
Se trabalhou hoje, teve uma “segunda-feira mínima”? Num tempo onde corremos a nomear fenómenos, as “bare minimum mondays” [segundas-feiras mínimas] correspondem a uma escolha consciente por um primeiro dia de semana de trabalho mais tranquilo, focado em actividades prazerosas e no bem-estar. Visam prevenir um significativo e desproporcional dispêndio de energia e a exposição a situações de maior stresse, melhorando, assim, o tempo de descanso anterior, pela não antecipação de uma transição brusca entre o momento de lazer e de trabalho. Uma escolha consciente, mas… possível para todas as pessoas que trabalham?
Não, sabemos que não. Não existem semelhantes possibilidades de “segundas-feiras mínimas”, nem semelhantes possibilidades de autocuidado no geral.
O autocuidado corresponde ao conjunto de actividades que, também conscientemente e com mínima regularidade, escolhemos realizar e que impactam de forma positiva o nosso bem-estar e saúde, incluindo a saúde mental. Sendo sempre e para todas as pessoas relevante, assume especial importância em momentos de maior desafio ou crise pessoal/colectiva ou de vulnerabilidade e corresponde a diferentes acções e actividades, que variam de pessoa para pessoa ou, na mesma pessoa, em diferentes momentos. Esta relevância decorre dos cientificamente documentados benefícios da sua prática regular na prevenção de problemas de saúde mental, de problemas profissionais e laborais, incluindo stresse e burnout, e na promoção do bem-estar.
Sabemo-lo, mas sabemos mais. Sabemos que o autocuidado não é acessível de igual forma a todas as pessoas, dependendo da informação/conhecimento da sua importância e relevância. Ainda, da motivação que colocamos nas acções, mas, principalmente, do empoderamento, oportunidade e das condições de (des)igualdade que temos para as concretizar. Ou seja, de termos ou não recursos, internos e externos, e meios para cuidarmos de nós ou, noutro sentido, dos obstáculos que enfrentamos sejam, por exemplo, a falta de tempo ou de pessoas com quem o partilhar.
Neste sentido é fundamental que, à sua importância, não deixemos corresponderem processos de (auto)culpabilização, pela dificuldade de algumas pessoas se mobilizarem ou concretizarem comportamentos e estratégias de autocuidado. É colectiva a responsabilidade de não acrescentarmos novos factores de stresse decorrentes da impossibilidade de priorizar e realizar estas acções, a factores de stresse por vezes já significativos. Como é, considerando o papel do autocuidado na prevenção de doenças, acidentes ou erros e no bem-estar, não deixarmos que seja, apenas, responsabilidade individual, algo potencialmente penalizador e estigmatizante de pessoas com vivências complexas e exigentes e/ou em situação de maior vulnerabilidade, também, mas não apenas, nas dimensões emocionais ou psicológicas. O autocuidado não depende apenas da nossa vontade e querer. Sobretudo nestas situações, não conseguir priorizar/praticar o autocuidado não significa incapacidade, preguiça, falta de carácter ou compromisso.
O autocuidado, como a autoajuda, não pode, portanto, ser apenas uma indústria em forte expansão, particularmente quando as condições para a sua prática são tão desiguais. Sendo temática preponderante das redes sociais e presença constante na comunicação social, é essencial atender às suas limitações e impactos, não apenas positivos, no presente e futuro das pessoas. Da sobrecarga ou bloqueios que também podem resultar de acrescentar a necessidade de cuidarmos de nós em situações particularmente difíceis, aos problemas decorrentes de eventuais compras ou gastos associados ao autocuidado no presente, que podem gerar maior stresse e/ou ansiedade e incerteza financeira no futuro, às consequências profissionais ou relacionais de uma eventual excessiva centralização nestas actividades. Neste sentido, o autocuidado deve ser promovido, de forma próxima, personalizada e responsiva aos valores e condições de vida de cada pessoa, também e especialmente junto de pessoas em situação de pobreza, exclusão ou vulnerabilidade, respeitando circunstâncias e ambientes próprios e procurando a sua naturalização na vida de cada pessoa.
Mais, o autocuidado não pode, ainda, ser uma panaceia. Também porque não responde a tudo e, principalmente a todos os problemas de saúde mental. Deve, assim, ser considerado e integrado junto com mecanismos de autoajuda mediados por profissionais e de mecanismos de apoio, suporte e acompanhamento psicológico estruturado quando e se necessário, numa resposta de cuidados diferenciados em saúde, particularmente na abordagem a problemas de saúde mental mais comuns como a ansiedade e a depressão. Há experiências estruturadas e estudadas desta tipologia de cuidados, desde logo no Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, que comprovam a possibilidade de alcançar e responder a mais pessoas e sustentam a adequação destas intervenções. Também neste contexto, está a ser utilizada, com sucesso, a “prescrição social ou cultural” nos cuidados de saúde, ou seja, a “prescrição” pelo aconselhamento e apoio nesse sentido, de actividades sociais, como a pertença a um grupo de caminhadas ou de dança, e culturais, como a visita a um museu ou a participação num clube de leitura. Actividades ajustadas à pessoa e ao seu contexto e tendentes à promoção do autocuidado e bem-estar e ao reforço das suas relações na comunidade, particularmente dirigidas a pessoas com problemas de saúde mental comuns e/ou em situações de exclusão, isolamento ou solidão.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, temos de reflectir sobre o impacto da excessiva responsabilização individual pelos problemas e pelas formas de os solucionar, bem como sobre a ausência de equidade no acesso a apoios estruturados baseados na melhor evidência. Na contracapa da última edição de uma revista que habitualmente leio, surge um anúncio de um carro eléctrico cujo preço base ascende a mais de 80.000€ com a sugestiva frase: “O progresso é uma questão de carácter”. Antes a pobreza como “traço de personalidade”, agora o (potente) carro eléctrico como “questão de carácter” e o autocuidado como “chave-mestra para todas as portas”. Não me compreendam mal, a promoção do autocuidado é fundamental e este tem um papel importantíssimo na saúde e bem-estar. Mas, internalizar excessivamente problemas, responsabilizar totalmente as pessoas pelo seu comportamento e estilo de vida e contribuir para uma positividade tóxica, além de não ter suporte na evidência e factualidade, não respeita as pessoas e as suas diferenças. Não aponta à promoção do autocuidado, do bem-estar e à exigência colectiva que devemos prosseguir de serem desenvolvidas e ser garantida a equidade de acesso a respostas diferenciadas, estruturadas e baseadas na evidência para a promoção da saúde mental.
Tiago Pereira
Benefícios e limites do autocuidado
in Sábado (Ao redor…); 17.04.2023
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/beneficios-e-limites-do-autocuidado