Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

“Se uma parte relevante de nós se julga capaz de aterrar um avião comercial numa emergência apenas com o apoio da torre de controlo…

…porque haveria de considerar-se incapaz de realizar actos próprios de diferentes profissões e de escolher pessoas habilitadas, preparadas e competentes para junto de si realizarem determinados actos, sejam de índole jurídica, contabilística ou psicológica?”

A primeira frase deste texto, título do 59º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado), resulta de um recente estudo da “YouGov”, onde “1 em cada 3 das mais de 20.000 pessoas dos EUA que nele participaram referem sentirem-se “algo ou muito confiantes” em que conseguiriam aterrar um avião comercial, apenas com indicações da torre de controlo (quase 1 em cada 2 se considerarmos apenas os homens)”.

Exemplo que, “numa tarefa de enormíssima complexidade e cuja probabilidade de sucesso é, de acordo com as/os especialistas, virtualmente 0”, demonstra “o excesso de confiança que pessoas, sem determinada competência e experiência para a realização de uma tarefa têm sobre a sua capacidade de a realizarem com sucesso.”

“Somemos à sobrevalorização das nossas competências o viés do optimismo” (…), a “ditadura da autorreferenciação”, (…) um momento e contexto onde o acesso à informação é simples e rápido” e onde existe uma enorme possibilidade de percepcionarmos como próximas e com “finais felizes” situações complexas.

Assim, mesmo considerando o aumento global da literacia, creio “compreensível a necessidade de organização e regulação profissional em áreas com impacto significativo nas pessoas e no interesse público. De um quadro comum base de necessidade de uma (“boa”) formação académica, complementada com treino, experiência e formação (específica) profissional, com compromisso e responsabilização com a excelência das práticas assentes num quadro ético e deontológico, numa atitude de desenvolvimento profissional contínuo, potenciados por processos de validação e melhoria conjunta entre colegas da mesma profissão e no quadro de equipas e trabalhos multidisciplinares.”

A desconfiança e a narrativa de “corporativismo” tem marcado o debate em torno das Ordens Profissionais, “nada mais injusto para parte delas, cujos órgãos são muitas vezes pressionados nesse sentido pelos seus membros, mantendo, porém, o foco no contributo para mais equitativo acesso a melhores serviços dos seus profissionais pela população e no desenvolvimento da profissão com vista ao interesse público”. Diminui-se, assim, “o envolvimento cívico, a construção conjunta, e abre-se espaço para (…) assistirmos a propostas de maior desregulação da actividade profissional em áreas que envolvem direitos fundamentais, desprotegendo a sociedade e as pessoas, particularmente as em situação de maior vulnerabilidade ou impossibilitadas de decisões totalmente informadas e em liberdade.” 

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Nunca?

Nunca?

Ontem perdemos Cormac McCarthy, escritor norte-americano que comigo partilhava o seu mês de nascimento, embora com meio século de diferença (faria no próximo mês 90 anos). E que diferente é ter vivido o (Mundo) que viveu face ao (Mundo) que eu vivi e viverei.

Perdemos alguém que nos deu muito a pensar e reflectir, através da sua vida e da sua escrita. A mim deixa-me a adaptação feita pelos irmãos Coen de um seu livro para o filme “No country for old men”. Deixa-me, mais significativamente ainda, os seus livros, particularmente, o “Meridiano de Sangue” e o “A Estrada”.

Apesar de em 2011, sei exactamente o momento da minha vida em que li este último. Sei de lugares onde o li. E sei, mais, a forma como trata nele a ideia do “nunca”, na perspectiva de nunca ser “imenso tempo” e no questionar “em que é que o nunca que existirá difere do nunca que existiu”? Em quê mesmo?

Soube da sua morte num lugar onde o nunca é, a cada momento, questionado. Onde a ideia da estrada rumo ao “nunca” como lugar ganha outro significado. Também onde o contexto, conforme no “Meridiano de Sangue”, muito determina, com uma força e um poder “até aos ossos”. Em que a fronteira se dilui, existindo, co-existindo e não existindo tudo e quase sempre ao mesmo tempo.

Soube da sua morte num dos lugares mais impressionantes onde já estive. Celebro-o, como neste lugar celebrei ter acontecido o que há tempos seria pensado como improvável, senão impossível, lembrando-o na sua escrita:

“Se quebrares pequenas promessas, quebrarás as grandes”.

Que não o esqueçamos… Que não esqueçamos que nunca é demasiado tempo. Eu, voltarei sempre a ele, para que, neste caso, nunca não seja mesmo demasiado tempo.

Obrigado, Cormac.

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

Habitação, crise, saúde e bem-estar

No início de 2023, uma sondagem do ICS/ISCTE para o Expresso, mostrava que 92% das e dos jovens entre os 18 e 35 anos concordava ou concordava totalmente que existe uma crise de habitação em Portugal. 9 em cada 10 jovens.

“Crise habitacional, baixos salários e o futuro incerto – Há problemas muito significativos na saúde mental dos jovens”, foi exactamente o destaque escolhido pela CNN Portugal para divulgar o seu trabalho sobre o tema e a sua relação com a saúde (incluindo a saúde mental) e bem-estar das pessoas. Trabalho que partiu de uma entrevista comigo, realizada pelo José Gabriel Quaresma no passado Sábado.

Nela foco questões associadas à “quebra” de importantes factores protectores da saúde mental (segurança, previsibilidade e controlo) decorrente da instabilidade e/ou precariedade habitacional e do stresse e ansiedade financeira de muitas pessoas e famílias. Foco as consequências, no presente e para o futuro, na saúde (física e mental) e bem-estar e o sofrimento psicológico associado a estas questões. Também, as desigualdades e iniquidades que resultam das diferentes condições habitacionais entre diferentes pessoas, agravadas pelo facto de no contexto da pandemia e pós-pandemia (por ex., com o aumento do teletrabalho) as pessoas passarem/trabalharem mais tempo nas suas cadas. Ainda, a forma como a instabilidade habitacional obstaculiza melhores adaptações a processos de transição, seja numa situação de um nascimento/crescimento da família, num divórcio ou noutras. Termino advogando por mais apoios a programas que facilitem o acesso a uma primeira habitação pela população mais jovem, que facilitem processos de transição e adaptação a diferentes circunstâncias de vida e de suporte à reparação e melhoria de condições das habitações.

Mas, a mesma sondagem indica que na restante população são cerca de 90% as pessoas que concordam (ou concordam totalmente) com a existência de uma crise de habitação, dados que apontam a uma generalização desta percepção/sentimento. “Crise na habitação provoca maior procura por psicólogos”, foi mesmo o destaque escolhido pelo Novo Semanário (Edição 20.05.23) e pelo Jornal Económico para publicarem a entrevista do João Santos Costa comigo sobre o mesmo tema e sobre a sua relação com outras “crises” como a demográfica, de fixação/vinculação de trabalhadoras/es, da solidão/isolamento ou da saúde mental da população mais jovem.

Nesse trabalho, afirmo que “estarmos a discutir [a Habitação] é algo muito importante”. Talvez termos estado porque, apesar de tão significativa preocupação com o tema e do seu forte impacto nas pessoas e na sociedade, o debate tem vindo a perder intensidade. Oxalá tal não suceda, também, com a acção e priorização desta área. E oxalá a ciência (e prática) psicológica e os seus contributos possam ser consideradas e suportar esta acção.

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Educação Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Psicologia Tecnologia

De pequenino é que se torce o ecrãzinho (Ao redor…; 16.05.2023)

“Quero ir a todas maternidades do país e quero que, quando um bebé nascer, alguém de forma aleatória, coloque uma etiqueta na testa que determinará a sua condição nos seus primeiros, digamos, 50 anos de vida. Baseado na cor da etiqueta organizaremos os bebés através de diferentes condições de exposição a ecrãs e redes sociais e acompanharemos o seu progresso e comportamento ao longo da vida.” Foi a proposta experimental impossível que Adam Alter apresentou quando Malcolm Gladwell o desafiou para um desenho experimental com uma “varinha mágica de investigação”. Fê-lo considerando a lacuna de conhecimento relativo aos que poderão ser os efeitos a longo prazo da exposição a ecrãs e redes sociais, em diferentes momentos da nossa vida.

Havendo quem entenda que as preocupações com estes temas são excessivas, creio importante reflectirmos sobre os seus impactos, particularmente em bebés, crianças e adolescentes e sobre o que sabemos do seu efeito a curto/médio prazo. Senão, vejamos.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, pudemos recentemente comparar resultados de provas de aferição de 2º ano entre crianças sem (2019) e com (2022) dois anos de pandemia COVID-19 e dos seus impactos no relacionamento interpessoal e na Educação. Em Português, na Oralidade, a percentagem de alunas/os que “conseguiram” caiu 46,4 pontos percentuais, de 59,7% para 13,3%, aumentando 42,8 pontos a percentagem de crianças que revelaram dificuldade ou não conseguiram / não responderam (de 16,1% para 62,9%). Valores que confirmam o que ouvimos ao redor e preocupa as equipas técnicas que trabalham com estas idades: um aumento considerável de dificuldades na área da fala e na aquisição da “língua materna”, menor número e diversificação de palavras e maior utilização de “estrangeirismos”, associados a vídeos e jogos online, observados cada vez mais precocemente.

Não resultando de uma “varinha mágica de investigação”, podemos também comparar as alterações ao nível dos problemas de saúde mental das e dos jovens nos últimos anos. Alguns estudos demonstram aumentos progressivos e significativos, com a prevalência a duplicar no Reino Unido ou a quadriplicar, se considerarmos apenas a depressão, em França. E, ao contrário do anterior, estes últimos anos remetem para mais de uma década, com início entre os anos 2010 e 2012, momento em que, entre outras mudanças, se generalizaram os smartphones, a utilização de redes sociais e recursos tipo “Like” e “Retweet”. Um artigo recente do “Finantial Times” apresenta-o, graficamente. Nele, três linhas sobem consistentemente de 2010 a 2022: a de jovens dos EUA que referem não se ter encontrado presencialmente com amigas/os no último mês (de 4% para 12%); a dos que referem não se “sentirem bem por viver” (de 6% para 11%) e a do aumento do suicídio na adolescência. Gráficos em linha com as já consideráveis investigações que demonstram correlação, mais significativa no sexo feminino, entre longos períodos de exposição a redes sociais e a deterioração da saúde mental na população jovem.

Os ecrãs e as redes sociais, pela sua aditividade, pelo “negócio” envolvido e com o “impulso” que resultou do isolamento em períodos da pandemia, estão a pressionar a substituição de interacções presenciais pela socialização em ambiente digital. Alterações que, particularmente se precoces e/ou excessivas, tenderão a reproduzir-se mais intensamente mais tarde e que têm e terão impactos no bem-estar, na conexão com outras e outros, nos processos de aprendizagem (social), no desenvolvimento cerebral, cognitivo e motor, no feedback e resposta emocional e comportamental face a situações quotidianas e, até, nas dimensões da actividade física e do sono.

Atendendo a que esta é uma área onde a regulação dos meios/plataformas não tem sido intensa e eficaz (por exemplo, nos limites de idade de utilização de tecnologias ou de aplicações), o papel das e dos cuidadores adultos é absolutamente preponderante. Mas, se conforme os dados de fenotipagem digital do “Sistema de Vigilância e Monitorização da Actividade Física e Desportiva”, 71,2% da população adulta em Portugal cumpre as recomendações de actividade física da Organização Mundial da Saúde (OMS) e um número superior as de vacinação, qual é a percentagem que cumpre as recomendações da OMS para a exposição a ecrãs de crianças com menos de 5 anos a seu cargo? A OMS recomenda que crianças até aos 2 anos não estejam expostas a ecrãs (televisão, computador, tablets e telemóvel) e que entre os 2 e os 4 anos a exposição seja pelo menor tempo possível e com supervisão, indicando como tempo máximo uma hora diária. Ora, das cadeirinhas de bebé com suporte para tablet, às mesas de cafés e restaurantes à nossa volta, creio sabermos que, ao contrário de outras recomendações da OMS, estas não são, infelizmente, particularmente consideradas.

Sabemos porquê. Pela própria utilização e pressão que se coloca a quem cuida e pela facilidade, adequação ao estilo de vida e resultado da utilização de ecrãs. É muito mais simples, por exemplo, quando se conjuga com a necessidade de trabalhar, realizar tarefas domésticas, fazer uma refeição ou, simplesmente, mantermos bebés e crianças sentadas e minimamente sossegadas. É muito mais simples para que nós, adultos, possamos prevenir conflitos e desfrutar de diferentes momentos. Muito mais simples hoje, mas muito mais difícil amanhã. Como com alguns alimentos, é assim com os vídeos online, com os jogos online e, mais cedo ou mais tarde, com as redes sociais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, tendemos a olhar este desafio e os problemas que dele resultam em dimensões iminentemente individuais, não considerando que estas alterações profundas marcam hoje a sociedade e uma geração de bebés, crianças, adolescentes, jovens, mas também de quem cuida. Com a presença fortíssima de ecrãs há menos pessoas disponíveis para interacções presenciais, facto que reforça a dificuldade e os desafios que se colocam às mesmas. Com a presença fortíssima de ecrãs acresce a pressão para a sua utilização como meio de entretenimento e lazer, pressão que decorre quer das próprias crianças que querem como as outras fazê-lo e participar nesse meio, quer de quem cuida dessas crianças que pretendem que as nossas se mantenham, desde logo, sentadas e sossegadas nos espaços públicos, mas não apenas. Quando a pressão social concorre para incumprirmos recomendações algo está errado e precisa, rapidamente, mudar, sob pena do que hoje verificamos poder ser mais grave no futuro, também pelo que aí vem com a inteligência artificial, com níveis potenciais de aditividade, “negócio” e impacto ainda imprevisíveis. Aceitam que estamos perante um problema? Aceitam o desafio de mudarmos e partilharmos o Mundo ao redor com os ecrãs de forma mais equilibrada?

 

Tiago Pereira

De pequenino é que se torce o ecrãzinho

in Sábado (Ao redor…); 16.05.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/de-pequenino-e-que-se-torce-o-ecrazinho

Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia Tecnologia Tomada de Decisão

1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
Categories
Comportamento Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

A arte…

Uma das passadeiras que mais vezes atravessei nos últimos anos fica próxima da minha casa e tem uma particularidade. Não sendo propriamente insegura (as velocidades são habitualmente baixas), quando a atravesso no sentido da minha casa é frequente os veículos não pararem para eu passar, algo que não sucede quando a atravesso no outro sentido. Quem de quem me lê sabe onde moro, sabe também porque é que isto acontece e porque é simples não ficar “incomodado” com esta situação quando, nos conseguindo colocar no lugar da/o outra/o, percebemos o estímulo de chegados a uma vila, olharmos um monumento impactante e bonito, que nos capta a atenção e desfoca, até, da tal passadeira e de quem a pretende utilizar.

Mas, se este colocar-nos no lugar da e do outro, compreendermos, aceitarmos e, talvez até, sorrirmos ao que o justifica, pode ser simples numa situação como esta, sabemos que não o é para todas as pessoas e, particularmente, todas as situações. A abertura às outras pessoas, o fascínio com elas, a curiosidade e o genuíno interesse pelo que é diverso de nós, são elementos preponderantes a uma melhor compreensão e intuição acerca do que nos rodeia e, de certa forma, também de nós próprios, de como nos comportamos, pensamos ou sentimos.

São contributos fundamentais para mais e melhor literacia. Para mais relação, aceitação e/ou impulso para a mudança ou transformação. São factores protectores da saúde mental, factores onde a arte assume um papel preponderante, nas suas múltiplas formas de expressão. Tratando o real ou ficcionando, o passado, o presente ou imaginando futuros.

Penso-o a poucas horas de participar na abertura da 7ª edição do Festival MENTAL (https://mental.pt) que faz da arte, e do cinema em particular, veículo para a promoção da literacia em saúde mental. Festival que tive o privilégio de conhecer ainda apenas como ideia, pela mão da Ana Pinto-Coelho, e que vi acontecer e crescer, ano após ano.

Penso-o a pensar nos “Sete Palmos de Terra”, série que acompanhou e profundamente me marcou no meu percurso de estudante universitário e que do 1º ao último episódio, me fez olhar as outras pessoas, as suas condições e particularidades, enquadrar comportamentos, emoções e tomadas de decisão e manter presente o refrão da música da sequência com que termina: “Sê meu amigo | Segura-me, envolve-me | Revela-me | Eu sou pequena/o e preciso | Aquece-me | Respira-me.” Penso-o a pensar no “olhei à minha volta e comecei a reparar melhor nas outras Mulheres”, com que Maria Lamas, minha conterrânea e “nome” da minha Escola Secundária, abre “As mulheres do meu país”, crónica do ser Mulher em Portugal nos anos 40.

Exemplos de como a arte (sempre a arte) nos permite pensarmo-nos, individual e colectivamente, olhar a outra e o outro com curiosidade e interesse e mobilizar as necessárias transformações individuais e colectivas para vencermos medos, a escuridão do desconhecido ou o sofrimento. Para podermos ser e sermos mais pessoa.

Categories
Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Política Psicologia

…permitiu que a maioria dos países voltassem à vida conforme a conhecíamos antes da COVID-19…

“…Vimos assistindo à diminuição da mortalidade e à diminuição da pressão sobre os sistemas de saúde (…) esta tendência permitiu que a maioria dos países voltassem à vida conforme a conhecíamos antes da COVID-19”. Este excerto, da comunicação com que Tedros Adhanom Ghebreyesus informou do termo da emergência global de saúde resultante da COVID-19, fala em “vida conforme a conhecíamos”, mas…

Conforme o passado pode repetir-se, poderá repetir-se num contexto diverso. Portanto, “a vida conforme a conhecíamos”, mas num contexto diverso. A vida conforme a conhecíamos, mas, neste caso, com maior desigualdade, desde logo nas crianças e jovens com menores recursos, mais impactadas com as perdas resultantes das alterações nos contextos educativos e familiares resultantes da pandemia. Ou no aumento de sofrimento psicológico e aprofundamento de problemas de saúde mental, particularmente na população mais jovem. Ou, ainda, o facto de hoje a saúde mental ser um tema de enorme relevância e premência na sociedade.

Exemplos que se conjugam numa pressão significativa para garantir suporte e promover recursos (internos e externos) e competências fundamentais ao desenvolvimento, adaptação e bem-estar de adolescentes e jovens… Nas Escolas e comunidades. No Ensino Superior. Exemplos que, nos últimos anos, receberam dois importantes e significativos estímulos, para um caminho de reforço das políticas públicas neste âmbito e do seu foco em dimensões que toquem, também e complementarmente a outros apoios, a prevenção e a promoção da saúde mental e bem-estar para todas as pessoas.

Falo das segundas edições de dois programas que vi e vimos nascer e que contam com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, junto destas populações: Cuida-te +, promovido pelo IPDJ IP, com o empenho de uma equipa com referência na Natacha Torres da Silva, e dinamizado com a Aventura Social – Associação e através de uma equipa de psicólogas/os júnior distribuídos por todo o país: https://ipdj.gov.pt/o-programa; FLAD/OPP – Saúde Mental no Ensino Superior, promovido pela FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, com o empenho de uma equipa com referência na Liliana Valpaços: https://www.flad.pt/candidaturas-abertas-programa-flad-opp-saude-mental-no-ensino-superior-2023/

Também sobre estes desafios, no programa Corpo Clínico (Canal S+), discuti com a Ana Rita Sobral e a Lara Guedes de Pinho, sob moderação do Marco António, potenciais acções no programa que aqui partilho. Tudo, também porque, como aqui refiro, a situação ainda poderá piorar antes de melhorar, considerando que a saúde mental da população mais nova está pior hoje face há alguns anos.

É importante, é urgente, respondermos a este ciclo que penalizará, individual e colectivamente, o presente e o futuro do nosso país e das suas pessoas e famílias.

Categories
Comportamento Desafios da Psicologia Emergência Climática Futuro da Psicologia Política Psicologia Tomada de Decisão

36,9º

Para quem não conhece, este é o lindíssimo Fluviário de Mora. Um aquário público que, conforme a sua apresentação, se dedica “aos ecossistemas de água doce” e “privilegia o conhecimento da sua diversidade, importância e relação com a humanidade”. Um equipamento educativo único em Portugal, também porque edificado numa vila de pouco mais de 2.200 habitantes, sede de um Município Alentejano com cerca de 4.100 habitantes.

Podia ter sido pelo Fluviário mas Mora foi notícia há dias por outro motivo. Foi na sua estação meteorológica que, a 27 de Abril, foi batido um recorde com 78 anos. 36,9 graus Celsius em Portugal em Abril. Lá, mas podia ter sido batido nesse dia na Amareleja, Alcácer do Sal, Neves/Corvo, Alvalade/Sado ou em Portel, cidades/zonas com mais de 36º nesse dia, valor do anterior recorde (registado a 20 de Abril de 1945 em Alijó).

Isto em Portugal e dias antes das Nações Unidas alertarem para algo a que continuamos a prestar pouca atenção: a necessidade de nos prepararmos e adaptarmos, particularmente pelas características do nosso país, para o “novo pico no aquecimento global” que estamos a viver, para “os recordes de temperatura” que serão batidos e para um novo “El Niño” (aquecimento significativo das águas do Pacífico), cujas consequências, múltiplas e também muito significativas, se esperam sentir mais intensamente em 2024.

Por cá, além das temperaturas, terminamos Março (e o Inverno) com 48% do território em seca e com os distritos de Setúbal e Beja em seca severa. No final de Abril a área ardida em 2023 estava já acima da média para este período e o presidente do IPMA afirmava, há dias, que, não sendo uma “situação dramática”, “a probabilidade de precipitação daqui até ao Verão é baixa e que, portanto, vamos ter tensão em muitas áreas – no ambiente, no abastecimento, nas barragens, nos fogos.” Que temos que “ver as coisas com serenidade, mas com antecipação.”

Nada mais correcto. Sem alarmismo, com antecipação mas… com convicção, compromisso, envolvimento de todas as pessoas e com ciência… Ciência que não apenas a importante meteorologia. Ciência comportamental que nos ajude a compreender e (lá está) antecipar os impactos de medidas, de campanhas de comunicação e de estímulos e incentivos a mudanças no comportamento, informando a tomada de decisão e as políticas (públicas) nesta área. Ciência que deve ajudar a que reflictamos, informadamente, sobre como pensamos e narramos este “problema”.

Quando confrontado com outro problema, António Costa, na terça-feira e em Braga, respondeu assim a uma jornalista que lhe perguntou pelo facto de João Galamba não ter agenda nesse dia: “Amanhã já terá. Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. Olhe para o céu, está tão bonito. Adeus”. O céu, sim… Mas, e os 32 graus que lá fariam a um 3 de Maio? Mas, e o quanto esta realidade periga os ecossistemas, a sua diversidade, importância e relação com a humanidade?

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Pobreza e Desigualdade Política Psicologia

O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

“Novo máximo histórico”. Há 10 anos, o INE publicava dados do (des)emprego no final do 1º trimestre de 2013 destacando o aumento para 17,7% da taxa de desemprego, 42,1% nas e nos jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. “Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (2007-2016) que não se alterou no desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica.”

“O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar”, 57º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância do emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa considerando que garantem: “uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; propósito e significado; e uma importante interacção e conexão social.” Trata, ainda, como “a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.”

“A quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.”

“Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas (…) Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade e combate à precariedade (…) À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego (…) Ainda de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas de emprego.”

“Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.”

Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Benefícios e limites do autocuidado (Ao redor…; 17.04.2023)

Se trabalhou hoje, teve uma “segunda-feira mínima”? Num tempo onde corremos a nomear fenómenos, as “bare minimum mondays” [segundas-feiras mínimas] correspondem a uma escolha consciente por um primeiro dia de semana de trabalho mais tranquilo, focado em actividades prazerosas e no bem-estar. Visam prevenir um significativo e desproporcional dispêndio de energia e a exposição a situações de maior stresse, melhorando, assim, o tempo de descanso anterior, pela não antecipação de uma transição brusca entre o momento de lazer e de trabalho. Uma escolha consciente, mas… possível para todas as pessoas que trabalham?

Não, sabemos que não. Não existem semelhantes possibilidades de “segundas-feiras mínimas”, nem semelhantes possibilidades de autocuidado no geral.

O autocuidado corresponde ao conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental. Sendo sempre e para todas as pessoas relevante, assume especial importância em momentos de maior desafio ou crise pessoal/colectiva ou de vulnerabilidade e corresponde a diferentes acções e actividades, que variam de pessoa para pessoa ou, na mesma pessoa, em diferentes momentos. Esta relevância decorre dos cientificamente documentados benefícios da sua prática regular na prevenção de problemas de saúde mental, de problemas profissionais e laborais, incluindo stresse e burnout, e na promoção do bem-estar.

Sabemo-lo, mas sabemos mais. Sabemos que o autocuidado não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância. Ainda, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós ou, noutro sentido, dos obstáculos que enfrentamos sejam, por exemplo, a falta de tempo ou de pessoas com quem o partilhar.

Neste sentido é fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado. É colectiva a responsabilidade de não acrescentarmos novos factores de stresse decorrentes da impossibilidade de priorizar e realizar estas acções, a factores de stresse por vezes já significativos. Como é, considerando o papel do autocuidado na prevenção de doenças, acidentes ou erros e no bem-estar, não deixarmos que seja, apenas, responsabilidade individual, algo potencialmente penalizador e estigmatizante de pessoas com vivências complexas e exigentes e/ou em situação de maior vulnerabilidade, também, mas não apenas, nas dimensões emocionais ou psicológicas. O autocuidado não depende apenas da nossa vontade e querer. Sobretudo nestas situações, não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.

O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais. Sendo temática preponderante das redes sociais e presença constante na comunicação social, é essencial atender às suas limitações e impactos, não apenas positivos, no presente e futuro das pessoas. Da sobrecarga ou bloqueios que também podem resultar de acrescentar a necessidade de cuidarmos de nós em situações particularmente difíceis, aos problemas decorrentes de eventuais compras ou gastos associados ao autocuidado no presente, que podem gerar maior stresse e/ou ansiedade e incerteza financeira no futuro, às consequências profissionais ou relacionais de uma eventual excessiva centralização nestas actividades. Neste sentido, o autocuidado deve ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.

Mais, o autocuidado não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde, particularmente na abordagem a problemas de saúde mental mais comuns como a ansiedade e a depressão. Há experiências estruturadas e estudadas desta tipologia de cuidados, desde logo no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, que comprovam a possibilidade de alcançar e responder a mais pessoas e sustentam a adequação destas intervenções. Também neste contexto, está a ser utilizada, com sucesso, a “prescrição social ou cultural” nos cuidados de saúde, ou seja, a “prescrição” pelo aconselhamento e apoio nesse sentido, de actividades sociais, como a pertença a um grupo de caminhadas ou de dança, e culturais, como a visita a um museu ou a participação num clube de leitura. Actividades ajustadas à pessoa e ao seu contexto e tendentes à promoção do autocuidado e bem-estar e ao reforço das suas relações na comunidade, particularmente dirigidas a pessoas com problemas de saúde mental comuns e/ou em situações de exclusão, isolamento ou solidão.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de reflectir sobre o impacto da excessiva responsabilização individual pelos problemas e pelas formas de os solucionar, bem como sobre a ausência de equidade no acesso a apoios estruturados baseados na melhor evidência. Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”. Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.

 

Tiago Pereira

Benefícios e limites do autocuidado

in Sábado (Ao redor…); 17.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/beneficios-e-limites-do-autocuidado