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Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade?

“Estamos a falhar às pessoas em situação de maior vulnerabilidade quando as instituições, organizações e projectos da área social vivem, na generalidade, em situação de vulnerabilidade? Sim, estamos. Absolutamente.”

Assim começa o 68º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) publicado ontem, Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Nele reflicto sobre a necessidade de “políticas integradas, participadas, sustentadas e mobilizadoras” de combate à pobreza e de uma governação integrada capaz de “quebrar ciclos intergeracionais de pobreza e exclusão e os factores que os determinam”. Políticas, portanto, “nas áreas da educação e saúde, para redução de iniquidades e desigualdades, mas também na área social, quer nos apoios financeiros, quer na capacidade, qualidade e eficácia da intervenção social realizada pelas instituições, organizações e projectos sociais.”

Porém, em Portugal, “parte significativa da intervenção social e das próprias entidades que a promovem vive em situação de “precariedade”, fazendo com que a actuação e intervenção junto das pessoas em situação de maior vulnerabilidade seja, ela própria, contraditoriamente, muitas vezes vulnerável.”

“Num contexto de trabalho exposto a desafios particularmente significativos e de elevada complexidade e dificuldade, ao invés de termos profissionais mais reconhecidos e valorizados, com maior possibilidade de acesso a autocuidado, mais bem preparados e com formação ao longo da sua vida profissional que acompanhe a evolução da ciência temos, infelizmente e invariavelmente, uma realidade de muito baixos salários, de precariedade, de não investimento, de descontinuidade de trabalho, muitas vezes dependente de projectos, financiamentos e timings (…) Temos instituições e organizações, por vezes com instalações muito precárias, sem capacidade (ou vontade) de ter lideranças técnicas e profissionais empoderadas que não afectas apenas a determinada actividade/projecto e, por isso, com menos potencial de participação e relação com outras entidades e de promoção de oportunidades de transformação efectiva das práticas e maior integração do conhecimento e da evidência científica.”

“Instituições e equipas, depois, que navegam num contexto que estimula a reprodução e cristalização de práticas e princípios, onde a inovação, a experimentação e a transformação têm muita dificuldade em penetrar. Contexto onde vigora o princípio da desconfiança, conduzindo equipas técnicas a usar parte significativa do seu tempo (se não a maioria) a justificar e registar o que vão fazer, para o poderem fazer, e o que fizeram, para receberem, em reembolso, por vezes, as verbas por o terem feito.”

“Falharemos se não investirmos na erradicação da pobreza e na quebra dos seus ciclos intergeracionais. Falharemos se não dermos melhores condições às e aos profissionais e às instituições e organizações sociais para promoverem melhores práticas, mais avaliadas e mais baseadas na melhor evidência científica disponível.”

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10.10.2023

Anteontem assinalou-se mais um Dia Mundial da Saúde Mental. Desde 1992 assim é, a cada 10 de Outubro. Desde 1994, quando foi “a melhoria da qualidade de acesso de serviços de saúde mental em todo o Mundo”, com um tema em específico. Em 2023, a “Saúde Mental enquanto Direito Humano Universal”, mote cuja implicação da sua concretização procurei reflectir em detalhe em conversa com a Joana Almeida Carvalho, numa entrevista para a Manhã Informativa do Porto Canal neste Dia Mundial da Saúde Mental, que aqui partilho.

Nela foco três aspectos essenciais:

a) A necessidade de sermos consequentes com a ideia, hoje amplamente disseminada, que “não há saúde sem saúde mental”, procurando detalhar e exemplificar a forma como a saúde mental impacta e determina a saúde física e como a saúde física impacta e determina a saúde mental. Como, no fundo, se interligam, quais os factores que o justificam e que não pode existir prevenção e investimento em saúde sem investimento e promoção da saúde mental, algo explicitado e aprofundado no contributo científico intitulado “O impacto da saúde mental na saúde física – Custos económicos e intervenções psicológicas custo-efectivas”, publicado pela Ordem dos Psicólogos Portugueses nesse mesmo dia;

b) A importância de, ao considerarmos a saúde mental como direito humano universal, isso se reflectir em todas as políticas públicas e não apenas na área da saúde. Para o concretizar e, mais uma vez, exemplificar, abordei parte das 10 medidas propostas pela OPP a 6 diferentes Ministras/os nesta data: Saúde; Educação; Trabalho, Solidariedade e Segurança Social; Habitação; Ciência, Tecnologia e Ensino Superior; e Justiça.

c) O quão relevante seria (será?) se (quando?) este dia não for apenas um dia a cada ano… Antes que o anteontem seja também o ontem, o hoje, o amanhã e o depois de amanhã. 365 dias por ano, com tudo o que isso implica para a prevenção e promoção e para as pessoas que vivem com um problema de saúde mental, para as suas famílias e pessoas próximas, para a sociedade e para o seu desenvolvimento e para a sustentabilidade dos seus serviços.

No fundo, para a possibilidade de saúde e bem-estar de cada pessoa e para a resiliência das nossas comunidades. Para a coesão do nosso país.

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Companheirismo e Persistência

Hoje passam 56 anos do desaparecimento do psicólogo Gordon Allport. Em 70 anos de vida deixou uma importante obra que iniciou debates em áreas dispares como a personalidade, a maturidade, a motivação, a religião, os rumores ou a formação de preconceitos. Obra que incluiu um trabalho de campo na África do Sul, na década de 50 e em pleno apartheid, relativo à teoria/hipótese do contacto. Allport defendia que o contacto entre diferentes pessoas/grupos diminuiria preconceitos, ódio e o racismo entre pessoas e grupos. Faleceu em 1967 afirmando que essas suas ideias não tinham sido confirmadas, mas, além de pioneiras, a história da África do Sul e estudos mais actuais (de dados longitudinais) demonstram que, efectivamente, o contacto com pessoas diversas pode impactar neste sentido

“Companheirismo e Persistência”, 67º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) parte da “palavra alemã kameradschaft que descreve um sentimento de camaradagem. De companheirismo. Sentir profundamente humano, abundantemente partilhado entre as pessoas e com forte impacto no nosso comportamento e tomada de decisão” (…) que explica, melhor que a ideologia ou objectivos militares/políticos, a não dissidência e persistência na II Guerra Mundial das tropas Nazis, mesmo quando já perto da derrota.

Discute o conceito e a sua importância histórica (“as relações, a confiança, o companheirismo e o paradoxo da inexistência tão clara como gostaríamos de um “nós” e um “outras/os” foram fundamentais ao progresso”) e contemporânea, na mitigação da crescente polarização ou na prevenção da desinformação e do seu impacto na sociedade. Pensa-o, ainda, na relação com a persistência, “competência ao mesmo tempo fundamental (num Mundo em rápida mudança e de enorme complexidade e ambiguidade) e desafiada (por este Mundo, também pautado por hiper e diversa estimulação e pela procura de gratificações e sensações imediatas).”

Discuste como mais que a capacidade ou competência parece ser “o sentimento de pertença e a posição relativa face ao grupo próximo que estimulam ou obstaculizam a persistência”, por exemplo no que se refere ao insucesso e abandono no Ensino Superior, significativos em Portugal.

Propõe que “reflictamos sobre o impacto da competição no insucesso e abandono e o papel que a pertença e companheirismo devem assumir”, bem como serem “pessoas como nós que tomam decisões e agem (…) pessoas que necessitam do companheirismo para persistir e para, persistindo, aprender, mudar, não abandonar, resolver, florescer. Pessoas que fizeram, fazem e farão a nossa relação com o Mundo. Persistamos, com elas, pelo Mundo.”

 

Ps. Amanhã comemoremos o Dia Mundial da Saúde Mental. Dia também para ponderarmos, espero, como a diferença e a diversidade desenvolvem a sociedade e devem ser respeitadas e como a equidade e a redução das desigualdades estimulam o bem-estar e a coesão social. Como, no fundo, são essenciais à saúde e saúde mental de pessoas e comunidades.

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Psicologia

Morreste-me.

Não sei quando ouvi pela primeira vez um podcast. Certamente não terá sido há muitos anos, mas, como outras coisas que gostamos e/ou rotinamos, se não reflectir sobre isso, sinto como se tivessem sempre existido. Acompanham-me, muitas vezes, quando viajo, como com muitas e muito de vocês, imagino. Acompanham-me, quase sempre, em momentos de rotinas e em algumas actividades quotidianas. Acompanham-me porque gosto, porque me estimulam, porque me fazem companhia, porque, por vezes, me divertem.

Alguns dão-me oportunidade de ouvir, na primeira pessoa, pessoas com quem muito aprendo e descubro, que me inspiram, que admiro. Por vezes, também, pessoas com que nem sempre concordo, permitindo-me expandir os meus pontos de vista e pensar outras posições e visões que não a minha.

Recomendo podcasts, portanto. E podia recomendar vários que tratam a sociedade, a política, a história, a cultura, a saúde, incluindo a saúde mental, ou a psicologia. Alguns nacionais (desde logo os da @Ordem dos Psicólogos Portugueses), outros internacionais. Mas, hoje, recomendo um episódio específico de um podcast específico chamado “Geração 70”, produzido pelo @Expresso.

O podcast gira em torno de um conjunto de conversas entre duas pessoas nascidas nos anos 70, conversas muito bem dirigidas pelo @Bernardo Ferrão que, neste episódio específico, a tem com o José Luís Peixoto.

Trago-o porque, creio, permite uma viagem, a partir do presente, ao passado e à forma como este está sempre presente (diz o José Luís Peixoto, “Galveias [onde cresceu] está sempre comigo”). Trago-o porque aborda “a vontade que os [seus] pais tiveram que [estudasse]” e o quanto isso o mudou conforme, essa vontade, de outras/os pais como os meus, mudou tantas outras vidas, como a minha. Trago-o porque aborda o papel que a carrinha da Calouste Gulbenkian teve no seu gosto pela leitura, como teve no meu, primeiro, continuado depois pelo (vendedor do) Círculo de Leitores. Trago-o porque estou certo que partilho, consigo, parte deste património mas trago-o, essencialmente, porque contextualiza o “Morreste-me”, livro/conversa sua ao seu pai, após a morte precoce deste.

Livro que sei onde li (Amieira), quando li (2010) e porque li. Livro que trata esse passado, presente, porque “quem perde sabe que as pessoas que amamos ficam, ficam em tudo, ficam nas coisas em que tocaram, naquelas que construíram para nós, ficam nos locais por onde passámos juntos, as pessoas que amamos continuam a viver lado a lado com a gente…”, conforme escreveu José Luís Peixoto.

Sabe… Sei, sabemos.

Ouçamos as e os outros. Pensemos com eles e elas. Vivamos e construamos juntos.

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Psicoterapia na Torre de Babel

Há já uns anos li um fantástico livro de contos. Chama-se “Ficções” e reúne contos do Jorge Luis Borges, incluindo um que recordo (e recomendo) especialmente – “A biblioteca de Babel”. Joga com uma mistura entre literatura e vida que nele se confundem, a partir de uma representação de uma biblioteca infinita e o sentir do narrador, um dos bibliotecários, de que a biblioteca abarca toda ou todas as realidades possíveis.

Evoco o conto para vos convidar para a apresentação de um livro e para a sua leitura. Não porque abarque “toda ou todas as realidades possíveis”… Antes porque, agora através de uma forma de literatura (antes de conversas num podcast cujos links abaixo partilho), procura pensar realidades possíveis de intersecção entre a psicoterapia e outras actividades e áreas, potenciando o sentir de diferentes realidades e reflectir sobre a psicoterapia, a vida e o Mundo, hoje.

Trata-se da “Psicoterapia na Torre de Babel”, é coordenado pela Constança Biscaia e pelo David Dias Neto, com quem tive uma das conversas para o podcast associado ao livro (ver também link abaixo) e com quem escrevi um dos textos do livro: “Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis”.

Tem outros textos, porventura mais interessantes, de mais 13 autoras/es e será apresentado pelo Telmo Mourinho Baptista, director da colecção “Psicologia & Psicoterapia” das Edições Sílabo, onde é editado.

Deixo, portanto, este conjunto de recomendações e convites, à leitura, à presença e ao encontro. À dispersão pela Terra, qual pós-Torre de Babel, do papel potencial da psicoterapia na sociedade e do como influencia e é influenciada pela vida e pelo Mundo ao redor.

…

Podcast | A psicoterapia na Torre de Babel: https://podcasts.apple.com/pt/podcast/a-psicoterapia-na-torre-de-babel/id1593696093

Episódio | Psicoterapia, sociedade, poder e política: https://podcasts.apple.com/pt/podcast/psicoterapia-sociedade-poder-e-pol%C3%ADtica/id1593696093?i=1000543618940

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As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários (Ao redor…; 20.09.2023)

Domingo, 24 de Setembro de 2023, decorrem as Eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira. Abrem um ciclo que, mantendo-se o calendário previsto, nos levará à eleição da nova Assembleia da República daqui a 3 anos, com eleições ao Parlamento Europeu e Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (2024), Autárquicas (2025) e Presidenciais (2026) até lá. Num contexto de crise(s) permanente(s), de imprevisibilidade, incerteza e transições diversas, do clima ao digital; num Mundo pautado pela “quebra” de mediadores e da confiança, pela crescente polarização, tensão geopolítica e enfraquecimento das democracias, julgo fundamental, neste início de ciclo de eleições, pensarmos a representatividade e a abstenção eleitoral.

Partamos da evolução da participação eleitoral nas Eleições Legislativas em Portugal. Nas 17 eleições após 1975, apenas em três (1979, 2005 e 2022) a participação eleitoral subiu mais de um 1 ponto percentual face à eleição imediatamente anterior, tendo a abstenção subido de 8,5% em 1975 até 48,6% em 2022. Apesar de tudo, valor inferior ao máximo em Eleições Legislativas (51,4% em 2019) e no conjunto das Eleições, atingido nas Eleições Europeias também de 2019 (68,6%). Esta mudança, não exclusiva de Portugal, confronta-nos com um fenómeno com impacto profundo na sociedade, mas, também, com a necessidade de compreendermos o que o justifica se, com eficácia, quisermos co-construir e co-dinamizar acções necessárias à inversão deste caminho.

Compreendermos que abstermo-nos ou não resulta, não apenas da favorabilidade da data das eleições ou da facilidade de acesso às mesas de voto, embora estas a influenciem, mas também da conjugação de um conjunto de crenças, sentimentos e de atitudes com factores socioeconómicos. Ou seja, à descrença, ao não reconhecimento ou identificação com os processos, instituições e/ou candidatas/os, devemos somar dimensões como a pertença comunitária, o nível socioeconómico ou educativo (nos Estados Unidos) ou a idade (em Portugal). São, no seu conjunto, factores que influenciam os níveis de participação eleitoral e que, por um lado, reforçam o status quo e os grupos e características maioritárias das eleitas e eleitos, bem como a parte da população que, tendencialmente, mais beneficia das opções e políticas resultantes das eleições. Por outro, perpetuam a carência de representatividade que resulta desta desproporção, do desincentivo que dela decorre e do facto das pessoas que se sentem menos empoderadas, tenderem a sentir-se, simultaneamente, menos confiantes, menosprezarem as suas capacidades e, também por isso, participarem e envolverem-se menos.

Tendo presente estes dados, parece-me essencial concluir pela necessidade de três acções: investigar, em permanência, as causas e consequências da abstenção, considerando a sua importância e a necessidade da sua compreensão; usar do conhecimento científico para promover acções e incitativas de prevenção da abstenção e de promoção da participação eleitoral; promover o envolvimento e participação nos processos eleitorais de pessoas/comunidades sub-representadas.

Gostava de me centrar nos dois últimos pontos. Apensar dos desafios crescentes que atrás mencionei, há hoje um conjunto de evidência científica que pode ser mobilizada para, particularmente nas democracias e sociedades que promovem direitos, incluindo de participação, desenvolvermos acções concretas e avaliáveis conducentes a estes objectivos. Da utilização de nudges, “lembretes” personalizados ou a norma/”pressão” social. Do envolvimento de “influenciadoras” e “influenciadores” sociais e prevenção e combate à desinformação/fake news. Do aumento da acessibilidade e da facilidade e modalidades do processo de voto, incluindo soluções que usam ferramentas electrónicas, diferentes locais/datas ou diferentes línguas. Da procura de envolvimento em acções de cidadania e políticas de crianças e jovens, procurando interromper ciclos geracionais de afastamento da participação pública, à qualidade percebida das políticas públicas e, particularmente, das medidas e apoios sociais. Tudo caminhos importantes, com exemplos concretos, avaliados e facilmente evocáveis. Tudo caminhos, também porque possíveis, urgentes. Tudo caminhos, porém, que comportam o risco de se aumentar as iniquidades de participação eleitoral, reforçando-a em grupos populacionais que já hoje mais votam e não noutros, acentuando fossos de participação e representação entre grupos e cidadãos.

Importa, portanto, mobilizar o conhecimento científico e as experiências do nosso país, escalando-as, e de outros países, adaptando-as, para promover aumentos de participação mas, simultaneamente, diminuir gaps de envolvimento de diferentes grupos populacionais. Se formos capazes de o fazer, enquanto sociedade, promoveremos a confiança, reduziremos iniquidades e contribuiremos para, com e pela democracia, um país e Mundo mais justo para todas e todos, mote do dia da Democracia comemorado a 15 de Setembro último. Dia este ano dedicado ao “empoderamento da próxima geração” e comemorado num momento próximo da apresentação de um grande estudo internacional da “Open Society Foundations” que indica que 42% da população jovem inquirida entende uma “liderança militar” como “algo positivo” e 35% apoia uma liderança que ignore os parlamentos nacionais. Empoderamento, pois, também dependente da sua participação cívica e da representação de todas as franjas populacionais desta “próxima geração” no processo e na construção da “obra sempre inacabada” que é a Democracia e desta apresentar resultados que previnam a procura de soluções aparentemente mais simples mas que podem condicionar direitos sociais e humanos, conforme a história nos tem demonstrado.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o sentimento de pertença continua a ter um papel relevante na saúde e bem-estar das pessoas. Uma menor percepção de pertença tende a resultar numa menor confiança nas outras pessoas e nas instituições e, consequentemente, em processos de descrença e desesperança na Democracia. Protegê-la e reforçá-la depende de, mobilizando o conhecimento e investindo com esse objectivo, invertermos o crescimento da abstenção e aumentarmos a representação e os sentimentos de pertença de todos os cidadãos, independentemente das suas condições. Depende de promovermos o empoderamento das pessoas, o seu envolvimento cívico e a sua literacia política. Depende de melhorarmos as instituições e as suas respostas para todas e todos. Depende de tudo isto, todos os dias, todos os anos.

 

Tiago Pereira

As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários

in Sábado (Ao redor…); 20.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/as-vozes-ausentes-abstencao-eleitoral-remedios-e-efeitos-secundarios

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À conversa sobre pobreza e exclusão…

Hoje queria propor-vos um quiz: Qual é o país que viu recentemente mais que duplicar, em apenas 12 meses, o número de crianças a viver em situação de pobreza?

Como creio possível que não tenha acertado à primeira deixo três pistas: trata-se do país que “liderou” a expedição à Lua que permitiu que um primeiro astronauta, com essa nacionalidade, a pisasse; país onde a OpenAI, organização que desenvolve e disponibiliza o ChatGPT, tem sede; país com o maior produto interno bruto (PIB) do Mundo.

Sim, trata-se dos EUA e esta duplicação não decorreu da pandemia em si, antes da “retirada” e do “fim” recente de um conjunto de apoios/programas que, em grande medida, decorreram da resposta à pandemia.

Esta realidade reforça algo que, quem habitualmente aqui me lê, sabe que venho defendendo. Que a diminuição da pobreza depende, claro está, do PIB (e do crescimento económico) mas quando triangulado com a redução das desigualdades e com o investimento em programas, com base em evidência científica, que combatam a pobreza e, particularmente, contribuam para a quebra de ciclos geracionais de pobreza.

No final da semana passada, no IV Encontro dos Psicólogos do Sul, discuti numa interessante (a meu ver) conversa com o Miguel Herdade exactamente estes dois aspectos. Sob o mote da pobreza e exclusão, e partindo do que tem sido o trabalho desenvolvido e dos objectivos da estratégia “.Final à Pobreza” (https://finalapobreza.pt) da Ordem dos Psicólogos Portugueses, conversamos sobre a realidade das desigualdades no contexto da educação (nomeadamente as decorrentes do nível socioeconómico das famílias e do nível de escolaridade, particularmente da mãe) e como a sua redução concorreria para a mitigação das situações de pobreza e exclusão.

Conversamos, ainda, sobre o papel das professoras e professores no sucesso educativo, sobre a importância da educação dos 0-3 e do investimento precoce no desenvolvimento infantil ou sobre as consequências, nos primeiros 1000 dias dos bebés e daí para o futuro, do stresse e outras condições decorrentes da pobreza e da exclusão. Conversamos sobre a evidência disponível e sobre como poderia e poderá informar políticas (públicas) e apoiar mudanças e transformações, possíveis e plausíveis, em favor da redução da pobreza e da promoção da qualidade de vida e da possibilidade de bem-estar.

Espero que quem a ela assistiu, presencialmente ou à distância, tenha gostado… Como eu gostei. Agradeço ao Miguel o que nos trouxe e traz, sempre. E agradeço, o convite, a confiança e toda a dedicação, à Delegação Regional do Sul da OPP e à organização do evento nas pessoas da Raquel Raimundo, Carla Fernandes, Ana Meira, Raquel Granjo, Gabriel Soares, David Guedes, Sara Bahia e de todo o staff da OPP envolvido.

Que conversemos mais e mais sobre estes temas. E que estes temas sejam tema, neste e noutros Encontros. Tema na sociedade…

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O jogo instantâneo (“raspadinha”) e Portugal

Certamente já vimos crianças, animadamente, a jogar com familiares. Já vimos, em estabelecimentos, fotocópias gigantes de prémios tão relevantes quanto excepcionais, chamarizes da atenção que complementa o boca-a-boca do prémio “grande” que, muito quando em vez, lá sai no bairro, na aldeia, na cidade. Todas e todos conhecemos quem jogue, sabemos de quem jogue com regularidade e, possivelmente, de alguém “dependente” das lotarias instantâneas. Da raspadinha.

De 1995 aos dias de hoje, este jogo tornou-se um fenómeno cultural de acesso praticamente generalizado, naturalizado e muito simples. Tornou-se, também, por isso e pelas suas características “aditivas”, um problema para muitas pessoas. Não deixa de ser curioso que uma das múltiplas modalidades deste jogo seja o “100X” quando um muito importante estudo, promovido pelo @Conselho Económico e Social, estima serem cerca de 100 mil as pessoas que apresentam problemas relacionados com este tipo de jogo e 30 mil as que apresentam doença instalada, nomeadamente “perturbação de jogo patológico”.

Mas mais, este jogo, também pelas suas singularidades e forma de disponibilização, nomeadamente pelos canais de venda, impacta negativa e desproporcionalmente as pessoas com mais baixos rendimentos e níveis de escolaridade e que apresentam problemas associados à saúde mental, nomeadamente stresse, ansiedade e/ou depressão.

Sobre estas questões, sobre o enquadramento do fenómeno deste jogo e sobre as iniquidades que espelha, procurei disponibilizar o meu contributo e reflexão. Também sobre o que podemos fazer para, com os dados do estudo e com a evidência científica sobre o comportamento humano e tomada de decisão, regular de outra forma o funcionamento do jogo, protegendo as pessoas, nomeadamente acrescentando a possibilidade de autoexclusão, limitação de valores mensais de jogo ou de limites temporais que previnam comportamentos mais emocionais e “compulsivos”. Foquei, ainda, o quão paradoxal é a facilidade de acesso ao jogo, particularmente por pessoas com determinadas vulnerabilidades, quando comparada com a dificuldade de obterem apoio psicológico e social ou o facto de quem, em Portugal, promove (e como o promove) este jogo.

Fi-lo na Antena Aberta da @Antena 1 (a partir dos 24m15s), na @Rádio Renascença, na @CNN Portugal e no @Correio da Manhã.

Fi-lo como contributo para que este jogo não seja um “Tesouro da selva”, curiosamente outra das suas múltiplas modalidades, sobretudo para a parte da população que vive situações que mais potencialmente as privam da possibilidade de bem-estar.

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As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários

“Domingo decorrem as Eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma da Madeira (…) Num contexto de crise(s) permanente(s), de imprevisibilidade, incerteza e transições diversas, do clima ao digital; num Mundo pautado pela “quebra” de mediadores e da confiança, pela crescente polarização, tensão geopolítica e enfraquecimento das democracias, julgo fundamental, neste início de ciclo de eleições, pensarmos a representatividade e a abstenção eleitoral.”

“As vozes ausentes: abstenção eleitoral, remédios e efeitos secundários”, 66º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) centra-se no aumento consistente da abstenção nas últimas décadas, “fenómeno com impacto profundo na sociedade” e na “necessidade de compreendermos o que o justifica se, com eficácia, quisermos co-construir e co-dinamizar acções necessárias à inversão deste caminho.”

“Compreendermos que abstermo-nos ou não resulta, não apenas da favorabilidade da data das eleições ou da facilidade de acesso às mesas de voto, embora estas a influenciem, mas também da conjugação de um conjunto de crenças, sentimentos e de atitudes com factores socioeconómicos (…) Factores que, por um lado, reforçam o status quo e os grupos e características maioritárias das eleitas e eleitos, bem como a parte da população que, tendencialmente, mais beneficia das opções e políticas resultantes das eleições. Por outro, perpetuam a carência de representatividade que resulta desta desproporção, do desincentivo que dela decorre e do facto das pessoas que se sentem menos empoderadas, tenderem a sentir-se, simultaneamente, menos confiantes, menosprezarem as suas capacidades e, também por isso, participarem e envolverem-se menos.”

No artigo concluo “pela necessidade de três acções: investigar, em permanência, as causas e consequências da abstenção, considerando a sua importância e a necessidade da sua compreensão; usar do conhecimento científico para promover acções e incitativas de prevenção da abstenção e de promoção da participação eleitoral (dando exemplos concretos e avaliáveis); promover o envolvimento e participação nos processos eleitorais de pessoas/comunidades sub-representadas (prevenindo o risco de se aumentar as iniquidades de participação eleitoral com estas acções, reforçando-a em grupos populacionais que já hoje mais votam e não noutros, acentuando fossos de participação e representação entre grupos e cidadãos).

Proteger e reforçar a democracia “depende de, mobilizando o conhecimento e investindo com esse objectivo, invertermos o crescimento da abstenção e aumentarmos a representação e os sentimentos de pertença de todos os cidadãos, independentemente das suas condições. Depende de promovermos o empoderamento das pessoas, o seu envolvimento cívico e a sua literacia política. Depende de melhorarmos as instituições e as suas respostas para todas e todos. Depende de tudo isto, todos os dias, todos os anos.”

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Onde estavas na transição digital? (Ao redor…; 06.09.2023)

Seja por via do original – a pergunta que Baptista-Bastos fazia a quem entrevistava nas suas “Conversas secretas” – seja por via da personagem humorística nele inspirada e interpretada por Herman José, a pergunta “onde estava no 25 de Abril?” entrou no nosso imaginário e é hoje utilizada para diversas situações. Todavia, não creio provável, ainda que no futuro, que nos perguntemos “onde estava/s na transição digital?”, mas…

Não creio porque, desde logo, é um fenómeno claramente distinto do que representou e impactou o 25 de Abril para as pessoas e sociedade portuguesa. Mas também não nos lembraremos dele como nos recordamos de onde estávamos quando tivemos conhecimento dos acontecimentos relativos ao 11 de Setembro de 2001 ou quando decorria a final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016. Não, porque ao contrário destes momentos, a transição digital não tem uma data e não se constitui como acontecimento significativo. É, antes, um processo, com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura.

Um processo, em rigor, em curso há décadas, e que se projecta, exponencialmente, aquando de momentos de introdução e/ou generalização de novas tecnologias ou possibilidades, capazes de rapidamente transformarem processos de educação ou trabalho e a forma como vivemos em sociedade. São disso exemplo, a internet, os computadores pessoais, os smartphones, a realidade virtual ou, mais recentemente, a inteligência artificial generativa (por exemplo, o ChatGPT). Será disso exemplo a possibilidade, defendida por múltiplos especialistas, de atingirmos a “superinteligência artificial”, ou seja, um sistema não-humano ultrapassar a inteligência humana.

Apesar de ser um processo em curso, penso ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante neste percurso. Todas e todos intuímos que, com a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia e que isso requererá da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.

Até hoje, a transição digital, além da famosa “eliminação do papel”, trouxe-nos impactos positivos, mas, também, necessariamente desafios e impactos menos positivos, que permitem comunicarmos muito mais rapidamente e com menor custo, acedermos mais facilmente a informação e cultura, podermos preparar e prever viagens ou entregas ou podermos realizar acções de educação / formação ou mesmo intervenções terapêuticas à distância. Com este ponto de partida, perspectivemos os impactos do actual crescimento exponencial e do momento que vivemos ter uma característica estruturalmente diferente dos anteriores que o torna o crucial. Verdadeiramente, é a primeira vez que a tecnologia vem, de certa forma, apropriar-se, potenciar e generalizar partes de uma competência tipicamente humana, a cognição. O ChatGPT está para os processos cognitivos como a memória, a linguagem, o processamento de informação ou a criatividade como os primórdios dos motores de busca estão para a Google hoje ou como o primeiro Iphone está para as redes sociais hoje.

E, se esses primórdios, já significam resumos automáticos de reuniões segundos depois do seu fim ou produções de código ou texto com alguma complexidade, numa ferramenta gratuita e generalizada, podemos pensar (mesmo que não consigamos prever com acuidade) o que poderá ser a evolução destas ferramentas e o que permitirão. A forma como tenderão a contribuir para a substituição ou diminuição de necessidade de determinadas tarefas e uso de competências, mas, também, como nos ajudarão a descrever e prever fenómenos e como isso pode apoiar acções preventivas e prescritivas, permitindo, por exemplo na área da saúde, acções de prevenção e intervenção precoce e personalizada, algo que será relevantíssimo em áreas como o cancro ou nas doenças degenerativas.

Fazendo-o com a cognição humana, terá ainda muitas limitações a poder fazê-lo em dimensões mais emocionais, ainda que as impactando. Mas o que poderá acontecer com a utilização da computação quântica, algo previsível no futuro e que mudaria (mudará?) significativamente a capacidade de tratamento de dados e possibilitará maiores aproximações, inclusivamente, à reprodução da forma como o cérebro humano funciona? É este o contexto que levou a que um conjunto de personalidades relevantes na área, lideradas por Geoffrey Hinton, um psicólogo por vezes apelidado “pai da inteligência artificial”, publicasse um manifesto apelando a que “mitigar o risco de extinção (humana) devido à inteligência artificial deve ser uma prioridade global conjuntamente com outros riscos como as pandemias e a guerras nucleares”.

Efectivamente os desafios e riscos hoje existentes implicam desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.

Terminei o primeiro paragrafo deste texto com um mas… Mas, porque talvez nos devamos mesmo perguntar, a nós mesmo, “onde estamos na transição digital?”. Como estamos para ela preparadas e preparados, que competências temos e, eventualmente, precisamos desenvolver, como nela estamos a participar e a estamos a influenciar? Foi também este o mote das comemorações, a 4 de Setembro último, do Dia Nacional do Psicólogo, com uma conferência e um conjunto de acções em torno do “Factor Humano na Transição Digital”, reflectindo-se estes temas na profissão, mas, principalmente, com a sociedade, os contributos de uma ciência que, estudando o comportamento humano e o que o influencia, pode ser importantíssima às pessoas, às organizações, ao desenvolvimento das tecnologias e às políticas neste processo de transição digital.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.

 

Tiago Pereira

Onde estava na transição digital?

in Sábado (Ao redor…); 06.09.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/onde-estava-na-transicao-digital