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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

Quase 50.000 jovens iniciam por estes dias o seu percurso no Ensino Superior. Tempo para perguntar se “estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais [neste] momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

“O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais”, 90º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) traz estas questões quando a crise climática, a par de outros desafios sociais complexos, “exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de cooperação entre cidadãos”.

O artigo discute porque a resposta às primeiras perguntas é “não, não o estamos a fazer suficientemente”. Fá-lo em 6 pontos que sustentam possíveis explicações e pistas para uma mudança no sentido do reforço deste caminho:

a) “A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa” e o seu contributo “para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade” e como devemos “reforçar o envolvimento e possibilidade de participação, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições”;

b) “O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico” e a importância de se desenharem “estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria”;

c) “O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes” e o quão urgente é “investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção”;

d) “A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas”;

e) “A não-valorização e não-intencionalização da colaboração” e o caminho a percorrer para a inclusão de acções de colaboração “enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho”;

f) “A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças” abandonando o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” e considerando as competências de liderança e a possibilidade do seu desenvolvimento.

Termino apelando a que na formação “das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos.”

Que nele participemos, juntos e por todos.

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A Alhambra e a atomização…

Não começando com o “Al” das palavras de origem árabe (como Algarve e a sua alfarroba), tenho pensado muito na Alhambra e na sua relação com o verbo atomizar.

Este Verão visitei a Alhambra (Granada), provavelmente o melhor preservado conjunto de monumentos representativos da história da cultura e arquitectura islâmica da Península Ibéria. Aconselho vivamente a visita a quem ainda não teve essa oportunidade, pela beleza e pela história que encerra, naturalmente, mas, também, pela coesão e identidade daquele aglomerado de edifícios, jardins, caminhos e espaços públicos e pela intencionalidade com que foi construído. Cada peça, cada canto e recanto, cada jardim, cada pormenor parece perspectiva de pensado, planeado e executado na perfeição e com atenção ao mais ínfimo detalhe, criando sentido, dando significado ao espaço e melhorando a sua eficiência. Isto, nas dimensões de promoção do bem-estar de quem lá habitava, na rentabilização dos recursos naturais e na segurança e força (poder) que passava a quem visitava a Alhambra ou pensava “conquistá-la”.

A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, de construção de comunidade. A Alhambra é um exemplo, naturalmente contextualizado ao seu tempo, do que pode ser construído em comunidade.

Recorda-nos a importância da colaboração, do trabalho em equipa, das relações e do foco na coerência do conjunto, do todo. Recorda-nos a importância de resistirmos aos processos de atomização e fragmentação em sociedade, hoje muito comuns em particular nos serviços públicos. Não raras vezes, quer por processos de redução de custos, ausência de recursos e/ou resposta mais imediata a necessidades, quer por processos de desconfiança e de falta de colaboração entre profissionais, quer por processos de hiperespecialização, temos, enquanto comunidade e sociedade, optado pela desagregação de conjuntos coerentes (partes que fazem um todo) de resposta/serviços, pulverizando acções, segmentando-as e dividindo as acções. Na saúde. Cada vez mais na Educação, perdemos comunidade e conjunto em função da dispersão e individualização de processos e acções.

Perdemos comunidade e perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhores respostas às pessoas. Perdemos a capacidade de na diversidade edificarmos mais e melhor e, com isso, espaço de construir comunidade.

Também por isso, importa que pensemos nos impactos para o futuro das respostas que hoje construímos para os desafios que se nos colocam no presente mais imediato. Na sua sustentabilidade e impacto a médio e a longo prazo. Eventualmente na forma como podem, essas respostas, criar desafios e como os consideramos.

A Alhambra é, para mim, não sem problemas e sem a necessária contextualização, uma expressão viva do poder da comunidade e de como comunidade gera comunidade e, em sentido contrário, atomização gera fragmentação.

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O MEC…

“Viver com preconceitos é como passear de tanque.”

Faço parte do conjunto de pessoas que com regularidade lê o Miguel Esteves Cardoso. Leio-o e, como ele, reflicto sobre o Mundo ao redor. Aprendi e aprendo muito com ele. Pensei e penso, senti e sinto muito com ele.

Ontem, sobre como os nossos preconceitos e vieses influenciam a nossa tomada de decisão e comportamento. Influenciam a nossa vida e, nesse sentido, porque todas e todos os temos, a nossa sociedade.

“Espreita-se a rua, vêem-se as pessoas e até podemos arriscar e mostrar a cabeça, para poder falar directamente com alguém, ou respirar o vento. Mas estamos dentro de um tanque. E não é assim que se mexem os animais deste planeta”.

Não, não é. E o MEC descreve, à sua maneira, porque não, não é, e porque isso nos retira oportunidades de experimentar, de sentir, de ser. Porque pode encerrar-nos, mas…

“Temos tantos preconceitos porque os preconceitos nos protegem…”

Diz, com propriedade. Efectivamente os vieses que suscitam que, com maior ou menor intensidade – também dependendo das nossas características e experiências, do nosso momento de vida e do tema/acontecimento a que se apliquem – automaticamente consideremos mais o presente e o imediato (face ao passado e mais distante), o negativo (face ao positivo), que confirmemos as nossas ideias prévias e preconceitos tiveram e têm um papel na nossa protecção enquanto indivíduos e espécie.

Um bom exemplo é o viés da intencionalidade que, muitas vezes, surge associado a explicações sobrenaturais para fenómenos naturais ou a teorias da conspiração. A crença de que se algo aconteceu, aconteceu porque algo ou alguém intencionalmente o provocou (desde logo, retirando espaço ao fundamental acaso das nossas vidas), foi muito importante numa perspectiva de evolução da espécie para a defesa e protecção face a ameaças externas. Historicamente, a “perda” associada a se pensar que podia existir um “elemento ameaçador” que fez com que caísse um fruto duma árvore atrás de nós sem que esse elemento existisse gerou, apesar de tudo, decisões e comportamentos com menor perda potencial relativamente a achar-se que o fruto tinha simplesmente caído por si e existir mesmo um “elemento ameaçador” na árvore atrás de nós, de onde caiu o fruto.

“Temos tantos preconceitos porque os preconceitos nos protegem. Mas também nos protegem do que é bom.”

Protegem do que é bom…

Hoje, embora alguns vieses não contribuam para o pensarmos e sentirmos assim, o Mundo, para a maioria das pessoas (infelizmente não para todas), é menos ameaçador.

Experimentemos, portanto, pensar diferente, fazer diferente. Permitamo-nos sentir diferente. Quem sabe gostaremos. Quem sabe compreenderemos melhor a/o outra/o. Quem sabe sentir-nos-emos mais e melhor…

Dia bom para vocês… Hoje é um bom dia para ser um dia bom.

Ps. Experimente ler o “Experimente que vai ver” [MEC | 05.09.24]

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Setembro. Darren Walker.

Eis-nos em Setembro. Tempo para se retomar um certo quotidiano. Tempo para um “segundo início de ano” e, necessariamente, de confronto e desafio… De balanço, também.

Assim o sinto. Por isso e como forma de regressar aqui e a quem me lê [Obrigado, bom reinício!] escreve-vos hoje sobre uma pessoa que muito admiro e que nestes dias li nas “8 Questions” (de balanço) da “Time”: Darren Walker.

Começo pelo fim. Figura maior na área da filantropia e justiça social, anunciou há semanas que em 2025 terminará um longo e profundamente impactante percurso como presidente da poderosa e influente Fundação Ford.

Destaco duas das 8 questões:

a) Sobre se a sua função influencia a sua vida pessoal. Como não, penso. Como não, por outras palavras, responde. “Não tenho dúvidas que nestes anos respirei sempre ar rarefeito. Nunca tive uma má refeição. As pessoas mudam o seu quotidiano para serem deferenciais comigo. Mas [com a saída] serei capaz de seguir em frente, com alegria. Terei menos amigas/os mas mais jantares com reais amigas/os.” Com alegria. Com relações estruturais e significativas.

Darren Walker sabe bem o valor do que é estrutural. Nestes anos de presidência da Fundação Ford fez algo que urge expandir: focar a Fundação na promoção de mudanças sistémicas e, nesse sentido, não situar a intervenção social e a promoção da justiça social apenas em acções reparativas, individualizadas e situadas no tempo, algo fundamental (necessário) a quem delas necessita, mas insuficiente para a transformação social. Conhecendo-se a sua história percebe-se porque é tão importante para si. Pensando o nosso redor percebe-se porque urge intensificarmos este caminho.

b) Diz noutro momento que “quando se entende que a filantropia deve estar comprometida com a democracia como a melhor forma de Governo estes tempos são desafiantes”. Também que “a esperança é o oxigénio da democracia mas que a iniquidade é inimiga da esperança. E pessoas sem esperança vão fazer coisas que não pensávamos possíveis em sociedade.” Isso preocupa-o.

Isso preocupa-me. Um tempo em que Starmer, 1º ministro eleito por milhões, é confrontado por Musk, “dono”/decisor do X que pouco ou nada faz para prevenir a desinformação, a agressão e instiga ódios a partir da sua condição, escrevendo, num momento tenso, que uma “guerra civil é inevitável”. Tempo em que a AfD ganha eleições em Estados Alemães. Tempo em que naturalizamos, mesmo fora dos EUA, que Trump pode ser novamente Presidente, mesmo após o que aconteceu no seu mandato e em resultado da eleição que perdeu.

Mas pode ser também tempo de envolvimento, de advocacia, de inspiração. Na promoção, por exemplo, do papel (potencial) da filantropia e das Fundações num caminho de maior justiça social e equidade. Na defesa da importância da coesão social, da participação e do significado no bem-estar de todas as pessoas.

Comecemos Setembro com esperança, alegria, coragem e compromisso. Inspiremo-nos em Darren Walker e em como vive o seu dia-a-dia e o Mundo.

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental) (Ao redor…; 15.08.2024)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos Estados Unidos da América aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada da newsletter “The Morning” do “New York Times” de 8 de Agosto. Gira em torno de um conjunto de dados, incluindo os de auto-reporte do questionário “Household Pulse”, sobre sintomas de ansiedade e depressão na população dos EUA. Dados que demonstram o aumento significativo de 11% pré-pandemia para 42,6% em Novembro de 2020, mas, essencialmente, que a descida pós-pandemia não aproximou os dados dos valores pré-pandemia, fixando-se actualmente nos 20,7%. A newsletter explora estes números para detalhar a forma como para eles em muito contribui a população mais jovem, sublinhando que “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vinha a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, que assim se manteve durante toda a pandemia e [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias] “não diminuiu rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

Infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática e ampla deste tipo de dados. Apesar disso, temos cada vez mais indicadores, incluindo empíricos, de que a realidade, particularmente no que se refere à população mais jovem, será próxima da aqui relata. Próxima, nos valores que se encontram. Próxima, nas potenciais causas cuja newsletter também discute: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”. Acrescento a perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade e de relação com as pessoas e o meio ao redor. Acrescento, ainda, uma tentativa de síntese para estes factores – a maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança, essenciais a esta etapa de vida. Mas deter-me-ei na turbulência política.

Creio que quem acompanha minimamente a política e reflecte sobre a sociedade americana e, simultaneamente, conhece ou experiencia a realidade portuguesa, sabe que a turbulência política mencionada tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal e, nesse sentido, impactos distintos em sociedades também elas bastante distintas. Sabemos, porém, que existem duas constantes: que o impacto dessa turbulência é mais severo junto dos grupos populacionais com maiores vulnerabilidades, sejam elas relacionadas com o estatuto sócio-económico, com expectativas sociais ou de papel ou com a pertença a um grupo ou comunidade minoritária; que o impacto é particularmente sentido na população mais jovem, considerando que as suas consequências habitualmente se reflectem nas e nos mais jovens de forma desproporcional e por períodos temporais mais significativos.

É por isso que, não acontecendo em Portugal o que aconteceu nos últimos anos nos EUA, importa que em Portugal não deixemos de o pensar e de sobre isso reflectir. Desde logo pensar o impacto de situações como a proibição de programas e actividades no âmbito das competências sócio-emocionais em Escolas, a proibição do ensino de vertentes da ciência relacionadas, por exemplos, com as teorias da evolução ou o recuo no direito à interrupção voluntária da gravidez nas Mulheres em diversos Estados dos EUA, que resultou num reporte mais significativo de sintomas de ansiedade e depressão nas jovens desses Estados face a jovens meninas e raparigas de outros Estados e face aos jovens meninos e rapazes do mesmo Estado. Mas, também, porque tem surgido e ganho espaço mediático, um pouco por toda a Europa, e também em Portugal, um discurso que se pode definir contra direitos humanos para todas as pessoas e abertamente contra o movimento relacionado com os objectivos do desenvolvimento sustentável que, necessariamente, vulnerabiliza as pessoas e comunidades mais expostas à desigualdade e à discriminação e que tende a validar determinadas atitudes e comportamentos que até há bem pouco não eram publicamente validados. Todas e todos sabem do que falo, todas e todos o vimos e sentimos. Finalmente, porque também em Portugal já se discutem propostas de tomadas de decisão que merecem ser refectidas, a este nível e bastante ponderadas.

Pensemos, pois, na atribuição de culpas colectivas e na generalização de características e comportamentos a determinadas comunidades ou em apoteóticas propostas de confinamento de comunidades em Portugal, aquando da pandemia. Pensemos, ainda, em propostas anti-científicas de penalizar bebés e crianças, por exemplo no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai, em processos, não raras vezes, de dupla culpabilização de bebés, crianças e jovens cuja condição deveria ser protegida, sempre e em qualquer circunstância, pela comunidade e pelo Estado.

É por tudo isto que, tal como não aceitaríamos, enquanto sociedade, que a segurança de um bebé e de uma criança quando viajam de automóvel fosse discutida apenas considerando a qualidade da resposta das equipas de emergência após um acidente e não também pela necessidade de sistema de retenção que possam prevenir problemas mais complexos em caso de acidente, não podemos não debater o processo em curso e os seus impactos. Não podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção. Algo só possível, também, com maior informação da ciência, incluindo ciência psicológica, a este desenho para uma mais decisiva e eficaz resposta aos anseios e expectativas das pessoas e aos desafios da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada segundo conta. Verdadeiramente. Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental reconheceremos, validarmos e respeitarmos as necessidades das outras e dos outros. A ciência, incluindo a ciência psicológica pode ajudar a lembrá-lo, a cada dia. Pode ajudar a fazer deste valor e do valor maior da equidade e dos Direitos Humanos para todas e todos, valores centrais na política pública, na vida das pessoas, na nossa sociedade. Hoje e amanhã.

 

 

Tiago Pereira

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

in Sábado (Ao redor…); 15.08.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-politica-e-os-determinantes-sociais-da-saude-mental

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.

Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.

Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.

Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.

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Decidir hoje, decidir amanhã (Ao redor…; 31.07.2024)

Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Tomamos decisões de forma mais intuitiva ou deliberativa que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida. Podem alterar a nossa vida porque são fundamentais nas nossas relações, realizações, qualidade de vida, saúde e bem-estar. A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

Hoje, mercê algumas décadas de enorme crescimento quantitativo e qualitativo da investigação nestas áreas, temos uma maior consolidação conceptual e uma definição da tomada de decisão relativamente estável e clara que, a partir da psicologia, remete, no geral, para o processo cognitivo de escolha entre duas ou mais alternativas. Apesar da definição ser estável e clara, ao remeter para um “processo cognitivo”, aponta para um fenómeno não baseado apenas em dimensões racionais e observáveis, mas incluindo também dimensões emocionais e intuitivas. A definição contém e acrescenta, portanto, a subjectividade, a história e experiência e a necessidade de contextualização à compreensão e à análise dos processos de tomada de decisão.

Neste sentido, a nossa capacidade de decidir decorre e é influenciada por características, capacidades e competências “internas” de cada pessoa. Mas decorre, também, das expectativas, necessidades e circunstâncias da pessoa, no momento específico da decisão, e de um sem número de outros elementos externos. A conjugação de todas estas dimensões traz complexidade e diversidade a este processo e determina a facilidade, a forma como tomamos decisões e a qualidade da nossa tomada de decisão.

As significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão. Transformações estas com tendência incremental, quando não exponencial, e que, por isso, devemos considerar puderem assumir-se como potencialmente disruptivas para estes processos nos próximas anos e décadas. Estas mudanças, muito alavancadas nos processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades. Pensemos, por exemplo, na forma como a cada vez maior delegação de tarefas de apoio à decisão ou mesmo decisões à inteligência artificial – da rota para o trabalho ou escolha de um alojamento hoje para algo amanhã que talvez nem consigamos ainda imaginar – transformará a sociedade, as relações, a comunicação ou a educação. E, se estas alterações nos podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes, pensemos o quão relevante será um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir, exactamente, das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.

Acresce que as decisões dependem, também e necessariamente, das condições e das competências cognitivas e emocionais das pessoas envolvidas, nomeadamente ao nível da autorregulação e da empatia, fundamentais no processo de tomada de decisão e sucessiva passagem a comportamento(s). Sabemos hoje, com maior acuidade, como determinadas emoções (o medo ou a compaixão, para dar apenas dois exemplos) influenciam os comportamentos, o que, por sua vez, justifica cuidados e deveres éticos adicionais na utilização destas emoções com vista ao estímulo a determinados comportamentos individuais e de grupos. Consideremos, também, a forma como obectivos últimos podem ser prosseguidos, também mercê o sofrimento e mal-estar que podem provocar, bem como a eventual naturalização ou banalização de determinados comportamentos. É, portanto, fundamental atender às condições em que se apela a determinadas emoções, da comunicação social à comunicação política, passando naturalmente pela comunicação comercial ou de marketing de determinados produtos ou grupos e pela forma como questões éticas e de valores são para isso relevantes.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, creio que todos concordaremos que nunca, como hoje, tivemos acesso a tanta informação, conhecimento e evidência científica. Sabemos, porém, que tal como o ser humano se sente limitado quando se reconhece sem opções ou submetido apenas a uma via de acção, também sente outro tipo de limitações ou constrangimentos quando dispõe de mais ampla liberdade e múltiplas opções. Referimo-nos a limitações de ordem racional, de ordem emocional, limitações relacionadas com dimensões internas a cada um, outras com dimensões externas, limitações de foro mais individual e de foro mais social ou de grupo. Sabemos, ainda, quão relevante é o processo de tomada de decisão e como é complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos. Se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também este processo, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.

Ps. Texto adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (Edições 70), com coordenação de Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou, publicado em Junho de 2024.

 

Tiago Pereira

Decidir hoje, decidir amanhã

in Sábado (Ao redor…); 31.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/decidir-hoje-decidir-amanha

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal (Ao redor…; 17.07.2024)

“A mensagem principal é dizer aos jovens que vale a pena viver em Portugal (…) Precisamos dos jovens portugueses em Portugal, para termos todos mais futuro”. Estávamos em Maio e foi com estas palavras que Luís Montenegro apresentou e enquadrou as decisões de um Conselho de Ministros voltado para a população mais jovem. Um conjunto de medidas em áreas diversas como a habitação, a fiscalidade, a saúde (com destaque para a saúde mental) ou o alojamento e bolsas de estudo para estudantes. Tudo propostas que, concordando-se mais ou menos, particularmente no detalhe, focam áreas-chave do desafio que se coloca ao nosso (mas não apenas ao nosso) país. Tudo propostas que, creio, serão potencialmente mais eficazes e eficientes se acompanhadas por uma mudança nas organizações, públicas e privadas, no sentido de um maior envolvimento e vinculação da população mais jovem, mudança este que poderia ser impulsionada a partir de estímulos concretos ao reforço dos princípios de equidade, diversidade e inclusão nas organizações.

Se olharmos ao nosso redor podemos ver e perceber. Temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar. Mercê alterações societais, algumas muito influenciadas pelas novas tecnologias, temos também hoje um desfasamento significativo entre gerações e, por vezes, maior dificuldade nos diálogos e na compreensão intergeracional. Temos, por outro lado, uma inversão relevante da pirâmide etária e, por isso, cada vez mais pessoas com maior capacidade e, algumas, com vontade e intenção de trabalhar mais anos e de manter posições de decisão e responsabilidade nas organizações.

Dizia que a população mais jovem prioriza o propósito na vida e no trabalho e o bem-estar. Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer, por isso, fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações. Quer, mas, invariavelmente, não consegue. Não acede, não participa de forma abrangente e generalizada.

Neste contexto e com este enquadramento, penso fundamental que as organizações tenham presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais na sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar, também, no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, de culturas, de géneros, de gostos, de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos. Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.

Várias organizações têm nos últimos anos assumido este ou referenciais próximos, cuja evidência científica tem demonstrado serem relevantes quer relativamente aos processos internos, quer na melhor resposta das organizações às necessidades das pessoas que servem e da sociedade em que operam. Das melhorias no clima organizacional, na flexibilidade, na inovação e criatividade, ao aumento da segurança psicológica e redução de conflitos, passando, necessariamente, pela maior responsividade às necessidades de clientes e maior capacidade de adaptação a mudanças de contexto e na sociedade, são inúmeros, amplos e significativos os impactos potenciais do reforço destes referenciais e vão muito além do importante papel de responsabilidade social para que concorrem.

“Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava o referencial Equidade-Diversidade-Inclusão como um dos pilares fundamentais em todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, mais equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os desafios do envolvimento da população mais jovem nas organizações implicarão mudanças, progressivas e participadas, nas próprias organizações. É por isso relevante que programas que visem a vinculação das e dos mais jovens jovem ao país visem medidas junto da população mais jovem, mas, complementarmente, estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações. Um caminho que deve ser desejado e acarinhado pela própria sociedade civil e que pode, positivamente, apoiar a inovação, a transformação, o desenvolvimento e a sustentabilidade das organizações e da sociedade.

 

 

Tiago Pereira

Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

in Sábado (Ao redor…); 17.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-para-envolver-e-vincular—as-organizacoes-e-os-jovens-em-portugal

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13 de Julho…

Conforme este nosso planeta não pára de rodar em torno do seu próprio eixo e de girar à volta do Sol, o que se passa nele não pára de nos surpreender. De nos desafiar.

À dias lia como estudos mais aprofundados sobre um fóssil, apelidado de “Tina” e descoberto em 1989 na província de Valência, vêm demonstrado como uma criança Neandertal, cujo tempo de vida se estima situado entre os 273 e os 146 mil anos antes de Cristo, viveu no mínimo até aos 6 anos com Síndrome de Down. Ou seja, como recuando centenas de milhares de anos encontramos antepassados nossos que desenvolveram sentido de pertença, de comunidade, de altruísmo perante outras e outros, o manifestaram e como foram também esses sentidos e atributos que nos trouxeram aos seres humanos de hoje, aos dias de hoje.

Penso-o à luz de dois recentes e extraordinários 13 de Julho nos EUA que, à sua forma, serão também lembrados por dezenas ou centenas de anos (embora, talvez, não centenas de milhares de anos):

a) O de 2013 quando Alicia Garza, junto com companheiros, “cunhou” a hastag “#BlackLivesMatter”, a propósito da morte de um jovem e do processo de julgamento da pessoa por ela responsável. Concorde-se mais ou menos com a forma como todo o movimento que se seguiu foi e tem sido gerido (por vezes utilizado), é um momento (e movimento, depois) simbólico da afirmação do valor de todas as vidas, de todas as pessoas, e de um bem maior que trata o respeito da pessoa humana, qualquer que seja a sua história, origem ou conjunto de características;

b) O de 2024 quando numa acção de campanha, o ex-presidente dos EUA Donald Trump, a dias de ser formalmente indicado em convenção pelo Partido Republicano como novamente candidato às presidenciais de 2024, foi alvo de uma tentativa de assassinato que foi, por apoiantes e por adversárias/os, amplamente condenada como uma tentativa absolutamente inaceitável e intolerável de atentar contra uma vida humana e contra a ideia de democracia.

Numa mensagem de agradecimento ao apoio que justamente tem recebido, Donald Trump escreveu ontem na sua rede social que não deixará e deixarão “que o mal vença”. Por uma vez, estamos de acordo. Não deixar “que o mal vença”.

Não deixar que o mal vença os valores de pertença, comunidade e altruísmo que nos trouxeram aos dias de hoje. Não deixar que o mal vença a ideia de que cada ser humano é um ser com direitos, independentemente da sua história, origem ou conjunto de características. Não deixar que o mal vença um sistema de opinião e participação livre, de adversárias/os e não inimigas/os, de democracia.

Espero que possamos também concordar que, para tal, todos temos que fazer a nossa parte, mais ou menos singela, para criar condições e contribuir para objectivos, para um chão e para uma ideia de bem-comum e de possibilidade de compromisso entre pessoas que, naturalmente, podendo (e devendo) discordar, são parte de uma mesma sociedade.

Como à centenas de milhares de anos, hoje, olhando e contribuindo para o amanhã.

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Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação (Ao redor…; 02.07.2024)

Lisboa, 14 de Maio de 2024: O governo português, reunido em Conselho de Ministros, aprova uma resolução que determina “o desenvolvimento de um novo aeroporto internacional de Lisboa, com a designação de Aeroporto Luís de Camões, localizado no Campo de Tiro de Alcochete”. Copenhaga, 14 de Maio de 2024: Ursula von der Leyen, numa intervenção no Congresso da Democracia de Copenhaga, defende que a “Europa tem de lutar pelos seus valores e pelas suas democracias sob pena de serem pirateadas por autoritarismos que procuram corroer e erodir tudo o que se construiu nos últimos 70 anos”.

Estávamos em 1969 quando se iniciou em Portugal o debate sobre a relocalização do Aeroporto da Portela. Processo cuja concretização da resolução acima referida pode concluir, mais de 60 anos depois e após múltiplas e diversas decisões e possibilidades de relocalização. Vivia-se, em 1969, tal como se vivia em Espanha, numa das últimas ditaduras que resistiam enquanto ditadura na Europa do pós II Guerra Mundial e seria certamente inimaginável que esta decisão pudesse demorar 60 anos a ser concretizada. Um inimaginável que, dia-a-dia, pelos avanços e recuos nas decisões e não-concretizações, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “novo aeroporto” e que fez com que, necessariamente, desviássemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos.

Não precisamos de recuar tantas décadas para considerarmos inimaginável o momento que vivemos na Europa. Momento que, conforme von der Leyen bem refere, se caracteriza por um forte questionamento dos valores da União Europeia e das suas Democracias. Um pouco como observamos com a ascensão de populismos e políticas iliberais Mundo fora – com o exemplo dos EUA e dos estados tradicionalmente autoritários sempre presente – parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “populista” e fez com que, necessariamente, desviemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos. Fez, portanto, com que o efeito de sobressalto colectivo de grande parte da sociedade, sentido aquando da passagem de Jean Marie Le Pen à segunda volta das presidências de 2002 de França, tenda a não se repetir hoje a caminho de uma segunda volta das Legislativas de 2024, onde o partido herdeiro das suas ideias – o Rassemblement National – poderá garantir uma vitória.

Com que naturalizássemos, também, a mentira em política. Com que naturalizássemos que, pese embora um desempenho confrangedor de Biden, seja possível, hoje, considerar-se que o primeiro debate das presidenciais de 2024 dos EUA foi vencido por um político como Trump, cujo valor da verdade e dos factos não reconhece ou respeita e que, por isso, normalmente (como foi o caso) não cumpre regras mínimas para debater em democracia, logo, para vencer qualquer debate democrático.

Aqui chegados, reconhecendo-se este caminho e história, sabendo-se os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar, particularmente de pessoas em situação de vulnerabilidade, e compreendendo-se o comportamento humano e como decorrem os processos descritos, importa desenvolver estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos.

Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e de compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática em todas as idades. Promover o diálogo, também, entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes e pontos de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e do sentido de representatividade.

Tudo isto. Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade. Conforme o Fórum Económico Mundial – que considera a má informação e a desinformação o risco global mais severo no curto prazo – von der Leyen, no mesmo discurso que atrás referi, deu-nos um importante exemplo do que podemos e devemos fazer quando refere que “é essencial que as pessoas saibam qual é a influência da má informação e da desinformação e quais são as técnicas por detrás delas, pois à medida que o conhecimento aumenta, as hipóteses de sermos influenciadas/os diminuem, e isso fortalece a resiliência da sociedade”. Disse-o para depois defender que, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Dito de outra forma, é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço. A este propósito, e caso tenham interesse, aconselho os trabalhos do psicólogo Sander van der Linden e das equipas com quem tem trabalhado no desenvolvimento de recursos e jogos pedagógicos de combate à desinformação e aos seus impactos negativos nas pessoas e sociedade, como é o caso do “Bad News Game”, com evidência científica promissora.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas. Enfrentar o desafio do populismo exige proactividade e uma actuação multifacetada, que considere o tempo presente, mas pense também a história e os seus exemplos e pense o futuro e a forma como, numa perspectiva de legado, podemos contribuir para um país e um Mundo de Direitos e com maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas no futuro.

 

Tiago Pereira

Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

in Sábado (Ao redor…); 02.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ai-habituamo-nos-habituamo-nos-ou-o-importante-papel-da-mobilizacao-e-da-inoculacao