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Uma (só) Saúde (Ao redor…; 09.04.2024)

Na passada semana tomou posse o XXIV Governo Constitucional em Portugal. Como porventura aconteceria em qualquer outro lugar do Mundo onde exista e funcione uma Democracia, este acontecimento suscitou um conjunto de debates e discussões em torno da composição e da organização do Governo. Um deles, o facto dos anteriores Ministério da Educação e Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do XVIII Governo Constitucional resultarem num único Ministério da Educação, Ciência e Inovação e do que isso pode ou não representar e significar para a visão política sobre a Educação, mesmo num país onde as Creches e, portanto, a Educação dos 0-3 anos permanecem, ainda, com um “pé fora” do sistema educativo e fora da área da Educação na organização governativa. Uma Educação?

Já na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates e discussões, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo. Ao contrário de outros países na Europa onde o Ministério não é, exclusivamente, da Saúde e se associa a outras áreas, particularmente a solidariedade, a segurança e os assuntos sociais ou os cuidados (informais), há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as próprias competências do Ministério historicamente se alterem e indiciem a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?

Em rigor, talvez com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas, a verdade é que temos um caminho percorrido desde um modelo normalmente definido como “biomédico”, essencialmente centrado nas dimensões biológicas dos Seres Humanos e nas suas patologias e que tendia a desconsiderar ou relativizar os factores sociais, ambientais e psicológicos que influenciam decisivamente a saúde. Este modelo, embora com a discrepância que atrás assinalo, foi sendo substituído nas últimas décadas por um modelo habitualmente referenciado como “biopsicossocial” que, ao adoptar uma visão mais ampla da saúde, reconhece a relação complexa e a influência mútua de factores biológicos, sociais e psicológicos na saúde considerando, nesse sentido, questões como as dimensões comportamentais, emocionais ou, noutro prisma, as práticas culturais e condições sócio-económicas das pessoas e comunidades. Já nos últimos anos temos assistido a um aprofundamento desta visão, tendente à inclusão da saúde dos restantes animais e ao cuidado e integridade com o meio ambiente e os ecossistemas como outros aspectos fundamentais à saúde, uma abordagem mais integrativa e conhecida por “uma (só) saúde” [“one health”] que reforça, entre outros aspectos, a consideração da qualidade da água, dos alimentos ou a proteção e resposta das comunidades e sistemas face, por exemplos, a catástrofes “naturais” ou a doenças infecciosas.

Caminhamos, dizia, de modelos em que a saúde era entendida quase apenas como a ausência de doença para abordagens mais complexas da saúde e do bem-estar, focadas numa compreensão mais integrativa e sustentável da pessoa, das comunidades e do ambiente. Neste caminho assistimos também a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e a desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade dos ecossistemas, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação, o desenvolvimento de novas abordagens e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.

Esta transformação progressiva foi também assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano, comemorado no último Domingo, cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”], advogando pelo direito de todas as pessoas, em qualquer lugar do Mundo e circunstância, a acederem a “serviços de saúde de qualidade, a educação e informação, bem como a água potável e segura, a ar limpo, a uma boa nutrição, a habitação de qualidade, a boas condições de trabalho e ambientais e a liberdade e não-discriminação”. Direito(s) em Portugal protegido(s) pela Constituição e Direito a uma saúde de qualidade que depende do envolvimento de todas e todos, individual e colectivamente, cívica e politicamente, para o seu cumprimento.

Foi, também, com esse espírito de missão e de compromisso que, a partir da abordagem “One Health”, neste exacto Dia Mundial da Saúde de 2024, o conjunto das nove Ordens da Saúde (Biólogos, Enfermeiros, Farmacêuticos, Fisioterapeutas, Médicos, Médicos Dentistas, Médicos Veterinários, Nutricionistas e Psicólogos) apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal.

Contributo que assente num processo de colaboração e construção conjunta pretende dar um sinal da disponibilidade das Ordens Profissionais da Saúde e da importância da colaboração de todas as entidades neste grande objectivo de melhorar o acesso, a qualidade no acesso aos serviços de saúde e a saúde da população, aspectos fundamentais à qualidade de vida e bem-estar e à sustentabilidade, desenvolvimento e prosperidade do país. O documento sublinha a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; promover a literacia em saúde, incluindo saúde animal; reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental e desenvolver a área da saúde animal; investir em inovação, investigação, desenvolvimento e tecnologia; e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, à complexidade dos desafios que vivemos só poderão corresponder abordagens também elas complexas, determinadas, comprometidas e com suporte interdisciplinar e multiprofissionais. Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.

 

Tiago Pereira

Uma (só) Saúde

in Sábado (Ao redor…); 09.04.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/uma-so-saude

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Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”? (Ao redor…; 26.03.2024)

Ou será apenas ao meu redor que tal parece acontecer? Ou melhor, serei apenas eu a senti-lo? Por assim pensar e reflectir, questionei algumas pessoas que, primeiro estranharam, mas, depois e porque mais atentas, sorriram quando acontecia e, de certa forma e à sua maneira, confirmaram. Estarão, então, mais pessoas a dizer a palavra “exacto” e essas mais pessoas mais vezes? Exacto. E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.

Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online) ou de acontecimentos (troika ou quarentena) mas, também, outras palavras e expressões não relacionadas com uma transformação ou acontecimento em específico. “Bué”, “fixe”, “tipo” e, agora, mais recentemente, “exacto”, para dar apenas alguns exemplos.

Não pretendo discutir propriamente porquê “exacto” e porquê neste momento. Antes, assinalá-lo e, ao assinalá-lo, procurar que pensemos a forma como se processa e o impacto que tem um fenómeno apelidado de contágio social. Fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais que incluem, entre outros, a imitação (directa) ou a conformidade e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção, seja ela um comportamento, uma expressão emocional ou mesmo uma palavra ou expressão. O contágio social por via das múltiplas interacções sociais é, nesse sentido, um processo fundamental na forma como nas línguas se criam e universalizam gírias ou modismos, como as diferentes línguas interagem umas com as outras e como se têm transformado e adaptado ao longo do tempo.

Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas. Senão vejamos, a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas, permitindo sucessivamente que essas pessoas cheguem a outras pessoas. Fá-lo ao mesmo tempo que potencia a possibilidade de encontro entre grupos e comunidades, explorando factores de liderança, reverência e relevância e aumentando, também por essa via, não apenas a velocidade, mas também a intensidade do fenómeno de contágio. Intensidade que, por sua vez, é influenciada pelas emoções associadas às acções, algo também potenciado pelas novas tecnologias e, particularmente, quando nos referimos a emoções normalmente classificadas como menos positivas como sejam o ódio, a raiva ou o ressentimento que se propagam a velocidades maiores no contexto das redes sociais. Finalmente, há também o papel importante da conformidade e da pressão (percebida) dos pares nos processos de contágio, algo que, necessariamente, é também aumentado pela presença online e pela forma como decorrem os processos de reconhecimento em ambiente digital.

Aqui chegados creio que restará claro que, conforme o atrás pode permitir compreender o porquê de uma maior utilização em Portugal da expressão “exacto”, apoia também a compreensão de como estes mecanismos são, cada vez com maior eficácia, utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, como podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo como podem, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, também e por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.

O contágio social é assim um veículo importante para processos de deslegitimação de comportamentos ou crenças outrora legitimados socialmente e vice-versa. Também porque uma maior e mais permanente presença de um determinado fenómeno no espaço social e, hoje, mediático tende para a sua normalização e naturalização e, por essa via, para uma progressiva alteração das normas sociais vigentes, proporcionando maior aceitação de comportamentos ou acções antes não aceites ou a rejeição de comportamentos ou acções antes aceites, mudanças que, por vezes, podem gerar desconforto, conflito ou até sobressalto social. Neste sentido, particularmente em questões mais ideológica ou socialmente fracturantes, o contágio social tem o paradoxo de tender para a generalização de uma crença ou comportamento no seio de um grupo ou comunidade mas, ao mesmo tempo, potencial de fragmentação, de polarização e de diminuição do espaço de compromisso e construção conjunta, porquanto esse grupo e comunidade tenderá a afastar-se progressivamente mais e mais significativamente de outros grupos e comunidades com crenças e comportamentos distintos. Por vezes opostos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o contágio social tem um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas, suportando importantes mudanças sociais com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. Tê-lo presente é ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.

 

 

Tiago Pereira

Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

in Sábado (Ao redor…); 26.03.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/tem-reparado-que-agora-mais-pessoas-dizem-mais-vezes-exacto

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Uma (só) Saúde

Ao contrário do que aconteceu com a Educação, “na área da Saúde, existindo naturalmente outros e prementes debates, o nome do Ministério não parece ser para eles estímulo (…) Há muitos anos que em Portugal está consolidado o/um Ministério da Saúde, mesmo que a alocação de recursos e as suas próprias competências se vão alterando e indiciando a visão do Governo a cada momento. Uma saúde?”

“Uma (só) Saúde”?, 80º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre como, “com alguma discrepância entre o tempo da evolução “conceptual” e discursiva e a operacionalização dos paradigmas”, caminhamos do modelo biomédico para o modelo biopsicossocial (explicitando-os) e o aprofundamos, acrescentando progressivamente às dimensões sociais e psicológicas, a saúde dos restantes animais e o cuidado e integridade com o meio ambiente e ecossistemas, numa abordagem integrativa conhecida por “uma (só) saúde” [“One health”].

“Neste caminho assistimos a um progressivo aumento da complexidade dos próprios sistemas de saúde e à consideração progressiva (neles) de questões como a pobreza e desigualdade, as relações sociais e os fenómenos de isolamento e solidão, a saúde mental, a literacia, prevenção, promoção e protecção da saúde, a saúde pública e a sustentabilidade, bem como a necessidade de aprofundar e diversificar a investigação e desenvolvimento e de colaboração entre diferentes ciências e profissionais. Tudo, (n)uma só saúde.”

“Esta transformação progressiva foi assinalada no Dia Mundial da Saúde deste ano cuja temática versou a (minha/nossa) saúde como um (meu/nosso) direito [“My health, my right”] (…) Dia em que, a partir da abordagem “One health”, o conjunto das nove Ordens da Saúde apresentaram ao novo Governo um contributo conjunto e consensual para “uma política de saúde” e para o cumprimento do Direito a uma saúde de qualidade em Portugal, sublinhando a necessidade de garantir a eficácia e sustentabilidade do SNS, elemento central neste objectivo, bem como: priorizar a promoção da saúde e a prevenção da doença; (…) reforçar os serviços e valorizar e dignificar os seus profissionais; investir significativamente nas áreas da saúde pública, saúde mental (…) e reforçar a integração da saúde com outras áreas governativas como as áreas sociais, laborais e ambientais.”

“Na saúde, e nas áreas com ela relacionadas e a ela interligadas, a psicologia, enquanto ciência, e as psicólogas e psicólogos, enquanto profissionais, são essenciais para construção destas respostas, para a sua eficácia, para a sustentabilidade e para a melhoria da saúde, bem-estar e qualidade de vida de pessoas e comunidades. Esta “uma (só) saúde” como “nosso direito” depende, portanto e também, da priorização e do cumprimento rápido de um dos compromissos do actual Governo em campanha – o reforço significativo do número de psicólogas e psicólogos no SNS e a sua valorização.”

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Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?

Exacto. Exactamente. Exacto… Também sentem, ao vosso redor, que agora mais pessoas mais vezes dizem “exacto”? “E estarão a dizê-lo não apenas como resposta ou no final de uma frase que lhes é dita, mas, também, durante as frases e ainda antes do seu fim? Exacto.“

“Tem reparado que agora mais pessoas dizem mais vezes “exacto”?, 79º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte desta questão para reflectir sobre o papel e impacto do contágio social.

“Como aconteceu, acontece e tenderá a acontecer com todas as gerações, pertenço a uma onde emergiram e se generalizaram palavras resultantes de progressos tecnológicos (CD ou online), de acontecimentos (troikaou quarentena) mas, também, palavras e expressões como “bué”, “fixe” ou “tipo”.

Não pretendo, portanto, discutir porquê “exacto” e porquê agora. Antes assinalá-lo e pensar o contágio social, “fenómeno que, em traços gerais, corresponde ao processo através do qual decorre a disseminação de comportamentos, crenças, atitudes ou sentimentos através de uma comunidade, grupo ou multidão. Disseminação normalmente assente num conjunto de processos interpessoais (…) e que pode conduzir a uma generalização e a um reconhecimento global de uma determinada acção.”

“Como qualquer processo social, o contágio social é fortemente influenciado por diferentes factores, alguns dos quais permitem perceber porque é hoje potencialmente mais veloz e mais intenso em determinadas áreas”. Por exemplo [outros são detalhados no artigo], “a aprendizagem social, identificação e a imitação por via das novas tecnologias permite, hoje, um mais rápido contágio, por chegar mais rapidamente a um conjunto maior e mais diverso de pessoas.”

Os processos de contágio social são, por isso e cada vez com maior eficácia, “utilizados para fins de informação ou desinformação ou de marketing e vendas. Noutro prisma, podem influenciar processos de activação social, políticos ou mesmo, por um lado, contribuir para a perpetuação de determinadas práticas e comportamentos colectivos mas, por outro, para o desencadear e aprofundar de transformações sociais.”

“O contágio social tem, assim, um importante potencial para provocar alterações na sociedade. Das mais pequenas, simbolizadas numa ou em mais palavras ou expressões, a maiores e mais significativas com forte impacto na vivência e no bem-estar de pessoas e comunidades. Tê-lo presente é fundamental para dia-a-dia reforçarmos as estruturas que suportam e garantem os Direitos Humanos ou as Democracias prevenindo que, também pelo contágio social, certas mudanças possam contribuir para o seu enfraquecimento. É ainda fundamental para sentirmos agência e percepcionarmos a importância do nosso contributo, do contributo de cada pessoa, para, por via deste contágio social, caminharmos para uma sociedade mais equitativa e mais promotora de possibilidades de bem-estar para todas e todos. Para contribuirmos, também dessa forma, para um Mundo um pouco melhor. Exacto.”

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Legislómetro 2024: O Pulsómetro e umas Legislativas para não esquecer (Ao redor…; 13.03.2024)

Pulsómetro, um “indicador de sentimento nas redes sociais”. A CNN Portugal lançou e projectou uma ferramenta experimental que, segundo informou, analisou, “durante a última campanha eleitoral e em tempo real, milhões de dados publicados nas redes sociais com recurso à inteligência artificial”. Disse, também, ser assim formulada “uma aproximação precisa da opinião pública relativamente aos debates eleitorais”. Fê-lo em conjunto com a “Augusta Labs”, organização que se diz “comprometida em aumentar a produtividade corporativa” e cujo seu mandato diz ser “economizar dinheiro para as empresas, diminuindo as perdas de tempo e salvando os seres humanos de tarefas aborrecidas que drenam a moral”.

Não me entendam mal, creio muito importante a integração da tecnologia no nosso dia-a-dia e o seu contributo para um conjunto significativo de desafios pessoais e societais.  Contributo tanto maior quanto se consiga integrar no seu desenvolvimento dimensões éticas, conhecimento científico da forma como os seres humanos se comportam, tomam decisões e interagem com a tecnologia e quando existir rastreabilidade do seu funcionamento e um alinhamento dos seus princípios e valores e da sua utilização e impacto com os direitos e a dignidade humana, no presente e para o futuro. Por assim o crer, e por considerar relevante o uso da inteligência artificial na comunicação e, até, no jornalismo, estranho a publicitação e a forma de disseminação por um órgão de comunicação social de resultados desta ferramenta, que, embora referida como experimental, se procura apresentar como tecnicamente fiável, sendo assegurado pelas entidades que “o modelo utilizado é desprovido de inclinações políticas, garantindo imparcialidade na interpretação dos dados”, ou seja, imparcialidade na “análise de sentimento [relativo] às várias interações identificadas”.

Fá-lo, porém, num contexto (diversas redes sociais) sem mediadoras/es. Fá-lo, porém, num contexto onde o valor da verdade e dos factos é relativo face ao da opinião e da desinformação. Fá-lo, porém, num contexto com algoritmos próprios que, baseados em modelos e princípios económicos e no impacto imediato (desconsiderando importantes externalidades de médio e longo prazo, nomeadamente as referentes ao discurso de ódio e polarização), resultam numa propagação mais rápida e com maior alcance de expressões e posições baseadas em emoções percepcionadas como menos positivas, como o medo, a raiva ou o ódio, face a outros tipo de manifestações como o apoio, a concordância ou a favorabilidade. Fá-lo, porém, sem qualquer intervenção humana após a reunião e classificação da informação pela ferramenta. Fá-lo, portanto, num contexto que tende para a incompatibilidade com um espaço e ferramenta “desprovida de inclinações políticas”, porquanto, como sabemos, com os resultados que conhecemos, há partidos em Portugal que usam determinadas redes sociais, a ausência de mediadoras/es, a desinformação e as emoções percepcionadas como negativas como veículo para a reunião e agregação de seguidoras/es, de apoiantes e de militantes. Fá-lo, finalmente, projectando e legitimando uma ferramenta não conforme as boas práticas científicas (com método e normas, como acontece com as sondagens) ou da Inteligência Artificial, porque não perceptível, porque pouco clara, transparente e rastreável, além de que, pelas suas características, ao contrário de uma “aproximação precisa da opinião pública”, parece favorecer o enfraquecimento do debate público e, com isso, dos princípios e valores da própria democracia.

O pulsómetro, dizem, mede, desta forma, sentimentos. Nada mais complexo. Nada ainda mais complexo quando a partir de um tweet, um post ou um comentário numa rede social. Um complexo tornado simples, não matizado. Um exemplo, qual sinal dos tempos que, curiosamente, pode possibilitar e promover discursos que reforçam forças e partidos populistas que sistematicamente afirmam poder, também, resolver desafios individuais e societais complexos com soluções simples, não matizadas e imediatas.

Tivéramos nós um legislómetro e observá-lo-iamos, com a devida intensidade, nas Legislativas de Domingo passado. Legislativas que, creio, recordaremos por muitos e bons anos e que, ao contrário do que muitas e muitos democratas e defensores de uma visão dos direitos humanos tendente à possibilidade de autodeterminação das pessoas entendem, não são para esquecer. São umas Legislativas para inscrever e para com elas sermos congruentes. Dos cuidados éticos, de transparência e de alinhamento ético na utilização da inteligência artificial para o futuro, ao reforço da mediação em tempos de superior impacto da desinformação, passando pela necessidade de estimularmos um debate público, também, construtivo, também com responsabilidade e a apontar ao médio e longo prazo, por oposição ao, unicamente, polarizador, casuístico e imediatista.

Umas Legislativas para inscrever, porquanto os seus resultados devem motivar-nos e activar-nos para prevenirmos o que, no Mundo e em Portugal, favorece a adesão a forças e partidos populistas cujo discurso invariavelmente se baseia num nós contra outras/os poderoso em tempos de incerteza, de imprevisibilidade e de potencial divisão. É fundamental, como antidoto, investirmos decisivamente em criar mais condições para mais saúde, incluindo saúde mental, e bem-estar na população. Investirmos num combate sem tréguas, colectivo e como desígnio nacional à pobreza e às mais diversas formas de violência, exclusão e discriminação. Criarmos condições para uma sociedade menos desigual e com maior equidade e igualdade de oportunidades. Para uma sociedade menos individualista e mais colectiva onde a civilidade, a cordialidade e a construção e suporte conjunto sejam factores protectores decisivos nos acontecimentos de vida significativos de cada pessoa e nos desafios individuais e societais mais complexos. Uma sociedade de aceitação e reconhecimento, de pontes e de conexão.

Fazer, falhar melhor aqui, prevenindo que pessoas como cada um/a de nós sinta adesão e entenda propósito no discurso populista. Fazer, falhar melhor aqui e, em simultâneo, não ostracizar, antes compreender, empatizar e conversar com quem assim o sentiu ou sente, não criando fossos, antes apoiando e suportando processos de re-identificação e re-significação e espaço para que pessoas possam mudar e na mudança ser aceites.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, sabemos que antes dos momentos de grande transformação política e social vem, normalmente, a retórica do ódio e a sua normalização. Sabemos, também, que as e os “aquém” – que a Clara Cardoso tão bem tem descrito enquanto as pessoas que, seja em que dimensões for, “estão longe daquilo que eram as suas expectativas” – com os factores de risco certos e sem factores de protecção, são susceptíveis a forças e partidos que usam do ódio, do ressentimento e da raiva como motores da sua ascensão. É hora de sermos coerentes e consequentes com o que sabemos. Mais tarde poderá ser tarde demais.

 

Tiago Pereira,

Legislómetro 2024: O Pulsómetro e umas Legislativas para não esquecer

in Sábado (Ao redor…); 22.02.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/legislometro-2024-o-pulsometro-e-umas-legislativas-para-nao-esquecer

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Ao redor... (Revista Sábado) Congresso Democracia Desafios da Psicologia Futuro da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Política Psicologia

Espaço Jovem, Congresso

Neste último Sábado Gabriel Attal comemorou o seu 35º aniversário. Depois de ter tomado posse em Janeiro último, fê-lo enquanto primeiro-ministro de França, sexta maior economia mundial, num período particularmente incerto e exigente. Foi (é) o primeiro-ministro mais novo de sempre em França, depois de ter sido Ministro antes dos 30 anos. E foi nomeado por Macron, também ele, quando inicialmente eleito, o Presidente mais jovem de sempre em França e que tem sempre defendido a necessidade de incluir mais pessoas, mais jovens, nos processos políticos, pela identificação, participação e inovação que aportam ao debate, à co-construção e à decisão política.

Não posso estar mais de acordo e, creio que, além da justiça intergeracional que representa, que o tempo e os desafios que vivemos o exigem. Na política, certamente. Como noutras áreas da nossa vivência cidadã e profissional.

Na Ordem dos Psicólogos Portugueses temos procurado fazê-lo. Desde logo no conjunto de iniciativas que, desde há anos, mantemos junto de estudantes de psicologia, incluindo o mais recente projecto Estudante Embaixador OPP cuja candidatura para a 2ª geração se encontra aberta. Depois junto de diplomadas/os em psicologia e no acompanhamento dos anos profissionais júnior (estágios profissionais), incluindo o conselho consultivo. Ainda num conjunto de iniciativas conjuntas com associações representativas de estudantes e jovens profissionais e num grupo de trabalho com jovens psicólogas/os recentemente criado, numa tentativa de generalizar a identificação e participação da camada mais jovem da profissão no debate, co-construção e decisão da sua organização.

Voltamos a fazê-lo no próximo (6º) Congresso da OPP que decorre em simultâneo com o XIII Congresso da Federación Iberoamericana de Asociaciones de Psicología (FIAP), em Setembro e no CCB. Nele teremos o “Espaço Jovem” onde, partindo-se do conceito 3MT®, desenvolvido na Universidade de Queensland convidamos estudantes, diplomadas/os, psicólogas/os júnior e membros efectivos nos seus primeiros 5 anos de actividade, fundamentais para o crescimento da profissão, a apresentarem trabalhos relativos à sua prática profissional e/ou de investigação. Além dos prémios monetários previstos para as/os vencedoras/es, pretende-se reforçar a sua participação activa, reconhecer, dar visibilidade, comunicar e disseminar os trabalhos, bem como promover redes de contacto entre profissionais.

Se cumpres os critérios, submete o teu trabalho para avaliação pela comissão científica, também ela com jovens profissionais, presidida pela Isabel Soares. Se não, participe no Congresso e, desfrute, entre outras iniciativas e espaços de (re)encontro, neste Espaço Jovem.

2ª Geração – Estudante Embaixador OPP: aqui:

https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/p/estudante-embaixador-opp

Submissões Espaço Jovem | Congresso OPP/FIAP:

https://abstracts.ordemdospsicologos.pt/pt/

Inscrições Congresso OPP/FIAP: https://congresso.ordemdospsicologos.pt/bilhetes-2024/

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A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso (Ao redor…; 28.02.2024)

Dois dos elos que unem a maioria dos desafios societais mais significativos do nosso tempo são a desigualdade e a forma como da diversidade não resulta apenas curiosidade, espanto e interesse, mas, também, e de certa forma com crescente intensidade, medo, tensão e ódio. Isto mesmo quando cada um/a de nós tem certamente uma ou mais pessoas ao nosso redor que, por algum motivo, se destacam e diferenciam, muitas vezes a partir do desenvolvimento de um interesse específico. Recuemos dois séculos e a um exemplo.

Pouco sabemos do grupo de pares de infância de Hans Christian Anderson, escritor cuja obra, particularmente a relativa aos contos e fábulas que nos deixou, foi e é tão marcante e relevante para tantas crianças e jovens. Sabemos, no entanto, que nasceu no início do século XIX, num lugar hoje parte da Dinamarca e que o seu pai, sapateiro de profissão, morreu quando tinha apenas 11 anos. Sabemos, também, que apesar disso, nesses anos de vida conjunta, ele impactou a vida do seu filho, talvez decisivamente, ao fomentar a sua imaginação e criatividade, principalmente pela leitura de contos e histórias (entre as quais as “Mil e uma noites”) e pela dramatização, a partir de um teatro de marionetas que construiu para ele.

Podemos questionar-nos sobre o impacto transformador que esta experiência de Hans Christian Anderson teve no desenvolvimento dos seus interesses e na decisão de, aos 14 anos e quando trabalhava como aprendiz de tecelão, mudar-se para Copenhaga perseguindo do sonho de ser actor e integrando o Teatro Real e daí caminhado para a literatura e, particularmente, para as histórias infantis e juvenis. Podemos pensar sobre o impacto transformador de determinados estímulos e experiências na primeira infância e, hoje e para o futuro, sobre a importância de diminuir a arbitrariedade dos mesmos, garantindo acesso a todos os bebés e crianças a estímulos positivos e respostas diferenciadas na educação ou saúde e, depois, ao longo da vida, no acesso a suporte face a necessidades específicas ou na adaptação a circunstâncias e acontecimentos de vida.

Podemos pensar, diria, o papel desta história na reflexão que o levou a escrever, em 1837, o conto “A Nova Roupa do Rei” ou “O Rei vai Nu”, conforme é conhecido em alguns países, incluindo Portugal. Nele duas pessoas enganam o Rei vendendo uma roupa com a suposta extraordinária característica de ser invisível para pessoas, digamos, pouco inteligentes, passando o Rei, ao não assumir que não via a roupa que não existia, a “vesti-la” e as e os seus próximos a “apreciá-la” até uma criança gritar ao Rei que vai nu. Hans Christian Anderson sentia-o no percebia à sua volta. Cada um/a de nós sente-o, hoje, face a alguns programas e serviços públicos que, existindo, na prática não resultam numa resposta adequada, atempada e capacitada. Numa resposta eficiente e eficaz. Programas e serviços em que, muitas vezes, o acesso faz de “roupa do Rei”.

Quando, gerindo listas de espera, se agenda uma primeira consulta de psicologia mas, num processo que necessita de um acompanhamento próximo, a segunda sessão decorre apenas seis meses depois. Quando uma Mulher inicia um processo de interrupção voluntária da gravidez, mas encontra obstáculos a que ele possa decorrer no período previsto e/ou em serviços próximos e a si acessíveis. Quanto alguém sofre um acidente com consequências na sua mobilidade e inicia um processo de reabilitação numa instituição de saúde que finda sem acautelar a transição para a sua habitação, impreparada do ponto de vista da estrutura, e para a necessidade de enfrentar as rotinas de forma autónoma. Quando um bebé ou criança e uma família beneficiariam de um acompanhamento próximo pela equipa de intervenção precoce, mas esta não tem os recursos especializados necessários ao acompanhamento e capacitação da família para apoio ao desenvolvimento do bebé ou criança. Ou mesmo, quando se procura (e bem) garantir o acesso a creche para todos, mas, simultaneamente, não se qualifica e investe na capacitação dos ambientes educativos e na qualidade das práticas nestes contextos. Quando isto acontece, pensar-se, apenas, o acesso é uma armadilha onde cai o debate e sobressalto público, guardando-se pouco espaço para se discutir além do acesso, a qualidade, eficiência e eficácia do serviço ou programa a que se acede.

Convido cada um/a de vós a pensar quanto ouviram reflectido na campanha para as Legislativas de 2024 o além do acesso aos serviços públicos. O além da produção, da evolução do número de actos, de quem os pratica ou pode praticar ou dos números de acesso. Quem ouviu falar da qualidade, do resultado e do impacto dos mesmos e da sua avaliação? Sendo fundamental o acesso e a quantidade, quem ouviu falar da qualidade e organização do serviço ou programa a que se acede e da forma como este pode melhorar, ser mais e mais consistentemente avaliado e servir melhor a promoção da saúde, da educação, do bem-estar e da coesão social?

A qualificação das práticas faz-se a partir de mais experimentação e avaliação, de mais integração do conhecimento científico das áreas específicas e da forma como as pessoas se comportam e tomam decisões e com profissionais empoderados, capacitados e comprometidos. A qualificação das práticas é fundamental à confiança e à melhoria das políticas públicas, sofrendo com a “armadilha do acesso”, ao mesmo tempo que a não qualificação resulta, por si, em maior necessidade e pressão no acesso. Aliás, este ciclo é mesmo fundamental às duas constantes que resultam dessa “armadilha”: a maior arbitrariedade e dependência da “sorte ou azar” de onde se nasce, vive e onde e a qual serviço/profissional se consegue aceder, algo que reforça as desigualdades e, em muito, contribui para a geracionalidade das situações de pobreza; a maior vulnerabilidade de quem, por motivos biológicos, sociais ou ambos, nasce e vive com especificidades face aos “grandes grupos” e às “maiorias”, necessitando de empatia, apoio, suporte e respostas específicas e personalizadas para a sua situação e contingência específica.

 

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, responder aos desafios que enfrentamos também depende de sermos capazes de, enquanto país, crescer e nos desenvolvermos, ao mesmo tempo que reduzimos disparidades e desigualdades. Harold Lasswell publicou um importante livro sobre ciência política cuja título nos confrontava: “Políticas: Quem recebe o quê, quando e como?” Acrescentemos ao recebe, acede. Quem acede a quê, quando e como? Porque não são apenas fundamentais a disponibilidade e o acesso. Também é fundamental a qualidade, organização e eficácia dos serviços e respostas a que se acede para responder aos anseios e expectativas das pessoas, para a garantia de maior equidade e para a redução das disparidades e desigualdades. Porque a qualidade é garantia de mais bem-estar para todas e todos, de mais coesão social e, através dela, para a redução da tensão social existente na sociedade contemporânea.

 

Tiago Pereira

A qualidade e organização dos serviços públicos e a armadilha do acesso

in Sábado (Ao redor…); 28.02.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-qualidade-e-organizacao-dos-servicos-publicos-e-a-armadilha-do-acesso

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A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal

“Mas, mais do que estas coincidências, queria reflectir sobre três temas superiormente tratados por Roth no “Conspiração contra a América” e profundamente actuais e decisivos em Portugal: a complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a”. Assim começo, depois de assinar que Roth nasceu no dia do referendo constitucional que em Portugal “validou a constituição de 1933 e institucionalizou o Estado Novo” e que Charles Lindberg, figura chave do livro, tem um monumento em Valença que assinala uma amaragem forçada que fez no Rio Minho também em 1933.

“A complacência, o efeito decremental e o papel de cada um/a até à próxima e às próximas eleições em Portugal”, 76º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) pensa sobre “como compactuarmos e sermos complacentes, particularmente em momentos de crise, divisão e polarização, negando, justificando ou desconsiderando propostas, sinais e comportamentos anti-democráticos, autoritaristas ou anti-direitos humanos, pode resultar em ameaças sérias ao bem-comum.”

Descreve “como ao contrário do que podemos por vezes pensar, as ameaças constroem-se muito antes dos dias das votações, num processo decremental, de enfraquecimento das instituições democráticas, da confiança e dos valores, que decorre capilarmente na sociedade. Rua-a-rua, em conversas e reuniões, normalmente primeiro privadas, depois em conversas e debate públicos com laivos de bizarrice e estranheza, para, em seguida, serem legitimados, normalizados e naturalizados, mesmo por quem os considerava impróprios porque, tendo entrado na ordem do dia social e política, são fundamentais às audiências, ao debate de determinados temas ou a determinadas estratégias políticas.”

Portanto, como “todas e todos temos nesse processo um papel, sendo-nos exigida uma posição activa de não aceitação, de não complacência e de acção para preservação e defesa do bem-comum, chave para o bem-estar individual e colectivo presente e futuro.”

Termino mencionando os impactos potenciais destas questões na aspiração do país e Mundo à “equidade, justiça social e desenvolvimento sustentável”, defendendo que “o momento que vivemos implica que nos tornemos activistas do ideário democrático, de paz e de direitos humanos. Que, como R. Reich recentemente escreveu, “não sucumbamos à complacência e ao cinismo”, que confrontemos “as mentiras e falsidades com verdades e factos”, que não aceitemos “a intolerância e o ódio”, que sejamos “compassivos” com as pessoas que apoiam ideias contrárias a este ideário, mas “firmes na sua oposição”. Que não nos “distraiamos com histórias sensacionalistas” sobre as pessoas “providenciais” de cada país e, essencialmente, não esqueçamos que a “acção é mais que a manifestação”.

Uma “acção fundamental e quotidiana de cada um/a, junto das pessoas ao nosso redor, da nossa família, amigos e colegas de trabalho ou grupo. Nas conversas privadas e públicas. Nos debates, quaisquer que sejam. Acção firme, combativa, construtiva e com propósito.”

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (Ao redor…; 30.01.2024)

Estou a ler um livro cuja epígrafe é dedicada “aos professores de humanidades, que, seguindo os passos de Ulisses, nos protegem dos lotófagos e do esquecimento”. A ilha dos “lotófagos” é uma construção de Homero acerca de um povo que, ingerindo a flor de lótus, viveria em permanente estado de amnésia induzida, mas, simultaneamente e por via desse estado, sempre com possibilidade de “começar de novo”. Uso parte dessa epígrafe para a epígrafe do artigo: que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência dos Hospitais do Serviço Nacional de Saúde (SNS).

As sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus Serviços de Urgência, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes – decisoras/es políticos, gestoras/es, profissionais, entidades parceiras e utentes. Fazê-lo e assumirem-se os sucessos, mas, também, os naturais erros e falhas destes processos para, em consequência, se melhorar, progressiva e incrementalmente, adaptando e aproximando os Serviços às necessidades e expectativas das pessoas e potenciado a sua articulação eficiente e eficaz com os diversos níveis do sistema.

Escrevia o Francisco Mendes da Silva, há dias, num artigo sobre imigração em Portugal – mas, acrescento eu, podia dizer sobre os Serviços de Urgência – que não existe um debate, antes “uma simulação de debate. Uma vozearia desordenada, uma espécie de ruído branco provocado por gente que trata o tema a partir de conclusões, não de premissas”. Conclusões lotófagas, quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência disponível, sempre influenciadas por casos específicos, desde as dificuldades de resposta sazonais ou picos de crise, a casos trágicos e/ou mediáticos. Conclusões pautadas por uma espécie de amnésia sobre as causas que aprofundam os problemas, causas que, em grande medida, em Portugal e em parte significativa do Mundo com o qual para estes fins nos procuramos comparar, apenas têm piorado (falta de profissionais de saúde, particularmente de médicas e médicos e de valorização dos profissionais existentes, por exemplo) e piorarão com o passar dos anos (envelhecimento da população e carga de doença/medicação, maior complexidade das doenças, …).

Estas conclusões são ainda pautadas pelo esquecimento do fundamental do que há a fazer, do quão existe conhecimento e qualificação no país para o fazer e confiança dos cidadãos no SNS que, apesar de todas as situações menos positivas dos últimos anos, continua a ser um serviço que no quadro dos países da OCDE é avaliado pelos portugueses como mais positivo do que a avaliação média dos cidadãos dos países da OCDE face aos seus serviços de saúde públicos. Como acima escrevi, Homero atribuía aos lotófagos esta esperança, sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.

O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos. Como qualquer processo desta natureza, beneficia de debate público e de contributos, particularmente os que resultem da experiência de quem dia-a-dia enfrenta os desafios que se colocam, hoje, aos Serviços de Urgência. Beneficia da melhor evidência disponível e da observação e reflexão de diferentes experiências, desde as que demonstram resultados às que os não demonstraram. Necessita, pois, de ser faseado e particularizado, em virtude não apenas da importância da experimentação, mas, particularmente, do quão diferentes são as realidades de necessidades e recursos de Hospital para Hospital e de região para região.

Processo que pode e deve ser suportado na utilização das transformações em curso como estímulo e não obstáctulo. Dos investimentos na digitalização na área da saúde, previstos no PRR, ao potencial da inteligência artificial e dos avanços na realidade virtual e aumentada, passando pela nova organização da Direcção Executiva do SNS, pelos níveis crescentes de literacia da população e, até, apesar dos riscos da desinformação e desconfiança na ciência e instituições, dos elevados níveis de vacinação da população e de adesão a comportamentos pró-saúde se promovidos pelas autoridades.

Nesta transformação há espaço para o contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos. Desde logo, para uma melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza, incluindo em situações que, como se esperam, irão implicar o deslocamento de utentes e acompanhantes para outras unidades de saúde e/ou momentos de atendimento. Também, no necessário reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis. Ainda na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no Serviço de Urgência, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo, fundamentais a uma melhor gestão de expectativas, estabilidade e bem-estar especialmente em momentos particularmente sensíveis.

Noutro prisma, a integração de psicólogas/os nas equipas das urgências resulta num melhor apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais. Resulta, também e em equipa multidisciplinar, num contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas. Parte destes contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do Serviço de Urgência, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é imprescindível tornar urgente a reestruturação dos Serviços de Urgência em Portugal, país com maior número de episódios de urgência anuais per capita da OCDE, onde mais de 40% desses episódios são classificados como não urgentes e onde essas urgências não têm permitido a urgência dessa transformação. Como é imprescindível que esta reestruturação parta da compreensão dos factores psicológicos, comportamentais e organizacionais que determinam os indicadores anteriores e seja capaz de alterar os estímulos e obstáculos que se colocam às mudanças, também pela facilitação e melhoria do acesso e da equidade de acesso às verdadeiras portas de entrada de maior proximidade do sistema – o SNS24 e os cuidados de saúde primários. Para todo este processo, todas as pessoas e profissionais são relevantes e devem (poder) assumir os seus papéis e disponibilizar os seus contributos, incluindo as psicólogas e psicólogos e a ciência que ajudam a produzir, que tanto informa sobre como decidimos e nos comportamos.

 

Tiago Pereira

Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

in Sábado (Ao redor…); 30.01.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/como-tornar-urgente-o-que-as-urgencias-nao-permitem-ser-urgente-nos-servicos-de-urgencia

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Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência

“Que Ulisses nos proteja dos lotófagos e do esquecimento, permitindo que se torne urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência (SU) dos Hospitais do SNS”, passagem que, baseada na epígrafe do livro que me encontro a ler, escolhi para epígrafe do…

“Como tornar urgente o que as urgências não permitem ser urgente nos Serviços de Urgência”, 75º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) que reflecte como “as sucessivas “urgências” no SNS e, mais especificamente, nos seus SU, não têm permitido, há anos, que a urgente modernização e reestruturação do seu modelo e valorização dos seus profissionais possa ser planeada, implementada e avaliada, com a participação e contributo das diferentes áreas e intervenientes.”

Explicando porque entendo que esquecimentos e conclusões “lotófagas”, “quase sempre assentes numa ideia preconcebida, não raramente ideológicas e pouco suportadas na melhor evidência e sempre influenciadas por casos específicos” não o permitem. Mas na “ilha dos lotófagos” de Homero, além da amnésia auto-induzida, existia esperança, “sob a forma de uma eterna possibilidade de começar de novo.”

“O processo de reforma em curso, baseado na portaria “Resposta de proximidade às necessidades assistenciais em situação de urgência”, recentemente em consulta pública, representa uma nova esperança e oportunidade de mudança e melhoria. Como qualquer processo desta natureza, onde qualquer um/a de nós alteraria, retiraria e acrescentaria elementos” (…), beneficia (entre outros, detalhados no artigo) da observação e reflexão de diferentes experiências e das transformações em curso na área da saúde, nomeadamente da digitalização e de outros avanços tecnológicos.

Beneficia, ainda, do contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos:

  1. Para melhor organização, compreensão, comunicação e avaliação do sistema, envolvendo quem o utiliza;
  2. No reforço da promoção da literacia em saúde, elemento fulcral à prevenção e promoção de saúde, ao auto e heterocuidado e à melhor utilização dos serviços e recursos disponíveis;
  3. na definição de percursos e comunicação do que deve esperar a/o utente e acompanhante/s no SU, promovendo-se previsibilidade, segurança e percepção de controlo;
  4. no apoio à gestão de situações de dor, stresse ou ansiedade agudas, de crise, emergência ou sofrimento intenso e na garantia de suporte emocional a utentes, acompanhantes e, em algumas situações, aos próprios profissionais;
  5. no contributo para processos mais eficazes e personalizados de comunicação de informações clínicas e/ou de más notícias, considerando os impactos emocionais das mesmas.

“Parte destes (importantes) contributos pode ser observado in loco no Hospital de São João onde, desde 2021 e com a integração de um/a psicóloga/o na equipa do SU, tem sido desenvolvido um projecto, amplamente reconhecido como uma prática relevante e com impactos positivos.”