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O bem-estar…

Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022 foram marcados pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a brutalidade que hoje conhecemos apenas 4 dias após o seu final. Neles, a Noruega, país com cerca de metade da população de Portugal, repetiu a vitória de 2018, tornando-se em 2022 o país com mais medalhas de ouro nuns só JO de Inverno. Noruega, país onde o Desporto é promovido para todas e todos, ao longo de toda a vida. País cuja carta dos Direitos das Crianças no Desporto estimula que as crianças tenham experiências positivas sempre que o praticam, sugerindo a prática/experimentação de diferentes modalidades e não permitindo, até aos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings. País que promove e investe na alegria, relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade no Desporto.

“O bem-estar em todas as políticas”, 33º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte estes factores chave do sucesso desportivo da Noruega. Factores também chave do sucesso educativo, da produtividade laboral e do desenvolvimento das nossas sociedades e da confiança das pessoas e das comunidades nas pessoas e nas instituições.

Partindo daqui o artigo saúda o facto dos candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí resulta para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais. Nele afirmo-me concordante com Luís Montenegro na sua afirmação de que as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e todos e que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Nele associo-me a Jorge Moreira da Silva quando aponta como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, medida que resulta de 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito de bem-estar e que este vai além do PIB sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o.

Abordo, ainda, o capital social presente e futuro relativo à maior aspiração das populações à possibilidade de bem-estar para todas e todos; a mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, rendimentos, acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar; e o evoluir para um modelo e uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, em qualquer área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas.

Termino sugerindo que além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, importemos (da Noruega) a centralidade do bem-estar nas políticas, fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita.

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IDAHOT 2022

Ontem, dia especial para a minha família, comemorou-se o IDAHOT – Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Data que alerta para a necessidade de combate feroz a todas as formas de exclusão e violência sobre pessoas LGBTI+.

Dia que, simbolicamente, correspondeu à aprovação em Espanha de um anteprojecto de Lei do Aborto que, além de reformar a actual Lei, procura reforçar e regular direitos e obrigações na área da saúde sexual e reprodutiva, reforçando o papel das Escolas na Educação sexual. Por cá, o Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e a Secretária de Estado da Igualdade e Migrações assinalaram o caminho percorrido pelo país, hasteando a bandeira arco-íris lado a lado com a de Portugal na Presidência do Conselho de Ministros.

A mim fez-me recuar cerca de 30 anos, 15 anos, 8 anos e duas semanas, a quatro momentos que vivi e que, também simbolicamente, representam uma viragem muito significativa, embora ainda insuficiente, na forma como a Educação e a Escola em Portugal se relacionam com a equidade e inclusão, como integram no seu seio e na sua prática a questão dos direitos humanos e a resposta aos principais desafios societais e como a ciência psicológica e as psicólogas e psicólogos nisso contribuem.

Fez-me recuar a 1989, quando ingressei numa Escola tão distinta da de hoje, dois meses antes da Queda do Muro de Berlim. Faz-me recuar a 2005, ano dos atentados de Londres, quando, primeiro em estágio académico e depois como psicólogo e coordenador de projecto, iniciei um percurso profissional numa Escola também de 1º ciclo e acompanhei um conjunto de transformações. Fez-me recuar a 2014, ano da anexação da Crimeia pela Rússia, e recordar a assinatura do protocolo de colaboração entre a Direcção-Geral da Educação e a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que desde esse momento tem enquadrado colaborações importantes que incluem a organização conjunta de um Seminário anual de Psicologia e Educação.

Fez-me, finalmente, recuar à sua 9ª edição (Figueira da Foz, 05.05.2022) onde, num momento em que vivemos um Guerra na Europa, resultante da recente escalada da invasão ilegítima da Ucrânia pela Rússia, participei numa conversa em torno da “Promoção de Resiliência, Prevenção da Violência e Construção da Paz” com a Anabela Caetano Santos (que apresentou o interessante projecto RESCUR, de promoção da resiliência) e a Sofia Neves, colega que, não apenas mas muito a partir da Associação Plano i, tem contribuído para a prevenção de múltiplas formas de violência, incluindo as referentes às dimensões do género e da orientação sexual.

Da conversa sobra a reflexão desta mudança profunda e importante (embora, reforço, ainda insuficiente) em curso na Educação e na Escola. Da conversa sobra o “combate” ao que, também ontem e em declarações ao Público, o colega Jorge Gato referia como “a experiência de invisibilidade”, com tudo o que isso implica para a/o própria/o, para quem a/o rodeia e para a sociedade.

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Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder (Ao redor…; Sábado; 08.05.2022)

Como eu, certamente já acompanhou noites eleitorais. Um rodopio de resultados regado com comentários e declarações dos e das candidatas e principais apoiantes. Tudo em busca da identificação e comunicação de quem venceu e de quem perdeu, signifique ganhar e perder ter mais ou menos votos que as e os adversários ou apenas “um bom ou mau resultado”.

Foram, grosso modo, 13 milhões e 300 mil as francesas e franceses que votaram no passado dia 24 de Abril em Marine Le Pen, 41,46% do total de votantes. Mais quase 8 milhões face aos 5 milhões e 500 mil votos (17,79%) que o pai, Jean-Marie Le Pen, havia obtido aquando da sua surpreendente passagem à segunda volta das presidenciais francesas de 2002. Daí para cá a Frente (hoje Reagrupamento) Nacional obteve 6 milhões e 400 mil votos na primeira volta das eleições de 2012 e 10 milhões e 600 mil na segunda volta em 2017, assegurando três segundas voltas em cinco eleições nos últimos 20 anos e aumentando 145% o seu resultado de 2002 a 2022. Noutra geografia, e noutro contexto, Donald Trump obteve 74 milhões e 200 mil votos nas eleições presidenciais americanas de 2020, mais de 11 milhões de votos mais do que havia obtido nas eleições de 2016 que fizeram dele Presidente, a maior votação de sempre de um/a candidata/o à presidência com excepção dos votos de Joe Biden que ganhou essa eleição (a melhor votação de Obama – presidenciais de 2004 – foi inferior a 70 milhões de votos). Dois simbólicos exemplos de derrotas, incluindo a de um incumbente, a que poderíamos juntar a outras próximas em Espanha ou Itália, que nos estimulam a reflectir sobre a complexidade do momento que vivemos e sobre a relatividade do ganhar e do perder (em) eleições, dado os enormes impactos e ganhos de quem “perdeu”.

Não sendo um fenómeno exclusivo de uma direita mais nacionalista, populista e antissistema (veja-se o efeito dos partidos “verdes” nas últimas 2/3 décadas na mudança de programas políticos dos partidos de centro direita e esquerda na Europa Central e do Norte e do Bloco de Esquerda no programa do Partido Socialista em Portugal), um dos ganhos associados às derrotas destes partidos em diferentes países mas com resultados crescentes e significativos, é a generalização da política do ódio e do e pelo medo. Dizia um conjunto de historiadoras e historiadores franceses que Zemmour mente sobre o passado para as pessoas odiarem o presente. Ódio que, a par do medo instigado face a tudo o que é novo, diferente, diverso, facilmente se propaga ao ritmo dos desafios societais e da complexidade crescente que enfrentamos, das mudanças e adaptações que o quotidiano nos exige e que se espalham e alimentam em grupos e redes sociais cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras.

A polarização extrema, daqui resultante, alimenta-se do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigos e inimigas. Rompem-se pontes, classificam-se “pessoas” e não apenas posições / ideias (“deploráveis”, nas palavras de Hillary Clinton face a “metade das e dos eleitores de Trump”) ameaçando a harmonia necessária em política, a possibilidade e a crença de mudança, perpetuando e reforçando ciclos de extremismo e a cristalização de dois polos, altamente magnéticos, não conciliáveis e que vivem, também, uma união baseada na repulsa do outro polo e não apenas na identificação com as pessoas e ideias do seu polo.

Com este “fosso” entre grupos cada vez maior, a narrativa do medo e do ódio ganha espaço mesmo quando os e as candidatas que a usam e a propagam perdem eleições. Com ela instala-se o que podemos apelidar de crise de direitos e da democracia, ou seja a interrupção e retrocesso recente a que assistimos de um caminho de maior generalização e incondicionalidade de direitos básicos humanos no Mundo e de diminuição progressiva de sistemas e regimes políticos autoritários no Mundo.

Parte da inversão deste caminho resulta de uma centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou dos privilegiados”. Serve também propósito de colectivização da culpa, recentemente abordada no parlamento português e, por vezes, de promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos. Acrescenta, então, à crise da representação, uma crise de confiança onde pessoas crescentemente desconfiam de instituições, de outras pessoas e, até, de si próprias e da possibilidade do seu futuro. Crises que funcionam como estímulo para uma maior procura e aceitação de decisões ou propostas simples, simplistas, que atendem exclusivamente ao presente e ao local, por vezes salvíficas e personificadas numa pessoa, para questões ou problemas especialmente complexos, abrindo espaço a discursos altamente apelativos que oferecendo “soluções” e “melhorias” rápidas atingem facilmente pessoas e grupos mais vulneráveis ou psicologicamente a eles mais predispostos.

Além das vitórias na narrativa o caminho de crescimento, mesmo aquando das derrotas, torna o horizonte de vitória mais possível, próximo, por vezes até provável, com três consequências significativas: a) a institucionalização progressiva e a naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional, alargando-se mais o seu espaço mediático e sua capacidade de condicionar o debate público; b) o maior crédito e a maior penetração, discussão e propagação de ideias e de posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência, com cada vez maior partilha de desinformação, de fake news e teorização conspirativa que sustenta a ideia de necessidade de “fim de regime”, “fim de ciclo” ou apenas de “autovitimização”; c) com a institucionalização e o crescente assumir de lugares de relevância, decisão e poder, mais personalidades e empresas se predispõem a associar-se a estes partidos e pessoas, profissionalizando as suas estruturas e, particularmente, a sua comunicação, usando mais e com maior eficácia estratégias de reforço, de segmentação e de mediatização das mensagens e das pessoas em questão.

Outro efeito “ganhador” destas derrotas resulta da mudança e da influência nos discursos e nas práticas de partidos vencedores ou potencialmente vencedores. A este propósito vejamos o impacto das posições mais populistas da campanha do “Leave” (pela saída) no referendo que discutiu a continuidade do Reino Unido na União Europeia nos partidos Conservador e Trabalhista, como o Partido Republicano normaliza posições, comportamentos e atitudes de Donald Trump justificando-as como “a sua compreensão da frustração das comunidades americanas brancas mais pobres” ou como Valérie Pécrese, candidata presidencial dos Republicanos em França, abordou logo no seu primeiro comício a suposta “grande substituição”, bandeira dos partidos da direita nacionalista, populista e antissistema, que entrou no discurso e programa do partido de centro direita, apesar de claramente contrária aos seus princípios básicos (de factualidade, da não discriminação e do não incitamento ao ódio e violência), também por isso ameaçando-os e a prazo colocando-os em risco.

Por cá, como por lá, tivemos um candidato presidencial em 2021 que usou da expressão “pessoas de bem”, tão utilizada por Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França (aliás presenças nas suas campanhas eleitorais), para nacionalizar a expressão no seu “portugueses de bem”. Arrogando-se de decidir quem o é ou não é, mesmo dirigindo-se apenas a parte das eleitoras e eleitores, obteve cerca de 500.000 votos de portuguesas e portugueses (11,90%) depois de uma campanha de legitimação de ódios, de utilização despudorada do medo e onde acabou pronunciado por desobediência e condenado por agredir uma família.

Como por lá, por cá, a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade. O seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social das sociedades – depende não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo. Mais, a ciência psicológica é essencial a determinantes desta crise da democracia e dos direitos. Porque informa sobre a importância e promove a relação, a curiosidade, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos, essenciais à abertura à e ao outro e à prevenção dos fenómenos de ódio e à utilização do medo. Porque é central na promoção da saúde mental, na possibilidade de florescimento e de bem-estar, factores essenciais à confiança no presente e para o futuro, à adaptação às adversidades e à gestão dos anseios e frustrações. Porque é essencial ao desenho ajustado às pessoas, ao seu comportamento e à tomada de decisão, de políticas públicas fundamentais à mitigação das vulnerabilidades, à resposta aos desafios do presente e do futuro e à crença no sistema democrático como capaz de responder às necessidades e expectativas das pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o chão comum da democracia e dos direitos humanos far-se-á com todas e com todos, com participação, envolvimento e mobilização capazes, não apenas de vencer eleições, mas de vencer ideias, narrativas, simplificações e mistificações. Capazes de vencer a utilização (e legitimação) do ódio e do medo, em benefício de projectos e ambições políticas de pessoas e de grupos. Capazes de recuperar e construir confiança e de acreditar no futuro, de cada pessoa e de todas as pessoas. Como cidadão, e como cidadão psicólogo, aqui e ali, no Mundo ao redor, preocupam-me mas mobilizam-me estes desafios e o nosso tempo. E a si?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eleicoes-la-como-ca-a-relatividade-do-ganhar-e-do-perder

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Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política

“Tudo se resume a escolhas humanas…” / OPP e OCDE

A dias do início da invasão e da actual guerra na Ucrânia, Y.N.Harari escrevia na “The Economist” que a “mais óbvia consequência deste regresso à lei da selva seria um forte aumento das despesas militares à custa de tudo o resto”. Por “lei da selva” referia-se à “possibilidade de países poderosos conseguirem esmagar impunemente os seus vizinhos mais fracos”. Por “à custa de tudo o resto” referia-se a que “o dinheiro que deverá ir para professoras/es, enfermeiras/os e assistentes sociais será investido em tanques, mísseis e armas cibernéticas” bem como à “fragilização da cooperação mundial, especialmente na prevenção das alterações climáticas ou na regulação de tecnologias potencialmente perigosas como a inteligência artificial e a engenharia genética”, resultante da impossibilidade de se “trabalhar ao lado de países que se estão a preparar para nos apagar do mapa”. O texto (“A história da humanidade está em jogo”), embora não os mencionando, é um excelente ensaio para pensarmos como evoluiu a sociedade e o Mundo no sentido de se organizar em torno dos objectivos do desenvolvimento (hoje sustentável) (ODS) e de como os tratados de direito e cooperação internacional e a carta da ONU que os sustentam podem, rapidamente, ser questionados e desinvestidos.

Também a dias de uma iniciativa da Ordem dos Psicólogos Portugueses na OECD – OCDE foi, por esta organização para a cooperação e desenvolvimento económico, publicado um relatório sobre o (in)cumprimento actual dos 17 ODS e das suas metas para 2030. Na perspectiva do copo (meio cheio ou vazio) creio que a imagem permite que sintamos, provavelmente em simultâneo, que há caminho já (e a ser) percorrido (por ex. nas áreas da saúde e bem-estar ou da qualidade da água e saneamento) e que há (muito) caminho por percorrer (por ex. na fome ou na igualdade de género). Permite-nos, também, intuir que, após retrocessos resultantes da pandemia por COVID-19, a Guerra e a sucessiva instabilidade internacional ameaçam o comprometimento e empenhamento nos ODS e nas suas dimensões chave: pessoas, planeta, prosperidade, paz e parceiras, esta, talvez, a área menos desenvolvida face aos objectivos estabelecidos.

Junto com o Francisco Miranda Rodrigues, a Sofia Ramalho, a Alexandra Antunes e a Patrícia Batista foi exactamente a parceria com a OCDE que procuramos estimular neste dia de reuniões de trabalho, contactos e de colaboração com as suas áreas de “Desenvolvimento e Cooperação”, “Emprego, Trabalho e Assuntos Sociais”, com o “Centro de bem-estar, inclusão, sustentabilidade e igualdade de oportunidade” e com a Associação de Trabalhadores da OCDE. Falamos de cooperação e de contributos da psicologia. Falamos de desafios societais complexos “sem fronteiras”, de ODS e do seu futuro e de como, já hoje, devemos preparar e contribuir para o pós-2030. Porque no presente preparamos o futuro. Porque, tal como Harari fecha o artigo, não podemos esquecer que “o que é velho já foi novo” e que “tudo se resume a escolhas humanas.”

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Noves de Maio…

Eis-nos a 9 de Maio. Nas últimas semanas, comentadores e comentadoras, têm-se desdobrado em reflexões sobre o conteúdo do discurso de Putin neste dia de parada militar na Rússia, comemorativa da capitulação da Alemanha Nazi na II Guerra Mundial. Sobre ganhos e perdas, narrativas e o “reescrever da história”, ódios e medos. Sobre volatilidade. Sobre relatividade. Sobre tudo isto com uma constante: independentemente de quem ou como se ganhe ou perca e do que isso signifique, nada, hoje e no futuro, Mundo fora, permanecerá como antes da absurda e ilegítima invasão da Ucrânia.

“Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder”, 32º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa a relatividade do ganhar e do perder, discutindo ganhos associados a derrotas de partidos [particularmente de direita nacionalista, populista e antissistema] em diferentes países, mas com resultados crescentes e significativos. Toca a “generalização da política do ódio e do e pelo medo” que “se espalha e alimenta em grupos e redes sociais, cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras”. Toca a polarização extrema que se alimenta “do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigas e inimigos”, rompendo pontes e “ameaçando a harmonia necessária em política e a possibilidade e a crença de mudança”. E toca a crise de direitos, da democracia e de confiança, também resultante de uma “centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou privilegiados, para a colectivização da culpa e promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos”.

Em resumo, mesmo com derrotas assistimos à institucionalização progressiva e naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional; ao maior crédito e penetração, discussão e propagação de ideias e posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência; e à profissionalização das estruturas destes partidos, particularmente da sua comunicação.

Isto, lá (EUA ou França, em Itália ou Espanha), como cá, onde um candidato presidencial nacionalizou a expressão “portugueses de bem”, arrogando-se de decidir quem o é ou não é. Lá, como cá, onde “a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade” ou não fosse “o seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social – dependente não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo”.

Eis-nos a 9 de Maio, também Dia da Europa. Dia de celebrar a reflectir para preservar e promover os seus valores.

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9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos (Ao redor…; Sábado; 19.04.2022)

Um pouco mais de 9 décadas separam o ano de nascimento do Gil da sua bisavó, a pessoa mais velha da sua genealogia. Olhando através das gerações, conforme convencionadas, a sua bisavó pertence à geração S (Silent) e atravessou as gerações Baby Boomers (das suas avós e dos avôs), X (do seu tio), Y (da sua mãe e pai), Z (das suas primas e primos mais velhos), a (do seu irmão) e a geração ainda sem nome que previsivelmente caracterizará as pessoas que como ele nasceram em 2021. Em 9 décadas, a sua bisavó viveu a II Guerra Mundial, a Guerra Colonial, a Guerra Fria e o Terrorismo. Viveu a Grande Depressão, a crise do subprime e períodos de forte expansão económica, também em Portugal. Viveu a emergência e queda do Estado Novo, o 25 de Abril de 1974 e a integração de Portugal na União Europeia. Viveu a transformação dos direitos humanos, a democratização das sociedades, a globalização e um recente questionar dos direitos e (re)emergência do autoritarismo. Viveu as transformações nos transportes, incluindo as idas à Lua e ao Espaço, e de comunicação/conectividade, do telefone à televisão, da internet às redes sociais e realidade virtual. A minha avó Felismina viveu tudo isto e muito mais, em mais de 9 décadas. O Gil, meu filho mais novo, viveu, consigo e comigo, nos seus nove meses de vida, a pandemia COVID-19, as primeiras viagens comerciais ao espaço, o relatório da ONU que confirma as primeiras mortes em contexto de guerra com decisão exclusiva da inteligência artificial (sem intervenção humana) e a Guerra na Ucrânia. 9 meses que comparam com 9 décadas confirmando a aceleração do momento que vivemos. Um tempo de enorme complexidade, volatilidade, ambiguidade, incerteza e, claro, imprevisibilidade. Um tempo em que a saúde mental das pessoas está naturalmente ameaçada e impactada no exacto momento em que, mercê todas as previsíveis transformações e toda a necessidade de adaptação, reacção à adversidade e aos acontecimentos de vida, muito dela necessitamos.

Não me canso de sublinhar que, conforme sucede com a paz (muito mais que a ausência de guerra), quando falamos de saúde mental não falamos de doença mental ou mesmo da sua ausência. Falamos, de acordo com a definição da Organização Mundial da Saúde, de “um estado de bem-estar em que os indivíduos podem cumprir as suas capacidades, lidar com as adversidades da sua vida, trabalhar de forma produtiva e contribuir para a sua comunidade”. No fundo, falamos de um estado de bem-estar que permite o florescimento e a adaptação e que resulta de um conjunto de determinantes (biológicos, psicológicos, sociais), do desenvolvimento de competências e da disponibilidade de recursos para viver o dia-a-dia. De recursos internos e de autocuidado, de recursos externos, de heterocuidado e suporte social e de ajuda especializada, quando tal se justifica. Não me canso de sublinhar porque, infelizmente, creio ainda não inscrito junto da sociedade, das instituições às pessoas, passando pelas decisoras e pelos decisores, onde, creio, por vezes persistir um viés que opõe, em polos, a doença mental à ausência de doença mental e não à saúde mental.

É, também, por ausência desta inscrição que considero particularmente relevante e até corajoso que instituições da sociedade civil invistam na saúde mental e contribuam para a afirmação conceptual da saúde mental e do quão fundamental é a sua promoção, no presente e para o futuro das pessoas, das comunidades e do país. Assim o fez a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) que, com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), apresentou no passado dia 11 de Abril (candidaturas até 19 de Junho) um programa dirigido a serviços de saúde/psicologia de instituições de ensino superior públicas,que se baseia no conceito de saúde mental e investe (até 100.000 euros) em projectos que apostem na sua promoção, a par da promoção da literacia, do desenvolvimento de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência) no contexto do ensino superior.

Um programa profundamente responsivo à hoje significativa e abundante evidência científica que confirma a premência e pertinência deste investimento, com o propósito de servir de estímulo ao futuro e a novas e boas práticas nestes domínios, baseadas na articulação interinstitucional e entre serviços, no envolvimento das e dos participantes no desenho e avaliação dos projectos e na sua transferibilidade e sustentabilidade.

Um programa profundamente responsivo, também, porque a população jovem foi desproporcionalmente afectada pela pandemia (como aliás havia sido na crise socioeconómica do início da década anterior), quer a nível económico e social, quer psicológico. Se antes da pandemia 15 a 25% dos e das estudantes universitárias sofria com problemas na área da saúde mental (com um aumento da prevalência e da gravidade nos anos que a antecederam) e 44% apresentava um “nível inadequado ou problemática de literacia em saúde (e saúde mental)”, a pandemia agravou significativamente este cenário com 55% das e dos estudantes a relatarem que a “sua saúde mental piorou” nestes últimos dois anos, 38% dos e das quais referindo que isso condicionou o seu desempenho académico (com impacto nos muitos preocupantes níveis de insucesso e abandono no Ensino Superior em Portugal) e 28% que, em consequência, fez medicação relativa a estes problemas, quase metade sem qualquer consulta ou prescrição nesse sentido (por dificuldade de acesso a cuidados nesta área).

Um programa profundamente responsivo, finalmente, à necessidade de diminuirmos a rigidez na análise de quais as competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e de bem-estar. À sobrevalorização de competências técnicas, o ensino superior deverá responder com a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (como a autoestima, a autorregulação emocional, a capacidade de adaptação e resolução de problemas, a empatia e altruísmo, a cooperação ou a capacidade de trabalho em equipa), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas, e com a promoção da saúde mental, atributos que preparam as pessoas e sociedades para o futuro.

Um pouco por tudo isto creio fundamental que a geração do Gil, desafiada que será pela imprevisibilidade e incerteza do futuro próximo e menos próximo, necessitará de uma comunidade, um país e um Mundo que invistam na promoção da confiança (em nós, nas outras e outros e nas instituições), da coesão social, da universalização e generalização dos direitos (humanos) e do bem-estar. Invistam na literacia, na resiliência e na saúde mental, de cada individuo e da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, a saúde mental é hoje uma matéria-prima fundamental que importa, não apenas preservar, mas estimular, enquanto recurso fundamental ao presente e futuro. Enquanto ferramenta essencial aos complexos e tremendos desafios societais que enfrentaremos. O programa “Saúde Mental no Ensino Superior” é um contributo da FLAD e da OPP que nos deve mobilizar para este desígnio colectivo: acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos, desígnio para o qual a população jovem é essencial.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 19.04.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/9-decadas-vs-9-meses—a-saude-mental-como-materia-prima-do-tempo-que-viveremos

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Planeta Azul…

A 7 de Dezembro de 1972 o Apollo 17 saiu da órbita terrestre a caminho da Lua. Nesse dia, de costas para o Sol, a sua tripulação teve a iluminação perfeita para fazer a primeira fotografia (a cores) integral do Planeta Terra, fotografia icónica que estimulou a ideia do “Planeta Azul”. Passavam exactamente 960 dias do primeiro “dia da Terra”, quando a 22.04.1970 mais de 20 milhões de pessoas haviam respondido ao apelo do senador (e activista ambiental) Gaylord Nelson, juntando-se nas ruas para um enorme fórum nacional que Gaylord ambicionava “educativo e generalizado” aos EUA. Para alguns meios é, ainda hoje, considerada a maior manifestação de um único dia de sempre. Sendo-o ou não, originou o importante “Dia da Terra” (do Planeta Azul) que a 22 de Abril último cumpriu 50 anos.

A inscrição “colectiva” destes momentos é importante à reflexão do passado, presente e à projecção do futuro, particularmente em áreas e desafios societais em que a dimensão intergeracional de acção é fundamental – como acontece com a crise climática. Destes momentos, como parte da “construção colectiva” dos desafios e da resposta aos mesmos.

No último magazine da EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), reflicto sobre esta ideia a partir de contributos da psicologia e de duas participações minhas: a) na COP26 de Glasgow onde integrei a comitiva que representou a Global Psychology Alliance, abordando o tema dos contributos de cada país (incluindo Portugal), ciência (incluindo a psicológica) e pessoa (da e do decisor ao e à cidadã comum) a partir da ideia das partes (COP = Conferência das Partes) para a crise climática (https://efpa.magzmaker.com/march_2022/climate_change); b) na 5ª Conferência da EFPSA (European Federation of Psychology Students’​ Associations) “Breaking walls, Building bridges” (“Quebrando muros, Construindo pontes”) abordando a forma como a ciência psicológica – a par de outras áreas profissionais/científicas – podem ser parte e contribuir para as políticas sociais, a intervenção comunitária e como a compreensão do comportamento humano e da tomada de decisão é, hoje, essencial ao desenho de políticas públicas dirigidas aos principais desafios societais (https://efpa.magzmaker.com/march_2022/efpa_s_corner).

Da “impaciência” de Saramago à “insurreição” de Frei Bento Domingues contra “tudo o que está mal”, importa mobilizar todas as “partes” e usar do sentido de urgência do momento. A psicologia é parte, parte importante. A consciência (colectiva) e a inspiração também. Porque problemas complexos e sem fronteiras precisam de respostas congregadoras, transnacionais e inspiradoras… Conforme é o Dia da Terra, a foto do Planeta Azul e a missão Apollo-Soyuz que, comemorando o fim das missões Apollo (com a 17ª), teve como objectivo afirmar a relação pacífica entre EUA e URSS, com tripulações de duas naves dos “blocos” a visitaram a “outra” nave/bloco, trocando presentes, galhardetes e sementes de cada país. Congregando-se. Inspirando-se.

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Palíndromos…

Da junção das palavras gregas “pálin” (novamente) e “dromos” (caminho/estrada) resulta a expressão palíndromo que descreve elementos com simetria linear, logo com o mesmo significado quando lidos da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda. Existem números palíndromos (também apelidados de capicua) e existem palavras e datas palíndromos – a última desta década o dia 22.02.2022.

Nesta simbólica data a Líder – Ideias que fazem futuro publicou uma entrevista que a Rita Saldanha me fez a propósito do aproximar, naquele momento, da passagem de dois anos sobre a criação do gabinete de crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses que coordeno.

“O caminho para uma melhor saúde mental em Portugal”, assim titulada a entrevista que agora partilho, trata este balanço de dois anos de actividade e contributo, a (des)informação, a importância da capacitação e desenvolvimento de pessoas e comunidades, a literacia em saúde e em saúde psicológica, a saúde mental (e a saúde mental nas organizações), o papel das lideranças e as possíveis prioridades para o Mundo depois desta gravíssima crise pandémica que ainda vivemos.

Uma entrevista onde afirmo que a “boa informação previne a má informação”, que o “controlo e a previsibilidade” são “variáveis fundamentais para a saúde e bem-estar”, que é fundamental que “a sociedade seja amiga [das pessoas em sofrimento psicológico], sem culpabilização ou estigmatização, para que a pessoa possa encontrar uma ajuda e com isso florescer novamente”. Onde afirmo, também, que as organizações devem desenvolver capacidades e ter recursos que lhes permitam a “adaptação e superação”, que precisam de “confiança e coesão”, “de tempo” e que “ficaria muito surpreendido se nos próximos anos não tivéssemos um movimento de reconhecimento de organizações que promovam a saúde e bem-estar, até pelas/os consumidoras/es”.

Menos de 48 horas depois da publicação da entrevista começava a invasão da Ucrânia pelas tropas russas e o escalar do conflito para uma perturbadora Guerra, na Europa e no século XXI, com todas as consequências que observamos ao longo dos já mais de dois meses corridos e que sabemos virem a existir no futuro. Também, durante a pandemia, estreou o “Tenet”, filme de C. Nolan inspirado no “Quadrado Mágico”, conjunto de 5 palavras latinas encontrado nas ruínas de Pompeia e que incluem a palavra/título palíndromo do filme. O filme trata, exactamente, o tempo e a possibilidade de se caminhar do presente para o futuro mas também do presente para o passado e como, naquela história, esta possibilidade resulta no evitar de uma possível 3ª Guerra Mundial “desejada” por um oligarca russo.

Como refere M. Atwood ao Expresso de hoje, é mesmo “um acto de esperança assumir que haverá futuro”. Esperança que apenas poderá resultar da inscrição do passado e da reflexão sobre ele no sentido de pensarmos o presente e perspectivarmos o futuro. Um futuro de Paz e de bem-estar para todas e todos com um “novo caminho” para a saúde mental.

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9 e a sociedade líquida…

“Penso que tudo quanto considerava sólido se apresenta hoje como instável, líquido.” P. Pomerantsev há muito estuda (e pensa) o fenómeno da desinformação. Tem, na sua vida, um conjunto de experiências familiares (perseguição do KGB aos seus pais) e pessoais (viveu na Rússia entre 2001-2010) que certamente acrescentam pontos de reflexão e lhe permitem afirmar, com propriedade, a volatilidade do tempo que vivemos e que “os dramas e rupturas na sua vida pessoal e familiar” o ajudam a compreender como começam e acabam os processos de (des)informação, tal qual sistemas de forças.

“9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos”, 31º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura reflectir sobre a volatilidade do tempo que vive(re)mos a partir da sua aceleração (olhando os últimos 9 meses por comparação a 9 décadas, a partir da genealogia do meu filho mais novo), transformação e do impacto dos acontecimentos de vida (dramas e rupturas, mas não apenas, na vida pessoal e familiar, mas também na social e profissional) enquanto sistemas de forças com poder de mudança do presente, de condicionar o futuro e impactar diferentes dimensões de vida, incluindo a saúde (também mental), o bem-estar ou a produtividade.

O artigo reflecte, também, a necessidade da inscrição desta realidade na perspectiva de que a saúde mental é hoje um enorme factor de protecção e da necessidade de reflectirmos sobre as “competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e bem-estar”, nomeadamente estimular o Ensino Superior (ES) a responder “à sobrevalorização de competências técnicas” com “a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (autoestima, autorregulação emocional, empatia e altruísmo, capacidade de trabalho em equipa, …), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas.

Procura, ainda, enaltecer a premência e coragem do investimento da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (com apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses) pelo programa dirigido a serviços de saúde/psicologia do ES, baseado no conceito de saúde mental, investindo (até 100.000€) em projectos que visem a sua promoção, a promoção da literacia, de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência). Um programa responsivo às necessidades da sociedade, de presente e futuro, e à evidência científica que confirma a sua premência/pertinência. Um programa que responde à forma desproporcional como a população jovem foi afectada pela pandemia, tem ainda lacunas na literacia em saúde (mental) e a uma “sociedade líquida” que nos deve mobilizar para um desígnio colectivo: “acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos no qual a população jovem é essencial”.

Um futuro com pessoas, afinal, mais do que a (tentarem) cumprir regras e procedimentos, preparadas e motivadas para (tentarem) tomar boas decisões.

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Desafios da Psicologia Educação Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

3 dias para o 25.4.2022

Auto-determinação, direitos humanos, não discriminação, equidade, coesão social, saúde (e saúde mental), educação, capacitação, trabalho, ciência (e evidência), dignidade, confiança, inclusão, participação, abertura à/ao outra/o, diversidade, cooperação, ética, cidadania, responsabilidade, solidariedade e bem-estar.

A 22.04.1974 muitas pessoas, país e Mundo fora, em diferentes contextos e com diferentes proveniências, partilhavam da aspiração e do desejo de verem possibilitados e cumpridos em Portugal estes 22 valores. Faltavam, como hoje, 3 dias para o dia 25 de Abril. Dia em que em 1974 se lhe acrescentou a liberdade, a democracia e a Paz. Dia em que de 1975 a 2022, o celebramos e, ao celebrá-lo, nos recordamos que estes 25 valores se constroem todos os dias, por e com todas as pessoas, por e em todos os contextos.

Eu pude estudar esta ciência que é a psicologia numa Universidade também e muito pelo 25 de Abril. Não apenas porque a abertura que trouxe, permitiu, finalmente, um outro olhar para esta ciência e possibilitou a sua emergência, contributo e desenvolvimento na sociedade portuguesa. Também porque pertenço a uma geração (e a um contexto) que é, porventura, das que mais se pode transformar face às possibilidades que teria pelos valores acima… Num conceito da psicologia, uma geração cuja zona de desenvolvimento potencial foi bastante expandida por um país a acreditar nas suas pessoas e a dar-lhes condições, com dificuldades é certo, para se desenvolverem, florescerem e se cumprirem.

Hoje continuo a estudar e no meu pequeno (mas devido) contributo a fazer e a praticar esta ciência (psicologia) com a certeza (e responsabilidade) de que partilha grande parte dos 25 valores acima. De que partilha e de que para eles procura contribuir, estando próxima das pessoas e das comunidades, ao longo de todo o ciclo de vida, em cada um dos contextos, nos acontecimentos de vida mais significativos, sejam eles “positivos” ou geradores de sofrimento psicológico.

Uma ciência (e uma prática) que também se procura afirmar pela presença na sociedade, não apenas mas também pela opinião, pela informação, pelo comentário e pela literacia que procura promover. Por isso, e pelo seu simbólico num país também antes encerrado a este nível, partilho hoje este “Afirmar os psicólogos nos media 2021”, onde se reúnem contributos meus e de colegas dos órgãos da Ordem dos Psicólogos Portugueses (Ana Meira, Carla Fernandes, Carla Rocha, Filipe Fernandes, Francisco Barrocas, Francisco Miranda Rodrigues, Gaspar Ferreira, Jaime Ferreira da Silva, Joana Amen, Marco Santos, Marisa Alexandre, Miguel Ricou, Paula Domingues, Paulo Cunha, Raquel Raimundo, Renata Benavente, Renato Gomes Carvalho e Sofia Ramalho.

Um nosso contributo para a memória e inscrição destes valores. Para a sua co-construção, todos os dias em todos os contextos, também com o contributo das psicólogas e psicólogos.