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1, 2, 3, 4, 6 e… 7

1, 2, 3, 4, 6 e… 7. Ou, quando a aleatoriedade de um jogo nos desafia.

Esta sequência incompleta foi a chave do 37º concurso de 2023 do Totoloto, uma de 24.789.492 combinações possíveis. Quase sequência que, embora tão possível como qualquer outra chave, gerou surpresa e questionamento. Como nela faltou esse número, partilho 5 reflexões sobre o tema a propósito de uma peça e explicador da @Cristina Nascimento e do @Pedro Mesquita (@Radio Renascença), para as quais contribui.

  1. Percebemos como mais (ou menos) prováveis determinados acontecimentos ou eventos do que realmente são por via dos nossos, humanos, vieses cognitivos. Ou seja, pela nossa tendência para interpretarmos o mundo, tomarmos decisões e/ou nos comportarmos de forma irracional em consequências de erros no processamento de informação;
  2. É por isso natural que uma chave assim nos desafie, como dizia. Que automaticamente foque a nossa atenção, que seja “notícia” e suscite conversas e debates.
  3. O que deixa de ser natural, digamos racional, é que, quando depois reflectimos sobre ela, não concluamos sobre a sua igual possibilidade face a outras e, antes, desconfiemos dela. São diversos os motivos que podem a isto conduzir, mais ou menos conscientes ou intencionais, entre eles a susceptibilidade das pessoas à dúvida, a insegurança e ambiguidade ou a dificuldade em “lidar” com cenários de incerteza e, consequente, necessidade de controlo.
  4. Os ambientes digitais, onde o comportamento se altera e emoções como a raiva, a zanga ou o ódio são “dominantes”, é particularmente propicio e incrementa este tipo de situação de dúvida. Também, muito, porque facilita a resolução de ambiguidades por via de vieses de atribuição e confirmação, ao suscitar que as pessoas comuniquem a sua visão como a certa/verdadeira e ao ligar pessoas que “acreditam no mesmo”, o que neste caso permitiu a emergência e reforço de exemplos/comentários relativos, por exemplo, a eventuais investigações em curso ou ao célebre momento em que saiu um número não possível (0), para suscitar dúvidas sobre o jogo.
  5. Tudo isto seria não tão importante quanto é se se cingisse a esta chave do Totoloto. Infelizmente, não é assim. Nos 4 pontos anteriores estão pistas importantes para percebermos a desconfiança e as teorias da conspiração. Da origem da COVID-19, aos objectivos das vacinas. Dos “Pizzagte” ou “QAnon”, à “Grande Substituição” ou ao suposto “peso” para a Segurança Social da população imigrante em Portugal. Tudo a lembrar-nos a importância de reflectirmos sobre como interpretamos o Mundo e tomamos decisões… Sobre os efeitos das redes sociais e novas tecnologias e a justificar a necessidade de reforçarmos a confiança e a literacia digital e em ciência de toda a população.
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…permitiu que a maioria dos países voltassem à vida conforme a conhecíamos antes da COVID-19…

“…Vimos assistindo à diminuição da mortalidade e à diminuição da pressão sobre os sistemas de saúde (…) esta tendência permitiu que a maioria dos países voltassem à vida conforme a conhecíamos antes da COVID-19”. Este excerto, da comunicação com que Tedros Adhanom Ghebreyesus informou do termo da emergência global de saúde resultante da COVID-19, fala em “vida conforme a conhecíamos”, mas…

Conforme o passado pode repetir-se, poderá repetir-se num contexto diverso. Portanto, “a vida conforme a conhecíamos”, mas num contexto diverso. A vida conforme a conhecíamos, mas, neste caso, com maior desigualdade, desde logo nas crianças e jovens com menores recursos, mais impactadas com as perdas resultantes das alterações nos contextos educativos e familiares resultantes da pandemia. Ou no aumento de sofrimento psicológico e aprofundamento de problemas de saúde mental, particularmente na população mais jovem. Ou, ainda, o facto de hoje a saúde mental ser um tema de enorme relevância e premência na sociedade.

Exemplos que se conjugam numa pressão significativa para garantir suporte e promover recursos (internos e externos) e competências fundamentais ao desenvolvimento, adaptação e bem-estar de adolescentes e jovens… Nas Escolas e comunidades. No Ensino Superior. Exemplos que, nos últimos anos, receberam dois importantes e significativos estímulos, para um caminho de reforço das políticas públicas neste âmbito e do seu foco em dimensões que toquem, também e complementarmente a outros apoios, a prevenção e a promoção da saúde mental e bem-estar para todas as pessoas.

Falo das segundas edições de dois programas que vi e vimos nascer e que contam com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses, junto destas populações: Cuida-te +, promovido pelo IPDJ IP, com o empenho de uma equipa com referência na Natacha Torres da Silva, e dinamizado com a Aventura Social – Associação e através de uma equipa de psicólogas/os júnior distribuídos por todo o país: https://ipdj.gov.pt/o-programa; FLAD/OPP – Saúde Mental no Ensino Superior, promovido pela FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, com o empenho de uma equipa com referência na Liliana Valpaços: https://www.flad.pt/candidaturas-abertas-programa-flad-opp-saude-mental-no-ensino-superior-2023/

Também sobre estes desafios, no programa Corpo Clínico (Canal S+), discuti com a Ana Rita Sobral e a Lara Guedes de Pinho, sob moderação do Marco António, potenciais acções no programa que aqui partilho. Tudo, também porque, como aqui refiro, a situação ainda poderá piorar antes de melhorar, considerando que a saúde mental da população mais nova está pior hoje face há alguns anos.

É importante, é urgente, respondermos a este ciclo que penalizará, individual e colectivamente, o presente e o futuro do nosso país e das suas pessoas e famílias.

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36,9º

Para quem não conhece, este é o lindíssimo Fluviário de Mora. Um aquário público que, conforme a sua apresentação, se dedica “aos ecossistemas de água doce” e “privilegia o conhecimento da sua diversidade, importância e relação com a humanidade”. Um equipamento educativo único em Portugal, também porque edificado numa vila de pouco mais de 2.200 habitantes, sede de um Município Alentejano com cerca de 4.100 habitantes.

Podia ter sido pelo Fluviário mas Mora foi notícia há dias por outro motivo. Foi na sua estação meteorológica que, a 27 de Abril, foi batido um recorde com 78 anos. 36,9 graus Celsius em Portugal em Abril. Lá, mas podia ter sido batido nesse dia na Amareleja, Alcácer do Sal, Neves/Corvo, Alvalade/Sado ou em Portel, cidades/zonas com mais de 36º nesse dia, valor do anterior recorde (registado a 20 de Abril de 1945 em Alijó).

Isto em Portugal e dias antes das Nações Unidas alertarem para algo a que continuamos a prestar pouca atenção: a necessidade de nos prepararmos e adaptarmos, particularmente pelas características do nosso país, para o “novo pico no aquecimento global” que estamos a viver, para “os recordes de temperatura” que serão batidos e para um novo “El Niño” (aquecimento significativo das águas do Pacífico), cujas consequências, múltiplas e também muito significativas, se esperam sentir mais intensamente em 2024.

Por cá, além das temperaturas, terminamos Março (e o Inverno) com 48% do território em seca e com os distritos de Setúbal e Beja em seca severa. No final de Abril a área ardida em 2023 estava já acima da média para este período e o presidente do IPMA afirmava, há dias, que, não sendo uma “situação dramática”, “a probabilidade de precipitação daqui até ao Verão é baixa e que, portanto, vamos ter tensão em muitas áreas – no ambiente, no abastecimento, nas barragens, nos fogos.” Que temos que “ver as coisas com serenidade, mas com antecipação.”

Nada mais correcto. Sem alarmismo, com antecipação mas… com convicção, compromisso, envolvimento de todas as pessoas e com ciência… Ciência que não apenas a importante meteorologia. Ciência comportamental que nos ajude a compreender e (lá está) antecipar os impactos de medidas, de campanhas de comunicação e de estímulos e incentivos a mudanças no comportamento, informando a tomada de decisão e as políticas (públicas) nesta área. Ciência que deve ajudar a que reflictamos, informadamente, sobre como pensamos e narramos este “problema”.

Quando confrontado com outro problema, António Costa, na terça-feira e em Braga, respondeu assim a uma jornalista que lhe perguntou pelo facto de João Galamba não ter agenda nesse dia: “Amanhã já terá. Ontem foi ontem, hoje é um novo dia. Olhe para o céu, está tão bonito. Adeus”. O céu, sim… Mas, e os 32 graus que lá fariam a um 3 de Maio? Mas, e o quanto esta realidade periga os ecossistemas, a sua diversidade, importância e relação com a humanidade?

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O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar

“Novo máximo histórico”. Há 10 anos, o INE publicava dados do (des)emprego no final do 1º trimestre de 2013 destacando o aumento para 17,7% da taxa de desemprego, 42,1% nas e nos jovens até 24 anos e 21,3% entre os 25 e os 34 anos. “Não sendo um destes jovens, tinha-os no grupo de amigos e nas pessoas mais próximas e vi alguns deles partirem para fora do país, uns cumprindo uma vontade, outros uma inevitabilidade. Tínhamos nesse momento um plano nacional de saúde mental (2007-2016) que não se alterou no desenho e na sua não-implementação, mesmo tendo-se assistido a uma grave crise socioeconómica.”

“O desemprego como factor de risco da saúde mental e do bem-estar”, 57º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) trata a importância do emprego de qualidade e com valores ajustados à pessoa considerando que garantem: “uma estrutura do quotidiano e tempo das pessoas adultas; um contexto e prática fundamental à identidade; propósito e significado; e uma importante interacção e conexão social.” Trata, ainda, como “a transição para uma situação de desemprego e, particularmente, a vivência em situação de desemprego por um período longo pode ser uma fonte expressiva de stresse e ansiedade e, até, um evento potencialmente traumático.”

“A quebra de autoestima, as alterações ao autoconceito e as dúvidas nas próprias capacidades, junto com a percepção de falta de controlo sobre a vida e o futuro e a desesperança e, ainda, com uma sensação de não contributo para a família e para a comunidade, formam um triângulo que condiciona as possibilidades de bem-estar e periga a saúde mental. Determina ou influencia mesmo, em diversas situações, a emergência de sintomatologia ou até de quadros depressivos e ansiosos, situações de consumo de substâncias ou de stresse pós-traumático e risco acrescido de suicídio.”

“Tudo isto nos impele a olhar responsavelmente as políticas públicas (…) Da procura do estímulo à possibilidade da garantia de empregos de qualidade e combate à precariedade (…) À necessidade de apoio e suporte, também emocional e psicológico, aquando da transição de uma situação de emprego para desemprego (…) Ainda de complementar medidas de estímulo à procura activa de emprego de pessoas em situação de desemprego (especialmente de longa duração), com acções informadas pela ciência psicológica, nomeadamente de promoção de saúde mental e intervenção nas dimensões motivacionais, cognitivas e socioemocionais, algo cuja evidência demonstra aumentar significativamente a eficácia dos programas de emprego.”

“Temos de falar sobre emprego, desestigmatizar a situação de desemprego e prevenir a autoculpabilização das pessoas por essa sua situação. Temos de promover a saúde mental, o bem-estar e a qualidade de vida, também trazendo mais ciência à reflexão sobre as causas e efeitos do desemprego e estimulando/informando abordagens baseadas na evidência para a promoção de emprego de qualidade e com valores ajustados para todas as pessoas.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Psicologia

Benefícios e limites do autocuidado (Ao redor…; 17.04.2023)

Se trabalhou hoje, teve uma “segunda-feira mínima”? Num tempo onde corremos a nomear fenómenos, as “bare minimum mondays” [segundas-feiras mínimas] correspondem a uma escolha consciente por um primeiro dia de semana de trabalho mais tranquilo, focado em actividades prazerosas e no bem-estar. Visam prevenir um significativo e desproporcional dispêndio de energia e a exposição a situações de maior stresse, melhorando, assim, o tempo de descanso anterior, pela não antecipação de uma transição brusca entre o momento de lazer e de trabalho. Uma escolha consciente, mas… possível para todas as pessoas que trabalham?

Não, sabemos que não. Não existem semelhantes possibilidades de “segundas-feiras mínimas”, nem semelhantes possibilidades de autocuidado no geral.

O autocuidado corresponde ao conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental. Sendo sempre e para todas as pessoas relevante, assume especial importância em momentos de maior desafio ou crise pessoal/colectiva ou de vulnerabilidade e corresponde a diferentes acções e actividades, que variam de pessoa para pessoa ou, na mesma pessoa, em diferentes momentos. Esta relevância decorre dos cientificamente documentados benefícios da sua prática regular na prevenção de problemas de saúde mental, de problemas profissionais e laborais, incluindo stresse e burnout, e na promoção do bem-estar.

Sabemo-lo, mas sabemos mais. Sabemos que o autocuidado não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância. Ainda, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós ou, noutro sentido, dos obstáculos que enfrentamos sejam, por exemplo, a falta de tempo ou de pessoas com quem o partilhar.

Neste sentido é fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado. É colectiva a responsabilidade de não acrescentarmos novos factores de stresse decorrentes da impossibilidade de priorizar e realizar estas acções, a factores de stresse por vezes já significativos. Como é, considerando o papel do autocuidado na prevenção de doenças, acidentes ou erros e no bem-estar, não deixarmos que seja, apenas, responsabilidade individual, algo potencialmente penalizador e estigmatizante de pessoas com vivências complexas e exigentes e/ou em situação de maior vulnerabilidade, também, mas não apenas, nas dimensões emocionais ou psicológicas. O autocuidado não depende apenas da nossa vontade e querer. Sobretudo nestas situações, não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.

O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais. Sendo temática preponderante das redes sociais e presença constante na comunicação social, é essencial atender às suas limitações e impactos, não apenas positivos, no presente e futuro das pessoas. Da sobrecarga ou bloqueios que também podem resultar de acrescentar a necessidade de cuidarmos de nós em situações particularmente difíceis, aos problemas decorrentes de eventuais compras ou gastos associados ao autocuidado no presente, que podem gerar maior stresse e/ou ansiedade e incerteza financeira no futuro, às consequências profissionais ou relacionais de uma eventual excessiva centralização nestas actividades. Neste sentido, o autocuidado deve ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.

Mais, o autocuidado não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde, particularmente na abordagem a problemas de saúde mental mais comuns como a ansiedade e a depressão. Há experiências estruturadas e estudadas desta tipologia de cuidados, desde logo no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, que comprovam a possibilidade de alcançar e responder a mais pessoas e sustentam a adequação destas intervenções. Também neste contexto, está a ser utilizada, com sucesso, a “prescrição social ou cultural” nos cuidados de saúde, ou seja, a “prescrição” pelo aconselhamento e apoio nesse sentido, de actividades sociais, como a pertença a um grupo de caminhadas ou de dança, e culturais, como a visita a um museu ou a participação num clube de leitura. Actividades ajustadas à pessoa e ao seu contexto e tendentes à promoção do autocuidado e bem-estar e ao reforço das suas relações na comunidade, particularmente dirigidas a pessoas com problemas de saúde mental comuns e/ou em situações de exclusão, isolamento ou solidão.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de reflectir sobre o impacto da excessiva responsabilização individual pelos problemas e pelas formas de os solucionar, bem como sobre a ausência de equidade no acesso a apoios estruturados baseados na melhor evidência. Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”. Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.

 

Tiago Pereira

Benefícios e limites do autocuidado

in Sábado (Ao redor…); 17.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/beneficios-e-limites-do-autocuidado

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Saúde (mental), bem-estar e ESG nas Organizações

Tal qual hoje pensamos duas vezes na compra de um produto que sabemos poder ter sido produzido recorrendo a trabalho infantil… Ou pensamos duas vezes na compra de algo que sabemos não haver cuidado de aspectos relacionados com o meio ambiente… Creio que passaremos a pensar duas vezes antes de comprar um produto ou serviço a uma organização que não cuide da saúde e bem-estar das e dos trabalhadores.

Este pressuposto, a par da visão das pessoas como vector de sustentabilidade e da possibilidade de adaptação a mudanças e crises, suportaram as minhas intervenções no debate “O papel das empresas como promotores de saúde mental e na prevenção da saúde”, integrado na “ESG Week”, iniciativa da APEE – Associação Portuguesa de Ética Empresarial, que debateu a Sustentabilidade a partir domínio “Environmental, Social e Governance”.

No debate (após 23m40s), promovido pela Fidelidade/Multicare, junto com o Alexandre Nilo Fonseca, o Daniel Riscado e o Frederico Fezas-Vital e com a moderadora Inês Pimenta de Castro (a quem agradeço a confiança e o convite), procurei:

. reforçar a importância (mas também os limites) das organizações promoverem a saúde mental e bem-estar de trabalhadoras/es, não se substituindo às respostas nesta área que devem existir, ser reforçadas e assentarem na equidade de acesso e na melhor evidência de eficácia nos âmbitos clínicos e de saúde;

. sublinhar a importância de, como hoje se usa da melhor ciência em diversas áreas, se faça uso também da melhor ciência comportamental e psicológica nas organizações, tendo ou recorrendo a profissionais especializadas/os, a iniciativas baseadas na evidência, a instrumentos de avaliação validados e ao desenvolvimento de culturas de organização que façam destes valores centrais e estruturais de toda a organização, incluindo lideranças;

. pensar as mais valias que daqui decorrem, quer do ponto de vista da produtividade e prosperidade (da organização e do país), quer da capacidade de inovação e criatividade, a partir da criação de ambientes inclusivos e com segurança psicológica;

. sublinhar a importância de falarmos em promoção do bem-estar e não da felicidade e de ser fundamental que as organizações sejam capazes de acolher as pessoas em momentos mais e menos felizes;

. ainda, como devemos atender a vulnerabilidades e a iniquidades nas transições (desde logo na digital), as mais-valias e os desafios que se colocam na digitalização na área da psicologia e como, para sermos consequentes, devemos repensar a utilização de conceitos como a telemedicina ou a medicina online, avançando para telesaúde e saúde online, que incluindo, vão além da telemedicina e medicina online e apontam à promoção e prevenção.

Em suma, procurei sustentar o quão fundamental é considerar as pessoas, o seu valor, a sua saúde e bem-estar e o seu envolvimento/alinhamento com a organização na sua sustentabilidade e como isso pode e deve ser avaliado e valorado.

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25.4.

O 25 de Abril é, para mim (mas creio para muitas pessoas), um conjunto de valores fundamentais e estruturantes que também vivem das imagens, dos sons e das letras que o fizeram e fazem, ano após ano.

A iconografia da data é extraordinária e escolho, para este pequeno texto, a pintura de Maria Helena Vieira da Silva que assinalou o 10º aniversário do 25 de Abril, o meu primeiro em vida. Chama-se “Liberdade” e deambula em volta da ideia da árvore (vida), dos seus frutos e da pluralidade das letras que no seu conjunto formam a palavra liberdade.

Evoco-a pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo em que se enfraquecem, por vezes intencionalmente, mediadoras/es sociais, particularmente as/os jornalistas e a capacidade de vermos (intuirmos, percebermos, sentirmos) o todo perante o caso, o contexto e não apenas o exemplo, a palavra e não apenas a letra.

Os sons da data são também extraordinários e escolho a lembrança de ouvir Joaquim Furtado a ler o primeiro comunicado do MFA então às 04.00 daquela madrugada de 25 de Abril de 1974. “Aqui posto de comando (…) Esperamos sinceramente que a gravidade da hora que vivemos não seja tristemente assinalada por qualquer acidente pessoal para o que apelamos para o bom senso (…) Tal confronto, além de desnecessário, só poderá conduzir a sérios prejuízos individuais que enlutariam e criariam divisões entre os portugueses, o que há que evitar a todo o custo.”

Evoco-o pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo em que se polarizam, por vezes intencionalmente, as posições, empolando divisões e confrontos, transformando adversários em inimigos, fazendo do medo, do ódio e do ressentimento móbil para a tomada de decisão, acção e comportamento. Num tempo onde o bom senso sucumbe à voracidade da informação/comunicação. Também, por isto, a confiança, a ciência, a factualidade, a empatia e o cuidado com as outras e outros é tão fundamental e um jornalismo construtivo urgente, conforme defendido/promovido pela Margarida Alpuim e Prof. Dr. Katja Ehrenberg no projecto “Psychology for Journalists” (aqui o 3º texto sobre o sentido de comunidade e polarização).

As letras da data são também extraordinárias e escolho a “Inquietação” do José Mário Branco que, sem saber e querer, me e nos deu “duas datas extra em Abril”, uma a partir de 2010, outra de 2013. “Cá dentro inquietação, inquietação; É só inquietação, inquietação; Porquê, não sei; Porquê, não sei; Porquê, não sei ainda | Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer; Qualquer coisa que eu devia perceber; Porquê, não sei; Porquê, não sei; Porquê, não sei ainda.”

Evoco-a pelo simbolismo e pelo que representa, hoje, num tempo que me inquieta. Que todas e todos, também com e pelo jornalismo e outras/os mediadoras/es, vivamos os valores para que tenhamos e geremos mais oportunidades de nos cumprirmos. De cumprirmos a possibilidade de liberdade para todas e todos.

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Columbine, 24 anos…

Elephant. Filme de Gus Van Sant, (parcialmente) baseado no massacre na Escola de Columbine, sobre o qual passaram 24 anos ontem. Quem, como eu, frequentava à época uma Escola como a de Columbine não esquece(rá) o massacre. Quem, como eu, vive o cinema, não esquece(rá) o filme, extraordinário. Quem, como eu, gosta de metáforas, do simbólico, de pormenores, não esquece(rá) a associação, via título e forma do filme, entre um assunto particularmente difícil e complexo (a realidade dos tiroteios nas Escolas nos EUA e a violência no geral) e a “parábola do(s) cego(s) e do elefante”, onde cada pessoa consegue descrever uma parte do objecto/fenómeno, mas ninguém consegue percepcioná-lo na sua totalidade e integridade.

Ontem, não por acaso quando passavam 24 anos de Columbine, acordamos com a discussão pública via comunicação social de um assunto antes em discussão privada (em grupos de mensagens) e pública, mas via redes sociais. Falo da “apelidada” ameaça de massacre em Escolas em Portugal, propagada e reproduzida via uma mensagem numa rede social e ao longo do dia classificada pelas autoridades como “brincadeira de mau gosto”, conforme aliás o título desta peça da SIC, na qual tenho um pequeno contributo/participação.

A peça abriu ontem o Jornal da Tarde, considerando algum alarme com a situação e procurando garantir informação sobre um fenómeno complexo, com diversas partes. O medo e como, enquanto emoção, influencia a nossa tomada de decisão e comportamento. O desconforto associado à imprevisibilidade, insegurança e falta de controlo, particularmente quando se trata de crianças e jovens, e a necessidade de procurarmos controlo e previsibilidade. A forma como a informação se propaga, se reproduz, se “refina” (ganhando pormenores e exemplos) via redes sociais, particularmente a que “joga” com emoções como o ódio, a raiva e o medo. Também, a forma como o viés da negatividade nos influencia para darmos mais atenção a eventos/acontecimentos negativos e, portanto, os considerarmos mais prováveis/possíveis.

Mais, a forma como em ambientes digitais mais despersonalizados, anonimamente ou não, pessoas (e pessoas mais jovens) são capazes de comportamentos que noutros contextos não existiriam, como forma de afirmação e/ou chamada de atenção. Ainda, a importância da literacia digital e da boa informação ocupar o espaço potencial da má ou da desinformação, particularmente quando a boa informação provém de mediadores/referências, como a comunicação social, personalidades públicas e autoridades que devem, como aconteceu, sem alarme, mas sem complacência, atender a estes fenómenos e procurar garantir o possível controlo e segurança.

Um elefante, portanto. Complexo, cheio de partes, ângulos, pormenores, difícil de descrever na sua totalidade e integridade e, até por isso, a necessitar que todos o olhemos, pensemos e previnamos.

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Benefícios e limites do autocuidado

“Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”.

“Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.”

“Benefícios e limites do autocuidado”, 56º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) assim termina. Trata o autocuidado, ou seja, “o conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental.” Autocuidado que “não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós.”

“É fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado (…) não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.”

“O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais (…) devendo “ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.”

“Não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais, da [prescrição social e cultural] e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde.”

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Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia (Ao redor…; 03.04.2023)

Estávamos sensivelmente a meio de Fevereiro e um texto de Miguel Esteves Cardoso terminava com um “É um princípio. É uma sensatez. É uma saúde.” O artigo tratava as questões da habitação e, independentemente do expresso no texto, ouso usar deste final porque, efectivamente…

É um princípio. Considerando que o acesso à habitação é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos. Considerando, também, a relação da crise na habitação com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e do isolamento. É um princípio, fundamental, ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.

É uma sensatez. Se passamos 80 a 90% dos nossos dias (e, portanto, da nossa vida) em ambientes construídos, maioritariamente na nossa habitação. Se as pessoas em situação de maior vulnerabilidade passam uma percentagem ainda mais significativa do seu tempo nestes ambientes e se, alterações recentes nos modelos de trabalho, com a maior generalização de modelos de teletrabalho ou híbridos, poderão ainda aumentar estas percentagens de tempo. Se a habitação (e as suas condições) é, na maioria dos índices, um dos factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países e se o sentimento de pertença, a privacidade, a segurança e identidade e mesmo o suporte social são essenciais à nossa qualidade de vida. Se as dificuldades no acesso à habitação fazem com que sejamos um dos países da Europa onde a população mais jovem mais tarde sai de casa, onde existem significativos tempos de percurso médio casa-trabalho e trabalho-casa. Se existe um número significativo de pessoas em situação de sem abrigo, de casas com más condições de habitabilidade e de pessoas em situação de instabilidade / precariedade habitacional. Se muitas pessoas vivem com pessoas desconhecidas ou com quem preferiram não viver (por exemplo, depois de terminadas relações ou mesmo uniões de facto ou casamentos), é uma sensatez debatermos o assunto na sociedade e, particularmente, encontrar e co-construir soluções eficazes para os problemas e desafios que se nos colocam.

É uma saúde. Quando sabemos da cada vez mais significativa evidência existente, que as más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade e que, muitas vezes, estas habitações se encontram em zonas ou bairros com condições precárias, às quais se associam questões como a poluição, carências de infraestruturas e acesso, maior exposição a frio e calor e até a stresse e outros mecanismos psicológicos associados a sentimentos de marginalização ou insegurança. Quando sabemos que “proprietárias/os” de habitações têm maior sensação de controlo, previsibilidade e segurança, essenciais à saúde mental e bem-estar, face a arrendatárias/os e, particularmente, a quem sofre de instabilidade habitacional. Quando sabemos que a precariedade habitacional, com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionados com problemas de stresse, ansiedade e depressão. Quanto a habitação periga a adaptação adequada e protectora a transformações de vida, quer seja a chegada de um/a filho/a, quer seja um divórcio ou a perda de mobilidade/autonomia e, quando a tudo isto, se somam o estigma social e o aumento de conflitos potenciais por ausência de privacidade em algumas casas ou de maior dificuldade de conciliação da vida pessoal e profissional, é uma saúde pensarmos em mais e melhores políticas que possibilitem mais e melhores condições de habitação para todas as pessoas, especialmente aquelas que estão em situação de vulnerabilidade ou em momentos mais sensíveis das suas vidas.

Por tudo isto é tão relevante que o debate que decorre na sociedade seja, antes de mais, mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight e literacia nas áreas da saúde e financeira à sociedade civil, além de informação e agência em torno destes temas, da complexidade dos mesmos e do facto de impactarem todas as pessoas e a sociedade como um todo. Depois, que se reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando os diversos constrangimentos que hoje impactam a saúde e que se criem condições para, mais contingentemente, apoiar pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição. Ainda que visem a criação de condições, e também se necessário de apoios mais substanciais e sustentados, ao acesso à “habitação inicial” para a população mais jovem e um estímulo a mais soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Ainda que, se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, “é um princípio, é uma sensatez, é uma saúde” discutir como podemos ter mais, melhor, mais acessível, previsível e segura habitação. Desenhar um bom plano e concretizar medidas eficazes nesse sentido proporcionará mais saúde, quer física, quer reforçará um importante factor protector da saúde mental. Proporcionará, logo, mais possibilidade de bem-estar e qualidade de vida. Proporcionará, finalmente, e pela intersecção de desafios diversos da sociedade portuguesa com o problema e a crise da habitação, mais confiança na democracia, porquanto será o Estado e a sociedade a responder às principais dificuldades e preocupações da população. Investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso Serviço Nacional de Saúde, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.

 

Tiago Pereira

Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia

in Sábado (Ao redor…); 03.04.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/habitacao-saude-e-bem-estar-e-democracia