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COVID-19 Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses

Quem diria que nos 2 anos do gabinete de crise COVID-19…

Ontem passaram 2 anos do dia (13.3.20) em que a Ordem dos Psicólogos Portugueses criou o gabinete de crise COVID-19 que coordeno. Em 13.3.21 publiquei esta mesma imagem e escrevi: “Ano incerto, intenso e exigente, que nos colocou à prova nas capacidades de adaptação, resiliência e de superação. Ano em que a responsabilidade (propósito) que me foi confiada – a par do apoio/carinho da nossa casa, do empenho de toda a nossa OPP e da inspiração de tantas pessoas, incluindo colegas psicólogas/os – foi essencial ao meu bem-estar.”

Reflectia, grato pela confiança em mim depositada (agradeço ao Francisco Miranda Rodrigues) para uma tarefa de enorme responsabilidade, suportado numa equipa de um empenho incrível e por centenas de psicólogas/os que se envolveram no desenvolvimento/operacionalização do conjunto significativo (e importante a muitas pessoas) de iniciativas, contributos e recursos disponibilizados pela OPP. Acções que complementaram o trabalho imenso das/os cerca de 25.000 psicólogas/os que, ao longo destes 2 anos, mesmo com desafios/dificuldades consideráveis à sua intervenção, um pouco por todo país e em todos os contextos, estiveram junto das pessoas num período de disrupção das suas vidas, de perda e em que se viram desafiadas na sua saúde psicológica e bem-estar.

Hoje caminhamos já para uma 6ª vaga. Mas hoje a COVID-19 não é já o tema central. Também pelo que se avançou na gestão da pandemia mas, particularmente, pela angustiante invasão de um país Europeu e uma catastrófica guerra, com significativas consequências no presente e para o futuro da Ucrânia, da Europa e do Mundo. Uma Guerra que traz perdas, trauma. Incerteza e imprevisibilidade. Que questiona Direitos Humanos e que afecta, ainda que de forma distinta, todas e todos. Uma Guerra que reforça a necessidade de contributo da ciência e da prática das/os psicólogas/os na reparação e recuperação das pessoas e na necessidade de construção, em qualquer momento e lugar do Mundo, da Paz. Uma Guerra que nos volta a ocupar como grupo de missão e que, mais uma vez, levou a que já dezenas de psicólogas/os se envolvessem no contributo da OPP nesta grave crise.

Há um ano, também escrevi: “Pensar um dia pode passar por pensarmos 3 aspectos bons dele (aumenta a percepção de controlo) e agradecermos/celebrarmos algo com alguém (aumenta o sentimento de pertença). Faço-o, assim por importante, para este ano. Muitos desafios nos esperam. As pessoas e o país precisam de mais (e melhor) psicologia junto de si.” Reescrevo-o hoje com a mesma convicção e com a certeza reforçada da necessidade de desenvolvermos a nossa ciência e profissão para cada vez mais e melhor podermos contribuir para a autodeterminação e possibilidade de bem-estar de todas/os. Para a equidade e coesão social.

“O Mundo ou será salvo pelos psicólogos ou não será salvo de todo”. 64 anos após esta frase de Maslow, conhecemos, a cada dia mais, o contributo da psicologia para um Mundo “salvo”. Um Mundo de Direitos Humanos globais e de Paz.

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Comportamento COVID-19 Psicologia

Sim ou não?

Aceita um desafio? Experimente escrever num motor de busca (Google, por ex.) “yes or no” [sim ou não]. No meu caso devolve-me 3 080 000 000 resultados. Os primeiros três são de ligação a sites com rodas (tipo “roda da sorte ou azar”) que, com um clique, giram para decidirem (por nós e pelo acaso) um sim ou um não para uma pergunta façamos. Simples ou complexa. Seja de sim ou não ou não seja de sim ou não.

Estou certo de que nos últimos tempos foi confrontada/o com questões para as quais lhe pediram um sim ou não, mesmo que não as considerasse questões de sim ou não. Tão certo quanto de que a crescente polarização da sociedade (de causas múltiplas mas onde as novas formas de acesso e partilha de informação assumem centralidade) e a vivência de um longo período de incerteza/imprevisibilidade, estimulam a procura de um sim ou não para questões complexas e com nuances, reforçando “sins” e “nãos” a questões que não podem dessa forma ser respondidas.

Procurei afirmá-lo à Rita Costa da TSF quando, alguns dias antes da “reunião do Infarmed” de ontem, me perguntou se deveria ou não terminar a publicação do boletim diário da situação epidemiológica em Portugal. Na intervenção, que partilho, procuro reflectir sobre a forma como, efectivamente, junto de algumas pessoas, a exposição permanente a informação sobre a COVID-19 constitui um risco para a sua saúde psicológica, potenciando situações de stress, ansiedade ou depressão. Mas, também, sobre o facto da existência, disponibilização e publicação diária dos dados não ser, por si só, desencadeadora destas situações e, ainda, que a retirada ou ausência desta informação pode, também e em certas situações, produzir efeitos perniciosos nas dimensões mencionadas, na confiança e na diminuição de comportamentos de autoprotecção (das/os próprias/os) e heteroprotecção (das/os outras/os).

Em todo o caso, defendi que existem hoje dados e motivos para que, em simultâneo com alterações previstas nas medidas de prevenção/protecção definidas, se repense estrategicamente o modelo de comunicação de risco/crise para esta fase/momento, incluindo as matrizes e boletins existentes mas, sendo decididas alterações, devem estas ser clara e cabalmente enquadradas e explicadas, estimularem previsibilidade e reforçarem o controlo pelas pessoas, não permitindo, ainda, que a ausência de (boa) informação deixe espaço para má informação.

Apesar dos 15 meses volvidos, recordo parte da pronúncia do Supremo Tribunal de Justiça do Brasil quando voltou a “obrigar” o governo à publicação diária de dados da COVID-19: “À consagração constitucional de publicidade e transparência corresponde a obrigatoriedade do Estado em fornecer as informações necessárias à sociedade. O acesso às informações consubstancia-se em verdadeira garantia instrumental ao pleno exercício do princípio democrático.”

Transparência, clareza e confiança. Responsabilidade, coesão e democracia. Em Novembro de 2020, hoje e para o futuro. No Brasil, em Portugal e para o Mundo.

 

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COVID-19 Educação Psicologia

Estado da Educação – Edição 2021

Ontem, Dia de São Valentim, vimos (sentimos?) nas ruas mais manifestações visíveis de carinho, afecto e amor. Talvez algumas destas nos tenham estimulado a evocar uma célebre fotografia de um beijo nas ruas de Paris de R. Doisneau (1950). Esta foto, parte do nosso imaginário, fez muito pela ideia romântica da cidade Luz e foi um marco da carreira de um fotógrafo que, como poucos, retratou a vida social e uma “cultura de rua”, também de crianças e jovens de diferentes origens sócio-económicas, o que lhe valeu existirem muitas Escolas em França com o seu nome, celebrando-o.

Noutra evocação, esta pessoal, trago Doisneau porque o associo, em virtude da forma como fotografou as crianças nas ruas e nas Escolas, a um outro momento/retrato que acompanho há uma década com interesse pessoal (cidadão) e profissional (a partir da ciência psicológica): a publicação pelo CNE do Estado da Educação. A edição de 2021, a cuja leitura/consulta convido  retrata um 2020 com indicadores positivos, de um caminho de décadas que tem vindo a ser feito na Educação em Portugal, mas fortemente desafiados pelo impacto do 1º ano de pandemia, particularmente nas crianças e jovens com maiores vulnerabilidades. Neste sentido, além dos tradicionais indicadores, uma componente significativa do Estado da Educação 2020 nas suas partes II (Educação em tempo de pandemia: Estudos do CNE), III (Testemunhos) e IV (Reflexões) trata os impactos da pandemia na Educação (e não apenas), tendo a parte IV um artigo (A saúde mental dos alunos e dos profissionais na escola: Escolas como ecossistemas de bem-estar, saúde e aprendizagem) da responsabilidade da Margarida Gaspar de Matos onde participo com o Osvaldo Santos e a Sofia Ramalho.

Na página oficial de Doisneau são partilhadas respostas suas a um questionário de Proust com décadas (faleceu em 1994). À pergunta “O que mais gosta nas/os amigas/os?” responde “A cumplicidade incondicional”. Também aqui tratamos uma cumplicidade incondicional entre (possibilidade de) bem-estar – saúde – aprendizagem. Cumplicidade apenas cumprível com um contínuo investimento, hoje de urgência reforçada, na prevenção, promoção e recuperação, quando necessário, de cada um dos vértices deste importante – também longitudinalmente – virtuoso triângulo da Educação. Apenas cumprível se assumirmos as conclusões da Summit de Saúde Mental de Atenas (organizada pela OMS em Julho), partilhadas por vários países Europeus (incluindo Portugal), que reforçam a necessidade de colocar a “saúde mental no coração da agenda de recuperação pós-COVID-19”, “repensando os seus serviços no sentido de abordagens holísticas e humanas”, assegurando práticas “participadas” e de “elevada qualidade” e, não menos e importante, priorizando “crianças e jovens, particularmente impactadas com disrupções nos seus processos educativos e vida social”.

Sejamos, tanto quanto possível, incondicionais neste investimento e nesta urgência.

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COVID-19 Educação Psicologia

Geração COVID

Geração.

Um Amigo enviou-me um artigo: “Geração COVID – Como está a pandemia a afectar o cérebro (e comportamento) das crianças”. Bebés nascidos em pandemia com piores desempenhos na motricidade (fina) e em competências de comunicação. Crianças, na linguagem, funções executivas, desenvolvimento cognitivo e emocional. Efeitos do isolamento, do stress (também de cuidadoras/es), de menores oportunidades para brincar, das máscaras, fecho de Escolas e, particularmente, efeitos desiguais intensificados em contexto de vulnerabilidades económicas e sociais. “A magnitude é massiva”, milhões de bebés e crianças no Mundo. Centenas de milhar em Portugal.

Uma (outra) emergência de saúde pública que leva Deoni a defender a urgência de estimularmos cuidadoras/es formais e informais a brincar e amar as crianças. Uma (outra) emergência que implicou, implica e implicará permanente empenho para, de acordo com a melhor informação/recursos disponíveis, conciliarem-se medidas de saúde sanitárias com medidas de saúde psicológica.

Tenho-o defendido. Temo-lo, sempre, defendido.

Assim o fiz numa peça que partilho da SÓNIA BENTO (Sábado), sobre vacinação de crianças contra a COVID-19 e de situações de discriminação relatadas face a crianças (ainda) não vacinadas. Nela procuro lembrar as “múltiplas razões e realidades individuais e familiares, e não apenas o não querer, que justificam os números do processo de vacinação das crianças”, quando em Janeiro terão existido mais crianças infectadas/os (e/ou em isolamento) que em toda a pandemia, impossibilitando a sua vacinação. Quando existiram poucas oportunidades de vacinação de crianças, particularmente as mais pequenas (além da capacidade e da motivação, que deve ser estimulada, a oportunidade é fundamental ao comportamento). Lembro, ainda, que devemos “ter presente que a percentagem de crianças vacinadas em Portugal é significativa quando comparada com países que estão a recomendar/permitir a vacinação destas faixas etárias”, tal como noutras idades o que, com o comportamento das pessoas, tem permido que tenhamos sido um dos países da Europa com menores restrições nas últimas semanas (também nas Escolas) apesar da elevada incidência.

Finalmente aboredei “a compreensão das dúvidas e das incertezas” como garante da “confiança e facilitadores do estabelecimento de um diálogo esclarecedor”, sendo fundamental a empatia e a compreensão por oposição à estigmatização ou discriminação, ineficazes na promoção e estímulo à adesão a comportamentos.

Volto ao “Pai Motorista”: “Momento em que, compreendendo-se as restrições ainda necessárias, é fundamental um especial empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro”. Em Setembro passado, hoje e no futuro.

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COVID-19 Desafios da Psicologia

17.000km

Tonga é um dos países do planeta mais distantes de Portugal. Partilha com Samoa e com as ilhas Phoenix (Kiribati) o fuso horário GMT+13 que fez deles dos primeiros países do Mundo a chegar a 2022 (às nossas 11h da manhã de 31.12). Apesar disso, a erupção do vulcão Hunga no arquipélago e o tsunami que se lhe seguiu, além de significativos danos nas suas diversas ilhas, foi sentido a mais de 17.000 km de distância e 18h depois, na costa portuguesa. Tsunami que impactou mais o país, sentindo-se no Mundo. Um vírus que impactou mais o Mundo, sentindo-se no país (Tonga teve desde o início da pandemia apenas 1 caso confirmado de COVID-19 na sua população o que, ainda assim, levou a um “confinamento” da sua maior ilha). Fenómenos que nas suas causas, na sua imprevisibilidade e nas suas consequências nos lembram como o Mundo se faz de dependências. DE dependências muito sensíveis. Senão vejamos…

Recuemos dois anos. A 18.01.2020 o epidemiologista Neil Fergunson dizia que a sua preocupação relativa ao “novo vírus” estava a crescer e que era bastante improvável que os apenas 60 casos confirmados na China à data pudessem gerar 3 casos que se haviam confirmado fora da China. Já J. Farrar assumia que existindo ainda incerteza sobre o vírus e lacunas na informação, era já certa a existência de algum nível de “transmissão de pessoa para pessoa”.

Recuemos um ano. A 18.01.2021, António Costa, no final de um conselho de ministros extraordinário que aprovou novas medidas restritivas (apenas 5 dias após outras medidas), assumiu que estávamos “a viver o momento mais grave da pandemia” (167 mortes; 6702 novas infecções; 5165 pessoas internadas, 664 em unidades de cuidados intensivos por COVID-19 nesse dia). Hoje sabemos que estes números haveriam ainda de crescer para depois descer e para, com a actual variante, apenas as novas infecções ultrapassarem estes números.

Dois anos muito desafiantes, muito duros. Mas serão apenas dois os anos? Umas das diferenças da pandemia COVID-19 face a (outras) catástrofes prende-se com a incerteza da sua evolução e indefinição temporal. Outra com a generalização e globalização das suas consequências, nomeadamente pela alteração de comportamentos e rotinas (sociais) e dificuldades ou problemas de saúde mental no curto, médio e de longo prazo.

Tal qual nos lembram as (já pequenas) ondas que chegaram à nossa costa, é fundamental, para melhor enfrentarmos as (ainda) incertezas e indefinições, reflectirmos e investirmos na promoção na capacidade de controlo e de agenciamento das pessoas, particularmente as mais vulneráveis, apoiando a sua auto-regulação comportamental e emocional. Como é na reparação e reforço do contrato social, fulcral em momentos prolongados de crise(s), direcionando-o à possibilidade de florescimento e bem-estar de todas e todos, conforme preconiza a carta de Geneva do Bem-estar.

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COVID-19 Desafios da Psicologia

Incerteza(s)

Voltaremos hoje a vacinar (contra a COVID-19) crianças em Portugal, conforme acontece por estes dias em diversos países. Isto acontece inúmeros passos depois de um momento simbólico – a 1ª aprovação pela FDA (USA) da vacina da Pfizer para jovens adolescentes (12-15 anos) a 10.05.2021. Nesse mesmo dia, o Mundo perdia J. Kagan, um dos principais precursores da Psicologia do Desenvolvimento e do estudo da forma como as experiências, as relações e os processos desenvolvimentais no geral na infância e adolescência contribuem para o que somos (o que sentimos, pensamos e como nos comportamos) e quem somos (identidade) ao longo de toda a vida, sublinhando, sempre, o papel do contexto ao longo de todo o ciclo de vida. A este propósito, disse em 1972 que somos “bombardeados com incerteza no nosso dia-a-dia” e que uma das “motivações primárias das pessoas é resolver [anular, ultrapassar, diminuir] essa incerteza”.

As vacinas foram (são) um importantíssimo recurso das sociedades (infelizmente não de todas, da mesma forma) face à grave crise de saúde pública que enfrentamos há muito tempo. Em todo o caso, e talvez ao contrário da expectativa de parte significativa da população e das e dos decisores, não “anularam” (por vezes, nem diminuíram) aquele que é um dos principais desafios à saúde psicológica e bem-estar das pessoas – a incerteza, particularmente quando prolongada; a incerteza, que acresce imprevisibilidade à imprevisibilidade expectável da nossa vida.

“Mais um ano de pandemia e de tanta incerteza? Não sei se aguento”, 2º episódio do Podcast “Comum dos Mortais” do PQ produzido pela @Madremedia. Episódio assente em 2 diálogos da @Margarida Alpuim com a @Ana Rita Caldeira e comigo sobre o porquê da incerteza associada a esta pandemia ser distinta de outra(s) incerteza(s). Falamos de vidas “ioiô”; de restrições, oscilações e instabilidade; de uma “incerteza colectiva”, que a globaliza, intensifica e prolonga no tempo; de hipervigilância e ausência de espontaneidade; de cansaço; de um dia-a-dia também feito de experiências que nos reactivam momentos e experiências menos positivas e de como, ainda que neste contexto, podemos garantir algum controlo, segurança e previsibilidade, essenciais ao bem-estar. De como estes são fulcrais na nossa capacidade de auto-regulação e resiliência, essenciais à nossa saúde e saúde psicológica.

Mas falamos, também, do papel da aceitação da incerteza e imprevisibilidade como parte da vida. Construímos um diálogo que espero estímulo para reflectirmos sobre a incerteza que sentimos e como nos sentimos com e na incerteza. Para activarmos níveis de auto-compaixão que nos permitam vivenciá-la pessoalmente e de hetero-compaixão, empatia e de coesão social que nos permitam vivenciá-la colectivamente.

Estímulo para que resistamos, para que procuremos (e encontremos) propósito(s) e significado(s), para que estejamos “juntas e juntos”.

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Natal em Isolamento…

Da sequenciação da nova variante do SARS-CoV-2 à morte de Desmond Tutu, passando pela fuga de um cidadão português, a África do Sul tem estado em foco no nosso país. Foi assim neste Natal, com o agravamento da incidência e transmissibilidade atribuído, em parte, à variante Ómicron e com muitas pessoas e famílias a verem alterados os seus planos e a não cumprirem a expectativa criada.

A 24.12 conversei com a Marta Atalaya (@SICNoticias) sobre o significado de viver este momento numa situação de isolamento. Oportunidade para reflectir sobre o cansaço das pessoas face a tantos meses de uma incerteza que desafia a capacidade (grande, mas não ilimitada) de adaptação das pessoas, particularmente das expostas a maiores vulnerabilidades. Oportunidade para procurar estimular a naturalização possível do momento, particularmente face a tantas pessoas nossas próximas a viver uma situação semelhante em Portugal ou em países com quem temos fortes relações (a França e o Reino Unido por exemplo que dia após dia têm ultrapassado máximos de casos diários de infecções). Oportunidade para recordarmos quem, ano após ano, por outros motivos, vivencia o seu Natal de forma mais isolada e sofre com a solidão e/ou exclusão, problemas gravíssimos de saúde pública que temos entre nós e com os quais nos devemos sintonizar (e sobre eles actuar) 365 por ano, todos os anos.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E lembremos a importância de garantirmos o controlo, segurança e a previsibilidade (possíveis) em diversos aspectos da nossa vida, como a relação/conexão com outras e outros. Podemos fazê-lo promovendo novas formas de encontro, como é exemplo uma caminhada com alguém de quem gostamos, realizando actividade física e contactando com a natureza, factores importantes ao nosso autocuidado. Podemos fazê-lo promovendo novos momentos de celebração, intencionalizando a comemoração não apenas de datas mas também de realizações (um novo projecto/trabalho, o fim da pandemia), aumentando a nossa percepção de controlo e, pela partilha, o sentimento de pertença.

Resistimos 21 meses, lembremo-lo. E pensemos que um ano de transição, conforme o apelo do Sr. Presidente da República para 2022, depende de nos projectarmos no futuro e projectarmo-nos no futuro da nossa saúde mental. Na conversa discuto como os problemas de saúde psicológica nos encurralam a um presente amarrado pelo olhar constante ao passado. Como o futuro depende de apoiar pessoas em sofrimento e com problemas de saúde psicológica, nomeadamente com programas específicos de prevenção e intervenção na ansiedade e depressão nos cuidados de saúde primários (próximos das pessoas e contingentes aos seus problemas), junto das 3 em cada 10 pessoas que se estima que dessa intervenção beneficiariam.

“A minha humanidade está ligada à sua pois só juntos podemos ser humanos”, disse D. Tutu. Verdade ontem, hoje e em 2022. Verdade base da nossa possibilidade de vencermos esta pandemia e concretizarmos esta fundamental transição.

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade

Pela voz das crianças…

Há umas horas recebi uma notícia que senti como o “céu a cair-me sobre a cabeça” e, logo em simultâneo, a força de um amparo, apoio e de uma partilha capazes de o começar “a empurrar de volta ao seu lugar”.

Noite dentro, pensei nesta imagem e neste receio que noutras noite, já há muitos anos, lia contado nas histórias de um conjunto de habitantes de uma irredutível aldeia de Gauleses. Um receio, permanente, de algo pensado como não reparável. Diferente, tão diferente do que senti pela não-constância, pelo suporte e pelos recursos que tenho para lidar com a situação. Igual, tão igual ao que sentem pessoas em situação de pobreza ou exclusão prolongadas, isoladas ou com determinadas vulnerabilidades. Pessoas “cujo céu lhes caí sobre a cabeça” a cada dia e sem suporte ou recursos “para o empurrarem de volta ao seu lugar”.

No passado dia 10.12, no âmbito do webinar promovido pela EAPN – European Anti Poverty Network Portugal (A pandemia pela voz das crianças) participei num debate que discutiu os resultados preliminares do estudo com o mesmo nome conduzido pela Cátia Santos, Elizabeth Santos, Fátima Veiga, Paula Cruz, com a supervisão científica da Teresa Silva Dias. Estudo que creio relevantíssimo – também porque “dá voz às crianças”, às e os invisíveis da pandemia, ao partir das suas narrativas e dos seus discursos – na compreensão do agravamento das dificuldades e problemas de saúde psicológica, física, socialização, alimentação, aprendizagem ou do maior risco de abuso e violência, isolamento, ausência de tratamentos regulares e do aprofundamentos e cristalização de situações de pobreza e exclusão social. Tudo vivido, tudo experienciado, tudo, por vezes com tanta simplicidade mas tão profundamente, contado.

Na interessante discussão, com a Beatriz Imperatori, o Manuel Sarmento e a Rosário Farmhouse, falamos de protecção das crianças, particularmente as com maiores vulnerabilidades, do seu bem-estar, da necessidade de reforçar a sua participação e de promover a equidade. Falamos de família, de cuidadoras/es e de que Escola temos. Falamos do que a pandemia revelou mas também do que potencialmente informou para o futuro e para as políticas públicas de futuro.

Astérix – nome que não por acaso deriva do grego “pequena estrela” – fazia das relações, não apenas com Obélix, da sua confiança e da poção mágica que consigo transportava, forças para enfrentar e superar os desafios e se adaptar às adversidades, festejando, partilhando e celebrando as conquistas com toda a comunidade da sua aldeia nos banquetes de final de história.

Tomemos este exemplo e invistamos, hoje, nas relações, no desenvolvimento de competências, da segurança e da confiança, de instrumentos e recursos externos (apoios) de proximidade e contingentes, quando necessários. Invistamos e permitamos mais condições a mais pessoas (a todas as pessoas, potencialmente) para melhor lidarem com as suas (más) notícias, dificuldades e adversidades.

Para as “vencerem” e para o partilharem e celebrarem.

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COVID-19 Democracia Psicologia

Ciclo Confiança/Desconfiança na Pandemia…

Richard Jewell. 23 anos volvidos sobre os acontecimentos (JO de Atlanta; 1996), Clint Eastwood decidiu, com a habitual acutilância, dirigir um filme que revisitasse a história do segurança que alertou a polícia da existência de uma mochila com explosivos num evento no Parque Olímpico. Jewell foi de “herói nacional” a “principal suspeito” em poucos dias e, apesar de nunca formalmente acusado, a forma como a investigação e, principalmente, a comunicação social abordaram o caso (e as particularidades do segurança) tornaram-no para “sempre responsável” aos olhos de muitas pessoas, mesmo após E. Rudolph confessar a sua responsabilidade. A dado momento do filme diz Jewell: [Depois disto] “qualquer segurança que vir uma mala abandonada deve fugir e não avisar as autoridades (…) pois pode por elas não estar protegido”. Creio-a uma situação histórica relevante para pensarmos o ciclo de criação e perda de confiança, os seus impactos e como a desconfiança gera mais e mais desconfiança.

Ao longo desta pandemia, numa equipa superiormente coordenada pelo Miguel Ricou (que além de mim inclui a Helena P. Pereira, a Sílvia Marina e o Ricardo Picoli), temos estudado, em momentos distintos, o nível de confiança junto de um conjunto de profissionais, partindo de duas preposições base: que momentos de crise (significativa) têm impacto potencialmente significativo nos níveis de confiança com todas as consequências, num e noutro sentido, que daí advêm; que termos mais e mais permanentemente (longitudinal) informação sobre estas oscilações ajudará a suportar acções que previnam a desconfiança e promovam a confiança, enquanto elemento fulcral de coesão das sociedades (fundamental sempre, mas particularmente quando em situações de crise).

O 1º trabalho já publicado (COVID-19 Pandemic: Effect on Confidence Levels of Portuguese Towards People of Different Professions), apresenta e discute dados recolhidos em dois momentos (pré e pós-Verão 2020) e evidencia as e os profissionais de saúde (medicina, enfermagem, farmácia e psicologia), educação (professoras/es e educadores/as) e investigação como profissionais cuja confiança aumentou com a pandemia. Em sentido inverso, nos mesmos períodos, a confiança decresceu nas e nos decisores políticos e jornalistas. No artigo (e na notícia, de forma sintética), discutimos estes dados, mas também o facto de em alguns grupos profissionais, existir uma quebra de confiança significativa face a esse grupo entre o 1º e o 2º momento de recolha de dados, o que nos deixa pistas importantes para outros momentos do estudo e para o segundo trabalho que estamos a preparar.

Ao contrário do que terá afirmado Bismarck sobre Leis e salsichas, cremos fundamental compreender melhor o ciclo confiança/desconfiança em momentos societais distintos e com esse (pequeno, naturalmente) contributo, contribuirmos para uma sociedade (e organizações, políticas e pessoas) mais centrada na confiança e não na desconfiança.

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COVID-19 Psicologia Tomada de Decisão

“Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”

Alfa, Beta, Gama, Delta e, agora, Ómicron. As 5 variantes mais relevantes do vírus responsável pela pandemia que vivemos e que, pelos seus múltiplos e significativos impactos, resulta(rá) numa divisão do tempo de um Mundo pré-pandemia (antes da COVID-19), em pandemia e pós-pandemia. Variantes que confirmam, apesar de longos meses de medidas de saúde pública restritivas e de desenvolvimentos da ciência, o contexto de imprevisibilidade e de incerteza que vivemos. Ontem o Director-Geral da OMS citou Albert Camus (“A Peste”) na abertura da Assembleia Mundial da Saúde: “as pragas e as guerras continuam a surpreender-nos”. Assim era em 1947, é-o hoje e sê-lo-á no futuro.

A este propósito, em entrevista à Sábado, afirmei a necessidade da adopção de uma “postura conciliadora” com pessoas e grupos que hoje se manifestam na Europa a propósito da nova “onda” de restrições decidida por autoridades de diversos países. “Não podemos estigmatizar os que têm dúvidas legítimas sobre as vacinas”, disse, sintetizando a necessidade dessa postura conciliadora quando existem hoje muitas pessoas “que reconhecem o perigo da pandemia e até se vacinaram, mas que chegaram a um estado de saturação pandémico que as leva a demonstrarem a sua indignação” e que não “se tratam [apenas] de negacionistas”.

Na peça foco quatro aspectos que julgo essenciais na compreensão de imagens de protestos que há meses consideraríamos improváveis: a fadiga pandémica e a exaustação das restrições; a vulnerabilidade emocional e a maior irritabilidade, irascibilidade e dificuldade de autorregulação das pessoas; a baixa percepção de risco; e o aproveitamento por pessoas e grupos com objectivos políticos/ideológicos da desconfiança.

Procuro, também, reforçar a importância de investirmos na (boa) comunicação, protegendo a confiança e a coesão social, desde logo comunicação personalizada e próxima junto de quem tem dúvidas (legitimas) sobre as vacinas (e outras medidas), “não alienando ou estigmatizando essas dúvidas, sob pena de contribuirmos para maior polarização e menor adopção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais”.

Finalmente, abordo o papel das normas sociais e da observação do comportamento das outras pessoas na tomada de decisão e os riscos que se correm de, a médio e longo prazo, termos mais dificuldades na promoção da responsabilidade, vacinação e adopção de comportamentos de protecção pelas pessoas se optarmos por medidas como a vacinação obrigatória ou o vedar sem alternativa dos locais públicos às e aos não-vacinados, por oposição a medidas que procurem, empatizando e promovendo a conexão com estas pessoas, perceber as suas motivações e estimular a mudança voluntária, tendo presente que num contexto de incerteza como o que vivemos, as medidas devem considerar o presente mas também o futuro e, nesse sentido, a procura do reforço da confiança e da coesão social, principais garantes da compreensão e aceitação da necessidade de mudança quando nos deparamos com novos factos ou desafios.