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1000 dias (Sábado; Ao redor…; 26.10.2022)

“Há mais 256 mil pessoas em Portugal a viver em risco de pobreza e exclusão” em 2021, face a 2020, de acordo com os dados do inquérito às condições de vida e rendimento do Eurostat. Mais 256.000 pessoas, em grande parte, resultado da pandemia por COVID-19, que contribuiu decisivamente para a interrupção de um período de decréscimo entre 2014 e 12019 deste e de outros indicadores relacionados com a pobreza, risco de pobreza e exclusão. Ouvimos e revimo-nos neste aumento do número de pessoas e famílias expostas a situações de escassez e pobreza. Também a exclusão e privação material e social, que também aumentou, tal como a desigualdade. Revimo-nos, porque o sentimos, grande parte de nós nas nossas famílias, todos na sociedade. Revimo-nos porque muitas vezes lhes acrescentamos nomes e situações concretas. Isto, pese embora, como o economista Carlos Farinha Rodrigues bem disse num debate em que participei a propósito do tema da pobreza, quando olhamos estes dados, “olhamos sempre pelo espelho retrovisor”.

Há? Havia, porque, em Outubro de 2022, quando conhecemos estes dados relativos a 2021, considerando agora os efeitos da crise socioeconómica resultante da maior inflação das últimas três décadas, podemos intuir que o número de pessoas nestas situações será, certamente, bem diferente dos números que discutimos e resulta num aumento de situações de privação, muitas vezes de desespero, em muitas famílias. E, importando olhar os dados, ainda que retrospectivamente, pensar a actual situação implica olhar prospectivamente o que poderemos esperar de consequências deste exigente momento. Destaco, além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social, duas que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais de situações de pobreza nos mesmos agregados familiares.

A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos. Assim, é possível prever que, caso suceda o que sucedeu na crise socioeconómica do início da anterior década, quando não houve reforço do apoio na área da saúde mental às pessoas em maior vulnerabilidade, esta situação resulte num aumento e agravamento dos problemas de saúde mental. E, consequentemente, numa maior probabilidade de manutenção ou queda destas pessoas em situação de precariedade, exclusão ou pobreza. Este ciclo resultará em níveis superiores de sofrimento, conduzirá a uma menor disponibilidade emocional das pessoas para o processo de recuperação (económica) que se sucederá à crise e a custos superiores no potencial apoio à saúde mental destas pessoas mais tarde, pela maior complexidade da intervenção se o problema se instalar e cristalizar. Neste sentido, importa, no presente, além de priorizar o apoio económico às pessoas com maior vulnerabilidade, priorizar também a disponibilização de apoio em proximidade e contingência na área da saúde mental, preferencialmente reforçando com urgência o número de profissionais da área da saúde mental associados aos centros de saúde e restantes unidades de cuidados de saúde primários e investindo no desenvolvimento de competências sócioemocionais, particularmente, mas não apenas, junto de crianças e jovens.

A segunda toca um conceito que tem ganho maior densidade, a partir de um conjunto cada vez mais significativo de investigação: os 1000 dias. Por 1000 dias entende-se o período dos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade com impacto ao longo de toda a vida, porquanto impacta o desenvolvimento neurológico (cerebral) e biológico. Ora, a investigação tem demonstrado com acutilância a forma como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão e/ou pobreza, tem um impacto significativo no desenvolvimento do bebé. Estes bebés, no seu dia 0 de vida, têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse dela resultante. Este processo é, muita vezes, continuado e aprofundado nos primeiros dois anos de vida quando se mantém este stresse e, a ele, não raras vezes, se associam dificuldades de alimentação e má nutrição, falta ou uma menor estimulação e a ausência de capacidade ou oportunidade de mobilização de competências parentais por parte das cuidadores e dos cuidadores, resultando numa desvantagem no final dos 1000 dias já particularmente significativa entre crianças expostas a contextos com níveis de adversidade distintos. Esta desvantagem impacta todo o processo de desenvolvimento, a educação e a saúde ao longo de todo o ciclo de vida, conforme estudos longitudinais têm demonstrado.

A ideia de um bebé nascer já com uma desvantagem, expressa no desenvolvimento (menor) das suas estruturas biológicas e neurológicas, corresponde a uma gravíssima injustiça social que nos deveria mobilizar. Particularmente num país de baixa natalidade e com desafios exigentes na sua demografia, deveríamos procurar, no presente para não condicionar o futuro de novos cidadãos, respostas assertivas que pudessem proteger e apoiar com maior intensidade os “agregados familiares dos 1000 dias”, reduzindo a sua exposição a situações de escassez, potenciando as licenças de maternidade e paternidade e melhorando o acesso e a qualidade das creches.

Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro e maior possibilidade de mobilidade social de pessoas e famílias da actual geração e das gerações seguintes. Duas áreas de actuação que apontariam a dois problemas estruturais do país (a elevada prevalência de problemas de saúde mental; a elevada pobreza e a sua reprodução geracional), que condicionam o crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, a equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental, conforme objectivo da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 21-30, fazermos da erradicação da pobreza desígnio. Um objectivo exigente, mas possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas. Um desígnio que exige a participação de todos e que se inicia com as conversas que podemos ter e que devemos promover em diversos contextos. Que se inicia tornando este assunto saliente e presente no espaço público, na acção de diversos grupos profissionais, na investigação de diversas equipas de investigação e no dia-a-dia de lideranças e de decisoras e decisores. Que se concretiza com a mobilização da sociedade civil e com políticas públicas mais informadas pela ciência e, por isso, mais eficazes e eficientes no presente, que contribuam para um futuro melhor para todos.

 

1000 dias

in Sábado (Ao redor…); 26.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/1000-dias

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“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

“Muito cedo na minha vida ficou tarde demais.”

Ainda na primeira página de “O Amante”, seu romance autobiográfico, Marguerite Duras resume-nos em 8 palavras uma vida. Uma vida mais em que muito cedo era já tarde demais.

Tenho, por diversos motivos, pensado nesta passagem e no que ela significa. E, talvez paradoxalmente, pensado não apenas no que mais automaticamente me (creio nos) suscita (o que cedo nas nossas vidas nos pode impedir de nos cumprirmos, autodeterminarmos, viver em plenitude e com saúde e bem-estar ao longo da vida) mas também no que de estímulo comporta para que possamos cedo, senão muito cedo, agir e intervir para que não se torne tarde ou tarde demais.

Quem aqui me lê, ou quem partilha de forma mais próxima o seu dia-a-dia comigo, sabe que um desses motivos trata a forma como venho reflectido as questões associadas às situações de pobreza e exclusão e a sua relação com outros desafios societais complexos, com a saúde mental e com as políticas públicas. Como impactam toda a vida, de todas as pessoas e da sociedade e como são determinantes fundamentais da educação, saúde e bem-estar ao longo da vida.

Sabe também quem há dias, entre a comemoração do Dia Mundial da Saúde Mental e do Dia Internacional da Erradicação da Pobreza (a 15.10.22), me ouviu conversar com a Carla Rocha no episódio do Quarto do Fundo (parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses) que partilho. O destaque da editora, também em 8 palavras, foca algo essencial: “Investir na saúde mental para prevenir a pobreza”. Refere ainda o papel da promoção do autocuidado, das competências e das relações sociais como fundamental à prevenção da violência, da pobreza e de todo o tipo de processos de exclusão. Cedo, muito cedo, para não ser tarde, tarde demais.

Também procurarei que o saiba quem, na próxima segunda-feira, participe nas II Jornadas do Serviço de Psicologia Centro Hospitalar Universitário de São João, onde, em conferência, abordarei o projecto “.Final à pobreza” (informações/inscrições aqui). Fá-lo-ei a convite do Eduardo Carqueja, a quem muito agradeço, não apenas o convite e confiança, mas a forma como, em conjunto com toda a equipa do Serviço de Psicologia que coordena, dia-a-dia nos demonstra, também ali, as mais-valias de uma organização de serviços de psicologia com autonomia nas estruturas do SNS. Mais-valias na qualidade de resposta aos cidadãos, multidisciplinariedade das intervenções e sustentabilidade da própria organização. No representa, significa e permite de valorização e desenvolvimento profissional às psicólogas e psicólogos que o integram. A quem agradeço por demonstrar que não é muito cedo, mas também não é tarde demais, para generalizarmos o modelo e disso beneficiarem pessoas e sociedade.

Um momento mais para reflectirmos juntos, espero, que devemos intervir e agir muito cedo, para que não seja tarde… Ou, ao mesmo, cedo para que não seja tarde demais.

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Congresso Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

E finalmente sobre o 5º Congresso da OPP…

Volto ao 5º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses. Faço-o 39 dias após o seu “fim”. Número de dias que se estima que, com a tecnologia actual, poderia demorar uma viagem até Marte mesmo quando, pelo facto da Terra e Marte estarem em órbitas elípticas relativas do Sol, a sua distância se alterar ao longo do tempo (entre 55 e 400 milhões de km).

 

Uso esta “imagem” para 3 notas finais sobre o congresso, que se somam ao que já aqui, aqui e aqui reflecti: a) a importância de conversas interdisciplinares e de se discutirem desafios das pessoas e sociedade; b) a equipa que o planeia e operacionaliza; c) a sua permanência (com maior ou menor proximidade) e o 6º Congresso da OPP.

 

a) Falar é, por si só, importante. Este congresso, marcado pelo (re)encontro, permitiu-o, estimulou-o, motivou-o. Entre pares e entre pessoas de diferentes idades, experiências, contextos e áreas científicas, em diálogos também interdisciplinares, com a sociedade e cultura. Isto reconhecendo que à complexidade dos desafios individuais e societais devem corresponder respostas também elas complexas e interdisciplinares, a partir das ciências e áreas profissionais que “orbitam” os desafios. Que reflictamos, colaboremos, encontremos novas respostas e nos desenvolvamos a partir delas.

 

b) Do planeamento (coordenado pelo Francisco Miranda Rodrigues) à operacionalização (coordenada pela Clara Silva), ao contrário do habitual em congressos com este número de participantes (cerca de 1500), toda a sua organização recaiu na órbita da OPP, nas suas pessoas e equipa. Acrescenta-se proximidade, personalização e relação ao evento, além de uma experiência (e história) crescente, pese embora o desafio de se organizar um grande evento concomitante à gestão das restantes acções do dia-a-dia. Parabéns à equipa que o fez e faz com este nível de empenho, qualidade e superação;

 

c) Finalmente, a ideia do não-término. Verdadeiramente os congressos da OPP não terminam considerando que é a distância para o próximo que se vai alterando. Dos cerca de 670 dias que agora faltam aos 0, aquando do início do 6º Congresso da OPP/XII Congresso da Federação Iberoamericana de Psicologia, cujo planeamento terei a honra e responsabilidade de coordenar (Lisboa; Setembro de 2024; em breve mais informações aqui https://congresso.ordemdospsicologos.pt/2024-2/).

 

Continuemos as conversas… Agora, amanhã e no Congresso em 2024. Obrigado a todas e todos que participaram e fizeram este.

 

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Democracia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Política

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza? (CNN Portugal; 17.10.2022)

Ao contrário do futebol, a pobreza não tem um lado que vence e outro que perde ou lados que empatam. Com a pobreza, todas e todos perdem. As pessoas que a vivem e que são privadas da sua dignidade, da sua possibilidade de saúde e bem-estar, de desenvolvimento e autodeterminação. As pessoas que, neste momento, não a vivendo, são parte da sociedade que a gera, reproduz e, por vezes, a esconde, tornando-se mais desigual, menos justa e coesa e logo menos promotora de equidade e de possibilidades para todas as pessoas. As instituições, particularmente os governos democráticos, que, não a erradicando, se desacreditam e fragilizam, geram desconfiança e menor participação e distanciam-se das necessidades e expectativas das pessoas, particularmente as com maiores vulnerabilidades, alimentando a polarização e o ódio às outras e aos outros. A pobreza, conforme alguns partidos procuram ser, é um fenómeno catch all, “apanha” todas e todos.

Os “7-0”, ironia de António Costa a propósito da maior aproximação das previsões económicas do Governo face às do FMI, não tem paralelo com as previsões do Governo face às de outros organismos a propósito da evolução anual do risco de pobreza e exclusão. A razão? O governo não prevê. Estabelece um objectivo para 2030 (“redução para 10% da população”), expresso no Programa de Governo com remissão para a Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030 mas, apesar de estimar no quadro macroeconómico e no Orçamento do Estado o PIB, a inflação, a evolução da taxa de desemprego, remunerações médias e até o preço do petróleo não prevê o impacto das medidas a que se propõe e da evolução dos indicadores socioeconómicos na percentagem de pessoas que em Portugal viverão em situação de pobreza (ou risco de pobreza) e exclusão em 2023.

Não o faz. Como, e apesar de ter já implementado um conjunto de importantes medidas que nela constam, não teve ainda oportunidade de nomear a coordenação e a comissão de acompanhamento da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza 2021-2030, estratégia aprovada e publicada ainda em 2021 e que prevê, no seu articulado, que até Junho de 2022 essa comissão (ainda inexistente) apresentaria o Plano de Acção 2022-2025. Nem coordenação, nem comissão, nem plano, duas propostas de Orçamento do Estado (2022 e 2023) depois para anos com a maior taxa de inflação das últimas três décadas (2022) e, em previsão, uma das maiores deste período (2023) e quando sabemos que a “inflação real” que incide sobre a população com maior escassez económica é significativamente superior à taxa de inflação (média). Nem coordenação, nem comissão, nem plano, num período em que a trajectória descendente dos indicadores de pobreza, consistente de 2014 a 2019, se inverteu, tendo a taxa de risco de pobreza (após transferências sociais) medida pelo INE aumentado de 16.2% em 2019 para 18,4% em 2020 e a de risco de pobreza ou exclusão social medida pelo Eurostat aumentado de 20% em 2020 para 22,4% em 2021, passando Portugal do 13º para o 8º país da União Europeia com maior percentagem de população nesta situação.

Previmos, mas podemos prever muito mais. Decidimos e aplicamos medidas, algumas delas relevantes, mas podemos decidir e fazer muito mais. Desenhamos e publicamos estratégias, mas podemos operacionalizar e concretizar muito mais. Isto implica priorizarmos o combate à pobreza, intencionalizá-lo e considerá-lo em todas as políticas (públicas). Implica uma atitude de não complacência com a pobreza, com a não utilização e operacionalização dos instrumentos ao nosso dispor para a sua erradicação e com a ineficácia de políticas (públicas) neste âmbito.

Assim pode ser amanhã. Dia que se segue ao dia em que celebramos globalmente o objectivo da erradicação da pobreza e em que, um pouco por todo o Mundo e em Portugal existirão manifestações de intenções, apresentação de propostas e debate público neste domínio. Amanhã e depois podemos concretizar as intenções, implementar as propostas e, particularmente, continuar e aprofundar este debate, tornando-o persistente e saliente, onde hoje é estranhamente ausente, considerando que a pobreza e a pobreza multidimensional (a que não se refere apenas à dimensão económica e que remete para a escassez de acesso à educação, saúde e condições de vida consideradas mínimas necessárias) é um dos principais determinantes da saúde (e da saúde mental), da educação ou da justiça. Amanhã comecemos por mobilizar a sociedade civil e considerar os diversos contributos, porque apenas com todas e todos podemos tornar o combate à pobreza desígnio nacional (conforme a Estratégia bem prevê) e vencer este complexo desafio. Complexo, mas possível, assim o queiramos e assim, com determinação, estimulemos, permitamos e utilizemos o contributo de pessoas e organizações investidas neste objectivo.

Um exemplo, as psicólogas e psicólogos em Portugal e a Ordem dos Psicólogos Portugueses. Considerando os contributos da ciência psicológica nesta área (nomeadamente os impactos da escassez no desenvolvimento, capacidade cognitiva e de planeamento e tomada de decisão) e a associação cíclica e forte entre situações de pobreza e exclusão e problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão), a Ordem dos Psicólogos Portugueses encontra-se a promover o projecto .Final à Pobreza, visando um mais intencional e informado contributo da ciência e da profissão para um ponto final à pobreza. Projecto que resultará numa estratégia que visará mais e melhor formação e recursos para a prática de psicólogas e psicólogos nesta área e contributos para a promoção de literacia na sociedade civil sobre este fenómeno, as suas causas, consequências e formas de o mitigar. Projecto que contribuirá para melhor informação para o desenho de políticas públicas nesta área e para promover redes de cooperação nacional e internacional junto do que é, não por acaso, o primeiro dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas.

Tudo porque o dia que hoje se celebra deve ser o nosso dia-a-dia. Toda e qualquer pessoa, independentemente da idade ou condição socioeconómica, é impactada pela sua situação de pobreza actual, potencial ou pelas situações de pobreza ao seu redor. Toda e qualquer pessoa tem um papel na sua erradicação, algo possível, conforme o caminho percorrido nas últimas décadas no Mundo demonstra, mas que depende de essa ser (a) prioridade das prioridades de todas e todos.

Continuamos amanhã?

Tiago Pereira

 

7-0 ao FMI mas que resultado no combate à Pobreza?

in CNN Portugal; 17.10.2022

https://cnnportugal.iol.pt/tiago-pereira/pobreza/tiago-pereira-7-0-ao-fmi-mas-que-resultado-no-combate-a-pobreza/20221017/634d2ca80cf2f9a86ebafb96

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O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais

“Esse cientista de depois de amanhã terá um escrúpulo especial pela sua própria vida interior.” Excerto do Livro do Desassossego (Bernardo Soares), mote (final) da conversa de ontem, a propósito de como a complexidade, a incerteza e os desafios individuais e societais do tempo que vive(re)mos implicam maior interdisciplinariedade e beneficiam de uma psicologia porto de abrigo.

“O Hub Psicologia: Uma ciência e uma profissão ao serviço das pessoas e da resposta aos principais desafios societais” foi o título da conferência e mesa (com a Dora Pereira) do “II Congresso dos Psicólogos da Madeira | Resiliência e Superação – A Psicologia na construção da paz, do bem-estar e da coesão social”. Conferência que resulta (muito agradeço pela confiança e oportunidade) do convite do Renato Gomes Carvalho e da equipa da Delegação Regional da Madeira, que tem desenvolvido um especialmente meritório e impactante trabalho na sociedade da RA da Madeira, conforme foi reconhecido e valorizado pelos Presidente da Câmara do Funchal, do Governo Regional e da Assembleia Legislativa da Madeira.

A conferência partiu do que atrás referi, do artigo do J. Cacioppo (“Psychology as a hub science”) e de 3 constatações suas: desde 2005 a psicologia é considerada um dos 7 hubs de ciência; enquanto ciência e prática é muito mais que a visão que dela existia, muito baseada no Dr. Phil; embora não totalmente compreendida, tinha já muito a oferecer (e a aprender) a/com outras áreas científicas. Tocou ainda o crescimento exponencial da investigação em psicologia (700% de 1980 a 2014) e do número de psicólogas e psicólogos no Mundo (+19%) e em Portugal (+67%), previsto para a década 2014-2024.

Passou pelo símbolo de infinito, não pelo crescimento potencial futuro, antes pelo pensamento sobre a relação passado-presente-futuro e a perspectiva de diferentes momentos de intervenção da psicologia. De complementariedade entre a procura da mudança individual (muitas vezes com intervenções clínicas, remediativas e individuais) e da mudança societal (macro), particularmente sobre os determinantes da possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas e de equidade, justiça e coesão social.

Terminei com 6 pistas para um hub profissão: equipas multidisciplinares; consultoria a lideranças; trabalho com decisoras/es; capacitação e desenvolvimento das pessoas; psicólogas/os cidadã(o)s; assunção de papéis de liderança e tomada de decisão. Tudo num caminho de uma psicologia porto de abrigo, como recurso fundamental do país e espaço de apoio às pessoas nos seus desafios individuais e à sociedade nos desafios societais. Porto de abrigo que implica que cada psicóloga e psicólogo, cada dia e em cada contexto, reforce a identidade, o reconhecimento (de erros) e aprendizagem, a confiança, a valorização e desenvolvimento profissional e o auto e heterocuidado.

Assumamo-nos – com determinação, motivação e empenho, com responsabilidade e competência – porto de abrigo no presente e futuro.

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Ao redor... (Revista Sábado) COVID-19 Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Psicologia

1000 dias….

1000 dias… Os primeiros 1000 dias. Um conceito com cada vez maior relevância, que parte de um quadro significativo de investigação e trata o período fundamental de desenvolvimento das estruturas neurológicas (cerebrais) e biológicas dos bebés. 1000 dias, tempo que dista de hoje a 06.02.2020, dia em que o Públicofez um trabalho sobre um artigo escrito por profissionais de saúde pública que, partindo da forma errática como foi gerido um 1º caso suspeito e não confirmado de COVID-19 em Portugal (1º caso confirmado surgiria apenas quase um mês depois), procurava promover uma melhor preparação dos cuidados de saúde, visando o que aí viria e de acordo com o que sabíamos pós-emergências H5N1, SARS e da pandemia H1N1.

“1000 dias”, 44º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destas premissas (tomar decisões informadas pela ciência e pela melhor evidência disponível; aprender com erros e construir sobre a experiência passada) para pensar o aumento das pessoas a viver em risco de pobreza e exclusão. Pensar, “além do risco potencial de quebra de equidade e coesão social”, duas questões que podem contribuir para uma maior dificuldade de saída desta situação no futuro e a consolidação e reprodução de ciclos geracionais.

“A primeira toca o sofrimento psicológico resultante do actual contexto e a forma como ele pode potenciar o stresse, mas também situações de ansiedade e depressão. Estes problemas de saúde mental relacionam-se de forma cíclica e forte com fenómenos sociais complexos como a precariedade, a exclusão e a pobreza, algo que determina que a probabilidade do seu desenvolvimento é até três vezes superior em crianças e adultos de contextos com os mais baixos rendimentos.”

A segunda, o conceito dos 1000 dias, “período que corresponde aos 9 meses de gestação de um bebé e os seus primeiros dois anos de vida (extrauterina), período particularmente sensível no desenvolvimento e que corresponde, em simultâneo, a uma janela de oportunidade ou de vulnerabilidade (…) A investigação demonstra como o stresse que chega ao bebé em gestação, associado ao facto de mães viverem a gravidez em contexto de escassez, exclusão ou pobreza, tem um impacto significativo no seu desenvolvimento. Estes bebés no seu dia 0 de vida têm já um gap negativo, uma desvantagem, face a bebés cuja gestação decorre noutro tipo de contextos com menor exposição à adversidade e ao stresse resultante (…) Desvantagem que se acentua ao longo da vida.”

“Duas áreas de actuação, sustentadas na ciência e que tornadas prioridade e política no presente, garantiriam mais possibilidades de futuro, maior possibilidade de mobilidade social e que apontariam a dois problemas estruturais do país (elevada prevalência de problemas de saúde mental; elevada pobreza e a sua reprodução geracional) que condicionam o seu crescimento económico e o desenvolvimento sustentável, equidade e a coesão social. Que condicionam a dignidade das pessoas e a sua possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação.”

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Halloween e a… psicologia.

Mais logo cumpre-se a noite do Halloween. Entre os “doce ou travessura”, os sustos e as histórias e filmes de terror, permitam-me partilhar 2 notas que envolvem esta celebração e a psicologia:

1) Um dos países que mais entusiasticamente a vive são os EUA onde, segundo um estudo do “Pew Forum on Religion and Public Life”, 3 em cada 4 pessoas acreditam em pelo menos um fenómeno que não é explicável pela ciência. 55% na “cura espiritual”, 41% na “percepção extrassensorial”, 37% em “casas assombradas” e 32% em “fantasmas”. Além da preocupação que estes números representam para a saúde pública (pelo que implicam em diversas áreas), têm uma falácia (da conjugação) interessante: conforme Pinker sublinha, há mais pessoas a acreditar em casas assombradas (por fantasmas) do que em fantasmas, o que resultará em pessoas que acreditam em cassas assombradas (por fantasmas) mas não em fantasmas. A falácia da conjugação foi descrita por Tversky e Kahneman (anos 80) e sublinha que pormenores conjunturais, que pelas leis da probabilidade tornam cenários menos prováveis, acabam por torná-los mais convincentes pela “irracionalidade humana”, particularmente face ao que se acredita ou “mexe connosco”. Se o Cristiano Ronaldo estivesse no topo das suas capacidades, quantos de nós acreditaríamos que Portugal fosse Campeão do Mundo? E campeão do Mundo com o Cristiano Ronaldo como melhor marcador do torneio? E, qual a probabilidade de António Costa deixar de ser primeiro-ministro antes do final da legislatura? E deixar de o ser para ir presidir à Comissão Europeia? Algo importante a reflectirmos, pelas implicações que tem, por exemplo, nos processos de desinformação, polarização ou no testemunho;

2) A noite comporta também a ideia da máscara/disfarce (em Portugal, como o Carnaval) que pode, quando contextualizadamente, diminuir as inibições, promover a autoconfiança e permitir alguma “transgressão” (importante, porque contextualizada) face ao regular. E, porque uma apenas por ano e, mais uma vez, contextualizada, é um momento relativamente seguro (por isso importante) para se “brincar” com medos e ansiedades, porque “envolve” todas as pessoas, independentemente das condições (vulnerabilidades) próprias de cada uma.

Antes desta noite, estarei de volta a Aveiro (pós 5º Congresso da Ordem dos Psicólogos Portugueses) e ao Encontro Nacional de Estudantes de Psicologia (noutra condição, depois de participar como estudante primeiro e depois como dirigente da ANEP (Associação Nacional de Estudantes de Psicologia), para uma “improvável” mesa com pessoas que muito estimo e admiro (Telmo Mourinho Baptista, Miguel Ricou e Jose Pais-Ribeiro) sobre “o paralelismo da Psicologia de ontem e de hoje”. Na mesa e num momento de networking.

Depois desta noite, um muito importante momento do meu ano, de todos os meus anos. De proximidade. De família. Também por isso o meu Halloween, com ou sem celebração, sempre foi especial. Como o será, este ano.

[Imagem – University of British Columbia]

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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Política Psicologia

NPD – Normalização, polarização, democracia (Sábado; Ao redor…; 12.10.2022)

Uma nota prévia: O que em seguida se pode ler comporta sete simplificações que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas.

Vigotsky nasceu ainda no século XIX numa cidade da actual Bielorrússia. Viveu menos anos do que os que eu já vivi (37) mas, quando em 1934 faleceu, deixou uma importante e transformadora obra, parte dela apenas integrada no conhecimento científico décadas mais tarde, também devido à censura de que foi alvo. Foi um psicólogo pioneiro na teorização da importância da comunicação e das relações e condições sociais no desenvolvimento infantil. Entre outros contributos, deixou-nos o importante conceito de zona de desenvolvimento próxima, enquanto potencial de desenvolvimento que uma criança/pessoa possui a cada momento, a partir do seu desenvolvimento real e se apoiada em relação com alguém mais “desenvolvido”. Grosso modo (simplificação 1), o espaço que dista entre o desenvolvimento real (A) e o desenvolvimento potencial (B), sendo que A e B, a cada momento do desenvolvimento, se vão alterando. Deixou-nos, ainda, o conceito de mediação, que elabora no seu trabalho enquanto elemento intermédio e fundamental no binómio estímulo-resposta, sublinhando, também, a importância da linguagem e do simbólico na mediação.

A agressão física de Will Smith a Chris Rock na cerimónia dos Óscares e o crescimento e ascensão a posições de decisão de partidos populistas, radicais ou extremistas, são apenas dois exemplos no debate em torno da normalização da violência, num caso, ou de ideais e propostas políticas cuja prioridade e quadro de valores não assentam nos direitos humanos ou justiça social. A zona de desenvolvimento próximo de Vygotsky oferece-nos duas importantes pistas (simplificações 2 e 3) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. O papel de outras e outros nos processos de “normalização”, num tornar real o que apenas era potencial, por exemplo no admitir, no legitimar, no considerar, por alguns e algumas, como “bela e romântica” a agressão física como resposta. O facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante. Quando se torna “real” Trump e outras e outros próximos, Maduro e outras e outros próximos, criam-se, automaticamente, “novos potenciais”, cada vez mais distantes do outrora real, porque o desenvolvimento e a sociedade, como as ideias e os ideais são vorazes – embora, protectoramente, possamos pensar o contrário, podem sempre ir mais longe.

“Sei que um grande número dos nossos compatriotas votaram hoje por mim, não por me apoiarem, mas para fazerem barreira à extrema-direita”, disse Macron aquando das últimas eleições presidenciais Francesas. Cada vez mais assistimos (sentimos?) uma participação pública e política menos motivada pela mobilização e adesão a projectos, e mais pelo “combate” e barreira a outros, em simultâneo com a utilização de emoções como a raiva, o ressentimento ou o ódio a outras e outros como estímulo. A mediação e a importância das condições sociais, conforme reflectidas por Vygotsky, oferecem-nos três importantes pistas (simplificações 4, 5 e 6) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. A primeira, a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por exemplo) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo de pertença, seja ele uma associação ou clube, ou, hoje, de uma rede social. As segunda e terceira, a forma como as condições de vida e aspectos sociais o influenciam, nomeadamente a forma como as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades. Bem como a forma como a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.

Tudo num caminho de maior normalização do que antes nos parecia distante. Tudo a polarizar, a criar um nós vs. outras/os e a afastar-nos. Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais, assentes no reconhecimento de direitos (e deveres) partilhados. Tudo a colocar em causa o sistema que, com as suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos e procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e promotora de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação. Tudo a justificar porque, há já mais de uma década, mas com especial incidência nos últimos anos, invertemos o caminho de maior disseminação da democracia e das garantias de liberdade e direito no Mundo e caminhamos para um maior encerramento, nacionalismo e para mais autoritarismo.

Normalização, polarização, democracia. NPD. Sigla pela qual, em inglês, é conhecida a perturbação narcísica de personalidade. Independentemente se ao nível de “perturbação” (simplificação 7), não raras vezes, quem tem este objectivo e promove estes movimentos, fá-lo a partir de uma aura salvífica capaz de respostas cabais, simplistas e imediatas para todo e qualquer problema, independentemente de serem, por vezes, complexos e multidimensionais. Não raras vezes pessoas que, vivendo da necessidade permanente de reconhecimento, se consideram melhores que outras e outros, se sentem incompreendidas no seu valor e que assumem papéis de liderança de projectos que, mascarando vulnerabilidades, procuram a polarização e a normalização. Que usam das vulnerabilidades e dos receios de algumas pessoas para legitimar, quando não promover, posições contrárias ao reconhecimento de outras e outros, da sua possibilidade de participação e autodeterminação, dos pilares do sistema democrático.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos reflectir sobre os processos de normalização e de como dependem de todas e todos nós. Como conduzem à polarização e ameaçam os princípios democráticos. Como, a coesão social e a defesa dos valores democráticos, dependem de travarmos “avanços de A para B que criam sucessivos C e D”. Compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais, conforme o mote do Dia Mundial da Saúde Mental comemorado a 10 de Outubro. Se o fizermos estaremos, também, a contribuir para a confiança, para a credibilidade das instituições e qualidade da democracia e, dessa forma, a garantir melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.

 

NPD – Normalização, polarização, democracia

in Sábado (Ao redor…); 12.10.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/npd—normalizacao-polarizacao-democracia

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia

Tenho uma “memória profissional” com cerca de 5 anos que dificilmente esquecerei. Uma reunião (com a Isabel Trindade) com responsáveis da área dos seguros, onde procurávamos uma colaboração que permitisse maior sensibilização às seguradoras para a inclusão de actos na área da saúde mental, incluindo a psicologia. Pior que a ausência de abertura, foi o desconhecimento demonstrado sobre o trabalho das psicólogas e psicólogos e a desconsideração de algo com relevância social e ligação à saúde e bem-estar. Penso nisso e penso na forma como recordarão essas pessoas a reunião e a sua atitude.

Penso como terão visto a hoje maior seguradora na saúde em Portugal lançar em 01.11.2021 uma cobertura compreensiva na área da saúde mental, que inclui actos das/os psicólogas/os, nas suas diversas áreas de actividade, numa perspectiva de prevenção e promoção. Que os inclui através de uma rede e de um sistema de reembolso de 50% do valor das sessões (até 300€/ano) de profissionais fora da rede. Como terão visto que a seguradora tenha investido, também, na promoção do bem-estar, da literacia em saúde e saúde mental e no desenvolvimento de programas específicos para acontecimentos de vida, valorizando, na rede, as e os psicólogos especialistas com um valor/sessão melhorado.

Falo da Multicare. E falo de um trabalho de colaboração com a Ordem dos Psicólogos Portugueses que acompanhei e acompanho de forma próxima e que começou no início da pandemia por COVID-19. Colaboração com diversos marcos. A consultoria ao desenho da abordagem compreensiva à saúde mental e os primeiros artigos publicados. A simbólica (porque pela primeira vez a saúde mental foi tema neste evento da Fidelidade) participação que tive no “Pensar Maior – Saúde”, no Dia Mundial da Saúde, na sessão que partilho, onde estive com a Inês Pimenta de Castro.

Como foi, ainda, a assinatura do protocolo de colaboração ou a sessão da passada 3ªF, onde, além de intervenção da Alexandra Antunes, com quem tenho partilhado este trabalho, e do Francisco Miranda Rodrigues, participei numa conversa sobre saúde mental com o António Raminhos sob moderação da Isabel Silva. Conversa onde, reforçando a importância desta cobertura, sublinhei a necessidade do reforço urgente de psicólogas e psicólogos nos centros de saúde e outras unidades dos cuidados de saúde primários.

“Aquilo que são os nossos problemas não nos define. Nós não somos os nossos problemas. Nós temos problemas ou não temos problemas e, essencialmente, temos ou não temos recursos para lidar com esses problemas. E temos de ter recursos para lidar com esses problemas”. Assim fechei a intervenção no “Pensar Maior – Saúde”. Aqui está mais um, particularmente relevante. Juntos devemos exigir que os cuidados de saúde primários possam, verdadeira e rapidamente, ser outro. Outro, fundamental.

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Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

É ou não é / Pobreza (RTP1, 25.10.2022)

“Ainda bem que estamos aqui hoje a conversar sobre isto, mas nós conversamos muito pouco sobre pobreza. A pobreza é o principal determinante da saúde, educação, da área social em Portugal e está normalmente ausente daquilo que é o debate público a não ser quando surgem alguns dados… É pouco presente no debate público, portanto, apelo a que um dos pontos da Estratégia Nacional de Combate à Pobreza (ENCP), que é exactamente tornar esta matéria um desígnio nacional, possa ser endereçado e abraçado e isso implica que toda a sociedade se mobilize no combate a este enorme problema social que impacta todas as pessoas”.

Foi esta a minha última intervenção no programa “É ou não é” (RTP; abaixo) sobre pobreza. Antes enquadrei o https://finalapobreza.pt e o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos nesta área, particularmente: 1) melhor informação e literacia sobre as causas e consequências do fenómeno, contribuindo para a diminuição do estigma e compreensão de que é um problema que afecta todas as pessoas (particularmente, mas não apenas, quem vive em situação de pobreza); 2) contribuir para o desenho e implementação de políticas públicas mais eficazes e eficientes.

A propósito do 2º ponto, evocando o que não aconteceu aquando da crise sócio-económica do início da década passada (reforço da área da saúde mental), afirmei a associação cíclica e forte entre problemas de saúde mental (stresse, ansiedade e depressão) e pobreza e exclusão, sublinhando não poder haver prioridade no combate à pobreza sem promoção da saúde mental e vice-versa. Abordei, ainda, os “1000 dias” e o impacto no desenvolvimento das estruturas neurológicas e biológicas nos bebés que nascem em contextos de maior adversidade (exclusão e pobreza), devido ao stresse, má nutrição, entre outros. Estes têm, desde ainda antes do nascimento, um gap negativo (desvantagem) de desenvolvimento, que se intensifica ao longo da vida, justificando-se políticas mais assertivas nesta área, também pela injustiça social que representa.

Na 2ª intervenção, com uma excelente entrevista ao Eldar Shafir pelo meio, reforcei que é possível erradicar a pobreza, sublinhei que a complexidade do desafio implica que sejamos exigentes (dando o exemplo da ENCP não ter ainda o plano de acção 22-25) e que capacitemos e demos condições às organizações e serviços públicos que trabalham nesta área. Abordei ainda a importância da oportunidade (contexto) para a par da conhecimento e motivação, podermos mobilizar comportamentos e a forma como o stresse, a ansiedade, o insucesso escolar (muito presente) e o estigma afectam crianças e jovens, com impacto ao longo da vida.

Reforcei, finalmente, o estigma e auto-estigmatização e seu o impacto, por ex., no facto de algumas pessoas não recorrerem aos apoios sociais por esse motivo, condicionado a sua eficácia.

 

https://www.rtp.pt/play/p9816/e-ou-nao-e-o-grande-debate (parte I)

https://www.rtp.pt/play/p9816/e649260/e-ou-nao-e-o-grande-debate/1096150 (parte II)