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Comportamento COVID-19 Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Visão é significado; Significado é história.

Como eu, certamente têm autoras/es, cantoras/es, séries, filmes ou lugares a que, ao regressarem, sentiram terem gostado menos que quando os leram, ouviram, viram ou sentiram na primeira vez. Assim senti com a série “True Detective”, cuja 1ª temporada é (a meu ver) muito mais interessante que a 2ª e que tem num episódio uma frase de imenso impacto em mim que aqui destaco: “visão é significado; significado é história”. Se assim foi com a série, assim não é com a “minha aldeia” (Lapas), onde permanece parte significativa da minha família e parte do significado (da [minha] história), conceito de uma importância e complexidade extrema, pelo que releva e revela do que nos sucede e damos valor, e porque não sendo objectivo (não existe fora de nós e não é absoluto) também não é subjectivo (não resulta da construção de uma única pessoa).

Uma parte deste significado é co-construída e partilhada também por rituais repetidos, entre comunidades e gerações. Um, a leitura, ora profunda ora de soslaio, do jornal local que a cada 6ª feira entrava nas casas de tantas pessoas da minha aldeia e, em cima daquela mesa (como de tantas outras da aldeia) passava dias até ser substituído pelo novo que chegava na semana seguinte. Falo do jornal “O Almonda”, semanário com 5394 edições, sempre presente no meu dia-a-dia e imaginário de infância/juventude e portador de notícias e informações que me eram indiferentes, claro está, mas também de algumas das melhores (dos meus próprios resultados desportivos aos filmes que chegariam à cidade na semana seguinte) e das piores notícias daqueles momentos (talvez de sempre).

E sim, são mais de 100 anos de edições semanais, iniciadas no duplamente simbólico 1918 – ano do final da I Guerra Mundial e de início da pandemia da gripe pneumónica. Curiosamente, 104 anos depois, uma entrevista (contributo) minha fez capa da edição de 01.04.22 destacando que a “Pandemia e [a] guerra na Ucrânia agravam saúde mental dos portugueses”. Outra pandemia e outra guerra, mais de 100 anos depois, a lembrarem-nos com violência e sofrimento que a história pode repetir-se e o quanto as consequências da repetição resultam da forma como (com que recursos e vulnerabilidades) enquanto pessoas, comunidade e sociedade chegamos às crises e adversidades. Na entrevista reflicto sobre estes aspectos, destacando o que podemos fazer, ao que devemos estar atentas/os, que estratégias podemos mobilizar e que apoios são essenciais disponibilizar. Discuti o acolhimento de pessoas em situação de refugiada/o, as crianças/jovens, o futuro e como é essencial promover a saúde mental.

Um pequeníssimo (mas empenhado e emocionado) contributo meu para a minha comunidade conforme os que recebi, alguns de pessoas que sei que agora me leram. Também porque creio que a visão (futuro) também é o significado que damos à nossa história (passado), reconhecendo o seu papel e retribuindo como posso para a co-construção desse significado. Partilhado, significativo.

 

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

Fadiga da Solidariedade? (Ao redor…; Sábado; 06.04.2022)

Sabem aquele calorzinho que sentimos nos músculos após uma longa caminhada, uma corrida ou a prática de outra actividade desportiva? A fadiga muscular é, como todas e todos sabemos e sentimos, uma reacção fisiológica despoletada quando os músculos do nosso corpo realizam um esforço superior ao que habitualmente realizam ou limite, podendo ser influenciada por outros factores como o período e qualidade de repouso anterior. É, também, uma analogia particularmente eficaz para outras fadigas, mais psicológicas, que todas e todos, em momentos e com intensidades distintas, podemos sentir. Da muito discutida fadiga da pandemia, enquanto sentimento resultante da sobrecarga associada à necessidade constante de hipervigilância e de respondermos a medidas restritivas com impacto e alteração do nosso quotidiano, à fadiga da compaixão, que resulta da exaustão emocional que, profissionais de cuidado ou de “primeira linha”, podem desenvolver pelo trabalho continuado com pessoas em perda, luto ou com trauma e em que, por vezes, os problemas dessas pessoas se misturam com os seus problemas, sem o “filtro da racionalidade”, essencial à empatia e, sucessivamente, a uma empatia equilibrada e activadora de uma acção de apoio e colaborante e não apenas reforçadora do que já sentimos e por isso potencialmente paralisante.

Fadiga muscular, fadiga da pandemia, fadiga da compaixão. Tudo a mostrar-nos que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade de relação, de cuidado, de empatia, de nos centrarmos na e no outro e nas suas necessidades, é grande, mas, também não é ilimitada e é, em muito, dependente da nossa própria condição.

O complexo tempo que vivemos é, creio, propício a que reflictamos e nos perguntemos se assim é também com a solidariedade. Será, também, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? Permeáveis a uma percepção ampliada do esforço delas decorrentes? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra da Ucrânia que há semanas nos confronta e mobiliza e aos movimentos amplos individuais e sociais-comunitários que assistimos em Portugal e um pouco por toda a Europa?

Sim, creio que a resposta é sim. Porque, talvez conforme já sintamos, as notícias não são já tão abundantes; porque possivelmente não as procuramos com a mesma frequência e afinco; porque estamos hoje menos sensíveis ao tema; porque a guerra já não é tão “urgente e emergente”; porque conversas sobre ela já não se diluem da mesma forma por toda e qualquer conversa e, um pouco por tudo isso, pode considerar-se mais naturalizada nas nossas vidas e dia-a-dia, não tão saliente e proeminente e por isso ser um foco cada vez menos exclusivo da nossa atenção. Este fenómeno diminui a pressão social para a resposta e a necessidade de agenciamento e proatividade, diminuindo dois fortes incentivos à activação solidária, permitindo tornar mais proeminentes outras necessidades nossas ou de pessoas mais próximas face à população migrante ou refugiada resultante da guerra.

Se assim é com as pessoas, assim é com as sociedades e com as e os seus representantes. Este progressivo desfocar, a guerra de informação e desinformação que gera desconfiança e insegurança na sociedade civil, eliminando paulatinamente o suposto unanimismo face a uma ideia de “inimigo comum” e as consequências socioeconómicas que nos atingem e que trazem perda, imprevisibilidade e incerteza a um país já muito marcado pelas diversas perdas, pela imprevisibilidade e incerteza que marcaram os últimos 10 anos abrem espaço a que políticos e outros e outras líderes legitimem discursos tipo “nós Vs. outras/os”. Como o fez nos últimos dias, Andrej Babiš, ex-primeiro ministro e agora “líder” da oposição na República Checa, quando afirmou que o governo do seu país está a “priorizar refugiados face aos cidadãos nacionais”, palavras não despicientes num país em que quase dois terços da população defendem que os apoios à população em fuga da Ucrânia devem limitar-se a poucos meses e em que apenas uma em cada quatro pessoas defende apoios sociais e de alojamento para esta população. Não conhecendo estudos para Portugal – e embora creia e confie, não sem orgulho e também por isso com viés, que seriam bem diferentes – com o passar do tempo crescerá algum deste pensamento e posicionamento, mais ou menos explicito, face à população refugiada da Ucrânia, hoje já existente face a outra população refugiada ou requerente de asilo. Posicionamento que, classicamente, usa do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida” e aos “recursos disponíveis”, para benefício próprio, de afirmação pessoal e política. Mas, também classicamente, a história diz-nos no que resulta esse discurso e essa utilização do ódio, do medo e da insegurança – no caminho oposto à construção e promoção da Paz, o do “encerramento”, do conflito violento, da guerra.

É por isso – e sim, porque creio possível uma fadiga da solidariedade – que importa reforçar e advogar que decisoras e decisores, responsáveis e lideranças estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites, e não sejam complacentes com discursos e práticas legitimadoras de discursos de ódio, discriminação e/ou de diminuição de direitos. Que importa reforçar a necessidade de humanização, de responsabilidade social e de cuidado com outras e outros face à perspectiva de percurso de despersonalização e de um progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. A este propósito devemos recordar o impacto que imagens e histórias que personalizam têm na mobilização da sociedade civil e na percepção da necessidade de apoio, acolhimento e integração de pessoas em situação de particular vulnerabilidade. Impacto que pode ser facilmente comprovado pelo aumento abismal da pesquisa da palavra “refugiados” e da curva em forma de “U” invertido de apoio às instituições humanitárias pós imagem do pequeno Alan Kurdi, criança Síria em fuga de uma guerra de uma destruição imensa, caída morta numa praia da Turquia ou o papel que a imagem hoje conhecida como “napalm girl” teve na mobilização da opinião pública aquando da guerra do Vietname. Que importa que sintamos e saibamos que todas e todos, um dia, podemos ser estas pessoas que, em bom rigor, são parte de nós. São nós, infelizmente noutra circunstância que não desejavam, contra a qual lutam e pela qual sofrem.

É, também por isso, que respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários de tantas e tantos profissionais de diferentes áreas, este esforço e compromisso deve sempre ser enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo, por vezes não compatíveis em exclusivo com respostas baseadas em voluntarismo, cuja dimensão e intensidade são irregulares e dependentes da urgência do momento.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando a espuma dos dias – essa visual expressão de Boris Vian – se desvanecer, quando o som das sirenes não nos confrontar, quando a urgência se transformar numa (absurda, é certo) rotina surgirão as brechas, as falhas, que, como as geológicas, libertarão energia e provocarão pequenos ou não tão pequenos abalos na nossa confiança, na nossa coesão, na nossa solidariedade. Pense-se França e as oscilações nas intenções de voto face às eleições presidenciais dos próximos dias 10 e 24 de Abril – data da segunda volta que, simbolicamente, nos deve fazer reflectir, particularmente num país que nos é tão referente. Recordemos que uma das principais prioridades da política externa da União Europeia é garantir a segurança dos Estados-Membros, segurança que depende da confiança, da coesão (harmoniosa), da solidariedade, do apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Recordemos, ainda, que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção e promoção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 06.04.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-voce-quem-mataria

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Desafios da Psicologia Educação Psicologia

Da gratidão… FLAD/OPP Saúde Mental no Ensino Superior

Ao contrário de quando nos confrontamos com sofrimento psicológico – onde o presente parece aprisionar-nos entre um passado de “mágoa e/ou culpa“ e um futuro “impossível” – ontem senti-me grato. Grato por um presente que sucede a um passado de desenvolvimento e concretização de uma ideia. Grato num presente a olhar para um futuro que contará com o estímulo do programa que resultou dessa ideia. Grato por participar neste processo da primeira às futuras horas e em fazer este caminho com a Liliana Valpaços, com o apoio de toda a equipa e administração da  (liderada pela Dr.ª Rita Faden) e com o Francisco Miranda Rodrigues, a Ana Isabel Lage Ferreira (júri) e tantas outras pessoas da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Grato e orgulhoso por me ter cabido a sua apresentação.

Nela, mais que pormenorizar o edital (abaixo), procurei, a partir da “genealogia viva” do Gil (meu 2º filho), revisitar 9 décadas de gerações, da sua bisavó (Silent Generation) à sua geração ainda sem nome. 9 décadas de mudanças em Portugal e no Mundo que comparam com os seus 9 meses de vida num tempo de COVID-19, de lançamento da Space-X (viagens comerciais ao espaço), do relatório da ONU que regista a 1ª morte humana em contexto guerra decidida exclusivamente pela IA e da Guerra na Ucrânia. 9 meses que nos confrontam com o acelerar do tempo e com a complexidade, ambiguidade, volatilidade, incerteza e imprevisibilidade do que nos espera, um tempo de forte ameaça à saúde mental num momento em que dela muito necessitaríamos para nos adaptarmos com bem-estar às adversidades e aos acontecimentos de vida. Reflecti, ainda, sobre a visão e coragem da FLAD, ao, com o nosso apoio, financiar projectos de serviços de saúde/psicologia de instituições do ensino superior públicas (até 3 com pelo menos 1 de regiões interiores | 100.000€) a partir de 4 pressupostos: base na melhor evidência disponível e por isso centrados na prevenção, promoção de literacia, saúde (mental) e de competências sócioemocionais; focados na promoção resiliência (não apenas na recuperação); considerando a saúde mental e sua promoção e não apenas a doença mental ou a sua ausência; com propósito de servir de estímulo ao futuro e a novas e boas práticas neste domínio.

Na sessão interveio ainda a Diana Aguiar Vieira, PhD, houve um debate moderado pela Sara Antunes de Oliveira entre a Cheila Tomás Marques (estudante) e a Mariana do Canto e Castro (Diretora de RH), encerrando com a Sr.ª Ministra da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Elvira Fortunato a reforçar a importância de se aprofundarem as respostas, também de prevenção, na área da saúde mental no ensino superior (sessão completa em: https://lnkd.in/dfnv2nQ8).

Ps. Informações (e formulário de candidatura – até 19.06.22) sobre o Programa FLAD/OPP Saúde Mental no Ensino Superior em: https://lnkd.in/dsQix_et

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Democracia Desafios da Psicologia Política

Putin: 5 centímetros de altura fictícios, 30 anos de medo real (CNN Portugal; 08.03.2022)

“O medo é um catalisador de bom senso.” São estas as palavras que H. Malmgren, ex-conselheiro de vários presidentes dos EUA, guarda de uma conversa com Putin em 1992 em que este lhe explicou como, na ausência de uma lei sobre direitos de propriedade, os litígios eram rapidamente resolvidos na Rússia com um jantar entre representantes armados de cada uma das partes litigantes, dispensando anos de desnecessárias disputas jurídicas. Mais tarde, Putin utilizaria argumentação semelhante relativamente a conflitos entre países para os quais a solução, a seu ver, resultaria do medo gerado pela possibilidade de respostas desproporcionais ao conflito por uma ou pelas partes. Num pequeno texto, Malmgren conta-nos como Putin usa esta emoção natural (medo) como veículo de pressão em conflitos e disputas e como racionaliza a sua utilização, apresentando-a como estímulo ao bom senso.

Quando extremo, o medo paralisa como porventura saberemos por já o havermos experienciado e sentido. Interfere negativamente na vida de pessoas, grupos e comunidades e faz-nos sentir presos, encurralados e indisponíveis para prosseguirmos actividades e projectos de vida, para nos cumprirmos e realizarmos. O medo extremo comporta sofrimento psicológico e partilha com o sofrimento psicológico o agrilhoar da pessoa a um presente que é marcado pelo passado e nos impossibilita, pela ansiedade, de nos libertarmos para um futuro diferente. O medo usa do passado para impactar o presente e o futuro, podendo determiná-lo.

Apesar do seu papel primordial de protecção, o medo não sendo normalmente racional, é, não raras vezes, utilizado e instrumentalizado junto de pessoas ou grupos por pessoas ou grupos que se percepcionam em “vantagem” (superioridade) mas também por pessoas ou grupos que se percepcionam em “desvantagem” (inferioridade). A utilização do medo como estratégia ou “arma” possibilita, pelas suas consequências e impactos opressores, o enfraquecimento do(s) outro(s). Pode ainda, paralelamente, garantir atenção e espaço mediático pela forma como influencia várias dimensões da vida das pessoas e altera a vida nas sociedades. Assim é quando um atentado provoca terror junto da população. Assim é quando um grupo como o Estado Islâmico mostra imagens que horrorizam e atemorizam a população. Assim é quando Putin ameaça, agride (física e psicologicamente) ou invade.

Putin apresenta-se ao Mundo como medindo 170 centímetros mais, pelo menos, 5 cm do que efectivamente medirá. Simbolicamente tem como grande referência Pedro, o Grande, imperador russo, fundador da sua São Petersburgo natal e responsável pela modernização e reforma do país na transição do século XVII para o século XVIII. Usa (e abusa) da história (da sua visão e interpretação da história) para, no que se intitula de uma “guerra híbrida” – usando das novas tecnologias de informação e comunicação, incluindo os media e a diferenciação e personalização de mensagens e ataques – impactar a vida de um número cada vez mais significativo de pessoas e grupos. Usa das vulnerabilidades de líderes políticas e políticos que o seguem (ainda hoje), pelo que representa no questionar de um certo progressismo social, de uma ordem democrática liberal ou em virtude as condições e apoios que lhes concede. Usa das vulnerabilidades de pessoas que sofrem com a pobreza, a precariedade, a migração forçada, a exclusão e/ou outras condições que as tornam mais suscetíveis e vulneráveis à sua propaganda da ideia de um Mundo que necessita de uma grande, influente e extensa Rússia. Usa, finalmente, da incompreensão generalizada que, do outro lado da guerra, não se encontra a ausência de guerra, mas a Paz – Paz essa impossível quando existe qualquer tipo de violência, agressão, opressão e/ou deslegitimação.

Sabe-se hoje que, forçadamente ou por seu desejo, Putin viveu particularmente isolado durante os últimos dois anos de pandemia. Menos exposto à diferença, à diversidade, ao contraditório, terá aprofundando e sido reforçado na narrativa histórica que construiu. Durante esse período, também certamente percepcionando “janelas de oportunidades” no momento que vivemos, intensificou a propaganda e a utilização da desinformação e da destabilização de países e governos, bem como publicou um marcante ensaio sobre uma pretensa “unidade histórica de russos e ucranianos” que na sua visão se consubstancia num “único povo” hoje não cumprido pela criação artificial de um território que tende, se não a não legitimar, a não totalmente reconhecer – a Ucrânia. Retorna, portanto, ao ideal e ao movimento identitário de não reconhecimento do outro e da diversidade, hoje politicamente em voga num Mundo e numa Europa demasiado necessitados de respostas simples, fortes e, por vezes, salvíficas para os muitos e muito complexos desafios societais contemporâneos.

Conforme a ciência psicológica pode contribuir para a compreensão de fenómenos como o medo, a solidão/isolamento, o encerramento e o efeito de “bolha” de grupos fechados ou a percepção das forças/fraquezas/vulnerabilidades, também, pode (e deve) contribuir para a sua prevenção e para a construção da Paz. Mais do que a partir de um modelo tendencialmente biomédico, de procura das doenças (incluindo mentais) do líder, que possam neste caso justificar as acções e intenções do regime russo, precisamos de pensar a grave crise e a guerra que vivemos considerando dimensões psicológicas e sociais. Considerando que, factualmente, a guerra não é uma inevitabilidade, embora também não seja uma impossibilidade. Considerando que é hoje claro que é cientificamente incorrecto que os seres humanos tenham uma predisposição inerente para o comportamento agressivo, para a resolução violenta de conflitos ou para a guerra. Enfatizar essa incorrecção deve ser o pilar base para a promoção da convivência, dos relacionamentos entre pessoas e grupos e da Paz. Considerando, ainda, que é incorrecta qualquer percepção de que o tempo e a sua passagem, por si só, resolverão traumas passados, sejam eles pessoais ou colectivos, sendo, portanto fundamental desenvolver acções de reparação histórica, de pacificação do presente e de construção de um futuro sem violência.

Termino como comecei: voltando a Malmgren. No mesmo texto diz também que a Rússia, quando Putin chegou ao poder, “precisava desesperadamente de um líder forte”. A Rússia acreditou que precisava dele. Putin acreditou na sua visão da e para a Rússia. O Mundo mudou. Putin vê o Mundo não como o Mundo é, mas como ele é, a partir da sua própria propaganda, reforçada pelo seu círculo próximo e pela sua interpretação das vitórias e objectivos que até hoje cumpriu. Isso não muda(rá). Conseguirá a Rússia, além de reconhecer que não precisa(va) dele, sair da sua propaganda e desvincular-se de Putin? Aqui está parte significativa, que merece a meu ver ser investida, de um caminho para a Paz. Oxalá consiga porque, assim, mais facilmente poderemos aspirar a um Mundo sem medo que possa olhar e reparar o passado para se projectar no e para o futuro. Um Mundo sem medo de ser o que é, do tamanho que é. Sem medo da autodeterminação dos povos, dos direitos humanos e de se cumprir. Um Mundo de Paz.

 

Tiago Pereira

in CNN Portugal; 08.03.2022

https://cnnportugal.iol.pt/guerra-ucrania/tiago-pereira-psicologia-em-tempo-de-guerra-putin-5-centimetros-de-altura-ficticios-30-anos-de-medo-real/20220307/62261e9a0cf2cc58e7e73b12

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Desafios da Psicologia Política

Fadiga(s)

Fadiga, palavra fortemente associada ao cansaço, provém de fatigari cuja tradução inclui a ideia de “fazer desabar”. De ruir. Se pensarmos em diversas fadigas – muscular, pandemia, compaixão – percebemos que nos mostram (por vezes com sofrimento) que temos limites. Que, conforme a nossa capacidade de adaptação (que é grande, mas não ilimitada), a nossa capacidade física, de permanecer hipervigilantes e responder a medidas restritivas e de relação, cuidado e empatia, são grandes, mas, também não são ilimitadas e, em muito, dependentes da nossa própria condição. Serão, assim, a atitude e as acções solidárias permeáveis à fadiga? E, se sim, é expectável que isso possa acontecer relativamente à onda de solidariedade que assistimos em virtude da guerra na Ucrânia?

“Fadiga da solidariedade?”, 30º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) responde com um “sim, creio que a resposta é sim”. Também, porque, conforme já sentimos com a menor abundância de notícias e de sensibilidade e “urgência” associada ao tema, há hoje mais efeito de “naturalização” e a correspondente diminuição da pressão social para a resposta e para a necessidade de agenciamento e proatividade, fortes incentivos à activação solidária. Ainda porque determinadas/os líderes, representantes e decisoras/es usam hoje do discurso de ódio, da diferença, do medo e de um suposto ataque a um “modo de vida/recursos disponíveis” associados a esta situação para benefício próprio, de afirmação pessoal e política.

Por tudo isto importa reforçar e advogar que estimulem a empatia e a compaixão, ao invés de aproveitarem os seus limites. Que promovam a humanização e a responsabilidade social prevenindo a progressiva despersonalização e o progressivo caminhar de “pessoas com nome e história” para “pessoas número”. Ainda, respeitando, apoiando e valorizando os contributos técnicos voluntários, que este esforço e compromisso seja sempre enquadrado em respostas integradas, baseadas na melhor informação e ciência disponível, considerando que pessoas em situação de particular vulnerabilidade necessitam de intervenções, respostas e apoios particularmente preparados, especializados e continuados no tempo.

Recordemos que uma das prioridades da política externa da UE é garantir a segurança dos Estados-Membros e que esta depende da confiança, coesão (harmoniosa), solidariedade, apoio mútuo aquando de dificuldades e da resiliência colectiva. Que a integração bem-sucedida e a reparação (psicológica e social) são garantes fundamentais ao bem-estar das pessoas e à construção da Paz. Recordemos e ajamos, não apenas quando é simples, automático e unânime fazê-lo, mas também quando é desafiante, dependente da intencionalização e fonte potencial de crítica e conflito. Ajamos na certeza de que no futuro, quando pensarmos o tempo presente, não sintamos não ter feito o que poderíamos e deveríamos ter feito. Cuidemos, hoje, por amanhã. Pelo nosso planeta, nossa saúde, lema deste dia Mundial da Saúde.

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Pobreza e Desigualdade Psicologia

Um robalo… Um simples robalo.

Um robalo… Delicioso, é certo, mas num local simples, construído pela mão e sonho de quem pesca o peixe que ali se vende. Comemos ontem um robalo, delicioso, num simples (mas bom, como tantos) restaurante deste nosso país com 1860 km de costa (continente e RA dos Açores e Madeira). Porém, comemos o que, infortunadamente, tantas famílias em Portugal não poderiam ter comido ou que para o fazerem teriam que fazer um conjunto de escolhas exigentes e difíceis. Um país onde muitas e muitos não conseguem comer um robalo num restaurante simples. Não podem ir a um restaurante simples. Um país onde a pobreza (e exclusão) afectam, ainda, uma percentagem muito significativa de pessoas. Onde 1,9 milhões de pessoas viviam em 2020 em risco de pobreza, 18,4% da população face a 16,2% em 2019, aumento em parte explicável por uma pandemia que continuou em 2021 e, embora noutro grau, se cruza hoje com a Guerra que vivemos.

Perda, incerteza, imprevisibilidade a que se soma perda, incerteza e mais imprevisibilidade. Uma taxa elevadíssima de risco de pobreza que a todas e todos deve confrontar e mobilizar; outras vulnerabilidades económicas e sociais; problemas de saúde física com detecção e intervenção precoce diminuta nos últimos anos; problemas de saúde psicológica mais presentes, frequentes e graves; eis como chegamos à crise de inflação e que, embora ainda não previsível, poderá a médio prazo transformar-se numa inquietante estagflação – conjugação da inflação com (a embora para já não previsível) estagnação económica.

“O dinheiro não traz felicidade”, costumamos ouvir, senão dizer. Parece, efectivamente e de acordo com a ciência disponível, não trazer bem-estar mas (e este mas é muito importante) apenas a partir de um valor de rendimento disponível das pessoas e das famílias bastante acima do limiar de pobreza. Antes desse valor, traz. Bem-estar e saúde, incluindo, naturalmente, saúde psicológica. Porque, viver em situação de pobreza (de escassez) ou de risco de pobreza (risco de escassez), acresce significativamente o risco de doença, de problemas de saúde psicológica, de perda de anos de vida com qualidade. Que, por sua vez, acresce significativamente risco de pobreza, criando um ciclo nada virtuoso e um dos principais e mais complexos desafios societais contemporâneos.

O trabalho “Impacto da pobreza na saúde” da jornalista Rita Caetano (SABER VIVER; Março de 2022) refecte este ciclo. Nele afirmo que “diminuir os determinantes das situações de pobreza é promover a saúde mental e vice-versa”. Nele afirmo que a pobreza condiciona a “possibilidade de desenvolvimento pleno da pessoa, de bem-estar e até em algumas situações da sua dignidade”. Assim considero, conforme considero que, sendo difícil e complexo, temos no país, condições, competências e recursos que permitem uma acção determinada no combate à pobreza e à exclusão. Conforme considero, ainda, que é tempo desta ser prioridade absoluta do país, porque tudo e todas e todos impacta. O presente e o futuro.

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

E você, quem mataria? (Ao redor…; Sábado; 22.03.2022)

Suponha que um carro autónomo vai na direcção de 5 pessoas que atravessam uma estrada, que a sua velocidade/distância torna potencialmente mortal o embate e que tem apenas uma opção: nada fazer, mantendo este embate, ou desviar o carro para uma parede matando a/o passageira/o. Quem mataria? Isto nos questiona a “moral machine”, plataforma de um consórcio de Universidades que pretende reunir uma perspectiva humana em torno de decisões morais e dilemáticas tomadas pela inteligência artificial, nomeadamente por softwares de condução de carros autónomos. Variantes de cenários e decisões, de pertenças comunitárias, de idades ou de familiaridades das pessoas que conduzem ou se encontram na situação sobre a qual temos de tomar uma decisão, tudo a fazer-nos reflectir e a permitir confrontar as nossas decisões com as de outras e outros. A colocar-nos na posição de “máquinas morais”, que decidem vidas de outras pessoas. Quem mataríamos nós? Quem e com que pressupostos escolheríamos nós alguém para programar estas decisões?

Basta que olhemos à volta, enquanto lemos estas palavras, para nos fascinarmos com as evoluções sociais e tecnológicas que estão ao nosso redor. Basta que olhemos à forma como lemos estas palavras para pensarmos o quanto o absurdo da guerra para isso tem contribuído, desde logo no desenvolvimento da internet que hoje praticamente todas, todos e tudo liga. Enquanto a guerra na Ucrânia nos inquieta, nos horroriza e nos relembra a volatilidade do tempo e Mundo (em) que vivemos, continuamos, sem fim à vista, a discutir um potencial tratado internacional vinculativo sobre sistemas de armas autónomos letais. Enquanto a guerra regressa com impacto e potencial de escalada à Europa, discutimos, sem acordo, um potencial futuro onde algoritmos decidem, não sobre um obstáculo na estrada, mas sobre quem e em que condições deve uma arma disparar ou face a que alvo e quando deve ser disparado um determinado míssil. Um passo em frente num processo de desumanização da guerra, já realidade nos exércitos da Rússia (“drones vadios” com capacidade de decisão autónoma); da China (reconhecimento facial de alvos inimigos sem intervenção humana); dos EUA (munições/mísseis com sistemas e capacidades autónomas) e que já terá sido utilizada na Líbia pelo exército turco (drones Kargu-2) em 2020, tendo resultado na morte dos primeiros seres humanos em contexto de guerra por decisão de um sistema sem intervenção humana, segundo indica um relatório do Conselho da Segurança das Nações Unidas.

Ao tempo dos significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial de impacto (pandemias, genocídios, crise climática ou ameaças biológicas, químicas e nucleares), junta-se a inversão do caminho de maior democratização dos sistemas políticos e a (re)emergência do autoritarismo, bem como a ameaça da despersonalização potencial que a inteligência artificial e a aprendizagem automática comportam. Ao tempo dos significativos e sem precedentes riscos, deveria corresponder uma ordem mundial assente em compromissos vinculativos de direito internacional e de generalização dos direitos humanos que prevenisse a perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças, suportada na partilha e tomada de decisão individual sustentada na ética.

Na ética e num modelo ético não baseado num homo super-rationale (ser humano super-racional), capaz da tomada das melhores decisões para si e para toda a comunidade a qualquer momento e em qualquer circunstância, homo que claramente não somos. Antes, num modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo experimentalismo e decisões salvíficas.  Mas, quando distantes disso estamos? Regresso ao software dos carros autónomos e a Joshua Greene e à sua afirmação de que as engenheiras e os engenheiros que os programam não “têm o luxo da vaga abstração que opinadoras/es ou políticas/os detêm”, não podendo sugerir às máquinas que respeitem “diretos humanos ou sejam justas”, particularmente quando nós, seres humanos, não conseguimos ser claros e consistentes sobre direitos humanos ou justiça. Estamos tão distantes quanto muitas e muitos estamos, incluindo outras e outros líderes, da visão de direito internacional, de direitos humanos ou de justiça de Putin e do actual governo e regime russo.

Sabemos, porém, que emoções como a raiva ou sentimentos de vingança individuais e coletivos diminuem a Paz e aumentam a possibilidade e probabilidade de conflito violento. Não sendo estas emoções e sentimentos base da acção das máquinas, são, a par dos vieses cognitivos, factores fundamentais do seu desenvolvimento e programação por seres humanos, e elementos nucleares na vivência em sociedade e na projecção de uma ideia de construção de Paz para o futuro, não só mas também pós-conflitos e pós-guerras. A humanização, a compaixão, a empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir para que tal seja possível e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar das populações, são o melhor garante para uma utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da inteligência artificial.

Sabemos, também, que pessoas, líderes, particularmente em contextos não democráticos, de forma personalista, podem subjugar direitos e a ideia do colectivo a interesses, eventualmente ainda que partilhados, decididos não com a prioridade da universalidade dos direitos e da possibilidade de auto-determinação de pessoas e países. Sabemos como, por vezes, estas pessoas se rodeiam de outras que apenas confirmam e reforçam narrativas, encerrando o discurso e a propaganda, impossibilitando ou mesmo promovendo a eliminação (por vezes literal) da dissidência e do contraditório.

Sabemos, ainda, que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade, do experimentalismo e de posições e decisões salvíficas. Isso constrói-se com base na empatia e na despolarização da sociedade. Com base na compaixão e na promoção da resolução não violenta de conflitos, desde os da nossa casa, aos das nossas Escolas e contextos de trabalho, aos dos países. Com base no reforço dos sentimentos de pertença e de abertura à e ao outro e a outras realidades. Com base, ainda, na prevenção de uma coesão baseada na rivalidade que cresce (e é, por alguns, incluindo decisoras e decisores aproveitado) em contexto de incerteza, de menor controlo ou de percepção de ameaça de outras/os.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, quando por vezes se fala, simplificando o complexo, em “ocidente”, creio falar-se de uma visão, por vezes mais idealista que realista, de uma ética partilhada e co-construida, de uma coesão harmoniosa e de valores democráticos, de direitos humanos globais e de equidade. De valores assentes na confiança, em nós, nas outras/os e nas nossas instituições, feitas por nós e, por isso, na liberdade, na abertura, na diversidade, na possibilidade de conflito (não violento) e na auto-determinação. Isso assusta autocracias, autocratas e déspotas. Isso proteger-nos-á das potenciais guerras do futuro, cuja evolução não podemos prever. “Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do filme “Munique, à beira da guerra” que trata o acordo de Munique de 1938 que não travou a escalada que nos conduziu à II Guerra Mundial. Munique, a mesma cidade que em 2007 ouviu um célebre discurso prelúdio da Rússia hoje, onde Putin afirmou que “ninguém mais pode sentir-se seguro porque ninguém se pode esconder atrás da lei internacional”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 22.03.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/e-voce-quem-mataria

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Construir a Paz…

“O único discurso sem lugar aqui [na Assembleia da República] é o discurso de ódio, o de negar a dignidade humana seja a quem for, de insultar o outro só porque é diferente, de incitar à violência e à perseguição”. Parte da primeira intervenção enquanto Presidente da Assembleia da República de Augusto Santos Silva, intervenção que, além das deputadas e deputados, creio que todos e todas devemos ouvir e sobre ela reflectir. “Estes tempos difíceis, complexos, são temos propícios a toda a espécie de manipulações, de preconceitos e de messianismos, tempos em que pode prosperar o populismo com as simplificações abusivas, as exclusões sumárias, a negação do pluralismo e da diversidade, a estigmatização dos vulneráveis, a culpabilização das vítimas e a substituição do debate pelo insulto”, disse ainda, num apelo que creio certeiro à construção de um espaço de diálogo, cooperação, civilidade, respeito pelos direitos, pela diversidade e de cuidado com outras e outros. Um espaço, afinal, de construção e promoção de Paz.

Assim mesmo defini a Paz em conversa com o jornalista Ricardo Alexandre para o “Conselho de Guerra” (TSF) de 24.03.22. Como, mais que a ausência de guerra. Como algo sobre o qual todos os dias devemos conversar. Como algo que todos os dias, em todos os contextos, podemos e devemos co-construir. Como algo para o qual todas e todos temos um papel, da nossa casa (enquanto modelos de comportamento para crianças/jovens), às Escolas/Universidades ou aos locais de trabalho, disseminando formas não violentas de resolução de conflitos; empatia, compaixão e perdão; a valorização dos direitos humanos, da ética e do interesse colectivo e a promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições).

Conversa que teve com mote a trilogia de documentos da @Ordem dos Psicólogos Portugueses Conversar sobre a Paz: Como todas e todos podemos ajudar a construir a Paz; Como podem as crianças/jovens (e mães/pais, cuidadoras/es, professoras/es e educadoras/es) ajudar a construir a Paz; Como podem os psicólogos e psicólogas ajudar a construir a Paz (https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/psicologia-construir-a-paz).

Conversa que, finalmente, procurou sublinhar a importância da promoção e preservação de um espaço de coesão harmoniosa, onde os princípios humanitários são prioritários e existe uma equidade na valorização das pessoas, assente em ideias de liberdade, justiça, participação democrática e de possibilidade de auto-determinação e de cumprimento do potencial das pessoas. Um espaço, também, de não complacência e não legitimação da violência e da discriminação. De coesão, capaz de prevenir que o mal-estar de pessoas e da sociedade, que decorre de crises sucessivas e de riscos significativos que enfrenta(re)mos, não seja politizado e utilizado no sentido de fragilizar instituições e a sociedade e de vulnerabilizar mais, pessoas já de si vulneráveis. De coesão, enquanto garante de um futuro com possibilidade de bem-estar para todas e todos.

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Ainda a Guerra…

“A incerteza cai com a tarde no limite da praia.” Começa assim o poema de Nuno Júdice (A incerteza) que termina como termina este texto: “cai-me da página(…)para dentro da própria alma”. A incerteza, que “cai com a tarde”, é hoje e para o futuro, tão presente na nossa vida como cada umas das tardes e inscrita “dentro” da na nossa “própria alma”. Basta pensarmos quando, ao incerto, acrescentamos espanto, olhando 3 acontecimentos de 3 dias 29 de Março de 3 dos últimos anos: 2004 – 7 países, incluindo 3 com fronteira com a Rússia (Estónia, Letónia e Lituânia) aderem à NATO; 2017 – Reino Unido invoca o artigo 50 do Tratado da União Europeia (UE) e inicia, formalmente, o processo de saída da UE; 2022 – 36ª dia de uma Guerra que resulta da ilegítima invasão da Ucrânia pela Rússia. 3 acontecimentos que, se recuássemos 3 anos a cada um deles, dificilmente poderíamos prever. Um pouco como hoje não podemos, com segurança, prever o que sucederá no Mundo nos próximos 3 anos ou não podemos, com segurança, prever o que sucederá na Guerra na Ucrânia nos próximos 3 meses ou, até, 3 dias.

Quando assim é, creio relevante reflectirmos sobre o presente, pensando e inscrevendo o passado, para nos projectarmos com a maior segurança e controlo possível no futuro. Também por isso, partilho, uma participação no programa Corpo Clínico (10.03.22) do Canal S+ conduzido pelo Vasco Domingos e que, tratando a Guerra, juntou-me a Anna Sukhoviy, Joao Antunes, ao Gustavo Tato Borges, ao Gonçalo Gonçalves Órfão, ao Hugo de Sousa e à Catarina Martins Bettencourt.

Nele reflitco sobre como a complexa crise que vivemos acrescenta imprevisibilidade e incerteza à imprevisibilidade e incerteza que já resultava de outras crises (não apenas da pandemia) e como a guerra nos afecta a todas e todos. Reflicto sobre o encorajamento e a esperança que decorre da mobilização das pessoas, incluindo as psicólogas e psicólogos, que continuam na Ucrânia a apoiar outras pessoas num momento particularmente exigente das suas vidas e que em tantos países procuraram organizar respostas de acolhimento, integração e recuperação de pessoas forçadas a emigrar. Procurei realçar a importância da comunicação com crianças e jovens. Também do propósito, do significado e do agenciamento no lidar com as emoções que naturalmente sentimos e da importância dos primeiros dias e dos primeiros momentos de acolhimento, incluindo os primeiros socorros psicológicos, para processos de integração bem-sucedidos, independentemente das pessoas virem a escolher (ou ter que) estar em Portugal poucos meses, poucos anos ou mais tempo. Falei de medo e da forma como o medo foi, é e será utilizado para explorar vulnerabilidades e construir narrativas que promovem e suportam tomadas de decisão e comportamentos. Falei, finalmente, de trauma, de trauma colectivo, da possibilidade de reparação e de construção de paz.

E…“Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Desafios da Psicologia

E você, quem mataria?

5 pessoas que caminham numa estrada ou a/o passageira/o de um carro? Imagine que programa softwares de carros autónomos e que apenas pode decidir entre manter a sua rota provocando a morte de 5 pessoas ou desviá-lo para um obstáculo provocando a de quem o conduz? Quem mataria? Quem e com que pressupostos escolheria para programar estas decisões?

“E você, quem mataria?”, 29º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão/confronto para reflectir sobre como a tecnologia tem rapidamente evoluído e como a guerra que nos horroriza tem para tal contribuído e se tem transformando, com sistemas de armas autónomos letais hoje presentes na maioria dos exércitos e já responsáveis, segundo a ONU, pela morte de seres humanos na Líbia em 2020 sem intervenção de decisão humana.

A (forma de utilização e despersonalização) da inteligência artificial (IA), a par de pandemias, crise climática, genocídios ou ameaças biológicas, químicas e nucleares, fazem do tempo que vivemos, um tempo de significativos e sem precedentes riscos na sua dimensão, velocidade e potencial impacto. Riscos agravados pela inversão do caminho de maior democratização no Mundo e (re)emergência do autoritarismo e, portanto, de não total correspondência entre mais riscos e uma ordem mundial assente em compromissos de direito internacional e na generalização dos direitos humanos, preventiva da perda de valor da vida/decisão individual face às significativas ameaças. Ordem, suportada na tomada de decisão individual a partir de um modelo ético que nos alinhasse, num processo de co-construção e co-reflexão permanente, numa miríade de princípios e de orientações morais transparentes e partilhadas, capazes de nos guiar nas decisões em situações específicas, priorizando valores, criando previsibilidade e prevenindo o experimentalismo e o subjugar de direitos e do colectivo face a interesses e decisões individuais e salvíficas.

Sabemos que a humanização, compaixão, empatia, mas também o perdão, são valores fulcrais a perseguir e, além de indicadores importantes de saúde psicológica e de bem-estar, são o melhor garante da utilização ética e baseada nos direitos e no interesse colectivo da tecnologia e da IA. Sabemos que a coesão harmoniosa (estado em que os princípios humanitários são os prioritários e existe equidade na valorização de cada pessoa) é o caminho para nos aproximarmos de países, instituições transnacionais e de um Mundo mais protegido dessa imprevisibilidade e que isso depende da despolarização da sociedade, da possibilidade de resolução não violenta de conflitos e do reforço dos sentimentos de pertença, abertura à e ao outro e à diversidade.

“Não escolhemos o tempo que vivemos, a única escolha que temos é como lhe reagimos”, diz Von Hartmann, personagem do “Munique, à beira da guerra”. Não escolhemos este tempo e Mundo complexo, de mil oportunidades e de mil significativos e sem precedentes riscos, mas podemos e devemos escolher como lhe reagir. Como e pelo que lutar.