir as desigualdades e não reproduzi-las ou colocar as pessoas umas contra as outras”, disse ainda Guterres. Julgo que a psicologia, enquanto ciência e profissão, deve reconhecer o seu importante contributo para tal e ser, com ele, congruente. Aqui o procurei e continuarei a procurar dar o meu – pequeno mas empenhado – contributo para tal.

Link para o programa:

Parte I

Parte 2

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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril (Ao redor…; 24.04.2024)

Por estes dias muito se falará e discutirá em torno do 25 de Abril, dos 50 anos que se comemoraram e de tudo quanto o país evoluiu e mudou. Debater-se-ão os mais diversos pontos de vista e eu, grato que sou ao 25 de Abril e a quem tanto lutou e deu para o tornar possível e para se cumprir, associo-me ao debate trazendo, eventualmente, um outro ângulo: a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito.

Cresci numa aldeia que, embora pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema. Cresci numa família que, embora também pequena, viveu e vive com intensidade questões políticas. Onde o 25 de Abril sempre foi tema e um dia muito relevante e feliz. Certamente, muito por isso, pelas histórias e pelas experiências ao meu redor, sempre me fascinou e sempre admirei as tantas pessoas que durante tantos anos e com desafios e dificuldades que não posso sequer imaginar, “deram” a sua vida a um ideal, a uma causa, a um propósito: o de contribuir para uma sociedade em que pudessem pensar e agir de forma livre e autodeterminada, uma sociedade onde pudéssemos, quem se lhes segue, pensar e agir de forma livre e autodeterminada.

Fascina-me e admiro essa abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais. É que, não, pessoas que se privavam de ver a sua família e amigos, de acompanhar o nascimento ou crescimento de filhas e filhos não o faziam porque gostavam menos da família, amigos ou das filhas ou filhos que pessoas que não o faziam. Não, estas pessoas não o faziam sem sofrimento, sem sacrífico, antes procuravam um bem maior também para a família, amigos, filhas e filhos, considerando que o seu contributo para tal decorria desse esforço, desse compromisso, dessa outra vida. Por vezes, de, literalmente, se dar a vida, como infelizmente tantas e tantos deram.

O dia 25 de Abril de 1974 deu significado a todo esse esforço de décadas. O dia 25 de Abril de 2024 continua a dar significado a todo esse esforço, celebrando-o e, também pelo momento histórico que vivemos, em Portugal, na Europa e no Mundo, constituindo-se como uma oportunidade, é certo, para celebrarmos esse propósito que uniu tantas e tantos que desejaram e fizeram Abril mas, também, como uma oportunidade para um novo contrato de propósito comum, com o continuar a cumprir os valores de Abril, os valores da equidade, bem-estar, da possibilidade de autodeterminação. Da liberdade.

Apesar de todos os problemas sociais, alguns muito complexos, temos hoje acesso, em Portugal, também pelo que Abril cumpriu, e em parte significativa do Mundo, a mais oportunidades, serviços e, no geral, a mais qualidade de vida face à grande maioria das pessoas que viveram, em Portugal e no Mundo, nos últimos milénios, séculos, décadas. No entanto, temos também níveis inquietantes de problemas na área da saúde mental, particularmente de ansiedade e depressão, e temos assistido nos últimos anos a retrocessos, em alguns casos significativos, nas Democracias, nos Direitos Humanos e, até, no que significa ser-se livre e na vivência plena da Liberdade.

É atribuída a Kierkegaard, filósofo dinamarquês que viveu no século XIX, uma frase que associa a ansiedade a algo próximo de uma tontura ou vertigem [“dizziness”] resultante da liberdade e do livre-arbítrio. Apesar de “figurada” a imagem, importa reflectir sobre dois fenómenos. Um primeiro é uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo advento e crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com algum crescimento do individualismo, da solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais expressos, por exemplo, na participação em grupos (incluindo religiosos ou políticos) não fundamentalistas ou populistas. E um segundo associado a um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas mais significativas e por mudanças no seu entorno que geram, particularmente em algumas pessoas, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.

É este o contexto e o risco que dele decorre, particularmente o relativo a este “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer eles sejam religiosos (como assistimos em muitas parte do Mundo e a partir das mais diversas religiões), quer sejam políticos (como assistimos em muitas parte do Mundo e em Portugal), quer eles resultem da combinação de ambos, numa procura de associação das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, que lhes devolva uma sensação de pertença a algo maior, de poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação esta utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, do ressentimento e da despersonalização “cola” de um conjunto de pessoas e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento acelerado por via de apropriações religiosas e políticas de uma ideia do Estado Novo tão acarinhada por António de Oliveira Salazar: “Deve o Estado ser tão forte que não precise de ser violento”. Sendo-o, no entanto, sempre e quando as pessoas “providenciais” e as escolhidas pelas “providenciais” assim o desejam e queiram, para garantir, contra quem pense ou aja de forma diferente, desse Estado do Estado.

Eu não me resigno à possibilidade deste caminho e ao que ele implica já no presente, mas pode implicar no futuro próximo e não tão próximo. É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, como Irene Vallejo bem assinala, “o que somos e seremos deve-se em grande parte a pessoas que viveram vidas escondidas e que descansam em túmulos que nenhum turista vai visitar”. Façamo-lo, assim, por essas pessoas. A partir do que significam, criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós, pelos que nenhum turista vai visitar e pelos que nos seguirão.

 

Tiago Pereira

Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

in Sábado (Ao redor…); 24.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/proposito-e-os-50-anos-do-25-de-abril

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Propósito e os 50 anos do 25 de Abril

“É por isso que vivo os 50 anos do 25 de Abril como uma oportunidade para a procura, pessoal e profissional, de lugares onde possa dar o meu contributo para um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril e com uma ideia de bem-comum que permita que o Estado seja constituído, verdadeiramente, por todas as pessoas e permita diversidade de comportamento e pensamento, livre e empoderado, num quadro de Direitos Humanos e Democracia. Inspirarmo-nos em como foi feito e em quem fez Abril para construir, hoje, um novo propósito que previna “vazios”, que previna “desenraizamentos” e que continue a cumprir os valores de Abril.”

“Propósito e os 50 anos do 25 de Abril”, 81º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa os 50 anos do 25 de Abril e “a sua relação com o propósito e a eventual ausência de propósito”.

Parte das minhas raízes e do meu fascínio e admiração pela dádiva e luta de tantas e tantos ao longo de tanto tempo para o tornar possível, “abnegação que fundamentalmente resultava de um propósito de vida e numa ideia de bem-comum, maior que o bem-individual ou, mesmo, que a soma do conjunto de bens-individuais.”

Discute, depois, o quanto evoluímos/mudamos mas situa estes 50 anos num tempo marcado por 2 fenómenos: a) uma espécie de “horror ao vazio” que também decorre do muito positivo crescimento das democracias liberais, da diminuição da repressão e do aumento da liberdade, ocorrer em simultâneo com o crescimento do individualismo, solidão, da competição baseada no que considero ser uma ideia enviesada dos méritos da apelidada meritocracia, de uma tensão para a procura da “felicidade”, da expansão da utilização da tecnologia e suas consequências e da perda de alguns referenciais / grupos; b) um processo de desenraizamento agudizado, de algumas pessoas, por alterações demográficas e por mudanças no seu entorno que geram, em virtude das suas características intra e interpessoais, sensações de desconforto.”

Refiro-me ao risco deste “vazio” ser ocupado por grupos ou ideias mais fundamentalistas e/ou populistas, quer sejam religiosas, políticas ou resultem da conjugação de ambas, numa procura conexão das pessoas a algo que as transcende e a um horizonte de transformação e poder na sociedade, devolvendo sensação de pertença a algo maior, poder, segurança, previsibilidade e algum controlo. Sensação utilizada, muito eficazmente, também por via das novas tecnologias, por quem usa discursos acientíficos, faz do ódio, ressentimento e da despersonalização “cola” e por quem procura que a desconfiança nas pessoas, instituições e na democracia permita espaço de crescimento.

A isso, não me resigno. Construamos “um novo contrato de propósito social e comunitário com um continuar do cumprir dos valores de Abril. “Criemos propósito e, a partir dele e do que dele resulta, mais bem-estar e equidade e, com eles, mais possibilidade de autodeterminação, de florescimento e de Liberdade. Criemos mais nós.”

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A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza

No seu discurso de tomada de posse como Primeiro-Ministro, Luís Montenegro citou Saramago. Não citou, no entanto, um excerto do “Viagem a Portugal” onde Saramago refere que “é preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.”

Não em viagem (pelo menos como aqui referida) voltei há dias aos “passos que foram dados”. A uma cidade onde vivi parte significativa da minha vida (Évora), à Universidade onde estudei e a uma iniciativa (Semana da Psicologia, organizada pelo NEPUÉ, em que participei nas condições possíveis – participante, organizador e “palestrante”). Esta última, pela segunda vez e, desta vez, para uma conversa sobre “A Psicologia e os seus contributos para um .Final à Pobreza”.

Fi-lo na quinta-feira, dois dias antes da apresentação do contingente de vagas para o Ensino Superior para o próximo concurso e de, mais uma vez, serem expostos e discutidos os dados que indicam que as/os estudantes de escalão A de acção social têm muito mais dificuldade (apenas metade da probabilidade) que estudantes sem acção social têm de aceder aos cursos com notas de entrada mais altas e essas e esses “sobreviventes”, conforme alguns estudos as/os apelidam, acabarem por reprovar mais e abandonar mais e mais precocemente o sistema.

Estes indicadores contribuem decisivamente para a cristalização das situações de maior desigualdade e pobreza. Problemas e desafios que, conforme aqui tenho discutido, impactam significativamente a dignidade, a saúde, o bem-estar e a possibilidade de autodeterminação das pessoas e limitam o desenvolvimento, prosperidade e coesão do país. Problemas e desafios fundamentais à psicologia, também pelo seu contributo, e à psicologia num Mundo transdisciplinar, mote desta Semana da Psicologia de 2024.

Neste sentido foi um gosto este regresso, pelo simpático (duplo) convite, pelo que de simbólico ele comporta e, espero, pela oportunidade que quem assistiu teve de reflectir estes temas nas diversas etapas de desenvolvimento profissional em que se encontram. Finalmente, como discutíamos no final, pelo que representa na e para a identidade da psicologia, considerando o combate à pobreza como elemento-chave do nosso contributo e um tema/objectivo que, ao percorrer diferentes papéis das e dos profissionais e diversas áreas de actividade, ser fonte, também, de reforço da identidade e de trabalho conjunto e colaborativo.

A propósito, a citação de Montenegro foi “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”. Sim, não percamos tempo. Erradicar a pobreza é possível, mas depende de ser desígnio de todas e todos e do importante contributo de um conjunto de ciências e de profissionais, incluindo a psicológica e as psicólogas e psicólogos.

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Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”? (Ao redor…; 26.03.2024)

Ou será apenas ao meu redor que tal parece acontecer? Ou melhor, serei apenas eu a senti-lo? Por assim pensar e reflectir, questionei algumas pessoas que, primeiro estranharam, mas, depois e porque mais atentas, sorriram quando acontecia e, de certa forma e à sua maneira, confirmaram. Estarão, então, mais pessoas a dizer a palavra “exacto” e essas mais pessoas mais vezes? Exacto. E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.

Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online) ou de acontecimentos (troika ou quarentena) mas, também, outras palavras e expressões não relacionadas com uma transformação ou acontecimento em específico. “Bué”, “fixe”, “tipo” e, agora, mais recentemente, “exacto”, para dar apenas alguns exemplos.

Não pretendo discutir propriamente porquê “exacto” e porquê neste momento. Antes, assinalá-lo e, ao assinalá-lo, procurar que pensemos a forma como se processa e o impacto que tem um fenómeno apelidado de contágio social. Fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais que incluem, entre outros, a imitação (directa) ou a conformidade e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção, seja ela um comportamento, uma expressão emocional ou mesmo uma palavra ou expressão. O contágio social por via das múltiplas interacções sociais é, nesse sentido, um processo fundamental na forma como nas línguas se criam e universalizam gírias ou modismos, como as diferentes línguas interagem umas com as outras e como se têm transformado e adaptado ao longo do tempo.

Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas. Senão vejamos, a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas, permitindo sucessivamente que essas pessoas cheguem a outras pessoas. Fá-lo ao mesmo tempo que potencia a possibilidade de encontro entre grupos e comunidades, explorando factores de liderança, reverência e relevância e aumentando, também por essa via, não apenas a velocidade, mas também a intensidade do fenómeno de contágio. Intensidade que, por sua vez, é influenciada pelas emoções associadas às acções, algo também potenciado pelas novas tecnologias e, particularmente, quando nos referimos a emoções normalmente classificadas como menos positivas como sejam o ódio, a raiva ou o ressentimento que se propagam a velocidades maiores no contexto das redes sociais. Finalmente, há também o papel importante da conformidade e da pressão (percebida) dos pares nos processos de contágio, algo que, necessariamente, é também aumentado pela presença online e pela forma como decorrem os processos de reconhecimento em ambiente digital.

Aqui chegados creio que restará claro que, conforme o atrás pode permitir compreender o porquê de uma maior utilização em Portugal da expressão “exacto”, apoia também a compreensão de como estes mecanismos são, cada vez com maior eficácia, utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, como podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo como podem, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, também e por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.

O contágio social é assim um veículo importante para processos de deslegitimação de comportamentos ou crenças outrora legitimados socialmente e vice-versa. Também porque uma maior e mais permanente presença de um determinado fenómeno no espaço social e, hoje, mediático tende para a sua normalização e naturalização e, por essa via, para uma progressiva alteração das normas sociais vigentes, proporcionando maior aceitação de comportamentos ou acções antes não aceites ou a rejeição de comportamentos ou acções antes aceites, mudanças que, por vezes, podem gerar desconforto, conflito ou até sobressalto social. Neste sentido, particularmente em questões mais ideológica ou socialmente fracturantes, o contágio social tem o paradoxo de tender para a generalização de uma crença ou comportamento no seio de um grupo ou comunidade mas, ao mesmo tempo, potencial de fragmentação, de polarização e de diminuição do espaço de compromisso e construção conjunta, porquanto esse grupo e comunidade tenderá a afastar-se progressivamente mais e mais significativamente de outros grupos e comunidades com crenças e comportamentos distintos. Por vezes opostos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o contágio social tem um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas, suportando importantes mudanças sociais com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. Tê-lo presente é ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.

 

 

Tiago Pereira

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

in Sábado (Ao redor…); 26.03.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tem-reparado-que-agora-mais-pessoas-dizem-mais-vezes-exacto

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Comportamento Democracia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Como hoje é dia 4 do mês 4 de 2024 partilho 4 parágrafos de reflexão com quem tiver 4 minutos de paciência. Versam sobre logotipo(s), logoterapia e (erradicação da) pobreza.

Nas últimas horas falamos do novo Governo muito em torno da mudança de logotipo por este promovida. Muito haverá a reflectir sobre a mudança, o timing e sobre o quão mobilizador, polarizador (conforme muito do que é mobilizador hoje) e emocional (idem) este tema é. Falamos menos de outro “logo” (por ex. utilizado por V. Frankl na descrição da logoterapia, modelo psicoterapêutico que parte da procura de um sentido de vida como motor de desenvolvimento e adaptação da pessoa), ou seja do sentido, propósito(s) e princípios orientadores do Governo na compreensão e interpretação da realidade actual e projecção do futuro.

Aqui permitam-me uma sugestão: discutamos a pobreza e reforcemos o desígnio de a erradicar. A pobreza que, talvez mais que qualquer outro fenómeno, fragiliza a coesão social e interfere com a saúde, bem-estar e possibilidade de autodeterminação das pessoas e com a prosperidade do país. A pobreza e a desigualdade a que está fortemente associada, cujo combate, como Gordon Brown refere no artigo que partilho, “pode ser uma razão de optimismo” [quando ele não abunda], de “parceria que junte organizações sociais, empresariais, comunitárias e o Governo (…) num projecto de unidade e esperança” [quando projectos de unidade e esperança não abundam] e “um sinal que todo o país necessita: o princípio do fim” [da pobreza]. Sinal que dependeria de mais do que duas breves menções à pobreza no discurso de tomada de posse quando comparadas, por ex., com 4 relativas à corrupção e outras 4 à burocracia. Sinal que poderia partir do reforço do compromisso com a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza e da priorização do combate à pobreza e à desigualdade como força motriz de construção conjunta na Assembleia da República.

Este não é um momento qualquer para o fazer. Daqui a 3 semanas cumprimos 5 décadas de Democracia (aconselho o “Viva a Democracia – 50 anos e o Futuro”) e podemos orgulhar-nos, creio, de sermos o país da Europa em que mais pessoas (72%) associam o “assegurar que não existe pobreza” a um “princípio fundamental da Democracia”. Reforçar a Democracia, combater populismos e pessoas providenciais, decorre de respondermos à pobreza e desigualdade que permanecem como uma das principais preocupações da população (também com a Democracia).

Que lhe sejamos responsivos e que nos mobilizemos. Que o façamos cuidando do que a Irene Flunser Pimentel tão sabiamente refere no 1º episódio do documentário: que “a grande desigualdade decorre na vida privada, não nas Leis”, acrescento eu, decorre na desigualdade e na(s) violência(s) explicitas e implícitas na vida de pessoas ao nosso redor, não raras vezes escondidas entre paredes, parte das quais legitimadas pela história, por narrativas ou mesmo por discursos proferidos ou intuídos.

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

Exacto. Exactamente. Exacto… Também sentem, ao vosso redor, que agora mais pessoas mais vezes dizem “exacto”? “E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.“

“Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?, 79º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão para reflectir sobre o papel e impacto do contágio social.

“Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online), de acontecimentos (troikaou quarentena) mas, também, palavras e expressões como “bué”, “fixe” ou “tipo”.

Não pretendo, portanto, discutir porquê “exacto” e porquê agora. Antes assinalá-lo e pensar o contágio social, “fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais (…) e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção.”

“Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas”. Por exemplo [outros são detalhados no artigo], “a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas.”

Os processos de contágio social são, por isso e cada vez com maior eficácia, “utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.”

“O contágio social tem, assim, um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. É ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.”

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Kahnemam. 90 anos.

“Tudo o que fiz foi colaborativo”, disse Daniel Kahneman numa entrevista-almoço ao Finantial Times em Maio de 2021 a propósito da apresentação do seu último livro – “Ruído | Como tomamos más decisões e como podemos evitá-lo”, título da tradução portuguesa.

O trabalho de Kahnemam, a forma como o comunicou e, mais importante, o colocou colaborativamente ao serviço da sociedade foi fundamental na afirmação do contributo mais amplo e com impacto da psicologia e na compreensão do comportamento humano e dos processos de tomada de decisão.

Foi, entre outros reconhecimentos, galardoado com o Prémio Nobel da Economia em 2002. Na conferência associada a este prémio – “Maps of Bounded Rationality” – desde logo pelas palavras que dedica a Amos Tversky, companheiro de estudos e de vida falecido 6 anos antes, deixa claro um conjunto de características que quem de perto o conhecia lhe reconhecia: a junção feliz de uma inteligência e capacidade de análise ímpar com uma imensa abertura a novos saberes, conhecimento e às outras pessoas.

“Uma mente aberta”, algo sempre consigo até final da sua vida e reflectido, por exemplo, na participação que teve nos últimos anos no debate sobre os impactos nas pessoas, na tomada de decisão e na sociedade da inteligência artificial e, mais especificamente, dos novos modelos de linguagem e de aprendizagem profunda. “Uma mente aberta” e uma inquietude que antes o levou, em diferentes momentos e países, a ser decisivo para o aprofundamento dos contributos da psicologia, e de forma mais ampla das ciências comportamentais, para as políticas públicas e para a promoção do bem-estar, tendo mesmo recebido o mais elevado reconhecimento civil nos EUA em 2013 de Barack Obama. De um Obama que considera um dos seus livros – “Pensar Depressa e Devagar,” título da tradução portuguesa – um dos 10 mais importantes livros que leu.

O fim de vida que falava chegou ontem. Tinha 90 anos.

É, como podem perceber e como quem me lê habitualmente saberá, uma pessoa muito relevante no meu processo de reflexão e desenvolvimento. Desafiou-me, muito. É um dos psicólogos e psicólogas cujos livros ofereço (também) a não psicólogas e psicólogos, incluindo a pessoas que muito gosto, como fiz não há muito com o seu último livro. É uma perda tremenda, mas deixa um legado que, espero, o orgulhe e orgulhe todas e todos quantos participaram em “tudo o que [fez colaborativamente]”.

Continuemo-lo. Cumprindo-o.

Obrigado, Kahneman.

 

Entrevista Finantial Times (Maio, 2021): https://www.ft.com/content/7cf78f4f-d40a-44f1-9946-e78eccb3da57

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Legislómetro 2024: O Pulsómetro e umas Legislativas para não esquecer (Ao redor…; 13.03.2024)

Pulsómetro, um “indicador de sentimento nas redes sociais”. A CNN Portugal lançou e projectou uma ferramenta experimental que, segundo informou, analisou, “durante a última campanha eleitoral e em tempo real, milhões de dados publicados nas redes sociais com recurso à inteligência artificial”. Disse, também, ser assim formulada “uma aproximação precisa da opinião pública relativamente aos debates eleitorais”. Fê-lo em conjunto com a “Augusta Labs”, organização que se diz “comprometida em aumentar a produtividade corporativa” e cujo seu mandato diz ser “economizar dinheiro para as empresas, diminuindo as perdas de tempo e salvando os seres humanos de tarefas aborrecidas que drenam a moral”.

Não me entendam mal, creio muito importante a integração da tecnologia no nosso dia-a-dia e o seu contributo para um conjunto significativo de desafios pessoais e societais.  Contributo tanto maior quanto se consiga integrar no seu desenvolvimento dimensões éticas, conhecimento científico da forma como os seres humanos se comportam, tomam decisões e interagem com a tecnologia e quando existir rastreabilidade do seu funcionamento e um alinhamento dos seus princípios e valores e da sua utilização e impacto com os direitos e a dignidade humana, no presente e para o futuro. Por assim o crer, e por considerar relevante o uso da inteligência artificial na comunicação e, até, no jornalismo, estranho a publicitação e a forma de disseminação por um órgão de comunicação social de resultados desta ferramenta, que, embora referida como experimental, se procura apresentar como tecnicamente fiável, sendo assegurado pelas entidades que “o modelo utilizado é desprovido de inclinações políticas, garantindo imparcialidade na interpretação dos dados”, ou seja, imparcialidade na “análise de sentimento [relativo] às várias interações identificadas”.

Fá-lo, porém, num contexto (diversas redes sociais) sem mediadoras/es. Fá-lo, porém, num contexto onde o valor da verdade e dos factos é relativo face ao da opinião e da desinformação. Fá-lo, porém, num contexto com algoritmos próprios que, baseados em modelos e princípios económicos e no impacto imediato (desconsiderando importantes externalidades de médio e longo prazo, nomeadamente as referentes ao discurso de ódio e polarização), resultam numa propagação mais rápida e com maior alcance de expressões e posições baseadas em emoções percepcionadas como menos positivas, como o medo, a raiva ou o ódio, face a outros tipo de manifestações como o apoio, a concordância ou a favorabilidade. Fá-lo, porém, sem qualquer intervenção humana após a reunião e classificação da informação pela ferramenta. Fá-lo, portanto, num contexto que tende para a incompatibilidade com um espaço e ferramenta “desprovida de inclinações políticas”, porquanto, como sabemos, com os resultados que conhecemos, há partidos em Portugal que usam determinadas redes sociais, a ausência de mediadoras/es, a desinformação e as emoções percepcionadas como negativas como veículo para a reunião e agregação de seguidoras/es, de apoiantes e de militantes. Fá-lo, finalmente, projectando e legitimando uma ferramenta não conforme as boas práticas científicas (com método e normas, como acontece com as sondagens) ou da Inteligência Artificial, porque não perceptível, porque pouco clara, transparente e rastreável, além de que, pelas suas características, ao contrário de uma “aproximação precisa da opinião pública”, parece favorecer o enfraquecimento do debate público e, com isso, dos princípios e valores da própria democracia.

O pulsómetro, dizem, mede, desta forma, sentimentos. Nada mais complexo. Nada ainda mais complexo quando a partir de um tweet, um post ou um comentário numa rede social. Um complexo tornado simples, não matizado. Um exemplo, qual sinal dos tempos que, curiosamente, pode possibilitar e promover discursos que reforçam forças e partidos populistas que sistematicamente afirmam poder, também, resolver desafios individuais e societais complexos com soluções simples, não matizadas e imediatas.

Tivéramos nós um legislómetro e observá-lo-iamos, com a devida intensidade, nas Legislativas de Domingo passado. Legislativas que, creio, recordaremos por muitos e bons anos e que, ao contrário do que muitas e muitos democratas e defensores de uma visão dos direitos humanos tendente à possibilidade de autodeterminação das pessoas entendem, não são para esquecer. São umas Legislativas para inscrever e para com elas sermos congruentes. Dos cuidados éticos, de transparência e de alinhamento ético na utilização da inteligência artificial para o futuro, ao reforço da mediação em tempos de superior impacto da desinformação, passando pela necessidade de estimularmos um debate público, também, construtivo, também com responsabilidade e a apontar ao médio e longo prazo, por oposição ao, unicamente, polarizador, casuístico e imediatista.

Umas Legislativas para inscrever, porquanto os seus resultados devem motivar-nos e activar-nos para prevenirmos o que, no Mundo e em Portugal, favorece a adesão a forças e partidos populistas cujo discurso invariavelmente se baseia num nós contra outras/os poderoso em tempos de incerteza, de imprevisibilidade e de potencial divisão. É fundamental, como antidoto, investirmos decisivamente em criar mais condições para mais saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar na população. Investirmos num combate sem tréguas, colectivo e como desígnio nacional à pobreza e às mais diversas formas de violência, exclusão e discriminação. Criarmos condições para uma sociedade menos desigual e com maior equidade e igualdade de oportunidades. Para uma sociedade menos individualista e mais colectiva onde a civilidade, a cordialidade e a construção e suporte conjunto sejam factores protectores decisivos nos acontecimentos de vida significativos de cada pessoa e nos desafios individuais e societais mais complexos. Uma sociedade de aceitação e reconhecimento, de pontes e de conexão.

Fazer, falhar melhor aqui, prevenindo que pessoas como cada um/a de nós sinta adesão e entenda propósito no discurso populista. Fazer, falhar melhor aqui e, em simultâneo, não ostracizar, antes compreender, empatizar e conversar com quem assim o sentiu ou sente, não criando fossos, antes apoiando e suportando processos de re-identificação e re-significação e espaço para que pessoas possam mudar e na mudança ser aceites.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, sabemos que antes dos momentos de grande transformação política e social vem, normalmente, a retórica do ódio e a sua normalização. Sabemos, também, que as e os “aquém” – que a Clara Cardoso tão bem tem descrito enquanto as pessoas que, seja em que dimensões for, “estão longe daquilo que eram as suas expectativas” – com os factores de risco certos e sem factores de protecção, são susceptíveis a forças e partidos que usam do ódio, do ressentimento e da raiva como motores da sua ascensão. É hora de sermos coerentes e consequentes com o que sabemos. Mais tarde poderá ser tarde demais.

 

Tiago Pereira,

Legislómetro 2024: O Pulsómetro e umas Legislativas para não esquecer

in Sábado (Ao redor…); 22.02.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislometro-2024-o-pulsometro-e-umas-legislativas-para-nao-esquecer