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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos (Sábado; Ao redor…; 27.12.2022)

Está a terminar um 2022 particularmente exigente. Apesar do conjunto de sinais preocupantes que se observavam em 2021, sobrava uma justa aspiração das pessoas a um ano de retorno e expansão depois de dois anos de diversas restrições e perdas resultantes da pandemia por COVID-19. Porém, ainda em Fevereiro, o início de uma nova fase de invasão pela Federação Russa do território ucraniano e tudo quanto se seguiu, inviabilizou essa pretensão. 2022 acabou por acrescentar imprevisibilidade ao já imprevisível, falta de controlo ao pouco que controlávamos. Acelerou mudanças em curso, perigou a coesão e a abertura da sociedade à diversidade e prejudicou desígnios de países e do Mundo em áreas centrais como os Direitos Humanos ou os Objectivos do Desenvolvimento Sustentável. 2022 será lembrado como um ano muito difícil e de mal-estar para muitas pessoas.

Por cá o ano termina, também, com debate sobre uma nova (a oitava) revisão da Constituição de 1976. Discussão 40 anos após a sua primeira revisão (1982) que introduziu alterações significativas no artigo 9º (“Tarefas fundamentais do Estado”), nomeadamente o objectivo de promoção do “bem-estar e qualidade de vida do povo, a igualdade real entre os portugueses e a efectivação dos direitos económicos, sociais e culturais, mediante a transformação das estruturas económicas e sociais”, início da sua alínea d), ainda hoje com redacção próxima. De 1982 aos dias de hoje, o país percorreu um longo caminho sendo inusitadas quaisquer comparações entre a possibilidade de bem-estar de todas e todos no início da década de 80 face a hoje. Em todo o caso, pressente-se sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso, neste caminho e um não foco neste elemento como primordial do país. A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país. E como recurso fundamental do país e elemento-chave preparação para os desafios do presente e do futuro.

Isto mesmo quando factores que fazem de Portugal destino turístico de excelência, nos aproximam de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar de todas e todos. O nosso clima. O património, a cultura e os seus significados. A gastronomia e qualidade dos produtos. A natureza e a possibilidade de relação e contacto com ela. A proximidade das pessoas e a forma acolhedora como recebemos. A segurança e a coesão. A legislação globalmente avançada, inclusiva e respeitadora dos Direitos Humanos e, até, um caminho por percorrer na resposta a desafios da sociedade, apelando a propósitos potenciais e aos contributos de profissionais e da sociedade civil.

Mas olhemos em detalhe as componentes do bem-estar. Seja através do “Better Life Index” (OCDE) ou do “Índice de Qualidade de Vida” (Eurostat), encontramos 11 dimensões próximas: condições de habitação; rendimentos; trabalho e emprego; tempo e conciliação entre vida pessoal e profissional; suporte e conexão social; educação e formação; qualidade do meio ambiente; envolvimento cívico, participação democrática e governação; cuidados de saúde de qualidade e acesso; satisfação com a vida; e segurança. Nelas identificamos parte do atrás referido e, sobretudo, pistas fundamentais para o que podemos promover e investir. É que, se Portugal apresenta, por exemplo, resultantes relevantes nas áreas da qualidade do meio ambiente e segurança, apresenta valores abaixo da média dos países da UE e da OCDE na satisfação com a vida ou o rendimento e diversas dimensões com forte potencial de melhoria e crescimento. Para esse desígnio beneficiaria de cinco factores que se interligam.

Antes de mais, conforme procurei sustentar nesta rubrica em Maio, considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas. Depois, melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e de exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população (vejam-se os dados do “Society at a Glance 2016 – OCDE” que o Luís Aguiar-Conraria partilhou recentemente e que indicavam que em Portugal apenas 11% das transferências públicas se destinavam aos 20% de população em situação de maior pobreza face a cerca de 40% à população em situação de maior riqueza). Também que, em períodos de crise e dificuldade, a população mais vulnerável seja mais protegida e apoiada (vejam-se os resultados do estudo “Desigualdade do rendimento e pobreza em Portugal – As consequências sociais do programa de ajustamento”, da responsabilidade de Carlos Farinha Rodrigues, que demonstram que entre 2009 e 2014 o decil das/os 10% de população com rendimento mais elevados decresceu 13% em rendimento enquanto que o dos 10% com rendimentos mais baixos decresceu 25%, contrariando a narrativa de que as pessoas em situação de maior vulnerabilidade foram protegidas nesse período). Ainda que a sociedade civil aumente o envolvimento e a sua participação cívica, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforce os níveis de conexão e suporte social da população. Finalmente, que se criem condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental que possam, em espiral, resultar em alterações no quotidiano, na capacidade de realização de funções e no agravamento das dificuldades e problemas.

Assim, conforme desejei para 2022 que construíssemos mais paz pelo que há um ano sentia como ameaças potenciais à paz, desejo para 2023 que promovamos mais e maiores possibilidades de bem-estar para todas e para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme passou a prever a Constituição Portuguesa também aquando da revisão de 1982, depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar de todas e todos. Depende de desenvolvermos uma sociedade de bem-estar e, assim, de maior previsibilidade, controlo, coesão e capacidade de não deixar ninguém para trás. De foco nos Direitos Humanos e na procura de cumprir e apoiar o cumprimento dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

 

Tiago Pereira

Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

in Sábado (Ao redor…); 27.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-desejo-para-2023-promovermos-mais-bem-estar-para-todas-e-todos

 

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Solidão… Um problema de saúde pública.

“Quantas/os amigas/os realmente próximos necessitamos?” Num artigo publicado no The New York Times, Catherine Pearson discute este importante e estruturante tema do nosso tempo a partir da constatação do declínio das relações de amizade próximas nos últimos anos e, particularmente, durante a pandemia. Inquéritos da Gallup demonstram que se há 30 anos apenas 3% das/os americanas/os referia não ter amigas/os próximas/os, estudos mais actuais indicam que até cerca de 13% das americanas e 8% dos americanos assim o consideraram, hoje. Em Portugal o aumento é igualmente significativo, contribuindo para uma realidade onde cerca de 330 milhões de pessoas (mais de 3% da população Mundial) afirmaram não ter comunicado com pessoas próximas nas duas semanas anteriores a um estudo desta empresa.

A solidão e o isolamento social são dimensões relevantes de saúde pública e determinantes fundamentais do bem-estar e da saúde. São, nesse sentido, factores fulcrais a considerar e, fundamentalmente, devem informar a definição de políticas, a acção de diferentes entidades/organizações da sociedade civil e de cada pessoa na relação com outras pessoas. Merecem ser faladas, discutidas e ser promovida literacia para todas as pessoas em seu torno.

Foi o que se procurou com o nono episódio do programa online “Eu sinto.me” (https://eusinto.me), recentemente disponibilizado e que aqui partilho. Abordando a solidão, parte destes pressupostos e da realidade que a Julianne Holt-Lunstad (que esteve em Portugal aquando do IV Congresso da OPP) vem estudando há muitos anos, algo que lhe permite afirmar que o “impacto da solidão na saúde é equivalente ao de fumar 15 cigarros por dia ao longo da vida”. Episódio que conta, como habitualmente, com apresentação da Andresa Oliveira e com contribuições de Fabio Medina, Luísa Ribeiro e Júlio Machado Vaz.

“Pessoa jovem ou pessoa mais velha, a solidão não discrimina.” Assim é e assim afirmava Jo Cox, deputada do Reino Unido que criou a comissão para a solidão, sobre os impactos da solidão na sociedade. Criou-a pouco tempo antes de ser barbaramente assassinada por razões relacionadas com o ódio às e aos outros e à diversidade, combustível do que nos afasta e deslaça. Do que fragmenta a sociedade e fragiliza a coesão.

O trabalho da comissão que criou (que continuou depois do seu assassinato) originou uma estratégia intergovernamental nesta matéria e, mais tarde, uma Ministra da Solidão no Reino Unido. A primeira de um caminho que, entretanto, o Japão também trilhou e que, tudo indica, seja sobre a forma de estratégias, seja através de estruturas de decisão, continuará noutras latitudes, tamanhos são os determinantes solidão e isolamento social na saúde e no bem-estar e o problema de saúde pública que representam.

Esperemos que também em Portugal onde, apesar de uma recomendação da Assembleia da República ao Governo ter sido aprovada em Outubro de 2021 nesse sentido, continuamos sem uma estratégia de prevenção e combate à solidão.

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2023

2023. Entramos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio. Momento para pensarmos o ano que temos pela frente e para nos pensarmos nele.

Profissionalmente, a cada ano, faço-o também a partir das tendências da psicologia que a @American Psychological Association publica por estes dias. Resumo as para 2023:

1) ciência psicológica a chegar a mais (e mais diversas) pessoas com 2) investigação inovadora e mais inclusiva; 3) combate à desinformação; 4) promoção do bem-estar de trabalhadoras/es e 5) de lideranças que promovam na gestão a equidade, diversidade e inclusão; 6) foco na promoção da saúde mental de crianças/jovens e na 7) prevenção do suicídio; 8) financiamento significativo de apps de saúde mental e integração da inteligência artificial; 9) crescente abandono de carreiras académicas em psicologia [mais específico dos EUA/Canadá]; 10) maior contributo para a saúde pública, dirigindo intervenções para a promoção da saúde psicológica de toda a população e 11) reforço de parcerias no âmbito dos principais desafios societais.

2023 será, também, o terceiro ano com as minhas actuais responsabilidades e, também na @Ordem dos Psicólogos Portugueses, acompanharemos parte destas tendências, contribuindo na relação com as congéneres internacionais e pela nossa actividade específica. Dela, e da que mais directamente me envolverá/caberá, destaco:

Contributo para a construção de locais de trabalho saudáveis, com prevenção e gestão dos riscos psicossociais e sensibilização das lideranças para as questões da equidade, diversidade, inclusão e bem-estar nas organizações; parceria com entidades e organizações diversas (incluindo seguradoras) no sentido melhorar o acesso da população (e a equidade de acesso) a serviços de psicologia; a criação de mais e melhores condições (incluindo para as/os profissionais) de prevenção, promoção e intervenção na área da saúde mental, particularmente nas crianças/jovens; processos de desenvolvimento profissional e especialização em psicologia e valorização dos actos e das/os profissionais; promoção da literacia em saúde psicológica e da ciência com evidência; contributo da psicologia para a saúde pública e para desafios societais complexos como a crise climática, demográfica, as migrações e…

Como o Presidente da República ontem disse na comunicação ao país, 2022 trouxe o “agravamento da pobreza e das desigualdades sociais”. Antes havia dito que “haver menor desigualdade e menor pobreza” era um dos três “grandes desejos e votos” do Presidente para 2023. Diria de todas e todos. Uma parte significativa do meu ano será a procurar contribuir para a definição (e concretização) da estratégia, que a partir do https://finalapobreza.pt, procurará estimular um maior e mais decisivo contributo da psicologia e das/os psicólogas/os para este desígnio. Para um país com menos pessoas em situação de pobreza, menos exclusão e desigualdade.

Venha de lá 2023. Que ele nos aproxime, aqui e fora daqui.

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres (Sábado; Ao redor…; 07.12.2022)

“Não há provas. Não há testemunhas. Mas para uma pessoa, não existe dúvida.” É esta a frase de apresentação do filme “A dúvida” realizado por J. Shanley e baseado numa peça de teatro por si escrita, que lhe valeu o prémio Pulitzer Drama em 2005. A peça (“Dúvida: Uma parábola”) tinha um nome que reflectia uma dimensão visual da dúvida, associada ao seu dinamismo e à forma como, diferentes momentos e circunstâncias, podem produzir diferentes olhares sobre algo. Dúvida, elemento poderoso nas dimensões cognitivas, emocionais e de comportamento das pessoas, triângulo estruturante da vida, das relações connosco e com as outras e os outros e da sociedade.

Embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso a dúvida é explorada, da indústria à política. Do memorando, outrora secreto, da indústria tabaqueira que afirmava que “a dúvida é o nosso produto”, estimulando o financiamento de campanhas (e até de “ciência”) que introduzissem dúvidas nas cada vez mais evidentes nocivas consequências do consumo de tabaco, à forma como políticas/os, como é exemplo Donald Trump, têm procurado suscitá-la face aos processos democráticos dos seus países. No seu caso, abundam exemplos, desde a legitimação de grupos violentos como os Proud Boys, à frase aquando da sua aceitação da nomeação para recandidatura a Presidente na Convenção Republicana de Agosto de 2020 (“A única forma que eles [Partido Democrata] têm de nos retirar a eleição é através de eleições fraudulentas”) ou à forma como nos últimos dias pediu a “extinção da Constituição” e, mais uma vez, a anulação das eleições presidenciais de 2020. Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e até dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna” ou que “vemos, sistematicamente, a população a desconfiar destes relatórios” existindo agora “um grupo parlamentar que também desconfia destes relatórios”.

Este movimento, com exemplos históricos com décadas e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito por todas e por todos e para a convivência e acção conjunta dos povos face aos desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando as possibilidades de actuação sobre a mesma das instituições e autoridades do Estado. Ao paulatinamente desacreditarem as instituições e os pilares da vida democrática, estes movimentos e partidos pretendem espaço de crescimento e propagação do seu ideário utilizando a percepção de injustiça e da perda de qualidade de vida de algumas pessoas, o medo do desconhecido e diverso, a revolta ou o ódio à outra e ao outro. Pretendem minar a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.

Estes processos condicionam significativa e negativamente a saúde pública e o bem-estar das pessoas. São hoje relativamente claras as relações existentes entre a liberdade e direitos económicos, sociais e culturais e os indicadores de saúde e bem-estar das populações. Tal qual é claro que a democracia por si, ainda que suportada na capacidade de empoderamento das pessoas, se não for acompanhada de direitos humanos estruturantes como o direito à habitação, à educação de qualidade e a condições equilibradas de subsistência e de satisfação e propósito no trabalho, não resulta eficaz de igual forma.

Esta consciência, e os sinais que temos destes movimentos até em países que porventura consideraríamos a eles mais imunes (e.g. países do Norte da Europa), devem-nos motivar e impelir a uma atitude proactiva de prevenção e mitigação destes fenómenos, considerando a sua importância e o seu papel nas sociedades democráticas, de Direitos e livres. É fundamental que tal dependa, é certo, do reforço da dimensão social que toque e abarque questões fundamentais como a habitação, a precariedade e pobreza ou a educação de qualidade e trabalho digno, mas, também, outras áreas, hoje talvez ainda emergentes, mas que importa acompanhar e desenvolver. Dois exemplos.

A Finlândia introduziu no currículo das suas Escolas a literacia mediática. A invasão da Crimeia pela Federação Russa em 2014 e os níveis de desinformação e de notícias falsas particularmente significativos que se lhe seguiram, conduziram a esta alteração e a um mais intencional investimento no desenvolvimento do pensamento crítico de crianças e jovens. Juntando-se à abordagem à educação mediática, parte já antes do currículo do ensino pré-escolar e elementar, e com os impactos que sabemos que continuam das crianças/adolescentes para as suas famílias/sociedade, segundo o instituto Open Society a Finlândia é hoje o país da Europa mais resistente à desinformação. A Suécia que recentemente criou a “Agência de Defesa Psicológica”, uma estrutura pública que visa organizar e operacionalizar um conjunto de acções de protecção da sociedade democrática e livre e da formação livre de opinião, a partir da identificação, análise e combate à influência da má informação ou desinformação estrangeira direccionada à Suécia.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, existem hoje novas e crescentes ameaças às pessoas, sociedades e instituições e estes são dois exemplos concretos de como melhor nos prepararmos para os desafios do presente e do futuro. Para apoiar, também, o que a OCDE define como fundamental para o desenvolvimento da verdade, confiança e reforço da democracia: o combate à má informação e desinformação; uma maior representação e participação das pessoas na vida pública; o assumir de responsabilidades globais e a resiliência à influência externa nas sociedades; a transição verde e digital. Tudo áreas para as quais, também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, a psicologia pode e deve, a par com outras ciências e profissionais, contribuir. Tudo áreas que devemos valorizar e investir, considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.

 

Tiago Pereira

A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

in Sábado (Ao redor…); 07.12.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-duvida-a-literacia-e-a-defesa-psicologica-das-sociedades-democraticas-de-direitos-e-livres

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Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos

Hoje passa um ano e um dia da publicação um artigo que escrevi de título “Um desejo para 2022? Construirmos mais paz”. Escrevi-o porque o sentia importante, necessário, considerando as ameaças potenciais à Paz a que assistíamos e que intuía. Estava, porém, longe de perspectivar a amplitude do que 58 dias depois viria a suceder e de ver imagens de tanques russos nas ruas de Kyiv nos momentos que se seguiram ao trágico 24.02.22. Hoje, um ano depois, passa um dia de que foi publicado um outro artigo, de “desejo” e próximo na “arquitectura”.

“Um desejo para 2023? Promovermos mais bem-estar para todas e todos”, 48º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte dos “sinais de desaceleramento, por vezes até de retrocesso”, no caminho de melhoria da possibilidade de bem-estar em Portugal. “A promoção do bem-estar parece, hoje, nos discursos e nas políticas, apenas pensada como impacto potencial de um eventual crescimento económico ou da alteração de factores externos ao país. Portanto, não é priorizada e não considerada enquanto elemento fundamental de prosperidade, sustentabilidade e desenvolvimento harmonioso das pessoas e do país.”

No artigo reflicto sobre como o que nos torna “destino turístico de excelência, nos aproxima de sermos mais capazes enquanto país de promover a possibilidade de bem-estar” e, a partir de dois índices internacionais, o que parece fazermos bem, menos bem e que podemos significativamente melhorar para tal, sublinhando cinco factores de investimento essenciais que se interligam:

  1. considerar a promoção do bem-estar no desenho de todas as políticas públicas;
  2. melhorar a efectividade das políticas e combater as diversas formas de pobreza e exclusão, ainda demasiado prevalentes em Portugal, fazendo com que os apoios sociais se dirijam mais substancialmente às camadas mais vulneráveis da população;
  3. em períodos de crise e dificuldade, proteger e apoiar a população mais vulnerável;
  4. maior envolvimento e participação da sociedade civil, contribuindo para uma melhor governação e para a qualidade das instituições e reforçando os níveis de conexão e suporte social da população;
  5. criação de condições para, em contingência e com equidade e eficiência, se apoiarem as pessoas em situação de dificuldade e desafio, não apenas na área social, mas também a nível psicológico, aquando de níveis elevados de distress, sofrimento psicológico e/ou de problemas de saúde mental.

Caminhar para uma “sociedade livre, justa e solidária”, conforme prevê a Constituição Portuguesa, “depende da capacidade de enquanto pessoas, sociedade e país contribuirmos mais para a promoção da possibilidade de bem-estar”.

Que o priorizemos e promovamos, mais, em 2023.

Obrigado a quem neste 2022 aqui me acompanhou. Bom 2023 e que nos possamos continuar a encontrar, aqui e noutros lugares.

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Que especialidades para a psicologia?

Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt foram, respectivamente, o 16º e 32º presidente dos EUA. Presidentes marcantes, com elementos que os ligam (desde logo terem falecido no exercício da sua presidência), a quem são atribuídas, também respectivamente, estas frases: “a melhor forma de prever o futuro é criá-lo” | “nem sempre conseguimos construir um futuro para as e os nossos jovens, mas podemos construir os e as jovens para o futuro”. Evoco-as no sentido de pensarmos uma sua possível síntese. Um aceitar que não podemos criar o futuro, mas que para ele podemos contribuir e nos preparar.

Quem comigo vai falando ou, por exemplo aqui, me lê, sabe que assim o penso no que se refere à psicologia e ao seu contributo no e para o futuro. Que assim o penso relativamente à formação, desenvolvimento profissional e especialização no seio da profissão. Um equilíbrio, portanto, entre a influência possível no futuro e um respeito pela história, experiência e diversidade de caminhos de desenvolvimento na profissão e a necessidade de maturidade e melhoria incremental dos seus sistemas.

Assim chego ao tempo de reflexão sobre sobre as especialidades profissionais de psicologia, compromisso da direcção da Ordem dos Psicólogos Portugueses visando a revisão do seu regulamento que agora se inicia. Organizado em cinco fases (Potenciar; Expandir; Amadurecer; Sustentar; Transformar), procura promover o envolvimento de todas e todos, num debate, necessariamente exigente e complexo sobre o caminho percorrido e a percorrer, que espero e esperamos que possa ser intensamente participado na procura das melhores e mais adequadas soluções.

Integrado no conjunto de iniciativas da primeira fase, realizou-se um debate (“O passado, presente e futuro das especialidades”) que partilho e que reuniu actuais e anterioras/es presidentes dos conselhos de especialidade (David Dias Neto, Sofia Mendes, em representação do Leandro Almeida, Susana Monteiro, Miguel Ricou, Marisa Carvalho e Jaime Ferreira da Silva), apresentado pela Sofia Ramalho e por mim moderado.

Conversa estimulante sobre a profissão, o que significam os quase 10 anos (e que 10 anos…) corridos sobre o início da discussão da criação das especialidades e os 6 anos da eleição dos primeiros conselhos de especialidade. Momento que reuniu, também, parte da restante equipa envolvida, por vezes menos visível, mas não menos importante, que inclui conselhos consultivos, comissões técnicas e a equipa interna da OPP, inicialmente coordenada pela Ana Faria, hoje pela Ana Sofia Nobre.

Deixo, apelando à reflexão e participação, link para informações e formulário de contributos, bem como, permitam-me, uma sugestão de leitura de um texto que escrevi em OUT21 (Hiperespecialização: Sim ou Não?)

Envolvamo-nos no e pelo futuro.

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A Argentina e a culpa…

A Argentina é agora três vezes campeã do Mundo em três Mundiais de futebol marcados por três “imagens”: as faixas pretas dos postes do Argentina 78, em plena ditadura militar; a mão de Deus no México 86; a mão na boca dos jogadores da Alemanha no Qatar 2022, país onde Direitos Humanos continuam por cumprir.

Quem acompanha o fenómeno do futebol sabe o quão importante é a vitória de ontem para as e os argentinos e quanto o triângulo música–tango–futebol marcou e marca a sociedade e cultura Argentina. Recordar a Mercedes Sosa é evocar este triângulo. Cantora notável, marcou a música (ouça-se o Gracias a la vida), o tango (veja-se e sinta-se o Vuelvo al sur) e o futebol, pela sua relação com a sua Argentina e com um dos seus ícones. Maradona dizia terem “uma relação praticamente de mãe e filho” e que ela o “protegia quando estava mal”, se “preocupava” e “elogiava quando estava bem”. Essa Mercedes que cantou a “culpa” como poucas/os, conforme em “Diosito” que assim termina: “Não se esqueceu de amá-la / Terá entendido a minha música / E perdoado a minha tristeza / Deus, não é nossa a culpa”.

Não é nossa a culpa. Da pobreza ao racismo. Da violência à exclusão. Dos conflitos não-construtivos, à desconfiança e ao extremismo há, na narrativa que acompanha os principais desafios societais contemporâneos, a omnipresença da culpa. A culpabilização das outras e outros, o “passa culpas”, mas, também, os processos de autoculpabilização que, particularmente vítimas destas situações ou pessoas que vivenciam estes fenómenos, se impõem. A culpa sempre foi (e ainda é) fundamental à compreensão dos processos relacionais em sociedade, das políticas que os enquadram e dos comportamentos das pessoas.

Recentemente, num trabalho da jornalista Sara Rodrigues (Revista Visão Saúde DEZ22/JAN23), procurei dar um contributo para a percepção do comportamento, hoje, relativamente às infecções por COVID-19 e às medidas de protecção. “COVID quê”, título da peça, trata diversos aspectos da situação actual em Portugal (números, vacinas ou COVID longa) e a forma como o levantamento de medidas restritivas implica responsabilidade individual, particularmente aquando de infecções ou da percepcão do risco da sua existência. Procuro reflectir sobre, também como noutros áreas, existe uma distinção entre comportamentos que nos possam responsabilizar directamente (estarmos com uma pessoa de risco acrescido) face  a comportamentos que apenas nos podem responsabilizar indirectamente (estarmos com alguém que, por sua vez, estará com uma pessoa de risco acrescido), considerando, particularmente, a diluição da responsabilidade e a forma como tendemos a justificar o comportamento com base no comportamento das outras e outros (efeito de grupo). De certa forma a (eventual) culpa sob a forma de responsabilidade directa ou indirecta a determinar ou não mudanças de comportamento e diferenças na adopção de medidas de protecção de outras e outros.

“Deus, não é nossa a culpa”… Obrigado, Mercedes Sosa.

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As e os jornalistas… E eu.

Sábado, manhã. Muitas e muitos de nós iniciam o seu de fim de semana, com outras rotinas. Para outras e outros, porém, não é assim… Ao pensá-lo, ocorrer-nos-ão, certamente, diversas profissões, mas, dificilmente, as e os jornalistas. Nesta, como noutras reflexões. Pensamos pouco neste grupo profissional, com desafios incomensuráveis, particularmente quando assistimos a um processo de “dissolução” dos mediadores na sociedade. Profissionais de importância vital à sociedade, aos seus desafios e a uma ideia e perspectiva de desenvolvimento assente nos direitos humanos, na sustentabilidade, equidade e na possibilidade de autodeterminação das pessoas.

Recentemente, a propósito de uma reflexão sobre o bem-estar nas e nos jornalistas, li um (para mim) impactante artigo da jornalista Alex Sujong Laughlin. Descreve a forma como acompanhou a Convenção que nomeou Hillary Clinton como candidata às presidenciais e lhe foi impossível, num momento, não demonstrar as suas emoções (“eu sabia que naquele momento tinha que escolher entre o profissionalismo e a minha humanidade”), mesmo quando “eram menos a propósito de Hillary e mais sobre o que o momento simbolizava”. O artigo (É possível ser-se jornalista e um ser humano) reflecte sobre a sua visão da desactualização da forma como se pretende que as e os jornalistas sejam “objectivos” hoje, na sociedade contemporânea, com os meios existentes e com a desconfiança na comunicação social tradicional. É o “dizer a verdade” (não a mera objectividade) que melhor protege e preserva a confiança pública, defende.

Pensemos no desafio. No sofrimento ético. Na dúvida que lhe sobra se deveria ou não ter retirado as credenciais ao emocionar-se. Pensemos no quão hoje as e os jornalistas lidam com a desinformação num combate desigual, para que o jornalismo não seja “eliminado”. Com o contar de cliques/audiências, não lhes sucumbindo, para que o jornalismo não seja “condicionado”. Com a voracidade e sensacionalismo, para o que o jornalismo não seja “desvirtuado”.

Vem isto a propósito do recente e (para mim) lindíssimo texto que partilho da jornalista Phoebe Greenwood (“Ao acompanhar a morte [o processo] da minha psicoterapeuta, finalmente aprendi como viver”). Ele trata, também, os limites da relação (aqui terapêutica) com dimensões humanas e de vida. “Tínhamos 2 meses [tempo de vida estimado da psicoterapeuta] e, ao invés de interromper as sessões, aumentou-as, recusou o seu pagamento e, miraculosamente, teve tempo para me ensinar a viver sem ela”. Pediu-lhe [a psicoterapeuta] que escrevesse acerca dela… Disse-lhe: “Pensei que no meu funeral – eu vou morrer – te quero lá. Gostaria muito que lá estivesses, como jornalista”.

E lá estava.

Obrigado, jornalistas, por me fazerem companhia e me falarem. Obrigado por escreverem para e por mim. Por me ajudarem a pensar melhor, a ser mais livre e mais pessoa. A ser mais eu, hoje e amanhã.

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A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres

A crise das democracias e como podemos vir a ser confrontados com uma realidade política que não consideraríamos imaginável no nosso tempo de vida. Ontem, no Fórum da DRCentro da @Ordem dos Psicólogos Portugueses (obrigado @Paulo Cunha e equipa), depois da recolha de contributos que dinamizei para https://finalapobreza.pt, a @Sofia Ramalho questionou-nos, a propósito do “Futuro da Profissão”, sobre crises que imaginamos no futuro. Falou-se de saúde mental, de ecrãs, de natalidade e longevidade, da crise climática e de coesão. Eu falei de ameaças à democracia, sistema que, com as suas limitações, mais protege a possibilidade de autodeterminação de todas e todos.

“A dúvida, a literacia e a defesa psicológica das sociedades democráticas, de Direitos e livres”, 47º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte esta potencial crise a partir da dúvida. Dúvida que “embora por vezes útil e até oportuna face a algumas situações, não por acaso é explorada, da indústria à política. Da “dúvida é o nosso produto”, com que as tabaqueiras procuravam acrescentar dúvida à cada vez mais significativa evidência das consequências nocivas do tabaco, à forma como políticas/os (veja-se Donald Trump) a usam. “Lá, nos EUA, mas também na Europa ou até em Portugal, onde é crescente um discurso de estímulo e legitimação da desconfiança sobre pessoas, grupos, instituições e dados oficiais, porquanto líderes partidários afirmam, por exemplo, “desconfiar da informação sobre a criminalidade que tem sido divulgada nos Relatórios Anuais de Segurança Interna”.

“Este movimento, com exemplos históricos e de consequências nefastas para os Direitos Humanos, para o respeito e convivência e para a acção conjunta dos povos face a desafios globais, tende a legitimar a violência e a desumanização, caucionando-a e limitando possibilidades de actuação sobre a mesma de instituições e autoridades do Estado. Mina “a confiança, introduzindo desconfiança e questionamento de dados, da ciência, da racionalidade. Dos factos, inclusivamente.”

O reconhecimento deste fenómeno deve motivar-nos a atitudes proactivas para a sua prevenção e mitigação, considerando os impactos nas sociedades democráticas, de Direitos e livres.” Deve impelir-nos a reflectir e considerar acções, como são exemplo (aprofundados no texto), a introdução na Finlândia da literacia mediática no currículo das Escolas e a criação na Suécia da Agência de Defesa Psicológica, iniciativas de combate à desinformação e protecção da sociedade democrática e livre.

Áreas para as quais “também num processo de adaptação e reinvenção constante da ciência e da prática das psicólogas e psicólogos, aproximando-as dos desafios das pessoas e sociedades, podemos e devemos, a par com outras ciências e profissionais, contribuir”. Áreas “que devemos valorizar e investir considerando o quão fulcral é a coesão social e a possibilidade de autodeterminação de todas e todos ao bem-estar e a sociedades democráticas, de Direitos e livres.”

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Placebo.

“Dava-lhe um litro de gasolina com açúcar.” Ontem, no seu programa e comentando a notícia de um acidente causado por um “camião que perdeu os sentidos”, Ricardo Araújo Pereira brincava assim com o lapso na notícia. Brincava com o “copo de água com açúcar”, muito presente no meu (nosso, imagino) passado. Muito presente, ainda, como conversava com amigas/os há dias, nas Escolas, onde serve o propósito de cuidar de uma dor nas costas ou braço, de uma má notícia ou angústia.

Vem isto a propósito da reflexão que me acompanha sobre o “efeito placebo”. Esse curioso e estimulante (de reflexão) “efeito psicológico” que pode ter um “comprimido que não é comprimido” ou uma “intervenção inexistente” sobre problemas e sobre a qualidade de vida da pessoa, a partir da convicção ou no acreditar pela pessoa nos seus efeitos. Como a expectativa de um resultado pode induzir/activar mecanismos cerebrais que resultam mesmo, por exemplo, na diminuição da dor.

Este efeito, cuja investigação recente parece suportar que é hoje mais forte que há 20 anos, pode explicar em parte como podem intervenções sem evidência científica apresentar resultados positivos para algumas pessoas. Como pode o copo de água com açúcar persistir como resposta, mas, também, como pode este efeito psicológico ter resultados impactantes na redução de sintomas (em alguns casos quase semelhantes) quando comparado com a utilização de alguns medicamentos, por exemplo, junto de algumas pessoas com doença de Parkinson ou Depressão.

O conhecimento desta realidade deve, a meu ver e particularmente quando se consideram pessoas em situação de maior vulnerabilidade, motivar:

a) Cuidarmos este aspecto em intervenções experimentais e inovadoras, reforçando a nossa exigência na discussão de protocolos e resultados – neste sentido saúdo o trabalho e, particularmente, as cautelas e o cuidado expresso por Albino Oliveira-Maia à Inês Chaiça (PUBLICO) relativamente aos resultados promissores (“interessante[s], mas não extraordinariamente entusiasmante[s]”) de estudos sobre a utilização de psilocibina em pessoas com depressão, sublinhando a necessidade de continuarmos a investir nos estudos, melhorar protocolos e investigar formas de mitigação de efeitos secundários;

b) Recordarmos que o efeito placebo se resume a sintomas e é, crescentemente, utilizado como suporte da pseudociência – neste sentido importa prevenir a substituição de acções/terapêuticas que incidem sobre o problema base por outras, sem evidência, focadas nos sintomas e como devemos ser em simultâneo exigentes, mas sabedores das nossas características… Da nossa não permanente racionalidade e da natural (mas não inconsequente) procura de soluções simples e rápidas para problemas complexos.

Na saúde, onde o efeito placebo é hoje muito estudado e (por vezes mal) utilizado… Na sociedade ou política.

Um bom dia internacional da Cobertura Universal de Saúde… Que contribuamos para um “futuro saudável para todas e todos”, conforme seu mote.