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COVID-19 Desafios da Psicologia

Burke, hoje…

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la.”

Esta “mundividente” frase de Edmund Burke (sec. XVIII), ganha actualidade a cada dia e a cada acontecimento. É uma frase “moderna” do pioneiro no “conservadorismo moderno” e é uma frase que ganhou ontem relevo no espaço público português ao ser referida pelo Presidente da República na declaração ao país pós aprovação do diploma de renovação do estado de emergência pela Assembleia da República.

Frase referida enquanto âncora de reforço para alguma “contenção” sobre o início do fim do segundo dever de recolhimento obrigatório que deriva da história, reflexão e aprendizagem dos últimos meses relativa à evolução da pandemia mas que poderia (e deveria) ser lida, de forma mais abrangente, nos seus impactos mais amplos e na recuperação (das pessoas e do país) e preparação (das pessoas e do país) para futuros desafios e crises. Recuperação e preparação que não pode desconsiderar a saúde psicológica das pessoas.

Sobre isto reflectirei ao final da tarde de hoje num webinar da Editora PACTOR (“Pandemia 2.0 | Como enfrentar o segundo ano”) com participações de Sandra Correia, Bento Rodrigues, Mauro Paulino, Mauro Sousa Vicente e Luís Rocha Graça.

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Psicologia

Nós e os nossos Mundos (Sábado; Ao redor…; 24.02.2021)

Ao redor…

Foi este o título que escolhi para o espaço quinzenal que a partir de hoje assumirei na Revista Sábado. Este primeiro texto – “Nós e os nossos Mundos” – procura apresentá-lo enquanto espaço de pensamento e reflexão do nosso redor e da forma como ele nos influencia e como o influenciamos… Como nos desenvolvemos, adaptamos, diversificamos, tornando-nos pessoas mais únicas… Como moldamos a narrativa e como a narrativa nos molda… Como a psicologia apoia a sua explicação, compreensão e intervém (e pode intervir) no “nosso Mundo” e nos “Mundos ao nosso redor”.

Porque… “Aqui e ali, no Mundo, há em cada momento, em cada desafio, em cada crise ou realização, pessoas a interagir com o seu redor, sendo por ele impactadas e determinando-o. Pensemos neste espaço o que nos rodeia, singelo contributo para refletirmos como juntas/os podemos, a cada dia, ser mais resilientes e parte de uma sociedade mais coesa.”

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COVID-19 Ordem dos Psicólogos Portugueses

Plano de recuperação (e de resiliência?)

Partilho a reflexão de Sábado com a Marisa Caetano Antunes na SIC Notícias que tocou:

1) dificuldades e problemas de saúde psicológica e mental actuais da população (e de grupos específicos) decorrentes (não apenas) da crise de saúde pública e sócio-económica;

2) 70000 atendimentos do serviço de aconselhamento psicológico (SNS24) sinal da sua premência e de que as pessoas, quando têm acesso, procuram ajuda. Resposta porém incompleta porque, suportando a gestão de emoções, é como uma rotunda com diversas saídas (auto-cuidado, emergência) com uma fundamental encerrada pela insuficiência de psicólogas/os nos cuidados de saúde primários (CSP) para intervenções continuadas quando necessárias;

3) (não)investimento na saúde mental (bem-estar e existência de competências/recursos para a adaptação a acontecimentos e se cumprirem propósitos de vida – não apenas ausência de doença mental) expresso em a) o caricato da Ministra da Saúde referir que parte do atraso do concurso de 40 psicólogas/os para os CSP (existem apenas 250) que decorre há 30 meses se dever à pandemia (o que teria que ocorrer para maior rapidez?); b) um plano de recuperação e resiliência que prevê (bem) verbas nesta área mas apenas para resposta à doença mental sendo, nesta área, de recuperação mas não de resiliência.

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COVID-19 Psicologia

Juntos…

Bill Gates afirmou ao Público que ao contrário da crise económica de 2008, em que o interesse pela crise climática desceu significativamente, com a COVID-19 isso não sucedeu. Creio até que a necessidade de resposta global à actual crise, assente na dependência epistémica e na confiança, poderá reforçar a resposta do Mundo aos desafios das próximas gerações (crise climática mas também iniquidades ou migrações).

Quando em 2018 a American Psychological Association comemorava o 125º aniversário, acompanhei durante 10 dias o seu trabalho “por dentro”.

Conheci uma associação referência com quem a Ordem dos Psicólogos Portugueses organizou em 2019 uma Summit que em Lisboa reuniu 50 associações representativas de 1 milhão de psicólogas/os dos 5 continentes para discutir contributos da ciência psicológica na crise climática. Nela Marcelo Rebelo de Sousa apelou ao reforço do trabalho colaborativo que nesta rede global continua, hoje centrado na pandemia.

Advogo a ciência psicológica e as/os psicólogas/os como fundamentais aos desafios societais complexos e que estes não se podem solucionar apenas em Portugal ou com a ciência por cá produzida, antes que todas/os beneficiamos do reforço da colaboração internacional (também na Psicologia) com vista a um Mundo mais coeso e com mais bem-estar.

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Comportamento COVID-19 Psicologia

Pecado?

Pecado? “It´s a Sin”, série que retrata os anos 80 de uma Londres a “lidar” com um vírus (HIV) e uma doença (SIDA) ainda bastante desconhecidos e muito assentes em preconceitos por “associados” e por impactarem significativamente a comunidade masculina homo e bissexual.

A série reflecte, bem a meu ver, as suas graves consequências de saúde pública – de saúde individual; de “violência auto-infligida” pela vivência da doença como consequência (castigo) dos seus actos; de “violência hetero-infligida” de quem nela validava preconceitos e ideias/crenças face à diversidade (orientação sexual mas não apenas).

Sempre foi e é assim. Humanas/os que somos, tendemos a procurar no que nos rodeia (informação e experiência) o que possa confirmar aquilo em que acreditamos, particularmente em matérias que nos “confrontam”.

Assim foi com a ideia de incumprimento pelos cidadãos das medidas neste 2º dever de recolhimento obrigatório que trespassou no debate público, mote para o diálogo da passada semana com a Carla Rocha (parceria RR/OPP) que partilho e que tocou ainda o que hoje difere e, particularmente, a importância e o retorno de olharmos/atendermos a quem nos rodeia, particularmente às/aos de nós mais vulneráveis e mais expostos à pandemia e às suas diversas consequências.

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COVID-19 Psicologia

Da confiança…

“Savons-Nous encore faire confiance?”, capa da Courrier Francesa de 8.7. Confiança “força que permite lidar com a incerteza e que une sociedades fragmentadas” (Jaure) e elemento-chave na coesão (social) e resposta (conjunta) a desafios marcados pela incerteza e pela necessidade de inter-dependência.

Hoje o jornalista António Jorge (Antena 1) perguntou-me no diálogo que aqui partilho, se à maior consciência dos factos (mais tempo de “confinamento”) corresponderia “um problema para as pessoas”. Oportunidade para, ao contrário, frisar a importância da previsibilidade e do controlo e reforçar o papel da confiança em tempos de incerteza. Confiança que deve perpassar toda a sociedade e assentar em decisões e numa comunicação clara, positiva e personalizada, baseadas na evidência (também da ciência comportamental e dos obstáculos/intenções para adesão/manutenção de comportamentos e efectividade da comunicação, insuficientemente recolhida em PT) e na legitimação/adequação das medidas ao cansaço e estado psicológico da população.

Porque, não esqueçamos, o comportamento é essencial numa pandemia e só é compreendido quando consideradas as dimensões cognitivas (o que pensamos) e emocionais (o que sentimos) que o determinam. Porque, o propósito (do esforço) é indispensável e assenta em informação e em confiança.

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COVID-19 Democracia Psicologia

Confiança e “Breaking Point”

O cartaz “Breaking Point” projectado por Farage na campanha pelo Brexit foi particularmente mediático por utilizar uma imagem da fronteira Croácia-Eslovénia (não do UK), pelas reminiscências da propaganda Alemã dos anos 30 e por trazer “violentamente” à campanha pelo “Leave” a ideia de ruptura pela perda da confiança (“a União Europeia falhou-nos a todos” era o seu subtítulo).

A ruptura associa-se muito à polarização, característica hoje relevante na sociedade volátil e ambígua que construímos, onde nem sempre claramente se distinguem factos de opiniões (também pelo papel das redes sociais) e onde se diminuiu o papel das/os mediadoras/es, também pela perda de confiança.

Nos grandes desafios societais (a pandemia como a crise climática) são essenciais respostas concertadas dos diferentes intervenientes (cidadãos, decisores, cientistas, jornalistas) ligados pela dependência epistémica (dependemos do saber dos outros, como Hardwig definiu) e pela confiança.

Confiança (ou crise de) que explica parte do que vivemos agora no nosso país face à pandemia e que, pelo seu papel, importa estudar e reflectir. Peço-vos, assim, 5m do vosso tempo para responderem à “2ª fase” deste pequeno inquérito: https://lnkd.in/eX4Sahx

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COVID-19 Desafios da Psicologia Política Psicologia

Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?

Na última semana assistiu-se à crescente generalização no espaço público da ideia de que as pessoas não aderiram às últimas medidas restritivas decididas e implementadas pelo Governo. “A generalidade dos portugueses”, a “maioria dos portugueses” não o fez disseram-nos decisores e meios de comunicação social, suportando-se em dados de mobilidade comparados ao primeiro dever de recolhimento obrigatório decretado em Março de 2020. Ora, creio que não é correcto afirmar que a maioria não cumpre – a maioria fá-lo e fá-lo há muitos meses com enorme sacrifício e com sentido de responsabilidade individual e colectivo – como não é correcto suportar essas afirmações em dados de mobilidade comparada em períodos com medidas distintas (desde logo as Escolas ainda abertas nesse momento) e com conhecimento e protecção disponível face a propagação do vírus distintos (por exemplo, a utilização de máscaras e a adequação de alguns espaços públicos).

Mas, não sendo a maioria incumpridora, como vem sendo afirmado, é hoje evidente que existem neste segundo período de dever de recolhimento obrigatório mais barreiras à adesão voluntária às medidas e mais comportamentos inadequados involuntários por parte da população, o que faz com que mais pessoas possam incumprir as restrições decretadas, colocando-se a si e a outras/os em maior risco de contágio, somando mais casos (e com eles mais risco) a um sistema já tragicamente pressionado.

Creio existirem cinco condições distintas, agora, face a Março de 2020, que nos ajudam a compreender esta maior dificuldade na adesão e que, se forem tidas em consideração na acção, na decisão de medidas de Saúde Pública e na comunicação, podem surtir efeito imediato e garantir mais condições para o seu cumprimento e sucesso.

1.     Vulnerabilidade emocional e psicológica da população: Portugal era pré-pandemia um dos países da Europa que apresentava maior prevalência de dificuldades e problemas de Saúde Psicológica, sobretudo porque aos ainda baixos níveis de educação, de competências sócio-emocionais e de literacia em Saúde (Psicológica), acresciam os elevados índices de precariedade, pobreza e exclusão, de isolamento e solidão e as significativas iniquidades e inacessibilidades a serviços de Psicologia e Saúde Mental. Com excepção da literacia, estaremos hoje pior em todos estes aspectos. Quem já tinha problemas de Saúde Psicológica (ansiedade, depressão, stresse, …) estará hoje numa situação mais exigente e agudizaram-se as situações de vulnerabilidade emocional decorrentes desta circunstância desafiante, de imprevisibilidade e de incerteza, do aumento do isolamento, da solidão, da precariedade e desemprego, da pobreza e da exclusão.

Tendo crescido o apoio psicológico disponível (Linha de aconselhamento psicológico do SNS24 e Escolas, por exemplo), esse crescimento foi claramente insuficiente face ao incremento e exigência das necessidades.  Na verdade, foi praticamente inexistente onde poderia ser mais determinante – nos cuidados de saúde primários. Sendo Portugal um país que investiu importantes recursos na formação de 24.000 psicólogas/os, não nos podemos conformar que, 10 meses volvidos da mais grave crise vivida nas últimas largas décadas em Portugal, continuem apenas a existir cerca de 250 psicólogas/os para todas as unidades em Portugal continental, 2,5 por cada 100.000 habitantes.

Todas/os compreendemos que as questões emocionais afectam o nosso comportamento, pela forma como condicionam e determinam as nossas tomadas de decisão e a nossa capacidade de auto-regulação. Por isso as autoridades, em todo o tempo da pandemia, mantiveram sempre restrições específicas a cerimónias fúnebres e a eventos desportivos como o futebol (apenas para dar dois exemplos) em que resta claro que as questões emocionais distintas associadas a estes dois momentos poderiam condicionar a adopção de comportamentos de protecção. Urge, portanto, reforçar o apoio psicológico e social disponibilizado à população, particularmente a quem vive com um problema psicológico ou tem maiores vulnerabilidades. Urge, também, que as medidas decididas e a decidir tenham em consideração o estado emocional e psicológico da população.

2.     Fadiga da Pandemia. A Organização Mundial de Saúde alertou, já em Outubro passado, que 60% da população Europeia sentia fadiga pandémica. Todas/os o compreendemos, estamos há demasiados meses hiper vigilantes, coartados da nossa espontaneidade (e até liberdade), cognitivamente e emocionalmente activados. Estamos cansados e, cansados que estamos, cometemos mais erros: tal como cometemos mais erros no nosso trabalho, estudo ou cuidado aos nossos filhos e pais quando estamos mais cansados, também relativamente à pandemia, cometemos agora mais erros nos comportamentos que adoptamos. Devemos aceitar esta situação e agir em conformidade, apoiando a população na adesão às medidas. Simplificando-as e facilitando o seu cumprimento, por exemplo, permitindo que as pessoas mantenham a possibilidade de andar ou correr (a actividade física é fundamental à manutenção do bem-estar neste momento e esta saída de casa para muitas pessoas é o último reduto de tempo e espaço só para si) mas encerrando espaços propícios a maiores concentrações e sinalizando (com fitas, por exemplo) a impossibilidade de permanência em bancos de jardim e outro mobiliário urbano, algo que não aconteceu no primeiro fim de semana e dias sucessivos deste período. Estimulando o cumprimento de distâncias físicas, por exemplo organizando, com sinalética, filas de espera, algo que foi fundamental no Domingo passado a percepção de segurança relatada pela maioria das/os eleitoras/es que votaram no passado Domingo face aos locais de voto.

3.     Medo e Percepção de Risco. O medo, que apesar do peso da palavra, tem o papel positivo de nos alertar, inquietar e activar para comportamentos de protecção, teve uma função importante no comportamento da população em Março de 2020. Explicou, em parte, o porquê do isolamento a que assistimos ter até antecedido a imposição de restrições do primeiro estado de emergência. Numa pandemia, o medo oscila (não diminui apenas como pareceu assumir-se) e nas últimas semanas, semanas (não dias) responsáveis pelos trágicos números com os quais hoje estamos confrontados, ele não cumpriu esse papel da mesma forma. Tendeu a cumprir, no entanto e ainda que não com a mesma intensidade, nos últimos dias ao sabor da gravidade da situação e de uma cada vez maior proximidade da doença e dos seus impactos nos núcleos familiares. Dias em que, fechassem ou não as Escolas, veríamos pais e famílias a “fechá-las aos seus filhos e educandas/os”, regressando a tensão associada ao “não controlo” da situação (antes pelo desconhecimento, agora pela possibilidade de ruptura de resposta do sistema de Saúde).

Medo que se relaciona com a percepção de risco (de contágio) que, porque subjectivamente definida, é tão fulcral numa pandemia que vive de comportamentos. Tal como quanto mais testarmos, mais identificamos o vírus (e podemos actuar), quanto mais (e com maior qualidade) avaliarmos a percepção de risco da população, numa base diária e com amostras representativas da população e de grupos populacionais específicos, melhor poderemos prever o seu comportamento e comunicar e decidir de acordo com a percepção de risco existente. Hoje, mais que olhar para trás, importa definitivamente que comecemos a usar, diariamente, este importantíssimo indicador de Saúde Pública na comunicação e na decisão, conforme se utilizam os números e previsões de infecções e da capacidade existente no sistema. Mais tarde, quando vencermos este grave momento, haveremos de poder olhar o que correu mal e lá encontraremos os dados do barómetro COVID-19 da Escola Nacional de Saúde Pública que na última reunião do INFARMED foram publicamente disponibilizados e que indicam que as duas semanas dos últimos largos meses com menor percepção de risco de contágio da população foram, exactamente, as duas semanas do período do Natal e passagem de ano – semanas que pelas medidas adoptadas e pela maior mobilidade, ao invés de menor risco efectivo, tinham naturalmente maior risco efectivo. Ora, nem a comunicação feita permitiu aumentar a percepção de risco (e com ela levar a que mais pessoas adoptassem comportamentos de protecção), nem as medidas o tiveram em consideração, num claro ignorar do Governo deste importantíssimo indicador que também ajudará a explicar porque é que as pessoas naquele período ter-se-ão protegido menos e protegido menos os outros, conforme a situação epidemiológica e as medias implementadas implicariam. A percepção de risco é um indicador central na gestão da pandemia mas, incrivelmente, é a agulha no palheiro desta história triste. A avaliação da percepção de risco, grupo populacional a grupo populacional, tem definitivamente de ser de qualidade e ter uma base permanente (como a testagem), acompanhando taco a taco a decisão e a comunicação de medidas.

4.     Habituação e comunicação negativa. Embora não seja ilimitada, enquanto seres humanos temos uma enorme capacidade de adaptação ao contexto e à informação sendo possível habituar-nos ao extremo, vendo “bondade em agressores” (Síndrome de Estocolmo) ou naturalizando imagens e números de infectados e mortes que, embora em escalada, não sobressaltam por vezes ao nível do que sobressaltou o primeiro caso ou a primeira morte em Portugal. Rapidamente generalizamos excepções e naturalizamos fenómenos. Tendo isto presente é ainda mais difícil compreender como ao arrepio de toda a evidência científica que suporta que a comunicação negativa (culpabilizante – “não cumpriram o contrato de confiança” – e ilegitimadora do cansaço) não promove a adesão ao comportamento esperado, avançamos de uma comunicação (de decisores, sociedade e media) positiva, que enalteceu o esforço e o comportamento da população, que nos mostrava imagens de ruas desertas e reforçava o comportamento adequado com mobilizadores sociais envolvidos (artistas, jogadores de futebol, entre outros) para uma comunicação que nos apresenta como incumpridores, irresponsáveis, que sistematicamente mostra imagens de comportamentos potencialmente desadequados (jardins ou espaços públicos), sem o devido cuidado em separar quem está a ter um comportamento adequado (andar ou correr com as devidas precauções) de quem possa não estar a ter, tratando a parte pelo todo, generalizando e tornando norma o comportamento não adequado.

Mais, hoje não vemos os mobilizadores a apoiarem o esforço comunicacional e vemos ainda mais insuficiente personalização da comunicação para grupos específicos da população (por exemplos os adolescentes e jovens adultos) e grupos com vulnerabilidades específicas. É tão urgente quanto possível, que nos lembremos que somos os mesmos cidadãos de Março, com mais vulnerabilidades é certo, mas os mesmos, e que regressemos a uma comunicação pela positiva, validando as dificuldades e o esforço, salientando e voltando a tornar norma os comportamentos adequados, envolvendo mobilizadores sociais e personalizando as mensagens, utilizando todos os meios ao nosso dispor para conseguirmos chegar a cada pessoa, em cada momento, com a mensagem precisa que a ajude e estimule na adopção dos comportamentos pró-saúde e pró-sociais hoje tão necessários.

5.     Crise de confiança. Raras vezes na história vivemos um momento em que a polarização na sociedade e na política fosse tão significativa e impactante e em que o obscurantismo e a pós-verdade pusessem em causa a democrática diferença entre os factos e as opiniões. À boleia das autoestradas de partilha de informação e de confirmação de estereótipos, opiniões e crenças que são as redes sociais hoje, sem mediadores, é possível que opiniões questionem factos instando a desconfianças, descrenças e até teorias conspirativas pouco úteis a respostas concertadas a grandes desafios societais. É-o assim com a crise climática, com o racismo ou com as migrações. É-o assim com uma pandemia.

Um pouco por tudo o que atrás referi a confiança nos decisores, nos profissionais e até nos jornalistas tem decrescido com os meses de pandemia, abrindo mais espaço à multiplicação da desconfiança e da dúvida que, necessariamente, contribui para que hoje olhemos mais para fora de nós, buscando culpa nos outros (nas suas decisões, posições ou comportamentos) do que nos centrando em nós, confiando e fazendo o que está sob nosso controlo (além de comportamentos de protecção, o apoio a outras pessoas ou o cuidado na partilha de informação factual sobre a pandemia). Será decisivo nas próximas semanas voltarmos a um quadro de maior confiança, sendo para tal necessária mais clareza, transparência e honestidade na comunicação, reiterando que a dúvida e o erro são parte da decisão, até porque é tomada por seres humanos, também há muito expostos a uma pressão constante, mas tendo sempre presente acções (e apresentando-as) de melhoria contínua, actuando no sentido da prevenção de erros futuros.

Cinco factores condicionantes dos processos de tomada de decisão e dos comportamentos, fundamentais para compreender o momento que vivemos. Cinco condições que, se permanentemente avaliadas e consideradas no desenho e comunicação de medidas, podem produzir efeitos desde já.

Precisamos de uma atitude mais responsiva perante as/os portuguesas/es que contribua para o esforço que tantos profissionais da linha da frente fazem há meses e farão nas próximas (duríssimas) semanas que enfrentaremos, na esperança e com um propósito que também difere do primeiro isolamento de Março passado. Aí lutávamos para “achatar” a curva de um vírus e de uma doença que desconhecíamos, cuja vacina era uma miragem e com o intuito exclusivo de ganharmos tempo para nos prepararmos para segundas e terceiras ondas. Hoje, o propósito é lutarmos para resistir ao enorme desafio que enfrentamos, com a expectativa de nas próximas semanas chegarmos a um momento de crescente imunização da população, particularmente dos grupos mais vulneráveis com o processo de vacinação em curso (que soma à imunização “natural” que cresceu e crescerá significativamente). De chegarmos a um tempo em que, paulatinamente, recuperemos algum controlo, levantaremos algumas restrições e possamos estar fisicamente mais próximos uns dos outros, algo tão fundamental ao nosso bem-estar. A um tempo em que, também pela recuperação das pessoas, recuperaremos o país, o bem-estar e a coesão social.

Num contributo que julgo importante para o conseguirmos, respondo à pergunta que alguns colunistas e intervenientes no espaço público têm feito: Sim, existe conhecimento da ciência psicológica e das ciências comportamentais e sociais disponível. Sim, existem profissionais desta área empenhados, disponíveis e mobilizados. Porque não chamá-los até junto de si, senhor/a decisor/a?

Tiago Pereira

in Observador; 27.01.2021

Pessoas que não cumprem medidas ou medidas (e comunicação) que não cumprem as pessoas?

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COVID-19 Desafios da Psicologia

O urso habituou-se ao seu próprio cativeiro…

“O urso habituou-se ao seu próprio cativeiro.” É assim que na autobiografia Obama descreve o seu refugiar nos hotéis nas primárias democratas. As actividades sociais e os restaurantes de Tacos perdiam, pela impossibilidade da espontaneidade, para a pressão mediática, gerando a sua progressiva acomodação ao “cativeiro”.

Não sendo ilimitada, a nossa capacidade de adaptação é significativa (veja-se a síndrome de Estocolmo, exemplo limite). Ainda que seres sociais que somos, em determinadas condições (pessoais e sociais), podemos caminhar para o nosso “cativeiro”, rompendo laços e conexão com o que e com quem nos rodeia. Perdemos, literalmente, o hábito do contacto e enfraquecemos as nossas relações.

Vivemos há muito sem total espontaneidade nas actividades sociais e relações. Estamos disso cansados e corremos o risco de nos habituar a um certo “cativeiro”, algo que frontalmente deveremos combater. Intencionalizando o contacto, o cuidado e a conexão com outras/os, conforme nos é possível hoje. Contribuindo para que outras/os estejam um pouco melhor para todas/os, particularmente quando mais vulneráveis, termos quem o faça connosco. Fazer disso propósito e significado para o esforço que vimos fazendo.

Vamos ligar-nos, escrever-nos, enviar algo a alguém? Vou fazê-lo. Fazem-no também?

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COVID-19 Pobreza e Desigualdade Psicologia

Escola…

Li com o meu filho “O que vês dessa janela” – sobre a mudança da “antiga (aldeia da) Luz” para a “nova Luz”. Nele conta-se que, pós-mudança pela ausência de referência, os gatos se perdiam sendo encontrados nos quintais das suas antigas casas da antiga Luz.

A pandemia tocou os nossos referenciais. Muito à nossa volta mudou com múltiplas consequências. Os lugares, o trabalho e a educação que, pelo 2º ano terá ensino não presencial, um “mal menor” com impactos duradouros/significativos nas crianças/jovens (particularmente nas com maiores vulnerabilidades) e no país. Com a Escola “fechada” perdem-se referências. Perde-se qualidade de ensino e apoio especializado. Perde-se a oportunidade de alunas/os verem, aprenderem e empatizarem com outras/os. De partilharem dificuldades, capacidades e formas de resolver problemas. Perde-se diversidade de experiências e espaço de expressão emocional.

No livro diz-se que as pessoas atribuíam o comportamento dos gatos ao facto da “alma da Luz” ter ficado na antiga aldeia. Para que não nos percamos, façamos (cidadãos, decisores e media) tudo o que está ao nosso alcance para rapidamente recuperarmos referências.

Recuperarmos a Escola enquanto espaço de relação e encontro, de promoção de competências educativas, sócio-emocionais e de saúde psicológica