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Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar (Sábado; Ao redor…; 24.09.2024)

Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.

Há hoje razões significativas para o termos presente. Razões que vão além de casos naturalmente muito relevantes pelo seu impacto e pela dimensão de sobressalto e de alarme social que comportam, ainda que excepcionais, como foi o recente caso na Escola Básica da Azambuja. Razões que incluem, desde logo, o que António Guterres sublinhou no passado Sábado, quando assinalava o Dia Internacional da Paz, num ano e momento com a maior incidência de conflitos armados activos no Mundo desde a II Guerra Mundial. Disse Guterres que precisamos de uma acção conjunta de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.

Razões que incluem, também, os fortes desafios que crianças e, particularmente, jovens enfrentam hoje e que condicionam significativamente a sua saúde, particularmente a saúde mental, e bem-estar. Sobre isso aqui escrevi, por exemplo, em Novembro de 2023 num artigo intitulado “Cumprir a Convenção sobre os Direitos da Criança – Um desígnio e Quatro propostas”, destacando a importância da resposta precoce a dificuldades e necessidades, nomeadamente com uma “estratégia ancorada em políticas de promoção da natalidade e sociais, que aponte aos primeiros 1000 dias de vida de um bebé”, “a revitalização do modelo de intervenção precoce na infância e do conjunto de intervenções educativas, sociais e de saúde”, a generalização da “possibilidade de acesso a contextos educativos de bebés e crianças dos 0 aos 3 anos” com a “garantia da qualidade dos ambientes educativos” e o investimento “em programas de formação e desenvolvimento e das condições de exercício profissional de pessoal docente, não docente e de técnicas/os especializadas/os, incluindo psicólogas e psicólogos, fortemente comprometidos com a redução das desigualdades, com a capacidade de responder às situações de maior vulnerabilidade e com a avaliação de impacto”. Sobre isso também aqui havia escrito em Setembro de 2022 num artigo intitulado “(Rosa dos) Ventos da saúde mental da população jovem”, onde procurei reflectir sobre o impacto das “notas” e da centralização nos resultados no processo de desenvolvimento do conjunto mais amplo de competências, incluindo sócio-emocionais e relacionais, e de promoção do bem-estar e da saúde mental. Isto a par da pressão, que resulta em parte das redes sociais, para a necessidade de “reconhecimento no espaço virtual”, de alguma ausência de suporte que advém da inacessibilidade de recursos de apoio ou da sua inconstância porque muitas vezes resultam de projectos ou contratações não permanentes que implicam alterações / interrupções frequentes e do crescimento da instabilidade e imprevisibilidade face ao futuro que, afectando todas as pessoas, impacta desproporcionalmente a população mais jovem. Precisamos, portanto, de uma acção conjunta de promoção da saúde mental e do bem-estar e de uma atitude de prevenção e resposta aos problemas contingente e precoce, empoderada e eficaz.

Razões, finalmente, que decorrem do ambiente social e político que vivemos hoje. Um espaço público onde em cerca de 20 anos aumentaram em 100% as notícias dos órgãos de comunicação social cuja mensagem base é o “ódio” e em 150% as em que é o “medo”. Em que pessoas e grupos constroem, por vezes artificialmente, conflito não construtivo porque prosperam, proliferam e lideram nesse âmbito, autopromovendo-se ou promovendo as e os do seu grupo, sem qualquer consideração dos impactos a médio e longo prazo dessa atitude nos indivíduos e na sociedade. Geram e gerem desconfiança que gera mais desconfiança, conflito não construtivo que gera mais conflito não construtivo validando, explicita ou implicitamente, os receios das outras pessoas, diversas de nós, o ódio, o ressentimento e, por vezes, até comportamentos agressivos, criando na sociedade espaço para atitudes de complacência com diferentes práticas agressivas e violentas. Precisamos de uma acção conjunta de promoção da resolução construtiva de conflitos e de prevenir a complacência com atitudes e comportamentos de discriminação, ódio e de não cumprimento dos Direitos Humanos.

Ora, diz-se, sabe-se, que a Escola não é uma ilha e, logo, não é imune a este conjunto de fenómenos. Debate-se, necessariamente, com desafios ao nível dos seus recursos humanos, mas também com outros que resultam dos importantes objectivos da inclusão de todas as crianças e jovens, do aumento da escolaridade obrigatória, da escola de qualidade a “tempo inteiro” ou de fenómenos como as migrações, a desigualdade social ou a transição digital e a utilização de novas tecnologias. É com todo este enquadramento que devemos pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura) e olhando a que:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental promovermos uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva mais ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.

 

Tiago Pereira

Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

in Sábado (Ao redor…); 24.09.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/um-ditado-popular-a-proposito-das-praticas-agressivas-e-violencia–em-contexto-escolar

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Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar

“Como muitos de nós cresci a ouvir um conjunto de ditados populares que, invariavelmente, tendiam para uma aproximação a complacência e/ou justificação de situações diversas e múltiplas de violência. “Entre marido e não se mete a colher” é disso um exemplo paradigmático. Quero, porém, e numa perspectiva de reversibilidade, usar neste texto de um outro ditado popular – “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje” – para destacar como, ao contrário, é fundamental adoptar-se uma postura individual e colectiva de não aceitação, justificação e de não complacência com as diversas práticas agressivas e formas de violência.”

“Um ditado popular a propósito das práticas agressivas e violência em contexto escolar”, 91º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura enquadrar o porquê de, hoje, isso ser particularmente relevante para, depois, “pensar o aumento reportado dos fenómenos violentos em contexto escolar (por exemplo da Escola Segura)” a partir de quatro dimensões:

  1. A violência em contexto escolar não é um problema apenas do presente (embora, enquanto seres humanos, tendamos o colocar o foco no presente e nas questões mais negativas), sendo as formas de violência historicamente presentes no contexto das Escolas. Apesar deste cenário é fundamental que sublinhemos, a cada momento, o valor da não inevitabilidade das mesmas;
  2. É fulcral alterarmos a forma como a sociedade olha e pensa a Escola e valoriza, além da promoção do conhecimento, aprendizagem e resultados escolares (naturalmente muito importantes), os seus contributos para preparar crianças e jovens para a sua autorregulação comportamental e emocional, para a resolução de problemas e de conflitos, para a abertura ao outro e para a empatia;
  3. Tendendo à prevenção das práticas agressivas, a importância da Escola contribuir para a promoção da possibilidade de ocupação com segurança e com propósito de tempos livres;
  4. É fundamental que grupos de trabalho e outras estruturas considerem e tenham capacidade operativa para imprimir uma dinâmica de consequência sobre as medidas propostas, prevenindo riscos de descrédito, descrença e de utilização destes mecanismos como justificativos de eventuais inações.

Termino advogando e apelando a “uma postura individual e colectiva de não aceitação e de não complacência para com qualquer fenómeno de violência e, logo, para com as práticas agressivas e a violência em contexto escolar. Uma acção individual e colectiva ampla de promoção da paz e de prevenção da violência, em todas as suas formas.”

“Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje, com evidente benefício para alunas e alunos, profissionais, comunidade educativa e sociedade. Hoje. Para o futuro.”

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental) (Ao redor…; 15.08.2024)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos Estados Unidos da América aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada da newsletter “The Morning” do “New York Times” de 8 de Agosto. Gira em torno de um conjunto de dados, incluindo os de auto-reporte do questionário “Household Pulse”, sobre sintomas de ansiedade e depressão na população dos EUA. Dados que demonstram o aumento significativo de 11% pré-pandemia para 42,6% em Novembro de 2020, mas, essencialmente, que a descida pós-pandemia não aproximou os dados dos valores pré-pandemia, fixando-se actualmente nos 20,7%. A newsletter explora estes números para detalhar a forma como para eles em muito contribui a população mais jovem, sublinhando que “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vinha a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, que assim se manteve durante toda a pandemia e [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias] “não diminuiu rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

Infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática e ampla deste tipo de dados. Apesar disso, temos cada vez mais indicadores, incluindo empíricos, de que a realidade, particularmente no que se refere à população mais jovem, será próxima da aqui relata. Próxima, nos valores que se encontram. Próxima, nas potenciais causas cuja newsletter também discute: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”. Acrescento a perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade e de relação com as pessoas e o meio ao redor. Acrescento, ainda, uma tentativa de síntese para estes factores – a maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança, essenciais a esta etapa de vida. Mas deter-me-ei na turbulência política.

Creio que quem acompanha minimamente a política e reflecte sobre a sociedade americana e, simultaneamente, conhece ou experiencia a realidade portuguesa, sabe que a turbulência política mencionada tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal e, nesse sentido, impactos distintos em sociedades também elas bastante distintas. Sabemos, porém, que existem duas constantes: que o impacto dessa turbulência é mais severo junto dos grupos populacionais com maiores vulnerabilidades, sejam elas relacionadas com o estatuto sócio-económico, com expectativas sociais ou de papel ou com a pertença a um grupo ou comunidade minoritária; que o impacto é particularmente sentido na população mais jovem, considerando que as suas consequências habitualmente se reflectem nas e nos mais jovens de forma desproporcional e por períodos temporais mais significativos.

É por isso que, não acontecendo em Portugal o que aconteceu nos últimos anos nos EUA, importa que em Portugal não deixemos de o pensar e de sobre isso reflectir. Desde logo pensar o impacto de situações como a proibição de programas e actividades no âmbito das competências sócio-emocionais em Escolas, a proibição do ensino de vertentes da ciência relacionadas, por exemplos, com as teorias da evolução ou o recuo no direito à interrupção voluntária da gravidez nas Mulheres em diversos Estados dos EUA, que resultou num reporte mais significativo de sintomas de ansiedade e depressão nas jovens desses Estados face a jovens meninas e raparigas de outros Estados e face aos jovens meninos e rapazes do mesmo Estado. Mas, também, porque tem surgido e ganho espaço mediático, um pouco por toda a Europa, e também em Portugal, um discurso que se pode definir contra direitos humanos para todas as pessoas e abertamente contra o movimento relacionado com os objectivos do desenvolvimento sustentável que, necessariamente, vulnerabiliza as pessoas e comunidades mais expostas à desigualdade e à discriminação e que tende a validar determinadas atitudes e comportamentos que até há bem pouco não eram publicamente validados. Todas e todos sabem do que falo, todas e todos o vimos e sentimos. Finalmente, porque também em Portugal já se discutem propostas de tomadas de decisão que merecem ser refectidas, a este nível e bastante ponderadas.

Pensemos, pois, na atribuição de culpas colectivas e na generalização de características e comportamentos a determinadas comunidades ou em apoteóticas propostas de confinamento de comunidades em Portugal, aquando da pandemia. Pensemos, ainda, em propostas anti-científicas de penalizar bebés e crianças, por exemplo no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai, em processos, não raras vezes, de dupla culpabilização de bebés, crianças e jovens cuja condição deveria ser protegida, sempre e em qualquer circunstância, pela comunidade e pelo Estado.

É por tudo isto que, tal como não aceitaríamos, enquanto sociedade, que a segurança de um bebé e de uma criança quando viajam de automóvel fosse discutida apenas considerando a qualidade da resposta das equipas de emergência após um acidente e não também pela necessidade de sistema de retenção que possam prevenir problemas mais complexos em caso de acidente, não podemos não debater o processo em curso e os seus impactos. Não podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção. Algo só possível, também, com maior informação da ciência, incluindo ciência psicológica, a este desenho para uma mais decisiva e eficaz resposta aos anseios e expectativas das pessoas e aos desafios da sociedade.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, cada segundo conta. Verdadeiramente. Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é fundamental reconheceremos, validarmos e respeitarmos as necessidades das outras e dos outros. A ciência, incluindo a ciência psicológica pode ajudar a lembrá-lo, a cada dia. Pode ajudar a fazer deste valor e do valor maior da equidade e dos Direitos Humanos para todas e todos, valores centrais na política pública, na vida das pessoas, na nossa sociedade. Hoje e amanhã.

 

 

Tiago Pereira

A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

in Sábado (Ao redor…); 15.08.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-politica-e-os-determinantes-sociais-da-saude-mental

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A política e os determinantes sociais da saúde (mental)

“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”

Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.

“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.

Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.

Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.

Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.

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Decidir hoje, decidir amanhã (Ao redor…; 31.07.2024)

Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Tomamos decisões de forma mais intuitiva ou deliberativa que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida. Podem alterar a nossa vida porque são fundamentais nas nossas relações, realizações, qualidade de vida, saúde e bem-estar. A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

Hoje, mercê algumas décadas de enorme crescimento quantitativo e qualitativo da investigação nestas áreas, temos uma maior consolidação conceptual e uma definição da tomada de decisão relativamente estável e clara que, a partir da psicologia, remete, no geral, para o processo cognitivo de escolha entre duas ou mais alternativas. Apesar da definição ser estável e clara, ao remeter para um “processo cognitivo”, aponta para um fenómeno não baseado apenas em dimensões racionais e observáveis, mas incluindo também dimensões emocionais e intuitivas. A definição contém e acrescenta, portanto, a subjectividade, a história e experiência e a necessidade de contextualização à compreensão e à análise dos processos de tomada de decisão.

Neste sentido, a nossa capacidade de decidir decorre e é influenciada por características, capacidades e competências “internas” de cada pessoa. Mas decorre, também, das expectativas, necessidades e circunstâncias da pessoa, no momento específico da decisão, e de um sem número de outros elementos externos. A conjugação de todas estas dimensões traz complexidade e diversidade a este processo e determina a facilidade, a forma como tomamos decisões e a qualidade da nossa tomada de decisão.

As significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão. Transformações estas com tendência incremental, quando não exponencial, e que, por isso, devemos considerar puderem assumir-se como potencialmente disruptivas para estes processos nos próximas anos e décadas. Estas mudanças, muito alavancadas nos processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades. Pensemos, por exemplo, na forma como a cada vez maior delegação de tarefas de apoio à decisão ou mesmo decisões à inteligência artificial – da rota para o trabalho ou escolha de um alojamento hoje para algo amanhã que talvez nem consigamos ainda imaginar – transformará a sociedade, as relações, a comunicação ou a educação. E, se estas alterações nos podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes, pensemos o quão relevante será um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir, exactamente, das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.

Acresce que as decisões dependem, também e necessariamente, das condições e das competências cognitivas e emocionais das pessoas envolvidas, nomeadamente ao nível da autorregulação e da empatia, fundamentais no processo de tomada de decisão e sucessiva passagem a comportamento(s). Sabemos hoje, com maior acuidade, como determinadas emoções (o medo ou a compaixão, para dar apenas dois exemplos) influenciam os comportamentos, o que, por sua vez, justifica cuidados e deveres éticos adicionais na utilização destas emoções com vista ao estímulo a determinados comportamentos individuais e de grupos. Consideremos, também, a forma como obectivos últimos podem ser prosseguidos, também mercê o sofrimento e mal-estar que podem provocar, bem como a eventual naturalização ou banalização de determinados comportamentos. É, portanto, fundamental atender às condições em que se apela a determinadas emoções, da comunicação social à comunicação política, passando naturalmente pela comunicação comercial ou de marketing de determinados produtos ou grupos e pela forma como questões éticas e de valores são para isso relevantes.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, creio que todos concordaremos que nunca, como hoje, tivemos acesso a tanta informação, conhecimento e evidência científica. Sabemos, porém, que tal como o ser humano se sente limitado quando se reconhece sem opções ou submetido apenas a uma via de acção, também sente outro tipo de limitações ou constrangimentos quando dispõe de mais ampla liberdade e múltiplas opções. Referimo-nos a limitações de ordem racional, de ordem emocional, limitações relacionadas com dimensões internas a cada um, outras com dimensões externas, limitações de foro mais individual e de foro mais social ou de grupo. Sabemos, ainda, quão relevante é o processo de tomada de decisão e como é complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos. Se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também este processo, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.

Ps. Texto adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (Edições 70), com coordenação de Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou, publicado em Junho de 2024.

 

Tiago Pereira

Decidir hoje, decidir amanhã

in Sábado (Ao redor…); 31.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/decidir-hoje-decidir-amanha

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Decidir hoje, decidir amanhã

“Conforme respiramos constantemente, quando activos e de forma muitas vezes não consciente, a cada fracção de momento das nossas vidas, salvo em situações excepcionais, tomamos decisões que determinam o nosso comportamento e que se relacionam com os nossos pensamentos e crenças e com as nossas emoções. Decisões que nos impactam, que, invariavelmente, impactam quem e o que nos rodeia e que, quando têm maior importância, são capazes de “mudar” a nossa vida (…) A capacidade e a possibilidade de tomar boas decisões é, nesse sentido, fulcral para a possibilidade de autodeterminação de cada pessoa.

“Decidir hoje, decidir amanhã”, 88º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a investigação e caminho percorrido relativamente ao processo cognitivo de tomada de decisão, processo que inclui não apenas “dimensões racionais e observáveis, mas também emocionais e intuitivas.”

Pensa como “as significativas alterações aos nossos contextos e modo de vida estão, rápida e decisivamente, a determinar transformações nas pessoas, algumas estruturais, desde logo nas suas funções e capacidades cognitivas e no seu comportamento, transformações que impactam os processos de tomada de decisão”. Como os “processos de desenvolvimento tecnológico em curso, nomeadamente os avanços na inteligência artificial generativa, realidade aumentada e virtual, internet das coisas, big data ou robótica, estão a mudar e mudarão significativamente elementos-chave actuais dos processos de tomada de decisão individual e colectiva, bem como tenderão a questionar valores éticos, base das sociedades.”

Partindo do exemplo do que hoje delegamos e do que poderemos ou não vir a delegar das nossas decisões à inteligência artificial, procura sublinhar que “se estas alterações podem permitir processos de tomada de decisão mais eficientes e eficazes” será essencial “um caminho de complementaridade e alinhamento entre seres humanos e tecnologia face aos processos de tomada de decisão, a partir das justas preocupações sobre a equidade, não enviesamento dos algoritmos, valores éticos e dos direitos humanos.”

Termina afirmando que sendo o processo de tomada de decisão “complexo, multideterminado e triangulado, num determinado tempo e contexto, entre factores cognitivos, emocionais e princípios éticos”, se não tivermos estes aspectos presentes, e, portanto, não participarmos e influenciarmos também os desenvolvimentos em curso, não alcançaremos a capacitação de pessoas e da sociedade, o que constituirá um erro de consequências potencialmente gravosas para a equidade e coesão social e, logo, para a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas.”

Ps. Este texto é adaptado a partir do capítulo “A Psicologia nos processos de tomada de decisão: das razões e das emoções” por mim escrito, parte do livro “Ética Aplicada: Psicologia” (2024; Edições 70), coordenado por Maria do Céu Patrão Neves e Miguel Ricou.

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal (Ao redor…; 17.07.2024)

“A mensagem principal é dizer aos jovens que vale a pena viver em Portugal (…) Precisamos dos jovens portugueses em Portugal, para termos todos mais futuro”. Estávamos em Maio e foi com estas palavras que Luís Montenegro apresentou e enquadrou as decisões de um Conselho de Ministros voltado para a população mais jovem. Um conjunto de medidas em áreas diversas como a habitação, a fiscalidade, a saúde (com destaque para a saúde mental) ou o alojamento e bolsas de estudo para estudantes. Tudo propostas que, concordando-se mais ou menos, particularmente no detalhe, focam áreas-chave do desafio que se coloca ao nosso (mas não apenas ao nosso) país. Tudo propostas que, creio, serão potencialmente mais eficazes e eficientes se acompanhadas por uma mudança nas organizações, públicas e privadas, no sentido de um maior envolvimento e vinculação da população mais jovem, mudança este que poderia ser impulsionada a partir de estímulos concretos ao reforço dos princípios de equidade, diversidade e inclusão nas organizações.

Se olharmos ao nosso redor podemos ver e perceber. Temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar. Mercê alterações societais, algumas muito influenciadas pelas novas tecnologias, temos também hoje um desfasamento significativo entre gerações e, por vezes, maior dificuldade nos diálogos e na compreensão intergeracional. Temos, por outro lado, uma inversão relevante da pirâmide etária e, por isso, cada vez mais pessoas com maior capacidade e, algumas, com vontade e intenção de trabalhar mais anos e de manter posições de decisão e responsabilidade nas organizações.

Dizia que a população mais jovem prioriza o propósito na vida e no trabalho e o bem-estar. Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer, por isso, fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações. Quer, mas, invariavelmente, não consegue. Não acede, não participa de forma abrangente e generalizada.

Neste contexto e com este enquadramento, penso fundamental que as organizações tenham presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais na sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar, também, no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, de culturas, de géneros, de gostos, de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos. Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.

Várias organizações têm nos últimos anos assumido este ou referenciais próximos, cuja evidência científica tem demonstrado serem relevantes quer relativamente aos processos internos, quer na melhor resposta das organizações às necessidades das pessoas que servem e da sociedade em que operam. Das melhorias no clima organizacional, na flexibilidade, na inovação e criatividade, ao aumento da segurança psicológica e redução de conflitos, passando, necessariamente, pela maior responsividade às necessidades de clientes e maior capacidade de adaptação a mudanças de contexto e na sociedade, são inúmeros, amplos e significativos os impactos potenciais do reforço destes referenciais e vão muito além do importante papel de responsabilidade social para que concorrem.

“Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava o referencial Equidade-Diversidade-Inclusão como um dos pilares fundamentais em todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, mais equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, os desafios do envolvimento da população mais jovem nas organizações implicarão mudanças, progressivas e participadas, nas próprias organizações. É por isso relevante que programas que visem a vinculação das e dos mais jovens jovem ao país visem medidas junto da população mais jovem, mas, complementarmente, estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações. Um caminho que deve ser desejado e acarinhado pela própria sociedade civil e que pode, positivamente, apoiar a inovação, a transformação, o desenvolvimento e a sustentabilidade das organizações e da sociedade.

 

 

Tiago Pereira

Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

in Sábado (Ao redor…); 17.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/mudar-para-envolver-e-vincular—as-organizacoes-e-os-jovens-em-portugal

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Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal

Equidade–Diversidade–Inclusão. “Não apenas é fazermos o que é correcto, é fazermos o que é mais inteligente”, ouvi há anos um CEO referir quando apresentava este referencial como um dos pilares fundamentais de todas as decisões estratégicas da sua organização. Acrescento, não apenas é fazermos o correcto e mais inteligente nas organizações como, ao fazê-lo, estaremos certamente a contribuir para uma sociedade que vive melhor a sua diversidade, logo mais inclusiva, equitativa e com maior possibilidade de bem-estar e de futuro para todas as pessoas, incluindo a sua população mais jovem.”

“Mudar para envolver e vincular – As organizações e os jovens em Portugal”, 87º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) reflecte sobre a importância de “programas que visem a vinculação das e dos mais jovens ao país” conterem, além de medidas junto da população mais jovem, “estímulos concretos e decisivos que apontem a um caminho de maior diversidade, equidade e inclusão nas organizações”.

Porquê, podem perguntar-se… Porque “temos, hoje, em Portugal, uma população jovem, não apenas com mais e mais especializada formação, mas mais diversa, fruto do aumento da mobilidade global e de um certo tipo de migração nos últimos anos. Uma população jovem, empoderada, que prioriza o propósito na vida e no trabalho, que se orienta por valores, pela procura de equilíbrio entre vida profissional e pessoal e pela promoção do bem-estar (…) Fá-lo, no presente, mas considerando sempre o futuro e, particularmente, fazendo-o a partir da criação de um caminho, de uma perspectiva. Procura, portanto, previsibilidade e segurança em tempos de incerteza e de maior volatilidade. Procura algum controlo que pode resultar, também, da agência que sente na construção desse caminho e no desejo de ser parte activa e considerada. A população jovem quer fazer e ser parte dos processos, da política às instituições da sociedade civil, passando, necessariamente, pelas organizações.”

No artigo procuro, como este contexto, sublinhar o quão fundamental pode ser as “organizações terem presente referenciais que assumam os valores da equidade, da diversidade e da inclusão como centrais à sua estratégia. Valores capazes de influenciarem a cultura da organização no sentido da maior diversificação das suas pessoas e das pessoas envolvidas nos processos de gestão e tomadas de decisão estratégicas. De influenciar no sentido de serem mais inclusivas na diversidade de experiências e proveniências, incluindo académicas/formativas, de capacidades, culturas, géneros, gostos e de idades. De garantir maior equidade, a partir de oportunidades para todas e todos.”

“Tudo no sentido de que mais pessoas, e mais pessoas mais jovens, sintam espaço de envolvimento, de segurança e de participação nos processos de decisão e condução das organizações, vinculando-se e contribuindo para o seu desenvolvimento, sustentabilidade e futuro. Seu, da sua organização, do país e do Mundo, num quadro de valores e propósito.”

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Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação (Ao redor…; 02.07.2024)

Lisboa, 14 de Maio de 2024: O governo português, reunido em Conselho de Ministros, aprova uma resolução que determina “o desenvolvimento de um novo aeroporto internacional de Lisboa, com a designação de Aeroporto Luís de Camões, localizado no Campo de Tiro de Alcochete”. Copenhaga, 14 de Maio de 2024: Ursula von der Leyen, numa intervenção no Congresso da Democracia de Copenhaga, defende que a “Europa tem de lutar pelos seus valores e pelas suas democracias sob pena de serem pirateadas por autoritarismos que procuram corroer e erodir tudo o que se construiu nos últimos 70 anos”.

Estávamos em 1969 quando se iniciou em Portugal o debate sobre a relocalização do Aeroporto da Portela. Processo cuja concretização da resolução acima referida pode concluir, mais de 60 anos depois e após múltiplas e diversas decisões e possibilidades de relocalização. Vivia-se, em 1969, tal como se vivia em Espanha, numa das últimas ditaduras que resistiam enquanto ditadura na Europa do pós II Guerra Mundial e seria certamente inimaginável que esta decisão pudesse demorar 60 anos a ser concretizada. Um inimaginável que, dia-a-dia, pelos avanços e recuos nas decisões e não-concretizações, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “novo aeroporto” e que fez com que, necessariamente, desviássemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos.

Não precisamos de recuar tantas décadas para considerarmos inimaginável o momento que vivemos na Europa. Momento que, conforme von der Leyen bem refere, se caracteriza por um forte questionamento dos valores da União Europeia e das suas Democracias. Um pouco como observamos com a ascensão de populismos e políticas iliberais Mundo fora – com o exemplo dos EUA e dos estados tradicionalmente autoritários sempre presente – parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “populista” e fez com que, necessariamente, desviemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos. Fez, portanto, com que o efeito de sobressalto colectivo de grande parte da sociedade, sentido aquando da passagem de Jean Marie Le Pen à segunda volta das presidências de 2002 de França, tenda a não se repetir hoje a caminho de uma segunda volta das Legislativas de 2024, onde o partido herdeiro das suas ideias – o Rassemblement National – poderá garantir uma vitória.

Com que naturalizássemos, também, a mentira em política. Com que naturalizássemos que, pese embora um desempenho confrangedor de Biden, seja possível, hoje, considerar-se que o primeiro debate das presidenciais de 2024 dos EUA foi vencido por um político como Trump, cujo valor da verdade e dos factos não reconhece ou respeita e que, por isso, normalmente (como foi o caso) não cumpre regras mínimas para debater em democracia, logo, para vencer qualquer debate democrático.

Aqui chegados, reconhecendo-se este caminho e história, sabendo-se os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar, particularmente de pessoas em situação de vulnerabilidade, e compreendendo-se o comportamento humano e como decorrem os processos descritos, importa desenvolver estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos.

Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e de compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática em todas as idades. Promover o diálogo, também, entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes e pontos de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e do sentido de representatividade.

Tudo isto. Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade. Conforme o Fórum Económico Mundial – que considera a má informação e a desinformação o risco global mais severo no curto prazo – von der Leyen, no mesmo discurso que atrás referi, deu-nos um importante exemplo do que podemos e devemos fazer quando refere que “é essencial que as pessoas saibam qual é a influência da má informação e da desinformação e quais são as técnicas por detrás delas, pois à medida que o conhecimento aumenta, as hipóteses de sermos influenciadas/os diminuem, e isso fortalece a resiliência da sociedade”. Disse-o para depois defender que, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Dito de outra forma, é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço. A este propósito, e caso tenham interesse, aconselho os trabalhos do psicólogo Sander van der Linden e das equipas com quem tem trabalhado no desenvolvimento de recursos e jogos pedagógicos de combate à desinformação e aos seus impactos negativos nas pessoas e sociedade, como é o caso do “Bad News Game”, com evidência científica promissora.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas. Enfrentar o desafio do populismo exige proactividade e uma actuação multifacetada, que considere o tempo presente, mas pense também a história e os seus exemplos e pense o futuro e a forma como, numa perspectiva de legado, podemos contribuir para um país e um Mundo de Direitos e com maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas no futuro.

 

Tiago Pereira

Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

in Sábado (Ao redor…); 02.07.2024

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Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

“…parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade (…) Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos.”

“Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação”, 86º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado; link abaixo) reflecte sobre como naturalizamos situações (da não concretização da relocalização do Aeroporto da Portela/Humberto Delgado, à ascensão de discursos/partidos populistas na Europa). Reflecte, também, no quão significativos são “os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar” para apelar ao desenvolvimento de “estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos”.

“Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática. Promover o diálogo entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e representatividade.”

“Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade.” Por exemplo, conforme von der Leyen recentemente afirmou, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Ou seja “é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço.”

“…não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas.”