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Presidência da República

9 de Março de 2021. Marcelo Rebelo de Sousa toma posse para o segundo mandato enquanto Presidente da República. No seu discurso, perante um país há um ano em pandemia, refere ser uma das suas prioridades a reconstrução “da vida das pessoas”. Diz ser “tudo ou quase tudo – emprego, rendimentos, empresas, mas também saúde mental, laços sociais, vivências e sonhos. É mais, muito mais do que recuperar.”

Ontem passou um mês sobre uma sua audiência a uma comitiva que integrei da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Nela abordamos esta “reconstrução maior que uma recuperação”. Sentimos interesse na profissão e nas/os profissionais, mas, também, o reconhecimento do seu rápido crescimento e impacto crescente. Falamos do seu papel e contributo e dos desafios da sua prática em diferentes contextos, da educação à saúde, passando pela área social, comunitária e do trabalho. Reflectimos sobre melhorias no acesso a serviços de psicólogas/os em diferentes áreas e por diversos tipos de prestadores e da participação dos profissionais em equipas multidisciplinares. Reforçamos a necessidade de aprofundar e acelerar este caminho, particularmente no SNS e na área social, junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Discutimos, ainda, a presidência portuguesa da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP) e os seus temas em torno do contributo da psicologia nas questões da pobreza e exclusão social, temas também fundamentais do VI Congresso da OPP/XIII Congresso IberoAmericano de Psicologia que decorrerá em Lisboa (SET 2024) e que conta com o seu Alto Patrocínio (informações/inscrições: https://congresso.ordemdospsicologos.pt).

“Só haverá, porém, verdadeira reconstrução se a pobreza se reduzir, os focos de carência alimentar extrema desaparecerem, as desigualdades se esbaterem, a exclusão diminuir, a clivagem entre gerações e entre territórios for superada”, dissera também na tomada de posse. Sabe o Sr. Presidente que o país pode contar, nestes e noutros desígnios, com o contributo das psicólogas e psicólogos e da sua associação pública profissional, tal como sabemos que o Sr. Presidente o reconhece e valoriza.

Simbolicamente, horas depois, receberíamos a proposta do Governo de revisão do Estatuto da OPP. Proposta que teve tanto de surpreendente como de inaceitável e que, a cumprir-se, representaria um retrocesso na protecção dos cidadãos, do interesse público e no acesso a serviços de psicologia de qualidade, pela desregulação da profissão e fim das suas especialidades profissionais.

Um conjunto de acções, a par da forte mobilização de psicólogas/os e não apenas, permitiram que se acordassem alterações que esperamos ver “formalmente” espelhadas na proposta final aprovada (e confirmada) em Conselho de Ministros, que muito em breve conheceremos. Resta, depois, trabalhar junto da Assembleia da República com o propósito último de podermos prosseguir o nosso papel e (importante) contributo enquanto profissão fundamental ao país e às pessoas.

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Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

“Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?”

A primeira frase deste texto, título do 59º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado), resulta de um recente estudo da “YouGov”, onde “1 em cada 3 das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo (quase 1 em cada 2 se considerarmos apenas os homens)”.

Exemplo que, “numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0”, demonstra “o excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa têm sobre a sua capacidade de a realizarem com sucesso.”

“Somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo” (…), a “ditadura da autorreferenciação”, (…) um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido” e onde existe uma enorme possibilidade de percepcionarmos como próximas e com “finais felizes” situações complexas.

Assim, mesmo considerando o aumento global da literacia, creio “compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.”

A desconfiança e a narrativa de “corporativismo” tem marcado o debate em torno das Ordens Profissionais, “nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público”. Diminui-se, assim, “o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para (…) assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade.” 

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Habitação, crise, saúde e bem-estar

No início de 2023, uma sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso, mostrava que 92% das e dos jovens entre os 18 e 35 anos concordava ou concordava totalmente que existe uma crise de habitação em Portugal. 9 em cada 10 jovens.

“Crise habitacional, baixos salários e o futuro incerto – Há problemas muito significativos na saúde mental dos jovens”, foi exactamente o destaque escolhido pela CNN Portugal para divulgar o seu trabalho sobre o tema e a sua relação com a saúde (incluindo a saúde mental) e bem-estar das pessoas. Trabalho que partiu de uma entrevista comigo, realizada pelo José Gabriel Quaresma no passado Sábado.

Nela foco questões associadas à “quebra” de importantes factores protectores da saúde mental (segurança, previsibilidade e controlo) decorrente da instabilidade e/ou precariedade habitacional e do stresse e ansiedade financeira de muitas pessoas e famílias. Foco as consequências, no presente e para o futuro, na saúde (física e mental) e bem-estar e o sofrimento psicológico associado a estas questões. Também, as desigualdades e iniquidades que resultam das diferentes condições habitacionais entre diferentes pessoas, agravadas pelo facto de no contexto da pandemia e pós-pandemia (por ex., com o aumento do teletrabalho) as pessoas passarem/trabalharem mais tempo nas suas cadas. Ainda, a forma como a instabilidade habitacional obstaculiza melhores adaptações a processos de transição, seja numa situação de um nascimento/crescimento da família, num divórcio ou noutras. Termino advogando por mais apoios a programas que facilitem o acesso a uma primeira habitação pela população mais jovem, que facilitem processos de transição e adaptação a diferentes circunstâncias de vida e de suporte à reparação e melhoria de condições das habitações.

Mas, a mesma sondagem indica que na restante população são cerca de 90% as pessoas que concordam (ou concordam totalmente) com a existência de uma crise de habitação, dados que apontam a uma generalização desta percepção/sentimento. “Crise na habitação provoca maior procura por psicólogos”, foi mesmo o destaque escolhido pelo Novo Semanário (Edição 20.05.23) e pelo Jornal Económico para publicarem a entrevista do João Santos Costa comigo sobre o mesmo tema e sobre a sua relação com outras “crises” como a demográfica, de fixação/vinculação de trabalhadoras/es, da solidão/isolamento ou da saúde mental da população mais jovem.

Nesse trabalho, afirmo que “estarmos a discutir [a Habitação] é algo muito importante”. Talvez termos estado porque, apesar de tão significativa preocupação com o tema e do seu forte impacto nas pessoas e na sociedade, o debate tem vindo a perder intensidade. Oxalá tal não suceda, também, com a acção e priorização desta área. E oxalá a ciência (e prática) psicológica e os seus contributos possam ser consideradas e suportar esta acção.

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A lã e a neve…

Ferreira de Castro viveu apenas dois meses após o 25 de Abril de 1974. A sua biografia informa, destacando, a sua participação no célebre primeiro 1º de Maio pós-25 de Abril e retenho-me nesse momento, quando o penso a partir do livro “A Lã e a Neve”, que publicou quase 30 anos antes desse dia e que, felizmente, foi recentemente reeditado pela Cavalo de Ferro.

“…Nos olhos do qual ele adivinhava, também, uma nuvem de tristeza.” Uma nuvem de tristeza, mas não apenas, percorre o livro que trata, ficcionada, mas não totalmente, a pobreza de Portugal no período próximo da II Guerra Mundial. Uma pobreza entre a Serra da Estrela (Manteigas, em particular) e a Covilhã. Uma pobreza a partir de um trabalho permanente, constante, entre a pastorícia, as casas, o campo e as fábricas, particularmente as tecelagens, da região. Uma pobreza que coarta a dignidade, que impacta a saúde e a saúde mental, que impossibilita uma ideia mínima de bem-estar, de (auto)cuidado. Uma pobreza que se reproduz, cíclica e socialmente, e que acompanha o desamparo de tudo e de todas as pessoas que, ao mínimo “abalo” ou acontecimento imprevisto, pessoal ou social, treme. Uma pobreza, nuvem de tristeza. Permanente.

80 anos depois, aquela região é bem diferente. O país, a Europa, o Mundo, são bem diferentes. Apesar disso, e com formas de expressão e dimensão (felizmente) distintas, a pobreza e os seus impactos permanece na vida de muitas pessoas e famílias. De demasiadas. Isso mesmo e os contributos da ciência e da prática de psicólogas e psicólogos na minimização dos seus impactos e no combate às diversas formas de pobreza, discutiremos ali bem perto, na Guarda, na próxima sexta-feira (25.5).

O VI Encontro Luso-Espanhol de Psicologia, organização conjunta entre a Ordem dos Psicólogos Portugueses e o Consejo General de la Psicología de España centrar-se-á em dois temas principais, preocupações sociais significativas: a deficiência e a pobreza. Na área da pobreza, além de uma “Oficina Transformadora” a cargo do Alexandre Teixeira com a experiência do projecto “Cais Recicla”, terá uma mesa por mim moderada com a Isabel Soares (referência importantíssima no trabalho no nosso país nestas áreas e pessoa e profissional que muito admiro) e a Laura Vallejo Slocker e o Pedro Rafael Altungy Labrador, importantes referências do trabalho nestas dimensões em Espanha. Mais informações e inscrições, aqui.

Jorge Amado disse sobre Ferreira de Castro que “com a arma da literatura ajudou a transformar o Mundo (…) [Foi] coveiro de um Mundo caduco, de um tempo podre, parteiro de um Mundo novo, de um tempo alegre e livre”.  Que este Encontro e que os debates que dele decorram seja (mais) um contributo e, particularmente, estímulo a que com a “arma da psicologia” ajudemos “a transformar o Mundo”, pela possibilidade de um “tempo alegre e livre”, para todas e para todos.

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1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
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A arte…

Uma das passadeiras que mais vezes atravessei nos últimos anos fica próxima da minha casa e tem uma particularidade. Não sendo propriamente insegura (as velocidades são habitualmente baixas), quando a atravesso no sentido da minha casa é frequente os veículos não pararem para eu passar, algo que não sucede quando a atravesso no outro sentido. Quem de quem me lê sabe onde moro, sabe também porque é que isto acontece e porque é simples não ficar “incomodado” com esta situação quando, nos conseguindo colocar no lugar da/o outra/o, percebemos o estímulo de chegados a uma vila, olharmos um monumento impactante e bonito, que nos capta a atenção e desfoca, até, da tal passadeira e de quem a pretende utilizar.

Mas, se este colocar-nos no lugar da e do outro, compreendermos, aceitarmos e, talvez até, sorrirmos ao que o justifica, pode ser simples numa situação como esta, sabemos que não o é para todas as pessoas e, particularmente, todas as situações. A abertura às outras pessoas, o fascínio com elas, a curiosidade e o genuíno interesse pelo que é diverso de nós, são elementos preponderantes a uma melhor compreensão e intuição acerca do que nos rodeia e, de certa forma, também de nós próprios, de como nos comportamos, pensamos ou sentimos.

São contributos fundamentais para mais e melhor literacia. Para mais relação, aceitação e/ou impulso para a mudança ou transformação. São factores protectores da saúde mental, factores onde a arte assume um papel preponderante, nas suas múltiplas formas de expressão. Tratando o real ou ficcionando, o passado, o presente ou imaginando futuros.

Penso-o a poucas horas de participar na abertura da 7ª edição do Festival MENTAL (https://mental.pt) que faz da arte, e do cinema em particular, veículo para a promoção da literacia em saúde mental. Festival que tive o privilégio de conhecer ainda apenas como ideia, pela mão da Ana Pinto-Coelho, e que vi acontecer e crescer, ano após ano.

Penso-o a pensar nos “Sete Palmos de Terra”, série que acompanhou e profundamente me marcou no meu percurso de estudante universitário e que do 1º ao último episódio, me fez olhar as outras pessoas, as suas condições e particularidades, enquadrar comportamentos, emoções e tomadas de decisão e manter presente o refrão da música da sequência com que termina: “Sê meu amigo | Segura-me, envolve-me | Revela-me | Eu sou pequena/o e preciso | Aquece-me | Respira-me.” Penso-o a pensar no “olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras Mulheres”, com que Maria Lamas, minha conterrânea e “nome” da minha Escola Secundária, abre “As mulheres do meu país”, crónica do ser Mulher em Portugal nos anos 40.

Exemplos de como a arte (sempre a arte) nos permite pensarmo-nos, individual e colectivamente, olhar a outra e o outro com curiosidade e interesse e mobilizar as necessárias transformações individuais e colectivas para vencermos medos, a escuridão do desconhecido ou o sofrimento. Para podermos ser e sermos mais pessoa.

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25.4.

O 25 de Abril é, para mim (mas creio para muitas pessoas), um conjunto de valores fundamentais e estruturantes que também vivem das imagens, dos sons e das letras que o fizeram e fazem, ano após ano.

A iconografia da data é extraordinária e escolho, para este pequeno texto, a pintura de Maria Helena Vieira da Silva que assinalou o 10º aniversário do 25 de Abril, o meu primeiro em vida. Chama-se “Liberdade” e deambula em volta da ideia da árvore (vida), dos seus frutos e da pluralidade das letras que no seu conjunto formam a palavra liberdade.

Evoco-a pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo em que se enfraquecem, por vezes intencionalmente, mediadoras/es sociais, particularmente as/os jornalistas e a capacidade de vermos (intuirmos, percebermos, sentirmos) o todo perante o caso, o contexto e não apenas o exemplo, a palavra e não apenas a letra.

Os sons da data são também extraordinários e escolho a lembrança de ouvir Joaquim Furtado a ler o primeiro comunicado do MFA então às 04.00 daquela madrugada de 25 de Abril de 1974. “Aqui posto de comando (…) Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso (…) Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.”

Evoco-o pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo em que se polarizam, por vezes intencionalmente, as posições, empolando divisões e confrontos, transformando adversários em inimigos, fazendo do medo, do ódio e do ressentimento móbil para a tomada de decisão, acção e comportamento. Num tempo onde o bom senso sucumbe à voracidade da informação/comunicação. Também, por isto, a confiança, a ciência, a factualidade, a empatia e o cuidado com as outras e outros é tão fundamental e um jornalismo construtivo urgente, conforme defendido/promovido pela Margarida Alpuim e Prof. Dr. Katja Ehrenberg no projecto “Psychology for Journalists” (aqui o 3º texto sobre o sentido de comunidade e polarização).

As letras da data são também extraordinárias e escolho a “Inquietação” do José Mário Branco que, sem saber e querer, me e nos deu “duas datas extra em Abril”, uma a partir de 2010, outra de 2013. “Cá dentro inquietação, inquietação; É só inquietação, inquietação; Porquê, não sei; Porquê, não sei; Porquê, não sei ainda | Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer; Qualquer coisa que eu devia perceber; Porquê, não sei; Porquê, não sei; Porquê, não sei ainda.”

Evoco-a pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo que me inquieta. Que todas e todos, também com e pelo jornalismo e outras/os mediadoras/es, vivamos os valores para que tenhamos e geremos mais oportunidades de nos cumprirmos. De cumprirmos a possibilidade de liberdade para todas e todos.

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Columbine, 24 anos…

Elephant. Filme de Gus Van Sant, (parcialmente) baseado no massacre na Escola de Columbine, sobre o qual passaram 24 anos ontem. Quem, como eu, frequentava à época uma Escola como a de Columbine não esquece(rá) o massacre. Quem, como eu, vive o cinema, não esquece(rá) o filme, extraordinário. Quem, como eu, gosta de metáforas, do simbólico, de pormenores, não esquece(rá) a associação, via título e forma do filme, entre um assunto particularmente difícil e complexo (a realidade dos tiroteios nas Escolas nos EUA e a violência no geral) e a “parábola do(s) cego(s) e do elefante”, onde cada pessoa consegue descrever uma parte do objecto/fenómeno, mas ninguém consegue percepcioná-lo na sua totalidade e integridade.

Ontem, não por acaso quando passavam 24 anos de Columbine, acordamos com a discussão pública via comunicação social de um assunto antes em discussão privada (em grupos de mensagens) e pública, mas via redes sociais. Falo da “apelidada” ameaça de massacre em Escolas em Portugal, propagada e reproduzida via uma mensagem numa rede social e ao longo do dia classificada pelas autoridades como “brincadeira de mau gosto”, conforme aliás o título desta peça da SIC, na qual tenho um pequeno contributo/participação.

A peça abriu ontem o Jornal da Tarde, considerando algum alarme com a situação e procurando garantir informação sobre um fenómeno complexo, com diversas partes. O medo e como, enquanto emoção, influencia a nossa tomada de decisão e comportamento. O desconforto associado à imprevisibilidade, insegurança e falta de controlo, particularmente quando se trata de crianças e jovens, e a necessidade de procurarmos controlo e previsibilidade. A forma como a informação se propaga, se reproduz, se “refina” (ganhando pormenores e exemplos) via redes sociais, particularmente a que “joga” com emoções como o ódio, a raiva e o medo. Também, a forma como o viés da negatividade nos influencia para darmos mais atenção a eventos/acontecimentos negativos e, portanto, os considerarmos mais prováveis/possíveis.

Mais, a forma como em ambientes digitais mais despersonalizados, anonimamente ou não, pessoas (e pessoas mais jovens) são capazes de comportamentos que noutros contextos não existiriam, como forma de afirmação e/ou chamada de atenção. Ainda, a importância da literacia digital e da boa informação ocupar o espaço potencial da má ou da desinformação, particularmente quando a boa informação provém de mediadores/referências, como a comunicação social, personalidades públicas e autoridades que devem, como aconteceu, sem alarme, mas sem complacência, atender a estes fenómenos e procurar garantir o possível controlo e segurança.

Um elefante, portanto. Complexo, cheio de partes, ângulos, pormenores, difícil de descrever na sua totalidade e integridade e, até por isso, a necessitar que todos o olhemos, pensemos e previnamos.

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Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia (Ao redor…; 03.04.2023)

Estávamos sensivelmente a meio de Fevereiro e um texto de Miguel Esteves Cardoso terminava com um “É um princípio. É uma sensatez. É uma saúde.” O artigo tratava as questões da habitação e, independentemente do expresso no texto, ouso usar deste final porque, efectivamente…

É um princípio. Considerando que o acesso à habitação é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos. Considerando, também, a relação da crise na habitação com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e do isolamento. É um princípio, fundamental, ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.

É uma sensatez. Se passamos 80 a 90% dos nossos dias (e, portanto, da nossa vida) em ambientes construídos, maioritariamente na nossa habitação. Se as pessoas em situação de maior vulnerabilidade passam uma percentagem ainda mais significativa do seu tempo nestes ambientes e se, alterações recentes nos modelos de trabalho, com a maior generalização de modelos de teletrabalho ou híbridos, poderão ainda aumentar estas percentagens de tempo. Se a habitação (e as suas condições) é, na maioria dos índices, um dos factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países e se o sentimento de pertença, a privacidade, a segurança e identidade e mesmo o suporte social são essenciais à nossa qualidade de vida. Se as dificuldades no acesso à habitação fazem com que sejamos um dos países da Europa onde a população mais jovem mais tarde sai de casa, onde existem significativos tempos de percurso médio casa-trabalho e trabalho-casa. Se existe um número significativo de pessoas em situação de sem abrigo, de casas com más condições de habitabilidade e de pessoas em situação de instabilidade / precariedade habitacional. Se muitas pessoas vivem com pessoas desconhecidas ou com quem preferiram não viver (por exemplo, depois de terminadas relações ou mesmo uniões de facto ou casamentos), é uma sensatez debatermos o assunto na sociedade e, particularmente, encontrar e co-construir soluções eficazes para os problemas e desafios que se nos colocam.

É uma saúde. Quando sabemos da cada vez mais significativa evidência existente, que as más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade e que, muitas vezes, estas habitações se encontram em zonas ou bairros com condições precárias, às quais se associam questões como a poluição, carências de infraestruturas e acesso, maior exposição a frio e calor e até a stresse e outros mecanismos psicológicos associados a sentimentos de marginalização ou insegurança. Quando sabemos que “proprietárias/os” de habitações têm maior sensação de controlo, previsibilidade e segurança, essenciais à saúde mental e bem-estar, face a arrendatárias/os e, particularmente, a quem sofre de instabilidade habitacional. Quando sabemos que a precariedade habitacional, com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionados com problemas de stresse, ansiedade e depressão. Quanto a habitação periga a adaptação adequada e protectora a transformações de vida, quer seja a chegada de um/a filho/a, quer seja um divórcio ou a perda de mobilidade/autonomia e, quando a tudo isto, se somam o estigma social e o aumento de conflitos potenciais por ausência de privacidade em algumas casas ou de maior dificuldade de conciliação da vida pessoal e profissional, é uma saúde pensarmos em mais e melhores políticas que possibilitem mais e melhores condições de habitação para todas as pessoas, especialmente aquelas que estão em situação de vulnerabilidade ou em momentos mais sensíveis das suas vidas.

Por tudo isto é tão relevante que o debate que decorre na sociedade seja, antes de mais, mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight e literacia nas áreas da saúde e financeira à sociedade civil, além de informação e agência em torno destes temas, da complexidade dos mesmos e do facto de impactarem todas as pessoas e a sociedade como um todo. Depois, que se reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando os diversos constrangimentos que hoje impactam a saúde e que se criem condições para, mais contingentemente, apoiar pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição. Ainda que visem a criação de condições, e também se necessário de apoios mais substanciais e sustentados, ao acesso à “habitação inicial” para a população mais jovem e um estímulo a mais soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Ainda que, se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “é um princípio, é uma sensatez, é uma saúde” discutir como podemos ter mais, melhor, mais acessível, previsível e segura habitação. Desenhar um bom plano e concretizar medidas eficazes nesse sentido proporcionará mais saúde, quer física, quer reforçará um importante factor protector da saúde mental. Proporcionará, logo, mais possibilidade de bem-estar e qualidade de vida. Proporcionará, finalmente, e pela intersecção de desafios diversos da sociedade portuguesa com o problema e a crise da habitação, mais confiança na democracia, porquanto será o Estado e a sociedade a responder às principais dificuldades e preocupações da população. Investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso Serviço Nacional de Saúde, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.

 

Tiago Pereira

Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia

in Sábado (Ao redor…); 03.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/habitacao-saude-e-bem-estar-e-democracia

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O Psicólogo Responde – Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental? (CNN Portugal; 05.03.2023)

Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros

e a saúde mental?

Sim, existe e devemos ser totalmente claros na resposta a esta importante pergunta. Viver em situação de pobreza e de exclusão, tantas vezes a ela associada, é um dos principais determinantes de doença, incluindo doenças mentais. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica provoca stresse e sofrimento psicológico e afecta a saúde mental e o bem-estar.

Esta associação, que intuímos nas nossas relações e no nosso dia-a-dia, está hoje amplamente documentada por investigação que, inclusivamente, estuda impactos ao longo da vida e não apenas no presente. É por isso possível afirmar que o bem-estar financeiro, ou seja, a percepção de que temos condições materiais para satisfazer as principais necessidades e cumprir as principais aspirações, é um importantíssimo indicador de bem-estar. Já a sua ausência associa-se a problemas de saúde mental como a ansiedade, a depressão, o stresse, o uso abusivo de substâncias, problemas de sono e alimentares ou o isolamento.

Ter baixos recursos financeiros está também ligado a níveis menores de literacia em saúde mental. Resulta, também, em maior dificuldade em ter tempos de descanso, actividade física ou de lazer e, portanto, em menos oportunidades de autocuidado. Quem vive com dificuldades económicas tende a ter maior impulsividade, mais dificuldade em planear o futuro e a cometer mais erros, porque da escassez de recursos resulta um efeito túnel (concentração quase exclusiva numa necessidade premente que pode ser, por exemplo, o pagamento de uma conta, de uma dívida ou de uma renda) e, logo, menor disponibilidade emocional e cognitiva para a tomada de decisões e para a gestão do dia-a-dia.

Não se podendo dizer que viver em situação de vulnerabilidade económica resulta automaticamente no desenvolvimento de doença mental, importa ter presente que esta condição é um factor de risco. Como é, até, um dos factores de risco de suicídio.

Importa, porém, sublinhar que esta relação não é unidireccional, antes bidireccional. Ou seja, conforme a vulnerabilidade económica pode potenciar problemas de saúde mental, também problemas de saúde mental, como o stresse, a ansiedade ou a depressão, podem conduzir a uma maior probabilidade de se viverem situações de precariedade, desemprego ou pobreza. Nesse sentido, devemos ter presente a existência de uma relação cíclica entre estas duas dimensões de vida das pessoas. Quando uma piora a probabilidade da outra piorar aumenta.

Imaginemos uma corrida com outra pessoa e com diferentes séries em que se chegarmos em primeiro, partimos 100 metros mais à frente e se chegarmos em segundo 100 metros mais atrás. Imaginemos ainda alguém que parte atrás e perde a primeira série. Na série seguinte parte ainda mais atrás e a probabilidade de perder aumenta, aumentando também a possibilidade de na série a seguir partir ainda mais atrás e de voltar a perder. É um pouco assim com este ciclo dado que é ainda mais difícil a quem vive com vulnerabilidades económicas recuperar de um problema de saúde mental e a quem vive com problemas de saúde mental sair de uma situação de vulnerabilidade económica.

É por tudo isto que investir na promoção da saúde e da saúde mental também é garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão.

Sugestões:

Se vive em situação de pobreza ou de exclusão recuse, activamente, sentir-se (ou que o façam sentir) culpado por essa circunstância. A pobreza não resulta, na grande maioria das situações, de erros ou falhas pessoais, mas de circunstâncias sociais que a determinam.

Partilhe as suas preocupações e sentimentos. Partilhar as nossas preocupações com alguém em quem confiemos, incluindo as financeiras, pode fazer-nos sentir menos sós, mais apoiados e, até, ajudar-nos a encontrar novas estratégias e formas de resolução de problemas ou a lidar melhor com as nossas preocupações e sentimentos.

A pobreza, colocando em perigo maioritariamente a saúde e bem-estar das pessoas que a vivem, afecta todas pessoas, venham ou não a viver nessa condição, pelo que o seu combate deve ser abraçado por todas as pessoas.

Se estiver numa situação em que sente que necessita de apoio psicológico solicite-o junto do centro de saúde ou da unidade de saúde mais próxima de si. Pode, também, em situação de crise, contactar o serviço de aconselhamento psicológica do SNS24 (808 24 24 24) a qualquer hora e em qualquer dia da semana (chamada gratuita) e em situação de emergência o INEM (112).

 

Tiago Pereira

O Psicólogo Responde – Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental?

CNN Portugal; 05.03.2023

https://cnnportugal.iol.pt/dossier/o-psicologo-responde-existe-uma-relacao-entre-ter-baixos-recursos-financeiros-e-a-saude-mental/64009f010cf2cf9224fb8645