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Empatia rima com Democracia (Ao redor…; Sábado)

Quando escrevo não conheço os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos Estados Unidos. Estas eleições são, porventura, das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas e com maiores consequências a propósito dos seus resultados e do impacto do resultado nas candidaturas e apoiantes. A este propósito, não conheço, também, se já haverá, sequer, resultados oficiais definitivos quando ele puder ser por vós lido. Não conheço, ainda, se, havendo já esses resultados oficiais definitivos, a candidatura derrotada aceitou os resultados. A democracia é complexa, bem sabemos, mas é, não sem espanto para mim e para muitas pessoas, que chegamos a este ponto da sociedade, primeiro, e da democracia nos EUA e noutros locais da Europa e do Mundo, em 2024.

Nos últimos anos li dois livros, aparentemente – mas só aparentemente – muito diversos, do filósofo francês Frédéric Gros. O primeiro chamado “Desobedecer”, trata o fenómeno da insubmissão e das forças individuais, particularmente a consciência, e colectivas que a estimulam. O segundo chamado “Caminhar”, trata a arte “de pôr um pé à frente do outro” enquanto experiência física e psicológica de encontro, compreensão e participação com o que nos rodeia. Consciência, individual e colectiva. Compreensão e encontro com o que nos rodeia. E, conforme Gros refere diversas vezes no “Caminhar” e sublinha com a certidão de óbito de Rimbaud, um caminhante permanente – “Nascido em Charleville, de passagem em Marselha. De passagem. Só ali foi para partir” – a ideia maior de que somos parte do Mundo no momento, que há passado antes da nossa passagem e futuro após ela e como isso acrescenta uma responsabilidade intergeracional e de legado, de reconhecimento do passado e de contributo para um futuro potencialmente melhor para todas as pessoas.

Ora, se pensarmos na empatia enquanto um processo que implica a compreensão de “uma outra pessoa a partir de seu quadro de referência e não do nosso próprio” e que, nesse sentido, implica a possibilidade de “experimentarmos indiretamente sentimentos, percepções e pensamentos” de outra pessoa, podemos entender o quão importante são a consciência, a percepção do que nos rodeia e, também, do nosso papel momentâneo no Mundo para a nossa empatia com as e os outros e com o que nos rodeia. Mas, mais, se observarmos a tal definição da American Psychological Association que sublinha também que, pese embora, “não implique, por si só, motivação para suportar”, a empatia pode resultar “em simpatia ou sofrimento pessoal” e, nesse sentido, influenciar “a acção”, podemos facilmente perceber o quão relevante é nos processos democráticos e nas decisões de participação e na forma de participação individual e colectiva.

Tudo isto está e é profundamente influenciado por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, das redes sociais e da inteligência artificial. Falo, principalmente da utilização e politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento. De como são utilizados com fins políticos os vieses que enquanto seres humanos temos. Por exemplo os que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos (por vezes “trágicos”), hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são. Ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico (um crime, um erro, …), por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista e em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas, de profissionais e de comunidades.

Estes mecanismos, a par de desafios sociais globais de enorme complexidade, como são a pobreza e a desigualdade, os conflitos armados e guerra ou as migrações, e de outros fenómenos sociais como a solidão, a ausência de sentimentos de pertença e de envolvimento em grupos e comunidades e a maior vulnerabilidade das instituições, criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos, ao aumento do autoritarismo no Mundo nos últimos já largos anos e a uma polarização societal e política mais acentuada, particularmente nas democracias da Europa e na dos EUA, para focar nestes países. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.

Os Estados Unidos e os seus períodos eleitorais nos últimos anos, particularmente os três que envolvem Donald Trump, são um profundo exemplo do impacto da empatia. Por um lado, pelo impacto potencial – por ser difícil estabelecer nexos causais – das expressões associadas ao conjunto de pessoas “deploráveis” que votavam Trump em 2016, da responsabilidade de Hillary Clinton, ao “lixo” num comício de Trump nos últimos dias dirigido às e aos Porto Riquenhos. Por outro, porque se tende a aprofundar um afastamento entre uns e outros que é essencialmente de percepção porque a maioria dos estudos demonstra que existem muitas dimensões em que a percepção de afastamento é significativamente maior face ao real afastamento, com tudo o que isso implica.

Empatia, portanto. E confiança. Como a polarização, a confiança em nós, nas outras e outros e nas instituições é fulcral à saúde, bem-estar e coesão social, conforme cada vez mais e mais robusta evidência demonstra a partir, por exemplo, da análise de diversos processos que vão da vacinação à forma como nos preparamos e lidamos com catástrofes e emergências. A confiança é elemento fulcral da democracia e de todos os processos democráticos, nomeadamente do mais básico – aceitar e respeitar o voto e a sua expressão.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, num momento de profundo desafio e de uma propensão para nos focarmos no que corre mal, sobrando muito pouco espaço para o que corre bem, importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros, através de múltiplos ângulos e perspectivas. Que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez” e ausência de reciprocidade. É pouco compatível com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora (ou pelo menos para as e os iguais a mim, agora), tendo-se, pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e dos outros, hoje e para o futuro. Tendo-se pouco presente que empatia rima com democracia. Voltemos à empatia. Reforcemos a democracia e a possibilidade de auto-determinação.

Tiago Pereira

Empatia rima com Democracia

in Sábado (Ao redor…); 06.11.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/empatia-rima-com-democracia

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Wild Robot

Afinal… “A bondade é uma técnica de sobrevivência”.

Há dias partilhei por aqui um artigo que escrevi que resulta de uma reflexão que faço sobre a profunda articulação entre a empatia e a democracia, nos seus princípios e fundamentos de organização, onde o reconhecimento, a confiança, a equidade, a justiça integeracional e a coesão social são princípios e missões fundamentais.

Princípios estes profundamente ligados à possibilidade de bem-estar e autodeterminação para todas as pessoas e, logo, à psicologia enquanto objecto e enquanto profissão, como bases da sua identidade.

Este Sábado, eu e o meu filho mais velho fomos ver um filme – Wild Robot | Robot Selvagem – que parte de uma narrativa curiosa que imagina um Robot “inteligente” e o seu enquadramento e contexto (a imaginação de um futuro possível) num cenário de uma “selva” (a imaginação de um passado possível), em que animais e Robot comunicam e interagem entre si. Para quem não viu e para quem nada sabe sobre o filme, creio que as linhas anteriores são suficientes para pensarem o conjunto de poderosas metáforas e alegorias que resultam da maior – este enquadramento.

Deixo-vos, também por isso, uma espécie de convite a que, na continuidade do que havia escrito no tal artigo, possam ver o filme e sobre ele, como o tenho feito, reflectir um pouco… E deixo duas sugestões de reflexão:

a) A forma como possibilita, à sua maneira, colocar milhões de crianças e jovens (e adultas/os) Mundo fora a pensar a triangulação entre a bondade, a relação e a nossa interdependência. Como, muitas vezes “contra” os nossos instintos e vieses, é a cooperação, a relação e um pensamento mais a médio e longo prazo e não a competição, o conflito destrutivo e um certo hiperimediatismo e procura de “ganhos imediatos e individuais”, que mais contribuem para a nossa sobrevivência, para o nosso bem-estar e para um futuro de médio e longo prazo, melhor para nós e para todas e todos.

b) A forma como, à sua maneira, coloca milhões de crianças e jovens (e adultas/os) perante paradoxos: o do filme e de um “acidente” que, sendo mortal para a família de uma personagem, a “salva”; o do Mundo que, hoje com muita reflexão sobre estes temas, com um maior foco nas últimas décadas nos Direitos Humanos e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável caminha como caminha. Num e noutro caso a fazer-me (fazer-nos?) pensar o que poderá estar a falhar (para melhorarmos), mas também onde estaríamos se atravessássemos o actual contexto sem esse caminho que, apesar de tudo, fomos capazes de percorrer e que urge ser reforçado, continuado e aprofundado.

Até porque, como o filme bem mostra, parece que tudo pode mudar. E que se abrem múltiplas possibilidades quando acreditamos que é possível um Mundo melhor e que “para (sobre)viver temos que ser mais do que aquilo para o qual nos programam”.

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Empatia rima com Democracia

Dizia eu no início do artigo que, quando o escrevia, não conhecia “os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos EUA.” De umas eleições que, dizia também, são “porventura das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas.”

Agora já sei. Já sabemos. E os resultados, particularmente no contexto do qual decorrem, exigem uma profunda reflexão de quem, como eu, defende vigorosamente os valores dos direitos humanos universais, da justiça intergeracional e da procura de uma sociedade justa, equitativa e tendente à possibilidade de auto-determinação de todas as pessoas.

Uma reflexão e a mobilização de quem partilha estes valores, independentemente das potenciais discordâncias, implicando isso que pensemos como nos posicionamos em sociedade… Como contribuímos (ou não) para debates construtivos, como somos capazes de nos descentrarmos de nós e das/os nossas/os quando isso importa para a preservação da confiança nas instituições e nas/os outras/os e/ou construção de soluções… Como somos capazes de abdicar em prol do bem-comum e maior… De pensar em quem nos rodeia e se nos seguirá. Como retomarmos um caminho de maior empatia e de como a empatia rima como democracia.

“Empatia rima com Democracia”, 94º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) pensa a empatia, a sua definição e papel e como é “profundamente influenciada por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, redes sociais e da IA. Da politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento; à utilização com fins políticos dos vieses que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos, hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico, por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas.

Estes mecanismos, a par dos desafios sociais globais de enorme complexidade “criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos e ao aumento do autoritarismo. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.”

“Importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros (…) Que pensemos que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez”, ausência de reciprocidade e com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora, tendo-se pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e outros, hoje e para o futuro.

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação (Ao redor…; Sábado)

Comecemos hoje com um pequeno quiz:

O que é que os seguintes nomes: António Brochado Correia, Bernardo Trindade, Carlos Abade, Carlos Moura, Fernando Nunes da Silva, Filipe Anacoreta Correia, Francisco Calheiros, Gonçalo Oliveira, Hugo Moreira Luís, José Luís Arnaut, Luís Amado, Luís Marques Mendes, Luís Montenegro, Luís Rodrigues, Mário Centeno, Miguel Maya, Paulo Portas, Pedro Machado, Pedro Reis, Roberto Antunes e Fernando Nunes da Silva…

Têm que ver com estes nomes: Alexandre Lote, André Pinotes Batista, Armando Mourisco, Benjamim Rodrigues, Brian Silva, Francisco César, Gonçalo Lopes, Hugo Costa, Hugo Oliveira, João Portugal, Luís Dias, Luís Graça, Luís Moreira Testa, Nelson Brito, Nuno Araújo, Paulo Cafôfo, Ricardo Leão, Rui Santos, Victor Hugo Salgado, Vítor Paulo Pereira e Vítor Pereira?

Ambos os grupos terem 21 nomes? Terem esses 21 nomes organizados por ordem alfabética? Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens.

São, também, e respectivamente, os nomes de todos os 21 oradores da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal e apresentada como “um evento que reúne importantes líderes e personalidades políticas e empresariais” que pretende “apelar à reflexão e ao debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal”. Um debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais.

Debate que, coincidentemente, aconteceu a 27 de Setembro, dia em que o Partido Socialista (PS) elegeu os novos 19 líderes das federações distritais que se juntam aos 2 líderes anteriormente eleitos das regiões autónomas, corporizando os seus agora 21 líderes federativos e regionais atrás listados. Todos homens. Um processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais.

Mas, se parece existir alguma coerência relativamente ao evento e ao facto de todo o Conselho Directivo da Confederação do Turismo de Portugal que o organiza ser, hoje, constituído por homens (10) que, por sua vez, lideram Associações ou Grupos Empresariais ligados ao Turismo, já parece mais incoerente que a liderança de todas as estruturas federativas e regionais, de um partido em que o seu Secretário-Geral foi eleito com uma moção apelidada de “Portugal Inteiro”, caiba apenas a homens. Moção essa que afirma como 1ª missão que o PS se deve assumir como “um partido reformista e progressista para uma social-democracia moderna”, detalhando dever ser “um partido transformador e progressista”, promover “reformas para melhorar a vida das pessoas” e ser “portador de sentido de justiça, esperança e de ambição para chegar mais longe”.

Talvez este sentido de justiça, esperança e de ambição obrigasse a uma reflexão profunda sobre como podem estar representadas as mulheres (segundo os últimos dados públicos, cerca de 37% do total de militantes do PS) nas lideranças locais e de proximidade e quais as razões que levam à absoluta desproporção nas candidaturas (nas 19 eleições houve apenas duas candidatas, ambas derrotadas, face a 21 candidatos Homens) e como pode essa desproporção, a bem de todas e todos, ser mitigada. Talvez esta reflexão trouxesse uma outra coerência. Talvez pudesse pensar-se que, tal qual um conselho diretivo só de homens mais facilmente organiza um evento em que só homens são oradores, em eleições internas dos partidos políticos, onde as estruturas são maioritariamente lideradas por homens, estes tendem a mobilizar-se e movimentar-se mais, perpetuando-se e determinando, ou pelo menos influenciando com o mesmo viés, as escolhas futuras.

É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.

Isto, naturalmente, se não quisermos que o “debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal” e as bases do partido português que se assume progressista, reformista e “portador de sentido de justiça, de esperança e de ambição para chegar mais longe” sejam consequentes com a reflexão do Ministério Público para o seu relatório de actividades de 2023, partilhada pela Sr.ª Procuradora Geral da República, referindo que uma proporção significativa de mulheres jovens (“especialmente abaixo dos 30 anos”) na instituição resulta num “agravamento de constrangimentos” nos seus trabalhos em virtude de “situações de gravidez, de gravidez de risco, de baixa para assistência a filhos menores, gozo de licença parental e ausência para efeitos de amamentação”. Um péssimo contributo para a informação e debate público proveniente de uma instituição com especiais responsabilidades com a agravante das mulheres com menos de 30 anos representarem apenas 1,6% do seu universo de trabalhadores.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências. Penso-o relativamente a partidos, eventos, estruturas e organizações da administração pública, privada ou do sector social. Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. Certamente se o fizermos caminharemos no sentido da promoção de maior segurança psicológica, de maior coesão social e da prevenção de retrocessos que hoje nos parecem tão absurdos quanto pensávamos absurdo, há anos, que um ex-presidente e novamente candidato a presidente dos EUA afirme que se ganhar a eleição poderá ser a última vez que as/os eleitoras/es votam. Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.

 

Tiago Pereira

Um tema em que as bases do Partido Socialista e o Turismo de Portugal parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

in Sábado (Ao redor…); 09.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/as-mulheres-e-a-sua-participacao

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

“Comecemos hoje com um pequeno quiz”. Assim começa o artigo perguntando o que um conjunto de 21 nomes tem que ver com um outro conjunto de 21 nomes. “…Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens”, escrevo.

“Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação”, 92º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da coincidência temporal entre a realização da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela CTP e que teve 21 oradores (todos homens) e as 19 eleições federativas do PS cujos eleitos se juntam aos 2 regionais perfazendo 21 líderes (todos homens). Esse dia 27.09.24 foi dia de um “debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais”, conforme foi apresentado o evento da CTP. Foi dia de um “processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais” do PS.

“É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.”

“…necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências (…) Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. (…) Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.”

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Ainda o 6º Congresso OPP/XIII FIAP

O 6º Congresso da OPP/XIII da FIAP terminou há uma semana mas continua aqui. Associo-me a esse belo movimento com uma mensagem última em forma de agradecimento(s):

. Ao Francisco Miranda Rodrigues por ter confiado e me ter convidado a presidir à sua Comissão Organizadora e, nele, a todas as largas dezenas de psicólogas/os com diferentes papéis na Ordem dos Psicólogos Portugueses pelos seus múltiplos contributos para o sucesso do congresso;

. À Clara Silva e nela a toda equipa de trabalhadoras/es da OPP que formam, particularmente quando perante exigências complexas, uma força coesa, empenhada, criativa e segura. São inexcedíveis e são ainda capazes de agregar outras pessoas, no caso do Congresso o grupo de voluntárias/os (a quem também agradeço) que são a base (e que importante é a base) para que tudo funcione;

. À comissão científica excepcionalmente liderada pela Isabel Soares que teve um papel determinante da preparação da recepção das mais de 7 centenas de submissões à organização e moderação das sessões de comunicações, pósteres digitais e espaço jovem (especial agradecimento à Carolina Oliveira, força motriz desta iniciativa). Incrível trabalho.

. Ao João Reis, com quem tive uma impactante (pelo menos para mim) conversa sobre “um só planeta”; à Raquel Corval , Leonor Carvalho, Sandra Araújo e Isabel Soares com quem conversei sobre os primeiros mil dias (e que orgulho serem tema no congresso da OPP); à Ana Rita Gomes, Inês Pimenta de Castro, Andresa Oliveira, João Salgado, Maria João Mosca e Daniel Maia com quem conversei sobre a intervenção psicológica à distância e seus desafios e oportunidades. Neles agradeço às quase 5 centenas de oradoras/es e às/aos restantes quase 2500 participantes;

. Aos patrocinadores e stands que confiaram no congresso para associarem as suas marcas e produtos e que co-construiram a sua experiência, também fora das salas de sessões;

. Às organizações internacionais participantes, nomeadamente do espaço ibero-americano, países língua oficial portuguesa e à EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), American Psychological Association e COP.

A todas e todos agradeço o sentido de comunidade, o espaço de celebração.

“…e este percurso”, disse o Sr. Presidente da República na sessão Solene falando do processo de afirmação da psicologia e da valorização do contributo das psicólogas e psicólogos na sociedade portuguesa, “foi um percurso que explica estes congressos. Quem chega aqui aos congressos a sensação que tem é que este duplo congresso [OPP/FIAP] é uma festa. Não é o cumprimento de um dever, de uma obrigação, é uma festa. Se quiserem, uma festa de autodeterminação”.

A celebração da autodeterminação e da procura incansável da promoção da sua possibilidade para todas as pessoas por parte de 28.000 psicólogas/os, dia após dia, nos mais variados contextos. 28.000 psicólogas/os, cidadã(o)s.

Foi uma honra ter tido esta oportunidade e ter podido dar este meu contributo para este nosso Congresso.

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Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

“Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.”

“Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar”, 91º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura enquadrar o porquê de, hoje, isso ser particularmente relevante para, depois, “pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura)” a partir de quatro dimensões:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Termino advogando e apelando a “uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.”

“Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.”

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais (Sábado; Ao redor…; 10.09.2024)

Recuemos milhares de anos e imaginemo-nos a viver neste planeta, nesse momento. Não foi, não era, a força individual e isolada de cada ser humano que permitia enfrentar os principais desafios que se colocavam. Não foi, certamente, a força isolada de indivíduos que permitiu o desenvolvimento e que nos trouxe à sociedade dos dias de hoje. Antes foi a forma como os seres humanos desenvolveram formas complexas de cooperação e colaboração, baseadas na comunicação e na confiança. Formas de cooperação e colaboração que permitiram responder a desafios e crises, partilhar, inovar e desenvolver comunidades e a sociedade. Foram as relações interpessoais, o trabalho em equipa e a vida em comunidade que permitiram que atingíssemos níveis de desenvolvimento e bem-estar hoje, apesar de tudo, inimagináveis não há muito tempo.

Sabemo-lo. Mas…

Vivemos um momento histórico em que, segundo a ONU, quintuplicaram em 50 anos as catástrofes associadas a fenómenos naturais. Nesse período, “todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico retirou a vida a 115 pessoas e causou perdas 202 milhões de dólares”. A crise climática associa-se a outros desafios complexos do nosso tempo. Desafios que exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de colaboração entre cidadãos na prevenção de fenómenos/desastres, na capacitação da população para maior resiliência face aos mesmos e na mitigação dos seus impactos.

Sabemo-lo também. Mas…

Estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais, particularmente no Ensino Superior, momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

Apesar de hoje falarmos mais sobre as competências sócio-emocionais e ter sido, inclusivamente, realizado um caminho para a sua integração e consideração do seu desenvolvimento na Educação até à escolaridade obrigatória, existe um caminho enorme a percorrer para a sua cabal consideração no contexto do Ensino Superior. Procuro, em seguida e em seis pontos, discutir eventuais explicações para tal e, nesse sentido, pistas para potenciais mudanças para reforço deste caminho. A saber:

a) A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa no Ensino Superior, resultante de causas diversas que incluem, entre outras, fenómenos como a hiperespecialização das/os docentes e investigadoras/es, a dispersão por departamentos/faculdades de pessoal não docente ou das e dos próprios estudantes por via da escassez de residências estudantis e da cada vez maior distância do alojamento possível nas grandes cidades face às instituições. Tudo a contribuir para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade. Importa reflectir sobre estes fenómenos e intervir no sentido da prevenção e mitigação da atomização e fragmentação, desde logo nas e nos estudantes, procurando reforçar o seu envolvimento com a comunidade educativa e a sua possibilidade de participação, bem como reforçar a identidade, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições.

 

b) O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico. O momento da transição e da integração no Ensino Superior, também porque habitualmente coincidente com um período de alterações significativas (relacionadas com a idade, mudança de local de residência, de grupo de amigas/os, …) é um momento especialmente relevante para a saúde e bem-estar das/os estudantes, para o seu desempenho académico (persistem níveis significativos de abandono no 1º ano de curso) e para as relações interpessoais, sendo fundamental o desenho de estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria, incluindo por pares.

c) O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes. Há hoje mais jovens que entram e frequentam o Ensino Superior com dificuldades no âmbito da ansiedade, depressão ou de desafios na gestão do stresse que acrescem, também, ao aumento destes problemas na restante comunidade educativa. Apesar dos recentes investimentos, particularmente com o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental e a medida “Cheque Psicólogo”, as problemáticas persistem e provocam sofrimento às pessoas, não lhes permitindo “estar bem”, “cumprirem-se” e, dessa forma, ter condições para melhores relações interpessoais e bem-estar. É urgente investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção.

 

d) A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas. Particularmente num momento em que um conjunto de tarefas e o desenvolvimento de competências técnicas podem e serão delegadas ou apoiadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial generativa, é de crucial importância que os currículos formais e informais do Ensino Superior apontem ao desenvolvimento deste tipo de competências e usem da ciência na definição de estratégias e intervenções suportadas em evidência científica. Esta aposta apoiará a formação de profissionais que aliem às competências técnicas, valores e competências sócio-emocionais que os tornem pessoas e profissionais mais capacitados e mais abertos e predispostos às relações interpessoais, à colaboração e ao trabalho em equipa.

 

e) A não-valorização e não-intencionalização da colaboração. Sendo coerentes com o quão estratégicas podem ser estas acções, devemos ser capazes de inscrever e valorizar, nos processos internos das instituições, as dimensões da colaboração e monitorizar e auto-avaliar estas acções. Será relevante a sua inclusão enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho.

 

f) A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças. No Ensino Superior, como em toda a Administração Pública, devemos abandonar o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” de um/a profissional. As competências de liderança vão muito além das específicas competências técnicas na área em que se lidera. Considerá-lo, mais, no acesso aos cargos de liderança e no desenvolvimento profissional nos mesmos, será um contributo decisivo para a internacionalização do atrás referido e para a promoção de mais e melhores relações e práticas de colaboração.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, importa que na formação das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios, também, do presente e do futuro. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos. Que nele participemos, juntos e por todos.

 

Tiago Pereira

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

in Sábado (Ao redor…); 10.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-ensino-superior-e-a-promocao-das-relacoes-interpessoais

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Agência.

Lembram-se da “TINA”, o acrónimo em inglês para o “NHA” português [There Is No Alternative | Não Há Alternativa]?

Estamos num desses momentos. Confrontados com incêndios que nos fazem sentir impotentes e descrentes em que possamos fazer algo para prevenir, no futuro, estas situações e os seus impactos. Confrontados com fenómenos sociais que, conjugados no tempo, nos fazem desafiar a percepção de segurança que o nosso país continua a oferecer, por comparação à grande maioria (quase totalidade) de países, Mundo fora.

Estamos num desses momentos porque, sozinhos, sentimo-nos distantes, desempoderados e descrentes de poder fazer algo que, significativamente, contribua para minimizar estas situações e mitigar os seus efeitos.

Mas… Assim não é. Pensemos nas pessoas, hoje e nos últimos dias, envolvidas no combate aos incêndios e apoio às populações. Em como as comunidades se unem para, juntas, resistirem. Em como profissionais e voluntárias/os dão o que têm e o que não têm pelas outras pessoas e pelos lugares.

Neles inspirado, pensemos em como, mesmo à distância, podemos contribuir e advogar para uma mobilização social que reconheça local e globalmente a crise climática e como podemos contribuir, individual, colectiva e globalmente para a sua mitigação. Como podemos advogar por alterações no ordenamento do território e na organização da sociedade, para maior prevenção destas situações. Também para uma preparação das comunidades para protocolos de actuação em situações como os desastres naturais ou acontecimentos inesperados, aumentando a sua percepção de controlo, a resiliência individual e colectiva e a sua segurança e previsibilidade. Como podemos, mesmo à distância, dar pequenos grande contributos como são exemplo dar sangue, conversar e ligarmo-nos a pessoas próximas, comunicar estes fenómenos com as crianças e jovens diminuindo o seu impacto. Como nos podemos aproximar e suportar as pessoas que mais sofrem com estes fenómenos e construirmos comunidades. Como podemos contribuir para fazer cair o “N” da TINA e do NHA e promover agência nas pessoas e comunidades.

Eu, singelamente, procuro fazê-lo. Junto das pessoas mais próximas. Também em pequenos contributos como os que partilho, sobre a importância de comunicarmos fenómenos como o da EB da Azambuja com crianças e jovens (obrigado Nuno Vinha) ou sobre a hiper-exposição e o papel da comunicação e do suporte da comunidade (obrigado, Carla Jorge de Carvalho). Acredito na possibilidade de mudança e isso é, para mim, um factor protector.

A mudança é possível. De outra forma, aquando destas situações, não falaríamos ainda do impacto na saúde mental e bem-estar. A mudança é possível. Podemos empoderar pessoas e comunidades para lidar com estes fenómenos. Podemos promover recursos individuais e comunitários, mesmo tudo fazendo para que estes fenómenos não se repitam.

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Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

A fuga do Estabelecimento Prisional de Vale Judeus foi o acontecimento mediático da semana passada. Sendo um acontecimento necessariamente significativo, temo que esta atenção resulte no que resultou o sobressalto após a fuga do EP de Caxias de 2017: poucas alterações substantivas ao sistema judicial e prisional; pouco debate sobre as condições da reclusão e dos processos de prevenção da (pequena) criminalidade e de reinserção e reintegração.

Vejamos. Portugal é o 7º país mais seguro do Mundo e o 7º país da União Europeia (UE) com menor taxa criminalidade violenta. Tem, em simultâneo, um número de reclusas/os acima da média na UE e é o país da UE com penas de prisão médias mais longas.

Um paradoxo? Sim, certamente… Pequenos comentários sobre ele:

 

a) Um trabalho da “The Psychologist” de 10.09 trata o tema e parte de uma ideia sobre a qual creio devermos reflectir: a necessidade de inscrevermos que “as pessoas estão detidas como punição e não para serem punidas”;

 

b) Reforça, depois, o papel da pobreza e da exclusão como trajectórias para a (pequena) criminalidade e o ciclo de, após uma detenção, a dificuldade de integração social (trabalho, habitação, …) potenciar a reincidência. Algo especialmente factual em Portugal onde a população reclusa é maioritariamente marcada pela pertença comunitária não maioritária e/ou pela pobreza. Onde a taxa de reincidência é muito elevada;

 

c) O populismo, ontem mais latente que hoje na população portuguesa, mas que sempre influenciou (influencia) decisoras/es e partidos “catch all”, muito contribuiu (contribui) para inexistência de pressão da sociedade civil para a garantia de melhores condições para reclusas/os e para profissionais que trabalham no sistema prisional, quer sejam as/os que garantem a segurança de reclusas/os e sistema, quer quem se foca na promoção da educação, saúde, trabalho (reinserção social). Fazem-no pela utilização do exemplo, factual por vezes, não factual noutros, contra dados oficiais e pelo exacerbar do revanchismo e medo como estímulo para políticas públicas claramente contracíclicas face à ciência e às boas práticas nos direitos humanos.

Que este seja um tempo de pensarmos em transformações que, sendo complexas, são possíveis. Que atendemos às e aos profissionais. Que empoderemos as comunidades para a inclusão. Que pensemos as condições, a saúde (incluindo a saúde mental) e o bem-estar da população reclusa. Que previnamos as condições sociais que determinam as trajectórias e diminuamos a reincidência. Tudo investimentos de retorno económico significativo e de promoção de bem-estar e coesão social.

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

Ps. Imagem captada pelas câmaras de videovigilância do EP de Vale Judeus partilhada por diversos órgãos de comunicação social depois de disponibilizada numa rede social do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (!).