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Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar (Sábado; Ao redor…; 24.09.2024)

Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.

Há hoje razões significativas para o termos presente. Razões que vão além de casos naturalmente muito relevantes pelo seu impacto e pela dimensão de sobressalto e de alarme social que comportam, ainda que excepcionais, como foi o recente caso na Escola Básica da Azambuja. Razões que incluem, desde logo, o que António Guterres sublinhou no passado Sábado, quando assinalava o Dia Internacional da Paz, num ano e momento com a maior incidência de conflitos armados activos no Mundo desde a II Guerra Mundial. Disse Guterres que precisamos de uma acção conjunta de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.

Razões que incluem, também, os fortes desafios que crianças e, particularmente, jovens enfrentam hoje e que condicionam significativamente a sua saúde, particularmente a saúde mental, e bem-estar. Sobre isso aqui escrevi, por exemplo, em Novembro de 2023 num artigo intitulado “Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, destacando a importância da resposta precoce a dificuldades e necessidades, nomeadamente com uma “estratégia ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé”, “a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde”, a generalização da “possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos” com a “garantia da qualidade dos ambientes educativos” e o investimento “em programas de formação e desenvolvimento e das condições de exercício profissional de pessoal docente, não docente e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades, com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade e com a avaliação de impacto”. Sobre isso também aqui havia escrito em Setembro de 2022 num artigo intitulado “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem”, onde procurei reflectir sobre o impacto das “notas” e da centralização nos resultados no processo de desenvolvimento do conjunto mais amplo de competências, incluindo sócio-emocionais e relacionais, e de promoção do bem-estar e da saúde mental. Isto a par da pressão, que resulta em parte das redes sociais, para a necessidade de “reconhecimento no espaço virtual”, de alguma ausência de suporte que advém da inacessibilidade de recursos de apoio ou da sua inconstância porque muitas vezes resultam de projectos ou contratações não permanentes que implicam alterações / interrupções frequentes e do crescimento da instabilidade e imprevisibilidade face ao futuro que, afectando todas as pessoas, impacta desproporcionalmente a população mais jovem. Precisamos, portanto, de uma acção conjunta de promoção da saúde mental e do bem-estar e de uma atitude de prevenção e resposta aos problemas contingente e precoce, empoderada e eficaz.

Razões, finalmente, que decorrem do ambiente social e político que vivemos hoje. Um espaço público onde em cerca de 20 anos aumentaram em 100% as notícias dos órgãos de comunicação social cuja mensagem base é o “ódio” e em 150% as em que é o “medo”. Em que pessoas e grupos constroem, por vezes artificialmente, conflito não construtivo porque prosperam, proliferam e lideram nesse âmbito, autopromovendo-se ou promovendo as e os do seu grupo, sem qualquer consideração dos impactos a médio e longo prazo dessa atitude nos indivíduos e na sociedade. Geram e gerem desconfiança que gera mais desconfiança, conflito não construtivo que gera mais conflito não construtivo validando, explicita ou implicitamente, os receios das outras pessoas, diversas de nós, o ódio, o ressentimento e, por vezes, até comportamentos agressivos, criando na sociedade espaço para atitudes de complacência com diferentes práticas agressivas e violentas. Precisamos de uma acção conjunta de promoção da resolução construtiva de conflitos e de prevenir a complacência com atitudes e comportamentos de discriminação, ódio e de não cumprimento dos Direitos Humanos.

Ora, diz-se, sabe-se, que a Escola não é uma ilha e, logo, não é imune a este conjunto de fenómenos. Debate-se, necessariamente, com desafios ao nível dos seus recursos humanos, mas também com outros que resultam dos importantes objectivos da inclusão de todas as crianças e jovens, do aumento da escolaridade obrigatória, da escola de qualidade a “tempo inteiro” ou de fenómenos como as migrações, a desigualdade social ou a transição digital e a utilização de novas tecnologias. É com todo este enquadramento que devemos pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura) e olhando a que:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental promovermos uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva mais ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.

 

Tiago Pereira

Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

in Sábado (Ao redor…); 24.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-ditado-popular-a-proposito-das-praticas-agressivas-e-violencia–em-contexto-escolar

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Ainda o 6º Congresso OPP/XIII FIAP

O 6º Congresso da OPP/XIII da FIAP terminou há uma semana mas continua aqui. Associo-me a esse belo movimento com uma mensagem última em forma de agradecimento(s):

. Ao Francisco Miranda Rodrigues por ter confiado e me ter convidado a presidir à sua Comissão Organizadora e, nele, a todas as largas dezenas de psicólogas/os com diferentes papéis na Ordem dos Psicólogos Portugueses pelos seus múltiplos contributos para o sucesso do congresso;

. À Clara Silva e nela a toda equipa de trabalhadoras/es da OPP que formam, particularmente quando perante exigências complexas, uma força coesa, empenhada, criativa e segura. São inexcedíveis e são ainda capazes de agregar outras pessoas, no caso do Congresso o grupo de voluntárias/os (a quem também agradeço) que são a base (e que importante é a base) para que tudo funcione;

. À comissão científica excepcionalmente liderada pela Isabel Soares que teve um papel determinante da preparação da recepção das mais de 7 centenas de submissões à organização e moderação das sessões de comunicações, pósteres digitais e espaço jovem (especial agradecimento à Carolina Oliveira, força motriz desta iniciativa). Incrível trabalho.

. Ao João Reis, com quem tive uma impactante (pelo menos para mim) conversa sobre “um só planeta”; à Raquel Corval , Leonor Carvalho, Sandra Araújo e Isabel Soares com quem conversei sobre os primeiros mil dias (e que orgulho serem tema no congresso da OPP); à Ana Rita Gomes, Inês Pimenta de Castro, Andresa Oliveira, João Salgado, Maria João Mosca e Daniel Maia com quem conversei sobre a intervenção psicológica à distância e seus desafios e oportunidades. Neles agradeço às quase 5 centenas de oradoras/es e às/aos restantes quase 2500 participantes;

. Aos patrocinadores e stands que confiaram no congresso para associarem as suas marcas e produtos e que co-construiram a sua experiência, também fora das salas de sessões;

. Às organizações internacionais participantes, nomeadamente do espaço ibero-americano, países língua oficial portuguesa e à EFPA (European Federation of Psychologists’​ Associations), American Psychological Association e COP.

A todas e todos agradeço o sentido de comunidade, o espaço de celebração.

“…e este percurso”, disse o Sr. Presidente da República na sessão Solene falando do processo de afirmação da psicologia e da valorização do contributo das psicólogas e psicólogos na sociedade portuguesa, “foi um percurso que explica estes congressos. Quem chega aqui aos congressos a sensação que tem é que este duplo congresso [OPP/FIAP] é uma festa. Não é o cumprimento de um dever, de uma obrigação, é uma festa. Se quiserem, uma festa de autodeterminação”.

A celebração da autodeterminação e da procura incansável da promoção da sua possibilidade para todas as pessoas por parte de 28.000 psicólogas/os, dia após dia, nos mais variados contextos. 28.000 psicólogas/os, cidadã(o)s.

Foi uma honra ter tido esta oportunidade e ter podido dar este meu contributo para este nosso Congresso.

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Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

“Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.”

“Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar”, 91º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura enquadrar o porquê de, hoje, isso ser particularmente relevante para, depois, “pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura)” a partir de quatro dimensões:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Termino advogando e apelando a “uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.”

“Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.”

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais (Sábado; Ao redor…; 10.09.2024)

Recuemos milhares de anos e imaginemo-nos a viver neste planeta, nesse momento. Não foi, não era, a força individual e isolada de cada ser humano que permitia enfrentar os principais desafios que se colocavam. Não foi, certamente, a força isolada de indivíduos que permitiu o desenvolvimento e que nos trouxe à sociedade dos dias de hoje. Antes foi a forma como os seres humanos desenvolveram formas complexas de cooperação e colaboração, baseadas na comunicação e na confiança. Formas de cooperação e colaboração que permitiram responder a desafios e crises, partilhar, inovar e desenvolver comunidades e a sociedade. Foram as relações interpessoais, o trabalho em equipa e a vida em comunidade que permitiram que atingíssemos níveis de desenvolvimento e bem-estar hoje, apesar de tudo, inimagináveis não há muito tempo.

Sabemo-lo. Mas…

Vivemos um momento histórico em que, segundo a ONU, quintuplicaram em 50 anos as catástrofes associadas a fenómenos naturais. Nesse período, “todos os dias, em média, um desastre meteorológico, climático ou hídrico retirou a vida a 115 pessoas e causou perdas 202 milhões de dólares”. A crise climática associa-se a outros desafios complexos do nosso tempo. Desafios que exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de colaboração entre cidadãos na prevenção de fenómenos/desastres, na capacitação da população para maior resiliência face aos mesmos e na mitigação dos seus impactos.

Sabemo-lo também. Mas…

Estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais, particularmente no Ensino Superior, momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

Apesar de hoje falarmos mais sobre as competências sócio-emocionais e ter sido, inclusivamente, realizado um caminho para a sua integração e consideração do seu desenvolvimento na Educação até à escolaridade obrigatória, existe um caminho enorme a percorrer para a sua cabal consideração no contexto do Ensino Superior. Procuro, em seguida e em seis pontos, discutir eventuais explicações para tal e, nesse sentido, pistas para potenciais mudanças para reforço deste caminho. A saber:

a) A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa no Ensino Superior, resultante de causas diversas que incluem, entre outras, fenómenos como a hiperespecialização das/os docentes e investigadoras/es, a dispersão por departamentos/faculdades de pessoal não docente ou das e dos próprios estudantes por via da escassez de residências estudantis e da cada vez maior distância do alojamento possível nas grandes cidades face às instituições. Tudo a contribuir para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade. Importa reflectir sobre estes fenómenos e intervir no sentido da prevenção e mitigação da atomização e fragmentação, desde logo nas e nos estudantes, procurando reforçar o seu envolvimento com a comunidade educativa e a sua possibilidade de participação, bem como reforçar a identidade, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições.

 

b) O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico. O momento da transição e da integração no Ensino Superior, também porque habitualmente coincidente com um período de alterações significativas (relacionadas com a idade, mudança de local de residência, de grupo de amigas/os, …) é um momento especialmente relevante para a saúde e bem-estar das/os estudantes, para o seu desempenho académico (persistem níveis significativos de abandono no 1º ano de curso) e para as relações interpessoais, sendo fundamental o desenho de estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria, incluindo por pares.

c) O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes. Há hoje mais jovens que entram e frequentam o Ensino Superior com dificuldades no âmbito da ansiedade, depressão ou de desafios na gestão do stresse que acrescem, também, ao aumento destes problemas na restante comunidade educativa. Apesar dos recentes investimentos, particularmente com o Programa Nacional de Promoção da Saúde Mental e a medida “Cheque Psicólogo”, as problemáticas persistem e provocam sofrimento às pessoas, não lhes permitindo “estar bem”, “cumprirem-se” e, dessa forma, ter condições para melhores relações interpessoais e bem-estar. É urgente investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção.

 

d) A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas. Particularmente num momento em que um conjunto de tarefas e o desenvolvimento de competências técnicas podem e serão delegadas ou apoiadas pelos avanços tecnológicos e pela inteligência artificial generativa, é de crucial importância que os currículos formais e informais do Ensino Superior apontem ao desenvolvimento deste tipo de competências e usem da ciência na definição de estratégias e intervenções suportadas em evidência científica. Esta aposta apoiará a formação de profissionais que aliem às competências técnicas, valores e competências sócio-emocionais que os tornem pessoas e profissionais mais capacitados e mais abertos e predispostos às relações interpessoais, à colaboração e ao trabalho em equipa.

 

e) A não-valorização e não-intencionalização da colaboração. Sendo coerentes com o quão estratégicas podem ser estas acções, devemos ser capazes de inscrever e valorizar, nos processos internos das instituições, as dimensões da colaboração e monitorizar e auto-avaliar estas acções. Será relevante a sua inclusão enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho.

 

f) A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças. No Ensino Superior, como em toda a Administração Pública, devemos abandonar o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” de um/a profissional. As competências de liderança vão muito além das específicas competências técnicas na área em que se lidera. Considerá-lo, mais, no acesso aos cargos de liderança e no desenvolvimento profissional nos mesmos, será um contributo decisivo para a internacionalização do atrás referido e para a promoção de mais e melhores relações e práticas de colaboração.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, importa que na formação das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios, também, do presente e do futuro. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos. Que nele participemos, juntos e por todos.

 

Tiago Pereira

O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

in Sábado (Ao redor…); 10.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-ensino-superior-e-a-promocao-das-relacoes-interpessoais

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Agência.

Lembram-se da “TINA”, o acrónimo em inglês para o “NHA” português [There Is No Alternative | Não Há Alternativa]?

Estamos num desses momentos. Confrontados com incêndios que nos fazem sentir impotentes e descrentes em que possamos fazer algo para prevenir, no futuro, estas situações e os seus impactos. Confrontados com fenómenos sociais que, conjugados no tempo, nos fazem desafiar a percepção de segurança que o nosso país continua a oferecer, por comparação à grande maioria (quase totalidade) de países, Mundo fora.

Estamos num desses momentos porque, sozinhos, sentimo-nos distantes, desempoderados e descrentes de poder fazer algo que, significativamente, contribua para minimizar estas situações e mitigar os seus efeitos.

Mas… Assim não é. Pensemos nas pessoas, hoje e nos últimos dias, envolvidas no combate aos incêndios e apoio às populações. Em como as comunidades se unem para, juntas, resistirem. Em como profissionais e voluntárias/os dão o que têm e o que não têm pelas outras pessoas e pelos lugares.

Neles inspirado, pensemos em como, mesmo à distância, podemos contribuir e advogar para uma mobilização social que reconheça local e globalmente a crise climática e como podemos contribuir, individual, colectiva e globalmente para a sua mitigação. Como podemos advogar por alterações no ordenamento do território e na organização da sociedade, para maior prevenção destas situações. Também para uma preparação das comunidades para protocolos de actuação em situações como os desastres naturais ou acontecimentos inesperados, aumentando a sua percepção de controlo, a resiliência individual e colectiva e a sua segurança e previsibilidade. Como podemos, mesmo à distância, dar pequenos grande contributos como são exemplo dar sangue, conversar e ligarmo-nos a pessoas próximas, comunicar estes fenómenos com as crianças e jovens diminuindo o seu impacto. Como nos podemos aproximar e suportar as pessoas que mais sofrem com estes fenómenos e construirmos comunidades. Como podemos contribuir para fazer cair o “N” da TINA e do NHA e promover agência nas pessoas e comunidades.

Eu, singelamente, procuro fazê-lo. Junto das pessoas mais próximas. Também em pequenos contributos como os que partilho, sobre a importância de comunicarmos fenómenos como o da EB da Azambuja com crianças e jovens (obrigado Nuno Vinha) ou sobre a hiper-exposição e o papel da comunicação e do suporte da comunidade (obrigado, Carla Jorge de Carvalho). Acredito na possibilidade de mudança e isso é, para mim, um factor protector.

A mudança é possível. De outra forma, aquando destas situações, não falaríamos ainda do impacto na saúde mental e bem-estar. A mudança é possível. Podemos empoderar pessoas e comunidades para lidar com estes fenómenos. Podemos promover recursos individuais e comunitários, mesmo tudo fazendo para que estes fenómenos não se repitam.

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Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

A fuga do Estabelecimento Prisional de Vale Judeus foi o acontecimento mediático da semana passada. Sendo um acontecimento necessariamente significativo, temo que esta atenção resulte no que resultou o sobressalto após a fuga do EP de Caxias de 2017: poucas alterações substantivas ao sistema judicial e prisional; pouco debate sobre as condições da reclusão e dos processos de prevenção da (pequena) criminalidade e de reinserção e reintegração.

Vejamos. Portugal é o 7º país mais seguro do Mundo e o 7º país da União Europeia (UE) com menor taxa criminalidade violenta. Tem, em simultâneo, um número de reclusas/os acima da média na UE e é o país da UE com penas de prisão médias mais longas.

Um paradoxo? Sim, certamente… Pequenos comentários sobre ele:

 

a) Um trabalho da “The Psychologist” de 10.09 trata o tema e parte de uma ideia sobre a qual creio devermos reflectir: a necessidade de inscrevermos que “as pessoas estão detidas como punição e não para serem punidas”;

 

b) Reforça, depois, o papel da pobreza e da exclusão como trajectórias para a (pequena) criminalidade e o ciclo de, após uma detenção, a dificuldade de integração social (trabalho, habitação, …) potenciar a reincidência. Algo especialmente factual em Portugal onde a população reclusa é maioritariamente marcada pela pertença comunitária não maioritária e/ou pela pobreza. Onde a taxa de reincidência é muito elevada;

 

c) O populismo, ontem mais latente que hoje na população portuguesa, mas que sempre influenciou (influencia) decisoras/es e partidos “catch all”, muito contribuiu (contribui) para inexistência de pressão da sociedade civil para a garantia de melhores condições para reclusas/os e para profissionais que trabalham no sistema prisional, quer sejam as/os que garantem a segurança de reclusas/os e sistema, quer quem se foca na promoção da educação, saúde, trabalho (reinserção social). Fazem-no pela utilização do exemplo, factual por vezes, não factual noutros, contra dados oficiais e pelo exacerbar do revanchismo e medo como estímulo para políticas públicas claramente contracíclicas face à ciência e às boas práticas nos direitos humanos.

Que este seja um tempo de pensarmos em transformações que, sendo complexas, são possíveis. Que atendemos às e aos profissionais. Que empoderemos as comunidades para a inclusão. Que pensemos as condições, a saúde (incluindo a saúde mental) e o bem-estar da população reclusa. Que previnamos as condições sociais que determinam as trajectórias e diminuamos a reincidência. Tudo investimentos de retorno económico significativo e de promoção de bem-estar e coesão social.

Fomos e somos capazes e exemplo noutras áreas. Podemos ser nesta.

Ps. Imagem captada pelas câmaras de videovigilância do EP de Vale Judeus partilhada por diversos órgãos de comunicação social depois de disponibilizada numa rede social do Sindicato Nacional do Corpo da Guarda Prisional (!).

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O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais

Quase 50.000 jovens iniciam por estes dias o seu percurso no Ensino Superior. Tempo para perguntar se “estaremos a investir adequadamente no desenvolvimento de competências facilitadoras das relações interpessoais [neste] momento-chave da formação das e dos profissionais do presente e para o futuro? Estaremos a valorizar estas competências e a utilizar a ciência e a evidência no seu desenvolvimento?

“O Ensino Superior e a promoção das relações interpessoais”, 90º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) traz estas questões quando a crise climática, a par de outros desafios sociais complexos, “exigem mais relação interpessoal, capaz de estimular mais trabalho em equipa, colaboração interdisciplinar e comportamentos pró-sociais de cooperação entre cidadãos”.

O artigo discute porque a resposta às primeiras perguntas é “não, não o estamos a fazer suficientemente”. Fá-lo em 6 pontos que sustentam possíveis explicações e pistas para uma mudança no sentido do reforço deste caminho:

a) “A progressiva fragmentação e atomização da comunidade educativa” e o seu contributo “para a quebra da ligação, identidade, sentido de coesão e comunidade” e como devemos “reforçar o envolvimento e possibilidade de participação, os valores comuns e o trabalho colaborativo e em equipa nas instituições”;

b) “O desafio da transição e integração na Universidade/Politécnico” e a importância de se desenharem “estratégias que apoiem a integração de novas/os estudantes, com destaque para programas de mentoria e tutoria”;

c) “O agravamento nos últimos anos (e a situação tenderá a piorar nos próximos) dos problemas e das condições relacionadas com a saúde mental das e dos jovens estudantes” e o quão urgente é “investir estruturalmente na saúde mental, numa perspectiva, também, de prevenção e da sua promoção”;

d) “A necessidade de balancear o desenvolvimento de competências técnicas com competências facilitadoras, nomeadamente de âmbito pessoal e social como a capacidade de reconhecimento e gestão das emoções, de comunicação ou de resolução de problemas”;

e) “A não-valorização e não-intencionalização da colaboração” e o caminho a percorrer para a inclusão de acções de colaboração “enquanto indicadores principais da actividade e sustentabilidade das organizações e de avaliação de desempenho”;

f) “A necessidade de repensar o acesso e/ou escolha das lideranças” abandonando o modelo da liderança da equipa corresponder ao “topo de carreira” ou à “maior competência técnica instalada” e considerando as competências de liderança e a possibilidade do seu desenvolvimento.

Termino apelando a que na formação “das e dos profissionais e líderes do presente e do futuro invistamos, significativamente, no reforço das suas competências sócio-emocionais, considerando o quão prementes serão as relações interpessoais na resposta aos desafios. Desafios que que necessitarão de um novo e renovado impulso de colaboração e cooperação entre seres humanos.”

Que nele participemos, juntos e por todos.

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Setembro. Darren Walker.

Eis-nos em Setembro. Tempo para se retomar um certo quotidiano. Tempo para um “segundo início de ano” e, necessariamente, de confronto e desafio… De balanço, também.

Assim o sinto. Por isso e como forma de regressar aqui e a quem me lê [Obrigado, bom reinício!] escreve-vos hoje sobre uma pessoa que muito admiro e que nestes dias li nas “8 Questions” (de balanço) da “Time”: Darren Walker.

Começo pelo fim. Figura maior na área da filantropia e justiça social, anunciou há semanas que em 2025 terminará um longo e profundamente impactante percurso como presidente da poderosa e influente Fundação Ford.

Destaco duas das 8 questões:

a) Sobre se a sua função influencia a sua vida pessoal. Como não, penso. Como não, por outras palavras, responde. “Não tenho dúvidas que nestes anos respirei sempre ar rarefeito. Nunca tive uma má refeição. As pessoas mudam o seu quotidiano para serem deferenciais comigo. Mas [com a saída] serei capaz de seguir em frente, com alegria. Terei menos amigas/os mas mais jantares com reais amigas/os.” Com alegria. Com relações estruturais e significativas.

Darren Walker sabe bem o valor do que é estrutural. Nestes anos de presidência da Fundação Ford fez algo que urge expandir: focar a Fundação na promoção de mudanças sistémicas e, nesse sentido, não situar a intervenção social e a promoção da justiça social apenas em acções reparativas, individualizadas e situadas no tempo, algo fundamental (necessário) a quem delas necessita, mas insuficiente para a transformação social. Conhecendo-se a sua história percebe-se porque é tão importante para si. Pensando o nosso redor percebe-se porque urge intensificarmos este caminho.

b) Diz noutro momento que “quando se entende que a filantropia deve estar comprometida com a democracia como a melhor forma de Governo estes tempos são desafiantes”. Também que “a esperança é o oxigénio da democracia mas que a iniquidade é inimiga da esperança. E pessoas sem esperança vão fazer coisas que não pensávamos possíveis em sociedade.” Isso preocupa-o.

Isso preocupa-me. Um tempo em que Starmer, 1º ministro eleito por milhões, é confrontado por Musk, “dono”/decisor do X que pouco ou nada faz para prevenir a desinformação, a agressão e instiga ódios a partir da sua condição, escrevendo, num momento tenso, que uma “guerra civil é inevitável”. Tempo em que a AfD ganha eleições em Estados Alemães. Tempo em que naturalizamos, mesmo fora dos EUA, que Trump pode ser novamente Presidente, mesmo após o que aconteceu no seu mandato e em resultado da eleição que perdeu.

Mas pode ser também tempo de envolvimento, de advocacia, de inspiração. Na promoção, por exemplo, do papel (potencial) da filantropia e das Fundações num caminho de maior justiça social e equidade. Na defesa da importância da coesão social, da participação e do significado no bem-estar de todas as pessoas.

Comecemos Setembro com esperança, alegria, coragem e compromisso. Inspiremo-nos em Darren Walker e em como vive o seu dia-a-dia e o Mundo.

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental) (Ao redor…; 15.08.2024)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos Estados Unidos da América aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada da newsletter “The Morning” do “New York Times” de 8 de Agosto. Gira em torno de um conjunto de dados, incluindo os de auto-reporte do questionário “Household Pulse”, sobre sintomas de ansiedade e depressão na população dos EUA. Dados que demonstram o aumento significativo de 11% pré-pandemia para 42,6% em Novembro de 2020, mas, essencialmente, que a descida pós-pandemia não aproximou os dados dos valores pré-pandemia, fixando-se actualmente nos 20,7%. A newsletter explora estes números para detalhar a forma como para eles em muito contribui a população mais jovem, sublinhando que “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vinha a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, que assim se manteve durante toda a pandemia e [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias] “não diminuiu rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

Infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática e ampla deste tipo de dados. Apesar disso, temos cada vez mais indicadores, incluindo empíricos, de que a realidade, particularmente no que se refere à população mais jovem, será próxima da aqui relata. Próxima, nos valores que se encontram. Próxima, nas potenciais causas cuja newsletter também discute: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”. Acrescento a perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade e de relação com as pessoas e o meio ao redor. Acrescento, ainda, uma tentativa de síntese para estes factores – a maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança, essenciais a esta etapa de vida. Mas deter-me-ei na turbulência política.

Creio que quem acompanha minimamente a política e reflecte sobre a sociedade americana e, simultaneamente, conhece ou experiencia a realidade portuguesa, sabe que a turbulência política mencionada tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal e, nesse sentido, impactos distintos em sociedades também elas bastante distintas. Sabemos, porém, que existem duas constantes: que o impacto dessa turbulência é mais severo junto dos grupos populacionais com maiores vulnerabilidades, sejam elas relacionadas com o estatuto sócio-económico, com expectativas sociais ou de papel ou com a pertença a um grupo ou comunidade minoritária; que o impacto é particularmente sentido na população mais jovem, considerando que as suas consequências habitualmente se reflectem nas e nos mais jovens de forma desproporcional e por períodos temporais mais significativos.

É por isso que, não acontecendo em Portugal o que aconteceu nos últimos anos nos EUA, importa que em Portugal não deixemos de o pensar e de sobre isso reflectir. Desde logo pensar o impacto de situações como a proibição de programas e actividades no âmbito das competências sócio-emocionais em Escolas, a proibição do ensino de vertentes da ciência relacionadas, por exemplos, com as teorias da evolução ou o recuo no direito à interrupção voluntária da gravidez nas Mulheres em diversos Estados dos EUA, que resultou num reporte mais significativo de sintomas de ansiedade e depressão nas jovens desses Estados face a jovens meninas e raparigas de outros Estados e face aos jovens meninos e rapazes do mesmo Estado. Mas, também, porque tem surgido e ganho espaço mediático, um pouco por toda a Europa, e também em Portugal, um discurso que se pode definir contra direitos humanos para todas as pessoas e abertamente contra o movimento relacionado com os objectivos do desenvolvimento sustentável que, necessariamente, vulnerabiliza as pessoas e comunidades mais expostas à desigualdade e à discriminação e que tende a validar determinadas atitudes e comportamentos que até há bem pouco não eram publicamente validados. Todas e todos sabem do que falo, todas e todos o vimos e sentimos. Finalmente, porque também em Portugal já se discutem propostas de tomadas de decisão que merecem ser refectidas, a este nível e bastante ponderadas.

Pensemos, pois, na atribuição de culpas colectivas e na generalização de características e comportamentos a determinadas comunidades ou em apoteóticas propostas de confinamento de comunidades em Portugal, aquando da pandemia. Pensemos, ainda, em propostas anti-científicas de penalizar bebés e crianças, por exemplo no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai, em processos, não raras vezes, de dupla culpabilização de bebés, crianças e jovens cuja condição deveria ser protegida, sempre e em qualquer circunstância, pela comunidade e pelo Estado.

É por tudo isto que, tal como não aceitaríamos, enquanto sociedade, que a segurança de um bebé e de uma criança quando viajam de automóvel fosse discutida apenas considerando a qualidade da resposta das equipas de emergência após um acidente e não também pela necessidade de sistema de retenção que possam prevenir problemas mais complexos em caso de acidente, não podemos não debater o processo em curso e os seus impactos. Não podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção. Algo só possível, também, com maior informação da ciência, incluindo ciência psicológica, a este desenho para uma mais decisiva e eficaz resposta aos anseios e expectativas das pessoas e aos desafios da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada segundo conta. Verdadeiramente. Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental reconheceremos, validarmos e respeitarmos as necessidades das outras e dos outros. A ciência, incluindo a ciência psicológica pode ajudar a lembrá-lo, a cada dia. Pode ajudar a fazer deste valor e do valor maior da equidade e dos Direitos Humanos para todas e todos, valores centrais na política pública, na vida das pessoas, na nossa sociedade. Hoje e amanhã.

 

 

Tiago Pereira

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

in Sábado (Ao redor…); 15.08.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-politica-e-os-determinantes-sociais-da-saude-mental

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.

Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.

Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.

Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.