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Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar

Lembram-se dos sprays extraordinários que prometiam resolver a calvície com a produção de “cabelo instantâneo” das televendas?

“Não os cheguei a experimentar, mas era fascinante a forma, apesar de tudo básica e simplista, como se apresentavam, como se vendiam, como, naturalmente, acabavam a frustrar anseios e expectativas de clientes. Era só mais um passo na história da monetização e do negócio em torno da vulnerabilidade e da comercialização de uma certa ideia de beleza e de bem-estar (…) Hoje, a reboque do crescimento da utilização e das funcionalidades da internet, da expansão das aplicações digitais e, por outro lado, da crescente maior procura de respostas na área da saúde mental e bem-estar, há um enormíssimo mercado em forte desenvolvimento: as dezenas de milhar de aplicações na área da saúde mental, segmento da saúde digital mais financiado nos últimos anos nos EUA.”

“Das televendas às aplicações digitais: o negócio à volta da vulnerabilidade e do bem estar”, 93º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) trata “esta forte expansão, normalmente sem utilização suficiente de ciência, quer no desenho das aplicações (o que necessariamente diminui uma boa experiência de utilização e provoca níveis de abandono muito significativos), quer no estudo dos seus impactos (estima-se que apenas 3 a 4% das aplicações são baseadas em ciência e muitas não têm estudos de impacto).”

Esta realidade “tende a descredibilizar e dificultar a exploração do incrível potencial que as aplicações digitais podem ter na promoção da saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar e na melhoria do acesso e equidade no acesso a respostas na área da saúde mental.” Mas, mais, “quando não assente em valores e numa regulação que priorize princípios éticos, deontológicos e de salvaguarda de dados e confidencialidade” pode determinar a utilização abusiva de pensamentos, emoções e dados biométricos de pessoas, algumas em situação especialmente vulnerável (no texto descrevo o caso da BetterHelp’s).

Ainda, esta expansão, “a partir de clusters muito específicos de pessoas, empresas e start-ups potencia: a) a simplificação, pela criação de algoritmos que tendem a transformar fenómenos complexos e multideterminados em lógicas lineares e de causalidades inexistentes ou inapropriadas); b) a generalização/universalização das aplicações e do seu conteúdo, gerando menor identificação, utilização e eficácia em pessoas com menor educação, práticas culturais diversas, etc.

Neste sentido, “para que possamos aumentar o acesso e a equidade de acesso em saúde mental, é fundamental intencionalizarmos o papel que a saúde digital e as aplicações podem ter, além da utilização do online para sessões/consultas (…) Podemos, com mais e melhor informação, literacia, ciência e regulação caminhar para um maior impacto positivo do papel da digitalização e das aplicações em saúde mental na promoção do auto e heterocuidado, do acesso a serviços de saúde mental e melhoria da eficácia das intervenções.

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Revolta-Apaziguamento

“Existem momentos na vida em que não gostamos do que sentimos… Nem sempre é fácil gerir essas emoções e encontrar um caminho no qual nos sentimos melhor”. Foi assim que a @Irina Gomes iniciou o “Descubra as Diferenças”, programa do Canal @Saude + em que conversou comigo sobre o binómio que apelidou de “revolta-apaziguamento”.

Também a propósito de uma boa conversa que ontem tive e porque ainda não o tinha aqui e convosco feito, partilho essa recente conversa onde, resumidamente, procuro:

. Sublinhar que é natural que em determinados momentos da nossa vida possamos sentir alguma revolta (ou mesmo sentir-nos revoltados), fazendo isso parte da nossa existência;

. Referir que, todavia, não podemos “atingir” uma existência plena e completa se nos sentirmos permanentemente em revolta;

. Discutir a subjectividade inerente ao sentimento (quando mais permanente) de revolta e à emoção (por vezes mais próxima da raiva) e como, apesar das suas expressões físicas e emocionais, cada pessoa os descreve à sua maneira;

. Como a revolta se liga com sentimentos de injustiça e, não raras vezes, com a ausência de sensação de controlo e de agência sobre o que nos provoca este sentir;

. A importância de reconhecermos o que estamos a vivenciar, incluindo os “gatilhos” (triggers), sendo a literacia emocional muito importante para tal. Bem como, a relevância dos mecanismos de autocontrolo (emocional e comportamental) e da forma como crenças (por vezes irracionais) podem surgir associadas a este sentir;

. Como a agência – e procuro discutir exemplos concretos – sobre potenciais contributos para a alteração dos fenómenos que nos provocam, por vezes, emoções ou sentimentos desta natureza, pode ajudar-nos num caminho de maior sensação de equilíbrio, paz e bem-estar;

. Como a revolta está presente na adolescência e os seus impactos nas e nos mais jovens e nas pessoas ao redor e como a revolta também vive do e com o Mundo hoje, nomeadamente no que se refere às redes sociais, ao acesso e difusão de informação e a diferentes desafios societais contemporâneos;

. Sobre o apaziguamento, procuro enquadrar e distinguir do termo e significado quando utilizado em contextos mais bélicos (de cedência) para o situar na aproximação a um caminho para um maior equilíbrio e paz, desatacando o papel das relações, do significado e das actividade do dia-a-dia;

. Finalmente, um conselho para quando nos sentirmos revoltados? Tentarmos definir exactamente o que nos está a fazer sentir o que estamos a sentir (não deixar que fique difuso) e perceber o que podemos fazer para o alterar, mesmo que decidamos nada fazer. Se assim fizermos estaremos a garantir agência e controlo sobre a situação. Esgtamos a criar perspectivas e diversificar o que pode ser a nossa actuação e como podemos lidar com a situação, ajudando-nos isso a lidar melhor com a situação, a sentimo-nos mais equilibrados e potencialmente a sentirmo-nos melhor.

Mais em paz.

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação (Ao redor…; Sábado)

Comecemos hoje com um pequeno quiz:

O que é que os seguintes nomes: António Brochado Correia, Bernardo Trindade, Carlos Abade, Carlos Moura, Fernando Nunes da Silva, Filipe Anacoreta Correia, Francisco Calheiros, Gonçalo Oliveira, Hugo Moreira Luís, José Luís Arnaut, Luís Amado, Luís Marques Mendes, Luís Montenegro, Luís Rodrigues, Mário Centeno, Miguel Maya, Paulo Portas, Pedro Machado, Pedro Reis, Roberto Antunes e Fernando Nunes da Silva…

Têm que ver com estes nomes: Alexandre Lote, André Pinotes Batista, Armando Mourisco, Benjamim Rodrigues, Brian Silva, Francisco César, Gonçalo Lopes, Hugo Costa, Hugo Oliveira, João Portugal, Luís Dias, Luís Graça, Luís Moreira Testa, Nelson Brito, Nuno Araújo, Paulo Cafôfo, Ricardo Leão, Rui Santos, Victor Hugo Salgado, Vítor Paulo Pereira e Vítor Pereira?

Ambos os grupos terem 21 nomes? Terem esses 21 nomes organizados por ordem alfabética? Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens.

São, também, e respectivamente, os nomes de todos os 21 oradores da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela Confederação do Turismo de Portugal e apresentada como “um evento que reúne importantes líderes e personalidades políticas e empresariais” que pretende “apelar à reflexão e ao debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal”. Um debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais.

Debate que, coincidentemente, aconteceu a 27 de Setembro, dia em que o Partido Socialista (PS) elegeu os novos 19 líderes das federações distritais que se juntam aos 2 líderes anteriormente eleitos das regiões autónomas, corporizando os seus agora 21 líderes federativos e regionais atrás listados. Todos homens. Um processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais.

Mas, se parece existir alguma coerência relativamente ao evento e ao facto de todo o Conselho Directivo da Confederação do Turismo de Portugal que o organiza ser, hoje, constituído por homens (10) que, por sua vez, lideram Associações ou Grupos Empresariais ligados ao Turismo, já parece mais incoerente que a liderança de todas as estruturas federativas e regionais, de um partido em que o seu Secretário-Geral foi eleito com uma moção apelidada de “Portugal Inteiro”, caiba apenas a homens. Moção essa que afirma como 1ª missão que o PS se deve assumir como “um partido reformista e progressista para uma social-democracia moderna”, detalhando dever ser “um partido transformador e progressista”, promover “reformas para melhorar a vida das pessoas” e ser “portador de sentido de justiça, esperança e de ambição para chegar mais longe”.

Talvez este sentido de justiça, esperança e de ambição obrigasse a uma reflexão profunda sobre como podem estar representadas as mulheres (segundo os últimos dados públicos, cerca de 37% do total de militantes do PS) nas lideranças locais e de proximidade e quais as razões que levam à absoluta desproporção nas candidaturas (nas 19 eleições houve apenas duas candidatas, ambas derrotadas, face a 21 candidatos Homens) e como pode essa desproporção, a bem de todas e todos, ser mitigada. Talvez esta reflexão trouxesse uma outra coerência. Talvez pudesse pensar-se que, tal qual um conselho diretivo só de homens mais facilmente organiza um evento em que só homens são oradores, em eleições internas dos partidos políticos, onde as estruturas são maioritariamente lideradas por homens, estes tendem a mobilizar-se e movimentar-se mais, perpetuando-se e determinando, ou pelo menos influenciando com o mesmo viés, as escolhas futuras.

É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.

Isto, naturalmente, se não quisermos que o “debate construtivo sobre a atividade que mais contribui para o crescimento da economia em Portugal” e as bases do partido português que se assume progressista, reformista e “portador de sentido de justiça, de esperança e de ambição para chegar mais longe” sejam consequentes com a reflexão do Ministério Público para o seu relatório de actividades de 2023, partilhada pela Sr.ª Procuradora Geral da República, referindo que uma proporção significativa de mulheres jovens (“especialmente abaixo dos 30 anos”) na instituição resulta num “agravamento de constrangimentos” nos seus trabalhos em virtude de “situações de gravidez, de gravidez de risco, de baixa para assistência a filhos menores, gozo de licença parental e ausência para efeitos de amamentação”. Um péssimo contributo para a informação e debate público proveniente de uma instituição com especiais responsabilidades com a agravante das mulheres com menos de 30 anos representarem apenas 1,6% do seu universo de trabalhadores.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências. Penso-o relativamente a partidos, eventos, estruturas e organizações da administração pública, privada ou do sector social. Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. Certamente se o fizermos caminharemos no sentido da promoção de maior segurança psicológica, de maior coesão social e da prevenção de retrocessos que hoje nos parecem tão absurdos quanto pensávamos absurdo, há anos, que um ex-presidente e novamente candidato a presidente dos EUA afirme que se ganhar a eleição poderá ser a última vez que as/os eleitoras/es votam. Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.

 

Tiago Pereira

Um tema em que as bases do Partido Socialista e o Turismo de Portugal parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

in Sábado (Ao redor…); 09.10.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/as-mulheres-e-a-sua-participacao

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Saúde Mental no Trabalho

“Não pode haver assédio no local de trabalho e ioga à hora de almoço… E quem lidera não pode entender que, por haver ioga, os problemas estão todos resolvidos.”

Foi esta a frase que a CNN Portugal destacou da conversa que tive com a Diana Bouça-Nova no Domingo que aqui partilho.

Conversa a propósito do Dia Mundial da Saúde Mental, da Saúde Mental no trabalho (tema em 2024) e que tocou:

a) A preocupação crescente de empresas e organizações com este tema, mas a necessidade de se continuar e aprofundar este caminho;

b) O papel da World Health Organization na promoção de literacia da população e no reforço da importância, também, dos factores psicológicos e sociais na saúde mental;

c) O destacar que o tema do dia em 2024 assinale a importância dos locais de trabalho, quer no quanto podem ser um factor protector, como um factor de risco da saúde mental das/os trabalhadoras/es;

d) Os custos, também económicos, que acarretam às empresas e organizações o absentismo e presentismo relacionado com situações de stresse e problemas de saúde mental (https://www.ordemdospsicologos.pt/ficheiros/documentos/opp_relatorio_prosperidadeesustentabilidadedasorganizacoes2023.pdf);

e) Como até 30% destes custos podem ser preveníveis com intervenções de avaliação e prevenção de riscos psicossociais e o quanto poderia ser importante a concretização das recomendações da Direção-Geral da Saúde e de grupos de peritos ao Governo visando alterações legislativas para a criação da figura da/o “Psicóloga/o do Trabalho” e sua inclusão nas equipas de saúde ocupacional;

f) O quão relevante poderá ser generalizar, por via dessa alteração, padrões e actividades mínimas que permitam avaliar e gerir riscos psicossociais com equidade (para todas e todos os trabalhadores e não apenas em empresas / organizações mais sensíveis a estes temas) e, dessa forma, estabelecerem-se planos de acções visando os factores que concorrem para a emergência dos problemas (exigências cognitivas e/ou emocionais; problemas de conciliação; problemas de confiança, relação e comunicação; horários de trabalho; …) e não apenas actuar sobre as consequências dos mesmos;

g) Como, além do rendimento disponível, naturalmente muito importante, um foco na promoção da saúde e bem-estar no trabalho em Portugal pode ser, também, factor de atração e vínculo ao país, particularmente da população mais jovem;

h) Com a intervenção que destaco no início, salientar a necessidade das respostas de promoção da saúde mental e bem-estar no trabalho serem integradas, alinhadas, priorizadas e generalizadas em toda a organização e que “nem tudo serve”, reforçando que existe ciência e evidência científica e que existem profissionais preparados para com eficácia apoiar organizações e empresas neste objectivo.

Grosso modo, assim foi a conversa mas convido-vos a ver…A ver e a comentar, se desejarem. Até porque, como a Diana Bouça-Nova diz no final, também eu gostava que continuássemos esta conversa. Esta importante conversa.

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Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação

“Comecemos hoje com um pequeno quiz”. Assim começa o artigo perguntando o que um conjunto de 21 nomes tem que ver com um outro conjunto de 21 nomes. “…Corresponderem, grosso modo, a pessoas mais ou menos com a mesma idade e a mesma pertença cultural? Também estariam correctas estas respostas, mas a resposta que procurava, para um quiz por sinal fácil, era serem todos nomes de homens”, escrevo.

“Um tema em que as bases do Partido Socialista (PS) e a Confederação do Turismo de Portugal (CTP) parecem concordar com a reflexão do Ministério Público? As mulheres e a sua participação”, 92º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da coincidência temporal entre a realização da VII Cimeira do Turismo Português, organizada pela CTP e que teve 21 oradores (todos homens) e as 19 eleições federativas do PS cujos eleitos se juntam aos 2 regionais perfazendo 21 líderes (todos homens). Esse dia 27.09.24 foi dia de um “debate construtivo, certamente, mas, digamos, pouco diverso em termos de género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, certamente, importantíssimas personalidades políticas e empresariais”, conforme foi apresentado o evento da CTP. Foi dia de um “processo democrático, certamente também, construtivo, mas, digamos, pouco diverso em género, idade ou pertença cultural, mesmo reunindo, também certamente, importantíssimas personalidades distritais e regionais” do PS.

“É por isto que, saudando algum caminho, mesmo que com os retrocessos dos últimos anos, no sentido da maior representatividade política em determinadas estruturas, o “sentido de justiça, de esperança e (particularmente) de ambição” que o PS e, felizmente outros partidos, preconizam tem de resultar em mais que listas que se aproximam da paridade por imposição das estruturas nacionais dos partidos e/ou regras externamente definidas, por vezes por oposição às estruturas regionais onde as lideranças permanecem longe da paridade e, ainda mais, da representatividade em termos de idade e pertença cultural. Aumentar a diversidade nas lideranças e, particularmente, nas lideranças políticas de proximidade, é urgente e fundamental à criação de contextos mais seguros e inclusivos e a processos de mudança “de baixo para cima”, logo mais naturais, de diversificação e representatividade das estruturas, algo fundamental para complementar o necessário impulso “de cima para baixo”, menos natural, que procura, apesar de tudo, contribuir para a correção das iniquidades e garantia de oportunidades.”

“…necessitamos da diversidade em posições de visibilidade e liderança. Precisamos de mais mulheres, desde logo, mas também de mais jovens e de pessoas com diferentes pertenças culturais e experiências (…) Penso-o e, certamente com muitas falhas, tento fazer algo de consequente. Sugiro que todas e todos façamos esse exercício, à nossa forma, nos nossos contextos, nas nossas escolhas no dia-a-dia e para o futuro. (…) Todas e todos temos de fazer muito mais. Fazer a nossa parte.”

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Ao redor... (Revista Sábado) Comportamento Desafios da Psicologia Educação Política Psicologia

Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar (Sábado; Ao redor…; 24.09.2024)

Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.

Há hoje razões significativas para o termos presente. Razões que vão além de casos naturalmente muito relevantes pelo seu impacto e pela dimensão de sobressalto e de alarme social que comportam, ainda que excepcionais, como foi o recente caso na Escola Básica da Azambuja. Razões que incluem, desde logo, o que António Guterres sublinhou no passado Sábado, quando assinalava o Dia Internacional da Paz, num ano e momento com a maior incidência de conflitos armados activos no Mundo desde a II Guerra Mundial. Disse Guterres que precisamos de uma acção conjunta de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.

Razões que incluem, também, os fortes desafios que crianças e, particularmente, jovens enfrentam hoje e que condicionam significativamente a sua saúde, particularmente a saúde mental, e bem-estar. Sobre isso aqui escrevi, por exemplo, em Novembro de 2023 num artigo intitulado “Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, destacando a importância da resposta precoce a dificuldades e necessidades, nomeadamente com uma “estratégia ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé”, “a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde”, a generalização da “possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos” com a “garantia da qualidade dos ambientes educativos” e o investimento “em programas de formação e desenvolvimento e das condições de exercício profissional de pessoal docente, não docente e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades, com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade e com a avaliação de impacto”. Sobre isso também aqui havia escrito em Setembro de 2022 num artigo intitulado “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem”, onde procurei reflectir sobre o impacto das “notas” e da centralização nos resultados no processo de desenvolvimento do conjunto mais amplo de competências, incluindo sócio-emocionais e relacionais, e de promoção do bem-estar e da saúde mental. Isto a par da pressão, que resulta em parte das redes sociais, para a necessidade de “reconhecimento no espaço virtual”, de alguma ausência de suporte que advém da inacessibilidade de recursos de apoio ou da sua inconstância porque muitas vezes resultam de projectos ou contratações não permanentes que implicam alterações / interrupções frequentes e do crescimento da instabilidade e imprevisibilidade face ao futuro que, afectando todas as pessoas, impacta desproporcionalmente a população mais jovem. Precisamos, portanto, de uma acção conjunta de promoção da saúde mental e do bem-estar e de uma atitude de prevenção e resposta aos problemas contingente e precoce, empoderada e eficaz.

Razões, finalmente, que decorrem do ambiente social e político que vivemos hoje. Um espaço público onde em cerca de 20 anos aumentaram em 100% as notícias dos órgãos de comunicação social cuja mensagem base é o “ódio” e em 150% as em que é o “medo”. Em que pessoas e grupos constroem, por vezes artificialmente, conflito não construtivo porque prosperam, proliferam e lideram nesse âmbito, autopromovendo-se ou promovendo as e os do seu grupo, sem qualquer consideração dos impactos a médio e longo prazo dessa atitude nos indivíduos e na sociedade. Geram e gerem desconfiança que gera mais desconfiança, conflito não construtivo que gera mais conflito não construtivo validando, explicita ou implicitamente, os receios das outras pessoas, diversas de nós, o ódio, o ressentimento e, por vezes, até comportamentos agressivos, criando na sociedade espaço para atitudes de complacência com diferentes práticas agressivas e violentas. Precisamos de uma acção conjunta de promoção da resolução construtiva de conflitos e de prevenir a complacência com atitudes e comportamentos de discriminação, ódio e de não cumprimento dos Direitos Humanos.

Ora, diz-se, sabe-se, que a Escola não é uma ilha e, logo, não é imune a este conjunto de fenómenos. Debate-se, necessariamente, com desafios ao nível dos seus recursos humanos, mas também com outros que resultam dos importantes objectivos da inclusão de todas as crianças e jovens, do aumento da escolaridade obrigatória, da escola de qualidade a “tempo inteiro” ou de fenómenos como as migrações, a desigualdade social ou a transição digital e a utilização de novas tecnologias. É com todo este enquadramento que devemos pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura) e olhando a que:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental promovermos uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva mais ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.

 

Tiago Pereira

Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

in Sábado (Ao redor…); 24.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-ditado-popular-a-proposito-das-praticas-agressivas-e-violencia–em-contexto-escolar

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Deve a psicologia influenciar as pessoas a partir de valores pró-sociais? Reflexões a propósito da Ética Aplicada à Psicologia

Estamos no início da semana onde, 5ª feira (10.10), se comemora o Dia Mundial da Saúde Mental. Felizmente, nos últimos anos e num processo crescente desde antes da pandemia (acelerado nesse período), escrevemos, conversamos, partilhamos e educamos muito mais sobre saúde mental todos os dias do ano. Como em tudo, esse facto, não tendo apenas aspectos positivos, é algo muito importante e relevante e tem um forte contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos que para ele contribuem com o seu trabalho e com a sua participação.

Outra, creio, vem mais paulatinamente a caminho. Também muito importante e relevante e com um forte contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos, refere-se à forma como se escreve(rá), conversa(rá), partilha(rá) e educa(rá) sobre os processos de tomada de decisão e o conjunto de factores pessoais, interpessoais, sociais e contextuais que apoiam a sua compreensão. E como, paralelamente, podemos crescer em quantidade, qualidade e impacto os contributos das ciências comportamentais – particularmente da psicologia – para o desenho, implementação e avaliação de políticas públicas.

Ambas as alterações carecem de uma ciência psicológica sólida e confiável e de uma profissão de psicóloga/o com um exercício claramente assente em padrões éticos e deontológicos co-construidos, partilhados e consequentes.

Também por isso, em boa hora, a Ordem dos Psicólogos Portugueses viu finalmente consagrada a sua representação no Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida onde é superiormente representada pelo Miguel Ricou. Ele e a presidente do CNECV (Maria do Céu Patrão Neves ) editaram o “Ética Aplicada – Psicologia” e, simpaticamente, convidaram-me a escrever um capítulo: “A psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” (sobre isso aqui escrevi).

Ora, amanhã (na FPCE da Universidade do Porto), estarei numa conversa/apresentação do livro com o Miguel Ricou e o Luís Fernandes com o mote: “Deve a psicologia influenciar as pessoas a partir de valores pró-sociais? Reflexões a propósito da Ética Aplicada à Psicologia”. Tenho viés porque admiro-os muito mas tenho cá para mim que vai ser estimulante. Junta(m)-se a nós?

Ps. Hoje passa um ano sobre os hediondos acontecimentos resultantes da invasão por combatentes do Hamas de Israel. Faltam-me palavras para os descrever. Como me faltam para descrever tudo quanto nestes 365 dias, incluindo os graves crimes cometidos pelo exército de uma Democracia/Estado de Direito, aconteceu em sua consequência e/ou por eles justificado. Proponho, hoje, um pequeno texto que escrevi sob forma de pequena e singela de reflexão e proposta acção. Chamei-lhe “Reconhecer”.

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Cheque Psicólogo

São mais de 830 as psicólogas e psicólogos que, a partir desta semana, estão disponíveis para o apoio e suporte a estudantes das instituições de Ensino Superior.

Estas e estes estudantes são, na sua grande maioria, jovens de uma geração particularmente impactada nas suas dimensões da saúde mental e do bem-estar, resultado de um conjunto de determinantes e condicionantes, principalmente de índole social e económica. Geração com pouco acesso e, particularmente pouca equidade no acesso, a serviços de psicologia clínica e da saúde. Geração muito impactada, sublinho, mas, apesar de tudo, com melhores indicadores de saúde mental e bem-estar que a geração que se lhe segue, hoje no Ensino Secundário.

Foi com este enquadramento que segunda-feira, numa entrevista à @SIC para uma reportagem que enquadrava a medida “cheque psicóloga/o” no Ensino Superior, procurei sublinhar:

  1. A necessidade da complementaridade da medida com um urgente reforço do orçamento, da valorização e das condições de actuação dos Serviços de Psicologia em instituições de Ensino Superior, particularmente considerando o seu importante papel no processo de acompanhamento aos momentos de transição e à importância da prevenção e da capacitação por via da promoção de competências facilitadoras e/ou transversais junto das/os estudantes;

 

  1. A necessidade da sua complementaridade com o urgente reforço das psicólogas e psicólogos no Serviço Nacional de Saúde (e nos Cuidados de Saúde Primários em particular) considerando a importância da intervenção da psicologia estar registadas e integradas no sistema, numa perspectiva de acompanhamento de saúde em proximidade e contingência;

 

  1. A discussão sobre os factores de inclusão e de exclusão acordados com o intuito de procurar garantir melhor e mais personalizada resposta para cada situação específica e garantindo, na medida do possível, a integração da resposta com outras respostas existentes, sejam relativas a situações de crise, sejam de necessidade de continuidade.

 

Aos três anteriores pontos acresce a tentativa de contributo para reforçar a importância da avaliação de impacto no sentido da melhoria da resposta mas, também e eventualmente, a extensão de medidas desta natureza a outros contextos / necessidades.

Tudo a partir de um contributo da @Ordem dos Psicólogos Portugueses para um programa que, qualquer um/a de nós, tenderia a desenhar, certamente, com uma ou outra alteração. Mas, apesar de tudo, no sentido certo… O sentido de busca de um caminho de melhoria paulatina do acesso (e da equidade de acesso) a serviços de psicologia e a práticas psicológicas de qualidade, com benefício das pessoas e da sociedade.

 

Ps. Link para a notícia completa: https://sicnoticias.pt/pais/2024-09-30-estudantes-do-ensino-superior-ja-podem-pedir-consultas-de-psicologia-e-nutricao-c7fac756

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Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

“Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.”

“Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar”, 91º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura enquadrar o porquê de, hoje, isso ser particularmente relevante para, depois, “pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura)” a partir de quatro dimensões:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Termino advogando e apelando a “uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.”

“Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.”

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais (Sábado; Ao redor…; 10.09.2024)

Recuemos milhares de anos e imaginemo-nos a viver neste planeta, nesse momento. Não foi, não era, a força individual e isolada de cada ser humano que permitia enfrentar os principais desafios que se colocavam. Não foi, certamente, a força isolada de indivíduos que permitiu o desenvolvimento e que nos trouxe à sociedade dos dias de hoje. Antes foi a forma como os seres humanos desenvolveram formas complexas de cooperação e colaboração, baseadas na comunicação e na confiança. Formas de cooperação e colaboração que permitiram responder a desafios e crises, partilhar, inovar e desenvolver comunidades e a sociedade. Foram as relações interpessoais, o trabalho em equipa e a vida em comunidade que permitiram que atingíssemos níveis de desenvolvimento e bem-estar hoje, apesar de tudo, inimagináveis não há muito tempo.

Sabemo-lo. Mas…

Vivemos um momento histórico em que, segundo a ONU, quintuplicaram em 50 anos as catástrofes associadas a fenómenos naturais. Nesse período, “todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico retirou a vida a 115 pessoas e causou perdas 202 milhões de dólares”. A crise climática associa-se a outros desafios complexos do nosso tempo. Desafios que exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de colaboração entre cidadãos na prevenção de fenómenos/desastres, na capacitação da população para maior resiliência face aos mesmos e na mitigação dos seus impactos.

Sabemo-lo também. Mas…

Estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais, particularmente no Ensino Superior, momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

Apesar de hoje falarmos mais sobre as competências sócio-emocionais e ter sido, inclusivamente, realizado um caminho para a sua integração e consideração do seu desenvolvimento na Educação até à escolaridade obrigatória, existe um caminho enorme a percorrer para a sua cabal consideração no contexto do Ensino Superior. Procuro, em seguida e em seis pontos, discutir eventuais explicações para tal e, nesse sentido, pistas para potenciais mudanças para reforço deste caminho. A saber:

a) A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa no Ensino Superior, resultante de causas diversas que incluem, entre outras, fenómenos como a hiperespecialização das/os docentes e investigadoras/es, a dispersão por departamentos/faculdades de pessoal não docente ou das e dos próprios estudantes por via da escassez de residências estudantis e da cada vez maior distância do alojamento possível nas grandes cidades face às instituições. Tudo a contribuir para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade. Importa reflectir sobre estes fenómenos e intervir no sentido da prevenção e mitigação da atomização e fragmentação, desde logo nas e nos estudantes, procurando reforçar o seu envolvimento com a comunidade educativa e a sua possibilidade de participação, bem como reforçar a identidade, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições.

 

b) O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico. O momento da transição e da integração no Ensino Superior, também porque habitualmente coincidente com um período de alterações significativas (relacionadas com a idade, mudança de local de residência, de grupo de amigas/os, …) é um momento especialmente relevante para a saúde e bem-estar das/os estudantes, para o seu desempenho académico (persistem níveis significativos de abandono no 1º ano de curso) e para as relações interpessoais, sendo fundamental o desenho de estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria, incluindo por pares.

c) O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes. Há hoje mais jovens que entram e frequentam o Ensino Superior com dificuldades no âmbito da ansiedade, depressão ou de desafios na gestão do stresse que acrescem, também, ao aumento destes problemas na restante comunidade educativa. Apesar dos recentes investimentos, particularmente com o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental e a medida “Cheque Psicólogo”, as problemáticas persistem e provocam sofrimento às pessoas, não lhes permitindo “estar bem”, “cumprirem-se” e, dessa forma, ter condições para melhores relações interpessoais e bem-estar. É urgente investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção.

 

d) A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas. Particularmente num momento em que um conjunto de tarefas e o desenvolvimento de competências técnicas podem e serão delegadas ou apoiadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial generativa, é de crucial importância que os currículos formais e informais do Ensino Superior apontem ao desenvolvimento deste tipo de competências e usem da ciência na definição de estratégias e intervenções suportadas em evidência científica. Esta aposta apoiará a formação de profissionais que aliem às competências técnicas, valores e competências sócio-emocionais que os tornem pessoas e profissionais mais capacitados e mais abertos e predispostos às relações interpessoais, à colaboração e ao trabalho em equipa.

 

e) A não-valorização e não-intencionalização da colaboração. Sendo coerentes com o quão estratégicas podem ser estas acções, devemos ser capazes de inscrever e valorizar, nos processos internos das instituições, as dimensões da colaboração e monitorizar e auto-avaliar estas acções. Será relevante a sua inclusão enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho.

 

f) A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças. No Ensino Superior, como em toda a Administração Pública, devemos abandonar o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” de um/a profissional. As competências de liderança vão muito além das específicas competências técnicas na área em que se lidera. Considerá-lo, mais, no acesso aos cargos de liderança e no desenvolvimento profissional nos mesmos, será um contributo decisivo para a internacionalização do atrás referido e para a promoção de mais e melhores relações e práticas de colaboração.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, importa que na formação das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios, também, do presente e do futuro. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos. Que nele participemos, juntos e por todos.

 

Tiago Pereira

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

in Sábado (Ao redor…); 10.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-ensino-superior-e-a-promocao-das-relacoes-interpessoais