
O Mundo perdeu 950 mil pessoas em 2019 como consequência do vírus HIV que hoje afeta cerca de 40 milhões de indivíduos. O vírus resiste à célebre afirmação de Ronald Reagan em 1984 quando declarou que 2 anos depois existiria uma vacina e se controlaria a pandemia por ele provocada. Esta afirmação, quando olhada e pensada hoje, deve alertar-nos para a necessidade de sermos cautelosos na abordagem a uma pandemia, de procurarmos atuar (e decidir) de acordo com a melhor evidência disponível em cada momento e de utilizarmos o conhecimento e os profissionais no sentido de apoiarmos a população, particularmente as pessoas (e comunidades) com maiores vulnerabilidades e/ou mais expostas às suas consequências diretas e indiretas.
A ciência psicológica, enquanto ciência que estuda os processos psicológicos, o comportamento e a tomada de decisão, quer no que se refere aos fatores que os determinam, quer às suas consequências, é hoje uma ciência fulcral numa pandemia. É-o porque, transversal à sociedade, apoia a compreensão das dimensões cognitivas, emocionais e comportamentais das pessoas face ao que período que vivemos. É-o no conjunto das/os psicólogas/os, transversais aos diferentes contextos / idades de vida (presentes nas Escola, nos locais de trabalho, nas instituições de saúde, nas instituições sociais e comunitárias, no contexto desportivo ou nas estruturas residenciais para pessoas idosas), essenciais à promoção da literacia em saúde psicológica, à prevenção na área da saúde psicológica e à intervenção nos problemas de saúde psicológica / mental.
Foi com este referencial que a Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), procurando ser consequente na disponibilização do seu contributo público e social, atuou em 2020, trabalhando desde cedo (ainda antes do primeiro caso em Portugal) com a Direção Geral da Saúde na área da perceção de risco / crise e, internamente com a constituição de um gabinete de crise, garantindo condições para reforçar a colaboração com as autoridades (de saúde, de educação, do trabalho e segurança social…) e com decisores, disponibilizando conteúdos e conhecimento, contribuindo para a literacia da população e para a informação do debate público sobre temas relevantes, direta ou indiretamente, relacionados com a COVID-19 e as suas consequências. Em simultâneo, investiu na manutenção da resposta habitual às/aos psicólogas/os portuguesas/es, protegendo todas/os as/os trabalhadores e garantindo as melhores condições para o seu trabalho, assegurando a inexistência de quebras no serviço e nas suas atribuições e o reforço da disponibilização de ferramentas de apoio à prática psicológica e implementação de medidas extraordinárias de apoio e desenvolvimento das/os psicólogas/os, particularmente nas áreas da formação, desenvolvimento profissional e autocuidado.
A grave crise que vivemos tornou e torna claro que a necessidade da Psicologia e das/os psicólogas/os não começa na (psico)patologia. É hoje ainda mais evidente, e a OPP procurará continuar a investir nesta área, que promover e garantir maior literacia em saúde (e em saúde psicológica) é, além de importante, preventivo e promotor de maior autoconhecimento que, quando aliado a estratégias de desenvolvimento de competências, pode permitir às pessoas serem mais resilientes e a lidarem e adaptarem-se a acontecimentos de vida significativos (como são a perda de alguém ou uma situação de desemprego) e a momentos de crise, geradores de maior stresse ou ansiedade. A literacia permite ainda uma melhor identificação dos recursos que temos disponíveis, sejam eles internos (como o autocuidado) ou externos (como a família, os amigos ou profissionais), para ultrapassar adversidades e nos adaptarmos com sucesso a situações difíceis. Permite, não menos importante, um maior reconhecimento de quando a adversidade e o sofrimento dela resultante impacta no quotidiano e no dia a dia de forma significativa, permitindo a mobilização de recursos ou um pedido de ajuda profissional.
A grave crise que vivemos torna também claro que o Mundo hoje é mais incerto, e complexo e que a necessidade de adaptação à mudança será mais constante. Com ela a necessidade de promovermos (e desenvolvermos) recursos e competências, nomeadamente sócio-emocionais, que permitam maior autonomia e resiliência e facilitem os processos de adaptação, será essencial e uma área chave da investigação e da prática das/os psicólogas.
Finalmente, a grave crise que vivemos torna ainda clara a importância de, enquanto sociedade, diminuirmos o estigma associado às questões da saúde psicológica / mental, estigma que muitas vezes leva ao “esconder” e “desconsiderar” de problemas neste âmbito e, consequentemente, a um agravamento pelo não cuidado. Esta situação é particularmente relevante num país que pré-pandemia tinha já uma prevalência significativa de problemas neste âmbito e onde o acesso a serviços especializados, nomeadamente a psicólogas/os, contingentes ao problema e a partir dos diversos contextos de vida da pessoa é ainda claramente insuficiente, particularmente nos cuidados de saúde primários ou nos locais de trabalho, apenas para referir dois exemplos.
Nos próximos meses falaremos bastante de regresso, de recuperação. Nos próximos meses será fundamental que tenhamos presente que recuperar o país (a economia, a competitividade) dependerá muito do que fizermos e nas condições que possamos criar para recuperar as pessoas. É tempo de priorizar a saúde psicológica. É tempo de priorizar a prevenção e a promoção de competências e de resiliência nas pessoas e nas comunidades, respondendo a esta crise e preparando-nos para crises futuras. É tempo de priorizar as pessoas, o seu bem-estar e a coesão social.
Tiago Pereira
in Novas Fronteiras (JF Avenidas Novas, Lisboa); JAN.2021
Recordo-o ao sabor dos três “T” de uma explicação recente de W. Ischinger a F. Zakaria acerca das razões determinantes da cooperação – Trust (confiança); Truth (verdade); Transparency (transparência) – e da importância da cooperação na resposta aos grandes desafios societais actuais e futuros. Cooperação hoje essencial, entre ciência (profissionais), decisores e media, na resposta à pandemia. Cooperação amanhã essencial, entre decisores políticos, na resposta para a recuperação das pessoas e do país.




