Quando escrevo não conheço os resultados eleitorais das presidenciais de 2024 dos Estados Unidos. Estas eleições são, porventura, das eleições mais importantes no Mundo contemporâneo e, simultaneamente, umas das mais divididas, polarizadas e questionadoras de uma prática e posicionamento dos EUA das últimas décadas e com maiores consequências a propósito dos seus resultados e do impacto do resultado nas candidaturas e apoiantes. A este propósito, não conheço, também, se já haverá, sequer, resultados oficiais definitivos quando ele puder ser por vós lido. Não conheço, ainda, se, havendo já esses resultados oficiais definitivos, a candidatura derrotada aceitou os resultados. A democracia é complexa, bem sabemos, mas é, não sem espanto para mim e para muitas pessoas, que chegamos a este ponto da sociedade, primeiro, e da democracia nos EUA e noutros locais da Europa e do Mundo, em 2024.
Nos últimos anos li dois livros, aparentemente – mas só aparentemente – muito diversos, do filósofo francês Frédéric Gros. O primeiro chamado “Desobedecer”, trata o fenómeno da insubmissão e das forças individuais, particularmente a consciência, e colectivas que a estimulam. O segundo chamado “Caminhar”, trata a arte “de pôr um pé à frente do outro” enquanto experiência física e psicológica de encontro, compreensão e participação com o que nos rodeia. Consciência, individual e colectiva. Compreensão e encontro com o que nos rodeia. E, conforme Gros refere diversas vezes no “Caminhar” e sublinha com a certidão de óbito de Rimbaud, um caminhante permanente – “Nascido em Charleville, de passagem em Marselha. De passagem. Só ali foi para partir” – a ideia maior de que somos parte do Mundo no momento, que há passado antes da nossa passagem e futuro após ela e como isso acrescenta uma responsabilidade intergeracional e de legado, de reconhecimento do passado e de contributo para um futuro potencialmente melhor para todas as pessoas.
Ora, se pensarmos na empatia enquanto um processo que implica a compreensão de “uma outra pessoa a partir de seu quadro de referência e não do nosso próprio” e que, nesse sentido, implica a possibilidade de “experimentarmos indiretamente sentimentos, percepções e pensamentos” de outra pessoa, podemos entender o quão importante são a consciência, a percepção do que nos rodeia e, também, do nosso papel momentâneo no Mundo para a nossa empatia com as e os outros e com o que nos rodeia. Mas, mais, se observarmos a tal definição da American Psychological Association que sublinha também que, pese embora, “não implique, por si só, motivação para suportar”, a empatia pode resultar “em simpatia ou sofrimento pessoal” e, nesse sentido, influenciar “a acção”, podemos facilmente perceber o quão relevante é nos processos democráticos e nas decisões de participação e na forma de participação individual e colectiva.
Tudo isto está e é profundamente influenciado por fenómenos que, tendo sempre existido, têm hoje outra propagação, expansão e abrangência, considerando o impacto das novas tecnologias, das redes sociais e da inteligência artificial. Falo, principalmente da utilização e politização da “desgraça”, do ódio e do ressentimento. De como são utilizados com fins políticos os vieses que enquanto seres humanos temos. Por exemplo os que resultam em darmos mais atenção (e projecção) aos acontecimentos negativos (por vezes “trágicos”), hipervalorizando-os e considerando-os mais prováveis e frequentes do que realmente são. Ou do presente, dando mais atenção ao que acontece no momento face ao passado, tendendo-se para um hiperimediatismo, que faz do caso específico (um crime, um erro, …), por efeito de generalização, estímulo para a divisão simplista e em dois pólos e para a condenação e estigmatização de grupos de pessoas, de profissionais e de comunidades.
Estes mecanismos, a par de desafios sociais globais de enorme complexidade, como são a pobreza e a desigualdade, os conflitos armados e guerra ou as migrações, e de outros fenómenos sociais como a solidão, a ausência de sentimentos de pertença e de envolvimento em grupos e comunidades e a maior vulnerabilidade das instituições, criam um contexto propício à quebra da confiança nas instituições e governos, ao aumento do autoritarismo no Mundo nos últimos já largos anos e a uma polarização societal e política mais acentuada, particularmente nas democracias da Europa e na dos EUA, para focar nestes países. Criam, ainda, um contexto propicio à quebra da empatia.
Os Estados Unidos e os seus períodos eleitorais nos últimos anos, particularmente os três que envolvem Donald Trump, são um profundo exemplo do impacto da empatia. Por um lado, pelo impacto potencial – por ser difícil estabelecer nexos causais – das expressões associadas ao conjunto de pessoas “deploráveis” que votavam Trump em 2016, da responsabilidade de Hillary Clinton, ao “lixo” num comício de Trump nos últimos dias dirigido às e aos Porto Riquenhos. Por outro, porque se tende a aprofundar um afastamento entre uns e outros que é essencialmente de percepção porque a maioria dos estudos demonstra que existem muitas dimensões em que a percepção de afastamento é significativamente maior face ao real afastamento, com tudo o que isso implica.
Empatia, portanto. E confiança. Como a polarização, a confiança em nós, nas outras e outros e nas instituições é fulcral à saúde, bem-estar e coesão social, conforme cada vez mais e mais robusta evidência demonstra a partir, por exemplo, da análise de diversos processos que vão da vacinação à forma como nos preparamos e lidamos com catástrofes e emergências. A confiança é elemento fulcral da democracia e de todos os processos democráticos, nomeadamente do mais básico – aceitar e respeitar o voto e a sua expressão.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, num momento de profundo desafio e de uma propensão para nos focarmos no que corre mal, sobrando muito pouco espaço para o que corre bem, importa que voltemos à empatia. Que pensemos colectivamente que, conceitos e problemas complexos, implicam que consigamos ver pela lente das outras e dos outros, através de múltiplos ângulos e perspectivas. Que o sistema democrático é pouco compatível com a “hiperimediatez” e ausência de reciprocidade. É pouco compatível com incentivos crescentes que dirigem a política para a resposta ao que pretendo para mim e agora (ou pelo menos para as e os iguais a mim, agora), tendo-se, pouco presente que a possibilidade de bem-estar de cada pessoa está iminentemente relacionada com a possibilidade de bem-estar das outras e dos outros, hoje e para o futuro. Tendo-se pouco presente que empatia rima com democracia. Voltemos à empatia. Reforcemos a democracia e a possibilidade de auto-determinação.
Tiago Pereira
Empatia rima com Democracia
in Sábado (Ao redor…); 06.11.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/empatia-rima-com-democracia


